quarta-feira, 8 de março de 2017

65.


Nova palavra antecipada 
A direcção
Escrevia eu enquanto escrevia
Para aí me dirigia 
Sevilhas de verdade 
Romance da própria vida romance entroncamento de romances
Que correram
Mau, lama, as raízes...
Matéria a matéria acimentada, enfim, passar, vamos passar 
Por cima ao alto e pára 
O baile Galiza 
Norte do norte do nosso norte norte nosso 
Norte casa 
Rodagem da roda 
Da fortuna a Finisterra 
Aí nos temos
Conjunção nomeada antes do beijo e de toda a terra tremer quando nada pode 
A casa, sim, la casa
Si la nuestra
Casa nossa à nossa

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

64.


Não racionalizar a sombra. Não pensar a sombra. 
Deixar a sombra ser a sombra. 

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A humanidade a pensar que pode ser solta a vida inteira. A solidão sem união que não a circunstancial circunstância. Como uma sonda. A derivar no espaço. Sondando.

*********

A cidade. A grande cidade não hospitaleira. Um cinismo uma presença pertença amargurada. Que não quer saber disso agora. Não quer saber de nada agora. 

********

Quando um destino, o Destino,  conspira dentro de ti deixas de ser céptico.

********

Ai eu estive quase morto no deserto e o Porto aqui tão perto...

********

Ser todos os lados é transmitir todos os lados menos o lado onde se transmite, onde se é. Onde se delimita o limite onde não se dissipa. Onde só nos dissipamos em transcendência. 

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Traz a palavra valor de trás da palavra.

*********

Meio morre à fome? Morrer à fome é um dos meios.

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Dia a dia não é foguete a foguete. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

63.


Cheguei ao lobo
Não mato nem meto
Mais gelo o tempo
Ao Inverno, sim
Aguento

Não fico não me demoro

Não sei do tempo nem do horário dos comboios assim de repente
Se virá de Zurique se é
Madrid que eu amo.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

62.



TECHNICOLOR TU
Para Lucila 


Preciso de escrever.  Te escrever. Te escrever preciso
Estás agora a dormir. Dormida tu. Y te quiero
Preciso escrever. Preciso escrever preciso
Estive metido por entre os astros. Precisos astros. Energias
Precisas
Via-te assim como exacta
A geometria só me faltava
O descontexto 
O como te puedo decir en castellano como ex con texto
Sin problema pues te quedas conmigo y te ríes de mi de mí por mi
Cariño te emocionas y aún más toda mi suerte aqui es fortuna y no hay otra manera
Mi amor, nos queremos 
Te queria decir, ahora en portugués, que o que me faltava naquele momento era literatura
Um pouco de lama a cobrir-me as paredes inflamáveis
Todo eu eléctrico urano
Oposição à boa sorte como energia a transformar um esgoto em Veneza excepto
Se me organizar excepto
Se necessitar de organizar como 
Controlar por no tener control
Até chegar a casa tu casa más tranquilo
Sim, começámos a viagem quando nos nasceu o primeiro átomo
Verdadeiro contra prosaico 
Porque esse átomo era um pixel ao primeiro sinal foi contra o rosto
Seu destino eu que és tu
Nós dentro de nós outros 
A toda a hora nos queremos via as galáxias
A noite no directo sentido de à noite nos vemos
E sentimos melhor para despertar en tu mañana ultra planante esta plenitud voz del sur 
Tu eres mi norte
Musa italiana actriz de los anni sessanta
Atómico preparativo 
De lugares planetas evasivos
Colonizamos nós outros dentro 
O amor precisava escrever amor, precisava escrever, amor
Ser escrito agora agora único único
Linguagem toda a linguagem 
É simbólica então fazes-me eu faço um símbolo 
É o símbolo animal selvagem cria
Sem destruir 
Amigo de todos os jantares antes de nós 
Corpos que se querem cama 
De todos os lugares tarot
Infinito particular
Cantemos 
La profundidad
Desse Brasil Argentina
Entre Alentejo e Galicia

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

61.


FABULOSA MALTA ALENTEJANA


2011 - Descobri isto com Bolaño: escrever com música altos berros aos auscultadores. Longe da voz bem perto do bater do batimento cardíaco.

2014 - Não se sabe bem onde, nem se a escrita vai de três a onze dimensões…

2003 - Ninguém me acredita, o mestre gritou, então caíram uns atrás de outros quais peças de dominó. Mas outra vez ninguém me acredita…

2009 - Então botas calçadas lá vou eu. Passo os montículos de terra sobre o penhasco da rocha, o mar abaixo mesclado em névoa, barcos bem perto trouxeram peixe acabadinho de pescar. É Porto Côvo dia de nevoeiro. Um pescador que fez tertúlia ontem naquele improvisado grupo ali ao Rossio a perguntar se não queria comer um peixinho, e falava a sério este aqui é o meu pai, e insistia que eu me sentasse naquela improvisada esplanada de uma mesinha mesmo à porta da rua, com as pessoas a terem de desviarem-se para a estradinha.
Eu respondi um rotundo não a soar a fome: tem óptimo aspecto mas já almocei... Enfim, apetecia-me estar sózinho. Também não queria ser mal educado: trazia-me comigo o tempo todo e toda a gente à minha espera...

2021 - Foi aí que eu disse: Soubessem como em Lisboa aprendi a tornar-me insensível. Vá-lá que me belisquei quando vi o papel de que eram feitos certos tigres... E contra isso, amigos, o tempo pode pouco ou quase nada. O tempo, quando muito, deforma.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

60.


IBÉRIA LÓGICA

O milagre sim
Um milagre vem
De Espanha
Tragédia por tragédia maior tragédia foi
A Armada Invencível a outra derrota
O NON menor
O enfim
Esquecida
A vingança ao Grã-Jesuíta
Revancha protectorada a uma Grã-Bretanha 
Prefiro antes uma Grã-Ibéria
Festa da fiesta onde podemos ser
Parte o mesmo barco 
Até porque carne
Já o (éramos já)
O somos

59.

Tudo se torna falso com o álcool
Já era falso tecto falso tive de 
Furar paredes furar esse suado ir 
Pelo senso comum
Que não fui que não 
Comuniquei
E então
Desbravei furei furei 
A álcool a parede
A álcool que fez
Fez cimento é preciso 
Mais cimento traz álcool
Ou se quiseres antes gasolina
É a gasolina 
Como agora é o silêncio a rosca 
Porque a parede entretanto foi abaixo
Mais espaço menos uma divisão 
Pensas tu
É essa a dinâmica de destruir muros em tectos
Necessário pelo interior a dentro o interior
No que entretanto a cada segundo está instalado
Cada segundo a salvo
Do génio intrínseco mecânica dos motores
Sotura de infância mecânica de ser
O que sou antes de eu 
Ter sido destruído destruindo
Ir por ali adentro tal como se usam tanques na guerra depois
Do bombardeio 
Quando 
O que mais te querem é 
Que decores quando
O final é que os decores

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017



LOBO À COLINA DE SÃO ROQUE


Les Photo
 Inquéritos de satisfação
Este relativismo doido
Rede presa em casa
Nas casas Marchar contra
Entrar no bairro, na colina
Fui
Lobo gélido insatisfeito
 De humores fora da toca
Não vos digo nunca onde
Como nunca sei
Onde você mora, ou sei
Explorar o que há para explorar
Como está Lisboa, como está?
Como está Lisboa hoje, como está
A subir e a descer subir e descer Bruschetas
O Forcado Peixe laranja
 É a Rua da Rosa. a Mamie Rosa, chapéus Galo de Barcelos Cozinha trendy é portuguesa é trendy é portuguesa Sim E o Brás Grogs Dança da Comida Ao fundo do fundo do fundo O Mini-preço Um
É gente a mais, já almoçaram Fidalgo Faia Vazio é o faro
Pirata bar um preto homem Martelaria pesada tá tum tá tá tum tá tá tum tá
Ai Precisava de saber mesmo como te escondias atrás desta merda na tua toca
Tua Casa casa sempre casa Sempre casa sempre Em casa
Rá-tá-tá tá-tá tá-tá-. tá-tá- tá-tá-... Travessa da Queimada
Bairro Alto massa
 Rua da Atalaia tudo
Em película quando alcanço as Catacumbas Memórias de noite
Tu eu Alcateias consoante décadas
Lá fora acasalados num carro Lá fora, disse, sou lobo, nunca fui apanhado
Nas escadas de um prédio mandou vir
 Com o barulho fui daqui até à Alameda Mandei-te o convite, está lá no facebook...
Sopro o sopro ouvia isto aos dez anos
Abro a boca o focinho ao cheiro oleava faz séculos
Devorava isto tudo.
Às barcas, às barcas! Pelo mar e pelo mar...
 Ás malvas! Ás malvas!
Estimados É como é como comer papel Souvenir tamanho não é memória Mera é mera a constatação Voilá, era um convite Vou Shop-shop mini-mercado Travessa da Boa Hora, antes isso Uma preta mulher Só para dizer que aqui estou sempre no antigamente Século XVII, XVIII sobretudo E o terramoto? O fartote? Antes, quando antes era tudo bilingue, bom
 Jamais esquecerei os estridentes risos dos escravos  iguais
Todos iguais na catástrofe eu é que nunca Mas nunca fiz parte de manadas nem de exércitos Nem de futebóis, sou lobo não faço espécie não sou espécie da espécie se é que me faço entender
Dessa espécie, bom, não vos digo mais nada...
Bem, sei, só me querem porque eu vos dou pistas só eu vos dou pistas as pitas Só eu
Simulo o passado, conto-vos que conto, fui vou e já fui, e já vou...
 Pistas, pistas, pistas gargalhadas pistas gargalhadas, sim, bem gargalhadas
Hei! Mas não me riu nunca me riu nada disto tem graça nenhuma
Ou tem se tem, por outro lado Posso contar do passado...
Ou não, não, não, não conto do passado como Não conto o passado como
Não conto com o passado Ouviram?
Uivo a isso Vão bardamerda, Uivo a isso
A todos bardamerda a todos, uivo a isso
 Só mesmo quando estou disposto Bem disposto quando dou uivo Por ela uivo uivo ó bardamerda S
oubessem vós como tenho de me centrar no alimento Isso que odeiam, isso, e odeiam-me!
Isso, odeiem-me Sou lobo não sou nenhum congregador de almas Soubessem vós como estou como vou Toda a concentração ao máximo é sempre o mínimo Um mínimo olímpico, soubessem vós O que são trezentos mil anos Por exemplo... Vá-lá Lisboa ta-ra-ra-ra-ra-ra-rã... Rá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.... Edda em verso perdiz Ragnarok pardalado Lobas à colina! venham Bom cu trans-oriental transexa eu miro é o tempo Nah!... Acreditaram, era?
Nah, cuba exótica, cheirei-lhe Ouvi-a mais tarde.... Três horas depois....Já estava longe...à beira do cais Ouvi tudo... Os sapatos a serem descalçados ela a deitar-se no balcão O bar às escuras até vos digo as horas cinco da tarde
Não acreditam? Querem cheirar? Faro o faro Fixo o fixo Vou o vou ido o ido Sou todo ido e estou Estou o estou Fenrir e príncipe nas margens do Volga Até predominei em Sevilha Austrália a pé Vossos céus coitados, não têm disso Vossos infernos, pior, estão cheios de água Não atravessam nada se não atravessam Nem pelo inferno... Mas vamos lá vamos lá: Cuba à vista! Num bar! Uivo a isso Opá The Pint Estation Espera aí na varanda A salsa canta a saliva Sientes que te quiero más con mi...Lalalala Sou um Shazam Disseram-me isso, sou um Shazam Não sei o que quer dizer mas aceito Desafio aceite Voilá e já o era Atraio E mais, mais, mais souvenirs mini-mercado Do paquistão ou do Nepal je m'en fous Tapa bucho tapas y pinchos Estrella Damn, diz lá, Estrella Damn Travessa de São Pedro Cuidado O ponto seguinte do percurso é cansado: Tacão Grande Mil Novecentos e Noventas Entas A Catarina Santiago Costa diz que falávamos muito sobre cinema nós dois nos noventas entas Uivo a isso!

Mas é andar....

Parafernália a parafernália
Parabólica branca medonha de alta enorme cobre todo o MC da esquina Como se ninguém soubesse Como as ruas são curtas as casas contíguas mas aquilo enorme A anunciar um fim de um bairro, mesmo que hipotético É o fim é o fim eu já vi tantos fins Só esta colina de São Roque sempre a começar sempre a acabar sempre a começar sempre Vá das ruas marcadas Memórias... A parabólica diz Contera Ai a Alfaia Comi lá, uivo a isso mas
Ai ai ai Tasca Tequilla Bar Mojito Mezcalina Conchonchada e enchilada! Bom, não percebo a letra... Pancho Collins? Sim. Et Sim: The Corner Irish Pub, bom, agora leio melhor: Sex On The Beach, Irish Car Bom The Westies, já agora... Whitey Bulger, já agora Steve Coonan, pois, South Boston, ai como eu sou Bela colina Azúlea cinza e perigosa Lá
percorri E para sul: Rua do Norte Hostel marisqueira aché Cohiba Alface Hall Cobalto Corgo Alto Coturno? Travessa de Esperança ristorante italiano Adega Machado Fado fado fado Bad bones tatoos Baco Alto. Baco Alto? Ouvir melhor: Cê viu a mesma casa? Já, já-já... São Já Está O Farta Brutos, sim, o Farta Brutos Isto em tempo de farta Brutus é monta Querem o quê? Tempos não são tempo Não entendem? Não explico Olhem o Leitão & Irmão Wine Lover, isso! Está bem está... Isso, Severa Fado, isso! Isso sim, Severa Fado Severa a escrita encarnado Vende a tempo antigo Cor portuguesa como o meu pêlo Verde o maço de Marlboro Sou lobo não sou tradicionalista Não sigo. Não sigo nem deixo de seguir O vazio & Trendy Bliss Lisbon Apartments Metálica opaca ó Pá tanto faz aqui como em Pasteur Assim como assim Não é nada é nada Afinal O Cantinho das Gáveas Nesse Estádio já não entro Onde havia amendoins antigamente onde fumavas O Mike e o Armando anarca Tinha estado com o Luiz Pacheco e toda a gente que não conheci Lá não estava mas estava Sim, falo de ti E a jukebox ai ai ai a jukebox agora agora ouvem mais a jukebox do que quando a jukebox existia fazem bem Usar do instinto da sobrevivência não conhecem a forma As formas como Lisboa é manada em texturas das suas peles Não conhecem nada não têm culpa vão conhecendo, é isso Clichés noites perdidas a mil paus granadas. Não? Meu amigo: 1913, vai pó caralho, ok? Sou Lobo, não um amendoím temporal ou se quiseres palhaços, um amendoim em temporal: tu! Porquê? Comia-te em cerveja. Cuspia-te até a beber uma Cristal ó contingência Santa Contingência Vem-me a mim
Via-me a mim mas eu não estava Então como então agora presente sempre presente Acendo o lume ainda me fogem... Ofendem Não estão a ver a minha casa nem as suas A verdadeira face, como se diz, sou lobo, não contautor de anedotas – ainda por cima as vossas
Antes diria morram, morram todos ou vivam agora todos
Kebabs Ai ai, uivo a isso! Olhem bem para o exemplo da Taberna Minhota Bitoque costeleta de novilho Ameijoas à Bolhão Pato Falafel durum vegetarian pita kebab Durum durum... Pastel de bacalhau o dobro do tamanho e a Ginjinha a êro e meio...


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Ontem





Não estava tão escuro quando passou por mim ontem. Nunca ou quase nunca estou no meio da gente. Afinal sou (ou também posso ser) Lobo, como os mais próximos sabem, ou saberão, e não gosto dos ajuntamentos, dos amontoamentos, neste caso nada contra, mas mesmo assim, fuera. O que importa é que três metros ao meu lado estava Roberto Carneiro, ex-Ministro da Educação, como José Augusto Seabra, que também foi Ministro da Educação, que foi o preso político mais novo da ditadura, aos 16 anos, que como Mário Soares esteve preso em Caxias, que como Mário Soares se exilou em Paris, cidade onde nasceu o seu filho, o meu grande grande amigo Luís Seabra. Isto para constatar a geometria - quando aqui há ainda geometrias mais secretas que se interpõem, e outras pertinentes, mas que não vêm ao caso. Adiante. Importante mesmo foi aqui ter constatado a geometria. Ver como Deus geometriza, como dizia Pessoa. Ou se quiserem, como a própria Vida geometriza. É que a vidinha não geometriza nada. Não desenha sequer uma linha. Não é capaz. É do medo.  

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

58.

Conversa ouvida ao meio, entre o meio entre os vários meios: «eu é que tenho ração», «Sim?», «Sim, tu também podes ter, depende do teu Pedigree Pal». Assim que tais... Cães das tias, entre as tias...

57.


CABRA CEGA

Cabra cega não vê, julga
Que encontra, presume 
Dá-te a ver seu labirinto 
Agora quer que te desorientes dentro
Quer que te percas, que o que importa
É o que já não mais importa, mas importa
Que te percas 
A sentir a vingança
Do seu erro
A quente 
Sem saber quem é quem é
Se a queres não a queres 
Muito menos
Muito mais se não vais
No caminho da cabra cega

Se fores reza 
A tua sorte
Saindo
A cabra cega não te apanha...


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

56.


METAFORMOSA

Uma simples barata é capaz
De fazer disparar toda uma cadeia de eventos,
A começar: o êxodo das casas pelo insecticida

Ela falava-me assim num doce leve acarinhando
Desenhando-me um sonho como sugestão universitária 
E eu, de acordo comigo há vinte anos, 
Não discordo em nada do que ela disse
Que se dane este tempo
Quero o devido confronto que me fez sair de casa,
Antes de mais nada,
Na direcção da sua voz
Fina recompensa fazer valer a pena
De distinta maneira
Poder ir dar ao encontro da assassina metáfora.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

55.

Ninguém tem mais poder que tu para interpretar estes signos. 
Sim, tu
Tu tu tu
E nem entendes nem sequer ideia. Tanta cambalhota acrobata virtuosismo desarticulado Desaguamento nesse non sense que nada assume não pode
É um claro que não
Ter de entrar em cada signo, interpretá-lo
Todo o futurismo, amor, já não é ingénuo, já nem sequer é futurista
Acabou e acabou - corta e cola na descoberta que já não há mais nada a destruir?
Foi tudo destilado pela bicheza parasitária do tudo que nos revolucionou 
Todos os comandos
Ironia? Medo nenhum da ironia. Ironia? Sim, tens medo, sim
Só que usá-la dentro do medo dá vitórias dá errado inventa purgatórios - desconheces? 
Um balão vazio que logo explode e em ti não há sequer queda, dissipas como um sabão quando não és
Nem isso
Medo? Queres o meu medo? Então está bem. Tenho medo
Da potência desse choque
Esse medo que dá não ver já o tijolo já partido 
Que é a única maneira de partir o bloco de gelo tijolo coito interrompido
Que só (o) dividido serve para erguermos nosso edifício 
Para nos erguermos 
Neste cada um a seu lado

sábado, 20 de agosto de 2016

54.


- Rasto de sangue? Nesse preciso lugar onde matas ou morres? 

- Última Hora: Amor eleito pelas leis da física perdeu sua força de gravidade.

- Da fusão, suas grades.

- Reconstruir sobre o terramoto sempre é melhor que abandonar suas ruínas.

- Não vale a pena versus pena desgraçada versus tem boa pena. 

- Prefere-te de costas, projecta-te um filme. Podes ser o fim.

- Ao teu mundo a tua chama, tuas águas, teu ar, tua terra... 

- A mulher onde eu (não) exista. 

 - Só um Deus pode sustentar um absurdo. 

- Não é nada etéreo, é terreno, bastante terreno. É aliás todo o terreno. E não é para todos. Na verdade é só mesmo para si próprio. 

sexta-feira, 17 de junho de 2016

53.

Para uns a inspiração é muito mais rara que o amor
Para outros menos, muito menos 
Mesmo assim saiu-lhe: vou ter com a musa...

Ela não evitou o vulgar
Bem sei, o vulgar faz parte 
Sobretudo
Toma parte
Da merda da merda
Deste lugar

Que musa, qual musa?
Onde é que tu vais? Vou escrever, disse
Estás inspirado então
Aproveita
Isso

Não fossem os cornos nossos
Dos nossos
Esses mesmos
Carneiros com que contamos a noite...

quarta-feira, 8 de junho de 2016





«Num mundo em que os prazeres são de casa de brinquedos, as dores não podem ser de casa de ferragens.» 

Macedonio Fernández

domingo, 29 de maio de 2016

52.


Ainda estou muito longe dela
Consigo ver o bastante
E quantas milhas de anos
Comprimidos absorvidos condensados
Concentrados, em meses
Mais, mais...
Quanta distância...
Sei que entretanto continuas a jogar
Esse bluff cheio de trunfos
Entretanto ainda se chora a solidão
Entretanto ainda (e) sempre ando todo dia para aqui a arregaçar as mangas
Quanta distância...
O fascínio de qualquer viagem que cubra
Esta nudez de desespero
Na estrada não se vê bem, é de um interior qualquer
Pudera ser de outra maneira
Só que por dentro transformo-me dentro dela
Por ela
A viagem é ela
Caminha
Até ao dia em que diremos chegámos
Isso que vinha escrito numa estrela
De uma noite passada
Essa certeza que
Não a podes ignorar...

terça-feira, 17 de maio de 2016

Beetlegeuse




Acordar tarde finalizados os sonhos descontinuados. Jamais vi aquelas pessoas, aqueles lugares, aquelas situações. Uma asiática e uma farmácia; um metaleiro pedinte; um carteiro numa cidade inidentificável. Isto depois de ter adormecido na tua imagem. Até despertar suado-arrependido. Raio comprimido o raio do comprimido - mas adiante. Vivam os copos. Vivam os anti-corpos. Os anti-corpos nunca o anti-corpo - e a nossa corda é muito mais forte que tudo aquilo que a sustém, vá-lá. Eu vou. Intuo tudo através dessa luz precisa nascida no preciso momento em que nos conhecemos. Autómato negro dicionário. Do sacrifício que ninguém lê. Do sacrifício que lê o que ninguém vê. Do sacrifício que é = a sacrifício + nada = sacrifício. Do sacrifício que multiplicado, bem sabemos, equivale ao zero. Pois assim como assim graças à matemática fui desde ti até à infância. Ter com a equação irresolúvel. Combinar naturalidade com o medo de te perder... Medir o receio de te magoar com o teu absoluto desinteresse... Enfim, talvez possa daí poder inspirar algum novo malabarismo, alguma variação no trilião... Interesse, nenhum. Depois, todo o já é aqui já aqui agora já. Esquece a memória: obscena a forma como seu diâmetro incha e expande, é como ter o Sol ao lado de Beetlegeuse. Grão de areia contra a montanha. Matéria luz 2 = 0. 2.0, ai do ser, a Super-Nova. 

terça-feira, 19 de abril de 2016

51.

- Fez um teste de resistência ao meio. Por ali mesmo passou-lhe a lâmina. 

- Dormindo com todas as mulheres só se sentia a dormir com ela. Quando dormisse com ela, dormiria com todas as mulheres. 

- Não sou eu sem o meu poncho dos Andes, esse cachecol, só me serve em casa.

- Não entro nesses meandros, nessa sopa de algas, nem quero saber se faz bem à pele.

- É do jazz, sou do cinema. 

- Pegar num livro e chegar de imediato ao lugar exacto onde se devia estar. Nada há de tão mais divertidíssimo. 

- Ter o mapa inteiro, as coordenadas... Tudo descoordenado.

- Seu texto está cheio de equívocos. Como se a latrina fosse a lotaria... 

- Teu poema queimou-me as superfícies certas. Laser sobre a ferida, salvo (o) erro...

- Sou daqueles que acredita que todo o lodo é batota. 

- Lá porque não se gosta de ouvir não quer dizer que tenha de ficar calado a vida inteira.

- Jesus Cristo Júlio César Augusto Marco António Cleópatra Bonaparte Cláudio Constantino Buda?

- Muito obrigado, Miguel-Manso. Muito obrigado, António Poppe. 

- Deixar de ter de depender não é deixar de depender...

quarta-feira, 6 de abril de 2016

50.

Sou muito fácil de encontrar, mas não venham ter comigo. Três quarteirões seguindo pelo acaso até parar três horas mais tarde - três pessoas em conversa - a concluir que nada havia ao acaso. Pior mesmo foi saber o que se perdeu no (teu) incêndio no Chiado. Duzentos e tantos metros quadrados por um T2 (ou era T1?) na Zona J - e sabias lá tu o que era a Zona J, suponho que ninguém sabia, da minha parte só tomei conhecimento uns quinze anos depois... Infância, Agosto, férias em Vila Nova de Milfontes, aparvalhado e combalido pelo choque - nunca tinha visto nada a arder, e logo o Chiado... No dia seguinte estaria nos jornais, no próprio dia fomos ao café ver o telejornal. Tu estavas de viagem  para o Algarve até que deste meia volta à chegada. Ainda não havia telemóveis, internet, essa coisa da cidadania onde já não sei se hei de meter aspas ou não. Pela descrição que deste se calhar até o Julian Schnabel ficaria maluco pelo teu ex-espaço. Mas indo ao Abecassis da questão, isso da cidadania, meu caro, pelo menos como a entendemos... Quantos é que eram mesmo? Os traumas pegam-se, amigo. Ia escrever - ou à melhor, no caderno antes de ser passado a computador vinha escrito - os traumas pagam-se. Deixa(r) arder. Pensar no fogo criador quando já não há nada a fazer. Que a humanidade mal existia na Idade do Gelo. Vou fazer como tu, agora que perdi a confiança. Sim, no que tantos encontram um privilégio, perdi completamente a mão. Mas eis que tu e a tua especialíssima cara metade  - deu para ver, perfeitamente para perceber, intuo-te a tanta sorte - inspiraram-me. Por enquanto vou apanhando alguns bocados daquilo que para os afortunados são pequenas coisas e para o habitante da Serra Leoa um sonho jamais realizável: um Bacalhau à Brás no dia seguinte, um texto espantoso no facebook de alguém a quem prometi mostrar o meu bisavô versus Sidónio Pais. Scanning directo à carótida, acredita. Enfim, no caderno lia escrito à Carbonária, claro que não era, vai na volta, com a minha letra, se calhar era mesmo à coronhada... 

terça-feira, 5 de abril de 2016

49.

E a montanha pariu um rato. As montanhas andam sempre a parir ratos. Parecendo que não ando desde quarta-feira a tentar mas ainda não cheguei sequer ao pedal da embraiagem. É noite-após-noite-após-noite. Atrás-atrás-atrás-atrás-atrás... Nada. Acha-se um piadão ser fantasma. Esconde-esconde-esconde pede (é) tudo o que não sou. Truz-truz-truz não e não e não. É da cartilha, a vencedora, conhece-se mas não se conhece... Ou à melhor, ou melhor, a partir do momento em que desaparece toda a vantagem nesse ponto de Lisboa onde a ravina se prepara para inclinar à séria... Enfim, é de ir pela boca do rio. Isto até ao Terramoto - mas adiante, é só um parêntese. 
Mas voltando ao fantasma - já que não te apanho (a) forma (alguma) de forma alguma -, a mim lembra certa vez em Sintra a rirmos que nem uns perdidos nesse Estágio de Verão de Aikido. Tanta prática, prática, prática, o físico ao limite do espírito, o espírito ao limite do físico, horizontes carregados de verdade, verdade carregada de horizontes, sempre a furar, sempre a furar, incessantemente, a ultrapassar... Depois, no fim, relaxados até mais não, endorfina (à) solta, já íamos de noite bem jantada, epá, qual é a cor do teu cinto? O meu sinto é pardo, e o teu? Pardo? Então o meu também é pardo. Óbvio que é pardo. De noite todos os cintos são pardos ah-ah-ah... Não tem piada? Entendo, é precisa muita endorfina para lá chegar, só mesmo de turbo accionado à horas. Mas ficou bela a definição. Tão sublime que desde aí me acompanha, até hoje. Graduação? Sou pardo, não insistas.