quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Paco de Lucía (1947-2014)



Centro de Gravidade

Estou em pleno desequilíbrio. Digo a verdade mas esta projecta-me contra o chão. Atirado pelo impacto da minha própria força contra o nada da minha presença. Levanto-me. Estou em pleno equilíbrio. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Pós-passados

O erro de alguns pós-modernos, parece-me, é tentarem ser autores pós-modernos. Entendo bem toda essa necessidade artística, mas nela convém, antes de mais nada, uma primeira básica condição essencial prioritária: a condição de se estar vivo. Depois de se estar vivo, claro, é preciso viver neste mundo, mesmo que se viva noutro, ou mesmo em vários outros mundos. Ao que, óbvio, é preciso ter mundo, ter mundo, ou, vá-lá, um mínimo módico de mundo. Depois, ou antes disso, mas tão ou mais importante que tudo o resto: é preciso ser artista. É preciso ser artista ou então da necessidade artística ficamos apenas pela necessidade. Mas tentar nunca é demais. 

13.

- Tem vezes na vida em que a comédia ainda é pior que a tragédia*.

- Muito respeito pela cobra venenosa. Mesmo muito respeito. Já demasiado respeito não convém lá muito. Demasiado respeito e não temos como cortar-lhe a cabeça. 

- É completamente diferente dizer que tem falta de substancia do que dizer tem falta de substância na substância. 

- Só somos ilhas porque podemos ter tudo sem podermos ter nada.

- A frescura e ingenuidade da crença têm bastantes qualidades conservantes.


* - escrito antes do congresso do PSD. 

sábado, 22 de fevereiro de 2014




"I only care about the music. It's sad. Sometimes people are damaged by it. People who understand me can understand what that is. When the music is finished with me they'll all be back if they can wait for me. But if you can't see that about me you don't understand me so there's no relationship anyway." 

12.

Energia acumulada,
o curto circuito de um mundo que acaba.

Tu nada.

E de voo picado, vivo, rés no chão, 
cansado contigo, dado solidão.

Voando raramente se dá pela viagem,
e quando regressas, 
regressas de onde não sabem...

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014



A Argentina como o Chile representam no extremo sul do planeta a “Última Thule”. Borges (para o efeito não importa que esteja parcial ou inteiramente cego) trabalha ansioso com o terceiro olho, aquele que perfura qualquer distância. Não contempla apenas a ribeira no outro lado, mas também a terra mais distante. Fixará a vista interior em ilhas tão afastadas como a Islândia, a Última Thule do Setentrião romano. Pretende esgotar meridianos e paralelos. Empreende a travessia indagatória para as vizinhas do Árctico não por um puro exagero de auto-desterrado que se projecta no outro extremo, mas porque no globo terráqueo, que é redondo, todos os pontos fazem parte da cultura universal. A sereia que o chama e provoca é a palavra escrita, os textos cardiais, o entranhável, processo das línguas. Cruza os mares para averiguar a formação de idiomas. Dá crédito à notícia que os vikings (“uma multidão de cães que saíram da caverna de uma leoa barbara") chegaram às costas americanas séculos antes de Colombo. Mas anda também atrás das vagas de soldados da fortaleza romana e das tribos germânicas que demoliam limites e derrotavam legiões, traziam nas mãos a espada e na boca o poder de um rico verbo comunicativo. E foi por isso que ocupavam a Islândia, a Inglaterra, a Irlanda, a Alemanha e a Escandinávia.
O homem nascido na fronteira sul não será um marginal. Sente a atracção do centro e das margens opostas, das histórias de guerreiros que inspiram escritas e engedram poetas com ou sem nome. Faz isso com a consciência de que são herdeiras e várias literaturas europeias modernas. Apaixona-se pela evolução dos alfabetos e a odisseia das escrituras. Sente curiosidade pelos textos subjacentes na superfície dos palimpsestos. Não desconhece que se tratam de pergaminhos cuja escrita original foi apagada para estampar por cima outras diferentes mensagens. Tal fenómeno supressivo, essa operação de substituição e sobreposição dá-se também no caso das religiões triunfantes, que constroem as suas igrejas na base dos templos do vencido. Borges é um caso curioso de um estranho e apaixonado poliglota, amante da gramática histórica, do fluir das filologias, do nascimento obscuro, gradual, acumulativo e correctivo nos lábios dos povos das línguas do hemisfério norte e por que não também no seu próprio. Vidente ou cego embebe-se nos poemas mais antigos, na gesta de Beowulf, nas Eddas da Noruega, Gronelândia e Islândia. Deseja penetrar na trajectória de géneros literários com ressonâncias vindas de além mar, que continuam a transformar-se pela voz das gentes. Seduzem-no as Sagas, espécie de epopeias em prosa, nascidas no século X, recitadas no calor do vinho e dos banquetes por um rapsodo que geralmente celebra façanhas de homens de carne e osso. Na sua opinião, as Sagas revelam “um carácter dramático e prefiguram a técnica do cinematógrafo”. Não tem dificuldade em aceitar que se inspiram na realidade e se reportam a factos verídicos. Não se incomoda que a sua forma seja a de uma crónica vinculada ao acontecimento objectivo e nem sequer se importa desconhecer o nome dos seus autores, mas talvez tivessem sido homens que recolheram esses factos esquecidos no anonimato das aldeias. E de algum modo correspondem ao impulso genético que nasce das próprias raízes e estão na origem do folclore, dos cantos populares que brotam como as flores do campo em todos os continentes, sem excluir sequer os povos latino-americanos.
Observa que a partir de certo momento (indica o ano mil) os 'thulir' ou recitadores sem nome são substituídos pelos escaldos, poetas que se identificam por um apelido e assinalam o aparecimento do escritor assim individualizado, mais ou menos profissional, que surge pela necessidade da sociedade, para a qual a poesia narra a história e denota uma tomada de consciência da sua identidade. Borges não hesitará em servir-se das literaturas estrangeiras de qualquer época e território para semear e adubar o seu próprio território, mas não será um súbdito incondicional. Adere ao princípio da autonomia criadora, tornando sua a opinião de Goethe de que “o Canto dos Nibelungos é clássico, mas não deve ser tomado como modelo, nem tão-pouco os chineses, os sérvios ou Calderón”. 

Os Dois Borges - Vida, Sonhos, Enigmas, Volodia Teitelboim, Trad. Serafim Ferreira, Campo das Letras, 2001

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Parcimónias


- Não deve haver maior satisfação para o tecnocrata do que ver um artista a espalhar-se ao comprido.

- A minha completa distância com a minha completa ausência de separação é com ela pela certa essa fatal contradição.

- O excesso de confiança é a medida das vezes em que não se descobre que se fez merda...

- Já percebo melhor porque me é elegível: excesso de palavras para falta de linguagem, como o excesso de cereais na minha tigela de iogurte.

- Concluir é sempre o mais difícil: ter a frieza certa de acertar em cheio com o contador certo no marcar do tempo.

- É o bom do desafio: partir todo moído para a escrita e pela escrita moer todo o partido. Ou será partir todo o moído?

- Toda a criação é magia. Como a criação do mundo foi magia. 

- É importante distinguir: é escrita a martelo ou escrita à martelada? 

- Só mesmo quando escreve percebe porque tem mesmo de escrever. Mas como haveria outra maneira de o saber? 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Meritocridade

A manigância é a particular espécie de interesse das criaturas sem interesse. A particular e a única. Ler, escrever, pintar, ouvir música, fazer música, tocar um instrumento, ir ao cinema, a um teatro, ver um documentário, um museu, uma exposição, monumentos, animais de estimação, coleccionar coisas, línguas estrangeiras, viajar, gastar tempo em jogos de estratégia, poker de cartas, de dados, playstation, matraquilhos, snooker, ping-pong, budismo, yoga, zazen, artes marciais, esgrima, cozinha, ciência, banda desenhada, desenhos animados, carpintaria, olaria, um voluntariado, vinhos, whisky, cerveja, cocktails com álcool e sem álcool, almoçaradas, jantaradas, cerimónias do chá, vegetarianismo, naturopatia, massagens, acupuntura, horticultura, botânica, numismática, restauro, mergulho, peixes de aquário, mariscadas, charutos, cachimbos, crochet, artesanato, séries de tv, debates, economia, política, história, religião, filosofia, astronomia, astrologia, cosa nostra, anti-heróis, criminologia, geometria, espiritismo, maçonaria, segunda guerra mundial, teorias da conspiração, ovnis, ténis, jogos olímpicos, F1, motociclismo, andebol, voleibol, voleibol de praia, futebol, futebol de praia, futsal, Premier League, Serie A, La Liga, NBA, NFL, rugby, cricket, bowling, surf, bodyboard, canoagem, pesca desportiva, mergulho, escalada, caminhada, patinagem, skate, ciclismo, ciclo-turismo, xadrez, damas, dominó, roleta, roleta ru... Nada. Nada atrai o medíocre manigante. Podia estar aqui horas e o medíocre manigante não diria sim a nada. Falta de vontade? Pois é esse o problema, o medíocre manigante tem até excesso de vontade, vontade e muita ambição, ambição até de nos fazer a folha. E os desinteresses do manigante não são propriamente desinteresses, ele até os pode achar interessantes para o interesse da manigância. O manigante não se acha néscio pelo seu desinteresse nos nossos interesses. Ele é que nos acha néscios pelo nosso interesse nos seus desinteresses. Ele sabe bem de que lado está. Nós é que às vezes não sabemos. 

Nietzsche tinha aquela clássica tirada que dizia que o que não nos mata torna-nos mais fortes. Ora no manigante não é bem isso, no manigante o que não nos definha é que nos torna mais fortes. Então não definham nada, os manigantes, pelo contrário, é neles precisamente o tédio, o completo absurdo aborrecimento, a pasmaceira sem remissão e a aleatoriedade boçal que os fortalece perante o resto da espécie humana. Neste particular e não só, essa sub-espécie de espécie sem espécie de espécie alguma  - qualquer coisa que possa caracterizar o medíocre manigante é ameaça à sua própria sobrevivência - só existe e se caracteriza pelo que não tem. Com o tempo percebe-se porquê: não há nada para falar com o manigante que não meta de permeio as artes que só ele sabe da medíocre manigância. Seres ignorantes dos seus segredos, como é meu caso, sentem-se com o medíocre manigante sempre com vontade que acabe o tempo. Parece que estamos ali a jogar uma modalidade que detestámos na escola, tipo basquetebol (no meu caso). É para perder na certa, como é tão óbvio, e quanto mais demora a coisa mais porrada nós levamos. Depois aqueles terrenos lamacentos escorregadios, as mazelas a obrigarem ao possível recolher obrigatório, as energias dissipadas nos intermináveis caminhos da estupidez humana... 


Valha-nos os nossos terapêuticos interesses. Com eles reganhamos o tempo preso algures nalgum ferro afiado de qualquer armadilha armada pelo medíocre sujeito manigante. Depois sim, recuperados, revigorados e aliviados, constataremos mais uma vez assim um pouco aparvalhados (ficaremos sempre aparvalhados e jamais na vida compreenderemos a criatura manigante) como aquela salvífica medíocridade continuará ad aeternum exactamente na mesmíssima constante onda uniforme afinada pela porfia austera exigida pelo rigoroso trabalho da execução da manigância - haverá casos em que não resultando a manigância, o medíocre manigante até corre o perigo de não ter comida para pôr no prato. Por outro lado, se a manigância está mesmo a resultar, o manigante saboreará a comida de outra distinta maneira. Com o gosto revigorado, ficamos até com a ideia e a ilusão que o manigante ganhou finalmente algum interesse adicional na vida - neste caso na boa da comida. Nada mais errado. Manigante que se preza nunca larga de vista a manigância, nunca baixa a guarda, tem sua amada sempre bem perto, o esquema a trabalhar na cabeça. Cometerão pois caros leitores um erro fatal se virem no manigante alguma centelha de amadorismo. É outra vez o oposto contrário, tudo ali é profissionalismo, puro profissionalismo manigante. Nada, mesmo nada deve suspender a crença do manigante na manigância, nem mesmo um inesperado eclipse total do sol que lhes desse o escuro da noite às três da tarde. O que apenas seria um contratempo na manigância. Que isso da noite é em casa de preferência a pensar na manigância para o dia seguinte. 


William Blake dizia das águas paradas esperem veneno. De qualquer forma eu topo-os bem: no andar, na forma de olhar, em todo aquele suspeitoso mexer, na forma de rir (essa é a mais fácil), no falso brilho dos cabelos, no modo como lhes cai a roupa. Ao corpo, ao espírito, a obstinada tarefa. Pois está aí o problema do medíocre sujeito manigante: há ali toda a falta de presença de espírito. O tão não poder como não querer dar nada a querer pairar a dominar sobre tudo. O pé de apronto para a rasteira bem dada. O lusco-fusco para a pequenina intriga. As finas artes da hipocrisia. A selectiva contradição e suas demais incongruências. A afinada pontaria na areia para os olhos...

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Sem Tinta

O sangue de quem escreve é sumo na sua escrita. O sumo de quem escreve é a tinta da sua escrita. Quando falta tinta melhor não forçar a caneta, não vale a pena. Só mesmo com uma caneta nova, ou com uma nova carga para a caneta. A tinta de quem escreve não pede um cêntimo do seu valor. Encontra-se aqui ali em todo o lado, talvez saltando já para o passado. A tinta tem entre tudo moléculas de experiência, e por vezes a experiência custa dinheiro, daí que não seja correcto dizer que foi de borla porque não foi. Mas desse preço não existe preço. Existe para lá do preço porque custando nada custa mais que todos os preços. E depois há mil e uma em cada mil e uma maneiras de um poder sangrar. Assim como há mil e uma em cada mil e uma maneiras de um achar que consegue escrever sem tinta. 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Aritmética

Pela matemática do texto fui dar à nossa situação de insolvência, ao nosso défice catastrófico, piorado vertiginosamente quando tivemos de fazer alguma coisa para o evitar. Ou talvez na verdade não houvesse nada a combater. A matemática do nosso texto é gigantesco ponto de interrogação. Esta é ainda assim a minha única esperança no meio disto tudo: o gigantesco ponto de interrogação. De concreto concreto, apenas o ponto de partida. O ponto de partida em mais que uma acepção do termo - pelo menos em três - mas não é esse o problema. O ponto de partida nunca é o problema. O problema é o ponto de chegada. Poderá levar uns quinhentos anos. 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Philip Seymour Hoffman (1967-2014)



A primeira vez que vi Philip  Seymour Hoffman foi em "Happiness", como muita gente, num papel daqueles que não se esquece, tão marcante e simultaneamente surpreendente era toda aquela interpretação - decadente, peçonhento, impressionante inesquecível personagem. A surpresa seguinte foi Phil Farma, o médico bom (bem sei que pode soar um pouco pleonástico dizer assim médico bom, mas era mesmo um médico bom, a encarnação absoluta do médico bom, como não me lembro de ver outro) de "Magnolia" que vi antes de "Boogie Nights" do mesmo realizador que me tinha até ali passado despercebido. Vá-lá que tive a sorte de o apanhar numa reposição não me recordo onde - no Cine 222, ou no Quarteto, ou no Nimas, ou no Mundial, ou terá sido na cinemateca, não sei. Só sei que Seymour Hoffman era aquele sonoplasta gordo efeminado e um pouco idiota. Eu que já estava mais que esclarecido em relação ao enormíssimo actor naqueles dois primeiros filmes, não podia acreditar num tal contraste em apenas três interpretações. Tinha ali um verdadeiro camaleão, talvez até mais que isso. A transformação em papéis soberbos e/ou inolvidáveis - que dava a ideia até de ser física, quando no fundo víamos o actor mais ou menos sempre com a mesma compleição - continuei a ver em "Big Lebowski", "State and Main", "Almost Famous", "Punch Drunk Love", "25th Hour", "Capote" (admirável interpretação que deu em Óscar), "Charlie Wilson's War", "Moneyball" (a fazer as vezes do treinador de basebol Art Howe, priceless). Por incrível que (me) pareça ainda não vi "The Master", que não consegui apanhar no cinema e outra vez, por incrível que pareça, não existe no meu clube de vídeo (vai ter de ser no Meo, se calhar hoje) e é de todos o único Paul Thomas Anderson que até hoje ainda não vi. Cruel coincidência. 
Faltar-me à ver também "The Savages" e "Synecdoche, New York", dos que creio que vale mesmo a pena. Curioso que há uns meses, num daqueles acasos felizes, vi pela última vez o actor num filme já de há uns anos. Uma história verídica sobre um viciado no jogo chamado "Owning Mahowny", que o canal Hollywood teve a excelente ideia de pôr no seu alinhamento. Em muito boa hora, diga-se. Mais um personagem verídico onde Seyour Hoffman ultrapassou a fasquia. Ele que nos conseguia surpreender a cada interpretação como se fosse a primeira vez que o víamos actuar. Era como se nos esquecêssemos de todos os seus papéis anteriores. É a tal coisa da fasquia, Philip Seymour Hoffman tinha-a muito, muito alta. Neste caso dir-se-ia que conseguiu engolir o filme todo, quase até deixar de constar que tenha havido ali mais alguém (tenho uma leve ideia de Minnie Driver e John Hurt, que constato agora que lá estava). Deixo-vos este vídeo em jeito de homenagem.