segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Bom 2013





A todos os leitores e amigos. Que tenham um ano excelente. Pessoalmente vou (ter de) seguir alguns conselhos aqui do Bob Dylan*. A parte das dívidas já me remete ao Gaspar. Até porque um dos meus maiores votos para 2013 é que nos vejamos finalmente livres daquela gosma refinadamente nojenta. E do Godinho Lopes, já agora. Coragem, força, vamos à guerra.


* - surripiado daqui

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Winesburg, Ohio




Winesburg, Ohio tocou-me e de que maneira. Para tentar pôr as coisas em perspectiva devo dizer que ao nível do conto só lhe encontro paralelo em Chekhov. Mas Winesburg, Ohio não é só livro de contos, é também um romance, se calhar o mais apropriado é chamar-lhe romance de contos. O que não chega porque o que dele prevalece e predomina é o Conto. Independente na sua forma e estrutura, é ele que intervém e interdepende no universo ficcional da também ficcional Winesburg, no Estado do Ohio, no horizonte temporal que culmina na maturidade do personagem (alter-ego?) George Willard  e seu consequente pirar-se dali para fora. 
Winesburg, Ohio explora o conto na sua capacidade literária, tratamento dos meandros, no poder de síntese, nas suas valências descritivas e temporais. Mas também é romance no seu todo, no conjunto de todos os contos, qual super-ego a unificar toda a multitude criativa e formal em roda do personagem George Willard e das vidas que de uma forma ou de outra com ele intervieram naquele fim de mundo com pouco mais de mil habitantes e uma main street que termina na estação de comboios, ponto de partida e comunicação com o mundo daquele minúsculo lugar perdido no Midwest. O ultimo conto é disso o melhor exemplo: George Willard presta-se a partir - e todo o conjunto unifica-se num todo e os contos lidos mais se parecem com capítulos -, entretanto o comboio arranca, Winesburg para trás, pouca-terra, pouca-terra, uh uh, o leitor com pena de não poder continuar, George marimbando-se todo contente...

Winesburg é baseada na Camden natal de Sherwood Anderson. Em literatura esta cidade e suas cercanias são feitas da gente comum com seus dramas, tragédias, idiossincrasias, erros, azares, comédias*. Lembramo-nos de Chekhov no seu efeito de lente de aproximação ao ser humano, permitindo ler no mais banal dos sujeitos o heroísmo feito de luta surda e desenfreada; a riqueza humana paredes meias com a fatalidade e tragédia invisíveis. Realismo esse que é atenuado pela forte vertente alegórica do livro. Ou vice-versa, pois às vezes temos o alegórico limado por gente de carne e osso. Há quem veja aqui a influência do outro grande herói literário de Sherwood Anderson: Mark Twain.


* - o único conto propriamente cómico faz jackpot, tão estupidamente bom como os outros,  é de levar as lágrimas aos olhos.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Pergunta à Lama


 - A escrita de Dostoievski sente-se fisicamente. Há ali um magnetismo, textura, solidez, dureza, elegância sustentada, fraternidade trágica e resistência que a possibilita navegar nas lamas mais profundas e ameaçadoras. Consegue tornar a mais tétrica, indigente e depressiva miséria em algo quase apelativo. Com Dostoiesvki estamos dispostos a seguir pelo pântano afora. Vamos até ao fim. Seremos sempre compensados. 
Seu discípulo John Fante foi desaguar no deserto os amores desencontrados de Arturo Bandini por Camilla Lopez e desta por um tal de Sam. O deserto do Mojave era a parte de fora, o limite físico, romanesco e literário daquela Los Angeles das luzes a perder de vista como estrelas da Via Láctea. O crime de “Crime e Castigo” é outro, mas enquanto houver gente a ler livros, suas sementes continuarão a germinar, mesmo em desertos como o Mojave. 

 - Ir buscar referências a outros e tornar nossas as referências é também dar referências a quem nos chegue perdido à procura de qualquer coisa. Uma luzinha na montanha pode ser a diferença entre a vida e a morte. Onde há luz há qualquer coisa. Olhem as estrelas, as galáxias, o Universo. Com tudo escuro só vemos aqueles pontinhos claros. E não há nada como uma noite estrelada. 

- Nunca hei de compreender a burrice dos que na amizade se põem com estratégias. Por cobardia, excesso de energia ou insegurança desperdiçam munições que deveriam servir outras guerras; jogam a peça A julgando que assim jogamos a B e ficam banzados porque não jogamos peça nenhuma; confundem significado com significante; pensam que jogando tudo seguirá conforme. Não vêm o logro, inconscientes que estão da artificialidade que emanam. Achando que a vida é um jogo não têm forma de destrinçar que ele há coisas em que o jogo não vai a jogo. 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Nunca Irá Acontecer

Eu não, mas há quem consiga ouvir várias coisas ao mesmo tempo. Eu consigo falar várias coisas ao mesmo tempo. Sobre falar várias coisas ao mesmo tempo é possível escrever. Sobre ouvir várias coisas ao mesmo tempo também. Escrever várias coisas ao mesmo tempo, idem aspas. Escrever sobre escrever várias coisas ao mesmo tempo é que já me parece demasiado Stephen Hawking. 

Diz-se que se estivéssemos numa quarta dimensão supostamente veríamos o outro e o espaço circundante no seu tempo presente, passado e futuro. É inimaginável, porém é inteligível na medida em que falamos na própria realidade desdobrada no seu(s) diferente(s) tempo(s). 
Experimentem desenhar um boneco num papel, depois enrolem a folha em cilindro e imaginem-no a percorrer o caminho sempre em frente. O que é que acontece? Obviamente o sacaninha vai sempre dar ao mesmo lugar sem  poder perceber porquê. Se se puser a pensar pode até concluir que há uma dimensão que o ultrapassa, que de outra forma nunca poderia ir dar ao mesmo sitio. Não faz é a mínima ideia como, confinado que está à bidimensionalidade. 
Stephen Hawking usou este exemplo para nos explicar em como nos está vedada a dimensão seguinte. Como o boneco da folha vamos dar exactamente ao mesmo lugar. É por isso que estas considerações astrofísico-metafísicas não servem mesmo para nada. 

Sargent Welsh, meu próximo




O mesmo que sabe que neste mundo um homem sozinho não é nada é o mesmo que só se sente sozinho entre as pessoas. O retrato é mais autêntico quando vem dentro da contradição.  

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Duas horas para Elmore Leonard


Levanto-me e antes de ter o café pronto já estou a escrever. Só o levo à boca se entrei dentro da história. O mundo virá depois, que espere. Duas horas para começar, dia sim, dia sim. É isso que conta. Preciso de escrever. Sem isso nada feito. Sem as duas horas de escrita ao acordar não estaria aqui hoje. Ajudou-me a que conseguisse fazer disto emprego e às três da tarde ainda me sobram três horas para escrever. Mas precisei de dez anos, das cinco da manhã às sete, antes de ter de ir ganhar a vida a escrever anúncios para a Chevrolet. Era uma chatice, um aborrecimento constante. As folhas escritas é que me afagavam o espírito. Enchiam-me de força, determinação, coragem. Pilhas e pilhas de folhas escritas. Oitenta e quatro rejeições, oitenta e cinco já não. Não há nada na vida como pegar num romance, ler umas passagens e ficar satisfeito, gostar do resultado. São quarenta e cinco livros que não me chateiam nada. E uns dez filmes entre o excelente e o péssimo. Não fossem aquelas duas horas e nunca poderia estar aqui agora a escrever-vos esta mensagem. Devo agradecer a todos os meus personagens. Também eles tiveram de se fazer à vida. Eu só os pus lá. Sempre foi assim, nas primeiras cem páginas faço-lhes um género de audição, eles que se mostrem, os que sabem falar entram; os que não falam ou não dizem de sua justiça, esses não têm hipótese, não se aguentam, ou os mato ou ficam poucas páginas, estão fora de qualquer maneira. Falando é melhor. Até porque o resto acontece. Eu só escrevo para saber o que acontece. Escrevo para mim. Se não sabiam ficam a saber. Uma vez criei um personagem chamado Frank Latisse e a acção passava-se em New Orleans e eu achava que por isso o nome vinha mesmo a calhar, mas o Frank não abria a boca e parecia demasiado velho, então mudei-lhe o nome para Jack Delaney, e o homem não se conseguia calar...

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Só temos perguntas

Nós temos perguntas, não temos respostas, ou quando sabemos a resposta Deus manda novas perguntas. Portanto a nossa vida é uma pergunta perpétua. O curioso nos livros é que são perguntas que trazem a resposta. Mas muitas vezes trazem a resposta às perguntas que não se fizeram.

António Lobo Antunes

Chama-lhe fanfarrão

Antes eram os blogues, que eram o triunfo do amadorismo, uma ameaça real à imprensa escrita, um poço de calunias e por aí fora... A histeria só começou a amainar quando alguns dos supostos amadores começaram a ir parar aos jornais. Agora os problemas vêm das redes sociais, enfim, nem sempre, há os salamaleques e as passagens de mão pelo pêlo... O problema, a grande e real chatice, essa mantém-se: é que se nos blogues já havia e há gente que escreve muito melhor, nas redes sociais já vai havendo gente que não escreva nada mal. E, pior, que até saiba umas coisas, mas adiante que de imparcialidade e critério é melhor ficarmos por aqui*. De fanfarrão para fanfarrão podemos ao menos depreender três coisas: quando um texto não presta (este, por exemplo), quando um texto é bazófia, e quando um texto vale um cheque ao fim do mês. De vez em quando Henrique Monteiro consegue o feito de preencher estes três requisitos


Adenda: hoje e mais uma vez com aquele ar entre o sonso e o de quem descobriu a pólvora...Sem  mais comentários. 

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(*) - tão curioso que quando Jonet mandou as atoardas  ninguém - claro falo da imprensa escrita e dos comentadores tarefeiros de serviço - se tenha chegado à frente com mais reais e urgentes causas da crise, por exemplo com o buraco do BPN que vale mais que um resgate  da Troika, ou com a forma como a austeridade está a contribuir para o piorar da situação. Mais, ninguém se deu ao trabalho de se chegar à frente com factos contra a obscenidade de que não há miséria em Portugal. 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Sportingball




Um dos motivos apontados em "Moneyball" para a revolução e mudança do paradigma do basebol norte-americano tem que ver com a diferença abissal entre o comprar vitórias (1) e o comprar jogadores. Essa diferença não se pode basear noutra coisa que não seja o verdadeiro mérito, não o mais óbvio, mas aquele que nos diz o que realmente se vale no presente e se pode valer no futuro. O que num sistema de estrelato tem extrema dificuldade em se aplicar: jogadores com falhas, defeitos, fealdades e desajeitos são encostados de parte sem que ninguém se dê ao trabalho de espreitar se não há ali qualquer coisa. Que tal ao menos experimentar, ora é isso que faz o manager Billy Deane com a ajuda decisiva do assistente Paul DePodesta (Peter Brand no filme). Aguçam o engenho a falta de fundos e a vontade de continuar a ser competitivo e não passar de cavalo para burro depois de um extraordinário segundo lugar na época anterior. Jogadores que por uma razão ou outra - ou porque não têm estilo e escola, ou porque estão velhos, estouvados, lentos...- valem pechinchas, podem afinal contar e muito porque afinal o coxo é um batedor fenomenal, o feioso pode ser a estrela, o gajo que está acabado tornar-se o comandante da equipa, e o gajo que ganhou fobia ás bolas e entrou no plano inclinado da insegurança, bem trabalhadinho, até pode valer um campeonato. Não darão ao inicio receitas em camisolas e cadeiras vendidas, muito menos tempo de antena e uma pipa de notas em comissões para empresários, mas a coisa faz-se. Deve ser o máximo dos máximos vencer quando o mundo inteiro está a olhar para o lado. Adiante. 

A ideia e conceito de "Moneyball" é um bom porto para ver este Sporting. Compramos jogadores mas não compramos vitórias. Não é só o comprar (com e sem aspas) que está aqui em jogo. É também o que vem dentro do pacote: a lógica de vitória versus a lógica do falhanço, um grupo de gente que não funciona em conjunto e está a milhas de poder funcionar individualmente. A imaturidade, a falta de experiência, a sobrevalorização de uns, a subvalorização de quem é formado na casa, sabe o que significa o clube e tem escola, trabalho e dinheiro investido em todo um potencial que feita a escala de formação daquela que é reconhecidamente uma das três melhores escolas de jogadores do mundo não deve ser nada de deitar fora. A falta de critério, de know-how (e know-why já agora) e de sentido de exigência só pode ser  inflacionada com a esmagadora pressão de clube grande e enorme mediatismo e peso social que isso implica. É ver empresários glutões a impingirem-nos jogadores que não precisamos enquanto  muitos em quem investimos uma carreira gastam os anos do contrato numa rodagem mais que rodada. Não será tudo isto quantificável em número? Não existe matemática que clarifique isto, vá-lá, em probabilidades de sucesso? Alguém ali ao leme conhece a lógica da vitória? Sabe o que é preciso para ganhar? O presidente não é de certeza. Ele não soube sequer ganhar as eleições, há mesmo hipóteses que não as tenha sequer ganho, ou pelo menos foi a primeira vez na vida que eu ouvi falar em afinação de resultados para justificar uma mudança de vencedor as 4 horas da madrugada. Mas admitindo que sim, que ganhou mesmo aquela eleição que todos davam como perdida – a culpa nestas coisas é sempre atirada aos jornalistas -, a coisa foi, de uma forma ou doutra, também comprada, e tal como no mesmo "paradigma da derrota", arranjam-se "nomes" e confunde-se o que as coisas são por aquilo que dá jeito que elas sejam pela imagem e estatuto criados antes e desfasados e sem forma de funcionar depois. Claro que os cenários começam a ser destruídos logo à primeira tempestade. Desses nomes que tais já não resta um. A fogueira das vaidades queimou-se e do saco de gatos não ficou lá nenhum dentro. Ficou só o presidente, afinal de contas era ele quem pegava o saco e os resultados estão à vista (2). A matemática é lixada, 18 jogos e apenas três vitórias. 

Voltando a "Moneyball", a lógica das equações e a frieza dos números não são meras abstracções, mesmo no futebol (3). As acusações de puro calculismo cientifico, que os jogadores não são robots ou que o basebol iria ser destruído ignoraram que o cálculo não inventa os números, é feito a posteriori e, já agora, é verdadeiro. Wall Street também não é isso? - perguntaram mais que uma vez a Michael Lewis. A resposta é taxativa: "naaahh...Wall Street is a scam". Não é preciso muito para ver que este Sporting ou é só esquemas ou é todo um esquema pegado.

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1 - imagino que uma boa percentagem de vocês pensou logo em Pinto da Costa, ora vejam bem o que não é subverter as regras...

2 - de futebol falando, porque há ali trabalho bastante meritório no erguer de um canal de TV do clube, na criação da equipa B ou do regresso do rugby e hóquei em patins. 

3 - 
que é a meu ver mais fascinante e único que qualquer outro desporto porque dá como nenhum outro um peso real ao imponderável da subjectividade. Futebol é pura beleza, não precisa de pedir pontos...

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Potência de voo


"Moneyball" é muito bom, interessante, sabe o que quer, para onde vai, é eficaz, tem ideias, tem sobretudo a receita certa para funcionar e colher quer na crítica, quer na bilheteira. Esse equilíbrio por si só não é fácil, nem é muito comum, mas podia saber melhor. É que o filme pede um golpe de asa, um levantar de voo que o eleve a outro patamar. Bem realizado, fotografado, com excelentes actores e respectivas interpretações, não consegue ainda assim estar ao nível do argumento de Aaron Sorkin. É por ele que os diálogos trazem dinamite e carregam o filme para todo o lado, o resto fica à mercê da ilustração. Como não li o livro desconheço o peso de Michael Lewis nisto. O que sei é que seria interessante termos em "Moneyball" um cineasta a sério e não apenas um realizador bom. Querem que vos diga? Era haver o músculo de um Scorsese a acompanhar a correria desenfreada de Sorkin. Era bem capaz de dar voo ao filme. 

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Das Arenas


A Arena, tal como o Dojo, mais que um lugar, é um conceito per se. Uma arena ou um dojo faz-se na hora, aqui agora na Praia das Furnas ou numa praceta da Rinchoa, não interessa, a ideia faz o espaço.  Pelas arenas tivemos as touradas de Hemingway e Orson Welles, corridas de cavalos de Charles Bukowski, o baseball de Paul Auster ou Don DeLillo e o boxe de Norman Mailer e Martin Scorsese. Lembro-me de ter visto ao vivo uma tourada em criança e de ter gostado daquilo, não me impressionou a crueldade sobre o touro, o tempo tornou-me mais "impressionável", para o bem e para o mal. Assim como no meio do sangue é esquecido a complexidade do movimento e o trabalho do toureio, muito mais foi perdido naquele espectáculo que marcou uma era. Falo na batalha naval no Lago Fucina promovida pelo Imperador Cláudio: Frota de Rodes contra Frota da Sicília, 19 mil lutadores em 24 navios de guerra e 26 barcos menores divididos  em 25 para cada lado. As colinas, ao redor do lago, formariam um lindo anfiteatro natural. O número de espectadores parecia mais de meio milhão que duzentos mil. Foram mais de três mil mortos e cinco mil baixas. Danos colaterais, que houve ali muito fair play e civismo a la romana,  e gente deve ter ido contente para casa depois de dez dias de suspense e festança...  
De outras arenas o grande Krassimir Balacov disse numa entrevista que o futebol era parecido com a vida. Devia ter uns quinze anos quando li isso e não percebi a ideia, bola era bola, a vida vidinha. Depois comecei a entender Na arena relvado isso da vida é muito trabalhado. É um bom dum laboratório para quem pensar nela. Temos a vida suspensa. A arena verde põe-nos na experiência: tem vezes em que somos mais tácticos e calculistas, outras gulosos e bola para a frente, outras somos mais defensivos, noutras temos pica e fúria, outras damos baile, outras é levar uma tareia, outras em que o árbitro nos rouba, outras em que fazemos fita, outras que damos cacetada, outras em que só levamos porrada, outras em que jogamos tudo, outras em que não fazemos uma. Para nosso bem, em frente à arena não podemos carregar na pausa, não existem repetições de lances nem imagens em grandes planos e diferentes ângulos, o que, acreditem, nos permite ver melhor. Tomamos parte do espectáculo, respiramos o mesmo ar, ouvimos os mesmos sons. É daí que aprendemos, que extraímos o sumo à experiência, o que Hemingway tirava das touradas para o romance seguinte, ou Charles Bukowski, das corridas de cavalos. O momento só nosso perante as forças do jogo, carimbos e decalques, pedaços de "vida verdadeira". Ninguém dará por isso, fará a associação, verá aquele combate de boxe no romance de amor, no romance de formação aquelas corridas de cavalos ou na novela policial o tal campeonato mal perdido. A verdade prefere o verdadeiro ao verídico. 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A liturgia deve ser entoada numa língua misteriosa


Ao menos a guerra, como o racismo, proporciona escolhas morais claras. Mesmo hoje, a maioria sabe o que pensa da acção militar ou do preconceito racial. Mas no palco da política económica, os cidadãos das democracias actuais aprenderam a ser demasiado modestos. Fomos avisados de que isso são assuntos para capitalistas: que a economia e as suas implicações políticas estão muito para além do entendimento do homem ou mulher comuns – um ponto de vista reforçado pela linguagem cada vez mais obscura e matemática da disciplina.
É improvável que muitos “leigos” questionem nessas matérias o ministro das finanças, on secretário do Tesouro ou os seus conselheiros especialistas. Se o fizessem, dir-lhes iam – à maneira de um padre medieval a aconselhar o seu rebanho – que isso são questões com as quais não precisam de se preocupar. A liturgia deve ser entoada numa língua misteriosa, só acessível aos iniciados. Para todos os demais, basta a fé.


Tony Judt, Um Tratado Sobre Os Nossos Actuais Descontentamentos, Edições 70 (2010)

Penumbra




Edição cuidada, a combinar com a elegância dos poemas, que minimalistas e despojados de artifícios, nunca deixam de ser belos; a mim lembram alguma poesia Zen na sua secura e forma como sabe isolar e suspender o real no seu próprio elemento deixando todo um "outro mundo" em aberto. Aqui, como no anterior "Teorias", a escrita é seca, ao osso, depurada, subtil, desafiadora. "Penúmbra" de manuel a. domingos poderá ser adquirido por aqui, isto se ainda houver algum dos 100 exemplares (o meu está precisamente a meio, no 50). Fica uma amostra. 

Há livros na estante
que nunca li
Esperam a sua vez
a ganhar pó

Olho para ti e não sei
que novidade encontro
sempre no teu olhar
Mas ela existe

pronta a fazer o meu dia
ganhar sentido
que não tem de ser novo
só sentido

Tudo o resto é apenas
o sol a pique no terraço
uma tarde quente

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Indian Runner



"Indian Runner" marca o inicio do Sean Penn realizador mas é surprendentemente maduro, o melhor do autor até "Into The Wild" em 2007. Penn tem uma escrita cinematográfica própria, um estilo marcado que combina beleza e extensão da paisagem americana com influências dispares do melhor que se pode pedir a alguém, sobretudo de John Cassavetes e Terrence Malick. Diríamos que pela paisagem física do "Nebraska" e na voz off e cadência sonoras lembra "Badlands" e na tensão emocional e imprevisibilidade dos personagens temos o aproximar (que não passa de um aproximar, nem poderia ser de outra forma) a John Cassavetes, a quem "Indian Runner" é dedicado. O inóspito e imutável Nebraska também ajuda. Assim como a parelha de actores onde gira o filme: o soberbo Viggo Mortensen e o competente e seguro David Morse. São eles os manos Roberts que se estimam e reconhecem para além do clássico e terrível conflito entre a existência pacata família/trabalho/família e aquela que não se sente em lado nenhum que não na vertigem demoníaca e (auto) destrutiva, aí temos Mortensen num dos grandes papeis da sua carreira. O tema e conteúdo de "Indian Runner" é baseado em "Highway Patrolman", de Bruce Springsteen, canção de "Nebraska" que inspira e dá o mote ao filme. Que mais? A falsa câmara lenta, uma lentidão densa, granulada, o espaço, não apenas o físico, mas também o dado aos actores e à excelente banda sonora de Jack Nietzsche
Se como actor Sean Penn é versátil e mesmo mutável consoante os corpos e os rostos dos personagens que encarna, de grandes actores está o cinema americano cheio. O que está para além disso, o que o torna inultrapassável é, a meu ver, o que nele está para lá da interpretação, o que vê mais longe, o que desmente no tempo algum insuportável tipo de cinismo...

terça-feira, 20 de novembro de 2012

O homem da enxerga ao lado


O homem da enxerga ao lado, também a convalescer de difteria, era um homem magro e grisalho chamado Michaelson. Nesse Inverno tinha trabalhado numa loja de ferragens e andava a passar um mau bocado. Até uns dois anos antes tinha tido uma quinta no Iowa, na região do milho, mas uma série de más colheitas tinha-o arruinado, o banco tinha executado a hipoteca e ficado com a casa e proposto que lá ficasse a trabalhar como rendeiro mas ele tinha dito que macacos o mordessem se trabalhava como rendeiro para quem quer que fosse e tinha pegado nas suas coisas e vindo para a cidade, e ali estava ele com cinquenta anos e uma mulher e três filhos pequenos para sustentar tentando começar do nada outra vez. Era um grande admirador de Bob La Follette e tinha a teoria de que os banqueiros de Wall Street andavam a conspirar para tomar conta do governo e mandar no país empobrecendo o agricultor. Falava o dia inteiro numa vozinha arquejante, até a enfermeira o fazer calar, sobre a Liga Apartidária e o Partido Camponês-Operário e o destino do grande Noroeste e a necessidade de os operários e os camponeses se unirem para eleger homens honestos como Bob La Follette. Charley tinha-se sindicalizado numa secção local de um sindicato da A. F. L. nesse Outono e a conversa de Michaelson cortada por acessos de falta de ar e de tosse, deixou-o entusiasmado e curioso com a política. Resolveu ler mais jornais e andar a par do que se ia dando pelo mundo. Com aquela guerra e isso tudo, quem  sabia o que podia acontecer. 


John dos Passos, Paralelo 42 (1930), tradução de João Martins, Presença (2009)


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Escrever Caminhar

Amorfo. Sem energias. Dores de tensão. Dores de postura. Assim não escrevo, não consigo. Escrever é meu termómetro de plenitude. Quando estou pronto para escrever estou pronto para tudo, até para a mais funda das angústias. Escrever é a marca de água, a prova à prova. Basta estar pronto. O pior momento é mesmo antes de começar, como diz o Stephen King. Quando começo chego sempre a algum lado. Já saí de casa. 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Palavras de papel

A originalidade vazia é prima direita do malabarismo. Acha que criou qualquer coisa, mas limita-se apenas a variar uma técnica. O malabarista pode ser muito bom e virtuoso e competente mas chega uma altura em que está bem já chega e passado umas horas esquece-se. O que há mais para aí mais é virtuosismo sem substância. Palavras desrespeitadas. Nem as cortam, nem as cuidam, é tudo ao molho e cambalhotas. Papel que não sai do papel. Diz que dão prémios, eu prefiro antes uma sopa de letras. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Novilíngua - Português


Podemos culpar os políticos que vivem em estado de negação e esquecermos que os políticos que temos são os políticos que merecemos, que nós colectivo os pusemos lá, nós colectivo, eu sei, é uma aberração de enganados. Negar a negação é a prova dos nove da maioria. A constatação a papel químico que o mal é visto mas ignorado como incómodo alheio. Passado reflectido em futuro, estava à vista o carimbo. E ainda se aliviam na caridadezinha. Não, não quero ir para o Marquês de Pombal fazer a revolução. Não, falo em ver passar navios. Navegam, pois navegam. Levam chocolate laxante, risos para queimar calorias, amor para a longevidade. Falam-nos não sei se é jargão se é calão: desalavancagem, ajustamento, crescimento negativo. No barco dizem que há alguns colaboradores invisuais. Não encontram significados em lado nenhum. Está para sair um dicionário da novilíngua. 

Mais Factotum


"Roll The Dice" parece encaixar no filme como o poema na saga do escritor. Dá a entender, faz o panorama: para o escritor a sério tudo é um teste. Um teste à escrita pois. O poema está lá, para além da bebida, das mulheres, dos empregos, dos pais, da fome, das pensões decrepitas. Não fosse assim, e Bukowski nunca poderia ter escrito tanto para aquilo que bebeu e se consumiu, muito menos teria vivido até aos 74 anos alimentado a álcool em excesso pelo menos desde os vintes. A bebida era ao mesmo tempo a armadura e uma ferramenta de trabalho, uma protecção e um propósito para. Não estava lá para o destruir, para se afogar nela. Nem de propósito distinguia bebedores amadores de bebedores profissionais, nem de propósito foi tão cruel a criticar a forma como se finou Malcolm Lowry, como que a dizer, claro está: beber não é para amadores. E "Roll The Dice" é um machete a dividir toda uma casta ao meio. Escritores pastosos, mesmo que de génio, mesmo que grandes escritores, não entram. 

sábado, 3 de novembro de 2012

Meteorologia

Também somos meteorologia, falhamos da mesma maneira. Dias que prevemos bons que se tornam maus, dias que prevemos maus que se tornam bons; dias assim assim e dias temperados, a maioria. Nem sempre o tempo está estupendo, nem sempre temos alertas amarelos. Depois há os dias que nascem e continuam sombrios, como o de ontem, o meu. Estava escuro, negro, taciturno. Nem melancólico sequer. Mas depois, do nada, inesperadamente o dia levantou, desemaranhou, desbloqueou, desapareceram todas as nuvens, o céu ficou limpo, consegui ver o sol. A lembrar dias de Verão com céu cinzento a prometer chuva até às onze meio-dia  e então o tempo levantava, depois praia,  sol, o dia em cheio. Pois eu ontem fiz praia, mas mais à noite. 

Emocional Guerra

Também nos regemos hoje como se estivéssemos em guerra, identificado o perigoso e medonho inimigo não podemos dar tréguas aos companheiros de trincheira. A falta de coragem e inteligência, mais que nunca, é tida como uma perigosa abertura. 

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Chama-lhe Sacrifícios

Adão Silva (Bragança), Adriano Rafael Moreira (Porto), Afonso Oliveira (Porto), Amadeu Soares Albergaria (Aveiro), Ana Oliveira (Coimbra), Ana Sofia Bettencourt (Lisboa), Andreia Neto (Porto), Ângela Guerra (Guarda), António Leitão Amaro (Lisboa), António Prôa (Lisboa), António Rodrigues ( Lisboa), Arménio Santos (Viseu), Assunção Esteves (Lisboa), Bruno Coimbra (Aveiro), Bruno Vitorino (Setúbal), Carina Oliveira( Santarém), Carla Rodrigues (Aveiro), Carlos Abreu Amorim (Viana do Castelo), Carlos Alberto Gonçalves (Europa), Carlos Costa Neves (Castelo Branco), Carlos Páscoa Gonçalves (fora da Europa), Carlos Peixoto (Guarda), Carlos Santos Silva (Lisboa), Carlos São Martinho (Castelo Branco), Clara Marques Mendes (Braga), Cláudia Monteiro de Aguiar (Madeira), Conceição Bessa Ruão (Porto), Correia de Jesus (Madeira), Couto dos Santos (Aveiro), Cristovão Crespo (Portalegre), Cristovão Norte (Faro), Cristovão Simão Ribeiro (Porto), Duarte Marques (Santarém), Duarte Pacheco (Lisboa), Eduardo Teixeira (Viana do Castelo), Elsa Cordeiro (Faro), Emídio Guerreiro (Braga), Emília Santos (Porto), Frenando Marques (Leiria), Fernando Negrão (Braga), Fernando Virgílio Macedo (Porto), Francisca Almeida (Braga), Graça Mota (Braga), Guilherme Silva (Madeira), Hélder Sousa Silva (Lisboa), Hugo Lopes Soares (Braga), Hugo Velosa (Madeira), Isilda Aguincha (Santarém), Joana Barata Lopes (Lisboa), João Figueiredo (Viseu), João Lobo (Braga), João Prata (Guarda), Joaquim Ponte (Açores), Jorge Paulo Oliveira (Braga), José de Matos Correia (Lisboa), José de Matos Rosa (Lisboa), José Manuel Canavarro (Coimbra), Laura Esperança (Leiria), Lídia Bulcão (Açores), Luís Campos Ferreira (Porto), Luís Leite Ramos (Vila Real), Luís Menezes (Porto), Luís Montenegro (Aveiro), Luís Pedro Pimentel (Vila Real), Luís Vales (Porto), Margarida Almeida (Porto), Maria Conceição Pereira (Leirie), Maria da Conceição Caldeira (Lisboa), Maria das Mercês Borges (Setúbal), Maria Ester Vargas (Viseu), Maria João Ávila (fora da Europa), Maria José Castelo Branco (Porto), Maria José Moreno (Bragança), Maria Manuela Tender (Vila Real), Maria Paula Cardoso (Aveiro), Mário Magalhães (Porto), Mário Simões (Beja), Maurício Marques (Coimbra), Mendes Bota (Faro), Miguel Frasquilho (Porto), Miguel Santos (Porto), Mónica Ferro (Lisboa), Mota Amaral (Açores), Nilza de Sena (Coimbra), Nuno Encarnação (Coimbra), Nuno Filipe Matias (Setúbal), Nuno Reis (Braga), Nuno Serra (Santarém), Odete Silva (Lisboa), Paulo Batista Santos (Leiria), Paulo Cavaleiro (Aveiro), Paulo Mota Pinto (Lisboa), Paulo Rios de Oliveira (Porto), Paulo Simões Ribeiro (Setúbal), Pedro Alves (Viseu), Pedro do Ó Ramos (Setúbal), Pedro Lynce (Évora), Pedro Pimpão (Leiria), Pedro Pinto (Lisboa), Pedro Roque (Faro), Ricardo Baptista Leite (Lisboa(, Rosa Arezes (Viana do Castelo), Sérgio Azevedo (Lisboa), Teresa Costa Santos (Viseu), Teresa Leal Coelho (Porto), Ulisses Pereira (Aveiro), Valter Ribeiro (Leiria), Vasco Cunha (Santarém), Abel Baptista (Viana do Castelo), Adolfo Mesquita Nunes (Lisboa), Altino Bessa (Braga), Artur Rêgo (Faro), Helder Amaral (Viseu), Inês Teotónio Pereira (Lisboa), Isabel Galriça Neto (Lisboa), João Gonçalves Pereira (Lisboa), João Paulo Viegas (Setúbal), João Pinho de Almeida (Porto), João Rebelo (Lisboa), João Serpa Oliva (Coimbra), José Lino Ramos (Lisboa), José Ribeiro e Castro (Porto), Manuel Isaac (Leiria), Margarida Neto (Santarém), Michael Seufert (Porto), Nuno Magalhães (Setúbal), Raúl de Almeida (Aveiro), Telmo Correia (Braga), Teresa Anjinho (Aveiro), Teresa Caeiro (Lisboa) e Vera Rodrigues (Porto). 

Via Arrastão

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Ai passa, passa!

Acabou finalmente o argumento da "incompetência", da "gasolina para a fogueira", da "irracionalidade" das medidas, entre tantas simpatias que nos fartámos de ouvir em repeat e alternância nas suas possíveis e múltiplas variações. Agora só não vê quem não quer o fanatismo ideológico disfarçado num  pacote à medida  dos escombros de onda possa finalmente emergir o "homem novo". Tivessem lido as entrelinhas, o "custe o que custar", o "que se lixem as eleições", o "queremos ir além da Troika", o "sejam menos piegas", o "desemprego pode ser uma oportunidade", o "emigrem professores que diz que nos PALOP precisam". Falo na maioria dos moderados mainstream porque para o resto temos os caceteiros mainstream, os Cantigas Estevez, João Duques e Blasfemos deste vida, entre outros, a maioria . E o patético e perigoso Fernando Ulrich que depois de achar que os nossos impostos deviam pôr os desempregados a trabalhar para o BPI continua a chamar um figo à austeridade. Dá mesmo que pensar o quanto Passos, Relvas e Gaspar se devem ter deliciado com tanta análise branda, tanta vista grossa, via-se o quadro, o cenário, tudo. Bem diz o ditado que os cães ladram e a caravana passa. Ai passa, passa! Por enquanto passa.  

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Factotum


Uma boa surpresa este "Factotum" do norueguês Bent Hamer. Não parti para o filme com grandes expectativas, confesso. Esperaria tanto ou quanto um género de "Barfly", talvez em melhor, talvez em pior. O filme de Barbet Shroeder não é mau, mas tem problemas. Caricatural, um tanto ou quanto inconsequente, indeciso, sempre para ali a apalpar terreno. Tenho para mim que Bukowski aceitou integrar o projecto mais como experiência que outra coisa, quem leia o romance "Hollywood" percebe isso, é lá que está o sumo todo de "Barfly" que não é mais do que todo o processo que rodeia o filme - a pré-produção, as decisões de quem entra e não entra, fica e não fica, o stress do realizador, o realizador contra o mundo, os amigos em redor, alguns para a vida como Sean Penn (no romance é Tom Pell), as excentricidades dos "artistas", as vaidades hollywoodescas, etc, etc. 
De qualquer modo, "Factotum" é o único filme em que temos verdadeiramente connosco um Henry Chinaski a sério sem clichés nem protótipos. Matt Dillon ajuda e muito. É outra surpresa. Com menos recursos que um Mickey Rourke, já para não falar de um Ben Gazzara que é de outro campeonato, Matt Dillon bate os outros dois aos pontos. Ele é Henry Chinaski, os outros são mais trejeitos, tentativas in progress. Dillon, ao invés, sabe compor e encarnar o personagem. No tom sóbrio, sério, meditabundo, no andar arrastado, na fala lenta, pausada, na ironia fina, no humor, no realismo sarcástico, no cepticismo avassalador. Leu a obra e estudou Charles Bukowski, isso salta logo à vista. O mesmo acontece com o argumento e o trabalho de realização, uma das provas disso é o encaixe perfeito de versos de poemas do autor em momentos certos para o efeito. "A poem is a city" ou "Roll the Dice" são disso exemplos. Sóbrio e consistente, "Factotum" é não apenas honesto como consegue também fazer cinema com um romance, o que é raro, basta pensar na quantidade de filmes falhados baseados em romances 
Nos créditos finais temos o nome da víuva do escritor, Linda Lee Bukowski e do editor, o tão estimado e decisivo amigo John Martin da Black Sparrow Press. Ignoro o peso que tenham tido no filme, mas sente-se aqui um reviver, um "matar saudades", algo que, distâncias à parte, só me lembro de ver em "Man On The Moon" de Milos Forman. Já me ia-me esquecer de uma estupenda Lili Taylor como Jane Cooney Baker, o primeiro grande amor do poeta, e de uma Marisa Tomei que basta ser Marisa Tomei, mesmo que por pouco tempo, para conseguir iluminar um filme. 


É amanhã que se acabam as férias?




Já que falamos de costuras, isto só vai lá assim, por pontos: 

- Números, que os tempos gostam de números, deixo os meus, que os Sporting estão pouco acima da linha de água e são publicamente conhecidos. Foram mais de 150 euros em Gamebox, com a crise, com os cortes, os gastos, a incompetência, o é para o mês seguinte. Há mais de 100 euros a pagar em quotas, ficam desde já pendentes de um milagre de Vercauteren. 

- Não há ninguém que veja os factos da noite das eleições e - com toda aquela encenação com o argumento inenarrável da afinação dos resultados  - que acredite que Godinho Lopes seja o legítimo presidente do Sporting. Se os há estão prestes a deixar de haver, se os houve já não existem. Nada a fazer, assim como as marés são mais que os marinheiros. É como a história da reestruturação da dívida, ontem era coisa de irresponsáveis esquerdistas,  hoje é o caminho desejável. Bendidos sejam os credores.

- Que mal custa ter razão a priori, que mal custa saber o enredo logo de inicio. Primeiro todos juntos e amigos no "projecto", depois o regresso ao saco de gatos, depois a fogueira das vaidades, depois o ex-saco de gatos,  depois a ex-feira das vaidades. Depois, no fim, o mesmo resultado: o regime desastroso-presidencialista a la Bettencourt. A comédia é de tão fraca qualidade que ainda resiste a um mês sem treinador. E com mais de três milhões de adeptos a assistirem. Estatísticas. 

- Amanhã acabam-se as férias? É que eu já as paguei e não eram as minhas. Nós sportinguistas já as pagámos de uma maneira ou de outra. Por mim falo, no hard feelings, sem ressentimentos, já cá não está quem falou, fica como uma ajuda à causa. É sempre um gosto. Estamos é quase em Novembro. É melhor que paguem cada cêntimo que ganharam. Irrealista? Se os trocassem com a equipa B talvez percebessem onde está a realidade. 


PS: Há três excepções. Viola, Rinaudo e Rui Patrício. A primeira chegou agora, a segunda tem estado meses lesionado, a ultima tem sido o nosso legítimo salvador e abono de família. Sem ele quem sabe...

sábado, 27 de outubro de 2012

Chama-lhe Mercados




"Os quadros da Goldman Sachs são empurrados para fora da instituição e passam a gravitar na órbita do sistema administrativo. Isso significa que é impossível que votem contra os interesses da Goldman Sachs."

"Têm o poder de arruinar economias como a Grécia. Gira tudo à volta dos mercados dos juros das obrigações. E quando declaram que determinado governo está insolvente as consequências são drásticas. Forçam-no a pedir empréstimos e impõem as medidas de austeridade que empobrecem os países."

"Ninguém alcança poder político sem a aprovação do sector financeiro. Desde o colapso de 2008 vimos que essas instituições são intocáveis. Não podemos fazer nada para as deter. Saquearam o Tesouro dos Estados Unidos e continuam no casino de especulação como antes de 2008."

"São criminosos. No século XVII os especuladores eram enforcados. Mas aqui, todas as instituições, a imprensa, as universidades, os partidos políticos, os sectores executivos do governo, toda a gente dança ao som da música que eles tocam. E não há nada que o cidadão comum possa fazer. Não há nenhum mecanismo dentro das estruturas formais do poder que nos permita lutar contra eles. "

"Estamos a ser destruídos financeiramente, moralmente, politicamente e economicamente por determinadas instituições e o Goldman Sachs é a jóia da coroa dessas instituições. Não conhecem limites, transformam tudo num mercado que exploram até à exaustão ou ao colapso."



sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Vício Inerente




Não sei porquê, sempre que leio, ou oiço, ou vejo Elmore Leonard – e não são poucas vezes porque o velho Dutch inspira-me sempre, mas isso é uma outra história, talvez para outra altura - apetece-me logo um cigarro. Eu que não sou fumador habitual há mais de dez anos, eu que na melhor das hipóteses só compro cigarros de vez em quando, por exemplo quando vou a Alvalade com o meu pai, ou quando saio à noite com amigos e cervejas. Mas pelos vistos não é só assim e com o Dickens de Detroit que me bate o formigueiro, há bocado a ver este fabuloso trailer da Penguin ao romance "Inhrent Vice" de Thomas Pynchon também me deu logo vontade de sacar um do bolso ou da gaveta. E ler o livro já agora. Anda a par com o vício a chamar de não sei onde. 


Raio X

Já que não vejo muito bem ao longe, tento melhor ver ao perto. Não sou dos que num estudo mental de instantes dão na hora com o retrato robôt de quem está defronte. O mais que me aproximo é tentando melhor ver ao perto. Só assim vislumbro o padrão que não se dá a meia distância. E contar que da próxima veja melhor. Nem que seja com o tacto, que é coisa de cegos. 

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Lloyd Blankfein


O senhor da cadeira do Goldman Sachs parece ter uma das coisas que Joseph D. Pistone usou para descrever o clássico wise guy: o olhar que diz "i'm always scheming and i'm right and you're wrong". Na verdade, Lloyd Blankfein pode ser muito mais letal que a Cosa Nostra. É ele o homem in charge da seita que parece que comanda o planeta em governosbancos centrais,  orgãos reguladores e decisores, arruinando populações inteiras e mesmo os próprios clientes e investidores, gente que nem imagina a  sorte que é sermos governados pelo professor Gaspar. Blankfein mal dá entrevistas, mesmo perante o senado e sob juramento se dá ao trabalho de responder. Do pouco que sabemos da figura parece que anda pelo mundo a fazer o trabalho de deus. É pois urgente que entendamos a mensagem da boa nova. Nós os ignorantes. Os que ainda nem sequer acordaram. 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A meia-luz do dia nublado


A luz não é o meio mais adequado para ver as coisas, mas para ver certas coisas. Agora, que está nublado, distingui da varanda um maior número de detalhes na paisagem do que nos dias de sol. Os dias soalheiros realçam determinados objectos em detrimento de outros, que deixam na sombra. A meia-luz do dia nublado põe todos no mesmo plano e tira da penumbra os esquecidos. Assim, certas inteligências medianas vêem o mundo com maior precisão e com maiores matizes do que as inteligências luminosas, que apenas vêem o essencial. 


Julio Ramón Ribeyro,  Prosas Apátridas, tradução de Tiago Szabo, Edições Ahab


Literatura Policial

O romance policial só será credível como literatura se a resolução do crime estiver dentro da estrutura, do próprio corpo da obra. Qualquer solução alheia - fora desse corpo, das suas regras, do seu funcionamento interno  - é, mais que um acto falhado, um erro fatal. Entra ali como um objecto estranho, irreconhecido, de outro planeta, outra linguagem, outra matéria. A ciência diz que o ferro é capaz de destruir uma estrela. A solução a la CSI, o deus ex machina, é esse ferro dentro do romance policial. Destruirá a sua força, eliminará o tal mecanismo de combustão. Há quem diga que toda a literatura é policial. O que todo o policial não é, é literatura. 

sábado, 6 de outubro de 2012

O Engano


Todo o crente do acaso e dos dados à sorte devia ao menos pensar nas comemorações de ontem. Bandeira hasteada ao contrário no ultimo 5 de Outubro feriado, anfitriões e comemorantes escondidos da rua pela primeira vez desde 1910, primeiro-ministro fugido em cimeira insignificante, mulher desesperada a irromper cerimónia adentro...
Num regime dirigido pelo PSI20, Berlim e predadores do banco Goldman Sachs fabricador de crises mundiais, Primeiros-Ministros e conselheiros de privatizações dizer que foi um engano esta impressão de queda livre não impedirá a imagem de ficar gravada em futuros manuais de História. Quantas vezes se consegue ilustrar o engano?  

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Chama-lhe ajustamento

Gaspar e Passos não assumem essa coisa assustadora do capitalismo ciêntifico da mesma maneira  que  antes de serem denunciados os mafiosos nos Estados Unidos não assumiam sequer a existência dessa coisa assustadora da Cosa Nostra. Porquê? Não podem. Porque é que não podem? Porque assim se quebra o feitiço. Porque é que assim se quebra o feitiço? No crime perfeito, o segredo não é a alma, é a própria condição do negócio.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Chama-lhe metas

Feliz ou infelizmente, a minha crença na incompetência humana não chega à pura e afrontosa canalhice, ao assassinato escondido e à vilania sem escrupulos. Tenho pena. Mais por quem não queira entender que o objectivo desta austeridade é criar ainda mais austeridade para ser necessária mais austeridade e assim sucessivamente em todas as cadências necessárias até que despojados de tudo o que temos e podemos e com tudo o que é bem público privatizado e confiscado chegaremos finalmente ao ponto de rebuçado, à maturação certa para sermos os serventes perfeitos, miseráveis e sem direitos de espécie alguma. É até onde a descida vai dar. Na Grécia a Troika já quer o povo a trabalhar seis dias por semana. Isto como quem não pede outra coisa pior. É tal a perversidade e eficácia clínica desta gente que deixam assustado até o mais optimista. Consegue exactamente o que quer mais uns extras escondidos na manga. Primeiro gera-se a grande controvérsia, depois o povo rejeita em força, depois o Governo diz nem pensar, o barulho torna-se ensurdecedor, aproveite-se então para passar como mal menor o que de outra forma seria bem mais complicado de engolir. O resto é fácil, com austeridade é só esperar o resultado. Um aninho, dois - nada que já não esteja previsto ou “estudado” - será mais que suficiente para passar o que antes era tido como loucura. Pensem no que Vitor Gaspar achava o ano passado das TSU. 

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Sinais


Henrique FialhoPedro Passos Coelho sugere aos jovens que emigrem ao mesmo tempo que se dirige aos portugueses enquanto pai. Isto já não é mera hipocrisia, é pura crueldade. Mais grave, é uma crueldade que não tem consciência de si própria. Eu não acredito que Pedro Passos Coelho seja sensível o suficiente para ter consciência do que anda a fazer.







quinta-feira, 6 de setembro de 2012

The Underboss



Naquilo que é e representa, e naquilo que representa e não é

Última Novidade: Adeus


Sem clichés que o sustentem, o último dia da Terra será muito do dia de hoje, deste "eterno presente" em que parecemos viver de notícia em notícia e de novidade em novidade sem que olhemos com olhos de ver o que se está realmente a passar. Primeiro distraídos, depois surpreendidos pelos acontecimentos, depois apanhados na curva. Em "4:44 O Último Dia na Terra", Abel Ferrara tenta retratar um possível fim do mundo com uma lucidez despojada de trejeitos e uma visão incisiva deste tempo em que indiferentes vemos o mundo a piorar a olhos vistos num encolher de ombros. Ferrara é sarcástico com a nossa indiferença, com a atitude do deixa andar, e sincera ou deliberadamente, não consegue ver bem como que é as coisas seriam muito diferentes no último dia na Terra. Realisticamente imagina cada um com o seu enredo, os mais sensatos ou humanos na companhia dos (mais) próximos, outros em em pânico, outros em negação, um que se mata, outro que partilha um naco de carne com o cão, outra que se quer enrolar, outros que se enrolam, outros muitos suspensos no Skype para as derradeiras despedidas. Como o distribuidor de comida chinesa ao domicilio que pede só que o deixem lá ir para despedir-se da família no Vietname, e pela câmara e pelo ecrã conseguimos ver todos eles, três ou quatro ou mais, encafuados sobre o computador. 
Há quem escreva que com  "4:44 O Último Dia na Terra" é a despedida de Ferrara de um mundo seu que já não existe. Não há como desmentir. Sempre é mais elegante escrever isso do que sobre aquilo que a obra trata realmente. Algo bem mais importante que toda uma possível conjectura de pose artística ou lá o que for que soe bem numa crítica. Será Abel Ferrara um ser humano tão diferente de muitos de nós que enquanto usam e abusam da internet se assustam e angustiam com todos os seus perigos e devaneios? Será Abel Ferrara um ser humano assim tão cínico que não tenha dito sobre este filme que "the bottom line in this film is about men's destruction of the earth as a metaphor of man's destruction of themselves, (...) it's on us, it´is our responsibility, it's we did it, this is an act of men, so everybody in this film, every character, has to face it."  
"4:44é um grande filme como "The Funeral", "Bad Lieutenant", ou "The King of New York" são também grandes filmes, cada um à sua sua maneira. Este tem a particularidade de ser o mais lúcido de todos, e talvez o mais necessário e urgente, arrisco até dizer obrigatório. Ferrara diz que só se fica melhor com a idade . Por ele aposto que sim.