terça-feira, 14 de agosto de 2018

114.


ONDE ANDARÃO TODOS AGORA?

À saída alguns becos metem medo
O que vale é que já te mostraram Vigo antes 
Ida e volta entre Balaídos e o casco histórico
Aqui chamam costas às subidas 
Claro que pensaste no mar com o suor quente no teu corpo
Estamos no Ano de Zeus na Tempestade
E há um miradouro a ver de tudo
A 1906 é uma cerveja óptima para conciliar 
Dois irmãos que nunca se deram
Lobos de alcateias distintas
Criados em redor de colheitas 
A única hipótese é esquecer as cercas
Onde andarão teus pais agora
Entre nós havia gente que esteve
Em Roma no tempo dos títeres
Ensaiando odes metálicas.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

113.


ESTO ES LO QUE HAY

Chegado aqui 
Corrente turva
Poço de indecisões
E silêncios
Mortos
A embirrar com todos os gritos de Agosto
Já sabia ao que vinha só
Que a saudade era um grito que doía fora
Do jogo de toda a família
Dos amigos
Dos músculos que eu nem fazia ideia que tinha
Da falha que nasce das raízes
Sim, a saudade é átomo mútuo que se dissipa
Corrente condensa ao mar do esquecimento
Dos ostracismos da timidez 
De tudo
Reflexos de um real que agora 
É erva verde e um charco 
Ou um lago real encolhido
Como se pedisse desculpa
Numa estalagem em Espanha

DANMARK 1984




As pessoas da infância aconteciam como aconteciam
Simonsen caiu lesionado no primeiro jogo do Euro 84
Proeminente na colecção de cromos e nas repetições com R no canto superior direito, ficou só a queda e maca que o transportava
Adeus Simonsen, olá Preben Elkjær Larsen! - e os seus amigos Søren Lerby, os irmãos Morten e Jesper Olsen, o Arnesen, o Jan Mølby do Liverpool, o Michael Laudrup a vir aí muito novinho etc, etc e etc - mais tarde de azul vestido com riscas ténues em amarelo, e o Verona dessa revista Foot era campeão porque gastou dinheiro até nunca hoje - também vinha em destaque na revista Onze, francesa, muito mais moderna  cheia de gráfico estilo. Saber que ali os guarda-redes eram amadores e faziam figura: Ole Kvist que se movia pelos postes de um lado ao outro, a gritar aos defesas, dos nervos que eu não via...
Nada ali era para ser questionado, também não me inteiraria de modo algum vez alguma acerca do estado de Simonsen na enfermaria. Também só saberia uns trinta anos mais tarde, não sei se é verdade ou se é mentira que Elkjær Larsen malhava forte no whisky... 



segunda-feira, 23 de julho de 2018





Capa e paginação Rui A. Pereira, Letras Paralelas

Na livraria Círculo das Letras - Rua da Voz do Operário, 62

Encomendas para gn.pedro@gmail.com



segunda-feira, 16 de julho de 2018

FUTEBOL AO SOL E À SOMBRA


     



  


Gostava de o ter lido agora, o que diria e o que não diria sobre Mbappé, Modric, Pickford, Perisic, Kanté, Hazard, Lukaku. Sobre o mundial de Putin, sobre a tenacidade da selecção russa, da pálida Argentina somada à eliminação do maior lote de favoritos da história, dos heróis da Bélgica e da Croácia. Das cambalhotas do patético Neymar. 
Este foi o primeiro mundial sem uma palavra de Eduardo Galeano. Do que escreveu ele e mais uns bons quantos ficamos a saber que o futebol é tão bom jogo como bom molde para a  literatura.


domingo, 8 de julho de 2018

112.


Com a desfaçatez de certa mediocridade rapidamente me posso tornar um incendiário. A dar força e razão a quem não merece. Logo inverto a disciplina de não dar mérito à fotocópia. Pior: à fotocópia roubada à escondida. A reclamar o sagrado da elegia. 


quarta-feira, 4 de julho de 2018





A verdade é que eu tenho uma coluna desgraçada. E doem-me os joelhos, os ossos, as articulações. Sempre foram vinte anos em Vigo, a trabalhar num estaleiro naval. Isto dos 18 aos 38 anos.Vinte anos também é o tempo que cá estou e um sujeito acostuma-se. Pesca-se, planta-se, faço uns biscates de vez em quando. É que eu aqui sou válido, posso ser muito útil, manejo bem os metais, faço um excelente bate-chapa, arranjo carros, motos, bicicletas; torneiras e canalizações; estores, candeeiros... Também não o digo a quase ninguém, lá se ia o meu precioso sossego. Quando é possível também ganho algum aqui na casa. Tenho lá fora uma casita com dois quartos que alugo a escritores e eremitas. Isto quando alugo, já tive de mandar gente embora porque não os queria cá. Escritores e eremitas ao menos não fazem barulho, a não ser os primeiros com a máquina de escrever – se tiverem coragem de a trazer acima – o que não me apoquenta por aí além, até nos damos lindamente. Problemas são mesmo os estudantes, esses jurei para nunca mais. Da última, quer dizer, da primeira e única vez, eram uns estudantes escoceses e foi uma desgraça. Não dormi nada durante três dias e só não os mandei embora porque tive medo deles. Nunca mais. Mas feito o balanço de tudo o que sei e tudo o que vivi, sei que fiz bem em vir para aqui. Naquela fábrica eu ou dava em maluco ou ia parar a uma cadeira de rodas. Aqui ao menos vejo o mar, não corro o risco de passar fome, pelo menos enquanto um vulcão não me levar, se me levar, isto porque a terra lá abaixo é que decide, agora ou daqui a cem anos, também dizem que a ilha se pode afundar, enfim, dizer dizem muita coisa. Mas deixem que vos fale do meu cão, chama-se Vento. Vento porque o vi nascer num dia de grande ventania. O Vento é o meu melhor amigo de todos os tempos, sem dúvida alguma. Veio comigo de Vila Lontano, quando me fartei daquela gente.


sexta-feira, 29 de junho de 2018

Nocturno Alentejano




 


Tirado pelo telemóvel, boas luas cheias atrás, certamente em noite de lua nova.



quinta-feira, 28 de junho de 2018

Noites de Lua Cheia, noites de John Atkinson Grimshaw






Desde que vi o de cima* no Thyssen-Bornemisza de Madrid que as minhas noites de lua cheia passam a trazer à memória as luas cheias reproduzidas por John Atkinson Grimshaw. Tomamos-lhe os sons, lembramo-nos em noites, como a de hoje. Viagem que também se pode fazer de dia, como agora, à espera. 


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* - Canny Glasgow - a primeira vez foi uma meia hora sem tirar-lhe os olhos de cima, a segunda  lá me obriguei a contra-gosto a abandonar o quadro, enfim, para o senhor poder ver, ao fim de uns cinco minutos. Precisamos de tempo com tanto cinema, ouvimos esses sons quais fundos de mar perdidos no tempo de uma noite em Glasgow, talvez a sinfonia de uma dessas noites do pintor, sempre uma noite de todas as noites.

sábado, 23 de junho de 2018


(Zafra, Badajoz)

O azul do sul é cor da areia, estende o mar até Marrocos.


segunda-feira, 18 de junho de 2018





Capa e paginação Rui A. Pereira, Letras Paralelas

Na livraria Círculo das Letras - Rua da Voz do Operário, 62

Encomendas para gn.pedro@gmail.com


domingo, 17 de junho de 2018

O PESADELO DE WILLIAM BLAKE




¿Y a quién le importa decir la verdad cuando lo único que importa en el siglo XXI es que te crean? El gran triunfo de la máquina sobre nosotros no son las fake news, las mentiras que se multiplican hasta que se convierten en verdad, sino la docilidad con la que nos hemos adaptado a ellas. 

[Aqui.]

sexta-feira, 15 de junho de 2018

MUNDIAL



Comprado a uma livreira que estava lá quando Eduardo Galeano visitou Ourense. Diz que a livraria estava tão a abarrotar pelas costuras que só pelos relatos cálculo que possa ter vindo a cidade inteira. Daqui a umas horas vai ser a primeira vez que vejo um jogo campeonato do mundo fora do país, logo em Espanha, logo nesta Galiza que se juntou em uníssono a apoiar Portugal como se fosse a sua selecção no primeiro europeu que eu vi fora do país, logo em Paris, logo em França. Espero que Deus geometrize esta. Força Portugal! 

terça-feira, 12 de junho de 2018



Miguel de Unamuno






Lá o pseudónimo é que não se pode queixar da falta de luz para escrever. Ao menos ainda não me pediu um candeeiro e um aumento e um jantar para falar sobre (os e as) personagens. Da última vez pedia-me mais personagens femininas e eu tive de explicar, José Artur Miguel, ou lá como era, que esta não é uma história linear de mulher-amor-conflito-abismo- -desilusão-redenção, mas que é antes, sim: uma reflexão sobre o poder em Portugal com os seus lugares estanques e sobre a forma como uma vigaricezinha bem montada e internacionalizada tem tudo como dar certo, desde que os cordelinhos estejam bem atados. Então é desatar certos nós, já que é impossível levantar a viga de betão. Mas nunca foi feito nada assim, diz-me, e eu pergunto: «E então e os mob jornalists, o catenaccio da burocracia, o Luís de Freitas Lobo da Cosa Nostra em Filadélfia?». O problema é precisamente o catenaccio, responde-me ele, eu respondo «Vai mas é ver os filmes do Akira Kurosawa para saber se aquilo não é catenaccio. Mas como é que queres fazer um policial com tudo a jogar à defesa, diz ele, e eu: «Quem dera a muitos um detective como Giuseppe Bergomi».   Ele não fica lá muito convencido, mas eu insisto: «Se falhar estás despedido, amigo. Hoje.» O problema é que a dívida ninguém te a tira. Não sei o que fazer. O que pensar. O som nem John Coltrane, nem Dizzy Gillespie. Não há cantautor nenhum que agora me acalme as horas. Músicas de incêndio? Também não, já não ouço The Stooges, ataca o fígado. 

segunda-feira, 11 de junho de 2018

CONTROLO ANTI-DOPING




A insanidade é real, acha-se um Trump, sendo um teso cheio de dívidas, toma-se como um Abramovich, vivendo às custas do clube, vê-se como um imperador, não passando de um assalariado. Não tivesse feito um tão brilhante primeiro mandato, e há que ter um mínimo de gratidão e asseio nestas coisas*, e não teria problemas em reproduzir aqui o que me diz gente próxima... Mas há sempre um mas, há sempre um só que nos deixa sós. Donald Trump é presidente dos Estados Unidos e se duvidam quando dizemos que os bárbaros estão dentro das muralhas de Roma têm de conceder ao menos que vivemos em tempo de barbaridade(s), o que não vemos, ouvimos. A fasquia essa vai sendo ultrapassada como nos concursos de adolescência a ver quem é que mija mais longe. Ele há há coisas em que era capaz de ver o modelo a olhar de baixo para o aprendiz, como que a dizer "às vezes consegues ser melhor do que eu!!! Tu dás-me ideias, puto!!". Sim, Donald Trump há de ficar a gostar muito de Bruno de Carvalho. Almas gémeas sob o mesmo molde, dançando a zomba das fake news, crianças adultas a inventar (a puta da) realidade, decretando aqui-agora para o mundo que o poder não vai além do bebé. E siga para bingo que a seguir vem outro e outro. O que importa mesmo é não parar. Nunca parar. É essa a sina dos vencedores e tudo o resto é looser. 
Valham-nos os dias claros. Em dias claros, a nitidez do propósito consegue-se ver a milhas de distância. Dirá "se eu caio caem vocês também comigo, é isso mesmo que querem?" Explica tão bem o primeiro mandato, não explica? Se a própria vida é o Sporting, se toda a vida está feita no Sporting, se não há vida para lá do Sporting, se só se consegue ser alguma coisa no Sporting, se toda a ambição e ânsia de ego e protagonismo só consegue ser materializado no Sporting, se a única coisa a que resta mundo é o Sporting, se a única coisa que existe no planeta Terra é o Sporting... O Sporting e Bruno de Carvalho, não nos enganemos, não nos enganemos sob pena de levarmos com um processo em tribunal: Bruno de Carvalho é o Sporting, acabou, já não nos podemos mais deixar-nos admirar, muito menos embevecer com os jogadores, treinadores e demais atletas, não vá o Sporting, perdão, Bruno de Carvalho morrer de ciúmes. É imperativo que o protagonismo tem de ir para a figura maior do clube, tão grande como os maiores da Europa, temos de ir a Alvalade para ver Bruno de Carvalho, só podemos ir a Alvalade para ver Bruno de Carvalho, se ganhamos a figura é Bruno de Carvalho, se perdemos quem tem toda a razão é Bruno de Carvalho. Se protestamos é porque não  nem sequer somos sportinguistas, não passamos de uns sportingados, é porque não percebemos que o problema vem do Benfica, que estamos a ser instrumentalizados, a tomar a parte do croquete. Rui Patrício, Manuel Fernandes, José Eduardo, Daniel Sampaio, Octávio Machado, Dias Ferreira, Sousa Cintra, Poiares Maduro, Daniel Oliveira, toda essa cambada, todo esse Sporting que se acha Sporting é aliás uma cambada, todo esse Sporting que não quer ver que o verdadeiro Sporting é só um: o Sporting Clube de Bruno de Carvalho. Sejam sérios. Não aconteceu nada. É tudo invenção da imprensa, os espancamentos em Alcochete nunca aconteceram, é tudo do Correio da Manhã. Eu fui a Madrid e à Madeira acompanhar a equipa, eu nunca escrevi comentários inapropriados no facebook a pôr em causa o brio dos jogadores, eu nunca os ameacei com sms, Fernando Mendes da Juve Leo nunca disse ao Acuña "vemo-nos em Alcochete na Terça", eu nunca passei o treino de quarta-feira para terça, eu nunca faltei a uma reunião com os jogadores a esse dia e a essa hora, os encapuçados sabiam onde era o balneário porque no dia anterior foram a uma bruxa na Damaia que lhes explicou tudo tintim por tintim, o BMW azul era um OVNIaproveitaram-se de mim, eu estava em estado de choque quando depois do que aconteceu disse que é chato e que o crime faz parte do dia-a-dia, eu também podia ter estado lá, podia estar morto!!!!! Podia ter sido comigo, não sabem disso? E não fui eu que me aproveitei de tudo para engolir de vez todo o poder. Expulso-te de sócio se dizes o contrário, ou passo a nomear sócios ao calhas se algum membro da minha Direção achar que eu não sou o Sporting Clube de Portugal. Não que eu tenha de obedecer a tribunais. Porque, repito, é tudo mentira do Correio da Manhã, mais: é tudo ressabiamento de Sportingados.


* - reabilitou modalidades como o hóquei, o vólei, entre outras, construiu um pavilhão, fez um canal de televisão - hoje central de propaganda de meter inveja a uma Telesur -, saneou financeiramente o clube, que voltou a dar lucro, que voltou a ser lutar por competições, a ser vitorioso, líder das modalidades. 

domingo, 10 de junho de 2018




Ronda, 2018



111.



Prontinhos a cavar dali para fora ao primeiro sinal de Guardia Civil. Escravos na Gran Via. Enredados. Atascados.




Estávamos nos ilustrados anos 80. Os tempos da Guerra Fria, de Ronald Reagan, Leonid Brejnev, Mitterrand, Margaret Thatcher, República Democrática Alemã e Guerra Irão-Iraque. Claro que não ligávamos a isso. A não ser que nos batessem à porta os filmes do Rambo e o Rocky IV, ou então através do som ou do som-imagem dos videoclipes de Sting, dos Genesis, ou do Elton John.A isso ligávamos, afinando o gosto ainda pouco formado, ou não, com os hits de Madonna, George Michael, Michael Jackson, Tina Turner, Hall & Oates, Nick Kershaw, Level 42, Elton John, Spandau Ballet, Europe, Starship, Stevie Wonder, Heróis do Mar, Sandra, Carlos Paião, António Variações, Bruce Springsteen, Duran Duran, Mr. Mister, uma salganhada. Coisas boas com coisas não tão boas, coisas razoáveis com coisas terríveis. No cinema era a mesma coisa: Silverado com o Regresso ao Futuro, Academia de Polícia com a Última Tentação de Cristo, Footloose com O Último Imperador. Na televisão ia o Tal Canal com a Vila Faia, Hitchcock Apresenta com Sabadabadu. Depois havia sempre a companhia de Júlio Isidro, havia os Jogos Sem Fronteiras. Corria Fernando Mamede contra Carlos Lopes. Havia Joel Branco, Ana Zanatti, Eládio Clímaco. Quando já tinha passado o Espaço 1999 havia O Justiceiro. As telenovelas brasileiras faziam história com O Bem Amado ou Roque Santeiro. Também nunca nos esqueceremos dos desenhos animados com os Amigos do Gaspar, O Carteiro, o Era Uma Vez o Espaço, o Dartacão, ou A Volta ao Mundo em 80 Dias. Líamos Os Cinco e Uma Aventura.Jogávamos computador no ZX Spectrum. A fazer moda havia os ioiôs Coca-Cola e Sprite, o cubo mágico, as bombocas, o Trinaranjus, o leite acho-colatado da Toddy. Tínhamos Vasco Granja. Tínhamos o Liverpool e a Juventus. Tínhamos Diego Armando Maradona a mostrar como era e como estava acima de tudo e de todos. Enfim, do pouco que havia, havia de tudo. Muita água ainda tinha de passar pela ponte até chegarmos ao Bush pai. O Sporting ainda estava na segunda época das 18 que penaria até voltar a ganhar um campeonato.


sábado, 9 de junho de 2018



Depois de uma leitura de Luiz Pacheco (Exercícios de Estilo) do melhor da literatura portuguesa do século XX, a espaços, entre poças (tantas poças), gente esfomeada, pobre gente, pobre miséria de gente. Escrever português, literatura dura, pura, de essência: aberturas revolucionárias, arte & estilo, estratégia ataque-ataque, tiradas marciais,sublimadas carpintarias. Chef literário de primeira, hotelaria de rua, restauração da sarjeta. No silêncio das estantes, beber um copo, esquecer. Alfarrabistas fizeram disso um dinheirão. Fazem. É essa a imortalidade literária? Junte-se as dezenas de escritores voga directa ao esquecimento proporcional à fama do momento, temperem-nos com uns poucos, mas bons poucos de bons, depois aumentem-lhes o lume, inflamem bem, inflamem, que é para nos despacharmos no firmamento dos anos para as décadas das décadas dos séculos, tem de ser rápido quanto mais não seja temos ainda os séculos dentro dos séculos. E esta panela é só um país: Portugal. Portugal Continental e ilhas. Imaginem então um continente inteiro. Modelem-no como a América do Sul. Podem jogar panelas com a França, o Reino Unido, a Alemanha, Itália... Olhem para os Estados Unidos, o México. Deixem de parte África, a Índia, o Japão, a Austrália, a China... 

sexta-feira, 8 de junho de 2018





Ar para respirar, apenas nas pequenas réstias de branco de folha não preenchida – qual parque natural cheio de verde e lagos e cantares de pássaros, depois de uma fábrica de celulose. Eram réstias que José via e não resistia a preencher, sempre era mais uma oportunidade de poder reciclar mais alguma tanta furibunda energia. Fosse ele um Pessoa ou um Kafka, ninguém o decifraria escrito. Morto estivesse, morta estaria toda uma literatura. Um escritor assim morto encerraria, para a eternidade, a chave do seu enigma, e os enigmas do túmulo não passam disso mesmo, ou melhor, dali mesmo, do túmulo, do que se alimentam as bactérias. De resto, tumulares também eram todas as folhas de todos os seus cadernos de hieróglifos ilustrados – gatafunhos que até poderiam ter em si os mais graciosos e belos sonetos de um trovador lírico, que a melhor imagem que dali adviria andaria mais próxima da impressão poluída de um qualquer tubo de escape da pior Hong Kong onde se consiga estar...



Charles Bukowski 


quinta-feira, 7 de junho de 2018



Prosseguindo caminho pelas amostras alcatroadas. Fui. Eram tudo verdes de uma mesma encosta. Fui. Humanos estudiosos sabem bem que havia ali em baixo um rio afluente, ainda coisa de umas centenas de anos. Fui. Aproveitem enquanto eu estou para o que posso aqui confirmar. Havia romanos? Lusitanos nativos? Iberos. Eu ainda conheci os Iberos... Mas não, não vos vou contar, sou lobo, não sou historiador. E como tal, lobo que sou, prefiro a humana inveja à humana curiosidade... Também sei que a humana curiosidade mata mais lobos que a humana inveja... Mesmo que a humana inveja mate muitos mais humanos que a humana curiosidade... Mas continuando, ao pé daquele afluente eu estava sempre a caçar, com certos humores até peixe comia. Havia tanto e tão bom peixe que até eu, que nem sou grande apreciador, ia lá dar a trincadela. Querem saber mais? Joga ali hoje o Atlético Clube de Portugal contra o Mafra. 

           

              


                                         "La ilusión es la forma perfecta."


PRAIA LONTANO





Capa e paginação Rui A. Pereira, Letras Paralelas

Na livraria Círculo das Letras - Rua da Voz do Operário, 62

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Estrada dos Prazeres na Galiza, em Ribadavia, bons meses atrás. 




Saí indeciso de minha casa, achava que devia escrever. O que a escrita pedia na altura, não tinha eu forma de saber. E a escrita pedia, se pedia... Precisava de se alimentar. Mas eu também. Decidi sair. Fui. Fui para a rua, locomover-me, cruzar a colina até Alcântara. Os instintos pedem. O faro também. O calor cheirava. Fui. Fui atrás, à espreita. Fui. Fronteiras inseguras. Fui. Cercas destruídas. Fui. Desci a rua baixa, pobre, mas de laranjeiras, sombra e intermitente brisa, lembrei-me de Sevilha nos tempos em que por ali andava. Isto porque no mais cheira a meio trilho tem mesmo por ali um tão belo, como degradado, como inconsciente de si próprio prédio andaluz: duas portas abertas, duas tabernas, meti-me lá dentro, farejando os ares, demasiadas poeiras, cheiro a fritos, gorduras, falta de chá, de classe... 



Ibn `Ammâr



[O Meu Coração é Árabe, Adalberto Alves, Assirio & Alvim, 1998]

sexta-feira, 1 de junho de 2018

PRAIA LONTANO EM VIGO




Praia Lontano passou por Vigo. Apresentou-se o livro. Para falar depois do que foi escrito e do que há para escrever. De livros, de literatura, do conto e do romance, de micro-contos e calhamaços, de Jorge Luís Borges, Unamuno, Saramago e Pessoa, de Lisboa, gentrificação e Campo de Ourique, do Estádio de Alvalade e dos Balaidos, do Benfica e do Celta Vigo, da Galiza, de Portugal e Espanha, do iberismo e dos nacionalismos, entre muita coisa mais. O espaço é magnífico, nobre, de encher as medidas pela sua beleza e antiguidade, cercando-nos de História e de livros dos nossos grandes poetas e escritores. Muito obrigado ao Instituto Camões Vigo, em particular a Carla Sofia Amado pelo seu trabalho, inteligência, diligência e simpatia. Foi um privilégio e um prazer.

sábado, 12 de maio de 2018

110.




PORTUGUESE THREAT


Não se repete este quadro
Três horas ou nem tanto
Em Madrid
Subir da Cibeles ao Congresso dos Deputados
A Salamanca
A praça das cervejarias
Cada uma mais autêntica 
Graciosa
Entrei na terceira
O empregado de balcão era dos puros 
Versão madrilena do Albano da Bota Velha 
Só que mais alto, firme, decidido
Pode ser um bocadilllo de tortilla - e que tortilha!
Com pimento vermelho
Picante
Acompanhando a cerveja, uma caneca
A ouvir dois sotaques americanos
Um era guia turístico 
À beira da reforma, já vivera
Em Paris muitos anos
Conhecia Madrid de umas dezenas 
De vezes e Lisboa também 
Dizia que em Portugal todos falam inglês
O outro não faço ideia da profissão, mas sempre
Opinava que Portugal é complicado
Com tanto excesso de Esquerda
Pensei logo nessa famosa capa da Time de Agosto de 75: Red Threat in Portugal
O guia, porém, extirpou-lhe as ânsias - calma 
Agora já não é assim 
A Europa não deixa
Entretanto de frente
Ao balcão um enorme espelho irlandês com a ponte de Saint Patrick
Perguntou então ao Albano madrileno se podia tirar uma foto, era para a filha que tem
Um bar em Nova Iorque
Nunca havia visto a ponte assim dessa maneira - pretty cool
Então o guia achou que devia saber se estava a gostar de Madrid
Oh yeah, Madrid's beautiful, tinha chegado ontem
E já estava a ver coisas raras
O guia então debitou um bla bla bla 
Só percebi aeroporto de Filadélfia 
Estaria na hora do Museu
Do Prado
De pedir a conta
De começar o trabalho. 

sexta-feira, 30 de março de 2018

PELES VERMELHAS

Escreves enquanto desenhas. Descobres a forma que te descobre. Tens na pele a cor vermelha. Não se sabe se do sangue, se da tua tribo, ou se és de todas tribos. Não podemos dizer não sabemos nada. Há sempre o limite, essa linha enquanto não vemos o que nos sai da matéria. E tudo enquanto não sai da linha. Poeira ao fogo, a seta escrita: Peles Vermelhas. Sentido confundem. Sentidos sentidos nos defenderemos. Peles Vermelhas. 

Para atacarmos a descoberta precisamos desorientar o presente. Zás de onde vem a guerra. Peles Vermelhas. Damos gasolina ao cronópio. Somos todos parentes, é qualquer dança o que viaja. Deixamos tomar-nos todo o exemplo. Entrará na carne se entretanto não for atingido pela flecha ao contrário. Acendalha. Não queremos necessariamente dizer nada. Marcamos a linha vivendo o traço a percorrer a vida o que desenha. Peles Vermelhas. 

Temos mais motores do que imaginamos. A nossa cidade é esmaga e densa a populosa. Espírito extravasa desenha forma. Peles Vermelhas. Não existem mãos para medir a megalópole. Só precisamos contar mais longe. Contemos com nadas. Assim se caminha com a chave há samurais. Muito frágeis quânticos oligarcas do sonho leveza pássaro um peixe nada. Uma montanha. Um vários um. A cor contra torcida maré. O som mais surdo é o volume mais alto. É o grito fundo do bosque África fábrica dentro dos túneis a Tundra Asiática. Peles Vermelhas. 

A derramar tintas a nova boa. Sorrindo a palavra forma. Atrás do Espírito Vento. Dentro de um tu e nenhuma parte. Rui A. Pereira.*

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* - Na livraria Círculo das Letras, rua da Voz do Operário, 62

109.


OLHO DE GOYA

Os tempos davam tempestade

Forte em certas alturas
Da estrada
Vinhas do País Basco
Reflectindo todo o sul
Da semana passada
Depois, enquanto escolhias dois robalos
Falavas da infância, das férias 
Chegado a casa, onde pudeste assentar 
Tomando consciência de envelhecer aquelas horas
Até teres mesmo de criar um novo emprego
E poderes ajudar este poema
Pensas na cerveja de Bilbau
Vem-te à ideia Orson Welles e os pombos correio de Euskadi,
Espanha-França-Espanha-França,
Mas sobretudo esse auto-retrato de Goya
Lembra-te bem, não se desviou de ti milimetro até ao fim da sala
Não te tirou os olhos o olhar
Trazia dito topei-te não tens escapa
E agora sabe exactamente onde estás 
Vivo dentro
Fora da miséria.

quinta-feira, 29 de março de 2018


     - Primeiro há os que escrevem, depois há os que escrevem o que escrevem. 






Este ponto de vista não é um ponto de vista. Não está no seu ponto de vista. É um ponto com vista, sim, uma vista com vários pontos. Mesmo à minha frente, tropical, a pequenina praia, ninguém,só eu mesmo neste improviso de esplanada com duas mesas, um Porto Tónico, uma caneta, o caderno onde escrevo, e centenas de pássaros exóticos escondidos em árvores por companhia, em cantos que eu nunca tinha ouvido, nem imaginava sequer que existiam. Não, este ponto de vista não é um ponto de vista. A beleza de nada vale quando apenas é sentida como um incómodo. Indiferente. Podia estar na mais lúgubre das cidades, no mais lúgubre dos subúrbios da Terra, num bairro de lata, numa lixeira. Sentiria o mesmo. Disso já fiquei com toda a certeza. Toda a beleza deste paraíso agora não passa de um atoleiro. Sentir-me assim para além da morte – tantas vezes penso: antes morresse – não deixa de constituir uma morte lenta por lenta asfixia – se assim não é, assim o sinto. Constatar que nunca respirei na vida oxigénio tão puro e faltar-me o ar. E se não há viver sem respirar, não existe respiração fora dela. Só desespero, desespero mais puro que o próprio ar, o mais puro desespero... Salve-se a ironia, uma ironia cruel, uma ironia que me sabe morder a cada instante, insaciável piranha. Se é para acabar comigo de uma vez por todas, siga la banda, atente-se no nome  deste mar: Oceano Pacífico. Pudesse eu sequer rir de mim próprio. Oceano Pacífico, ilha, resort exclusivo, recursos ilimitados, até ao fim da vida, que maravilha, quem dera, viver aqui neste exílio.... Viver para sempre, antes que acabe, não é? Antes acabar de uma vez por todas, é o que é. Torturar-me assim nesta saudade, veneno a corroer-me as entranhas, bactéria da minha aniquilação. Esta falta da minha Aurora é um morrer que nunca mais acaba.

quarta-feira, 28 de março de 2018





- Fez um teste de resistência ao meio. Por ali mesmo passou-lhe a lâmina.



terça-feira, 27 de março de 2018

segunda-feira, 26 de março de 2018



De uma margem de prata, não se sabe quão antiga, abre sobre a vereda um trilho até esta minha velha casa onde se vê o mar anoitecer. Não está muito longe do porto, e os tons de prata, onde se intrometem pinceladas douradas, dizem, são ainda marcas desse opulento, famoso milenar naufrágio ao largo da ilha de Lontano, já lá vão três séculos. O que não faz grande a diferença, logo aqui, é como se o tempo parasse. O tempo é relativo, poderão dizer. Direi que não, que o tempo aqui é um absoluto, mais um absoluto, nunca abrevia, apenas condensa. Poderemos pressentir, enfim, suas próprias gradações dentro daquilo que se suporta na sua duração, porém as mesmas serão sempre medidas com uma lente de aumentar, o que vai da lupa ao microscópio. Depois há quem fique, depois há quem parta. Há quem nos fica, há quem se esqueça. Jorge Lisboa viveu na ilha seis meses, pareceram dez anos. Barco vem, semana vem, será o único de fora que se avistará na costa entre Domingo e Domingo. De resto, estamos todos entregues a meio serviço. Copo meio cheio ou meio vazio, assim é a escola, um posto médico, o mini-mercado, o restaurante, os dois cafés, o posto de correio, a biblioteca. Toda a ilha vive a ameaça iminente do vulcão e a gente não fica.