segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Bom 2013





A todos os leitores e amigos. Que tenham um ano excelente. Pessoalmente vou (ter de) seguir alguns conselhos aqui do Bob Dylan*. A parte das dívidas já me remete ao Gaspar. Até porque um dos meus maiores votos para 2013 é que nos vejamos finalmente livres daquela gosma refinadamente nojenta. E do Godinho Lopes, já agora. Coragem, força, vamos à guerra.


* - surripiado daqui

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Winesburg, Ohio




Winesburg, Ohio tocou-me e de que maneira. Para tentar pôr as coisas em perspectiva devo dizer que ao nível do conto só lhe encontro paralelo em Chekhov. Mas Winesburg, Ohio não é só livro de contos, é também um romance, se calhar o mais apropriado é chamar-lhe romance de contos. O que não chega porque o que dele prevalece e predomina é o Conto. Independente na sua forma e estrutura, é ele que intervém e interdepende no universo ficcional da também ficcional Winesburg, no Estado do Ohio, no horizonte temporal que culmina na maturidade do personagem (alter-ego?) George Willard  e seu consequente pirar-se dali para fora. 
Winesburg, Ohio explora o conto na sua capacidade literária, tratamento dos meandros, no poder de síntese, nas suas valências descritivas e temporais. Mas também é romance no seu todo, no conjunto de todos os contos, qual super-ego a unificar toda a multitude criativa e formal em roda do personagem George Willard e das vidas que de uma forma ou de outra com ele intervieram naquele fim de mundo com pouco mais de mil habitantes e uma main street que termina na estação de comboios, ponto de partida e comunicação com o mundo daquele minúsculo lugar perdido no Midwest. O ultimo conto é disso o melhor exemplo: George Willard presta-se a partir - e todo o conjunto unifica-se num todo e os contos lidos mais se parecem com capítulos -, entretanto o comboio arranca, Winesburg para trás, pouca-terra, pouca-terra, uh uh, o leitor com pena de não poder continuar, George marimbando-se todo contente...

Winesburg é baseada na Camden natal de Sherwood Anderson. Em literatura esta cidade e suas cercanias são feitas da gente comum com seus dramas, tragédias, idiossincrasias, erros, azares, comédias*. Lembramo-nos de Chekhov no seu efeito de lente de aproximação ao ser humano, permitindo ler no mais banal dos sujeitos o heroísmo feito de luta surda e desenfreada; a riqueza humana paredes meias com a fatalidade e tragédia invisíveis. Realismo esse que é atenuado pela forte vertente alegórica do livro. Ou vice-versa, pois às vezes temos o alegórico limado por gente de carne e osso. Há quem veja aqui a influência do outro grande herói literário de Sherwood Anderson: Mark Twain.


* - o único conto propriamente cómico faz jackpot, tão estupidamente bom como os outros,  é de levar as lágrimas aos olhos.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Pergunta à Lama


 - A escrita de Dostoievski sente-se fisicamente. Há ali um magnetismo, textura, solidez, dureza, elegância sustentada, fraternidade trágica e resistência que a possibilita navegar nas lamas mais profundas e ameaçadoras. Consegue tornar a mais tétrica, indigente e depressiva miséria em algo quase apelativo. Com Dostoiesvki estamos dispostos a seguir pelo pântano afora. Vamos até ao fim. Seremos sempre compensados. 
Seu discípulo John Fante foi desaguar no deserto os amores desencontrados de Arturo Bandini por Camilla Lopez e desta por um tal de Sam. O deserto do Mojave era a parte de fora, o limite físico, romanesco e literário daquela Los Angeles das luzes a perder de vista como estrelas da Via Láctea. O crime de “Crime e Castigo” é outro, mas enquanto houver gente a ler livros, suas sementes continuarão a germinar, mesmo em desertos como o Mojave. 

 - Ir buscar referências a outros e tornar nossas as referências é também dar referências a quem nos chegue perdido à procura de qualquer coisa. Uma luzinha na montanha pode ser a diferença entre a vida e a morte. Onde há luz há qualquer coisa. Olhem as estrelas, as galáxias, o Universo. Com tudo escuro só vemos aqueles pontinhos claros. E não há nada como uma noite estrelada. 

- Nunca hei de compreender a burrice dos que na amizade se põem com estratégias. Por cobardia, excesso de energia ou insegurança desperdiçam munições que deveriam servir outras guerras; jogam a peça A julgando que assim jogamos a B e ficam banzados porque não jogamos peça nenhuma; confundem significado com significante; pensam que jogando tudo seguirá conforme. Não vêm o logro, inconscientes que estão da artificialidade que emanam. Achando que a vida é um jogo não têm forma de destrinçar que ele há coisas em que o jogo não vai a jogo. 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Nunca Irá Acontecer

Eu não, mas há quem consiga ouvir várias coisas ao mesmo tempo. Eu consigo falar várias coisas ao mesmo tempo. Sobre falar várias coisas ao mesmo tempo é possível escrever. Sobre ouvir várias coisas ao mesmo tempo também. Escrever várias coisas ao mesmo tempo, idem aspas. Escrever sobre escrever várias coisas ao mesmo tempo é que já me parece demasiado Stephen Hawking. 

Diz-se que se estivéssemos numa quarta dimensão supostamente veríamos o outro e o espaço circundante no seu tempo presente, passado e futuro. É inimaginável, porém é inteligível na medida em que falamos na própria realidade desdobrada no seu(s) diferente(s) tempo(s). 
Experimentem desenhar um boneco num papel, depois enrolem a folha em cilindro e imaginem-no a percorrer o caminho sempre em frente. O que é que acontece? Obviamente o sacaninha vai sempre dar ao mesmo lugar sem  poder perceber porquê. Se se puser a pensar pode até concluir que há uma dimensão que o ultrapassa, que de outra forma nunca poderia ir dar ao mesmo sitio. Não faz é a mínima ideia como, confinado que está à bidimensionalidade. 
Stephen Hawking usou este exemplo para nos explicar em como nos está vedada a dimensão seguinte. Como o boneco da folha vamos dar exactamente ao mesmo lugar. É por isso que estas considerações astrofísico-metafísicas não servem mesmo para nada. 

Sargent Welsh, meu próximo




O mesmo que sabe que neste mundo um homem sozinho não é nada é o mesmo que só se sente sozinho entre as pessoas. O retrato é mais autêntico quando vem dentro da contradição.  

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Duas horas para Elmore Leonard


Levanto-me e antes de ter o café pronto já estou a escrever. Só o levo à boca se entrei dentro da história. O mundo virá depois, que espere. Duas horas para começar, dia sim, dia sim. É isso que conta. Preciso de escrever. Sem isso nada feito. Sem as duas horas de escrita ao acordar não estaria aqui hoje. Ajudou-me a que conseguisse fazer disto emprego e às três da tarde ainda me sobram três horas para escrever. Mas precisei de dez anos, das cinco da manhã às sete, antes de ter de ir ganhar a vida a escrever anúncios para a Chevrolet. Era uma chatice, um aborrecimento constante. As folhas escritas é que me afagavam o espírito. Enchiam-me de força, determinação, coragem. Pilhas e pilhas de folhas escritas. Oitenta e quatro rejeições, oitenta e cinco já não. Não há nada na vida como pegar num romance, ler umas passagens e ficar satisfeito, gostar do resultado. São quarenta e cinco livros que não me chateiam nada. E uns dez filmes entre o excelente e o péssimo. Não fossem aquelas duas horas e nunca poderia estar aqui agora a escrever-vos esta mensagem. Devo agradecer a todos os meus personagens. Também eles tiveram de se fazer à vida. Eu só os pus lá. Sempre foi assim, nas primeiras cem páginas faço-lhes um género de audição, eles que se mostrem, os que sabem falar entram; os que não falam ou não dizem de sua justiça, esses não têm hipótese, não se aguentam, ou os mato ou ficam poucas páginas, estão fora de qualquer maneira. Falando é melhor. Até porque o resto acontece. Eu só escrevo para saber o que acontece. Escrevo para mim. Se não sabiam ficam a saber. Uma vez criei um personagem chamado Frank Latisse e a acção passava-se em New Orleans e eu achava que por isso o nome vinha mesmo a calhar, mas o Frank não abria a boca e parecia demasiado velho, então mudei-lhe o nome para Jack Delaney, e o homem não se conseguia calar...

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Só temos perguntas

Nós temos perguntas, não temos respostas, ou quando sabemos a resposta Deus manda novas perguntas. Portanto a nossa vida é uma pergunta perpétua. O curioso nos livros é que são perguntas que trazem a resposta. Mas muitas vezes trazem a resposta às perguntas que não se fizeram.

António Lobo Antunes

Chama-lhe fanfarrão

Antes eram os blogues, que eram o triunfo do amadorismo, uma ameaça real à imprensa escrita, um poço de calunias e por aí fora... A histeria só começou a amainar quando alguns dos supostos amadores começaram a ir parar aos jornais. Agora os problemas vêm das redes sociais, enfim, nem sempre, há os salamaleques e as passagens de mão pelo pêlo... O problema, a grande e real chatice, essa mantém-se: é que se nos blogues já havia e há gente que escreve muito melhor, nas redes sociais já vai havendo gente que não escreva nada mal. E, pior, que até saiba umas coisas, mas adiante que de imparcialidade e critério é melhor ficarmos por aqui*. De fanfarrão para fanfarrão podemos ao menos depreender três coisas: quando um texto não presta (este, por exemplo), quando um texto é bazófia, e quando um texto vale um cheque ao fim do mês. De vez em quando Henrique Monteiro consegue o feito de preencher estes três requisitos


Adenda: hoje e mais uma vez com aquele ar entre o sonso e o de quem descobriu a pólvora...Sem  mais comentários. 

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(*) - tão curioso que quando Jonet mandou as atoardas  ninguém - claro falo da imprensa escrita e dos comentadores tarefeiros de serviço - se tenha chegado à frente com mais reais e urgentes causas da crise, por exemplo com o buraco do BPN que vale mais que um resgate  da Troika, ou com a forma como a austeridade está a contribuir para o piorar da situação. Mais, ninguém se deu ao trabalho de se chegar à frente com factos contra a obscenidade de que não há miséria em Portugal.