sábado, 24 de setembro de 2011

20 anos


Nevermind apanhou-me a jeito, com 17 anos rondava na altura a extinta discoteca Torpedo na estação do Rossio passando partes das tardes a ouvir sons novos e a ser aconselhado no rock alternativo por um senhor muito alto alemão (creio) – na altura para mim era senhor, talvez hoje fosse um jovem – e por uma espanhola baixinha. Mas nem foi lá que eu ouvi Nevermind a primeira vez, foi (também creio) na XFM que ouvi “Smells Like Teen Spirit” achava então que era das coisas mais excitantes que tinha ouvido. Quem tenha vivido aquela época percebe perfeitamente o que quero dizer: Kurt Cobain simplesmente tinha conseguido criar um antes e um depois, rasgando do mapa toda a foleirice de hard rock poseur e demais treta vinda dos anos 80 e germinava então como cogumelos em bosque humido.

Confesso que conheci os Nirvana ainda antes de os ter ouvido. Tinha começado a comprar pouco tempo antes e também a ler à sorrapa no Amoreiras todos os New Musical Express ou Melody Maker que me apareciam à frente e aconteceu-me apanhar uma daquelas gripes que me deixam knockout e a precisar que me amparem a vida, pedi então à minha mãe que me trouxesse um daqueles dois jornais e ela trouxe-me à cama um célebre NME em que os Nirvana se deram a conhecer ao Reino Unido - Cobain com uma T-shirt dos Captain America, Chris (na altura era Chris) Novoselic com uma dos Sonic Youth e Dave Grohl (cool como nunca voltou a ser...) com um charro posto debaixo do labio inferior.
O que aconteceu a seguir foi história: lembro-me do buzz criado com mais e mais entrevistas até à única Rolling Stone que comprei na vida, de uma entrevista que um amigo me passou em VHS de um programa da MTV (na altura era isso e cassetes) onde Cobain era entrevistado de vestido amarelo e falava em influências de Vaselines, Bikini Kill, The Pixies, The Melvins, The Breeders e por aí fora, lembro a ascenção de bandas incríveis que de outra forma nunca sairiam da obscuridade como os Sonic Youth, Dinosaur Jr, Husker Du, Screaming Trees, Soundgarden, Mudhoney, Meat Puppets, etc e etc. Lembro-me das bocas de destruição maciça aos Guns and Roses, aos Extreme e até aos Pearl Jam.
Quando já tinhamos redescoberto “Bleach” e ouvido “Incesticide” o “In Utero” foi apenas mais uma revelação, cada aparição de Cobain deixava o mundo em sentido, refém do talento visionário. Só que Cobain era frágil como vidro e aquela agressividade provocadora escondia uma vulnerabilidade e incapacidade de protecção impossíveis de se defender perante um mundo ávido e cheio de abutres e gente escravizada. Cobain provocava constantemente. Quem verdadeiramente gostava da Nirvana family Tree deliciava-se com isso, a ralé que comia (e come) tudo o que lhes é dado das duas uma, ou não compreendia de todo, ou julgava que aquilo era só pose. 
O resto é história, Cobain casou-se com Courtney Love, teve uma filha, agarrou-se à heroína. Por fim lançou-se numa última digressão mundial que uns quantos felizardos tiveram a sorte de ver, eu incluído. Foi num Dramático de Cascais à pinha. Kurt de tão magro parecia um agarrado do Casal Ventoso, vendo-o assim não imaginei que se seguiriam mais de duas horas de concerto non stop em alta rotação com “Bleach”, “Incesticide”, “Nevermind” e “In Utero” despachados em tom detonante. O som estava perfeito, a energia transbordava, Kurt deixou no publico saciado a ideia que era impossível dar mais. 
Pouco tempo depois estava eu em Paris e um amigo bastardo que não suportava Nirvana deu-me a terrível notícia: Kurt Cobain tinha-se matado com um tiro na cabeça. Contava-me a notícia com tais ares de “eu bem te tinha avisado” que logo me fez acreditar que não estaria a mentir. O choque teve réplicas até hoje. 

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Praia Autocarro

Naquele dia na praia estavam dezenas de pessoas em grupos e grupinhos e eu sozinho a ler no meio do areal que era grande. A tempos e às vezes ao mesmo tempo punham-se a olhar-me com caras de não compreender. Eu voltava ao livro. A páginas tantas reparei que havia um problema com tanto olhar, talvez fosse a leitura, talvez fosse eu estar ali, sem ninguém ao lado, a única pessoa sozinha naquela praia, e isso começava a incomodar não por me doerem as costas ou pelo livro ser o "Fome" de Knut Hamsun. Todos eles ali, cheios de superioridades mas sem sequer um "Correio da Manhã" para ler a completarem-se em monossílabos e jogos de cartas e de bola, isto a minoria, porque a maioria olhava para o vazio do horizonte sem qualquer vislumbre da beleza daquele mar, quais versões relaxadas daqueles que apanho no autocarro cheio a carregarem suas vidas em costas desistidas e cansadas. Em quantas vejo eu que nunca tiveram a coragem de uma caminhada a pé no fresco duma tarde, que não inventaram uma alegria com a vida, nem sequer ao menos se revoltaram porque seria tão difícil como serem olhadas na praia por todos os que não lêem uma linha. 

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Troy Davis



Em muito dos Estados Unidos ainda se vive com o padrão da lei dos colonos europeus que lá chegaram no século XVI para fugir à fome e à miséria. Ali em terra incerta e coberta de perigos mandava como na Europa a justiça do pelourinho, do olho por olho dente por dente e da culpa formada por convicção, credo ou coisa pior. Mal se evoluiu até hoje. O total desconhecimento da História que ignora o passado é apenas um dos sinais de que o tempo ali de certa forma parou. 

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

La Coca



"La Coca" de José Rentes de Carvalho começa à volta de uma reportagem policial sobre o contrabando e tráfego de droga no norte de Portugal. Passando de fugida pela zona ribeirinha do Porto e Gaia segue depois para onde está a acção: no Minho e na Galiza. Aí o enredo emaranha-se em inúmeras histórias fascinantes em roda de contrabandistas, traficantes de droga, polícias e um jornalista "suicida". Mais tarde surgirá uma culta tutora francesa com o gosto dos livros, um lorde inglês erudito e milionário e até Pablo Picasso que se torna decisivo num diálogo confirmado pelo próprio Rentes de Carvalho em recente entrevista. Só lendo.
Em todas essas histórias, ou memórias se quiserem, o único fio condutor é a lembrança do que aconteceu e do que ainda pode ser testemunhado. As recordações têm buracos, falhas, são inseguras, pouco fiáveis, cheias que estão de impressões e subjectividades quer advindas do tempo presente, quer embotadas pelo próprio sujeito que já não se reconhece o mesmo nos emaranhados e complicados caminhos da vida. Nada que atrapalhe a leitura pois o livro lê-se de um trago. Na verdade fica-se literalmente agarrado a "La Coca" desde a primeira frase.
Romance com mistos de reportagem, biografia e relato de viagem, "La Coca" parece desenrolar-se sob a memória como um policial - o que aconteceu, o que ficou por acontecer, o que perdura, o que se esfumou no tempo. É sob a recordação que gira toda a sua maquinariaA nitidez da escrita faz o resto: vêem-se as paisagens, as pessoas de carne e osso, sentem-se os ambientes. Os relatos são primorosos, os diálogos sumarentos, os personagens únicos. Mas sempre com a neblina da memória a pairar como dúvida, cheia de perguntas a que o tempo foi diluindo as respostas confundindo o real com o imaginado. O que fica não será tanto o que se viveu mas o que ficou contado. Sem frases a mais, numa escrita virtuosa, elegante, fluída, certeira, sem palha para queimar, com uma beleza e trato de língua só ao alcance dos grandes escritores. Para terminar assim, em testemunho: 
«Julguei viver. Tive aventuras e medos, conheci alegrias, conheci paixões. Tudo fugidio, curto demais. Fundindo o ontem no hoje o tempo negou-me o espaço onde eu me pudesse reencontrar, tornou hostil o que pelo hábito dos anos me deveria ser querido, levou-me a olhar com indiferença o que foi familiar. E agora, constrangido dou-me agora conta de que na minha vida nunca realmente houve partidas nem chegadas, nem pessoas, lugares ou eventos. 
O que nela existiu e se prolonga ainda são cenários e personagens, sombras, as imagens desordenadas da memória que, presas na narrativa, se tornam uma dupla ficção."



sábado, 17 de setembro de 2011

Andaram anos para isto...


Não se tem bem a noção do desespero que anda para aí. Gente que pagava todos os meses suas dívidas a prestações e que viram sem mais nem menos a conta ser penhorada, comerciantes que deixam de ter o multibanco a funcionar para "eles" não irem à conta, gente que larga tudo e pega numa auto-caravana com roupa e pertences e literalmente rapa daqui para fora, outra que diz que o pai a chama "prá terra" - nasceram ontem 10 porcos - porque aqui ao menos não passas fome; ou um taxista que sai-se com esta: "nós vivemos é dos pobres. Os ricos são tão sovinas que não andam de taxi..." 
É redundante dizer que a economia paralela está forte e em crescendo, que as máfias esfregam mãos à oportunidade, que o Estado terá muito mais a perder do que a ganhar com um país mais e mais ingovernável. É quase unânime considerar que este governo é coisa de amadores. De um ministro da propaganda que inventa comissões e contrata bloguers a retalho, do "polícia mau" das finanças, do Álvaro, de um ministro da saúde que na lógica do número até corta nos transplantes, do aumento do IVA para o triplo até do que a Troika pede, do aumento de 15% nos transportes, da falta de escrúpulos e vergonha das 769 nomeações (de rapaziada, presumo) num só mês, dos tais buracos colossais que afinal são todos made in PSD, da privatização de tudo o que mexe, até da própria água, tudo numa amálgama de hipocrisia, desfaçatez e falsidade aterradoras. Querem que continue?
O motivo afinal não era José Sócrates ter mentido e não poder exigir mais sacrifícios aos portugueses, o motivo era mesmo o assalto ao poder a todo o custo e uma guerra sem quartel ao bem público, se calhar é por isso mesmo que Passos Coelho falou em incendiar de ruas e queimar Portugal. No seu intimo tem a noção da gravidade, sabe demasiado bem quem abriu as hostilidades, no resto apenas se atraiçoou com a mesma displicência com que nos tem confrontado diariamente com o desastre da sua governação. É da praxe, todos sabemos disso...

Il Divo



E depois a televisão pifou. De vez. Já não liga mais. Caput. E o sinistro Andreotti andou todo o filme a dizer "Io non ci credo al caso; io credo alla volontà di Dio." 

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Fome

Esteve um daqueles dias de praia épicos, numa das prainhas selvagens de Porto Côvo, quase sem gente. Enquanto caminhava sorrateiro em direcção à costa só via casas e vivendas de estore fechado, num dia tórrido destes imagino como estaria Lisboa, que é sempre mais quente do que qualquer local da costa sul até Sagres. Enfim, o mundo está lá, inclusivé a minha casa, está lá, ficou. Os barcos gigantescos que se vêem daqui na costa de Sines também estão lá, e mesmo a milhas parecem do tamanho desta aldeia. Adiante. 
Na praia gosto de ficar a olhar para o mar sem pensar em nada, tenho aquele fio do sol até ao horizonte, tenho o som do mar e das ondas a baterem à costa e nas rochas, tenho em frente um cão feliz da vida a nadar na água por causa de uma bola. Ando a ler o "Fome" do Knut Hamsun, é do melhor que li em anos, mas faz contraste com tudo isto, ler o “Fome” e mandar todo o stress para trás das costas? Aqui? Talvez o “Pan” fosse mais adequado para torrar na areia, mas não sou bom a planear leituras para circunstâncias, tenho uma filosofia curta e grossa, a andar...Deu-me para reparar que a cor da toalha de praia é exactamente igual à capa do livro. E não só a cor como as próprias tonalidades do verde e azul. Não sei qual é a ideia. A não ser não contrastar nada. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Porto Côvo pois


A culpa aqui não é do Relvas

Ainda há pouco tempo, meses, não mais que isso, lembro-me de enumerar blogues de leitura diária ou obrigatória, a conta subia dos trinta para cima e por aí fora. Creio que há uns anos ainda eram bastante mais, mas não posso precisar até porque não me vou dar ao trabalho para os ler hoje, dos que ficaram, porque blogues apagados do melhor da história da nossa bloga há uns quantos. 
Agora tenho em conta uns dez, de vício diário, uns 20 obrigatórios e não leio mais. A pioria é evidente, as redes sociais de certa forma são responsáveis pelo efeito, os blogues foram infectados pela irrelevância - reprodução de notícias, sound bites da treta e inanidades que bem podiam estar num wall ou mural de Facebook mas que num blogue querem ganhar outro buzz. Acontece também que há murais no Google + e Facebook melhores e mais interessantes que boa parte dos blogues, e também gente que escreve em caixas de texto coisas muito boas. É certo que o Verão – e principalmente os finais de Julho e Agosto - é a estação mais morta das escritas. Há pouco regressaram três dos meus blogues preferidos. Desses e de outros que não dispenso, o meu entusiasmo é tão evidente que provavelmente o saberão. Também que são muito melhores que a esmagadora maioria da maralha editada por aí, da imprensa às estantes das livrarias. Saísse-me o Euromilhões e editava-os a todos. 

Opus Night




Tomado o gosto, a leitura levantou voo, "Alexandra Alpha" de José Cardoso Pires é tão bom tão bom, tão categoricamente excelente, que até dá para as apostas mais categóricas. Por exemplo da quantidade de vezes que Cardoso Pires terá ouvido e lido que ninguém como ele terá alguma vez escrito Lisboa daquela maneira, a viver. Numa escrita cinematográfica mas cheia de variedade linguística e de estilos, emersa em sub-plots dum plot principal que pouco ou nada conta para o total da obra pois conta é o que é mostrado. Um caleidoscópio de personagens, personalidades e vivências, riquíssimo como o vocabulário utilizado, muito característico e próprio e original, mas sobretudo eficaz, objectivo, impiedoso, certeiro, ao osso; nunca estéril, antes com toneladas de humor e ironia. 
"Alexandra Alpha" fez-me regressar a uma Lisboa que era mais de pais e avós, deixando-me ainda rastos na infância, de um depois ainda não calcinado por este presente cínico e devorador de esperanças. Mesmo assim nem tudo se sumiu. Falamos de Lisboa, certo? Então ainda há muito de "Alexandra Alpha" por aí. Se sair hoje à noite a alguns bares da boémia mais antiga talvez possa ainda encontrar algum Sebastião Opus Night de algibeira, personagem com que me ri tanto nas noites/madrugadas dos últimos dias, precisamente as horas dos Opus Nights da vida. É certo que nenhum deles chegaria a tal (im)perfeição, mas se voltar a ver um, prometo que aviso. 
Mas ainda há outros personagens tão ou mais importantes no romance: Alexandra Alpha, Maria, Sophia Bonifrates, o tio Berlengas, qualquer um a merecer longos textos e dissertações; depois há o Bernardo Bernardes, o Amadeu Fragoso, o Bruno Senna, etc, etc.  
Não gosto de escrever sobre livros ou filmes abrindo o véu à história, prefiro recomendar. Fora todas as qualidades de obra-prima que fazem de "Alexandra Alpha" talvez o melhor livro de Cardoso Pires, é fundamental ali o retrato de um certo ambiente do Portugal pré e pós-25 de Abril, da Lisboa dos anos 60 e 70, dos desencontros da vida e crises de identidade, da noite e da boémia e de tanta gente. Enquanto o Opus Night vai aparecendo empurrando copos no seu delírio de vinho ao contrário.