domingo, 26 de agosto de 2018

ONE MAN SHOW




Agora é que é. Mais outra capa com a eminência da eminência. Agora é que é. Melhor sentarmo-nos porque ainda vamos ter que esperar. Muito. A julgar pelas capas da Time - e as coberturas da CNBC e CNN e os artigos do New York Times e do Washington Post - Donald Trump já teria marchado há muito, muito tempo. Mas não marchou, pelo contrário, ainda se incrustou mais ao poder. Desmascarado e em queda desde as primárias, momentum eleitoral que ninguém viu porque todas as sondagens acertavam sem apelo nem agravo: ia ganhar a Hillary. E lá vai Trump outra vez surfar a onda, outra vez arranjar forma de surfar qualquer onda em seu benefício. Sem medo nem vergonha na cara. Uma inspiração para todos os brunos carvalhos desta vida. Manipulador, mentiroso patológico, sem escrúpulos, tudo e tudo, mas também a vontade férrea e decisão absolutas em fazer tudo à sua maneira, só mesmo à sua maneira. Perdeu a equipa inteira? Melhor ainda! No fundo já bateu ele há muito tempo e consegue aumentar a fortuna e a rede de hotéis. E o poder, claro, clarinho. Sabe perfeitamente que para o little guy é só argumentos  - ou o argumento - contra a política e os políticos. Todas as palmas são bem vindas e, afinal de contas, tudo não passa do one man show. Contra tanta publicidade só mesmo muita carga de energia plutónica. Para já, para já, nem pensar, para depois, enfim,  ganhará ainda mais força chafurdando na mentira mais  para insistir que não passa tudo de fake news - é chapa ganha - seguindo adiante montanha acima acompanhado pelas pedaladas fortes de todo um exército de teóricos da conspiração, coroados em audiências titânicas. Por mim, prefiro gozar o prato com todos esses molhos de entretenimento, é muito melhor que a noite dos Óscares, por exemplo, ou que os congressos do PSD, outro exemplo. Entretanto, na Fox News e pelo menos metade dos Estados Unidos no pasa nada. Quando passar...


                       





Ar para respirar, apenas nas pequenas réstias de branco de folha não preenchida – qual parque natural cheio de verde e lagos e cantares de pássaros, depois de uma fábrica de celulose. Eram réstias que José via e não resistia a preencher, sempre era mais uma oportunidade de poder reciclar mais alguma tanta furibunda energia. Fosse ele um Pessoa ou um Kafka, ninguém o decifraria escrito. Morto estivesse, morta estaria toda uma literatura. Um escritor assim morto encerraria, para a eternidade, a chave do seu enigma, e os enigmas do túmulo não passam disso mesmo, ou melhor, dali mesmo, do túmulo, do que se alimentam as bactérias. De resto, tumulares também eram todas as folhas de todos os seus cadernos de hieroglifos ilustrados – gatafunhos que até poderiam ter em si os mais graciosos e belos sonetos de um trovador lírico, que a melhor imagem que dali adviria andaria mais próxima da impressão poluída de um qualquer tubo de escape da pior Hong Kong onde se consiga estar...

quarta-feira, 22 de agosto de 2018




Onze da manhã, Céu apareceu. Ricardo, sentado na esplanada, lia um livro de Stephen King. Vidrado pelo suspense, absorvido na leitura, limitou-se a constatar a namorada com um ténue movimento de olhar e um olá inaudível, como se estivesse numa biblioteca onde não pudesse fazer barulho. Ela sentou-se, pediu sumo de laranja, ele não tencionava pedir nada, mas deu por si a pedir um leite achocolatado, tão automático como indiferente, nem se lembraria mais tarde do pedido. Ricardo só via as linhas escritas, a telepatia de que falava King no seu On Writing surtia efeito, Céu estava fora desse encontro das mentes. 


terça-feira, 21 de agosto de 2018





Capa e paginação Rui A. Pereira, Letras Paralelas

Nas livrarias:  

Círculo das Letras - Rua da Voz do Operário, 62

Biblos Clube de Lectores - Lugar Quinta, 8, 15391 Cesuras, A Coruña

Encomendas para gn.pedro@gmail.com


sábado, 18 de agosto de 2018




TANTO QUANTO SE DIZ TOLEDO SE GRITA PELO GREGO


 

Padre nuestro,
Que estás en la Tierra,
Señor Don Quijote…

Rubén Darío

O fantasma de El Greco a cada esquina, as camadas históricas, quais eras geológicas combinadas numa sinfonia de tempos, entre os quais o da capital de um império. Dos romanos à capital visigótica, dos mouros sob o domínio de Córdoba aos reis católicos e à projecção da gesta marítima via Sevilha. O Islão, os judeus e os cristãos-novos. Toledo carrega com os tempos e hoje não nega nada. Os espelhos de espadas, a tela de névoas, a poeira da história, por detrás da cortina, o olhar de El Greco a beber-lhe a essência, assombrando pelo génio, tanto que quando se diz Toledo se grita El Greco. Toledo, lugar do ferro e do aço onde se engendra a espada, ande-se pelas ruas, cercadas de sabres, cada arma a querer declarar a sua individualidade, a poder dizer que é (de) alguém, claro que das verdadeiras chegam segredos desde os romanos condensados nos templários até ao apogeu do império quando Toledo ainda era a capital. Pensar que o Tejo a unia a Lisboa, como dos barcos a sair de Sevilha e Cádiz vinham os estudantes de Sagres, que esse verdadeiro sabre que vem da catana portuguesa associado pelo mundo as Japão tem no meio da península um outro lugar de desconhecidos segredos. E a boa velha que Miguel de Cervantes era visita da casa, tomando parte das Rotas de Dom Quixote. Era esta a Espanha do inventor do seu idioma. 











sexta-feira, 17 de agosto de 2018

117.




MULTIVERSO


1.

Tudo é oculto
Tudo é organismo trabalhado
A aparência
A aparência é oculta

O organismo imaginado. 


2.

Vírus ou tudo cheio de água a encher o poço. Navegaria o futuro ali fechado, encerrado, dentro desse poço. 


3.

Aspirá-la para ser aspirado. Vida própria dona da outra, alheia da outra alheia, crescimento das raízes do medo. Dar dali meia volta e ir embora não contempla um novo encontro... 


4.

A ideia é escrever sempre. Estar sempre a escrever. Escrever como se respira. É preciso escrever. É preciso escrever mas não é possível escrever o tédio de uma manhã na TV sem que a folha saia do ecrã por melhor que seja a literatura. Porque para escrever é preciso escrever, é preciso ser preciso escrever o preciso escrever preciso. Escrever preciso escrever. 



5.

Conhecer toda a gente nada tem que ver com desenvencilhar-se do trânsito


6.

A cidade onde não pudemos ir 
Pode ser uma metáfora
Uma imagem
Ela no hospital 
Eu aqui
Tenho reservadas as minhas forças
E uma palavra pode valer mais que qualquer fome
A dieta urgente de passado
Pela tua saúde
Não vale a pena repetir a dose.


7.

Saber que Maomé é que tem de primeiro ir à montanha. 

Saber que o Universo vem de muito mais longe que Andrómeda.

Inscrever a palavra nos talheres da mesa.

Falar escrevendo.

O serão com as sobrinhas. 

Ir para o próximo verbo, não em mim mas no próximo, sempre o próximo...


8.

O paganismo é sagrado
As leis pelas estações da Terra
A ciência pela natureza 
A concepção da criação humana
Com forças que transportam as ondas do mar
Pelas leis da lua
Construir uma casa de montanha na cabeça
Ser uma assembleia.


9.

Ou se escreve no momento ou já não se escreve. Entretanto o sol entra em casa como um forno, há pressão quando chegam as noticias. 


10.

Pensava que seu jeito era uma forma de sabedoria. Ou então, vá-lá, de arte, vá-lá, de estilo. Sacraliza a leitura para se proteger - a estante era uma represa, protegia-o do mau olhado.


11.

Amuralhado lá ia remetendo as várias notas de intenções. Não se enganem: não era tanto a pureza do campo como o terror da cidade....


12.

Exagerando a dose de força pelo excesso de disciplina
Não tenho força nem lucidez nem porte 
Para mergulhar no Poço 
Onde me é reservada a indiferença.


13.

O casco de foguetes, a agulha do gira-discos
Eduardo Galeano e Camilo Castelo Branco
Dane Rudhyar pensando o centro do Multiverso
A estação de comboios de Cascais
Madragoa é a última pista.


quinta-feira, 16 de agosto de 2018

116.



ZAFRA


O sol dispõe as ruas pelas casas de dois andares
Algumas de um 
Todas caiadas de branco
Como no Alentejo
Aqui a paz é a mesma 
Quando não é interrompida pela eloquência espanhola
Mesmo assim, na Estremadura espanhola o porte é o mesmo
A mesma recta serenidade
Uma ética de paz com trabalho
De pão com descanso 
E o amarelo do campo
Porque é que o Alentejo não tem também uma bandeira verde? 
As anedotas, o vinho, o queijo de Serpa, a açorda, as migas
Os montes, o turismo rural, a costa alentejana
As estradas até Monchique que são de morrer
As aldeias com a maior taxa de suicídio
É preciso ir até Silves,
Para ouvir era uma vez um tempo, ou até Mértola
É preciso ir até Mértola
Dizer que também somos Mouros
Porque o azul do sul é cor da areia
E estende o mar até Marrocos. 


quarta-feira, 15 de agosto de 2018

115.


O SOL E A LUA EM COMPLETO ACORDO

É um ritual de purificação diária
A água até pode ser suja, putrefacta
Enquanto medita o copista
Existe a forma como respira
Só que o artista levanta a noite com as manhãs
Amando as tardes
Abre os rios às janelas
Vê as estrelas (da era do vinho)
Por onde espreita os deuses.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

114.


ONDE ANDARÃO TODOS AGORA?

À saída alguns becos metem medo
O que vale é que já te mostraram Vigo antes 
Ida e volta entre Balaídos e o casco histórico
Aqui chamam costas às subidas 
Claro que pensaste no mar com o suor quente no teu corpo
Estamos no Ano de Zeus na Tempestade
E há um miradouro a ver de tudo
A 1906 é uma cerveja óptima para conciliar 
Dois irmãos que nunca se deram
Lobos de alcateias distintas
Criados em redor de colheitas 
A única hipótese é esquecer as cercas
Onde andarão teus pais agora
Entre nós havia gente que esteve
Em Roma no tempo dos títeres
Ensaiando odes metálicas.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

113.


ESTO ES LO QUE HAY

Chegado aqui 
Corrente turva
Poço de indecisões
E silêncios
Mortos
A embirrar com todos os gritos de Agosto
Já sabia ao que vinha só
Que a saudade era um grito que doía fora
Do jogo de toda a família
Dos amigos
Dos músculos que eu nem fazia ideia que tinha
Da falha que nasce das raízes
Sim, a saudade é átomo mútuo que se dissipa
Corrente condensa ao mar do esquecimento
Dos ostracismos da timidez 
De tudo
Reflexos de um real que agora 
É erva verde e um charco 
Ou um lago real encolhido
Como se pedisse desculpa
Numa estalagem em Espanha

DANMARK 1984




As pessoas da infância aconteciam como aconteciam
Simonsen caiu lesionado no primeiro jogo do Euro 84
Proeminente na colecção de cromos e nas repetições com R no canto superior direito, ficou só a queda e maca que o transportava
Adeus Simonsen, olá Preben Elkjær Larsen! - e os seus amigos Søren Lerby, os irmãos Morten e Jesper Olsen, o Arnesen, o Jan Mølby do Liverpool, o Michael Laudrup a vir aí muito novinho etc, etc e etc - mais tarde de azul vestido com riscas ténues em amarelo, e o Verona dessa revista Foot era campeão porque gastou dinheiro até nunca hoje - também vinha em destaque na revista Onze, francesa, muito mais moderna  cheia de gráfico estilo. Saber que ali os guarda-redes eram amadores e faziam figura: Ole Kvist que se movia pelos postes de um lado ao outro, a gritar aos defesas, dos nervos que eu não via...
Nada ali era para ser questionado, também não me inteiraria de modo algum vez alguma acerca do estado de Simonsen na enfermaria. Também só saberia uns trinta anos mais tarde, não sei se é verdade ou se é mentira que Elkjær Larsen malhava forte no whisky... 



segunda-feira, 16 de julho de 2018

FUTEBOL AO SOL E À SOMBRA


     



  


Gostava de o ter lido agora, o que diria e o que não diria sobre Mbappé, Modric, Pickford, Perisic, Kanté, Hazard, Lukaku. Sobre o mundial de Putin, sobre a tenacidade da selecção russa, da pálida Argentina somada à eliminação do maior lote de favoritos da história, dos heróis da Bélgica e da Croácia. Das cambalhotas do patético Neymar. 
Este foi o primeiro mundial sem uma palavra de Eduardo Galeano. Do que escreveu ele e mais uns bons quantos ficamos a saber que o futebol é tão bom jogo como bom molde para a  literatura.


domingo, 8 de julho de 2018

112.


Com a desfaçatez de certa mediocridade rapidamente me posso tornar um incendiário. A dar força e razão a quem não merece. Logo inverto a disciplina de não dar mérito à fotocópia. Pior: à fotocópia roubada à escondida. A reclamar o sagrado da elegia. 


quarta-feira, 4 de julho de 2018





A verdade é que eu tenho uma coluna desgraçada. E doem-me os joelhos, os ossos, as articulações. Sempre foram vinte anos em Vigo, a trabalhar num estaleiro naval. Isto dos 18 aos 38 anos.Vinte anos também é o tempo que cá estou e um sujeito acostuma-se. Pesca-se, planta-se, faço uns biscates de vez em quando. É que eu aqui sou válido, posso ser muito útil, manejo bem os metais, faço um excelente bate-chapa, arranjo carros, motos, bicicletas; torneiras e canalizações; estores, candeeiros... Também não o digo a quase ninguém, lá se ia o meu precioso sossego. Quando é possível também ganho algum aqui na casa. Tenho lá fora uma casita com dois quartos que alugo a escritores e eremitas. Isto quando alugo, já tive de mandar gente embora porque não os queria cá. Escritores e eremitas ao menos não fazem barulho, a não ser os primeiros com a máquina de escrever – se tiverem coragem de a trazer acima – o que não me apoquenta por aí além, até nos damos lindamente. Problemas são mesmo os estudantes, esses jurei para nunca mais. Da última, quer dizer, da primeira e única vez, eram uns estudantes escoceses e foi uma desgraça. Não dormi nada durante três dias e só não os mandei embora porque tive medo deles. Nunca mais. Mas feito o balanço de tudo o que sei e tudo o que vivi, sei que fiz bem em vir para aqui. Naquela fábrica eu ou dava em maluco ou ia parar a uma cadeira de rodas. Aqui ao menos vejo o mar, não corro o risco de passar fome, pelo menos enquanto um vulcão não me levar, se me levar, isto porque a terra lá abaixo é que decide, agora ou daqui a cem anos, também dizem que a ilha se pode afundar, enfim, dizer dizem muita coisa. Mas deixem que vos fale do meu cão, chama-se Vento. Vento porque o vi nascer num dia de grande ventania. O Vento é o meu melhor amigo de todos os tempos, sem dúvida alguma. Veio comigo de Vila Lontano, quando me fartei daquela gente.


sexta-feira, 29 de junho de 2018

Nocturno Alentejano




 


Tirado pelo telemóvel, boas luas cheias atrás, certamente em noite de lua nova.



quinta-feira, 28 de junho de 2018

Noites de Lua Cheia, noites de John Atkinson Grimshaw






Desde que vi o de cima* no Thyssen-Bornemisza de Madrid que as minhas noites de lua cheia passam a trazer à memória as luas cheias reproduzidas por John Atkinson Grimshaw. Tomamos-lhe os sons, lembramo-nos em noites, como a de hoje. Viagem que também se pode fazer de dia, como agora, à espera. 


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* - Canny Glasgow - a primeira vez foi uma meia hora sem tirar-lhe os olhos de cima, a segunda  lá me obriguei a contra-gosto a abandonar o quadro, enfim, para o senhor poder ver, ao fim de uns cinco minutos. Precisamos de tempo com tanto cinema, ouvimos esses sons quais fundos de mar perdidos no tempo de uma noite em Glasgow, talvez a sinfonia de uma dessas noites do pintor, sempre uma noite de todas as noites.

sábado, 23 de junho de 2018

segunda-feira, 18 de junho de 2018





Capa e paginação Rui A. Pereira, Letras Paralelas

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Círculo das Letras - Rua da Voz do Operário, 62

Biblos Clube de Lectores - Lugar Quinta, 8, 15391 Cesuras, A Coruña

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domingo, 17 de junho de 2018

O PESADELO DE WILLIAM BLAKE




¿Y a quién le importa decir la verdad cuando lo único que importa en el siglo XXI es que te crean? El gran triunfo de la máquina sobre nosotros no son las fake news, las mentiras que se multiplican hasta que se convierten en verdad, sino la docilidad con la que nos hemos adaptado a ellas. 

[Aqui.]

sexta-feira, 15 de junho de 2018

MUNDIAL



Comprado a uma livreira que estava lá quando Eduardo Galeano visitou Ourense. Diz que a livraria estava tão a abarrotar pelas costuras que só pelos relatos cálculo que possa ter vindo a cidade inteira. Daqui a umas horas vai ser a primeira vez que vejo um jogo campeonato do mundo fora do país, logo em Espanha, logo nesta Galiza que se juntou em uníssono a apoiar Portugal como se fosse a sua selecção no primeiro europeu que eu vi fora do país, logo em Paris, logo em França. Espero que Deus geometrize esta. Força Portugal! 

terça-feira, 12 de junho de 2018



Miguel de Unamuno






Lá o pseudónimo é que não se pode queixar da falta de luz para escrever. Ao menos ainda não me pediu um candeeiro e um aumento e um jantar para falar sobre (os e as) personagens. Da última vez pedia-me mais personagens femininas e eu tive de explicar, José Artur Miguel, ou lá como era, que esta não é uma história linear de mulher-amor-conflito-abismo- -desilusão-redenção, mas que é antes, sim: uma reflexão sobre o poder em Portugal com os seus lugares estanques e sobre a forma como uma vigaricezinha bem montada e internacionalizada tem tudo como dar certo, desde que os cordelinhos estejam bem atados. Então é desatar certos nós, já que é impossível levantar a viga de betão. Mas nunca foi feito nada assim, diz-me, e eu pergunto: «E então e os mob jornalists, o catenaccio da burocracia, o Luís de Freitas Lobo da Cosa Nostra em Filadélfia?». O problema é precisamente o catenaccio, responde-me ele, eu respondo «Vai mas é ver os filmes do Akira Kurosawa para saber se aquilo não é catenaccio. Mas como é que queres fazer um policial com tudo a jogar à defesa, diz ele, e eu: «Quem dera a muitos um detective como Giuseppe Bergomi».   Ele não fica lá muito convencido, mas eu insisto: «Se falhar estás despedido, amigo. Hoje.» O problema é que a dívida ninguém te a tira. Não sei o que fazer. O que pensar. O som nem John Coltrane, nem Dizzy Gillespie. Não há cantautor nenhum que agora me acalme as horas. Músicas de incêndio? Também não, já não ouço The Stooges, ataca o fígado. 

segunda-feira, 11 de junho de 2018

CONTROLO ANTI-DOPING




A insanidade é real, acha-se um Trump, sendo um teso cheio de dívidas, toma-se como um Abramovich, vivendo às custas do clube, vê-se como um imperador, não passando de um assalariado. Não tivesse feito um tão brilhante primeiro mandato, e há que ter um mínimo de gratidão e asseio nestas coisas*, e não teria problemas em reproduzir aqui o que me diz gente próxima... Mas há sempre um mas, há sempre um só que nos deixa sós. Donald Trump é presidente dos Estados Unidos e se duvidam quando dizemos que os bárbaros estão dentro das muralhas de Roma têm de conceder ao menos que vivemos em tempo de barbaridade(s), o que não vemos, ouvimos. A fasquia essa vai sendo ultrapassada como nos concursos de adolescência a ver quem é que mija mais longe. Ele há há coisas em que era capaz de ver o modelo a olhar de baixo para o aprendiz, como que a dizer "às vezes consegues ser melhor do que eu!!! Tu dás-me ideias, puto!!". Sim, Donald Trump há de ficar a gostar muito de Bruno de Carvalho. Almas gémeas sob o mesmo molde, dançando a zomba das fake news, crianças adultas a inventar (a puta da) realidade, decretando aqui-agora para o mundo que o poder não vai além do bebé. E siga para bingo que a seguir vem outro e outro. O que importa mesmo é não parar. Nunca parar. É essa a sina dos vencedores e tudo o resto é looser. 
Valham-nos os dias claros. Em dias claros, a nitidez do propósito consegue-se ver a milhas de distância. Dirá "se eu caio caem vocês também comigo, é isso mesmo que querem?" Explica tão bem o primeiro mandato, não explica? Se a própria vida é o Sporting, se toda a vida está feita no Sporting, se não há vida para lá do Sporting, se só se consegue ser alguma coisa no Sporting, se toda a ambição e ânsia de ego e protagonismo só consegue ser materializado no Sporting, se a única coisa a que resta mundo é o Sporting, se a única coisa que existe no planeta Terra é o Sporting... O Sporting e Bruno de Carvalho, não nos enganemos, não nos enganemos sob pena de levarmos com um processo em tribunal: Bruno de Carvalho é o Sporting, acabou, já não nos podemos mais deixar-nos admirar, muito menos embevecer com os jogadores, treinadores e demais atletas, não vá o Sporting, perdão, Bruno de Carvalho morrer de ciúmes. É imperativo que o protagonismo tem de ir para a figura maior do clube, tão grande como os maiores da Europa, temos de ir a Alvalade para ver Bruno de Carvalho, só podemos ir a Alvalade para ver Bruno de Carvalho, se ganhamos a figura é Bruno de Carvalho, se perdemos quem tem toda a razão é Bruno de Carvalho. Se protestamos é porque não  nem sequer somos sportinguistas, não passamos de uns sportingados, é porque não percebemos que o problema vem do Benfica, que estamos a ser instrumentalizados, a tomar a parte do croquete. Rui Patrício, Manuel Fernandes, José Eduardo, Daniel Sampaio, Octávio Machado, Dias Ferreira, Sousa Cintra, Poiares Maduro, Daniel Oliveira, toda essa cambada, todo esse Sporting que se acha Sporting é aliás uma cambada, todo esse Sporting que não quer ver que o verdadeiro Sporting é só um: o Sporting Clube de Bruno de Carvalho. Sejam sérios. Não aconteceu nada. É tudo invenção da imprensa, os espancamentos em Alcochete nunca aconteceram, é tudo do Correio da Manhã. Eu fui a Madrid e à Madeira acompanhar a equipa, eu nunca escrevi comentários inapropriados no facebook a pôr em causa o brio dos jogadores, eu nunca os ameacei com sms, Fernando Mendes da Juve Leo nunca disse ao Acuña "vemo-nos em Alcochete na Terça", eu nunca passei o treino de quarta-feira para terça, eu nunca faltei a uma reunião com os jogadores a esse dia e a essa hora, os encapuçados sabiam onde era o balneário porque no dia anterior foram a uma bruxa na Damaia que lhes explicou tudo tintim por tintim, o BMW azul era um OVNIaproveitaram-se de mim, eu estava em estado de choque quando depois do que aconteceu disse que é chato e que o crime faz parte do dia-a-dia, eu também podia ter estado lá, podia estar morto!!!!! Podia ter sido comigo, não sabem disso? E não fui eu que me aproveitei de tudo para engolir de vez todo o poder. Expulso-te de sócio se dizes o contrário, ou passo a nomear sócios ao calhas se algum membro da minha Direção achar que eu não sou o Sporting Clube de Portugal. Não que eu tenha de obedecer a tribunais. Porque, repito, é tudo mentira do Correio da Manhã, mais: é tudo ressabiamento de Sportingados.


* - reabilitou modalidades como o hóquei, o vólei, entre outras, construiu um pavilhão, fez um canal de televisão - hoje central de propaganda de meter inveja a uma Telesur -, saneou financeiramente o clube, que voltou a dar lucro, que voltou a ser lutar por competições, a ser vitorioso, líder das modalidades. 

domingo, 10 de junho de 2018




Ronda, 2018



111.



Prontinhos a cavar dali para fora ao primeiro sinal de Guardia Civil. Escravos na Gran Via. Enredados. Atascados.




Estávamos nos ilustrados anos 80. Os tempos da Guerra Fria, de Ronald Reagan, Leonid Brejnev, Mitterrand, Margaret Thatcher, República Democrática Alemã e Guerra Irão-Iraque. Claro que não ligávamos a isso. A não ser que nos batessem à porta os filmes do Rambo e o Rocky IV, ou então através do som ou do som-imagem dos videoclipes de Sting, dos Genesis, ou do Elton John.A isso ligávamos, afinando o gosto ainda pouco formado, ou não, com os hits de Madonna, George Michael, Michael Jackson, Tina Turner, Hall & Oates, Nick Kershaw, Level 42, Elton John, Spandau Ballet, Europe, Starship, Stevie Wonder, Heróis do Mar, Sandra, Carlos Paião, António Variações, Bruce Springsteen, Duran Duran, Mr. Mister, uma salganhada. Coisas boas com coisas não tão boas, coisas razoáveis com coisas terríveis. No cinema era a mesma coisa: Silverado com o Regresso ao Futuro, Academia de Polícia com a Última Tentação de Cristo, Footloose com O Último Imperador. Na televisão ia o Tal Canal com a Vila Faia, Hitchcock Apresenta com Sabadabadu. Depois havia sempre a companhia de Júlio Isidro, havia os Jogos Sem Fronteiras. Corria Fernando Mamede contra Carlos Lopes. Havia Joel Branco, Ana Zanatti, Eládio Clímaco. Quando já tinha passado o Espaço 1999 havia O Justiceiro. As telenovelas brasileiras faziam história com O Bem Amado ou Roque Santeiro. Também nunca nos esqueceremos dos desenhos animados com os Amigos do Gaspar, O Carteiro, o Era Uma Vez o Espaço, o Dartacão, ou A Volta ao Mundo em 80 Dias. Líamos Os Cinco e Uma Aventura.Jogávamos computador no ZX Spectrum. A fazer moda havia os ioiôs Coca-Cola e Sprite, o cubo mágico, as bombocas, o Trinaranjus, o leite acho-colatado da Toddy. Tínhamos Vasco Granja. Tínhamos o Liverpool e a Juventus. Tínhamos Diego Armando Maradona a mostrar como era e como estava acima de tudo e de todos. Enfim, do pouco que havia, havia de tudo. Muita água ainda tinha de passar pela ponte até chegarmos ao Bush pai. O Sporting ainda estava na segunda época das 18 que penaria até voltar a ganhar um campeonato.


sábado, 9 de junho de 2018



Depois de uma leitura de Luiz Pacheco (Exercícios de Estilo) do melhor da literatura portuguesa do século XX, a espaços, entre poças (tantas poças), gente esfomeada, pobre gente, pobre miséria de gente. Escrever português, literatura dura, pura, de essência: aberturas revolucionárias, arte & estilo, estratégia ataque-ataque, tiradas marciais,sublimadas carpintarias. Chef literário de primeira, hotelaria de rua, restauração da sarjeta. No silêncio das estantes, beber um copo, esquecer. Alfarrabistas fizeram disso um dinheirão. Fazem. É essa a imortalidade literária? Junte-se as dezenas de escritores voga directa ao esquecimento proporcional à fama do momento, temperem-nos com uns poucos, mas bons poucos de bons, depois aumentem-lhes o lume, inflamem bem, inflamem, que é para nos despacharmos no firmamento dos anos para as décadas das décadas dos séculos, tem de ser rápido quanto mais não seja temos ainda os séculos dentro dos séculos. E esta panela é só um país: Portugal. Portugal Continental e ilhas. Imaginem então um continente inteiro. Modelem-no como a América do Sul. Podem jogar panelas com a França, o Reino Unido, a Alemanha, Itália... Olhem para os Estados Unidos, o México. Deixem de parte África, a Índia, o Japão, a Austrália, a China... 

sexta-feira, 8 de junho de 2018





Ar para respirar, apenas nas pequenas réstias de branco de folha não preenchida – qual parque natural cheio de verde e lagos e cantares de pássaros, depois de uma fábrica de celulose. Eram réstias que José via e não resistia a preencher, sempre era mais uma oportunidade de poder reciclar mais alguma tanta furibunda energia. Fosse ele um Pessoa ou um Kafka, ninguém o decifraria escrito. Morto estivesse, morta estaria toda uma literatura. Um escritor assim morto encerraria, para a eternidade, a chave do seu enigma, e os enigmas do túmulo não passam disso mesmo, ou melhor, dali mesmo, do túmulo, do que se alimentam as bactérias. De resto, tumulares também eram todas as folhas de todos os seus cadernos de hieróglifos ilustrados – gatafunhos que até poderiam ter em si os mais graciosos e belos sonetos de um trovador lírico, que a melhor imagem que dali adviria andaria mais próxima da impressão poluída de um qualquer tubo de escape da pior Hong Kong onde se consiga estar...



Charles Bukowski 


VIA AEROPORTO DE SANTS






Acordar pela rua ultra-pacífica. Bairro gótico de manhã é a coisa mais pacífica. As Ramblas mantém a temperatura. O forno ainda não começou a aquecer. Entrada no Metro, duas estações, Praça da Catalunha. Já está ali um grupo de estudantes. Pede ajuda. Seguem-nos até ao autocarro. Na Plaza de Espanya um galego entope o tempo à entrada do autocarro também entupida. Está stressado, imaginamos que seja um dos muitos que vem da Galiza a Barcelona ou Valência para se meter num barco para ir trabalhar no Mediterrâneo ou norte de África. Entretanto vá-lá, prosseguimos. O trânsito é nulo, a cidade da cor de uma cerveja clara. Ou pelo menos assim escrevo eu agora, esta memória remota e tão recente. Posso dar-me ao luxo de se anacrónico, posso dar-me ao luxo de dizer que não é para todos. Hamburguer, vontades de aeroporto, vontades de hamburguer. Burguer King a dez euros, o que nem pensar: nem Burguer King, nem um euro. Tudo à vista da mesma pista onde antes dois aviões da Norwegian Airlines entre outros dispunham Knut Hamsun como se fosse um duelo do oeste, cada avião o seu escritor, nos aeroportos da Europa, uma lowcost que se sabe vender. Imaginem um TAP Camilo Castelo Branco, em frente a outro avião Eça de Queiroz, imaginem José Cardoso Pires defronte a Agustina Bessa Luís, ou Alexandre O'Neill e Sophia, que glória, que orgulho pungente nos dariam os aviões da TAP, chegar ao aeroporto e ver um avião Jorge de Sena ao lado de um outro de Ruy Belo. Para fim de conversa fica a descida do avião por Pontevedra para logo aterrar em Vigo, um portento pelas rias, pelas ilhas, pelos azuis do mar. Chegar a uma pista inteira só com um avião e uma avioneta. Como se redescobrisse o oxigénio.