segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O Clima e a Meteorologia

Disse que a deixava sempre em baixo. Ele acusou o toque. Pensava que era amor, que se amavam. Ela confundia infelicidade com cansaço. Ele cansaço com normalidade. Então ela acusou o toque. Se tinham vivido a felicidade, viviam agora a ilusão da felicidade, miragem de horizonte longínquo. Mas já só pela ilusão se dirigiam. Uma ilusão de espelho invertido. Ela a esconder a infelicidade. Ele a ver a máscara. Então nem sequer tentava. Cansaço. Era por si mesmo que se cansava. E se alguma vez esse cansaço desaparecesse, como por magia. Ambos iriam confundir clima com meteorologia.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Massagens

- Podia escrevê-lo, descrevê-lo, reinventa-lo, matá-lo, transformá-lo. Isto enquanto ia e vinha. Mas não, não merece. Não merece nem uma linha. 

- Literatura como literatura. Não literatura como relato. Literatura como máquina, como estrutura. Não literatura como perícia, como notícia.


- A frase é boa, mas sua arquitectura uma aberração. Sem engenharia nem guarida, sem sentido nem como beco sem saída.


- Escrevia, mantinha-os todos na linha. Vingaram-se, terão de voltar à linha.

- Fácil de distinguir. Uma é escrita que sai das entranhas. A outra força as entranhas. Uma vem de dentro, qual vulcão transbordante; a outra, não é preciso nos atirarmos a esse poço.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Rimas

History doesn't repeat itself, but it does rhyme.

Sentir Bem Sentir Mal

Tanto fazemos porque sentimos que está certo. Por vezes mesmo contra o que nos diga o contrário, contra toda a razão que diz estás enganado, contra toda a evidência. Mas sentimos, sentimos que o devemos fazer, que temos de fazer, que é premente fazer, que é mesmo urgente e o mais correcto fazer. E esse sentir leva-nos e fazemos o que sentimos, o que a intuição nos manda e comanda até ao fim para percebermos que fizemos bem, que estávamos mesmo certos em seguir o que sentíamos certo. Damos então toda a razão a nós próprios, agradecemos, se for caso disso, também à bendita intuição, ao ser certeiro, damos por adquirido esse eu bem sabia, estava cá com um feeling, uma fezada (ou seria fé?), etc. 
Outras vezes - bastante menos, já que é preciso ter ultrapassado um tal "Meridiano da Intuição" e assim dar-lhe carta branca - vamos também nessa direcção, fazendo o que sentimos que é certo, achando mesmo que a dita infalível nunca falha nem se atrasa. Nunca mesmo até chegarmos à outra prova dos nove, ao diferente tira-teimas... Então nunca falhou até falhar... Depois, depois enfim, olha, chapéu, chatice, paciência, ui, que isto afinal estávamos errados, que eu não sei bem o que (me) aconteceu. Então se é grave estávamos completamente enganados, redonda mas redondamente enganados...

Vergílio Ferreira dizia que não havia isso do escrever bem, mas apenas o sentir bem. Tendo a concordar cada vez mais com isso. Cada vez mais tendo também a pensar nela, a pensar e a sentir que é verdadeira. E dá mesmo para usá-la de várias maneiras, assim à laia de prova cientifica. Por exemplo também posso dizer que não existe apenas o sentir bem como também o sentir bem bem, e o sentir bem mal. Só numa dessas de destronar certezas. De achar falível toda a arrogância que acha toda a intuição infalível. E assim me fico a sentir bem.

sábado, 13 de setembro de 2014

Gerador

Nas alturas em que a gente se sente mais fraca e toda a carga do mundo nos cai em cima. Quando nem centelha de luz nos deixa ver no escuro do túnel. Nessas alturas de degelo pessoal, dizia eu, de Inverno longo, desesperado. Nessas alturas sem qualquer espécie de altura, onde só há mesmo uma forma de poder encontrar algum calor que nos aqueça, alguma luz que nos faça ver um mínimo de qualquer coisa, qualquer coisa que nos faça existir: um gerador. Isso, um gerador. Pôr o motor da escrita a funcionar, ou à melhor, a trabalhar, constatar que afinal não enregelou, que afinal a coisa existe. Engendrando assim uma nova experiência, inventada. Ligando a velha à nova memória, inventada. Para que quando a tempestade passar a realidade possa ser esta e a outra, inventada. Não esquecerei nunca de guardar o gerador. Alimentá-lo de energia

O Mau do Mau Tempo

Essencialmente tens tido um mau tempo. Um mau tempo constante, continuo nesse teu perpétuo problema de passar o tempo. Não, de facto não tens tido um grande tempo. Pelo contrário, na melhor da melhor das hipóteses tem andado chocho esse teu tempo. Não, nunca consegues ter um grande tempo. Ou então sou só eu que não recorda a última vez que tiveste bom tempo. O que ainda assim não é o pior do teu tempo: aquilo que esperas do tempo - as tuas (péssimas) expectativas em relação ao teu tempo. Óbvio que só pioram o tempo, isto enquanto esperas desesperas pelo bom tempo. O que piora ainda se te pões a pensar mais matutando nesse mau tempo. O que piora substancialmente mais se te pões a pensar que o tempo pode sempre piorar em toda essa conjectura inclinada do tempo. O que não fica por aqui, se te pões a moer por dentro dessas péssimas previsões de quão péssimo pode vir a ser tão péssimo tempo ainda mais péssimo se tornará o já então péssimo tempo.  
Tens de fugir disso, homem, sim, tens de fugir disso, de ti, dar uma curva, fazer uma viagem não sei onde, mesmo a um café da tua zona. Vai-te perder na cidade, homem, talvez isso te faça perder esse teu mau tempo, homem, que essa água te saia dos ouvidos, homem, essa água que sempre te entra nos ouvidos... Mas o processo, inexorável, lá se vai arrastando. Implacável. Se depender de ti, irreversível. Podemos matutar sobre onde realmente te meteste. Posso também recusar compreender. Mesmo quando, de verdade, sabes tu e sei eu, só pensamos a sério no mau tempo quando o tempo está mesmo mau. 

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Outros Parêntesis




Roberto Bolaño tende a agarrar seu universo - escritores, vivências, literatura, poesia, política, obsessões, Chile, México, afectos, terrores, admirações, ódios de estimação, etc, etc - em seus pontos fortes. Sem ilusões, porém, mesmo que a energia, entusiasmo e forças saibam elevar esse mesmo todo às alturas desse mistério salvífico e/ou destrutivo que é a Literatura. "Entre Paréntesis" (Anagrama) mostra esse seu universo vital em mais de 300 páginas de ideias, pensamentos e linhas de força que se encontram também presentes em seus romances (a maioria dos personagens, diga-se). Como se essa escrita sobre escritores e literatura - aqui em ensaios, artigos e discursos - juntássemos pois os pesadelos do mundo contemporâneo e também os sonhos, nesse sentido borgiano do termo, onde o sonho (ou pesadelo), a poesia e a ficção se confundem e emaranham em seus intrincados labirintos. Claro que Jorge Luis Borges iria mais longe em toda a linha entre o sonho e a realidade, mas isso é toda uma outra conversa.

Roberto Bolaño não viveu a fama em vida, nem menos trabalhou em bibliotecas - muito menos na infindável Biblioteca Nacional de Buenos Aires. Pelo contrário, durante uns bons anos na Catalunha, livros "novos" só mesmo emprestados de amigos ou alugados, claro está, em bibliotecas. Também passava fome. Chegou a viver isolado com seu cão numa casa num bosque, qual eremita desterrado. Seriam os tempos da poesia (a preparar uma séria transição para a prosa) culminados pelo inicio da troca de correspondência com o conhecido poeta chileno Enrique Lihn, que de tanto, não apenas o ajudou a um reganhar de voz e confiança, como iniciou a divulgação da sua obra extraindo-o do anonimado e isolamento num país estrangeiro.

Chegada nos inícios da década de 90, a paternidade fez Bolaño jogar as fichas todas. Romances escritos, uns atrás de outros, em catadupa - romances foram oito, a somar aos livros de contos. Era preciso garantir a sobrevivência do filho, Lautaro Bolaño. Mas não só, com uma rara doença de fígado diagnosticada, o escritor teria a certeza ou quase dos dias contados e cada vez mais comprimidos. Na verdade, é impressionante a quantidade de produção literária possível em tão poucos anos, menos de uma década. Arrisco dizer que os livros já os teria dentro de si - muita leitura, muita escrita, muita vida vivida, muita aprendizagem, muita crise, muita penúria, muito sofrimento, muito trabalho, muita disciplina, muito combate, muito risco, muito pôr-se em causa. Por outro lado, numa de duas entrevistas, as únicas que Bolaño deu a televisões - porventura canais chilenos - este mesmo referiu, que sem estrutura que o sustentasse, seus livros chegariam facilmente às mil páginas. Verdade ou mentira, o certo é que 2666, a sua obra maior, até extravasa a conta. Os tais dias contados é que nem por isso. Essa espera infindável por um transplante que nunca chegava e cinquenta anos de vida e tanta literatura ainda para dar. Uma literatura que, presumo, muita falta faria a este tempo. Uma literatura sem magias de fadas mas de palavras bem marteladas. Esse escrever o que há para ser escrito quando é para ser escrito, como o que se encontra neste poema póstumo, encontrado entre papéis: 

Rechazos de Anagrama, Grijalbo, Planeta, con toda seguridad también de Alfaguara, Mondadori. Uno de Muchnik, Seix Barral, Destino... Todas las editoriales... Todas las editoriales... Todos las editoriales... Todos los lectores...
Todos los gerentes de ventas...
Bajo el puente, mientras llueve, una oportunidad de oro 
para verme a mí mismo:
como una culebra en el Polo Norte, pero escribiendo.
Escrebiendo poesía en el país de los imbéciles.
Escribiendo con mi hijo en las rodillas.
Escribiendo hasta que cae la noche
con un estruendo de mil demonios.
Los demonios que han de llevarme al infierno, 
pero escribiendo.

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A Guiness tem alma. Estou efeito dessa alma. Dá-se bem comigo. Não tem de ser à pressão. Em casa, só mesmo lata ou garrafa. Um trago dessa milagrosa mítica poção cheia de tempos, almas e histórias, e pronto, logo se ouvem as irlandesas músicas; o som das conversas; os tilintares dos copos... Bem-vindos a Dublin, senhoras e senhores. Um concerto no Molloy's, por exemplo. Ou nenhum concerto no Molloy's, ou outro concerto ou nenhum concerto em outro pub qualquer que vos agrade. Há lugar para todos. A Guiness tem sempre lugar para todos. Lugar esse que é agora a minha casa. Pela Guiness estamos sempre em casa. De irlandesa terra neste planeta Terra, medida de todas as alturas, a Guiness vem de sempre, é eterna. Sobreviverá ao Universo. 

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Sumo Despertador

1 - Como se cheira, à distância...

2 - Está próxima, a palavra, precisamos chegar-lhe depressa, não vá ela perder-se, corremos o risco de pensar que a capturamos, de achar que encontramos o que no fundo perdemos. 

3 - Depende da escuta, concentrada, da visão periférica. Mergulhados, podemos até deixar de ver e ouvir o mundo. Podemos também ser acordados, fisicamente, por esses despertadores incontinentes, as pessoas. 

4 - Estávamos despertos pelo contrário quando (nos) interromperam, o que não era em nada um passatempo. Podem vê-lo pelos dois lados. 

Parêntesis


- La literatura es una máquina acorazada. No se preocupa de los escritores. A veces ni siquiera se da cuenta de que éstos están vivos. Su enemigo es outra, mucho más grande, mucho más poderoso, y que a la postre la terminará venciendo. Pero ésa es outra história.

- Muchas pueden ser las patrias, se me ocurre ahora, pero un solo el pasaporte, y esse pasaporte evidentemente es el de la calidad de la escritura. Que no significa escribir bién, y ni siqueira ese, pues escribir maravillosamente bien tanbién lo puede hacer qualquiera. Entonces que es una escritura de calidad? Pues lo que simpre a sido: saber meter la cabeza en el oscuro, saber saltar al vacío, saber que la literatura básicamente es un ofício peligroso. Correr por el borde del precipicio: a un lado el abismo si fondo y al outro lado las caras que uno quiere, las sonrientes caras que uno quiere, y los libros, y los amigos, y la comida. Y aceptar esa evidecia aunque a veces nos pese más que la losa que cubre los restos de todos los escritores muertos.

- Exiliarse no es desaparecer sino enpequeñerse, ir reduciéndose lentamente o de manera vertiginosa hasta alcanzar la altura verdadera, la altura real del ser. (…) Toda literatura lleva en sí el exilio, lo mismo da que el escritor haya tenido que largarse a los veinte años o que nuca haya movido de su casa.(...) El exilio es el valor. El exilio real es el valor real de cada escritor.

- Los cobardes no editan a los valientes.

- Si tubiera que asaltar el banco más vigilado de Europa y si pudiera elegir libremente a mis compañeros de fechorias, sin duda escogería un grupo de cinco poetas. Cinco poetas verdaderos, apolíneos o dionisíacos, da igual, pero verdaderos, es decir com un destino de poetas y com una vida de poetas. No hay nadie en el mundo más valiente que ellos. No hay nada en el mundo que encare el desastre com mayor dignidad y lucidez.

- Las mentiras y los libros de memórias hacen buenas migas.

- (Philip K.) Dick era una especie de Kafka pasado por el ácido lisérgico y por la rabia. Dick es el Toreau más la muerte del sueño americano. Dick escribe, en ocasiones, como un prisionero porque realmente, ética y estéticamente, es un prisionero.

- No sé qué nos dice, hoy, los trovadores. Parecen lejanos allá en su siglo XII y parecen ingénuos. Pero yo no me fiaria demasiado. Sé que inventaron el amor, y también inventaron o reiventaron el orgullo de ser escritor, siempre y cuando uno sepa meter la cabeza en en pozo.

- Detras de esta muchedumbre, sin embargo, se esconde el único, el verdadero mecenas. Si uno tiene la suficiente paciencia como para llegar hasta allí, tal vez lo pueda ver. Lo que ve probabelmente acabe defraudado. No es el diablo. No es el Estado. No es un niño mágico. Es el vacío.

- No se debe plagiar. El plagiario merece que le cuelguen en la praça publica. Esto lo dijo Swift, y Swift, como todos sabemos, tenia más razón que un santo.
Así que este punto queda claro: no se debe plagiar, a menos que desees que te cuelguen en la plaza pública. Aunque a los plagiarios, hoy en dia, no los cuelgan. Por el contrario. Reciben becas, premios, cargos publicos, y, en el mejor de los casos, se converten en best-sellers y líderes de opinión. Que término más estraño y feo: líder de opinión. Supongo que significará lo mismo que pastor de rebaño.

- Nunca aborde a los cuentos de uno en uno. Si uno aborda los cuentos de uno en uno, honestamente, uno puede estar escribiendo el mismo cuento hasta el dia de su muerte.

P - Que le despierta la palabra póstumo?
R - Suena a nombre de gladiador romano. 

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Roberto Bolaño, Entre paréntesis: Ensayos, artículos y discursos (1998-2003), Anagrama, Colección Compactos



Nunca sabes o que queres dizer até o escreveres.