sábado, 3 de março de 2018

105.


Culturismo Literárioespécie de saber de oficina feito que serve apenas para mostrar músculo. Capaz de transformar o mais absoluto virtuosismo e saber filosofico-literário em vácuo. Costuma ser portador de currículos e é sumamente utilizado como farda de almirante. Há quem lhe gabe as qualidades afrodisíacas. 
O Século XX costuma ser seu habitat de pastorícia, seus praticantes também costumam, por desfastio, ir dar uma volta à Grécia antiga.... Seus detractores acusam-nos do paradoxo do niilismo de banquete.  Mundialmente expandido e com muita pujança em Portugal - só o ano passado, por exemplo, Portugal ficou em 3º lugar no WLC - o Culturismo Literário tem até uma igreja própria, tal singularidade põe muitos a pensar em paralelos com a argentina Igreja Maradoniana, nada tem que ver uma coisa com a outra, pois se para a Igreja Maradoniana, Diego Armando Maradona é Deus, já para o Culturismo Literário a divina ideia é que já foi tudo escrito. 

sexta-feira, 2 de março de 2018

A Escolha do Jorge

Ao ler o conto de abertura, tive uma vaga sensação de ter regressado às ilhas, como se ali, no decurso da narrativa, constassem episódios que me eram de certa forma familiares dado, talvez, a exiguidade e a geografia das ilhas que promove um certo modo de vida que lhe é específico e, não raras vezes, estranho a quem é de fora, além do carácter insólito de algumas das histórias apresentadas.A conquista foi imediata para a restante leitura da obra. Os dados estavam lançados sendo raro acontecer uma primeira obra de ficção prender a minha atenção, tanto pela qualidade da escrita, como pela originalidade das histórias trazidas a conto.Lisboa é o centro nevrálgico da grande maioria dos contos. Os personagens vivem e deambulam na cintura urbana da cidade com todos os tiques que habitualmente reconhecemos naquilo que nos é próprio, característico, não esquecendo todos os aspectos da vida quotidiana em permanente mutação.

Jorge Navarro, aqui

104.

Tempos curiosos estes em que o coberto tanto se torna descoberto, e é tão descoberto, o coberto. 
Coberto no que as pessoas dizem que são. Descoberto na forma como realmente actuam...

Estou a ver tudo de Espanha, detrás das montanhas, 72 quilómetros de Chaves - tudo exposto, pensamos, mas hás de saltar mais alto que toda essa lava feita em merda. Ou talvez não. 
Gráficas omissões contra a parede - salta! Apenas te projectam contra a parede -  salta! 

Acabei de ver um filme que de todo desconhecem. É a quinta vez que o vejo. Então as sombras já não contam para nada. Ou por exemplo a educação ou a falta dela nos personagens, e muito menos aquilo que realmente sabem.

Até há teses gráficas do silêncio. Segredam até dentro das almofadas. 

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

PRAIA LONTANO - prefácio de Elisa Costa Pinto


Os quinze contos reunidos neste volume apresentam uma assumida diversidade temática e estilística, verificável desde o inaugural “Praia Lontano”, até ao último, “Manhã Piscina Caixa Gravação”. No entanto, fios invisíveis se insinuam, numa rede de relações várias que, adiante, tentaremos desocultar. Quero com isto dizer que, atrás da diversidade, se ergue uma voz narrativa reconhecível e singular, que pode escapar ao leitor menos atento.
É sabido que o conto é um género exigente, que requer uma mestria literária de difícil domínio, pois habita aquela zona exígua do cruzamento da contenção da poesia com a peripécia narrativa. Ora, nesta colectânea, Pedro Góis Nogueira revela, em vários contos, essa mestria.
Caminhemos, pois, pela manta que é sempre uma colectânea e assinalemos as linhas de afinidade dos seus quadrados, já que as de diversidade são muitas e não será objectivo desta breve apresentação retirar ao leitor o prazer do desconhecido. Sinalizo como primeiro traço aglutinador da maioria dos contos a presença de um narrador na 1.ª pessoa, masculino, protagonista quase sempre de um olhar sobre si mesmo. Apenas cinco contos escapam a esta escolha que, longe de ser aleatória, obedece a um critério de adequação narrativa: enquanto a primeira pessoa é a voz que se pensa, analisa, recorda e, frequentemente, procura um autoconhecimento, a salvação ou a aniquilação, a terceira pessoa é o observador, não raras vezes irónico, de cenas do quotidiano urbano ou de percursos alheios, que situam a narrativa num tempo e num espaço reconhecível, crítico ou risível.
As personagens dos cinco contos referidos são gente comum, ou nem tanto, habitantes esfumados de uma cidade que atravessam sem deixarem grande marca mas, ainda assim, detentores de uma especificidade que lhes garante a atenção do narrador: o informador da Judiciária, em “Tu cá, tu lá”, o instável candidato a escritor, em “O Caderno”, os namorados desavindos, de “Dinossauro Júnior”, o sapateiro e a menina, no conto com este nome, o praticante de Jujitsu e o seu Mestre, em “”Sou Daqui”. É claro que a estas, poderíamos juntar outras figuras de outros contos: o vigarista atormentado, de “Aurora”, as duas jovens agarradas pela internet, em “Lá (em baixo)”, a astróloga espertalhona, de “Astrologia comestível”.

Nestes contos, a ironia, a sátira e até o nonsense assentam que nem uma luva, na combinação com divertidos e inesperados jogos de palavras e alguns diálogos muito bem conseguidos.
Creio, no entanto, que é sobretudo em alguns contos na primeira pessoa que o autor se aventura por caminhos mais ousados e experimentais, revelando o pleno da sua oficina de escrita (tema, aliás implícito ou explícito em vários contos).

Pela sua singularidade e significação, proponho um olhar particular sobre “Praia Lontano”, o primeiro conto, cujo nome se alargará a todos os outros, já que é o título do livro. Nesta narrativa inicial, parece-me residir aquilo que de essencial os contos de Pedro Góis Nogueira transportam. Numa pequena ilha vulcânica, hipoteticamente descoberta por um companheiro de Colombo, um antigo operário galego refugia-se na procura apaziguadora da Natureza pura, da solidão e de um tempo parado, sem sobressaltos. A este propósito, adverte-nos logo na primeira página “O tempo é relativo, poderão dizer. Direi que não, que o tempo aqui é um absoluto, mais um absoluto, nunca abrevia, apenas condensa”. Ora, o tempo condensado é o tempo do conto, que fixa um instante da vida, como uma fotografia. Pode até o narrador conceder-nos a sugestão do passado ou a previsão do futuro, mas é do tempo condensado que o conto se alimenta.
Tempo, solidão, autoconhecimento, mistério e poder da escrita são as grandes linhas temáticas deste conto e, afinal, deste livro. É por isso que “Praia Lontano” se me afigura portador da chave interpretativa da busca das personae do seu autor. Desde logo o nome – Lontano – lugar imáginário onde o Sul latino ecoa, e também a distância atlântica, a mesma das ilhas demandadas por tantos escritores, desde que Thomas More criou a sua 'Utopia', Camões a Ilha dos Amores, Humberto Eco, 'A Ilha do Dia Antes', Pessoa “As Ilhas afortunadas” (e fico por aqui, já que a lista seria interminável). A Ilha é sempre um lugar simbólico, de excepção, mas também de totalidade, de isolamento, mas de encontro, de terra firme e de sonho.

Ora, o protagonista de “Praia Lontano”, como os outros habitantes, apenas teme o vulcão ou a submersão, porque na mais tranquila ilha uma erupção pode mudar o curso dos acontecimentos.
E é, precisamente, o que acontece a outros protagonistas, de outros contos, perdidos numa qualquer busca de si mesmos, que se encontram – ou não – através do sobressalto do amor, das armadilhas da memória, da autodisciplina nem sempre disciplinável, do caos ou da escrita. A ilha é, enfim, a metáfora da vida de cada um, da vida vivida ou recordada com desfocagens surrealizantes (o conto “Miragem”) ou ternamente divertidas (o conto “Três Martinis no Mostruário”).

É claro que a diversidade destes contos obriga a deixar de fora muitos aspectos interessantes, mas não queria deixar de seguir a linha que nos conduz pelos caminhos da Literatura, constituída como tema de si mesma. É curioso verificar que em quase metade dos contos – sete – este tema emerge sob diferentes capas. Se em “Praia Lontano”, o mistério da ilha é revelado num livro escrito por um visitante de passagem, em “O caderno”, a escrita parece auto-comandar o indeciso escritor, que sente a imposição das palavras “umas atrás das outras, activas caldeiras vulcânicas explodidas pelos dedos, levadas de cardumes”. Se em “Dinossauro júnior”, a incomunicação do par resulta do mergulho do namorado no livro de Stephen King, enquanto a namorada desespera, em “Três Martinis no mostruário”, os livros de Amin Malouf constituem-se como elos de uma comunicação improvável e, em “Astrologia comestível”, o protagonista confessa “(...) este texto, testemunho da grande transformação que em mim se apoderou. Escrevo-o para entender melhor, sobretudo para descobrir, pela escrita - que nos faz descobrir e poder ver além, para além de nós”. Pelo meio, o eco de Álvaro de Campos e de Ginsberg em “Lobo à Colina para Alcântara” e a enumeração torrencial de nomes de escritores (influência?) no enigmático “Ela Que Vela”.
Mas é, talvez, o conto que encerra o livro aquele que vai mais longe na reflexão sobre a escrita. A propósito de 'Exercícios de Estilo', de Luiz Pacheco, o narrador (o autor?) escancara a sua experimental oficina de escrita, ao mesmo tempo que grita, sarcástico e a plenos pulmões, um manifesto à Literatura que se cozinha e que se vende, declarando - “Agradeço ao livro que eu trazia na mochila. Agradeço a este bloco de notas. Agradeço à piscina. Escrevo numa piscina, conseguem ler?” (eu acho que consigo…). 

E, enfim, termina: “Acabo. É tempo de guardar a caixa gravadora (a) escrita. De dar outro mergulho (take 3). De carregar no STOP”.


Elisa Costa Pinto

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

PRAIA LONTANO EM LISBOA - LANÇAMENTO


     

Já em casa em terras galegas quero muito agradecer a quem marcou presença e encheu a sala e me fez ficar tão contente com a minha primeira apresentação de um livro.
Um agradecimento muito especial à Elisa Costa Pinto que, com uma extraordinária apresentação, nos encheu a todos as medidas. Mais uma vez voltei a ter a grande sorte e o privilégio de poder contar com toda a sua inteligência, classe e saber. Já para não falar desse seu sexto sentido literário de grande leitora que é, e tanto nos ensina como desconcerta. Há muito da Elisa em Praia Lontano, e já vamos muito além do prefácio.

Também devo sublinhar a superior interpretação do lobo na leitura de Lobo à Colina para Alcântara pelo actor Nuno Góis - que ainda leu alguns poemas do Estrada dos Prazeres. Foi ao mesmo tempo estranho e desconcertante perceber como aquele lobo já não é meu, e que provavelmente o Nuno (já) sabe muito mais do lobo do que eu. Foi uma leitura e tanto, essa é que é essa. E é impossível não ter havido alguém que não lhe tenha sentido o toque o impacto. Uivemos a isso!
Há que destacar todo o trabalho do Rui A. Pereira, companheiro de armas e de guerrilla (salvo seja). De decisiva importância.Tanto em termos de labor como artisticamente. Esta é a minha segunda obra e é a segunda vez que tenho o Rui do meu lado. Para terem bem a ideia - ou, vá-lá, uma certa ideia - de todo aquele extraordinário talento, convido-os a irem à Rua Voz do Operário nº 62 para verem a magnífica exposição - Peles Vermelhas é o nome da série. Também sabemos que a coisa não acaba aqui...
Para finalizar quero estender os agradecimentos à editora Campo das Letras / letras papalelas, e à livraria Círculo das Letras, que além de servir de abrigo e ponto de venda das nossas obras, nos concedeu um extraordinário espaço para a apresentação do livro. Não poderia pedir mais.




 







quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

103.


[Mesquita-Catedral, Córdova, 2018]

Não fosse Sevilha e Granada a servirem de filtro e Córdova como existe já não existia. Ali, como em nenhum outro lugar, nem mesmo Granada, se sente o Al Andalus como presente dos tempos. Tem ruas e recantos onde tudo se mantém intacto, onde se fizermos acertos é como se uma civilização inteira tivesse ido dali embora a semana passada. É como um carimbo que nos marca ainda (um) fresco de um apogeu. Muito mais urgente e importante desde que o fanatismo destruiu Palmira, ou Aleppo. Depois de todas as mesquitas que se fizeram igrejas ou catedrais como a de Sevilha. Ou catedrais que se fizeram mesquitas como as de Istambul. Tal como refere o excelente Luis Récio Mateo, lendário guia da Mesquita-Catedral: "Córdoba es la continuación de Damasco". Quem somos nós para o negar. Ou como contradizê-lo quando diz que é aquele o último bastião da paz e coabitação entre as duas mais conflituosas religiões da Terra. Verdade é que Córdoba é um centro de generosidade que grava intacta sua memória, que mostra orgulhosa seu admirável instinto de conservação, capaz de um contínuo cuidado com suas mais fundas raízes. Só mesmo Córdova na mediterrânea Europa para encontramos esse fascínio que encontrou o Islão em Bizâncio sem neutralizar o românico esplendor. Viramos o disco ao contrário, sabendo que fellahmenghu quer dizer um poeta a cantar e a verdade é que os tablaos não pararam de crescer. Continuem pois os Estados Unidos a fazer filas de três horas para o Alhambra. É da maneira que podemos entrar pela Mesquita-Catedral quando nos der na gana. Pelo menos até que venha o papa.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

102.


Há esse Estádio na Pedreira de Braga, arquitectado por Souto Moura
Pressente no futuro além da cidade 
Dirige-se de um passado cantábrico
Podemos ver bem detrás desse fotograma
Um corpo habita sua mecânica
A cada milímetro, milénio 
assalta a grama. 
Pode ir de Vertov a Brésson 
Philip K. Dick
Rima a Edgar Pêra
No que entretanto é Covadonga. 

101.



Estádio Municipal de Braga (ou Estádio AXA, se quiserem), 2017





Capa, ilustração e paginação Rui A. Pereira, Letras Paralelas

Nas livrarias:  

Círculo das Letras - Rua da Voz do Operário, 62

Biblos Clube de Lectores - Lugar Quinta, 8, 15391 Cesuras, A Coruña

Encomendas para gn.pedro@gmail.com


101.



SAUDADES DE LISBOA

1.
Saudades tantas saudades pujantes
Faria já mais de 500 quilómetros
Só para ver Lisboa
Amanhecer

2.
Mas não é a ti que vou atender
Não, quando estou em Lisboa 
Não quero o meu tempo patrulhado pela minha ausência 
Preciso travar contas com a cidade

3.
Eu naquela dor aquela casa
Era toda esta amargura que sinto agora
Era o sofrer que já sofria
O futuro a pairar a ver-me 
Perder em negrura

4.
É por isso que as saudades remetem a outra zona da cidade
Trazem-me o rio e as ruas que sobem 
Montanhosa ribeirinhas
Como só Lisboa sabe ser

6.
Era o que era: destruir sempre
Para sempre poder começar de novo

7.
Mas quando tu me tocas eu sinto o sentido inteiro que é 
Agora

100.

1.
Japanese Breakfast não resulta no carro. Lloyd Cole sim. Lloyd Cole resulta mais que nunca. Dança pelas curvas a levitar o carro em velocidade pelas altitudes de uma tarde de Sol no Inverno bem entrado na Galiza na direcção de Ourense. De resto é o corte. Não saber bem puxar o carro para trás e deixar um ligeiro (íssimo) arranhão na lateral de outro carro. Que desastre! Vale a generosidade do atingido. Um velho senhor galego de olhos compassivos. Deus o abençoe. Não me senti seguro. Nunca me sinto seguro, aliás. Paguei a mensalidade da dívida à Segurança Social. Li o jornal "A Bola". Escrevi para um portal desportivo a crónica (que não é crónica nenhuma) da final da Taça da Liga de ontem. De bola mais tarde vi os últimos dez minutos de um Getafe a satisfazer-me a ânsia de justiça divina pelo que o Sevilla fez a Berizzo. Mas o que sei eu sobre isso? O que sei, claro está, toca num dos meus valores mais caros. E o que não sei não interessa tanto como o que sei. Claro que houve justiça divína, o Betis foi ao Sanchez Pizjuan espetar cinco contra três, bela Getafada. 

2.
Ir a Portugal só para ir ao Pingo Doce. Poderia explicar. Mas dar-me ia um texto muito chato de escrever. De óbvio. De prosaico. Não tenho a culpa que Portugal e Espanha se ignorem olímpicamente. 

3.
Onde é que se encontra hoje grandeza em Portugal? Tenho umas ideias. Ou talvez nem sejam bem ideias. Ou talvez até sejam, não sei. Verdade é que não concluem nada. E só o ter de andar à procura de uma resposta... que encontrei. Claro que encontrei. Dei com dois tipos de grandeza. Uma de tipo heróico; outra de tipo óbvio. 

4.
Quase sinto vergonha de não termos um escritor da estatura de um Javier Marias. E nem nos vamos abismar pelas leituras adentro... 

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

99.



NOTAS A PARTIR DE 82 RETRATOS DE DAVID HOCKNEY


A luz de Los Angeles de frente para. A ponta do pincel. Cada 
Toque particular apanhado à primeira 
Diz sempre a luz amiga
E as cores alegres
Claro que o auricular da exposição se limita ao jornalismo
Generaliza o bem, explica como se fosse tudo
Sem dizer nada sobre o que realmente é
Como em cor Kockney respira
A afinidade ou esse preciso onde nasce a cor afecto 
Ao esplêndido o momento azul solarizado
Eléctrico onde não há como nos queimarmos
Ou como se capta a luz do negativo preciso 
Pelo espontâneo do nó mesmo desprendido 
Da leveza com que se recebe
Para nos podermos cristalizar nesse grande afago: o abraço à mistura.


segunda-feira, 15 de janeiro de 2018




Começou no Museu Guggenheim, acabou no Café Bilbau, à Praça Maior; ainda passei na Praça Miguel de Unamuno, e uma ou outra rua do Casco Viejo mas o tempo e o tempo não deram para mais. David Hockney, sobretudo David Hockney, mas também Robert Rauschenberg, Damián Ortega, Anselm Kiefer, Richard Long ou Richard Serra ao magnífico encontro do Guggenheim não deram espaço. Tivesse seguido minha intuição, aproveitando o sol a abençoar a manhã, enfim, guardava para o dia seguinte e toda aquela chuveirada incessante. Agora sinto-me obrigado a regressar. À cidade que tão bem explica como se consegue juntar Espanha à mítica Euskal Herria, o que nem os romanos conseguiram. Diz que também tem menos fantasmas que grande parte do resto de Euskadi. Por mim falo, vi uns quantos a 23 quilómetros, em Amorebieta, não dei por nenhum em Bilbau. 


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

98.


1 - As raízes da civilização seguram-nos, asseguram-nos.

2 - Podemos escrever além. Brindemos à nossa!

3 - A tragédia faz parte da equação da vida. Melhor viver com ela. Antes que tome parte de ti próprio. A equação, a não vida. 

4 - Se as tuas palavras são espadas, então escreve como espadas. Dirige-te ao mestre de esgrima, teu futuro. 



Foz, Porto, 2017

97.


CATALUNHA CIRCO

Acordo com a Catalunha a tocar, acordo
A Catalunha está sempre a tocar
Nas televisões, remetidas, presumíveis informativos
À altura, o acontecimento
Rematando, entretendo
É o mais duro político
O entretenimento
Remata, remata, e arremata
Vai fora, até da própria pele
Tanto dicionário didáctico, tanto esclareço tudo
Tudo a cingir, ao erro crasso

A Catalunha não toca em nada

A prova é que mergulhei na piscina ninguém
A hidro-massagem depois
Génese romano-aristocrata
E a Catalunha, enfim...
Os francos estão à porta do hotel




Ourense, 2017

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Zé Pedro




Sempre o vi em grande. Dos tempos do Johnny Guitar aos concertos com os Xutos. A pôr música, a tocá-la. Em Lisboa. Na Zambujeira do Mar. Em Odemira, num magnífico 25 de Abril, sempre nos máximos, sempre generoso, homem da dádiva do rock'n'roll. Bom astral a emanar sempre que o vi por aí. Uma delas a comprar discos quando havia ainda discos no Amoreiras. Quem falava dele só dizia maravilhas. As mesmas que se ouvem agora e tudo bate certo. Todos queriam conhecê-lo. Não o conheci pessoalmente, conheci-o pelas cassetes do meu irmão, eterno fã dos Xutos.
Também me lembro dos programas de rádio com o Henrique Amaro. Depois outros, pelos tempos afora. Vias da descoberta do bom velho rock'n'roll. Bandas que descobri por ele. Sempre a dar o novo, sempre renovado, sempre a dar esperança. Sempre a espalhar as boas ondas. Até mesmo neste último combate com a doença, dava-nos a certeza que se safava. A gente acreditava. Belas entrevistas também as deu. Era um homem que viveu. Viveu e fez os outros viver. Em alta. Encarnando o melhor espírito do rock'n'roll. E como todos os rockers que se prezem morreu jovem. Jovem no sentido em que Iggy Pop morrerá jovem. Jovem como tudo o que nos sobrevive. Não morrer de velho é a verdadeira lição. E podermos olhar o ser humano como uma homenagem. Como algo que verdadeiramente valeu a pena. Obrigado, Zé Pedro!

sábado, 25 de novembro de 2017






- Há livros que são injustamente esquecidos; nenhum é injustamente lembrado.

- A mão busca constantemente um pretexto para deter-se.

- Muitos escritores sofrem de vez em quando de ataques de falsidade, tal como outros sofrem períodos de insónia. O remédio em ambos os casos é bastante simples: se não se consegue dormir, há que mudar a dieta; se não se consegue escrever, há que mudar as companhias.

- Alguns escritores confundem autenticidade, ao qual devem sempre aspirar, com originalidade, da qual ninguém se deveria preocupar.

- Pouco talento basta para enxergar o que está mesmo em frente ao nosso nariz, mas é preciso muito para saber em que direcção apontá-lo.

- O poeta não deve apenas cortejar sua musa, senão também a sua dama: a filologia.

- A impossibilidade de definir a relação, junto à impossibilidade de negá-la, constitui a essência dos versos.

- É algo frívola a ideia de ler apenas os grandes poemas. As obras-primas devem guardar-se para as festividades mais importantes do espírito.

- Nunca se saberá do que se é capaz de escrever se não se tem uma ideia geral do que é preciso escrever.

- O poema é um rito: daí seu carácter formal e ritual. O uso que se faz da linguagem é deliberado e ostensivamente diferente da fala comum. Incluindo quando se empregam a entoação e o ritmo da conversação, faz-se com uma informalidade deliberada, propondo a norma com a qual se pretende produzir um contraste.

- Se há poucos artistas "comprometidos", é porque seu modo de vida não os compromete: para bem ou para mal, não pertencem de todo à cidade.

- O ideal da civilização é a integração num todo do maior número possível de actividades distintas com a menor tensão possível entre elas.

- Se uma civilização se joga segundo o duplo padrão do grau de diversidade obtido com o grau de unidade conservado, dificilmente resulta exagerado afirmar que os atenienses do século V a.C. foram as pessoas mais civilizadas que alguma vez existiram.

- A fonte da poesia há de buscar-se, como afirmou Yeats, «na quinquilharia suja do coração».

- Na maioria das manifestações de patriotismo é impossível distinguir uma das maiores virtudes - o amor à pátria -, do pior dos vícios humanos: o egoísmo colectivo.


sexta-feira, 24 de novembro de 2017




96.

Mastigar pode ser uma meditação
Mastigar enquanto se processam coisas
Pensadas em desagravo
Ao sabor da iguaria
Frita mastiga pensa
É um cavalgar na tardinha
É o lá mais tarde fora 
É um silêncio apenas
Pelo som do elevador ao lado 
Daqui a nada

95.


Comboio. Cais do Sodré. Sandes de queijo e presunto. A brasileira e os turistas. O táxi. Aquele restaurante do choco frito. A Voz do Operário. Meus livros na montra. A sensação nenhuma. Passem bem tchauzinho. A primeira vez que pisei o chão da Penha de França. E quando nasci estava mais perto. O mercado cheio de Arroios. O preço já a cobrar o futuro. Se te preocupardes, não fruirdes, diz ela. Não explodir, não cristalizar. E não se fala mais nisso.

sábado, 11 de novembro de 2017

Estrada dos Prazeres



Capa, ilustração e paginação Rui A. Pereira
letras paralelas
(159 pp, tiragem de 300 exemplares)
À venda na livraria Círculo das Letras - Rua da Voz do Operário, 62




Andaluzia, 2017 

domingo, 5 de novembro de 2017

94.


- Viver no estrangeiro, conseguir encaixar peças, sumamente respirar, poder respirar dá-me o poder de respirar. 

- O que há em escrever é seguir escrevendo.

 - Pessoas que acham que o seu ódiozinho a Espanha é salvo-conduto para a mal encarada intelectual desonestidade, para (o) poder (de) desperceber, para o grunhir à vontadinha.... 

 - Lido algures: "The reason wisdom is better than knowledge is because that no one can take it from you."

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Um avião passa ao longe
A 160 km daqui
Vai chegar
Onde aterrou ontem
Penso que só há uma maneira
De tu poderes descer aqui 
E para o provar a mim próprio 
Tiro mais um café da máquina

quinta-feira, 2 de novembro de 2017





Sines, 2017


93.


POR UMA VARANDA DESTE HEMISFÉRIO VEJO O PRINCÍPIO DE TODAS AS ESTRADAS


A folha é um oráculo, escrever é consultar o oráculo. O oráculo pode ser a água que nos transporta até ao cume da montanha. A escrita leva-nos, leva-nos sempre, nem que maremotos. A escrita é a passagem (pelo) impossível para o outro lado, impossível pelo impossível arrastado. Só mesmo a escrita nos pode navegar do seco deserto ao cume da montanha. Só mesmo a escrita subverte as leis da gravidade. A gravidade congrega, a água navega, a escrita congrega-navega. O leitor é a prova à prova dessa realidade a constante: o leitor navega-congrega.

A folha é a matemática, escrever a equação de um buraco negro antes estrela de neutrões onde começámos esmagados como Raskólnikov de encontro a uma parede. Tudo a posteriori. A posteriori do que não sabemos. A priori temos um barco, a folha, temos o deserto, areia, temos água, temos montanha. Temos mundo avessos, contrários. Escreveremos a longínqua matéria negra; nenhures a anti-matéria… Escreveremos tudo o que sabemos (do) que (não) sabemos. Do céu estrelado, milhões de estradas, estradas até lendas, a rumar ao remoto - e em cada estrada um milhão de estradas, e em cada estrada de um milhão de estradas outro milhão de estradas - o infinito em contra nada, a anti-luz emaranhada. 

Toda a jornada acabará no terminal de chegada o terminal de partida. Dali só dali se iniciaram todas as viagens, é para lá que se dirige toda a viagem. No princípio de todas as estradas o fim de todas as estradas. O início o fim das estrelas a luz toda a luz de onde se vê o caminho para as estradas - não fossem as estrelas as próprias estradas.

Somos nós próprios a iluminamos a própria Via, Láctea folha. A quem dirá que o tempo não se existe responderemos que o tempo desta mão não é o mesmo dos olhos que a vêm. Diremos tudo é estrada, tudo é estrada, tudo é estrada. Que só o presente condensa. Que só o presente aqui-agora é o arquitecto de todos os tempos. Que só o presente acha todo o tempo ao mesmo tempo. Que só o presente dispara memórias a todos os tempos a todos os espaços. De olhos fechados podemos nada saber das pedras da primeira estrada. Mas pela escrita escreveremos presente a todas as estradas, a todos os terminais. Escreveremos as mais importantes lições das bifurcações, das escapatórias, das divisórias de segurança... Diremos que das entre-estrelas o alfabeto consuma e congrega-navega. Daí convido eu agora o leitor a vir comigo um instante ali à varanda desta sala onde escrevo. Vê-se bem Sírius a oito anos luz. A escrever bem podemos conceber ali umas férias.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

92.

Nada nos cálculos da combustão solar nos dará ideia de como trabalhar a luz. Também não é necessário. Basta integra-la em voz. Lendo Ptolomeu se prova que Thoreau tinha razão. 





Valência, 2017



À Cunha



Continua a implementar a sua abordagem revolucionária à pressão alta: correr do ponto a ao ponto b à mesma velocidade com que a bola é trocada entre o adversário no ponto a e o adversário no ponto b, de forma a conseguir pressioná-los alternadamente, mas, na prática, ao mesmo tempo. É um processo tão contra-intuitivo e, por um par de ocasiões, deixou os jogadores da Juventus tão incrédulos que acabaram por entregar a bola a Acunã e foram reflectir um bocadinho. Terá jogos mais influentes ofensivamente, marcará mais golos, fará mais assistências, mas suspeita-se que os seus lances paradigmáticos serão sempre parecidos com o do minuto 49, quando veio fechar ao meio, recuperou uma bola na meia-lua, passou por Pjanic em velocidade e desmarcou Dost, tudo em menos tempo do que demora a dizer "nove milhões extremamente bem gastos".

Ou, por exemplo, a semana passada:

Adoptou alguma da aura polivalente de Bruno César, com a (significativa) diferença de que, enquanto Bruno César podia ser médio-ala, médio-centro e defesa-lateral no mesmo jogo, Acuña pode ser médio-ala, médio-centro e defesa-lateral na mesma jogada. É uma situação de superioridade numérica em forma humana. É possível que a sua esposa esteja a praticar poligamia apenas por ser casada com ele.


Rogério Casanova, aqui