sexta-feira, 31 de julho de 2015

Más horas

- Umas das maiores dificuldades e crises, ou dificuldades da crise, é reconhecer que o mundo mudou. Não que apenas mudou porque mudou (essa é simples e muito mais complicada do que parece) mas sobretudo porque mudou o inimigo, o que traz novas doenças e perigos, perigos novos, perigos sem rosto, perigos com um poder desmesurado. Máscaras 3D (desdobráveis a quatro dimensões, nós é que não vemos), distracções absolutas, irresistíveis, completas, inusitadas, camufladas em novas distracções. Viralidades, radioactividade exposta à falta de pensamento. Se há uma batalha a ser travada estamos a perdê-la nas horas. 

- A democracia é uma conquista dos povos, não é um acaso tecnológico. 

- À extracção da poesia não lhes importa a sua pureza. 

- Tem a seu favor a cobardia da realidade. A realidade - na realidade bem cobarde - que pela cobardia não sabe nem vê o mal que falha.

- Muito se resolve nesse ceder à fraqueza. Quanto mais se cede, mais fraco se fica. E mais se vai ficar a precisar das forças, da força. Disse força, não aparência da força. A aparência da força é só fraqueza. 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

«É poeira para os olhos, sacode-a»

«Prefiro que seja mentira e vender, do que ser verdade e desaparecer», disse um dia um jornalista ao detective Velcoro, de True Detective, ele que bem tentava aparar o golpe ao colega angustiado e atingido pelo assédio das câmaras e microfones:«És um sobrevivente, sacode a poeira». Penso nisso enquanto vejo amigos, alguns com aspas, a arrastarem-se na poeira, pior é que devem pensar que a coisa se trata de uma festa de espuma ou algo do género. O que no fundo vai dar ao mesmo, nada se vê, portanto. Tanto assim é que o nosso único aliado é o tempo, de preferência a clarear. Para o bem e para o mal. Para o bem, pela força das marés. Para o mal, porque as marés um dia acabam. Problema mesmo são alguns marinheiros que acreditam que as comandam.

A Lição Grega

"A dívida é inesgotável, impagável e infinita. Foi com o capitalismo financeiro que a “divída finita e móvel” de antigamente se tornou “dívida infinita”, como a dívida do homem perante Deus. Esta dívida que não pode ser resgatada funciona segundo o modelo do pecado original: no reino dos homens, o devedor nunca acabará de pagar a sua dívida. Recordemos que, para a teologia cristã, existe uma única instituição legal que não conhece interrupção nem fim: o inferno.(...)
Apesar de a dívida ser impagável e infinita, é necessário manter publicamente a aparência (uma crença que deve circular publicamente) de que ela é finita e pagável. A dívida da Grécia é tão infinita como a de muitos outros países. Mas o problema é que, por várias circunstâncias, ela entrou no campo de uma racionalidade que lhe retirou a máscara que protege muitas outras. Sem essa máscara, ela exibiu-se como monstruosa, isto é, algo que se mostra e, assim sendo, cresce sem controlo. O capitalismo financeiro não vive sem o motor da dívida, mas precisa que se mantenha a promessa de que ela será honrada. Honrá-la não é pagá-la."

António Guerreiro, aqui.

terça-feira, 28 de julho de 2015


PREGUNTAS A LA HORA DEL TÉ

Este señor desvaído parece
Una figura de un museo de cera;
Mira a través de los visillos rotos:
Que vale más el oro o la belleza?,
Vale más el arroyo que se mueve
O la chépica fija a la ribera?
A lo lejos se oye una campana
Que abre uns herida más, o que la cierra:
Es más real el agua de la fuente
O la muchacha que se mira en ella?
No se sabe, la gente se lo pasa
Construyendo castillos en la arena:
Es superior el vaso transparente
A la mano del hombre que lo crea?
Se respira una atmósfera cansada
De deniza, de humo, de tristeza:
Lo que se vio una vez ya no se vuelve
A ver igual, dicen las hojas secas.
Hora del té, tostadas, margarina.
Todo envuelto en una especie de niebla. 

Nicanor Parra, Poemas y antipoemas, Edición de Rene de Costa, CÁTEDRA, Letras Hispánicas

domingo, 26 de julho de 2015

Colheita

Dias há que são de colheita. Senti-mo-lo, sabemos. Como? Então se está tudo à mão de colher... Tudo. Também não é fácil, sabemos como as vibrações e o espírito são invisíveis, impossíveis de tocar mesmo quando tudo vibra, reage, tem força, espírito. Mas se é dia de colher, então é dia de colher, o fruto, o alimento, tem de ser, está no ponto, no tempo certo. Não o fazer é arriscar demasiado na planície seca. No tempo errado.

sábado, 25 de julho de 2015




Sublinhado de sublinhados que transcritos ainda acabavam com este blogue:

 - Acontece que com o jazz saio sempre a descoberto, livro-me da carapaça do idêntico para ganhar esponjosidade e simultaneidade porosa. 

 - Macedónio Fernandez:«Recuso-me a assistir ao final dos meus escritos, e é por isso que os termino antes.»

- Tal como tratarmos a linguagem e a escrita assim seremos nós tratados por elas.

- Não é preciso acreditar demasiado na praxis para pressupor que um exercício atento da literatura devia levar a um progresso simultâneo da forma de conduzir o automóvel e no sentido da viagem para a qual nos dirigimos. Como é possível não ver que a única situação do escritor autêntico é o centro do átomo literário, onde partículas conhecidas e outras por conhecer se resolvem na perfeita intencionalidade da obra: a de extremar tudo o que a suscita, a faz e a comunica?(...)
O mal é que se não há ouvido, como dizia Unamuno, se não há ritmo verbal que corresponda a uma economia intelectual e estética, se não há esse sentido infalível do vocabulário, das estruturas sintácticas, dos acatamentos e transgressões que fazem o estilo de um grande escritor, se novelista e leitor são dois cúmplices enfiados na mesma cela a comer o mesmo pão seco, nesse caso qués'sad'fazer, caro amigo, estamos feitos.

- A «mensagem» tão disposta a prescindir alegremente de um estilo também não há-de ser grande coisa. 

- Sofremos na literatura como em muitas outras coisas as desvantagens das nossas vantagens: inteligentes, adaptáveis, rápidos a captar o rumo das circunstâncias, damo-nos ao triste luxo de não acatar a distância elementar que vai do jornalismo à literatura, do amadorismo à profissão, da vocação à obra. Porque é que os nossos homens de ciência valem estatisticamente mais que os nossos literatos? A ciência e a tecnologia não admitem a improvisação, a preguiça e a facilidade na medida em que os nossos literatos crêem inocentemente que a narrativa lhes permite, e tiram por outro lado partido das nossas melhores qualidades.(...) Viva eu é um ímpeto que me fartei de ler e de escrever nos paredões da minha infância, quase sempre acompanhado desse outro ímpeto que também nos desenha: Maldito eu. É assim que nos decretamos um dia escritores ou leitores ex officio, sem noivado e sem vigília de armas.(...) Era e continua a ser divertido comprovar como estes tipos pensam que  basta ser vivo de espírito, inteligente e ler muitíssimo para que o resto seja questão de baskerville e corpo oito.(...) É pena que por esta altura se insinue outra vez tristemente a falta de vontade de ir à luta, a ingenuidade ou a canalhice de querer arrecadar o prémio sem se ter dado um golpe que fosse. 

- Todo o escritor europeu é «escravo do seu baptismo», se é pertinente citar Rimbaud; quer o queira ou não, a sua decisão de escrever comporta arcar com uma imensa e quase pavorosa tradição; quer a aceite, quer lute contra ela, essa tradição habita-o, é um familiar seu ou o seu incubo.(...) Uma suspeita de culpa e de superfluidade leva o intelectual europeu à mais extrema vigilância do seu ofício e dos seus meios, única forma de não refazer caminhos demasiado percorridos. Daí o entusiasmo que produzem as novidades, o assalto em massa à nova rabanada do invisível que alguém consegui corporizar num livro. 

- O tempo de um escritor: diacronia que basta por sim mesma para desajustar qualquer submissão ao tempo da cidade. Tempo de mais adentro ou de mais abaixo: encontros no passado, encontros no futuro com o presente, sondas verbais que penetram simultaneamente o antes e o agora e os anulam.

- Sabemos que só a partir do fundo de um poço se conseguem ver as estrelas em pleno dia. Poço e céu não querem dizer grande coisa, mas é preciso comunicar-se, traçarem-se as abcissas e as ordenadas; Jung oferece a sua nomenclatura, qualquer poeta a sua, a antropologia sabe de regimes nocturnos e diurnos da psique e da imaginação. Pela minha parte, estou seguro de que assim que as circunstâncias exteriores (uma música, um amor, um estranhamento qualquer) me isolam por um momento da consciência vigilante, aquilo que aflora e assume uma forma acarreta consigo a certeza total, um sentimento de verdade exaltante. Suponho que os românticos reservaram para isso o nome de inspiração, e que não era outra coisa senão a mania.

- Se não se pode dizer, há que tentar inventar-lhe a sua palavra, uma vez que é pela insistência que se vai definindo a forma e a partir dos buracos que se vai tecendo a rede.

- O que é que a tua admiração interessava a van Gogh? O que ele queria era a tua cumplicidade, que tentasses olhar como ele olhava, com uns olhos desolados por um fogo heraclito. Quando Saint-Èxupèry sentia que amar não era olhar nos olhos um do outro mas duas pessoas a olharem juntas na mesma direcção, ia mais além do amor do casal, porque todo o amor vai mais além do amor do casal se for amor, e eu cuspo na cara de quem me vier dizer que ama Miguel Ângelo ou E. E. Cummings sem me provar que, ao menos uma vez numa hora extrema foi esse amor, foi também o outro, olhou com ele a partir do seu olhar e aprendeu como ele para a abertura infinita que espera e reclama.


Júlio Cortázar, em A Volta ao Dia em 80 Mundos, Tradução de Alberto Simões, Cavalo de Ferro

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Take

Diferença entre «ensaio» e take. O ensaio vai paulatinamente levando à perfeição, não conta como produto, é presente em função de futuro. No take, a criação inclui a sua própria crítica, e é por isso que é interrompido várias vezes para recomeçar; a insuficiência ou fracasso de um take serve como um ensaio para o seguinte, mas o seguinte nunca é uma versão melhor que o anterior, mas sempre outra coisa (se for realmente bom).
O melhor da literatura é sempre take, risco implícito na execução, margem de perigo que faz o prazer do volante, do amor, com o que isso acarreta de perda sensível, mas ao mesmo tempo com esse compromisso total que, noutro plano, dá ao teatro a sua inconquistável imperfeição diante do cinema perfeito. 
Eu gostava de escrever senão takes. 

Júlio Cortázar, em A Volta ao Dia em 80 Mundos, Tradução de Alberto Simões, Cavalo de Ferro, pag. 310

33.

Tiras doze quilos na brincadeira. Basta seguir a via da prioridade, é um brinquedo. Logo ali descobres como não era a preguiça que te armadilhava a uma secretária. Que uma hora sentado já precisavas de uma bicicleta, que uma hora pedalado precisavas era de uma piscina, que uma hora nadado e por aí adiante percorrerias teu mundo inteiro em total fúria exercitada. 
Problema mesmo eram os joelhos, as articulações, essas limitações, as armadilhas que no fundo são limitações articuladas, ou articuladas limitações, ou o que mais acharem, não vos há de valer de nada. A mim tudo se resume em aguentar oito horas a uma secretária, a escrever. Norman Mailer falava na necessidade de sermos atletas, de no físico prepararmos o espírito. Estaria a pensar no seu ringue, nessa modalidade específica do boxe literário, tinha de ir bem preparado. Quem está agora a ler isto não sabe, mas eu sei, já me perdi deste texto, do que queria dizer, da intenção primeira. Estou numa piscina, não essa tal de 25 metros mas outra, pequenina e lúdica, que vi crescer  de coisa gigante até quase à banheira. Foi precisamente aqui que aprendi a nadar uns vinte anos antes de ter escrito um conto entre o Luiz Pacheco e um sonoplasta que eu cá sei. Foi preciso ensinar o raio do conto a nadar, e mesmo assim, mal bóia. Disse-lhe que a vida é feita de pormenores e braçadas e tudo o que vier à rede tem as suas articulações. O que desaprendeu já não é comigo. 

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Laboratório

No caminho pelo outro entras noutro personagem. Até te dão um enredo. Nem precisam saber que vais tomar a direcção acima à esquerda como quem mete para Campo de Ourique. Não, a acção começa a acção com uma mulher bela de ar compassivo e muito simpático e eu cansado, de mau humor e abespinhado a descer a Rua Maria Pia. Nem precisam saber que acabei de sair da natação e que me entrou água pelos ouvidos adentro e ouço o mundo inteiro como se do fundo de um poço. Aquele meu aspecto até podia dar o ar que iria comprar qualquer coisa, que é o que eles querem, assusta que aquele feminino olhar de compaixão pudesse estar a pensar que seria heroína, quando heroína podia ser ela. 

Bola de Berlim

Começou pelo alívio do moço do barco em ouvir-me falar português. Disse-o bem alto e sonoro achando que as duas moças estrangeiras não o ouviam [e eu a querer e a gostar que o ouvissem]. Depois, à volta do rio e da viagem de barco, um espanhol suposto pintor de aguarelas chamado Pepe, ali entre a pose artista e o chunga andaluz, em suma, um pintas, que pinta, lá isso pinta, o pintas, umas aguarelas de umas casas alentejanas [e nem foi preciso denunciar o disfarce, como eu disse, estava tudo nas aguarelas]. 
Depois lituanos, ou letões, leitões ou lagostas tal o vermelho bronzeio sobre a pele de cal, o que daria uma horrível aguarela, eles é que não davam conta disso tal a arrogância hasteada em silêncio [pior mesmo foi a chegada à mente desse mecanismo de associação sob a forma de Europa: a Grécia. Peço desculpa, mas nada posso contra o primeiro pensamento, que é mau, paciência, mas não me censuro]. 
Depois uns yankees, da Florida, para aí, isto pelos ares de Boca Raton sem nunca terem ido à praia, passadas de marina, pés que não sabem que nunca pisaram areia, pela praia adentro afora calçados em sapatos brancos mocassins, ridículo prolongado em calções cremes jardineira, não sei se iam assim os dois, mas o que fica da imagem é um dois em um [repito a pujança dos mocassins brancos sobre a areia, só podiam galgar mesmo as tábuas da marina, umas tábuas muito juntas e uniformes, o inferno de um boardwalk na Praia das Furnas].
Depois, depois espanhóis a falar alto atrás do cliché, agora um casal inglês que se foi pôr aqui mesmo ao meu lado. E logo ali vem um casal francês. A primeira palavra que ouvirei em português será a palavra Bola, a que se seguirá a de Berlim. Depois só mesmo o até amanhã do moço do barco. 

Férias

Parte do objectivo das férias está alcançado: o descanso. O estar de molho por estar de molho necessário porque é necessário que a energia solar se adense e entranhe em excesso no corpo, que Lisboa é dura e num tempo curto também as nossas baterias descarregam num instantinho. Mas esta suspensão da realidade, este não ter expectativas no que é tão importante quanto difícil não querer à força: até mesmo essa coisa de aperfeiçoar as férias, de ter as férias perfeitas, quando a praia alentejana, só a praia a mim já chega e só não sobra como extravasa as medidas. E é só levantar de manhã para ir ter com o mar e a areia. Levar livros, revistas, um caderno, um lápis e  caneta só para ir nadar e apanhar sol para voltar tarde o mais tarde possível. Eis a cura.