sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Condomínio Europa



Vi-o ontem pela última vez. Mais a carcaça, que o resto já tinha ido sem ninguém dar por nada, às escondidas. Estava cheio de pressa mas tive de parar, até me ofereci um café para estar mais tempo ali, a ver o resto do Cinema Europa a cair no entulho. Eu e mais umas dezenas de pessoas a olhar para um guindaste a ir contra uma fachada única e familiar, algumas sem saber o que pensar daquilo, assim entre o ofendido e o tem de ser tem muita força. Um filhos da puta veio-me à cabeça, perdoem-me o francês. Recuso-me a entender como é que aquilo não podia ser aproveitado para um teatro, um cinema, as duas coisas, uma sala de concertos, as três coisas - numa zona daquelas cheia de gente, restaurantes, cafés, cervejarias. Um condomínio fechado?
No futuro talvez diga aos meus netos que havia ali um cinema desaproveitado, que a sala era excelente, que vi ali um filme aos 6 anos - o Bamby, se bem me recordo - ou um memorável concerto de Julio Pereira gravado para a televisão. Ou uma gravação do 1,2,3 que foi uma seca descomunal mas que me fez saber do prémio antes de toda a escola. 
Fala-se agora que haverá - haverá? - no piso térreo um centro cultural ou uma mediateca. Uma mediateca tenho de certeza melhor em casa. Uma mediateca é uma daquelas coisas mandadas como quem está a gozar sem se rir enquanto joga as cartas debaixo da mesa.  Uma mediateca é uma daquelas coisas que nos faz perguntar: mas para que é que eu quero uma mediateca?