sábado, 31 de dezembro de 2011

2011


2011 foi um ano muito difícil, tramado pela crise, pela chegada da Troika e pelos últimos actos deste governo assustadoramente mau. No resto houve catástrofes como todos os anos. O Facebook continuou a sua cavalgada até onde não se sabe onde.  Infelizmente o Porto foi campeão, o Barça também, o Man United também, o AC Milan também; o Corinthians, vá-lá, ganhou no Brasil, se bem que eu quisesse que ganhasse o Fluminense ou o Vasco, o River Plate desceu de divisão na Argentina. O Sporting parece que se salvou da depressão em que andava metido e deixou-me finalmente entusiasmado como não me sentia desde que o Peseiro me meteu sonhos à frente dos olhos para os esfarelar logo a seguir. 
Morreram heróis como Sidney Lumet, Sócrates, Peter Falk, Steve Jobs, Christopher Hitchens e Vaclav Havel. Há esta novidade do cancro nos presidentes dos países da América do Sul, e se as detestáveis teorias da conspiração não merecem aqui alguma legitimação, também não sei onde a poderão merecer. 

Em termos de leituras, 2011 foi um ano de descobertas, algumas tardias e de palmatória: Machado de Assis ("Memórias Póstumas de Brás Cubas" e "Dom Casmurro"), Herman Melville ("Moby Dick" e "Bartleby"), José Rentes de Carvalho ("La Coca"), Martin Amis ("Money" e "Koba, The Dread"), Knut Hamsun ("Fome") e Michel Houellebecq ("A Possibilidade de uma Ilha"). Acabo o ano com um dos meus escritores preferidos, Saul Bellow e "As Aventuras de Augie March", que tanto promete

No cinema vi muito poucos filmes para andar a fazer balanços, mas posso dizer que foi um ano raro. Voltei finalmente a ver um Monte Hellman - do qual "Two Lane Blacktop" há uns anos na Cinemateca se tornou dos filmes da minha vida. Voltei a ver um Terrence Malick, só uma vez, o que se calhar é insuficiente para um filme com a complexidade de "The Tree of Life". Gostei do "Carlos" de Olivier Assayas e vi um dos melhores filmes dos últimos anos - "Sangue do Meu Sangue" de João Canijo. O ultimo do Cronenberg foi uma decepção, comparado com os filmes anteriores; o ultimo Almodóvar reza que sim, mas não vi nem vou ver; devia ter visto o ultimo Woody Allen, mas agora só em vídeo. Nanni Moretti entrará no meu 2012.

2011 fica-me ainda na memória como o ano em que descobri "The Wire". Não faço comparações com "The Sopranos", "Mad Men" ou o "The Office" inglês, só para falar nas séries preferidas, mas nenhuma me bateu forte como esta. Em televisão nunca tinha visto nada assim, que conseguisse sequer ao de leve retratar a realidade - nos seus desequilíbrios e ambiguidades - de uma forma tão realista, estruturada e credível. Deixando no fim um sentimento de ausência, de saudades daquelas "pessoas". Nisso sinto-me com sorte, ainda me faltam ver a 4ª e 5ª séries. 

Agora vem um 2012 cheio de perigos, social, financeira, económica, política e moralmente falando. Ainda assim, há muita vida além da merda que nos trazem validada. Ando estranhamente optimista para 2012, um optimismo pouco racional, muito moderado, muito temperado, muito fraquinho, o meu optimismo.


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Bacalhau com batatas



São livros estáticos, com diálogos em que se repete mil vezes a mesma ideia, se repisa uma questão como fazem os bêbedos. Entretanto, qualquer coisa como uma neblina se vai erguendo da monotonia. E aí atinge-se o que Pessoa visava quando do "sino" da sua "aldeia" dizia que a "primeira pancada" tinha o som de "repetida". É o efeito longínquo da dolência, da balada. Em todo o caso, a neblina leva tempo a erguer-se. Definitivamente, Hemingway era bastante ignorante e de inteligência escassa. Os seus livros só podem agradar inteiramente aos que em cultura e inteligência nos estão aquém ou muito além da média. Estes últimos gostam, como o ricaço gourmet gostava de um prato de bacalhau com batatas. Por desfastio. 

Vergílio Ferreira, Conta-Corrente 1Livraria Bertrand, 1980, p. 289.

Sempre achei Hemingway um chato, e tenho os romances quase todos dele, que me ficaram do meu avô. Dei uma oportunidade a cada um, até mais do que uma, larguei-os a todos. São a meu ver romances frágeis, deslumbram-se demasiado consigo próprios, com tanta graciosidade, engenho, talento e virtuosismo, falta-lhes vigor, verdade, vida, osso e músculo - o que é curioso numa figura como Ernest Hemingway, homem de experiências e virilidades. 
Com efeito, os contos que conheço de Hemingway são excelentes. Ali onde tudo se joga no poder de síntese e não é dado espaço a "poses", leio um escritor mais a sério, a valer, dos muito bons. Por exemplo, no assombroso "Os Assassinos" ("The Killers" no original), a tal neblina fica no final aberto a pender para o trágico - é uma neblina mistério, que nos deixa intrigados sem que nos apeteça passar ao conto seguinte. Nos romances, a neblina é outra, chata como a potassa. Mas ah e tal, faz parte do cânone...
Obrigado Vergílio Ferreira, ao menos sei que o problema não é só meu.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Casos

Meteu na cabeça, tem de ter razão. Nunca dar o braço a torcer. Ponto de partida e chegada porque sim, arma-se em combates de semântica, muitas vezes sob pontos de vista estapafúrdios e argumentos indefensáveis que quando expostos à sua fraqueza derrotada defendem-se em enérgicos desvios de conversa e projecções de sacos de areia para os olhos num eficaz, rápido, enérgico e furioso instinto indefensável. Querer é poder. Vem daí o aprendizado da finta, da dissimulação e em ultima instância do instinto detonador da falsidade que do tão grande desígnio do eu eu mais eu, como que se impera no seu domínio. Isso é a tua opinião, atira, e a armada da semântica ganha outro fôlego. É quando eu largo e desisto - penso em respirar. Toma lá a espada, é de latão. 

заботиться





sábado, 24 de dezembro de 2011

Natal


Não sou pró nem anti-Natal. O Natal é bom se juntar as pessoas em bom espírito, comunhão, afecto e conversa, se houver crianças a vibrarem como eu vibrava, melhor ainda; se os abandonados à miséria, ou os sem abrigo sentirem algum calor humano e companhia melhor ainda...
O Natal é mau se – como é muito habitual – der azo a todo o género de hipocrisias de gente - familiares, conhecidos, colegas de trabalho - que não se grama nem tolera; ou se se servir de um consumismo desenfreado e exibicionismo parolo. Porque cansativo é sempre, não conheço ninguém a quem as maratonas de Natal não sejam cansativas. Se o cansaço é do bom e salutar isso já são outros quinhentos.

Eu vou passar o Natal em família, comer e beber bem. Desejo um feliz Natal a todos menos aqueles a quem não o desejo de todo, infelizmente não são poucos. 
Claro que o Natal é quando o homem quiser, mas a mim nada bate um bom de dia de praia na Costa Vincentina. Isso é que era um presente: toma lá um grande dia de praia. 


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Bios



Deitei-lhes hoje uma vista de olhos e parecem-me imbatíveis. Como não sou grande adepto de biografias e biopics, a crítica 5 estrelas de Mário Lopes no Público à auto-biografia de Keith Richards, de fazer fazer crescer água na boca, ou os eloquentes elogios de MEC à biografia de Luiz Pacheco por João Pedro George, nunca seriam por si só suficientes. Sempre são quase 50€, tenho em casa uma extensa fila de espera, há os livros que quero comprar, os autores que quero conhecer, sou pobre. Mas ter-lhes posto a mão em cima e lido dois ou três parágrafos de cada um vai agora obrigar-me a ler tudo o resto dos dois. Provei do veneno. Foi fatal. Já não tenho hipóteses.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Teorias


"Teorias" de manuel a. domingos tem poemas que gosto muito, outros nem tanto, é curto e breve e no final fica-se com vontade de prolongar o prazer. Sabe a muito sabendo a pouco. Destaco o efeito da ironia, o inusitado, a escrita seca, afiada, a espontaneidade, o ritmo fluído. 
Edição de autor, limitada a 100 exemplares, "Teorias" pode ser adquirido aqui. Abaixo fica um dos meus poemas eleitos.

Os meus fantasmas

Uma caneta
que não escreve
no momento
que o poema 
aperta

Cães a ladrar
para espantar a noite
que aperta contra 
a caneta

que não escreve

na noite 
onde cães ladram
para espantar
a caneta
que não escreve
o poema

que aperta
que me aperta

E a caneta
que não escreve
E os cães a ladrar
para espantar
a noite
para espantar 
a caneta que mesmo

assim não escreve
o poema 
que aperta


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Ossos

Tenho um problema num joelho a que nunca liguei nenhuma até há exactamente uma semana. Foram dias de dores altas, daquelas de ganir, daquelas que nos fazem rebolar como um jogador de futebol que tivesse levado uma valente cacetada. Ai o raio das dores. Aquilo sim é um aqui agora a que é impossível escapar, um não sais daqui, um agora é isto, aguenta-te e respira fundo. A melhor forma que tenho para descrever o pior daquilo é qualquer coisa como câimbras dormentes múltiplas, como se tivessem sido postas num pedal delay. Quando o tormento acalmava iniciava-se a alternância: dói aqui, dói ali, estala acoli, arde mais acima, pica mais abaixo, marioneta de cartilagens, articulações e tendões, fiquei logo a saber da pior forma como a dor num músculo da perna esquerda nos impossibilita de subir a cabeça na almofada da cama para sequer conseguir ler, que estar sentado é só durante pouco tempo e virado para a frente...Mesmo depois do hospital, mesmo depois das dosagens generosas de analgésicos e anti-inflamatórios. 
Os nervos também iam na enxurrada, inflamavam-se, caídos na armadilha do desgaste, caceteiro, mordendo o juízo, quebrando o sono a menos de duas horas seguidas, queimando todas as reservas de paciência. Que fazer? A solução só ocorreu a um médico grande amigo da família: talvez um calmante. Acertou. 
Foi tiro e queda, o arsenal de injecções, anti-inflamatórios e analgésicos teve finalmente a permissão para entrar em combate e foi como se o cavalo já estivesse dentro das muralhas de Tróia. Dormi a primeira noite da semana - a de Quinta para Sexta-feira. Quando acordei foi como um milagre erguer-me da cama sem ser preciso aplicar técnicas rotativas de jujitsu brasileiro para evitar as tais câimbras em pedal de delay. E conseguir pôr o pé no chão sem dores. E dormir mais ainda, de sol a sol. E depois noite adentro. E acordar ressuscitado. 


Só Sábado li os primeiros blogues da semana. Soube das péssimas noticias: morreu Christopher Hitchens, morreu Cesária Évora. Ontem morreu Václav Hável. Fiquei a pensar no aforismo "do que não me mata torna-me mais forte". Mas hoje morreu Kim Jong Hill, um assassino totalitário execrável demente filho da puta, ainda assim pronto a ser erguido à figura de deus daqueles milhões que tiveram o azar de nascer ali. Como quereriam ao menos ter um imbecil primeiro-ministro que sugerisse que emigrassem...

domingo, 11 de dezembro de 2011

103


Não resisto, há três anos que marco o ponto neste dia. Com a certeza de que vamos continuar a ter Cinema de Manoel de Oliveira. Filmes bons, outros não tão bons, uns se calhar sublimes, outros se calhar chatíssimos, mas todos a terem de ser tidos em conta. Clint Eastwood disse há pouco tempo que lhe quer seguir o exemplo. Há melhor exemplo?

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Haja saúde

Campo de Ourique, você é de Campo de Ourique? Sou. Tive lá um restaurante, muitos anos. Estou a reconhecê-lo, respondi. Campo de Ourique já não é o que era, antigamente era muito melhor. Anuí e reforcei: agora quando se diz que se é de Campo de Ourique soa logo a coisa bem. E enquanto eu pensava em tias a apinhar cafés, ele continuou a repetir, antigamente era muito melhor...
O taxímetro já ia em mais de sete euros mas ninguém se arrepende disso quando tem um joelho desfeito. E quem diria que passados uns 15 anos apanharia num taxi o dono daquele restaurante ao Jardim da Parada. Junto ao clube dos que largaram o café, dos engenheiros desempregados aos 50, dos reformados à mingua, dos antigos trabalhadores da Lisnave, e mais umas quantas histórias complicadas.
No Marquês retoma a conversa, eu agora daqui a 4 anos reformo-me e vou seis meses para o Brasil, não faço mais nada, só praia. Pois faz muito bem. Faço muito bem? Olhe meu amigo, eu trabalho desde 1964...Silêncio, rotunda percorrida e logo subimos a Bramcaamp, viro a cara para o prédio de José Sócrates, mas foi de Passos Coelho que ele falou. Com alguma distância, que quatro anos passam num instante. Foi rápido até me largar. Quanto é? Nove euros. Então faça 10. Muito obrigado, juntou a nota numa caixa e daí se virou, simpático e ternamente enrugado - olhe, muita saúde, o que é preciso na vida é ter saúde, o resto...Eu não peço mais nada na vida a não ser saúde. Não, engano-me, há mais uma coisa que peço...Calou-se para eu perguntar o que era. E respondeu: mulheres, mulheres, com isso...Com mulheres e com saúde eu vou a todo o lado...Saúde, mulheres e não peço mais nada. Era agora outro homem por trás do bigode. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Sangue do Meu Sangue



Numa guerra sem quartel ao cliché, "Sangue do Meu Sangue" de João Canijo é um filme sobre o amor incondicional no seio duma família. Partindo dessa premissa, partilha da sua força, pathos e sentimento.
Truffaut dizia que se consegue ver numa tela de cinema todo o trabalho dum filme desde o primeiro momento, que está tudo lá, escarrapachado para quem o conseguir ver. Em "Sangue do Meu Sangue" consegue-se perceber em toda aquela densidade o trabalho aturado, a dedicação incondicional, a direcção de actores, a forma como estes emergiram nos seus papeis, o absoluto sentido do pormenor. Numa estrutura que não parecendo é absolutamente linear na sua concepção de tragédia grega. O que nos ilude e ao mesmo tempo nos emerge no filme é essa unidade suprema a que chamamos de cena, aqui tratada em todas as suas implicações, remetendo-nos um pouco ao cinema comportamental de John Cassavetes e ao realismo social de Mike Leigh. Há momentos em que podemos pensar que se está a ultrapassar a fronteira, a ir longe demais. Percebe-se mais tarde que se foi até onde tinha de ir e ponto final. Mais nos surpreendemos ainda com a forma como tudo se acaba por encaixar no corpo do filme, que afinal nunca sai do seu caminho, ainda que se perca nos seus meandros.
Filme de actores, onde praticamente todas as interpretações são sublimes - com destaque maior para a grande actriz que é Rita Blanco; Anabela Moreira não lhe ficará muito atrás, também gosto muito de Cleia Almeida, de Rafael Morais, de Nuno Lopes, enfim, de todos, cada um há sua maneira a marcar o filme aqui e ali em momentos - cálculo - de elevadíssimo grau de entrega e dificuldade, ilustrados e bem no documentário "Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor". 
"Sangue do Meu Sangue" é uma obra-prima, de longe o melhor filme que vi em 2011 e seguramente dos melhores que vi em anos. Quem embarca nos peditórios habituais que desqualificam o cinema português não tem bem ideia do que perde. 


Adenda: Fui ver a versão longa do filme, leva mais de três horas que mais parecem hora e meia. Não consigo conceber versão mais curta. Se o filme fosse de 6 horas, provavelmente pensaria o mesmo. 



domingo, 4 de dezembro de 2011

Sócrates (1954-2011)


Sócrates era com Zico o mais carismático daquela mítica selecção que encheu a tantos as medidas para o resto da vída. Com Falcão, Júnior, Éder, Toninho Cerezo, Luisinho, ali até o frangueiro Valdir Peres tinha a sua aura. Sócrates era o mais único deles todos. Ele era o diferente, o médico doutor, o democrata activista contra a ditadura, o instigador e líder da Democracia Corinthiana. Não sei se foi por isso que via os meus pais e amigos a gostarem mais dele que dos outros, o que interessa é que aprendi bem cedo a respeitá-lo. Até sempre, super-craque. 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Passo


David Cronenberg disse que uma das motivações para "Dangerous Method" foi trazer de volta à vida Freud e Jung. Se o objecto foi a curiosidade, pois muito bem, Freud (Viggo Mortensen nunca nos deixa ficar mal) está excelente, Jung (Michael Fassbender) não destoa, a fotografia é soberba, os diálogos espirituosos, o décor lindíssimo, falta o resto: "Dangerous Method" é um filme sem rasgo nem força que o sustente. 
Com uma Keira Knightley sempre em esforço – nos momentos de histeria então tem a convicção de Catarina Furtado – e uma trama  incapaz de se fazer valer que não em truques de marca, "Dangerous Method" choca um pouco com a realidade, que implacável nos mostra que neste momento há muito melhor cinema em cartaz.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Um espelho cá fora


Ontem tive um daqueles longos sonhos inquietantes. Era Verão, a praia uma maravilha, sentia-me na Zambujeira mas mais parecia Porto Côvo - eu que "sou" de Vila Nova de Milfontes - quando subitamente um avião aproximou-se em queda livre e miraculosamente conseguiu amarar. Foi um tremendo alivio que logo foi desaparecendo ao reparar que todos continuavam na sua a gozar a bela da praia. Nem o nadador salvador se incomodou. Tive de sair dali afim de pedir socorro (no sonho não deviam haver telemóveis). Era na Costa da Caparica e nenhum telefone funcionava. Houve então quem me surgisse a acudir: "compreendo, mas agora já não vale a pena. Já se afogou tudo de certeza”. Aí acordei. Lixado com a cama em que me deitava.  

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Unending Ascent



An Ending (Ascent), do album Apollo: Atmospheres & Soundtracks de Brian Eno é dos sons mais estranhos e belos que se podem ouvir. Tendo algo de etéreo, ao mesmo tempo terreno e cósmico, com uma aura única de indecifrável mistério. A admiração e comoção que causa vê-se quantidade de vídeos e comentários no You Tube e não têm rival à altura – eu nunca vi – ainda para mais num artista desconhecido das grandes massas. 
A primeira versão que me foi dada a ver já lá não está talvez por ser feito de campas e cemitérios reflectindo talvez demasiado o lado post mortem de An Ending (Ascent). Eu pelo contrário acho que é música sobre a vida. Claro que há gostos com versões para tudo. Na Lua, na Lua com a sonda Apollo, no mar ao pôr do sol, em imagens da NASA, em simulacros chill-out, na simetria do espelho, no Afeganistão, na floresta, à beira estrada, à beira neve, à beira rio, ao mar, a navegar, em arquitecturas, nas nuvenschorai arcadas do violoncelo, em fotos editadas a gosto, no trânsito a cores, no trânsito e preto e branco, a la National Geographic, em remixes, em esquisitices, no cinema, em mais cinema, em desenho, com a Terra de perfíl, também assim, em modo trance, num sujeito que descobriu como se faz no sintetizador e claro que capa do albúm. Mas há mais, muitas mais, e vão continuar a aparecer mais.




Adenda: no vídeo acima vê-se parte da Península Ibérica e entrada do mediterrâneo, consegue-se ver o Algarve e a toda a costa alentejana. Parece o Estuário do Tejo em ponto gigante. 

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Carlos


A partir da vida imaginada do mais famoso terrorista das décadas de 70/80, Carlos de Olivier Assayas procura dar-nos a noção dos vários tempos, modos e espaços, mesclados com a crueza e a urgência da acção letal. Somos transportados em países, cidades, ambientes e pessoas, pontos de passagem de um terrorismo a larga escala secundado por aeroportos, alfandegas, hotéis, campos de treino ou esconderijos, tudo locais onde as línguas faladas se misturam como produtos dum mesmo mercado. A escolha do actor Edgar Martinez encaixa aqui que nem uma luva – também ele é venezuelano, também ele teve um percurso de vida que o pôs a falar fluentemente várias línguas, cinco: espanhol, francês, inglês, alemão e italiano. 
O real e verdadeiro Carlos, o Chacal, de nome Ilich Ramírez Sánchez, a cumprir pena de prisão perpétua em França, já veio dizer que o filme é uma "manipulação, uma mentira voluntária". Mas não será essa mesma a forma mais correcta de recriar uma vida que trabalhou o seu mito também em manipulações e mentiras voluntárias? Onde uns o apontam como um combatente revolucionário e outros como um terrorista sanguinário. Como poderemos nós alguma vez ter toda a certeza? Fiquemos pelos sonhos, vencidos, e pelo irremediável, padrinho da incerteza e do desconhecimento. E pelo filme, que é muito bom.


sábado, 19 de novembro de 2011

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Notas de um Facebook (II)



Tirando alguns amigos que perdi o rasto, o meu Facebook é mais sobre quem não conheço pessoalmente que outra coisa. Sigo gente que admiro, estimo e com quem aprendo e o feed de notícias tomo como uma espécie exótica de Google Reader. A ideia em si de uma pessoa instalar-se num computador e dar de bandeja o seu tempo livre a não fazer mais que continuar a conversa lá de fora é algo que me transcende, mais a mais porque a conversa é sempre a mesma e as excepções não vão parar ao Facebook. Depois ainda há os "amigos" da vidinha - escola, emprego, cercanias, arredores – que nos custaram ter de aturar no dia a dia e anos depois aparecem ali a luzir num pedido de amizade pendente. Queres ser meu amigo? Outra vez? 

O que me anima ainda são os lembretes non sense. Ver por exemplo fulano - tipo interessante, fixe, vivido, saudável - a ser alvo de alertas tipo "sugere-lhe amigos". Ver o meu pai - que quando começou criou duas páginas - aparecer em "pessoas que talvez conheças". Humor esse que é cortado de vez em quando com a cara de um João Duque, José Lello, ou José Luís Peixoto, entre outros que tais. Sem necessidade nenhuma. 

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Mailer surfava as ondas gigantes


"What ruins most writers of talent is that they don't get enough experience, so their novels tend to develop a certain paranoid perfection.
For example, how much of the words of the history that's made around us is conspiracy, how much is simple fuckups? You have to know the world to get some idea of that."

"You can't change a single word. The best short stories are built on this premise."

"Some of my best ideas come because i haven't fixed my novel's future in concrete. Once you know your end, it's disastrous to get a new idea."

"The act of writing is a mistery, and the more you labor at it, the more you become aware after a lifetime of such activity that is not answers which are being offered so much as a greater appreciation of the literary mysteries."

"Nothing lifts our horizons like a piece of unexpected luck or the generosity of the gods."


Norman MailerThe Spooky Art - Some Thoughts on Writing 
(Random House / New York, 2003)

sábado, 12 de novembro de 2011

Estatísticas



"Há vários nomes para o que aconteceu na Alemanha e na Polónia nos primeiros anos quarenta. Holocausto, Shoah, Vento de Morte. Em romani chama-se Porreimos, Voracidade. Não há nomes para o que aconteceu na União Soviética entre 1917 e 1953 (embora os Russos refiram, totemicamente, “os Vinte Milhões” e a Estalinstchina, o tempo de Estaline). Que havemos de chamar-lhe? A matança? O Fratricídio? O Menticídio? Não. Chamar-lhe Zatchto? Chamar-lhe para quê?"

"Foi durante o período da Colectivização que a delação deu o grande salto em frente. Nas aldeias os camponeses mais pobres eram incitados a denunciar os mais ricos. “Era tão fácil meter um homem dentro! Explica Grossman. “Escrevia-se uma denúncia, nem sequer era preciso assinar”: Pelos meados dos anos trinta, quando o terror se voltou para as vilas e cidades, a denúncia era louvada na imprensa como “dever sagrado de todo o bolchevique seja ou não membro do Partido”. 
Pode-se denunciar alguém por medo de que essa pessoa nos denuncie; pode-se ser denunciado por não denunciar o bastante; o único desincentivo à denúncia era a possibilidade de ser denunciado por não ter denunciado primeiro;"

"Se, como é corrente dizer-se, o poder é uma droga; então há casos em que a droga deixa de dar efeito a não ser que se aumente a dose – no caso exponencialmente. Para Estaline, o poder era coisa dos sentidos e das membranas. E ele procurava invariavelmente o limite superior. A Colectivização terminou quando os camponeses foram todos colectivizados. O Terror-Fome terminou quando já não restava ninguém para semear a colheita seguinte. O gulag continuou a expandir-se até parecer que ia rebentar. O Terror prosseguiu até mesmo as prisões temporárias, as escolas e as igrejas estarem todas cheias e os tribunais em funções vinte e quatro horas por dia."

"Toda a gente sabe de Auschwitz e Belsen. Ninguém sabe de Vorkuta e Solovetski.
Toda a gente sabe de Himmler e Eichman. Ninguém sabe de Iejov e Dzerjiinski.
Toda a gente sabe dos 6 milhões do Holocausto. Ninguém sabe dos 6 milhões do Terror-Fome."


Martin AmisKoba o Terrível [Lisboa: Teorema; tradução de Telma Costa; 2003]



Fica uma amostra do excelente Koba o Terrível de Martin Amis que li dum trago (bem amargo). Para muitos que não conheçam ou tenham lido nada sobre o período 1917-1953, tal horror talvez não passe duma estatística (*). Há aspectos em que Estaline conseguiu ir tão longe como Hitler, não os reproduzo aqui. Mais: é quase unânime entre historiadores que tivesse Estaline vivido mais um ano e também os judeus na URSS teriam sido exterminados. De castigo já tinham morrido 5 milhões de ucranianos. Estatísticas.




(*) - "A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística." (Estaline)


terça-feira, 8 de novembro de 2011

Roubar a Tchekov


Tchekov é uma fonte inesgotável. Tem aquela coisa de mestre mais à frente que os autores da frente do presente e do futuro e nos leva a achar que tudo o mais é reciclagem. 
Sei que hoje andava na rua a tentar apanhar contos de Tchekov. Mas não vi nenhum, ou não tive talento e engenho para isso. Com a televisão foi mais fácil, num desses programas forum em que o tema devia ser a crise, uma senhora idosa quase chorava ao telefone mais ou menos isto: “ou compro os medicamentos ou passo fome, o meu dinheiro não dá para as duas coisas. Sofro de pedras nos rins, sempre trabalhei, trabalho desde os 9 anos...”. Fez-me lembrar uma martelada que levei ontem à noite:
“ Os olhos de Iona percorrem aflitos as pessoas que passam pela rua, como se procurassem, entre os milhares de rostos desconhecidos, alguém que esteja disposto a escutar as suas mágoas. (...) A tristeza cresce então dentro do seu peito, abafa-o, enorme, infinita. Se lhe abrissem agora o peito e ala se espalhasse, saisse cá para fora, inundaria o mundo inteiro.”
Já os Medinas Carreiras desta vida, sempre aviados e afiados com as mesmas  inevitabilidades fazem-me mais lembrar a descrição abaixo:
Zapoikin está sempre pronto para discursar, em qualquer hora ou em qualquer estado: com sono ou em jejum, a cair de bêbedo ou cheio de febre. As palavras brotam-lhe da boca com extrema fluência, como um jacto de àgua que jorrasse de um cano; e no seu escolhido vocabulário, há expressões capazes de comover uma rocha, e, em começando, é difícil fazê-lo parar; já tem acontecido, principalmente em casamentos, ser preciso chamar a polícia para conseguirem que se cale.”

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Aquele Dia


Um dia banal pode também ser o ponto onde tudo se condensa. Em Paris de Chistophe Honoré gira em torno duma família à volta da decepção amorosa de um dos seus, regressado a casa e a ressacar uma relação amorosa falhada. Os restantes membros são o irmão mais novo, juvenil e mulherengo, o pai divorciado - um dos melhores pais chatos e repetitivos que tenho memória no cinema - e a mãe que vive noutro casamento. Falta ali a irmã, que se suicidou aos 17 anos com uma depressão.
A riqueza humana, a ternura, as parábolas juvenis e o tom de comédia ligeira do filme atenuam e modelam o seu efeito dramático, sugerindo o mais importante: o que fica, o que (sobre)vive. Porque há sempre um dia entre dias em que nós, protagonistas ou testemunhas da encruzilhada, também acabamos por nos encontrar. Este belo e discreto filme é um desses dias. Em Paris encontra-se na sua passagem. Completa-se no seu círculo. 

sábado, 29 de outubro de 2011

Meio tempo sem tempo


- Não desgostei da entrada deste Outono, de pensar que a semana passada andava de t-shirt ou camisa. Deixa a ideia que este mau tempo acaba tarda nada. Que para a semana volto à t-shirt outra vez. 

- Confiança. Alegria. Espírito. Entreajuda. Fúria. Talento. Entusiasmo. Humildade. Sacrifício. Superação. Coragem. Domingos Paciência. Capel. Van Wolfswinkel. Rinaudo. Schaars. Insúa. Elias.  Carrillo. João Pereira. Rui Patrício. Capitão América. (Este) Polga. Matias Fernandez. Bojinov. Esforço, Dedicação, Devoção e Glória, eis o Sporting como devia ser sempre...

- A escrita desmente qualquer esquema, qualquer escolha pré-concebida, põe reservas, diz que não pode. Onde anda a consistência, pergunta, vai mas é escrever...

- Dou um ano a este Governo. Tenho dito e reafirmo. Pena não haver casas de apostas para isso.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Lisboeta Alentejano Angolano das Beiras


Tenho essa coisa de me sentir às vezes estranho na minha cidade. Costumo guardar chatices num compartimento, com todos os cuidados, as complicações maiores quero-as metidas numa caixa que acaba invariavelmente a rebentar pelas costuras ameaçando atacar um dia enquanto durmo. Costumo dizer a uma amiga: “não compliques, as coisas já são suficientemente complicadas”, ao que ela traduz suficientemente por excessivamente e as minhas palavras acabam desvalorizadas como a moeda do Zimbabwe.
Sinto-me estranho pela secura de quem prefere ser um retrato da “Canção de Lisboa”. Tentando amiúde arranjar explicações, a ascendência não me deixa mentir: lisboeta de segunda geração porque só a mãe é daqui, os avós maternos nasceram no Cercal e São Luis respectivamente - com ascendentes perdidos séculos adentro - meu pai nasceu em Angola, minha avó idem, avô paterno de Ovar, bisavós paternos da Sertã... 
Quando não estou frio sou bem capaz de misturar calor africano com tá-se bem alentejano.  Essa coisa do amor desmedido a Lisboa é que não me funciona. Gosto da cidade sim, identifico-me até com o rapaz de Lisboa de Jorge Silva Melo. Mas existem muitos mas. Além de Lisboa ser muito benfiquista e eu sou do Sporting, de Portugal.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O som do tijolo

Fico fora de mim com som foleiro aos altos berros. Tipos de vidro aberto nos carros, alguns do tunning, dementes dos decibéis, deviam ser internados. No meu bairro existe uma versão pitoresca e soft da coisa, mistura rádio tijolo com bicicleta, chamam-lhe o Biker do Tijolo. É popular, tido como típico, há quem o ache um símbolo, turístico até.
Tento evitá-lo por causa das embirrações, o que é impossível quando me surge logo ao virar da esquina. Uma vez, irritado, fiz questão de olhá-lo forte nos olhos. Ele não se ficou e encarou-me assim um bocado à cão de fila. Contei  ao meu irmão que me respondeu: “ele vira-se, não sabias disso?
E com razão, se o som do tijolo o faz tão feliz e realizado quem sou eu para contrariar? Depois ao ritmo a que isto anda, qualquer dia ainda o temos entre os nossos famosos. Arranjem-lhe um concurso, um programa, uma rúbrica, uma peça jornalística. Conhecido já ele é, pelo menos entre a Estrela e a Meia Laranja. 

Outubro

Uso a ansiedade como prevenção, prova de que não ando a seguir as instruções da resiliência. O café eleva-me acima da plataforma, vem-me à memória estar dentro de uma grande avenida de uma grande cidade entre grandes avenidas de grandes cidades, a verdade se contar aqui dirá que eu apenas vivi num bairro, não há grandes cruzamentos de três faixas que tudo é pacato e o país mais pacato ainda, que tenha dado novos mundos ao mundo tomando parte da equação isso já é uma questão do tempo.
A tarde era calma sim senhor, não vi ninguém, até se deram ao luxo de ligar um berbequim sem incomodar, a minha irmã vai-se casar o que é uma felicidade que sobe à altura deste sol veraneante de Outono. A crise é um plot dum flop. O povo é um boi à frente do palácio. Continuem...Revolução? Enxuguem os olhos primeiro. 

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Bert Jansch (1943 – 2011)




Cheguei a Bert Jansch através de Neil Young, o mesmo que disse que Jansch estava para a guitarra acústica como Jimi Hendrix para a eléctrica. 

Steve Jobs por João Quadros



- Steve Jobs sabia o que queríamos sem ser preciso dizer nada - foi uma bela relação.
- Deus fez uma ilegal download.
- Mais 10 anos de Steve Jobs e eram os iphones que estavam a apresentar humanos novos - acho que Deus achou q ele estava a ir muito depressa .
- Faz tanta falta a pessoa que desenvolveu uma coisa que há 10 anos não fazia nenhuma falta .
- É a oportunidade de ficarmos a saber se há vida depois da morte , se houver, o Steve Jobs vai arranjar maneira de ligar a contar


Sobre a morte de Steve Jobs não li até agora nada melhor que os tweets de João Quadros. E foram escritos mal se soube da notícia. Na hora, ao segundo, o que quiserem, vejam as gralhas e repetições que para ali andam.  
Não estou obviamente aqui a fazer qualquer crítica ou reparo aos textos que li sobre Steve Jobs, pelo contrário. É apenas a minha humilde constatação, a inspiração voa. 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O Amolador


O amolador de facas chega como uma viagem à infância. Já o deram como acabado muitas vezes, mas na verdade tem aguentado e resistido ao tempo e aos tempos. O amolador ainda existe, pelo menos no meu bairro. Maravilha. 
Muitas vezes penso que era justo que ganhasse mais pelo som tocado que pelas facas afiadas. Lembro-me tão bem de o ouvir em criança, as nossas janelas eram anexas à rua, não dava para ver quem era. Não imaginava o que significava aquele som, só o ouvia, sem perguntas. Sei lá porquê. Talvez tivesse querido ficar apenas pelo som mágico, fresco, tão agradável. Não sei como é que reagiria se os meus pais explicassem que é um senhor que afia facas e tesouras. E que também arranja guarda-chuvas. Era capaz de ficar a achar tudo estranho. No mínimo. 

sábado, 24 de setembro de 2011

20 anos


Nevermind apanhou-me a jeito, com 17 anos rondava na altura a extinta discoteca Torpedo na estação do Rossio passando partes das tardes a ouvir sons novos e a ser aconselhado no rock alternativo por um senhor muito alto alemão (creio) – na altura para mim era senhor, talvez hoje fosse um jovem – e por uma espanhola baixinha. Mas nem foi lá que eu ouvi Nevermind a primeira vez, foi (também creio) na XFM que ouvi “Smells Like Teen Spirit” achava então que era das coisas mais excitantes que tinha ouvido. Quem tenha vivido aquela época percebe perfeitamente o que quero dizer: Kurt Cobain simplesmente tinha conseguido criar um antes e um depois, rasgando do mapa toda a foleirice de hard rock poseur e demais treta vinda dos anos 80 e germinava então como cogumelos em bosque humido.

Confesso que conheci os Nirvana ainda antes de os ter ouvido. Tinha começado a comprar pouco tempo antes e também a ler à sorrapa no Amoreiras todos os New Musical Express ou Melody Maker que me apareciam à frente e aconteceu-me apanhar uma daquelas gripes que me deixam knockout e a precisar que me amparem a vida, pedi então à minha mãe que me trouxesse um daqueles dois jornais e ela trouxe-me à cama um célebre NME em que os Nirvana se deram a conhecer ao Reino Unido - Cobain com uma T-shirt dos Captain America, Chris (na altura era Chris) Novoselic com uma dos Sonic Youth e Dave Grohl (cool como nunca voltou a ser...) com um charro posto debaixo do labio inferior.
O que aconteceu a seguir foi história: lembro-me do buzz criado com mais e mais entrevistas até à única Rolling Stone que comprei na vida, de uma entrevista que um amigo me passou em VHS de um programa da MTV (na altura era isso e cassetes) onde Cobain era entrevistado de vestido amarelo e falava em influências de Vaselines, Bikini Kill, The Pixies, The Melvins, The Breeders e por aí fora, lembro a ascenção de bandas incríveis que de outra forma nunca sairiam da obscuridade como os Sonic Youth, Dinosaur Jr, Husker Du, Screaming Trees, Soundgarden, Mudhoney, Meat Puppets, etc e etc. Lembro-me das bocas de destruição maciça aos Guns and Roses, aos Extreme e até aos Pearl Jam.
Quando já tinhamos redescoberto “Bleach” e ouvido “Incesticide” o “In Utero” foi apenas mais uma revelação, cada aparição de Cobain deixava o mundo em sentido, refém do talento visionário. Só que Cobain era frágil como vidro e aquela agressividade provocadora escondia uma vulnerabilidade e incapacidade de protecção impossíveis de se defender perante um mundo ávido e cheio de abutres e gente escravizada. Cobain provocava constantemente. Quem verdadeiramente gostava da Nirvana family Tree deliciava-se com isso, a ralé que comia (e come) tudo o que lhes é dado das duas uma, ou não compreendia de todo, ou julgava que aquilo era só pose. 
O resto é história, Cobain casou-se com Courtney Love, teve uma filha, agarrou-se à heroína. Por fim lançou-se numa última digressão mundial que uns quantos felizardos tiveram a sorte de ver, eu incluído. Foi num Dramático de Cascais à pinha. Kurt de tão magro parecia um agarrado do Casal Ventoso, vendo-o assim não imaginei que se seguiriam mais de duas horas de concerto non stop em alta rotação com “Bleach”, “Incesticide”, “Nevermind” e “In Utero” despachados em tom detonante. O som estava perfeito, a energia transbordava, Kurt deixou no publico saciado a ideia que era impossível dar mais. 
Pouco tempo depois estava eu em Paris e um amigo bastardo que não suportava Nirvana deu-me a terrível notícia: Kurt Cobain tinha-se matado com um tiro na cabeça. Contava-me a notícia com tais ares de “eu bem te tinha avisado” que logo me fez acreditar que não estaria a mentir. O choque teve réplicas até hoje. 

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Praia Autocarro

Naquele dia na praia estavam dezenas de pessoas em grupos e grupinhos e eu sozinho a ler no meio do areal que era grande. A tempos e às vezes ao mesmo tempo punham-se a olhar-me com caras de não compreender. Eu voltava ao livro. A páginas tantas reparei que havia um problema com tanto olhar, talvez fosse a leitura, talvez fosse eu estar ali, sem ninguém ao lado, a única pessoa sozinha naquela praia, e isso começava a incomodar não por me doerem as costas ou pelo livro ser o "Fome" de Knut Hamsun. Todos eles ali, cheios de superioridades mas sem sequer um "Correio da Manhã" para ler a completarem-se em monossílabos e jogos de cartas e de bola, isto a minoria, porque a maioria olhava para o vazio do horizonte sem qualquer vislumbre da beleza daquele mar, quais versões relaxadas daqueles que apanho no autocarro cheio a carregarem suas vidas em costas desistidas e cansadas. Em quantas vejo eu que nunca tiveram a coragem de uma caminhada a pé no fresco duma tarde, que não inventaram uma alegria com a vida, nem sequer ao menos se revoltaram porque seria tão difícil como serem olhadas na praia por todos os que não lêem uma linha. 

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Troy Davis



Em muito dos Estados Unidos ainda se vive com o padrão da lei dos colonos europeus que lá chegaram no século XVI para fugir à fome e à miséria. Ali em terra incerta e coberta de perigos mandava como na Europa a justiça do pelourinho, do olho por olho dente por dente e da culpa formada por convicção, credo ou coisa pior. Mal se evoluiu até hoje. O total desconhecimento da História que ignora o passado é apenas um dos sinais de que o tempo ali de certa forma parou. 

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

La Coca



"La Coca" de José Rentes de Carvalho começa à volta de uma reportagem policial sobre o contrabando e tráfego de droga no norte de Portugal. Passando de fugida pela zona ribeirinha do Porto e Gaia segue depois para onde está a acção: no Minho e na Galiza. Aí o enredo emaranha-se em inúmeras histórias fascinantes em roda de contrabandistas, traficantes de droga, polícias e um jornalista "suicida". Mais tarde surgirá uma culta tutora francesa com o gosto dos livros, um lorde inglês erudito e milionário e até Pablo Picasso que se torna decisivo num diálogo confirmado pelo próprio Rentes de Carvalho em recente entrevista. Só lendo.
Em todas essas histórias, ou memórias se quiserem, o único fio condutor é a lembrança do que aconteceu e do que ainda pode ser testemunhado. As recordações têm buracos, falhas, são inseguras, pouco fiáveis, cheias que estão de impressões e subjectividades quer advindas do tempo presente, quer embotadas pelo próprio sujeito que já não se reconhece o mesmo nos emaranhados e complicados caminhos da vida. Nada que atrapalhe a leitura pois o livro lê-se de um trago. Na verdade fica-se literalmente agarrado a "La Coca" desde a primeira frase.
Romance com mistos de reportagem, biografia e relato de viagem, "La Coca" parece desenrolar-se sob a memória como um policial - o que aconteceu, o que ficou por acontecer, o que perdura, o que se esfumou no tempo. É sob a recordação que gira toda a sua maquinariaA nitidez da escrita faz o resto: vêem-se as paisagens, as pessoas de carne e osso, sentem-se os ambientes. Os relatos são primorosos, os diálogos sumarentos, os personagens únicos. Mas sempre com a neblina da memória a pairar como dúvida, cheia de perguntas a que o tempo foi diluindo as respostas confundindo o real com o imaginado. O que fica não será tanto o que se viveu mas o que ficou contado. Sem frases a mais, numa escrita virtuosa, elegante, fluída, certeira, sem palha para queimar, com uma beleza e trato de língua só ao alcance dos grandes escritores. Para terminar assim, em testemunho: 
«Julguei viver. Tive aventuras e medos, conheci alegrias, conheci paixões. Tudo fugidio, curto demais. Fundindo o ontem no hoje o tempo negou-me o espaço onde eu me pudesse reencontrar, tornou hostil o que pelo hábito dos anos me deveria ser querido, levou-me a olhar com indiferença o que foi familiar. E agora, constrangido dou-me agora conta de que na minha vida nunca realmente houve partidas nem chegadas, nem pessoas, lugares ou eventos. 
O que nela existiu e se prolonga ainda são cenários e personagens, sombras, as imagens desordenadas da memória que, presas na narrativa, se tornam uma dupla ficção."