sábado, 5 de setembro de 2020

153.

 

ATLANTIC CITY


Chicken Man Testa, como era chamado
Foi apenas um ponto de partida
Outro lugar onde te consegues imaginar num círculo
A aversão é sempre terrível
O braço da carta, o remo cadente
O glamour como único assomo de vida
Tomemos o fundo
A base de onde tudo se escava
Estamos em 1981
Entre antigas europas e ventos que ainda ecoam
O primeiro uivo.

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

152.



Melhor guardares o silêncio
Não te expores setas
Ignorando a distância
Recorda que assim nunca te deste mal
De outra maneira partes
Em exílio
Depois em queda
Sê antes tua guarda pretorial
Teus próprios termos
Evita o combate
É a última coisa em que o guerreiro acredita
Falo do samurai, esse Ares nocturno
Ou do mago com os livros e os mapas do outro planeta
Estradas de amor universal
Sol de raízes
Luas para outro sentido
Pensar que abertura queria dizer abertura
Que respeito queria dizer respeito
Pelo reflexo do outro
Veloz como um pensamento.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

151.



Compreendemos tudo isto até um vazio
O caminho do bosque
Até ao próximo
Compreendendo as mulheres
Até ao próximo 
Caminho do mapa
Até ao próximo.

Densidade teve o mistério
Mas não criou nada
Para dentro da terra.

O outro dia
Nunca obra.


quarta-feira, 12 de agosto de 2020

150.


A prova que a 'vida real' é um simulacro da ficção está mesmo nestes tempos, em que a realidade ultrapassa a própria ficção. Não há simulacro que resista. 2020 não é bem um ano, é mais, e sobretudo, um projecto de destruição massiva. 

terça-feira, 11 de agosto de 2020

MARK LANEGAN Sing Backwards and Weep






"Singing Backwards and Weep" vai muito além da auto-biografia, aproxima-se muito mais de umas memórias, ou do próprio romance auto-biográfico, dissecando o outro lado, qual versão actualizada de um Crime e Castigo, se ao crime juntarmos o êxtase e o vício.
Lanegan disseca uns quantos capítulos de uma vida plena, mas encarniçada como um campo de batalha. Ficaremos exaustos, o tanto possível, com a firme e ilusória impressão que o vivemos. O realismo seco, brutal, impiedoso, qual massacre necessário, em páginas de uma crueza rara, a provar que não é necessário qualquer exagero ou sensacionalismo para descrever a substância da dor directamente para a palavra.
Em 1998 o álbum "Scraps at Midnight" dava a imaginar certos infernos em bruto, estava ainda a matéria incandescente, sem a distância necessária para ver-se solidificada, para se lhe ver os seus contornos. Haveria ali uma purga recente, três grandes canções, o rasto pleno de hematomas. Agora, lendo o livro, constato que terá sido pouco tempo depois de Lanegan ter finalmente elevado a cabeça à tona de água*. Entretanto já passaram vinte anos.
Sabemos que depois Lanegan desaparece, deixa a música, sai do centro, regressa com os amigos. Se há coisa em que teve sorte foram os amigos. Já dando de barato a mal amada Courtney Love, que literalmente lhe salvou a vida; ou Duff McKagan que deu tecto e sustento após a bem sucedida desintoxicação de heroína. Ou Josh Homme e Nick Oliveri, formando o core de canções do todo poderoso "Songs for the Deaf", Queens of the Stone Age. Ou Greg Dulli, dos Afghan Whigs (outro irmão que arranjou) com que forma outra banda, os Gutter Twins. Depois canta com os ingleses Soul Savors. Depois com Isobel Campbell forma um dueto com dois belos discos como cartão de visita na Europa. Tanta gente só conhece Mark Lanegan pelos duetos...Ou pelos QOTSA. Ou por um dos últimos programas de Anthony Bourdain, outro amigo. Como se o grande Mark Lanegan fosse só isso, ou como se fosse esse o verdadeiro Lanegan, quando o grande e verdadeiro Lanegan só pode e deve ser encontrado a solo. Tal como Nick Cave, tal como Neil Young, tal como Van Morrison.
Se não é para ser literatura, não me meto nisto, terá dito. Pois esta não só é a melhor auto-biografia que li -- nem mesmo as 'Chronicles' (vol.1) de Bob Dylan a su plantam -- pela cozinha literária, mais ou menos assumida, a impiedade de um Cormac McCarthy, o William Burroughs de "Junkie", a velocidade e vertigem de um Hunter S. Thompson. Mas foi necessário morrer primeiro. Muitas vezes, como diria Charles Bukowski. O que importa acima de tudo, é o que trespassa, e marca, como numa dessas canções plenas de beleza desesperada, só não intervêm as cordas vocais.
* - Ao que se seguem dois grandes discos, o primeiro de versões, para ganhar fôlego, e é um mini-obra prima, e finalmente um de originais, que é um dos seus melhores esforços. I'll Take Care of You e Field Songs, respectivamente.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

149.


Se somos rios –
E temos tanto dos rios
E encontramos tanto nos rios –
Iremos, inevitáveis, dar ao mar
É sempre no mar que inventariamos o infinito
Nos remetemos ao eterno
Desmedido.


Acredito menos na morte
Do que no mar
Seus rios apenas são fios que serpenteiam
O fim. 

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

148.



AQUI


Aqui não há falta
Apenas saudade, o que é bom
Se pusermos as coisas ao contrário
Tiras o homem de Lisboa, mas não tiras Lisboa do homem
Vês a luz
Não me encontro em corpo
Mas aqui vejo
Sou visto
Com muito que ver por dentro
São poucas ruas toda a floresta
Mesmo que de vez em quando desapareça 
No calor de uma discussão
Abrindo uma cratera 
De homenagem ao passado.


Ecossistema fora
Do meu drama anterior
Aqui comunico telegraficamente
Os símbolos dão luzes
Menos cadentes.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

RED THREAT IN PORTUGAL





Não se repete este quadro
Três horas, ou nem tanto, entre a Cibeles e o Congresso dos Deputados.
Subida a Plaza de Santa Ana, a das cervejarias, entrei na terceira
Um bocadilllo de tortilla, pimento rojo e una caña
Dois sotaques dos states, o mais velhote, a uma velocidade scorseseana
Viveu em Paris muitos anos, conhecia Madrid Barcelona
E um tanto um pouco de Espanha.
De Lisboa também falou, que em Portugal é admirável, todos falam inglês.
Ao que o outro saltou, desprevenido: Portugal? 
No way, too much left, they're socialists, too much left
Não me recordo se ele também disse too many communists
Mas pensei logo na famosa capa da Time, Agosto de 1975: Red Threat in Portugal
E logo o outro o teve de acalmar, que nada, nada disso, forget it
A Europa não deixa, só que atrás do balcão
Um indesmentível espelho irlandês toma logo o centro da conversa
Excuse me, do you mind if I take a photo? para a filha que tem um bar
Em Nova Iorque, nunca tinha visto a ponte de Saint Patrick assim
Retratada daquela maneira
Muito menos num espelho. 
A pergunta impunha-se, pela voz do mais velho, que tal Madrid
Oh yeah, Madrid’s great!
Tinha chegado ontem e já estava a ver coisas raras. 
Só não percebi bem o resto da conversa. 
Qualquer coisa entre o Aeroporto de Filadélfia e estar quase na hora 
Do Museu do Prado. 

quarta-feira, 29 de julho de 2020

NO PASARÁN


Racismo nas caixas de comentários, cerco a quem se recusa a pensar daquela maneira. Maldade, má criação, péssima ortografia, o número é esmagador, numa proporção 90/10, e estou a ser optimista. Entusiasmados, incessantes, topa-se até mesmo a euforia nuns quantos. Afinal sempre arranjaram um propósito de vida. E funciona. Não é difícil. A grunhice vende.

Mas vão ter luta, sabemos o que fizeram no século passado, conhecemos o processo, como elas se fazem, não é novidade nenhuma. Também não admira que detestem que os chamem pelo que são: racistas.

PETER GREEN (1946-2020)




Peter Green foi um dos grandes. Não se imagina onde teria chegado se não se tivesse quase perdido no caminho, levado pela corrente de uma trip psicadélica, supostamente na Alemanha.

"In the Skies", que adolescente fui descobrir entre centenas de cassetes do meu pai, continua para mim a ser o melhor álbum, o seu esforço a solo mais poderoso e consistente. Não que Peter Green não conseguisse aqui e ali elevar-se mais alto. Preciosidades encontram-se em toda a sua larga e irregular discografia de blues profundos e atmosféricos, desde que fundou os Fleetwood Mac -- que chegarem a chamar-se Peter Green's Fleetwood Mac, só para terem uma ideia.

Uma nota naquela guitarra era capaz de dizer o que muitas não conseguiam em trinta. A vida também se joga muito entre o tempo que dispomos e o tempo em que conseguimos manter a cabeça à tona de água. Em Peter Green essa tensão é flagrante, entre o sonho e o alerta.


terça-feira, 28 de julho de 2020

147.



ESTAS NUVENS


O fogo vem do sul
É incontornável, o que passou
Arde muito mais agora
Reflectindo os espelhos
Enquanto houver nuvens haverá passado
O céu limpo apenas atesta o céu limpo
Ou talvez o deserto
Como amanhã é esta cama onde me deito
Só a ordem do lucro não o acredita
Tornando o dia e a estação facultativos
Ou esse algoritmo fritando os equinócios
Acreditando que pode fabricar outras núvens
Mais lucrativas.

sábado, 25 de julho de 2020

146.




E FICA A OCORRÊNCIA ASSINALADA 


O enredo que não é teu
E sobre o qual foste construído
Vem ter contigo
Subitamente tudo 
É definido
E passas a ver com pormenor
A lanterna sob o fundo
O padrão absoluto
O desligar da consciência 
Emoção do habitualmente
O que afinal era apenas
A linha recta passada 
Quarenta e cinco anos e quarenta e cinco minutos
O tempo exacto entre o ocorrido
E estas linhas onde apenas
Pretendo assinalar a ocorrência.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

145.


Pensava que era diferente
Como se não fosse igual
Ou como se esta forma uniforme
Entre os países
Não respeitasse um padrão
Só que o início é sempre um princípio
Quer se queira quer não queira
Ou não se esteja ruído pelo bicho
Do cinismo

Se o Brasil de todas as plenitudes
Entrasse em cada um destes cantos
Haveria mais espaço
Mais oxigénio menos cidade
Não tentarias dissipar-me por dá cá aquela palha
A mediocridade não invadiria tanto
E esta sombra, constante
Não abriria uma cratera de todo o tamanho
Melhor ainda: não traria
O teu espanto ingénuo
E insondável.


segunda-feira, 20 de julho de 2020

144.




OUTRO BASEBOL


A imensa solidão da partilha
Gente com ideias 
De que não fazes parte
Gerem carreiras
Só escrevem
No devido enquadramento
Sistémico 
Sistemático
Sistema para estar dentro do sistema
O problema é que há sempre aquele jogador
Que dá a tacada tão forte que  a bola sai do próprio estádio, do próprio quarteirão
Da própria cidade
A ideia que consiga sair até do próprio país
Só que é clara a intenção do desperceber alheio
A bola fora, o jogo ganho
A equipa desclassificada. 

ALMANAQUE SEGUNDO




Um pouco definitivo, um definitivo pouco, mas ainda assim um começo.


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Perigos por todos os lados
Vê-se cada vez melhor
Corruptos ao microscópio
Sabem que não têm
Saída
Entre a prisão ou o poder
De nos prender a todos.


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Lendo Raul Brandão livrou-se
Da superficialidade cristalizada
Crosta pegajosa
Costurada
Com o tecido matemático
Das redes.

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Quando pararmos começaremos a resolver os problemas.


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Parar o mais difícil quando o mais difícil é parar.


sábado, 18 de julho de 2020

143.



ASPECTO AO ESCORIAL


Há sempre essa viagem que te joga agora
Tecendo os fios do remoto
É preciso ir visitar os monumentos
E dos monumentos, o monumento
Ao último sopro de um cansaço

Sob a basílica do Escorial
Ouvir a missa, deitado
Penando de gota
Pelos meandros do perdão divino
Preferiria antes ter sido um agricultor, dizia
Séculos depois
Um céptico que por ali passou ficou tão confuso que não sabia
Se viu Deus ou um deus
Entre o diabo
Havia duas salas
Na primeira, todas as dores da época, penas ardidas, toneladas
Comprimidas ao corpo – talvez toda a idade média 
A salvação teria de estar na outra sala, a alegria branca

Aleluia 
Talvez a redenção estivesse
Na pintura no silêncio
Afinal de contas, não vivemos de absoluto alheio
Há sempre um grau de puro exemplo
A porta entreaberta do quarto de Dom Filipe de Espanha
A luz a cerrar séculos sobre si mesma
Um aspecto ao vácuo 
E ao infinito.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

142.


Forço-me a pedalar mesmo com poucas horas de sono. O problema não é tanto o físico, é muito mais o cansaço mental, a concentração sentida como um esforço, e se a consciência se distrai, só posso confiar no instinto, e instinto costuma ensinar coisas.

Quinze quilómetros depois, o Sol na natureza suspensa em meio de uma zona de fábricas, um polígono industrial, como chamam aqui. Domingo, vivalma. E detrás as montanhas,  quinhentos metros para um lado, três quilómetros para o outro, vinte para um outro.

O som da natureza, o espírito da luz que gerou da matéria o próprio espírito, a Terra. A fortuna da mãe Terra. Se reflectirmos um pouco teremos sempre o maravilhoso planeta. Esta comunhão que nos desperta. A natureza cura e insere-nos dentro. Também nos sabe destruir. E se a destruirmos, enfim, será apenas um brevíssimo momento à escala cósmica. Com cinco mil milhões de anos pela frente, segundo o frio cálculo da ciência, falassem ao menos da destruição do homem, era o mínimo, directo, sem vistas curtas. Se tudo acabar só morre a espécie que criou o seu próprio conceito. 

sábado, 4 de julho de 2020

141.



PROGRESSO


1.

Melhor guardares o silêncio
Não te expores às setas alheias
Ignorando a distância
Recorda que assim nunca te deste mal
De outro modo
Partirias em exílio
Depois em queda
E os outros estão sempre implicados
Nos seus próprios termos.

Sê tu antes o teu próprio guarda pretoriano
O samurai sábio implacável que sabe
Evitar o combate
Ou esse mago da biblioteca e todo o quadro
Pleno de amor e universo
Sol a dar luz às raízes
Lua ao sentido
De justiça.


2.

Pensar que aquela abertura queria mesmo dizer abertura
Que aquele respeito queria mesmo dizer respeito

O reflexo do outro
É tão veloz como o pensamento.


140.


O HOMEM


O homem foi criado para governar cidades
Até mesmo dentro de si próprio
Distingue-o a capacidade do pensamento
E assim poder ver-se a si mesmo
(À sua imagem)

Separado do todo
É muito menos do que pensa
E é muito mais um centro
Além do que a (própria) capacidade de imaginação (própria)
Vislumbraria.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

139.


GINÁSIO

Levantar peso
Dar-me um KO a mim próprio
Saber que não vou conseguir
Levantar-me
Ao limite liberto por fim
No corpo a fórmula
Da alegria sem preço.

138.



O NADA COMO PROVA CIENTIFICA


Tudo me leva a crer que a tua massiva adivinha
O que silenciosa tentavas transmitir
De forma enérgica
Não era o meu medo mais ao centro
A quebra massiva das relações
Cortadas a menos de metade.

Perdi qualquer respeito e consideração
Ganhei um viscoso desprezo
E tudo o mais embirro
Afinal é uma torpe encruzilhada
Onde podemos tanto virar à direita como à esquerda
Excepto seguir em frente.

Passou a fazer mais sentido o desencontro
Cortamos a estrada
Afinal era o rumo sem mapa
Ao medo em que és decifrada
Não dá para aderir mais aquelas linhas
Versículos, prosas e poeminhas
Aquele encontrar nada que encontra
A sua força no nada
A correspondência
De nada
Como prova cientifica.

Morre-se e há ali um pináculo
Um cume que não se assume
A tratar da vidinha, a pedir constantemente
Para ser actualizada.


quarta-feira, 1 de julho de 2020

137.


O OUTRO EXÍLIO

Fora da sua religião
Fuga de Lisboa
Promessa da Índia
Chegar a uma posição
A conversão ao islamismo
Ou ver Deus de outra maneira
E desenrolar a trama até ao esquecimento
Primeiro mutilado
Depois exilado
Convertendo uma ilha à respiração
Para não voltar a Lisboa de nenhuma maneira
Três décadas
Não era Napoleão
Suportando o peso de milhões de astros
Inventar um arquétipo
Sem orelhas, sem nariz
Sem o glamour dessa futura cópia de Robinson Crusoe
Sem o saber fui beber à fonte em Praia Lontano
Santa Helena com uma paisagem de Stromboli
Quando a verdade é que o lugar era para náufragos
Inventando um presente, implantando um futuro
Ida e volta a Lisboa só para querer voltar
Não reza a história o registo
Da maior solidão que se possa contar
Com um realismo que se alarga à imaginação
Ou esse templo que só mesmo o herói conhece
E não ficou nada escrito
Reservado ao esquecimento, não era mesmo para ter gente
Nem este Fernão Lopes era cronista
Mas explorador de incomensuráveis
No plano do secreto e insondável
No mais solitário e remoto lugar da Terra
De solidão bem povoado.




136.

Não estamos em tempos de diversão quando é preciso resolver coisas. Não estamos em tempos de diversão, a não ser que resolver coisas seja em si uma diversão. Responsabilidade sim, mas não só, também é preciso propósito, eficácia, dureza, persistência, resistência, resiliência. Sentido comum, mas também flexibilidade, mente aberta, inventividade. Kime, como dizem os japoneses, para referir poder, foco, decisão, capacidade de ir ao ponto, ao fulcro da situação. É óbvio que o poder político está também emerso no mecanismo, muito mais do que alguma vez se viu implicado. Faz parte do processo, toma parte, e quão mais disfuncional é, mais o controlo lhe foge por entre os dedos. Não admira pois que os governos mais discretos e democraticamente rigorosos estejam a fazer bastante melhor -- e isto é uma longa maratona, tenho para mim que esta questão cada vez mais se irá acentuar. Como só os mesmo ingénuos ou de carácter maléfico podem estranhar a hecatombe em países como os Estados Unidos ou o Brasil, onde continuarão a disparatar flagrantemente, mais e mais, cada vez mais, até onde conseguiremos resistir, até onde já quebrámos...

segunda-feira, 29 de junho de 2020

CHAMADA DE ONTEM


Chamada ontem, hoje a mesma coisa, como as coisas mudam. Se Portugal era exemplo, Lisboa agora é exemplo do que não se pode fazer. Sei que em Madrid agora a coisa é levada com disciplina militar, dois metros de distância, todos de máscara, sem repressões nem clichés idiotas, mas com consciência. E está bem melhor que o resto de Espanha. Escaldada, sim, mas sem rebrotes. Conhece o preço, sabe o que implica a 'nova liberdade', o que é necessário agora para uma vida minimamente funcional e produtiva. E economicamente sustentável. E moralmente praticável. Com cuidados e muita disciplina, é certo. Mas também não há wishful thinking que aguente a lição mais dura...


sexta-feira, 26 de junho de 2020

ALI FOREMAN MAILER



Livro-ringue 
Alquimia boxe liberdade  
Evocações a Ares
Mas também a Zeus  – a dialéctica do golpe
Aguentar
Acomodando a dor

Digerindo
O soco no estômago
Alerta o livro
Ao nível do combate.

135.


ANTES

Atrás das últimas leituras
Nada me basta, tudo me vale
Reverter a fórmula 
Viajar acima por dentro 
Fecho os olhos 
Cubro-me de cascos da tua lembrança
Subo ao castelo e à igreja
É noite trovão 
Assento a magnitude da montanha 
Sou ombros peito areia rocha
Só não posso pensar 
Que se vai o fumo
Como este feitiço
De ilusão.  

domingo, 17 de maio de 2020

JAMES HILLMAN





– At least we have souls, but no one says we are souls.

– The instincts are mythical beings, suberb in their indefiniteness.

– Truth is always in poetic form; not literal but symbolic. The alternative to literalism is mistery.

– The soul can exist without its therapists but not without its afflictions.

– Soul is distinct from body because soul may not be identified with any literal presentation or perspective.

– The soul of our civilization depends upon the civilization of our soul. The imagination of our culture calls for a culture of the imagination.

– Emotion is a gift that comes by surprise, a mythic statment rather than a human property.

– The world and the gods are dead or alive according to the condition of our souls.

– Just as we do not create our dreams, but they happen to us, so we do not invent the persons of myth and religion; they, too, happen to us.

– Dreams are important to the soul; what does seem to matter to the soul is the nightly encounter with a plurality of shades in an underworld, as if dreams prepared for death, the freeing of the soul from its identty with the ego and the waking state.

– What we learn from dreams is what psychic nature really is – the nature of psychic reality: not I, but we; not one, but many. Not monotheistic consciounsness looking down from its mountain, but polytheistic consciousness wandering all over the place.

– The implicit connection between having ideas to see with and seeing ideas themselves suggests that the more ideas we have, the more we see, and the deeper ideas we have the deeper we see.

– Trusting our feelings means obeying our grandfather and grandmother more than the gods within ourselves: our reason and experience.

– Without speech we loose soul, and human being assumes the fantasy being of animals.

– Renaissence man is now called the shadow, or the id, or the natural, instinctive, creative darkside.

– To let the dephts rise without our systems of protection is what psychiatry calls psychosis: the images and voices and energies invading the emptied cities of reason which have been depersonified and demythologized and so have no containers to receive the divine influxes. The Gods become diseases.


E muito, muito, muito mais.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

134.


Chegaram os sinais de terra
Afinal talvez seja uma ideia
A saudade ou o que engano
O amor ou o desejo
A vida perdida
Ou a vida ganha
O fundo do cenário
Rio Minho
A espelhar o céu
Caminho em solidão maior
Parece que vem do Brasil
Claro que sim, precisamos ouvir novas palavras
Ida e volta só exercitando
Pela margem, o moínho.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

133.

Vivo numa vila. Sou preguiçoso. Não concordo um o modus operandi mas o esquecimento próprio e alheio dá medo antes de tudo. Iria por tudo se não fosse a falta. Virtualmente? Es lo que hay. Tenho reparado a solta verbal do ouro, chamo-lhe serpentina para não lhe chamar diarreia. Não há nenhuma matemática nas suas linhas, é tudo redondo, redondo, redondo sempre em pé. É uma literatura Jorge Coelho com um pouco de imaginação e originalidade e, claro está, algum talento, de outra forma a cousa não se manteria redonda, ou seja, sempre em pé. Redonda bola à roda, bola adiante, é este o meu campo, conheço um que se deixou desta lérias e está plantado e implantado no twitter, aquilo basta-lhe, tecnologia de ponta para saber o que se passa, superlativa forma do soundbyte ultra mega que ao mesmo tempo não pode ser, então manda-se para o ar como se a palavra fosse ar, e polui-se o ar com a palavra e é só mais uma. É uma insignificância dizer o que penso mesmo quando o que penso é merda cagada no preciso momento em que a estou a cagar, é esse o espírito? Com isto encerro o campo, fecho os engenhos, tenho as montanhas. A ver se o lá fora não é um martelo que nos obrigue a voltar para dentro. 

segunda-feira, 13 de abril de 2020

132.


DEPOIS DESTE TEMPO


Mais que nunca imaginamos a organização secreta
Mais que nunca
Sobre as casas
Mais que nunca imaginamos
A organização sobre as casas.

Nunca nos imaginámos 
A forjar a matéria secreta
De uma simples ida à rua
Ou a saída de um cinema –
A questão sempre será o mundo que apresentamos
O nosso no outro
O outro nosso –
E agora?

O arranque é o esquecimento em movimento
Aprendizagem implica o erro
Toda esta gente que quer à força toda
Matar o tempo
Senti-lo a ser preenchido
Em passatempo
E o vazio depois.



quinta-feira, 21 de novembro de 2019

RETRATO A PARTIR DE BOLDINI



O auricular dá-nos a história do movimento, não o movimento da história. O contexto é sempre importante, mas não é o mais importante: ver é mais importante que contextualizar, e antes admirar que presumir. E o verdadeiro retratista é narrador, escritor, poeta... Trabalha o  texto no retrato, acerca-lhe o poema. Do que não se consegue até ao que não se quer: ver. 



quinta-feira, 7 de novembro de 2019

ALMANAQUE PRIMEIRO


- Agora consegues ver melhor a História. Perceber como todos aqueles hinos de rock'n'roll punk harcore traziam a tomada da Bastilha. 

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- Essa manhã em que os factos não cavam lógica entre si e tu estás implicado entre o acontecido sem nunca por ali teres jogado – e sem sentires a relação entre ti e o que te chega. É tarde e nunca o virás a saber: não podes ver o jogo que te joga, o que está no segredo que te movimenta, Ou de outra maneira: a noite é a fortuna que te vale e que te cegaria pela luz insólita de outra matéria. 

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Criadora de guerras implacável inflexível
Crê que é pacífica
Porque se situa razoavelmente à esquerda
Nunca sai do seu lado.
Torna as suas ideias as dos outros
Nunca sai do seu lado
Incapaz de sequer respeitar o oposto
Os fins justificam os meios
De frente, como no passado
Regista a (sua) práxis
Funciona sempre de acordo com as (suas) regras
Nem vê outras
E à sua maneira cada vez mais
Subtilmente enfatiza
Como vitórias
Todos os empates da vida.

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Não ser aquele que entra na sala com o telemóvel em riste a tirar fotos 
Sem olhar para nenhum quadro e não ser no ecrã para a foto
E com muita sorte não tropeçou, o que traria toda a justiça à situação
De Murillo, o estilista supremo, relembra-nos, a lembrar-nos que a sua época é a nossa época
Ali bem perto de onde eu fui parar em 1992 a dormir ao relento 
Consta que vim dar aqui agora para o constatar 
Foi preciso ver a ponte tão fora do eixo de passagem
Perceber que estava bem pior que um turista de aparências.

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Escrevo o poema como um alívio. Alguma coisa que precisava saber. Vomitei das minhas entranhas. Ter uma forma. Ou melhor, partir das minhas entranhas, como diria Norman Mailer, escrever é para um homem a única forma de parir. De qualquer forma, agora sinto-me melhor, o que traz algo de sexual satisfação, do que tem que ver com parto. Parto. 

Meu problema, desde a escola, foi sempre a forma como em Portugal não se tomam as coisas a sério. De nenhuma forma, enquanto se estuda, enquanto se tiram diplomas, enquanto se tem sucesso, credibilidade, reciprocidade, admiração... No lugar onde sempre fui tido como uma ameaça. Onde nunca fui levado a sério. Respondo isto do estrangeiro. Tranquilo. Ninguém me chateia.

É possível que a velha vida ainda venha para aí em referência. Direi que não estou. Mas estou. Pronto a qualquer esclarecimento. E já agora, que me paguem. 


domingo, 20 de outubro de 2019

131.


Pouca coisa
Uma tabela de efemérides
Billie Holiday, Tom Waits
E Nicanor Parra
Posso fechar-me assim para o Inverno
Tenho o rio
O ar amplo
Esvaziado de maneira 
A caberem aqui
Todos os sonhos que me restam. 


terça-feira, 17 de setembro de 2019

130.


Portugal é um barco que não anda
Mas anda
Não sabe como trava
Mas trava

Espanha é uma planície
Em forma de corrida
Está sempre obrigada a responder
Sim ou não.

sábado, 14 de setembro de 2019




~VOZES~


Comungo vela
No sentido lâmpada da cena
Necessário cozer as centenas 
Esse telefone 
Onde assisto a algum concerto
A recepção da chamada é basquetebol 
A partir do latino receptio
Fasquias pontos cruzadas
Não vemos ainda quase nenhumas linhas.



segunda-feira, 5 de agosto de 2019

DON WINSLOW, THE POWER OF THE DOG





Conheci Don Winslow pela sua posição a favor da legalização de todas as drogas. Fiquei a gostar logo dele. Depois fiei-me no escritor Rodrigo Fresán, argentino entusiasta de escritores a valer, de Ricardo Piglia a James Ellroy. Ora quando Fresán fala em "The Power of The Dog", de Don Winslow, ficamos com a nítida ideia que estamos perante a urgência de algo “maior que a vida”. Sua trilogia começa no final dos anos setenta com a constituição dos cartéis, continuará com o descomunal poder do famoso narcotraficante El Chapo Guzmán, no segundo livro, até ir desaguar ao presente, esse mar aberto de inquietações apocalípticas com Donald Trump ao tempero. E se os Estados Unidos se queixam da droga que chega às toneladas do sul, o México protesta contra a brutalidade das armas que entram do norte para encher suas ruas de sangue e morte. À violência crescente e refinada intuída por Roberto Bolaño em 2666, Don Winslow prefere responder de um modo mais gráfico, chamando os nomes aos bois, truncando apenas alguns bocados de realidade pelas voltas do enredo. Mas não sobra migalha. E na pena de Winslow não faltam recursos, muito menos huevos, para ir directo à carótida do problema. Mas nada melhor que puxar pelo bom do Rodrigo Fresán, velho amigo de Bolaño e genuíno adepto da maquinaria literária de Winslow: «El Poder del Perro (The Power of the Dog) es una de esas novelas en las que nos se va a vivir mientras las lee y – la tasa de mortalidad de sus páginas por momentos quita el aliento – mientras que los leídos van siendo acribillados o despedazados o vuelan por los aires o sometidos a torturas (ya comprenderán a lo que me refiero) de una creatividad católicamente diabólica. Pensar en el Poder del Perro como la versión adicta y adictiva de La Guerra y La Paz haciendo hincapié de lo primero. Mejor aún: El Poder del Perro como la Guerra y La Guerra.»



[tradução para espanhol de Eduardo G. Murillo, Roja y Negra]


sexta-feira, 19 de julho de 2019

TU CÁ, TU LÁ





Revista Palavra Comum, round 3, mais um conto de Praia Lontano, o conto policial diurno da colecção. Grato a Tiago Alves Costa pelo convite. 


quarta-feira, 15 de maio de 2019

quarta-feira, 1 de maio de 2019

LOBO À COLINA PARA ALCÂNTARA, PALAVRA VIVA





          
Um conto ao conto que merece ser ouvido. Lobo à Colina para Alcântara. 

Por Nuno Góis. Palavra Viva. Uivo a isso.