sábado, 27 de maio de 2017

Notas sobre Tàpies





Forma de não forma 
Não 
A forma é pesada 
Pesada a forma 
Só a textura a pinta 
Como mostra 
Toma 
Pesa
Queres libertá-la, pensa


---------------------------

A potência do objecto como tópico de reflexão implica a dor de senti-lo. Nem assim uma transcendência ou realismo mas um tópico de reflexão, uma sugestão, uma abertura. 


---------------------------

O violino só tem duas cordas, um x questiona. Em estor corre-o. Não sei se é essa a ideia mas o trabalho que dá a arranjar a forma.... A deformá-la, a invertê-la, a transformá-la, tudo para a mais sórdida dissolução. Ou pelo menos é um ar que se respira diferente. Tóxico e rarefeito? Não sabe. Mortal? Também não. Verdade é que se respira. Livre a prova que estamos vivos. Saímos vivos da exposição. E provavelmente de todas as obras de todas as exposições. 

69.

- Só dando o máximo ao mínimo alcanço o mínimo do máximo. 

- No pasa nada, passa tudo, tudo passa, tudo se passa. 

- A realidade, na realidade, se não é brincadeira de ninguém também não é brincadeira nossa. 

- Meu lado razoável só me quer estóico, nada razoável. 

- Deixa-os explodir. Não vão mudar nada. 

68.


Depois de meditar nas Direcções Simbólicas penso agora, plena praia de El Sardinero, se todas as direcções não são simbólicas. Se não deixam pistas em qualquer lugar. Se qualquer coisa não se torna imediatamente simbólica. As voltas que isto dá, esta cidade. Mais as anchovas que são simplesmente do espanto. E tudo se encaixa. Encaixa porque todo o encaixado encaixa o que é suposto ser encaixado. Construído antes de ser construído. Como um encaixe. Todas as televisões nos cafés e derivados estão sempre ligadas nos noticiários. Ou então é só futebol nas grandes pantallas. A cerveja é boa. E os melhores pinchos do mundo com toda a certeza absoluta. Sinto-me bem até me sentir mal no norte-escuro. 

terça-feira, 23 de maio de 2017






Acordar pela rua ultra-pacífica. Bairro gótico de manhã é a coisa mais pacífica. As Ramblas mantém a temperatura. O forno ainda não começou a aquecer. Entrada no Metro, duas estações, Praça da Catalunha. Já está ali um grupo de estudantes. Pede ajuda. Seguem-nos até ao autocarro. Na Plaza de Espanya um galego entope o tempo à entrada do autocarro também entupida. Entrelinha o momento em que não há nada para ninguém. Irá para não sei onde, como é óbvio. discute a minudência. Ela confirma o galego, digo que já sabia, que vai para Vigo, ela que não. É para outro lado. Diz mas eu não apanho, também não confiro. Imagino e basta. Alguma tensão pré-trabalho. Entretanto vá-lá, prosseguimos. O trânsito é nulo, a cidade da cor de uma cerveja clara. Ou pelo menos assim escrevo eu agora, esta memória remota e tão recente. Posso dar-me ao luxo de se anacrónico, posso dar-me ao luxo de dizer que não é para todos. Como todos, se eu cair de alto borco, não me posso dar ao luxo de dizer nada, fui. Hamburguer, vontades de aeroporto, perdão, aeroporto, vontades de hamburguer. Burguer King a dez euros, foda-se, pensando bem não comeriaa ali nem por cinco, mesmo depois de uma tortilha que me caiu mal em todo o avião. Na mesma pista onde antes uma frota entre outros confrontava dois Knut Hamsun quaisquer como se fosse um duelo do oeste. Norwegian Airlines. Para esses voos uma fila densa de alemães que afinal iam para outro voo como as diligências. Entre tanto esboço destacarei apenas a descida do avião por Pontevedra para logo aterrar em Vigo. Uma pista inteira só um avião e uma avioneta. Como se redescobrisse o oxigénio. 

67.


SÓ ESCREVENDO

Só, escrevendo
Só escrevendo 
Só escrevendo cheguei ao país estrangeiro
Só escrevendo regresso agora ao próprio país
O país próprio
Do estrangeiro
Só escrevendo tudo se me esplana 
Plana
Escrevendo-me, só escrevendo
Imponho-me agora um estou 
Não estou ao pé de ti
Pela primeira vez
Faz-me falta essa amaldiçoada temperatura
Agora cintura industrial
Outro balde de cidra pura outra astúria
Outra mentira pelos vistos
Tão estimada, esquecida