segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Ossos

Tenho um problema num joelho a que nunca liguei nenhuma até há exactamente uma semana. Foram dias de dores altas, daquelas de ganir, daquelas que nos fazem rebolar como um jogador de futebol que tivesse levado uma valente cacetada. Ai o raio das dores. Aquilo sim é um aqui agora a que é impossível escapar, um não sais daqui, um agora é isto, aguenta-te e respira fundo. A melhor forma que tenho para descrever o pior daquilo é qualquer coisa como câimbras dormentes múltiplas, como se tivessem sido postas num pedal delay. Quando o tormento acalmava iniciava-se a alternância: dói aqui, dói ali, estala acoli, arde mais acima, pica mais abaixo, marioneta de cartilagens, articulações e tendões, fiquei logo a saber da pior forma como a dor num músculo da perna esquerda nos impossibilita de subir a cabeça na almofada da cama para sequer conseguir ler, que estar sentado é só durante pouco tempo e virado para a frente...Mesmo depois do hospital, mesmo depois das dosagens generosas de analgésicos e anti-inflamatórios. 
Os nervos também iam na enxurrada, inflamavam-se, caídos na armadilha do desgaste, caceteiro, mordendo o juízo, quebrando o sono a menos de duas horas seguidas, queimando todas as reservas de paciência. Que fazer? A solução só ocorreu a um médico grande amigo da família: talvez um calmante. Acertou. 
Foi tiro e queda, o arsenal de injecções, anti-inflamatórios e analgésicos teve finalmente a permissão para entrar em combate e foi como se o cavalo já estivesse dentro das muralhas de Tróia. Dormi a primeira noite da semana - a de Quinta para Sexta-feira. Quando acordei foi como um milagre erguer-me da cama sem ser preciso aplicar técnicas rotativas de jujitsu brasileiro para evitar as tais câimbras em pedal de delay. E conseguir pôr o pé no chão sem dores. E dormir mais ainda, de sol a sol. E depois noite adentro. E acordar ressuscitado. 


Só Sábado li os primeiros blogues da semana. Soube das péssimas noticias: morreu Christopher Hitchens, morreu Cesária Évora. Ontem morreu Václav Hável. Fiquei a pensar no aforismo "do que não me mata torna-me mais forte". Mas hoje morreu Kim Jong Hill, um assassino totalitário execrável demente filho da puta, ainda assim pronto a ser erguido à figura de deus daqueles milhões que tiveram o azar de nascer ali. Como quereriam ao menos ter um imbecil primeiro-ministro que sugerisse que emigrassem...