domingo, 10 de novembro de 2019

132.



PONTEIRO A MEIO DOS ANOS NOVENTA


Os signos, os sinais, os papéis, as cartas
Se tinha de encontrar algum sumo de vida
Apenas extrairia essa tinta negra
A tapar-me a vista
Eram tempos camadas de tempo
Pesava mais o ponteiro
Rigor de uma muralha
Contra um insulto de possibilidades 
Não era o campo, muito menos a cidade
O tempo sim, inóspito, marcava o frio
Por mais calor que fizesse
Soubesse eu, teria poupado o esforço
Teria investido o tempo, o saber
Sem saber nada
Sem ter forma completa de me alimentar
Ser preciso sofrer quando não era preciso
O que sobrou? Até ver
William Blake, Pessoa, Pessanha, Nietzsche, Henry Miller, Rimbaud, Baudelaire... 
Acabar a Voyage au bout de la nuit pela primeira luz do dia
Seis e meia ao ponto no ponteiro 
Relógio a meio dos anos 90
Já era dia e era noite. Era Verão e era Inverno
Claro que era essa velha canção dos Doors que me cobria o espírito
Com o cuidado de um bom cobertor.


quinta-feira, 7 de novembro de 2019

ALMANAQUE PRIMEIRO


- Agora consegues ver melhor a História. Perceber como todos aqueles hinos de rock'n'roll punk harcore traziam carregada a tomada da Bastilha. 

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- Essa manhã em que os factos não cavam lógica entre si e tu estás implicado entre o acontecido sem nunca por ali teres jogado – e sem sentires a relação entre ti e o que te chega. É tarde e nunca o virás a saber: não podes ver o jogo que te joga, o que está no segredo que te movimenta, Ou de outra maneira: a noite é a fortuna que te vale e que te cegaria pela luz insólita de outra matéria. 

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Criadora de guerras implacável inflexível
Crê que é pacífica
Porque se situa razoavelmente à esquerda
Nunca sai do seu lado.
Torna as suas ideias as dos outros
Nunca sai do seu lado
Incapaz de sequer respeitar o oposto
Os fins justificam os meios
De frente, como no passado
Regista a (sua) práxis
Funciona sempre de acordo com as (suas) regras
Nem vê outras
E à sua maneira cada vez mais
Subtilmente enfatiza
Como vitórias
Todos os empates da vida.

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Não ser aquele que entra na sala com o telemóvel em riste a tirar fotos 
Sem olhar para nenhum quadro e não ser no ecrã para a foto
E com muita sorte não tropeçou, o que traria toda a justiça à situação
De Murillo, o estilista supremo, relembra-nos, a lembrar-nos que a sua época é a nossa época
Ali bem perto de onde eu fui parar em 1992 a dormir ao relento 
Consta que vim dar aqui agora para o constatar 
Foi preciso ver a ponte tão fora do eixo de passagem
Perceber que estava bem pior que um turista de aparências.

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Escrevo o poema como um alívio. Alguma coisa que precisava saber. Vomitei das minhas entranhas. Ter uma forma. Ou melhor, partir das minhas entranhas, como diria Norman Mailer, escrever é para um homem a única forma de parir. De qualquer forma, agora sinto-me melhor, o que traz algo de sexual satisfação, do que tem que ver com parto. Parto. 

Meu problema, desde a escola, foi sempre a forma como em Portugal não se tomam as coisas a sério. De nenhuma forma, enquanto se estuda, enquanto se tiram diplomas, enquanto se tem sucesso, credibilidade, reciprocidade, admiração... No lugar onde sempre fui tido como uma ameaça. Onde nunca fui levado a sério. Respondo isto do estrangeiro. Tranquilo. Ninguém me chateia.

É possível que a velha vida ainda venha para aí em referência. Direi que não estou. Mas estou. Pronto a qualquer esclarecimento. E já agora, que me paguem. 


sexta-feira, 25 de outubro de 2019

RED THREAT IN PORTUGAL



Não se repete este quadro: três horas, ou nem tanto, entre a Cibeles e o Congresso dos Deputados. Subida a Plaza de Santa Ana, as cervejarias. Entrei na terceira, peço um bocadilllo de tortilla com pimento vermelho e picante, e uma caña. Ouço dois sotaques dos states, o mais velhote, a uma velocidade scorseseana, que viveu em Paris muitos anos, que conhecia Madrid de umas boas dezenas de vezes, e Barcelona, e um tanto um pouco de Espanha. De Lisboa também falou, dizia que em Portugal é admirável, todos falam inglês. O outro é que trazia um certo determinado toque de macartismo: Portugal? No way, too much left, they're socialists, too much comunists! Penso logo na famosa capa da Time, Agosto de 1975: Red Threat in Portugal. Nah, traquiliza-o o mais sábio, isto agora já não é assim, a Europa não deixa. Nada que pudesse importar o macartista, até porque agora, atrás do balcão, um indesmentível espelho irlandês toma o centro da conversa: Excuse me, do you mind if I take a photo? É para a filha que tem um bar irlandês em Nova Iorque, nunca tinha visto a ponte de Saint Patrick retratada dessa maneira, muito menos num espelho. O outro então quis saber se estava a gostar de Madrid. Oh yeah, Madrid’s great, tinha chegado ontem e já estava a ver coisas raras. Só não percebi bem o resto da conversa. Qualquer coisa entre o Aeroporto de Filadélfia e estar quase na hora do Museu do Prado. 



domingo, 20 de outubro de 2019

131.


Pouca coisa
Uma tabela de efemérides
Billie Holiday, Tom Waits
E Nicanor Parra
Posso fechar-me assim para o Inverno
Tenho o rio
O ar amplo
Esvaziado de maneira 
A caberem aqui
Todos os sonhos que me restam. 


terça-feira, 17 de setembro de 2019

130.


Portugal é um barco que não anda
Mas anda
Não sabe como trava
Mas trava

Espanha é uma planície
Em forma de corrida
Está sempre obrigada a responder
Sim ou não.

sábado, 14 de setembro de 2019




~VOZES~


Comungo vela
No sentido lâmpada da cena
Necessário cozer as centenas 
Esse telefone 
Onde assisto a algum concerto
A recepção da chamada é basquetebol 
A partir do latino receptio
Fasquias pontos cruzadas
Não vemos ainda quase nenhumas linhas.



segunda-feira, 5 de agosto de 2019

DON WINSLOW, THE POWER OF THE DOG





Conheci Don Winslow pela sua posição a favor da legalização de todas as drogas. Fiquei a gostar logo dele. Depois fiei-me no escritor Rodrigo Fresán, argentino entusiasta de escritores a valer, de Ricardo Piglia a James Ellroy. Ora quando Fresán fala em "The Power of The Dog", de Don Winslow, ficamos com a nítida ideia que estamos perante a urgência de algo “maior que a vida”. Sua trilogia começa no final dos anos setenta com a constituição dos cartéis, continuará com o descomunal poder do famoso narcotraficante El Chapo Guzmán, no segundo livro, até ir desaguar ao presente, esse mar aberto de inquietações apocalípticas com Donald Trump ao tempero. E se os Estados Unidos se queixam da droga que chega às toneladas do sul, o México protesta contra a brutalidade das armas que entram do norte para encher suas ruas de sangue e morte. À violência crescente e refinada intuída por Roberto Bolaño em 2666, Don Winslow prefere responder de um modo mais gráfico, chamando os nomes aos bois, truncando apenas alguns bocados de realidade pelas voltas do enredo. Mas não sobra migalha. E na pena de Winslow não faltam recursos, muito menos huevos, para ir directo à carótida do problema. Mas nada melhor que puxar pelo bom do Rodrigo Fresán, velho amigo de Bolaño e genuíno adepto da maquinaria literária de Winslow: «El Poder del Perro (The Power of the Dog) es una de esas novelas en las que nos se va a vivir mientras las lee y – la tasa de mortalidad de sus páginas por momentos quita el aliento – mientras que los leídos van siendo acribillados o despedazados o vuelan por los aires o sometidos a torturas (ya comprenderán a lo que me refiero) de una creatividad católicamente diabólica. Pensar en el Poder del Perro como la versión adicta y adictiva de La Guerra y La Paz haciendo hincapié de lo primero. Mejor aún: El Poder del Perro como la Guerra y La Guerra.»



[tradução para espanhol de Eduardo G. Murillo, Roja y Negra]


sexta-feira, 19 de julho de 2019

quarta-feira, 15 de maio de 2019

quarta-feira, 1 de maio de 2019

LOBO À COLINA PARA ALCÂNTARA, PALAVRA VIVA





          
Um conto ao conto que merece ser ouvido. Lobo à Colina para Alcântara. 

Por Nuno Góis. Palavra Viva. Uivo a isso.


129.


Bob Dylan tem a alma
O verdadeiro poder que sublima
Viveu mais do que alguma vez viveremos
Sempre além, mais além, hoje além
Deus no que deu
Daí tudo lhe sai como uma dádiva
Marca
Daí não permite que tu estejas ali de braço esticado mão em riste 
Com o telemóvel a tirar fotos
Ou celebras e comungas ou limitas-te ao plano do pixel e é bem melhor que te vás embora
Que o que traz Dylan traz é cousa divina, substância do (seu) tempo
Que lhe dá na gana e presta bem atenção: dois minutos podem justificar-te o aqui-agora
Para os aqui-agora que alcançares no porvir 
Até ao que a tua vista puder alcançar
Don't think twice, its Allright 

terça-feira, 30 de abril de 2019

BOB DYLAN EM SANTIAGO DE COMPOSTELA




Ontem, só a interpretação de "Don't Think Twice, It's Allright" foi mais que o bilhete*, o resto veio por acrescento. Assim Bob Dylan cumpriu mais uma missão em Santiago de Compostela, o resto veio por acrescento. Agora o Coliseu do Porto parece-me uma sala mais apropriada para o ritual que o gigante Pavilhão Multiusos Fontes do Sar.


*: e as deslocações, comes e bebes, a t-shirt que comprei...


Post Scriptum: Scarlet Town foi outro bilhete.

domingo, 28 de abril de 2019

TERRA

As massas e seus dirigentes não se dão conta de que não há uma diferença substancial entre chamar ao princípio do mundo «masculino» ou pai (espírito) ou chamá-lo «feminino» ou «mãe» (matéria). Sabemos tão pouco dos dois. Ambos têm sido símbolos numinosos desde o dealbar da mente, sua importância radica em sua numinosidade, não em seu sexo ou outros atributos casuais.(...) Um conceito como «matéria física», despojado da sua conotação numinosa de «Grande Mãe», já não expressa o vasto significado emocional da «Mãe Terra». Trata-se de uma terminologia meramente intelectual, seca como o pó, sumamente desumana. Do mesmo modo, «espírito» identificado como «intelecto» deixa de ser Pai do Todo. Degenera até reduzir-se à limitada mente do ser humano, e a imensa energia emocional expressa na imagem do «nosso Pai» desaparece pelas areias do deserto intelectual. 
Mediante a compreensão cientifica o nosso mundo desumanizou-se. O ser humano sente-se isolado no cosmos. Já não está abrigado pela natureza e perdeu perdeu a sua participação emocional nos acontecimentos naturais que traziam antes um significado simbólico.(...)
O ser humano já não tem uma alma-bosque que o identifique como um animal selvagem, Sua comunicação imediata com a natureza desapareceu para sempre, e a energia emocional que essa comunicação gerava afundou-se no inconsciente. 



Carl Jung



[a partir da tradução para castelhano de "Symbols of Transformation"]

sábado, 27 de abril de 2019

HOTEL COSMOPOL


Imagino-o a nascer nos anos 70, puído e apetrechado por um ex-KGB foragido ao comunismo. Todo o cenário a isso adverte a quem não seja analfabeto aos sinais mais ou menos explícitos de determinada simbologia de influência, ou saiba ter um olho ao emblema da espionagem. O mármore salmão do soalho, as paredes desse amarelo que se não traz vida também não traz angústia. As alcatifas finórias de há trinta anos, os candeeiros entre o Estoril Sol e o Galeto, o lettering Nasa 1969. Estamos no fundo do Inverno e os preços são de época alta. Quem por ali anda ostenta um orgulho que não conseguimos entender. Mesmo assim, está-se frente ao mar onde Carlos V desembarcava quando vinha das campanhas da Flandres. E que forma grande de se entrar em Espanha. Detrás da praia, as montanhas parecem os Açores, ao longe vemos neve, o jogo é com o azul vivo do oceano e quase não se acredita. Na praia, o areal estende-se a uns quatro quilómetros. Não é preciso dar grandes largas à imaginação para ter um quadro decente, ali do hotel 3* de varandas amplas, os quartos cobertos de vidro, o ar condicionado racionado a horas poucas, diminuto, débil, estamos na Cantábria como se estivéssemos na Moldávia. Praia de Laredo, pois então, se é para gozar o tempo, também é preciso sofrê-lo. Se crêem que aqui não é tudo pensado desçam do quarto à cafetaria onde a banda sonora alterna Casablanca com bossa nova, volume para aí ao nível quatro para manter a gravitas à temperatura. Nas paredes o azul celeste rigoroso, os castiçais discretos e afirmativos, como se fosse preciso dar ao vácuo a vertigem certa.
Até agora não vi aqui ninguém. Escrevo da cafetaria onde me sento, casaco fechado, cachecol ao pescoço, há de vir alguém para me servir um café quando se calhar o que eu devia beber era uma aguardente. Aki Kaurismaki não vive assim tão longe. De Viana do Castelo aqui é uma tarde bem passada na auto-estrada. Da Corunha a Tavira ficamos todos muito contentes em saber que está nos seus planos filmar em Vigo. Talvez não fosse nada má ideia vir dar uma mirada a este hotel. Penso que lhe agradaria sobremaneira, até esta luz diurna. Claro que estou num desses lugares onde mal entramos ficamos cientes que vamos daqui vamos para outro sistema solar. Pode não ser suficientemente bizarro para um David Lynch, mas é suficientemente baço para que de uma Cantábria nos elevemos a uma Escandinávia.


sexta-feira, 26 de abril de 2019

128.


Imaginamos a vida dura do trabalhador da fábrica. O tamanho da fila de trânsito e dos armazéns como quarteirões, como perímetros, estamos na cintura industrial. Em Espanha chamam-no polígono. A dar nas vistas o fogo no cimo da chaminé da  fábrica. É uma fúria de outro mundo. Ou a fúria de um outro mundo. Perece de tragédia não estivesse aquele infernal isqueiro ao alto a toda a hora acendido. A dar medo a quem trabalha. Pronúncio de uma eminência que nunca se concretiza, central nuclear que é segura até ao nunca se sabe. Como era possível toda aquela gente ir para ali trabalhar? Bandeira apocalíptica, fúria em controlado como porta de entrada no serviço. Bom dia. Eu paralelo levo a sorte de seguir a via do Cantábrico.


Louvor a IAGO ASPAS



Bilbau, 7 de Abril de 2019

O dia de anos do meu irmão podia ser resumido a Iago Aspas a triunfar numa televisão silenciosa num hotel de Bilbau. Está nada mau. A chuva e os deuses concordam. Chuva abençoada em Vigo, chuva abençoada lá fora, na rua, no rico País Vasco,  onde por mais que chova nada parece inundar-se. Mais por ser terra rija, de raça humana batida das montanhas, forjada do ferro depois da purga dos anos 80, o que daria outro longo texto, ou tanto melhor como os documentários no You Tube ou no sítio da RTVE, e deve-me estar a falta alguma coisa, ou no grande livro de Fernando Aramburu, ou por outra, naquele sujeito punk que apanhei logo à saída da boca do metro, na primeira vez que entrei em Bilbau, vinha eu de Amorebieta, a dar com ele mais alto que eu, para aí metro e noventa, música nos auscultadores e para quem o ouvisse gritar na rua, o refrão era: «Euskal Herria Libertaaaaad!»
Mas passemos a liberdade para a Galiza, directo aos maravilhosos pés de Iago Aspas, combinando com o seu espírito, sacrifício, generosidade, liderança, genialidade. Mesmo na chuva abençoada desta mesma tarde nos Balaídos, chuva abençoada. O penalti ao início da segunda parte – e nem foi preciso expulsar o guarda-redes adversário. A vitória, as palmas que não podiam acabar. Sou verde e branco de alma, coração e sangue, sportinguista de tudo, mas suspeito também que o meu carinho ao Celta traz um suplemento de raíz ancestral. Logo o amor à Galiza, pedido imensas desculpas à minha querida Corunha, tenho dúvidas que os do Celta sejam só tidos como os portugueses por estarem tão perto da fronteira. Para mim o Celta é efectivamente "o clube" que representa a Galiza. Pelo menos é o clube mais universalmente genuinamente galego. Ponto.  Mas não nos percamos: Iago Aspas. Iago Aspas é o homem. Da terra: Moaña. Frente a Vigo e aos Balaídos. Passagens em Liverpool e Sevilla e em nenhuma vingou, em nenhuma singrou, Steven Gerrard chegou a dizer que Aspas nunca trunfaria ao mais alto nível. Aspas? Falamos de um dos três melhores jogadores de Espanha, possivelmente o melhor jogador da história do Celta, talvez  o melhor jogador da história da Galiza. Só o mês passado, regressado de lesão, foi considerado o melhor futebolista de todas as ligas europeias. Se perguntarem a alguém como é que Aspas não está agora a disputar uma champions ou uma bola de ouro, como é que não triunfou fora do seu povo, falarão da morriña, morriña é a versão galega da saudade. «Pobriño, era a morriña», disse-me alguém daqui que percebe tanto de bola como eu de capoeira. Pobriño?É unânime qualquer comentador deste lado da fronteira dizer que Aspas consegue ter mais peso no onze do Celta que Messi no FC Barcelona. Ninguém tem argumentos que desmintam que não fosse aquela lesão de meses – que tanto ajudou a despedir Miguel Cardoso, diga-se – hoje o Celta de Vigo estaria a lutar pelas competições europeias em vez de andar com crises de ansiedade (e sobretudo de confiança) a contar o pontinho do salve-se quem puder, respirando fundo, a fundo, escalando a rocha da montanha,  desesperado a ver se chega... sobretudo se não escorrega. 
Podia ser pior, se esta lesão persistisse a época inteira, o mais provável era que este Celta já estivesse na segunda. Morriñas à parte, também não conheço nome mais céltico-guerreiro que Iago Aspas. Ele que não vai por menos quando diz que joga no clube onde sempre quis jogar. Traz o valor da terra. Mostra o que a terra vale. Simples, humilde, acessível, que genuinamente quer apenas ser mais um na comunidade e dali aportar o melhor que pode e sabe das suas qualidades. Chamam-lhe o génio de Moaña, o mago de Moaña e quando o observamos com mais atenção vemos o puro talento com o espírito de entreajuda. A generosidade com a eficiência. Querem o melhor do povo galego? Pensem em Iago Aspas. Querem vê-lo? Andará pela sua zona, sobretudo em Moaña, a sua terra, onde tão justamente já há uma placa na casa onde nasceu.  Com diz na sua mais recente entrevista, a Sara Carbonero: «Soy un ganador y no me gusta perder. Fuera, como vivo en mi pueblo, me abstraigo de la ciudad, Vigo. El que me ve en mi pueblo me ve en el supermercado, en la farmacia o en el bar cenando en la mesa de al lado; lo ven más normal. Me tira bastante mi tierra. En mi pueblo, siempre me he sentido muy a gusto, conozco a casi todo el mundo», ele que a semana passada renovou contrato até 2023: «He echado muchos años aquí, todas mis raíces en este club, desde los 8 años, he tenido dos experiencias fuera que no me han ido muy bien. Ha sido el paso definitivo para ver que este es mi lugar, mi sitio, estoy con mi familia, con mis amigos». 



segunda-feira, 15 de abril de 2019




Quinta-feira apresento Praia Lontano em Ribadavia (Ourense). Nunca joguei tão em casa, ou se quiser ser mais exacto: tão perto da minha casa, do lugar onde vivo. Talvez dê casa cheia, talvez não, de qualquer forma: vai haver livros. 


domingo, 3 de fevereiro de 2019





«Madrid, Madrid; qué bien tu nombre suena,
rompeolas de todas las Españas!
La tierra se desgarra, el cielo truena,
tú sonríes con plomo en las entrañas»

(António Machado)


quinta-feira, 31 de janeiro de 2019






Lontano por Rui A. Pereira, a partir de Praia Lontano.

Assinado e numerado. 

Na livraria Círculo das Letras, Rua da Voz do Operário, 62. 



quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

127.


PICOS DE EUROPA

Montanhas que falam que cantam alto
Alto aos céus
Olhando-as de baixo, erguidas
A estender o princípio
Em trechos de tempo
Um segundo de mil anos
Repetido a cada momento
Estamos colados ao eterno
De ali acercam-se os deuses 
As montanhas são o templo
A igreja mais alta
Se os deuses têm forma de gente 
As montanhas impõem o temor certo
Sem a medida da inspiração
Não nos distinguiremos da areia
De um relógio 
Agora é connosco
Um trilho especial
A curva-contra-curva,  um túnel de auto-estrada 
A luz-contra-luz-nasce-luz-corta-luz-contra-luz
E Deus fala numa voz tão alta que não conseguimos ouvir
E tardará muito pouco até que revigoremos cidade.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

126.

As chegadas aos hotéis, às pensões e às estalagens das cidades que não conhecemos marcam um antes e um depois. São o ponto de passagem, o primeiro concreto contacto, a primeira mediação naquela particular atmosfera urbana. Por maior que tenha sido o trânsito, por mais que tivéssemos sido mergulhados no caos urbano. É a partir dali, do balcão do check-in que é dado o verdadeiro tiro de partida. Chegamos à outra viagem, se nos propusermos verdadeiramente a isso. Ali, precisamente, onde retornaremos antes de levarmos as malas já com a substância da experiência no organismo, na tela geral da vida. De onde, enfim, libertaremos a energia definitiva sob a forma de experiência adquirida. 

125.



Quanta obscuridade temos de  iluminar
Tanto a quanta luz temos de protelar 
Por cautela
Para não nos ofuscarmos
Para não sermos apanhados 
Desprevenidos 
Devíamos fazer um esforço maior afim de purgar
Do corpo o veneno reactivo
Se todo o perigo existe
Apenas reforça a lei
Da superação interior
Para uma química de superação
A paz necessita ser exercitada. 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

LEI SECA




Tomará o seu tempo, mas já estivemos mais longe do dia em que serão legalizadas todas as drogas por não haver outro caminho, se chegarmos lá vivos. A loucura, essa, nunca será maior que apanhados como este, um sample da coisa, vá-lá, servido em dose de entretenimento, nem podia ser de outra maneira... 


OSSO CIENTÍFICO

- Agora seriamente acreditas que finalmente terás direito à transcendência: foi descoberta a fórmula, ficou provado cientificamente. Agora, finalmente, já podes circular a essa dimensão superior graças e tudo graças ao método cientifico. Foi tudo cientificamente atestado, não há mais nada com que te preocupares. Como? Não existe «essa coisa da transcendência»? 

...



«Se depois de atingir o estado de Buda, alguém no meu país
         for lançado na prisão por vagabundagem, que eu não 
         atinja a mais alta e perfeita iluminação.

         patos selvagens no pomar
         geada na relva nova 


«Se depois de atingir o estado de Buda, alguém no meu país
         perder um dedo a engatar vagões de carga, que eu não
         atinja a mais alta e perfeita iluminação.

        olho de água alvoroça-se
        sacudida pela rédea
        ferraduras brilhantes escouceiam
        artelhos trémulos: rocha  esquiva  abaixo


«Se depois de atingir o estado de Buda, alguém no meu país
         não conseguir apanhar uma boleia em todas as direcções
         que eu não atinja a mais alta e perfeita iluminação

        rochas molhadas zumbindo
        chuva e trovejo a sudoeste
        cabelo, barba, zumbindo
        vento  chicoteia  pernas nuas
        devíamos voltar
        não voltamos.



Gary Snyder  "Antologia da Novíssima Poesia Norte Americana", tradução Manuel Seabra, Editorial Futura,1973

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

124.



Nada como ler agora Gary Snyder 
Aproximar-me da natureza das palavras
Já era tempo de lembrar a natureza do rio
De todos os rios
Longe do mar de todos os mares
Pelo acordo das terras
Esse caminho de dentro
Onde o grito pode ser um riso
Onde a abóbada estende o eco
Da voz a cerimónia
Desde a primeira fala à impressão 
Da primeira palavra impressa
Só são precisas duas coisas: atenção e calma
Dizia Mestre Stobbaerts
A minha parte, digo eu
É toda igual a todos os demais
Depois da tempestade a calma
A paz depois da guerra
É preciso trabalhar o corpo
É preciso ler o signo
Do Quixote primeiro
Aproximar a fala do tempo
Combinar o presente e o passado
Ver se se entendem se combinam
Se podem eventualmente serem grandes amigos
Fora isso, a Natureza definitivamente precisa
Ser traduzida
Transmutada em conceito
De liberdade e impermanência
Selvagem, onde nos nutrimos 


Em nome de todas as existências
Quanta obscuridade temos de estar constantemente a iluminar
Quanta luz temos de protelar por cautela
Para não nos ofuscarmos
Para não sermos apanhados
Desprevenidos
Pelo que bem espera 
Doses de disciplina, humor
E exercício físico serão preciso
Purguemos nosso veneno reactivo
Se o perigo existe
Reforça a lei
Da superação interior
A paz necessita ser exercitada
Constante em espírito como em físico
A química criadora é de uma segunda natureza. 

quinta-feira, 1 de novembro de 2018




Billie Holiday e Louis Armstrong e Tom Waits e Leonard Cohen. Depois também Pink Floyd e Dire Straits e King Crimson (“Moonchild”, nem por acaso). O locutor não sei se bebia pouco, se bebia muito, se sequer bebia, sua voz, porém, trazia o decoro do whisky aliado à pujança contida de algum cowboy solitário. Forte e encorpada, mas ao mesmo tempo terna e discreta quanto baste para se exibir pouco, para deixar para no(s) ar(es) o(s) subentendido(s). Não dar nas vistas e ao mesmo tempo inebriar esse ouvinte desconhecido da noite. Partilha de solidão, não solidão de partilha. Sim, há uma poesia da rádio. Poesia que pode nem sequer ser poema. Pode ser voz, música, apenas som, só a noite na Terra. Como um bom vinho que ampara a insónia mais profunda, que não adormeça o incauto, mas também não o desperte por aí além, mantendo-o alerta nalgum automóvel de qualquer longínqua estrada ou auto-estrada. Também aqui trago a infância a ouvir rádio da noite nas viagens de carro com meu pai, ou já na adolescência, numa tenda a acampar ouvindo o rádio-gravador Sanyo cercado pela caruma dos pinheiros abrigado na suave textura de um saco cama. Lembrar-me e pensar que a rádio, o grande problema da rádio, é mesmo, só mesmo, o esquecer-se de si própria. É o que acontece com tantas emissões diárias, a maioria, já nada de rádio têm, até ao dia em que todas as memórias se apaguem. Nisto a noite ainda é a última barreira, a guarda pretoriana, o último refúgio, seu porto de abrigo das tempestades, estalagem perdida na Antártida, abrigada zona de recolha e silêncio, onde uma voz no ar ainda nos pode servir de farol pelo oceano da noite.


domingo, 7 de outubro de 2018

LIBRARÍA PEDREIRA




       Meus livros Estrada dos Prazeres e Praia Lontano já se encontram em Santiago de Compostela. 
                Na Libraría Pedreira - Rúa do Home Santo, 55: https://www.librariapedreira.com/