segunda-feira, 11 de junho de 2018

CONTROLO ANTI-DOPING




A insanidade é real, acha-se um Trump, sendo um teso cheio de dívidas, toma-se como um Abramovich, vivendo às custas do clube, vê-se como um imperador, não passando de um assalariado. Não tivesse feito um tão brilhante primeiro mandato, e há que ter um mínimo de gratidão e asseio nestas coisas*, e não teria problemas em reproduzir aqui o que me diz gente próxima... Mas há sempre um mas, há sempre um só que nos deixa sós. Donald Trump é presidente dos Estados Unidos e se duvidam quando dizemos que os bárbaros estão dentro das muralhas de Roma têm de conceder ao menos que vivemos em tempo de barbaridade(s), o que não vemos, ouvimos. A fasquia essa vai sendo ultrapassada como nos concursos de adolescência a ver quem é que mija mais longe. Ele há há coisas em que era capaz de ver o modelo a olhar de baixo para o aprendiz, como que a dizer "às vezes consegues ser melhor do que eu!!! Tu dás-me ideias, puto!!". Sim, Donald Trump há de ficar a gostar muito de Bruno de Carvalho. Almas gémeas sob o mesmo molde, dançando a zomba das fake news, crianças adultas a inventar (a puta da) realidade, decretando aqui-agora para o mundo que o poder não vai além do bebé. E siga para bingo que a seguir vem outro e outro. O que importa mesmo é não parar. Nunca parar. É essa a sina dos vencedores e tudo o resto é looser. 
Valham-nos os dias claros. Em dias claros, a nitidez do propósito consegue-se ver a milhas de distância. Dirá "se eu caio caem vocês também comigo, é isso mesmo que querem?" Explica tão bem o primeiro mandato, não explica? Se a própria vida é o Sporting, se toda a vida está feita no Sporting, se não há vida para lá do Sporting, se só se consegue ser alguma coisa no Sporting, se toda a ambição e ânsia de ego e protagonismo só consegue ser materializado no Sporting, se a única coisa a que resta mundo é o Sporting, se a única coisa que existe no planeta Terra é o Sporting... O Sporting e Bruno de Carvalho, não nos enganemos, não nos enganemos sob pena de levarmos com um processo em tribunal: Bruno de Carvalho é o Sporting, acabou, já não nos podemos mais deixar-nos admirar, muito menos embevecer com os jogadores, treinadores e demais atletas, não vá o Sporting, perdão, Bruno de Carvalho morrer de ciúmes. É imperativo que o protagonismo tem de ir para a figura maior do clube, tão grande como os maiores da Europa, temos de ir a Alvalade para ver Bruno de Carvalho, só podemos ir a Alvalade para ver Bruno de Carvalho, se ganhamos a figura é Bruno de Carvalho, se perdemos quem tem toda a razão é Bruno de Carvalho. Se protestamos é porque não  nem sequer somos sportinguistas, não passamos de uns sportingados, é porque não percebemos que o problema vem do Benfica, que estamos a ser instrumentalizados, a tomar a parte do croquete. Rui Patrício, Manuel Fernandes, José Eduardo, Daniel Sampaio, Octávio Machado, Dias Ferreira, Sousa Cintra, Poiares Maduro, Daniel Oliveira, toda essa cambada, todo esse Sporting que se acha Sporting é aliás uma cambada, todo esse Sporting que não quer ver que o verdadeiro Sporting é só um: o Sporting Clube de Bruno de Carvalho. Sejam sérios. Não aconteceu nada. É tudo invenção da imprensa, os espancamentos em Alcochete nunca aconteceram, é tudo do Correio da Manhã. Eu fui a Madrid e à Madeira acompanhar a equipa, eu nunca escrevi comentários inapropriados no facebook a pôr em causa o brio dos jogadores, eu nunca os ameacei com sms, Fernando Mendes da Juve Leo nunca disse ao Acuña "vemo-nos em Alcochete na Terça", eu nunca passei o treino de quarta-feira para terça, eu nunca faltei a uma reunião com os jogadores a esse dia e a essa hora, os encapuçados sabiam onde era o balneário porque no dia anterior foram a uma bruxa na Damaia que lhes explicou tudo tintim por tintim, o BMW azul era um OVNIaproveitaram-se de mim, eu estava em estado de choque quando depois do que aconteceu disse que é chato e que o crime faz parte do dia-a-dia, eu também podia ter estado lá, podia estar morto!!!!! Podia ter sido comigo, não sabem disso? E não fui eu que me aproveitei de tudo para engolir de vez todo o poder. Expulso-te de sócio se dizes o contrário, ou passo a nomear sócios ao calhas se algum membro da minha Direção achar que eu não sou o Sporting Clube de Portugal. Não que eu tenha de obedecer a tribunais. Porque, repito, é tudo mentira do Correio da Manhã, mais: é tudo ressabiamento de Sportingados.


* - reabilitou modalidades como o hóquei, o vólei, entre outras, construiu um pavilhão, fez um canal de televisão - hoje central de propaganda de meter inveja a uma Telesur -, saneou financeiramente o clube, que voltou a dar lucro, que voltou a ser lutar por competições, a ser vitorioso, líder das modalidades. 

domingo, 10 de junho de 2018




Ronda, 2018



111.



Prontinhos a cavar dali para fora ao primeiro sinal de Guardia Civil. Escravos na Gran Via. Enredados. Atascados.




Estávamos nos ilustrados anos 80. Os tempos da Guerra Fria, de Ronald Reagan, Leonid Brejnev, Mitterrand, Margaret Thatcher, República Democrática Alemã e Guerra Irão-Iraque. Claro que não ligávamos a isso. A não ser que nos batessem à porta os filmes do Rambo e o Rocky IV, ou então através do som ou do som-imagem dos videoclipes de Sting, dos Genesis, ou do Elton John.A isso ligávamos, afinando o gosto ainda pouco formado, ou não, com os hits de Madonna, George Michael, Michael Jackson, Tina Turner, Hall & Oates, Nick Kershaw, Level 42, Elton John, Spandau Ballet, Europe, Starship, Stevie Wonder, Heróis do Mar, Sandra, Carlos Paião, António Variações, Bruce Springsteen, Duran Duran, Mr. Mister, uma salganhada. Coisas boas com coisas não tão boas, coisas razoáveis com coisas terríveis. No cinema era a mesma coisa: Silverado com o Regresso ao Futuro, Academia de Polícia com a Última Tentação de Cristo, Footloose com O Último Imperador. Na televisão ia o Tal Canal com a Vila Faia, Hitchcock Apresenta com Sabadabadu. Depois havia sempre a companhia de Júlio Isidro, havia os Jogos Sem Fronteiras. Corria Fernando Mamede contra Carlos Lopes. Havia Joel Branco, Ana Zanatti, Eládio Clímaco. Quando já tinha passado o Espaço 1999 havia O Justiceiro. As telenovelas brasileiras faziam história com O Bem Amado ou Roque Santeiro. Também nunca nos esqueceremos dos desenhos animados com os Amigos do Gaspar, O Carteiro, o Era Uma Vez o Espaço, o Dartacão, ou A Volta ao Mundo em 80 Dias. Líamos Os Cinco e Uma Aventura.Jogávamos computador no ZX Spectrum. A fazer moda havia os ioiôs Coca-Cola e Sprite, o cubo mágico, as bombocas, o Trinaranjus, o leite acho-colatado da Toddy. Tínhamos Vasco Granja. Tínhamos o Liverpool e a Juventus. Tínhamos Diego Armando Maradona a mostrar como era e como estava acima de tudo e de todos. Enfim, do pouco que havia, havia de tudo. Muita água ainda tinha de passar pela ponte até chegarmos ao Bush pai. O Sporting ainda estava na segunda época das 18 que penaria até voltar a ganhar um campeonato.


sábado, 9 de junho de 2018



Depois de uma leitura de Luiz Pacheco (Exercícios de Estilo) do melhor da literatura portuguesa do século XX, a espaços, entre poças (tantas poças), gente esfomeada, pobre gente, pobre miséria de gente. Escrever português, literatura dura, pura, de essência: aberturas revolucionárias, arte & estilo, estratégia ataque-ataque, tiradas marciais,sublimadas carpintarias. Chef literário de primeira, hotelaria de rua, restauração da sarjeta. No silêncio das estantes, beber um copo, esquecer. Alfarrabistas fizeram disso um dinheirão. Fazem. É essa a imortalidade literária? Junte-se as dezenas de escritores voga directa ao esquecimento proporcional à fama do momento, temperem-nos com uns poucos, mas bons poucos de bons, depois aumentem-lhes o lume, inflamem bem, inflamem, que é para nos despacharmos no firmamento dos anos para as décadas das décadas dos séculos, tem de ser rápido quanto mais não seja temos ainda os séculos dentro dos séculos. E esta panela é só um país: Portugal. Portugal Continental e ilhas. Imaginem então um continente inteiro. Modelem-no como a América do Sul. Podem jogar panelas com a França, o Reino Unido, a Alemanha, Itália... Olhem para os Estados Unidos, o México. Deixem de parte África, a Índia, o Japão, a Austrália, a China... 

sexta-feira, 8 de junho de 2018





Ar para respirar, apenas nas pequenas réstias de branco de folha não preenchida – qual parque natural cheio de verde e lagos e cantares de pássaros, depois de uma fábrica de celulose. Eram réstias que José via e não resistia a preencher, sempre era mais uma oportunidade de poder reciclar mais alguma tanta furibunda energia. Fosse ele um Pessoa ou um Kafka, ninguém o decifraria escrito. Morto estivesse, morta estaria toda uma literatura. Um escritor assim morto encerraria, para a eternidade, a chave do seu enigma, e os enigmas do túmulo não passam disso mesmo, ou melhor, dali mesmo, do túmulo, do que se alimentam as bactérias. De resto, tumulares também eram todas as folhas de todos os seus cadernos de hieróglifos ilustrados – gatafunhos que até poderiam ter em si os mais graciosos e belos sonetos de um trovador lírico, que a melhor imagem que dali adviria andaria mais próxima da impressão poluída de um qualquer tubo de escape da pior Hong Kong onde se consiga estar...



Charles Bukowski 


VIA AEROPORTO DE SANTS






Acordar pela rua ultra-pacífica. Bairro gótico de manhã é a coisa mais pacífica. As Ramblas mantém a temperatura. O forno ainda não começou a aquecer. Entrada no Metro, duas estações, Praça da Catalunha. Já está ali um grupo de estudantes. Pede ajuda. Seguem-nos até ao autocarro. Na Plaza de Espanya um galego entope o tempo à entrada do autocarro também entupida. Está stressado, imaginamos que seja um dos muitos que vem da Galiza a Barcelona ou Valência para se meter num barco para ir trabalhar no Mediterrâneo ou norte de África. Entretanto vá-lá, prosseguimos. O trânsito é nulo, a cidade da cor de uma cerveja clara. Ou pelo menos assim escrevo eu agora, esta memória remota e tão recente. Posso dar-me ao luxo de se anacrónico, posso dar-me ao luxo de dizer que não é para todos. Hamburguer, vontades de aeroporto, vontades de hamburguer. Burguer King a dez euros, o que nem pensar: nem Burguer King, nem um euro. Tudo à vista da mesma pista onde antes dois aviões da Norwegian Airlines entre outros dispunham Knut Hamsun como se fosse um duelo do oeste, cada avião o seu escritor, nos aeroportos da Europa, uma lowcost que se sabe vender. Imaginem um TAP Camilo Castelo Branco, em frente a outro avião Eça de Queiroz, imaginem José Cardoso Pires defronte a Agustina Bessa Luís, ou Alexandre O'Neill e Sophia, que glória, que orgulho pungente nos dariam os aviões da TAP, chegar ao aeroporto e ver um avião Jorge de Sena ao lado de um outro de Ruy Belo. Para fim de conversa fica a descida do avião por Pontevedra para logo aterrar em Vigo, um portento pelas rias, pelas ilhas, pelos azuis do mar. Chegar a uma pista inteira só com um avião e uma avioneta. Como se redescobrisse o oxigénio. 

quinta-feira, 7 de junho de 2018



Prosseguindo caminho pelas amostras alcatroadas. Fui. Eram tudo verdes de uma mesma encosta. Fui. Humanos estudiosos sabem bem que havia ali em baixo um rio afluente, ainda coisa de umas centenas de anos. Fui. Aproveitem enquanto eu estou para o que posso aqui confirmar. Havia romanos? Lusitanos nativos? Iberos. Eu ainda conheci os Iberos... Mas não, não vos vou contar, sou lobo, não sou historiador. E como tal, lobo que sou, prefiro a humana inveja à humana curiosidade... Também sei que a humana curiosidade mata mais lobos que a humana inveja... Mesmo que a humana inveja mate muitos mais humanos que a humana curiosidade... Mas continuando, ao pé daquele afluente eu estava sempre a caçar, com certos humores até peixe comia. Havia tanto e tão bom peixe que até eu, que nem sou grande apreciador, ia lá dar a trincadela. Querem saber mais? Joga ali hoje o Atlético Clube de Portugal contra o Mafra. 

           

              


                                         "La ilusión es la forma perfecta."


PRAIA LONTANO





Capa e paginação Rui A. Pereira, Letras Paralelas

Nas livrarias:  

Círculo das Letras - Rua da Voz do Operário, 62

Biblos Clube de Lectores - Lugar Quinta, 8, 15391 Cesuras, A Coruña

Encomendas para gn.pedro@gmail.com





Estrada dos Prazeres na Galiza, em Ribadavia, bons meses atrás. 




Saí indeciso de minha casa, achava que devia escrever. O que a escrita pedia na altura, não tinha eu forma de saber. E a escrita pedia, se pedia... Precisava de se alimentar. Mas eu também. Decidi sair. Fui. Fui para a rua, locomover-me, cruzar a colina até Alcântara. Os instintos pedem. O faro também. O calor cheirava. Fui. Fui atrás, à espreita. Fui. Fronteiras inseguras. Fui. Cercas destruídas. Fui. Desci a rua baixa, pobre, mas de laranjeiras, sombra e intermitente brisa, lembrei-me de Sevilha nos tempos em que por ali andava. Isto porque no mais cheira a meio trilho tem mesmo por ali um tão belo, como degradado, como inconsciente de si próprio prédio andaluz: duas portas abertas, duas tabernas, meti-me lá dentro, farejando os ares, demasiadas poeiras, cheiro a fritos, gorduras, falta de chá, de classe... 



Ibn `Ammâr



[O Meu Coração é Árabe, Adalberto Alves, Assirio & Alvim, 1998]

sexta-feira, 1 de junho de 2018

PRAIA LONTANO EM VIGO




Praia Lontano passou por Vigo. Apresentou-se o livro. Para falar depois do que foi escrito e do que há para escrever. De livros, de literatura, do conto e do romance, de micro-contos e calhamaços, de Jorge Luís Borges, Unamuno, Saramago e Pessoa, de Lisboa, gentrificação e Campo de Ourique, do Estádio de Alvalade e dos Balaidos, do Benfica e do Celta Vigo, da Galiza, de Portugal e Espanha, do iberismo e dos nacionalismos, entre muita coisa mais. O espaço é magnífico, nobre, de encher as medidas pela sua beleza e antiguidade, cercando-nos de História e de livros dos nossos grandes poetas e escritores. Muito obrigado ao Instituto Camões Vigo, em particular a Carla Sofia Amado pelo seu trabalho, inteligência, diligência e simpatia. Foi um privilégio e um prazer.

sábado, 12 de maio de 2018

110.




PORTUGUESE THREAT


Não se repete este quadro
Três horas ou nem tanto
Em Madrid
Subir da Cibeles ao Congresso dos Deputados
A Salamanca
A praça das cervejarias
Cada uma mais autêntica 
Graciosa
Entrei na terceira
O empregado de balcão era dos puros 
Versão madrilena do Albano da Bota Velha 
Só que mais alto, firme, decidido
Pode ser um bocadilllo de tortilla - e que tortilha!
Com pimento vermelho
Picante
Acompanhando a cerveja, uma caneca
A ouvir dois sotaques americanos
Um era guia turístico 
À beira da reforma, já vivera
Em Paris muitos anos
Conhecia Madrid de umas dezenas 
De vezes e Lisboa também 
Dizia que em Portugal todos falam inglês
O outro não faço ideia da profissão, mas sempre
Opinava que Portugal é complicado
Com tanto excesso de Esquerda
Pensei logo nessa famosa capa da Time de Agosto de 75: Red Threat in Portugal
O guia, porém, extirpou-lhe as ânsias - calma 
Agora já não é assim 
A Europa não deixa
Entretanto de frente
Ao balcão um enorme espelho irlandês com a ponte de Saint Patrick
Perguntou então ao Albano madrileno se podia tirar uma foto, era para a filha que tem
Um bar em Nova Iorque
Nunca havia visto a ponte assim dessa maneira - pretty cool
Então o guia achou que devia saber se estava a gostar de Madrid
Oh yeah, Madrid's beautiful, tinha chegado ontem
E já estava a ver coisas raras
O guia então debitou um bla bla bla 
Só percebi aeroporto de Filadélfia 
Estaria na hora do Museu
Do Prado
De pedir a conta
De começar o trabalho. 

sexta-feira, 30 de março de 2018

PELES VERMELHAS

Escreves enquanto desenhas. Descobres a forma que te descobre. Tens na pele a cor vermelha. Não se sabe se do sangue, se da tua tribo, ou se és de todas tribos. Não podemos dizer não sabemos nada. Há sempre o limite, essa linha enquanto não vemos o que nos sai da matéria. E tudo enquanto não sai da linha. Poeira ao fogo, a seta escrita: Peles Vermelhas. Sentido confundem. Sentidos sentidos nos defenderemos. Peles Vermelhas. 

Para atacarmos a descoberta precisamos desorientar o presente. Zás de onde vem a guerra. Peles Vermelhas. Damos gasolina ao cronópio. Somos todos parentes, é qualquer dança o que viaja. Deixamos tomar-nos todo o exemplo. Entrará na carne se entretanto não for atingido pela flecha ao contrário. Acendalha. Não queremos necessariamente dizer nada. Marcamos a linha vivendo o traço a percorrer a vida o que desenha. Peles Vermelhas. 

Temos mais motores do que imaginamos. A nossa cidade é esmaga e densa a populosa. Espírito extravasa desenha forma. Peles Vermelhas. Não existem mãos para medir a megalópole. Só precisamos contar mais longe. Contemos com nadas. Assim se caminha com a chave há samurais. Muito frágeis quânticos oligarcas do sonho leveza pássaro um peixe nada. Uma montanha. Um vários um. A cor contra torcida maré. O som mais surdo é o volume mais alto. É o grito fundo do bosque África fábrica dentro dos túneis a Tundra Asiática. Peles Vermelhas. 

A derramar tintas a nova boa. Sorrindo a palavra forma. Atrás do Espírito Vento. Dentro de um tu e nenhuma parte. Rui A. Pereira.*

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* - Na livraria Círculo das Letras, rua da Voz do Operário, 62

109.


OLHO DE GOYA

Os tempos davam tempestade

Forte em certas alturas
Da estrada
Vinhas do País Basco
Reflectindo todo o sul
Da semana passada
Depois, enquanto escolhias dois robalos
Falavas da infância, das férias 
Chegado a casa, onde pudeste assentar 
Tomando consciência de envelhecer aquelas horas
Até teres mesmo de criar um novo emprego
E poderes ajudar este poema
Pensas na cerveja de Bilbau
Vem-te à ideia Orson Welles e os pombos correio de Euskadi,
Espanha-França-Espanha-França,
Mas sobretudo esse auto-retrato de Goya
Lembra-te bem, não se desviou de ti milimetro até ao fim da sala
Não te tirou os olhos o olhar
Trazia dito topei-te não tens escapa
E agora sabe exactamente onde estás 
Vivo dentro
Fora da miséria.

quinta-feira, 29 de março de 2018


     - Primeiro há os que escrevem, depois há os que escrevem o que escrevem. 






Este ponto de vista não é um ponto de vista. Não está no seu ponto de vista. É um ponto com vista, sim, uma vista com vários pontos. Mesmo à minha frente, tropical, a pequenina praia, ninguém,só eu mesmo neste improviso de esplanada com duas mesas, um Porto Tónico, uma caneta, o caderno onde escrevo, e centenas de pássaros exóticos escondidos em árvores por companhia, em cantos que eu nunca tinha ouvido, nem imaginava sequer que existiam. Não, este ponto de vista não é um ponto de vista. A beleza de nada vale quando apenas é sentida como um incómodo. Indiferente. Podia estar na mais lúgubre das cidades, no mais lúgubre dos subúrbios da Terra, num bairro de lata, numa lixeira. Sentiria o mesmo. Disso já fiquei com toda a certeza. Toda a beleza deste paraíso agora não passa de um atoleiro. Sentir-me assim para além da morte – tantas vezes penso: antes morresse – não deixa de constituir uma morte lenta por lenta asfixia – se assim não é, assim o sinto. Constatar que nunca respirei na vida oxigénio tão puro e faltar-me o ar. E se não há viver sem respirar, não existe respiração fora dela. Só desespero, desespero mais puro que o próprio ar, o mais puro desespero... Salve-se a ironia, uma ironia cruel, uma ironia que me sabe morder a cada instante, insaciável piranha. Se é para acabar comigo de uma vez por todas, siga la banda, atente-se no nome  deste mar: Oceano Pacífico. Pudesse eu sequer rir de mim próprio. Oceano Pacífico, ilha, resort exclusivo, recursos ilimitados, até ao fim da vida, que maravilha, quem dera, viver aqui neste exílio.... Viver para sempre, antes que acabe, não é? Antes acabar de uma vez por todas, é o que é. Torturar-me assim nesta saudade, veneno a corroer-me as entranhas, bactéria da minha aniquilação. Esta falta da minha Aurora é um morrer que nunca mais acaba.

quarta-feira, 28 de março de 2018

terça-feira, 27 de março de 2018

segunda-feira, 26 de março de 2018



De uma margem de prata, não se sabe quão antiga, abre sobre a vereda um trilho até esta minha velha casa onde se vê o mar anoitecer. Não está muito longe do porto, e os tons de prata, onde se intrometem pinceladas douradas, dizem, são ainda marcas desse opulento, famoso milenar naufrágio ao largo da ilha de Lontano, já lá vão três séculos. O que não faz grande a diferença, logo aqui, é como se o tempo parasse. O tempo é relativo, poderão dizer. Direi que não, que o tempo aqui é um absoluto, mais um absoluto, nunca abrevia, apenas condensa. Poderemos pressentir, enfim, suas próprias gradações dentro daquilo que se suporta na sua duração, porém as mesmas serão sempre medidas com uma lente de aumentar, o que vai da lupa ao microscópio. Depois há quem fique, depois há quem parta. Há quem nos fica, há quem se esqueça. Jorge Lisboa viveu na ilha seis meses, pareceram dez anos. Barco vem, semana vem, será o único de fora que se avistará na costa entre Domingo e Domingo. De resto, estamos todos entregues a meio serviço. Copo meio cheio ou meio vazio, assim é a escola, um posto médico, o mini-mercado, o restaurante, os dois cafés, o posto de correio, a biblioteca. Toda a ilha vive a ameaça iminente do vulcão e a gente não fica.





Marbella, casco antiguo, 2018




- Fatal erro de equilíbrio: confundir um desequilíbrio com um em desequilíbrio.





Nicanor Parra



- A liberdade precisa das mãos, as mãos precisam da forma.




sábado, 24 de março de 2018

108.


Máfia russa
Árabes agentes imobiliários
Mulheres com tusa
Restaurantes irados
5 a cada 500
Nesta Andaluzia de três casas
Atrás da montanha
Tudo é passadeira
Jóias iates ventures resort
Areias exclusivas
Mergulhos privados
Petróleos que se adiantam com um sorriso
A Espanha.

107.



ALARME EM MARBELLA


Quarenta minutos até ao viaduto
Por cima da auto-estrada
A pé
Tremia
Ganas de saltar fora
Mas foi ao encontro de uma desfeita
Sabotou a viagem
O cansaço, a febre, os tijolos 
Construíram o muro 
De acasos trabalhados
Não viajou a Málaga
Viu sim no casco histórico
As passadeiras só para dizer que
A outra já o era
Depois, na volta ao mediterrâneo adjectivo
De mais um Inverno ultrapassado
É outra a armadura ganha a invasão
Até não poder suportar mais
O estertor do ego alemão 
Achando que podendo assim compra
O código sul do esplendor romano
Depois, estes ingleses bárbaros
Emproam tanto o ar que a própria Natureza perde
A sua ideia.

sexta-feira, 23 de março de 2018

quinta-feira, 22 de março de 2018

quarta-feira, 21 de março de 2018

106.

Pensar além do meu
Além
Ver como tu andas
Completamente lixado - e tu, e tu, e tu...
A cada um seu infinito...
Egoísta
Mesquinho
Sectário
Há que saber diferenciar se é
Doença
Ou se é enferma configuração
De espécie
Ou dito de outra maneira, 
Se é mesmo esse soro que alimenta
Ou o desmaio alheio
Da indiferença
Na Galiza dizem que se te vendes de borla 
Tratam-te como escravo
Verdade é que só querem tudo de graça
Assim se indignam meneiam-se
É toda a forma como se penteiam...

- Elimina-se o supérfluo e as palavras mexem-se, a frase é outra, tem de fazer pela vida.



quarta-feira, 14 de março de 2018

sábado, 3 de março de 2018

105.


Culturismo Literárioespécie de saber de oficina feito que serve apenas para mostrar músculo. Capaz de transformar o mais absoluto virtuosismo e saber filosofico-literário em vácuo. Costuma ser portador de currículos e é sumamente utilizado como farda de almirante. Há quem lhe gabe as qualidades afrodisíacas. 
O Século XX costuma ser seu habitat de pastorícia, seus praticantes também costumam, por desfastio, ir dar uma volta à Grécia antiga.... Seus detractores acusam-nos do paradoxo do niilismo de banquete.  Mundialmente expandido e com muita pujança em Portugal - só o ano passado, por exemplo, Portugal ficou em 3º lugar no WLC - o Culturismo Literário tem até uma igreja própria, tal singularidade põe muitos a pensar em paralelos com a argentina Igreja Maradoniana, nada tem que ver uma coisa com a outra, pois se para a Igreja Maradoniana, Diego Armando Maradona é Deus, já para o Culturismo Literário a divina ideia é que já foi tudo escrito. 

sexta-feira, 2 de março de 2018

A Escolha do Jorge

Ao ler o conto de abertura, tive uma vaga sensação de ter regressado às ilhas, como se ali, no decurso da narrativa, constassem episódios que me eram de certa forma familiares dado, talvez, a exiguidade e a geografia das ilhas que promove um certo modo de vida que lhe é específico e, não raras vezes, estranho a quem é de fora, além do carácter insólito de algumas das histórias apresentadas.A conquista foi imediata para a restante leitura da obra. Os dados estavam lançados sendo raro acontecer uma primeira obra de ficção prender a minha atenção, tanto pela qualidade da escrita, como pela originalidade das histórias trazidas a conto.Lisboa é o centro nevrálgico da grande maioria dos contos. Os personagens vivem e deambulam na cintura urbana da cidade com todos os tiques que habitualmente reconhecemos naquilo que nos é próprio, característico, não esquecendo todos os aspectos da vida quotidiana em permanente mutação.

Jorge Navarro, aqui

104.

Tempos curiosos estes em que o coberto tanto se torna descoberto, e é tão descoberto, o coberto. 
Coberto no que as pessoas dizem que são. Descoberto na forma como realmente actuam...

Estou a ver tudo de Espanha, detrás das montanhas, 72 quilómetros de Chaves - tudo exposto, pensamos, mas hás de saltar mais alto que toda essa lava feita em merda. Ou talvez não. 
Gráficas omissões contra a parede - salta! Apenas te projectam contra a parede -  salta! 

Acabei de ver um filme que de todo desconhecem. É a quinta vez que o vejo. Então as sombras já não contam para nada. Ou por exemplo a educação ou a falta dela nos personagens, e muito menos aquilo que realmente sabem.

Até há teses gráficas do silêncio. Segredam até dentro das almofadas. 

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

PRAIA LONTANO - prefácio de Elisa Costa Pinto


Os quinze contos reunidos neste volume apresentam uma assumida diversidade temática e estilística, verificável desde o inaugural “Praia Lontano”, até ao último, “Manhã Piscina Caixa Gravação”. No entanto, fios invisíveis se insinuam, numa rede de relações várias que, adiante, tentaremos desocultar. Quero com isto dizer que, atrás da diversidade, se ergue uma voz narrativa reconhecível e singular, que pode escapar ao leitor menos atento.
É sabido que o conto é um género exigente, que requer uma mestria literária de difícil domínio, pois habita aquela zona exígua do cruzamento da contenção da poesia com a peripécia narrativa. Ora, nesta colectânea, Pedro Góis Nogueira revela, em vários contos, essa mestria.
Caminhemos, pois, pela manta que é sempre uma colectânea e assinalemos as linhas de afinidade dos seus quadrados, já que as de diversidade são muitas e não será objectivo desta breve apresentação retirar ao leitor o prazer do desconhecido. Sinalizo como primeiro traço aglutinador da maioria dos contos a presença de um narrador na 1.ª pessoa, masculino, protagonista quase sempre de um olhar sobre si mesmo. Apenas cinco contos escapam a esta escolha que, longe de ser aleatória, obedece a um critério de adequação narrativa: enquanto a primeira pessoa é a voz que se pensa, analisa, recorda e, frequentemente, procura um autoconhecimento, a salvação ou a aniquilação, a terceira pessoa é o observador, não raras vezes irónico, de cenas do quotidiano urbano ou de percursos alheios, que situam a narrativa num tempo e num espaço reconhecível, crítico ou risível.
As personagens dos cinco contos referidos são gente comum, ou nem tanto, habitantes esfumados de uma cidade que atravessam sem deixarem grande marca mas, ainda assim, detentores de uma especificidade que lhes garante a atenção do narrador: o informador da Judiciária, em “Tu cá, tu lá”, o instável candidato a escritor, em “O Caderno”, os namorados desavindos, de “Dinossauro Júnior”, o sapateiro e a menina, no conto com este nome, o praticante de Jujitsu e o seu Mestre, em “”Sou Daqui”. É claro que a estas, poderíamos juntar outras figuras de outros contos: o vigarista atormentado, de “Aurora”, as duas jovens agarradas pela internet, em “Lá (em baixo)”, a astróloga espertalhona, de “Astrologia comestível”.

Nestes contos, a ironia, a sátira e até o nonsense assentam que nem uma luva, na combinação com divertidos e inesperados jogos de palavras e alguns diálogos muito bem conseguidos.
Creio, no entanto, que é sobretudo em alguns contos na primeira pessoa que o autor se aventura por caminhos mais ousados e experimentais, revelando o pleno da sua oficina de escrita (tema, aliás implícito ou explícito em vários contos).

Pela sua singularidade e significação, proponho um olhar particular sobre “Praia Lontano”, o primeiro conto, cujo nome se alargará a todos os outros, já que é o título do livro. Nesta narrativa inicial, parece-me residir aquilo que de essencial os contos de Pedro Góis Nogueira transportam. Numa pequena ilha vulcânica, hipoteticamente descoberta por um companheiro de Colombo, um antigo operário galego refugia-se na procura apaziguadora da Natureza pura, da solidão e de um tempo parado, sem sobressaltos. A este propósito, adverte-nos logo na primeira página “O tempo é relativo, poderão dizer. Direi que não, que o tempo aqui é um absoluto, mais um absoluto, nunca abrevia, apenas condensa”. Ora, o tempo condensado é o tempo do conto, que fixa um instante da vida, como uma fotografia. Pode até o narrador conceder-nos a sugestão do passado ou a previsão do futuro, mas é do tempo condensado que o conto se alimenta.
Tempo, solidão, autoconhecimento, mistério e poder da escrita são as grandes linhas temáticas deste conto e, afinal, deste livro. É por isso que “Praia Lontano” se me afigura portador da chave interpretativa da busca das personae do seu autor. Desde logo o nome – Lontano – lugar imáginário onde o Sul latino ecoa, e também a distância atlântica, a mesma das ilhas demandadas por tantos escritores, desde que Thomas More criou a sua 'Utopia', Camões a Ilha dos Amores, Humberto Eco, 'A Ilha do Dia Antes', Pessoa “As Ilhas afortunadas” (e fico por aqui, já que a lista seria interminável). A Ilha é sempre um lugar simbólico, de excepção, mas também de totalidade, de isolamento, mas de encontro, de terra firme e de sonho.

Ora, o protagonista de “Praia Lontano”, como os outros habitantes, apenas teme o vulcão ou a submersão, porque na mais tranquila ilha uma erupção pode mudar o curso dos acontecimentos.
E é, precisamente, o que acontece a outros protagonistas, de outros contos, perdidos numa qualquer busca de si mesmos, que se encontram – ou não – através do sobressalto do amor, das armadilhas da memória, da autodisciplina nem sempre disciplinável, do caos ou da escrita. A ilha é, enfim, a metáfora da vida de cada um, da vida vivida ou recordada com desfocagens surrealizantes (o conto “Miragem”) ou ternamente divertidas (o conto “Três Martinis no Mostruário”).

É claro que a diversidade destes contos obriga a deixar de fora muitos aspectos interessantes, mas não queria deixar de seguir a linha que nos conduz pelos caminhos da Literatura, constituída como tema de si mesma. É curioso verificar que em quase metade dos contos – sete – este tema emerge sob diferentes capas. Se em “Praia Lontano”, o mistério da ilha é revelado num livro escrito por um visitante de passagem, em “O caderno”, a escrita parece auto-comandar o indeciso escritor, que sente a imposição das palavras “umas atrás das outras, activas caldeiras vulcânicas explodidas pelos dedos, levadas de cardumes”. Se em “Dinossauro júnior”, a incomunicação do par resulta do mergulho do namorado no livro de Stephen King, enquanto a namorada desespera, em “Três Martinis no mostruário”, os livros de Amin Malouf constituem-se como elos de uma comunicação improvável e, em “Astrologia comestível”, o protagonista confessa “(...) este texto, testemunho da grande transformação que em mim se apoderou. Escrevo-o para entender melhor, sobretudo para descobrir, pela escrita - que nos faz descobrir e poder ver além, para além de nós”. Pelo meio, o eco de Álvaro de Campos e de Ginsberg em “Lobo à Colina para Alcântara” e a enumeração torrencial de nomes de escritores (influência?) no enigmático “Ela Que Vela”.
Mas é, talvez, o conto que encerra o livro aquele que vai mais longe na reflexão sobre a escrita. A propósito de 'Exercícios de Estilo', de Luiz Pacheco, o narrador (o autor?) escancara a sua experimental oficina de escrita, ao mesmo tempo que grita, sarcástico e a plenos pulmões, um manifesto à Literatura que se cozinha e que se vende, declarando - “Agradeço ao livro que eu trazia na mochila. Agradeço a este bloco de notas. Agradeço à piscina. Escrevo numa piscina, conseguem ler?” (eu acho que consigo…). 

E, enfim, termina: “Acabo. É tempo de guardar a caixa gravadora (a) escrita. De dar outro mergulho (take 3). De carregar no STOP”.


Elisa Costa Pinto