sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Chama-lhe ajustamento

Gaspar e Passos não assumem essa coisa assustadora do capitalismo ciêntifico da mesma maneira  que  antes de serem denunciados os mafiosos nos Estados Unidos não assumiam sequer a existência dessa coisa assustadora da Cosa Nostra. Porquê? Não podem. Porque é que não podem? Porque assim se quebra o feitiço. Porque é que assim se quebra o feitiço? No crime perfeito, o segredo não é a alma, é a própria condição do negócio.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Chama-lhe metas

Feliz ou infelizmente, a minha crença na incompetência humana não chega à pura e afrontosa canalhice, ao assassinato escondido e à vilania sem escrupulos. Tenho pena. Mais por quem não queira entender que o objectivo desta austeridade é criar ainda mais austeridade para ser necessária mais austeridade e assim sucessivamente em todas as cadências necessárias até que despojados de tudo o que temos e podemos e com tudo o que é bem público privatizado e confiscado chegaremos finalmente ao ponto de rebuçado, à maturação certa para sermos os serventes perfeitos, miseráveis e sem direitos de espécie alguma. É até onde a descida vai dar. Na Grécia a Troika já quer o povo a trabalhar seis dias por semana. Isto como quem não pede outra coisa pior. É tal a perversidade e eficácia clínica desta gente que deixam assustado até o mais optimista. Consegue exactamente o que quer mais uns extras escondidos na manga. Primeiro gera-se a grande controvérsia, depois o povo rejeita em força, depois o Governo diz nem pensar, o barulho torna-se ensurdecedor, aproveite-se então para passar como mal menor o que de outra forma seria bem mais complicado de engolir. O resto é fácil, com austeridade é só esperar o resultado. Um aninho, dois - nada que já não esteja previsto ou “estudado” - será mais que suficiente para passar o que antes era tido como loucura. Pensem no que Vitor Gaspar achava o ano passado das TSU. 

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Sinais


Henrique FialhoPedro Passos Coelho sugere aos jovens que emigrem ao mesmo tempo que se dirige aos portugueses enquanto pai. Isto já não é mera hipocrisia, é pura crueldade. Mais grave, é uma crueldade que não tem consciência de si própria. Eu não acredito que Pedro Passos Coelho seja sensível o suficiente para ter consciência do que anda a fazer.







quinta-feira, 6 de setembro de 2012

The Underboss



Naquilo que é e representa, e naquilo que representa e não é

Última Novidade: Adeus


Sem clichés que o sustentem, o último dia da Terra será muito do dia de hoje, deste "eterno presente" em que parecemos viver de notícia em notícia e de novidade em novidade sem que olhemos com olhos de ver o que se está realmente a passar. Primeiro distraídos, depois surpreendidos pelos acontecimentos, depois apanhados na curva. Em "4:44 O Último Dia na Terra", Abel Ferrara tenta retratar um possível fim do mundo com uma lucidez despojada de trejeitos e uma visão incisiva deste tempo em que indiferentes vemos o mundo a piorar a olhos vistos num encolher de ombros. Ferrara é sarcástico com a nossa indiferença, com a atitude do deixa andar, e sincera ou deliberadamente, não consegue ver bem como que é as coisas seriam muito diferentes no último dia na Terra. Realisticamente imagina cada um com o seu enredo, os mais sensatos ou humanos na companhia dos (mais) próximos, outros em em pânico, outros em negação, um que se mata, outro que partilha um naco de carne com o cão, outra que se quer enrolar, outros que se enrolam, outros muitos suspensos no Skype para as derradeiras despedidas. Como o distribuidor de comida chinesa ao domicilio que pede só que o deixem lá ir para despedir-se da família no Vietname, e pela câmara e pelo ecrã conseguimos ver todos eles, três ou quatro ou mais, encafuados sobre o computador. 
Há quem escreva que com  "4:44 O Último Dia na Terra" é a despedida de Ferrara de um mundo seu que já não existe. Não há como desmentir. Sempre é mais elegante escrever isso do que sobre aquilo que a obra trata realmente. Algo bem mais importante que toda uma possível conjectura de pose artística ou lá o que for que soe bem numa crítica. Será Abel Ferrara um ser humano tão diferente de muitos de nós que enquanto usam e abusam da internet se assustam e angustiam com todos os seus perigos e devaneios? Será Abel Ferrara um ser humano assim tão cínico que não tenha dito sobre este filme que "the bottom line in this film is about men's destruction of the earth as a metaphor of man's destruction of themselves, (...) it's on us, it´is our responsibility, it's we did it, this is an act of men, so everybody in this film, every character, has to face it."  
"4:44é um grande filme como "The Funeral", "Bad Lieutenant", ou "The King of New York" são também grandes filmes, cada um à sua sua maneira. Este tem a particularidade de ser o mais lúcido de todos, e talvez o mais necessário e urgente, arrisco até dizer obrigatório. Ferrara diz que só se fica melhor com a idade . Por ele aposto que sim. 

Tédio, cuidado

Consigo ver pelo grau de escrita o tédio de que padece a pessoa. Por vezes é um tédio muito profundo, consistente, de um conhecimento mais que justificado e preso nas suas fundações. Tão afirmativo e arrogante que é bom que não te aproximes. 

Jornal


Queres saber notícias tuas, escreve um jornal de ti próprio. 

Esperem bem sentados

A Troika sugere à Grécia mais um dia de trabalho por semana. Por enquanto é só uma sugestão. Lá chegaremos. À mesma estrada, o mesmo destino. Se não nos resolvermos com o que não temos nem podemos tanto pior. Arcaremos com as consequências, os outros, na pior das hipóteses, tentaram apenas ajudar. Porque isto da culpa é, no essencial e até prova em contrário, a de quem arca com ela e não necessariamente a de quem é culpado. A mais um "esforço adicional" será dado outro nome. Só não muda o refrão: se não for assim, tanto pior.