quarta-feira, 29 de junho de 2011

Se me quero informar tenho a net

Já vou no terceiro dia seguido sem telejornal. Não vale a pena iludir-me: é austeridade + austeridade + austeridade, mais medidas do governo para antecipar a austeridade e tudo muito bem que os mercados gostam. Depois há as notícias Correio da Manhã como agora a morte do DZRT e quando as há querem-nos cercados no massacre noticioso, aí confundem-nos as coisas: os noticiários com o Correio da Manhã. 
Depois temos sempre aquela dúzia de comentadores que nos dizem constantemente a mesmíssima coisa sob diferentes perspectivas dentro da mesma perspectiva, ao que é necessária alguma imaginação, ou a absoluta falta dela, ainda não sei.
A verdade é que tenho agora as portas da varanda abertas, vem uma brisa amena de Verão, está um belo pôr do sol sobre Monsanto, ainda não me privatizaram isso de modo que isto vai começar a ser rotina. E como as jogadas já nos foram todas antecipadas, tenho o silêncio possível, tenho livros, CD's, nalguns dias até posso meter Gin Tónico.

domingo, 26 de junho de 2011

Ainda Peter Falk, com a devida vénia



Falarem da morte de Peter Falk e dizerem que morreu o detective Columbo e não mencionarem nem ao de leve o papel fulcral que Falk teve em filmes de John Cassavetes, esquecendo por exemplo que foi um dos actores de mão do cineasta ao lado de nomes como Gena Rowlands, Ben Gazzarra ou Seymour Cassel faz-me imensa impressão. É que o meu Peter Falk é o Peter Falk de Cassavetes, de resto sou até capaz de apostar que os obituários jornalistas nem sequer viram um episódio do Columbo...

Tudo isto numa hora

São cinco horas na cidade, Vasco já abriu o estor, esteve a trabalhar até de manhã. Vai só tomar um duche rápido, fazer a barba. A porteira guardou-lhe a encomenda duns livros - ele desligou a campainha por causa do carteiro e dos miúdos da publicidade - mal o vê vai logo ter com ele que educadamente agradece e despacha-a pois o que quer agora é uma cerveja e uma sandes de ovo. De caminho passa pelo restaurante da rua de fugida, sem que o vejam, ele está à espera de receber uns dinheiros e o restaurante está prestes a fechar com a crise. Os óculos escuros largos e um marchar diferente no outro lado do passeio ajudam à camufragem. Missão cumprida. Mais à frente no café das sandes tem logo à espera o Sr. Leitão cujo nome não pressupõe o que imaginam: é magro que nem um palito, a alcunha na escola era "o espinhas" mas hoje quase ninguém sabe disso, quem o sabe fica calado porque porque hoje o Sr.Leitão é um tipo muito assertivo e boa pessoa. E falador, agora estava em pulgas para falar da política enquanto que Vasco gosta é de estar sossegado, mas lá teve de ser, “olhe, estive a pensar e afinal o senhor tinha razão em relação áquilo da Merkel..”. Passado uns dias dirá o seu contrário, isso já se sabe, porque com a Merkel ninguém brinca, se não estivesse sempre a falar disso provavelmente Vasco esqueceria a discussão acesa que tinha tido com ele em que chamou de tudo à frau . Na altura ia na sétima cerveja e agora sente-se ao escuro por dormir de dia. Se calhar vai mas é meter férias,  mas pensando bem o problema do momento é que a cerveja está choca e cerveja ao natural é das piores coisas que lhe podem fazer, “olhe lá, não me podia trocar esta cerveja?”; O espadaúdo respondeu que acabaram de ser postas no frigorífico. Ora gaita, Vasco olha então para o relógio, diz que são seis da tarde, a unidade das horas é na maioria das vezes muito limitada. 

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Exercício

A folha branca deixa de ser branca quando está escrita e a escrita preenche-se pela imaginação e nunca pela tinta. Pensava nisso quando agora a tentava preencher com uma parede branca à minha frente. Contaram-me que um dos exercícios do Zazen é estar horas em posição de lótus a olhar para uma parede branca, e que passado algum tempo as dores nos joelhos tornam-se tão intoleráveis que só as esquecendo se consegue aguentar. E que sobre a parede branca se começam a projectar imagens num enredo caótico com possíveis momentos de coerencia. Imagens atrás de imagens atrás de imagens. Porque é nos ser impossível ter o branco indefenidamente. Porque o branco não veio antes de nós. 

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Livralhada, cá vai


O Tolan lançou-me o desafio, respondo com prazer.  

1 - Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Existem vários. 

2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
O “Teatro de Sabbath” do Philip Roth. Lamento desapontar toda a maralha que para aí anda tão tida e lida no Roth, aquilo é a mais acabada das chatices.

3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Se escolhesse um fariam falta os outros, inclusive os que gostaria de ter lido. Se calhar é por isso que Borges falava no livro com todos os livros.

4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
“O Guerra e Paz”, de Tolstoi. Já o queria ler 
antes, mas por causa do Tolan vou apressar a coisa:)

5- Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?
Não me recordo agora assim de um livro com a “cena final”, lembro-me antes de uma pós-cena final que foi acabar de ler “A Viagem ao Fim da Noite” do Céline por volta das seis da manhã, tinha pegado depois de jantar. Foi pura sorte. O livro esse “bateu-me” de verdade, e fiquei com a eterna curiosidade de saber a que horas é que Jim Morrison acabou de o ler.

6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Nada de especial, lembro de ler “Os Cinco” e “Os Sete” e aquelas coisas. Eu era mais BD´s. Tentaram-me meter-me a ler Julio Verne com a “A Viagem ao Centro da Terra” mas eu começava a ler aquilo e só olhava para o fim a pensar falta tanto. Claro que nunca o li.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Lembro de ouvir o Al Berto dizer numa entrevista: “a um livro dou-lhe 30 páginas, se não gosto largo, e quero lá saber se é uma obra-prima...” Ouvir aquilo libertou-me logo de não sei quantos constrangimentos. Não dou 30, mas costumo dar 60. Também largo livros a meio. Não considero isso uma qualidade, mas cada um sabe de si.   

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
“A Ilíada” e “A Odisseia” de Homero, “I, Claudius” de Robert Graves, “Herzog” de Saul Bellow, “O Trópico de Câncer” de Henry Miller , “Money” de Martin Amis, “O Coração das Trevas “ de Joseph Conrad, “O Vermelho e o Negro” de Stendhal, “Os Detectives Selvagens” de Roberto Bolaño, “Viagem do Fim da Noite” de Céline,  “A Metamorfose” do Kafka,“O Livro do Desassossego”de Fernando Pessoa/Bernardo Soares, “O Medo” de Al Berto, "Diário" de Miguel Torga, "Ensaio Sobre a Cegueira" de Saramago, “1984” de George Orwell, “Solaris” de Stanislaw Lem, “A Possibilidade de uma Ilha” de Houellebecq. Não quero deixar aqui de lado todas as novelas do Bukowski, a obra inteira de Nietszshe e as Obras Completas de Jorge Luis Borges.

Que livro estás a ler neste momento?
Leio vários ao mesmo tempo, um por categoria. Agora ando com “Moby Dick” do Herman Melville (mais vale tarde que nunca) “O Bestiário” de Julio Cortázar, “A Dança das Feridas” do Henrique Fialho e o 3º volume do “Conta-Corrente” de Vergílio Ferreira.

10. Indica dez amigos para o Meme Literário:


terça-feira, 21 de junho de 2011

O grau zero da política (II)


Bastava-lhe por exemplo marcar uma conferência de imprensa. Há uma semana atrás seria suficiente - que não reunindo os consensos necessários renunciava ao cargo e (por incrivel que pareça) saía airosamente do embaraço, inclusivé com nova força política, ainda reconquistava adeptos, o sortudo. Mas não, ambições assim desmedidas têm de ir até ao fim. A paga depois teve-a com juros - e foi vê-lo expectante, isolado, meio acossado, com vontade de se esconder debaixo do chão mas nem assim perdendo aquela estrondosa vaidade, e no final, na curta declaração, em todas as entrelinhas dando ares de revolta e indignação como que culpando o mundo tal como antes tinha acusado alguns dos seus milhares de ex-fãs do Facebook de conspiração para o derrubar pelo simples facto de se terem indignado pela sua indignidade. Fernando Nobre cometeu o pecado de mostrar o (mau) jogo. Todo o jogo.  Agora como deputado, se entretanto não renunciar, não só tem muito trabalhinho a fazer como ainda por cima sabe que os outros sabem que ele sabe que está ali apenas para ser a estrela da companhia. 

domingo, 19 de junho de 2011

O grau zero da política




É cada vez mais provável que este ano tétrico da política portuguesa vá desaguar ainda no vaidoso oportunista troca-tintas demagogo do Fernando Nobre, com todo o respeito pelo seu exemplo e percurso de vida - que me impede de debitar aqui ainda mais adjectivos - o que nem é necessário mencionar visto que a figura faz constantemente questão de sublinhá-lo despudoradamente em proveito próprio, chamando isso de "cidadania". Se Fernando Nobre for eleito Presidente da Assembleia da República cairemos finalmente no grau zero da política, a partir daí é só a descer, quiçá irreversivelmente. Se duvidam pensem na Itália de hoje, o melhor exemplo para entender que não existem limites para a desfaçatez.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Schaars



Godinho Lopes (e já agora Luís Duque e Carlos Freitas) anda a fazer um excelente trabalho. Em surdina. Enquanto apaga os fogos internos de disputas de poder e egos inflamados, lá vai metendo a casa em ordem e preparando a glória com contratações cirúrgicas no limite do custo. Verdadeiros achados, tudo menos óbvios mas de valor tão certo quanto impossível de (nos) enganar, ainda por cima iludindo empresários chupistas e toda a imprensa que mesmo involuntariamente inflaciona custos enchendo de dinheiro os bolsos errados. Mesmo assim confesso que ainda não consigo olhar muito tempo para Godinho Lopes quando o vejo na televisão, fiquei demasiado aturdido pela possível vigarice eleitoral a la W. Bush, imposta (ou não) por interesses que são do conhecimento público. De qualquer forma Godinho anda a trabalhar muito bem, gradualmente passando de "este não é o meu presidente" para "o nosso grande presidente".

Acid casualty



Foi pelo fim que os Pink Floyd começaram.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

A Melhor Juventude



Foi "Casa de Lava", filmado na ilha do Fogo, que fez com que lá chegasse - para fazer o favor de entregar umas coisas a familiares de gente que conheceu na ilha. Para Pedro Costa entrar nas Fontainhas foi um choque equivalente a uma chegada a África ou à Índia, como diria mais tarde. Primeiro estranhou bastante, mas rapidamente envolveu-se naquele mundo e comunidade onde até como tesoureiro serviu. Trabalhou,  realizou obras-primas, tomou a comunidade como sua. Ali paredes meias de Lisboa, num sub-mundo de miséria, filmando horas a fio num longo moroso processo de repetições, dores, conflitos, maturações, numa longa teia tecida entre a pessoa de carne e osso e seu terrível enredo onde vêm à luz reminiscências de Robert Bresson, Straubb/Huillet, Rosselini ou Pasolini. Com a coragem de um cinema assim - artesanal, transcendente, singular o suficiente para se poder considerar uma nova cinematografia - vive ali o mais brutal e desesperado dos pessimismos, que se confunde bem com o seu realismo: não existe saída, ponto. O feito de Pedro Costa está no sublimar de tal desolação, de toda aquela inumanidade e miséria. Tal como Joseph Conrad no seu "Coração nas Trevas", tudo ali é sinuoso, fechado na obscuridade, no silêncio, na lassidão, onde o climax é não só o ponto mais longínquo da viagem, como a própria condição de um regresso.
Não há fórmulas para tal, nem a folha em branco se ensina. A folha em branco aqui é o plano. Está tudo lá, na folha: o som, os diálogos criados e improvisados incessantemente até a uma forma que os sustente. O olhar, a presença do personagem, feita de meses e meses de empatia vivida, transportando verdade para o filme trabalhado sobre o abismo entre nós e a irremediável miséria dos deserdados do mundo. 
A primeira vez que visitei o seu "cinema das Fontainhas" passei quiça por um semelhante processo de aceitação. Primeiro de estranheza e rejeição, depois de revelação e descoberta. Tem de se conquistar o prazer daquela fruição. De tudo o que está lá dentro - a sua poesia, a sua metafísica, o seu processo de catarse. E tanta humanidade na desumanidade. One of the most important artists on the international film scene , podem dizer o mesmo em Nova Iorque, LA, Paris, São Paulo, Tóquio...Contra todas as probabilidades é nele que estão postos os olhares do cinema mais genuíno.  Mesmo achando que o Cinema como ofício no seu sentido mais artesanal é uma arte em vias de extinção. Pronta a desvanecer-se.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Lá Fora



Dá ideia que se passa muita coisa durante “Barton Fink”, mas vendo bem há um assassínio, um incêndio e pouco mais. Nem são os momentos de Fink nas suas divagações, bloqueios de escrita ou dúvidas existenciais que suportam o tempo do filme. Não, o filme sustenta-se em 3 ou 4 pontos chave, com arcos suspensos entre eles e entre esses arcos literalmente levitamos diante da tragédia. No final pouco nos interessa o mundo lixado e o sarilho em que o personagem está metido. Isto porque o que nos leva é que o vai escrito. O que nos conta é a cabeça do escritor, o mundo, esse está lá fora como o quadro da mulher na praia. Se é real ou imaginado é-nos indiferente, é que no meio das palavras ambos são indistinguíveis.

Parvo parvalhão

A agressão é coisa do diabo, a agressão temos de estar sempre a lidar com ela. Ontem ligou-me para desabafar que ele a insultou violentamente ao telefone, já dois anos depois de ter acabado com a relação. “Como é que é possível? Tratou-me pior que lixo...”. Conhecendo-a tão bem e percebendo pelo tom onde a conversa ia dar, cortei mais rápido que a própria sombra. É simples, ligou-te porque é parvo, insultou-te porque é mesquinho, dois anos depois porque é um ressentido e ainda por cima de uma cabine telefónica, porque é burro. Tentei depois armar-me em engraçado sugerindo que soletrasse P-A-R-V-O à maneira disco sound anos 70. A rir assim meia desarmada – e eu também pela espontânea acabada pirosice – voltou à carga, “mas eu não mereço isto”, cortei então com os japoneses que quase apocalipsaram com um tremor de terra e não mereciam, com as crianças da Palestina, com o povo do Zimbabwe, com as mulheres da Arábia Saudita, com quem trabalha e vai à sopa dos pobres, que no limite quase ninguém merece, menos ainda aquele casal do prémio do euro-milhões se bem que ao contrário, que se deixe disso porque o gajo é um parvalhão. P-A-R-V-O. P-A-R-V-O. P-A-R-V-O. Não vês que ele quer-te com os hematomas da agressão? Com manchas de sangue na roupa. Não percebes que se te rires ele descarrila, que se o olhares de frente então não se levanta mais?

sábado, 11 de junho de 2011

Real ficção



O realismo em “The Wire” (em português "A Escuta") é parte da sua urgência, da sua mensagem, do efeito que pretende criar, do que pretende reflectir. No final de cada série teremos um quadro tão extenso como abstracto, mas acima de tudo verdadeiro. O objectivo esse foi conseguido, entrarmos dentro da acção como dentro da própria realidade: infestada de impurezas, aleatória, subjectiva, tendo o bem e o mal não apenas como valores mas mais como lados onde nos encontramos no xadrez da vida - ele há gangsters com elementos de nobreza e ele há detectives deformados em bullshit. Na verdade vivemos a vida em tantos tabuleiros que nada melhor que as camadas em“The Wire” para o ilustrar, numa trama em que estamos em simultâneo presos e confundidos, tal como presos e confundidos nos encontramos tantas vezes no nosso dia a dia. Nesse sentido “The Wire” é também politico, pois coerentemente obriga-nos a pensar na importância do que está diluído no presente. Esta forma de realismo cola-se a nós mais do que muito que há para aí de "realismo" e que perante isto se torna apenas trivial. Muitos não se inibem de dizer “best tv show ever”. Discutível ou não, "The Wire" aceita todas as fasquias. 

Quadripolaridades

A blogosfera é e tem sido uma caixa de surpresas, as boas têm suplantado as más por larga margem, ainda bem e que assim continue. Depois há também raridades como esta. Um grande obrigado ao Quadripolaridades.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

80

Woke Up This Morning




Entretanto em Filadélfia as coisas deram uma volta de 180º. O boss Joe “Uncle Joe” Ligambi, seu underboss Joseph “Mousie” Massimino, o capitão e braço direito Anthony Staino e mais uns quantos foram apanhados e presos. Foi desmontado pelo FBI um esquema de máquinas de póquer em cafés e bares que davam um lucro colossal, a marosca, simples, constituía na percentagem do lucro sobre tudo o que era máquina no sul de Filadélfia e New Jersey. Não há mortos ou feridos, há sim escutas de um microfone de um associado metido no meio do esquema. Não havia nada que enganar, as pessoas pagam para não terem problemas e tenta-se fazer as coisas de um modo "legitimo" criando para tal uma empresa chamada JMA industries (J de Joe Ligambi, M de Mousie Massimino e A de Anthony Staino , "it’s all profit, it’s all profit"...). Mas tramaram-se, agora Ligambi com 71 anos arrisca uma pena de 20, o que naquele caso é prisão perpétua. 
Já lá dentro sabe-se que Ligambi teve uma brutal discussão com o sobrinho e consiglieri George Borgesi que já estava preso e aproveitou a oportunidade para se queixar de não estar a ter o combinado e da sua família não ser acompanhada convenientemente, Ligambi esse pode-se queixar do tipo que os tramou com o microfone vir da parte de "Bent Finger" Lou Monticello, um associado de Borgesi. Entretanto cá fora Joey Merlino prepara-se para novamente tomar conta da Philadelphia Crime Family, preso até Março deste ano foi para a Florida para não se envolver demasiado, ou pelo menos para fugir dos holofotes. Joe Merlino é uma quase celebridade em Filadélfia e as coisas passaram-se muito mais depressa do que imaginava. Agora está numa posição de pegar ou largar, daí que tenha nomeado o seu homem de mão e ex-underboss Steve Mazzone para tentar tomar conta do território. Só que Ligambi parece não estar pelos ajustes e quer continuar comandar as operações. A discussão de Mazzone com familiares do ainda chefe "Uncle Joe" serve bem de ilustração. O problema acresce porque Ligambi tomou o poder há 12 anos quando Merlino foi preso. Enfim, dou por mim e parece que acompanho os Sopranos ao vivo todas as semanas nos sites do canal Fox 29 e Phily.com. Com alguma culpa à mistura, diga-se. Mas bem vistas as coisas, quase tudo o que aconteceu nos Sopranos mafia related e não só é real e verídico, o mesmo se passa com 95% de "Good Fellas", "Casino" ou "Donnie Brasco". E casos como o BPN são bem piores que video poker machines, com a agravante de não terem glamour absolutamente nenhum.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Eleições - notas finais


- Foi a maior abstenção desde 1976 – 41,1%. E Bateu-se o recorde dos votos em branco - 103.537.

- Com PSD e CDS (50,3%) a direita ganhou. Estrondosamente. O povo subscreveu a receita. Estrondosamente.

- Daniel Oliveira na melhor intervenção da noite, “as pessoas quando foram votar sabiam. Estava lá tudo." Sim, escarrapachado, escrito, dito, repetido. Mas nem o possível fim do SNS como o conhecemos, ou o argumento de se ir mais longe que a Troika impressionou o eleitor. Nem Fernando Nobre, ou sequer Leite de Campos, quanto mais Eduardo Catroga.

- Pelos vistos o povo português gosta muito do moralismo dos cortes e da austeridade, não vai é achar tanta graça quando este lhe cair em cima, e vai cair mesmo, em força. E contra factos desta vez não sei com que argumentos responderá. A bem dizer nem sequer imagino...

- A esquerda, exceptuando o PCP, sofreu uma humilhação histórica, poderá talvez aprender alguma coisa da necessidade de deixar de ser tão "pavloviana", de começar a pensar mais estratégicamente. Deixar de achar que PS, PSD e CDS é tudo igual, porque não é. Aprender a ser mais flexível, a ter inteligência para além da "indignação". Perceber que tiros no pé são tiros no pé.

- O género de desporto nacional chamado “a culpa é toda do Sócrates” começará a ter cada vez menos adeptos, eventualmente desaparecerá do mapa. Ainda bem, o barulho é ensurdecedor.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Domingo está dado o tiro de partida

Sente-se no ar o regresso do PSD ao governo. A blogosfera da direita ansiosa e aos foguetes nem deixa que se respire. Há bloggers à média de três posts por dia a execrar José Sócrates por todos os nossos males presentes e passados e isto nivelando a coisa por baixo. Tudo aquilo que foi escrito nos últimos meses deu como que um valente spin de aceleração. Soa quase a purga. A caça ao homem. Não vou votar PS por isso estou à vontade para dizer: é de entontecer.
Do mal o menos, ou melhor, tentando pegar pelo lado menos sujo da questão: deixaremos de ter só um bode expiatório. Porque ao que aí vem inevitavelmente muito vai ter de vir ao de cima, algo que este salivar pelo poder não vê nem quer ver. Como poderia, se ele próprio das duas uma, ou ia a eleições no PSD ou no país? A conjuntura internacional não será atenuante de nada se até agora foi tida como factor lateral ao verdadeiro objectivo de se chegar ao governo. Porque pelos vistos os países andam todos a crescer, menos a Grécia e a irlanda, esses trapaceiros...Irão dizer, sim, vão dizer “a culpa é toda do governo anterior” e que atire a primeira pedra quem não se lembra do Guterres de governo minoritário execrado e culpado de todos os males da terra, enquanto Cavaco com duas maiorias absolutas era tido como o bom, o virtuoso, o honesto, o acima de toda a suspeita, o culpado de coisa nenhuma. Ninguém reparou no desbaste da agricultura,no abandono das pescas, em Oliveira e Costa e no BPN, em Dias Loureiro, nos enriquecimentos ilícitos, nas reformas de roubo em acumulo.  
Hoje televisões, jornais, revistas, todos tocam pelo mesmo diapasão. O problema está localizado: temos de nos livrar de José Sócrates. Seja. O objectivo está prestes a ser alcançado. Logo a seguir temos prometido um longo filme noir serie B. 

Andando

Ando aqui como quem não anda, mas ando bem andado, 50 minutos a pé por dia na ganga e com uma mochila com uns cinco quilos às costas, de momento é o melhor que se arranja e tarda nada começo a nadar e quero ver se volto às artes marciais. Um corpo bem tratado devolve a cortesia ao espirito através de uma protecção especial tida em bónus de intuição,  sangue frio, criatividade, capacidade de concentração e humor como deve ser. Existe gente porreira, cool e cheia de coisas boas mas que depois é impossível de ego, neuróticos na quinta casa, vai-se a ver o seu sistema muscular e aquilo é tudo flácido, mole, derrotado, todo um espírito com um corpo a mandá-lo à merda. É uma escolha. Li há pouco tempo que Philip Roth - de quem não aprecio por aí além – faz caminhadas e vai nadar todos os dias e Norman Mailer fazia desporto diariamente sublinhando que o escritor é um atleta e que por isso deve praticar exercício físico. Eu não sou um escritor mas nada me faz tão bem na vida como escrever palavras e pôr os músculos a falar.