quinta-feira, 29 de março de 2018




Este ponto de vista não é um ponto de vista. Não está no seu ponto de vista. É um ponto com vista, sim, uma vista com vários pontos. Mesmo à minha frente, tropical, a pequenina praia, ninguém,só eu mesmo neste improviso de esplanada com duas mesas, um Porto Tónico, uma caneta, o caderno onde escrevo, e centenas de pássaros exóticos escondidos em árvores por companhia, em cantos que eu nunca tinha ouvido, nem imaginava sequer que existiam. Não, este ponto de vista não é um ponto de vista. A beleza de nada vale quando apenas é sentida como um incómodo. Indiferente. Podia estar na mais lúgubre das cidades, no mais lúgubre dos subúrbios da Terra, num bairro de lata, numa lixeira. Sentiria o mesmo. Disso já fiquei com toda a certeza. Toda a beleza deste paraíso agora não passa de um atoleiro. Sentir-me assim para além da morte – tantas vezes penso: antes morresse – não deixa de constituir uma morte lenta por lenta asfixia – se assim não é, assim o sinto. Constatar que nunca respirei na vida oxigénio tão puro e faltar-me o ar. E se não há viver sem respirar, não existe respiração fora dela. Só desespero, desespero mais puro que o próprio ar, o mais puro desespero... Salve-se a ironia, uma ironia cruel, uma ironia que me sabe morder a cada instante, insaciável piranha. Se é para acabar comigo de uma vez por todas, siga la banda, atente-se no nome  deste mar: Oceano Pacífico. Pudesse eu sequer rir de mim próprio. Oceano Pacífico, ilha, resort exclusivo, recursos ilimitados, até ao fim da vida, que maravilha, quem dera, viver aqui neste exílio.... Viver para sempre, antes que acabe, não é? Antes acabar de uma vez por todas, é o que é. Torturar-me assim nesta saudade, veneno a corroer-me as entranhas, bactéria da minha aniquilação. Esta falta da minha Aurora é um morrer que nunca mais acaba.

quarta-feira, 28 de março de 2018





- Fez um teste de resistência ao meio. Por ali mesmo passou-lhe a lâmina.



terça-feira, 27 de março de 2018

segunda-feira, 26 de março de 2018



De uma margem de prata, não se sabe quão antiga, abre sobre a vereda um trilho até esta minha velha casa onde se vê o mar anoitecer. Não está muito longe do porto, e os tons de prata, onde se intrometem pinceladas douradas, dizem, são ainda marcas desse opulento, famoso milenar naufrágio ao largo da ilha de Lontano, já lá vão três séculos. O que não faz grande a diferença, logo aqui, é como se o tempo parasse. O tempo é relativo, poderão dizer. Direi que não, que o tempo aqui é um absoluto, mais um absoluto, nunca abrevia, apenas condensa. Poderemos pressentir, enfim, suas próprias gradações dentro daquilo que se suporta na sua duração, porém as mesmas serão sempre medidas com uma lente de aumentar, o que vai da lupa ao microscópio. Depois há quem fique, depois há quem parta. Há quem nos fica, há quem se esqueça. Jorge Lisboa viveu na ilha seis meses, pareceram dez anos. Barco vem, semana vem, será o único de fora que se avistará na costa entre Domingo e Domingo. De resto, estamos todos entregues a meio serviço. Copo meio cheio ou meio vazio, assim é a escola, um posto médico, o mini-mercado, o restaurante, os dois cafés, o posto de correio, a biblioteca. Toda a ilha vive a ameaça iminente do vulcão e a gente não fica.





Marbella, casco antiguo, 2018




- Fatal erro de equilíbrio: confundir um desequilíbrio com um em desequilíbrio.





Nicanor Parra



- A liberdade precisa das mãos, as mãos precisam da forma.




sábado, 24 de março de 2018

108.


Máfia russa
Árabes agentes imobiliários
Mulheres com tusa
Restaurantes irados
5 a cada 500
Nesta Andaluzia de três casas
Atrás da montanha
Tudo é passadeira
Jóias iates ventures resort
Areias exclusivas
Mergulhos privados
Petróleos que se adiantam com um sorriso
A Espanha.

107.



ALARME EM MARBELLA


Quarenta minutos até ao viaduto
Por cima da auto-estrada
A pé
Tremia
Ganas de saltar fora
Mas foi ao encontro de uma desfeita
Sabotou a viagem
O cansaço, a febre, os tijolos 
Construíram o muro 
De acasos trabalhados
Não viajou a Málaga
Viu sim no casco histórico
As passadeiras só para dizer que
A outra já o era
Depois, na volta ao mediterrâneo adjectivo
De mais um Inverno ultrapassado
É outra a armadura ganha a invasão
Até não poder suportar mais
O estertor do ego alemão 
Achando que podendo assim compra
O código sul do esplendor romano
Depois, estes ingleses bárbaros
Emproam tanto o ar que a própria Natureza perde
A sua ideia.

sexta-feira, 23 de março de 2018

quinta-feira, 22 de março de 2018

quarta-feira, 21 de março de 2018

106.

Pensar além do meu
Além
Ver como tu andas
Completamente lixado - e tu, e tu, e tu...
A cada um seu infinito...
Egoísta
Mesquinho
Sectário
Há que saber diferenciar se é
Doença
Ou se é enferma configuração
De espécie
Ou dito de outra maneira, 
Se é mesmo esse soro que alimenta
Ou o desmaio alheio
Da indiferença
Na Galiza dizem que se te vendes de borla 
Tratam-te como escravo
Verdade é que só querem tudo de graça
Assim se indignam meneiam-se
É toda a forma como se penteiam...

- Elimina-se o supérfluo e as palavras mexem-se, a frase é outra, tem de fazer pela vida.



quarta-feira, 14 de março de 2018

sábado, 3 de março de 2018

105.


Culturismo Literárioespécie de saber de oficina feito que serve apenas para mostrar músculo. Capaz de transformar o mais absoluto virtuosismo e saber filosofico-literário em vácuo. Costuma ser portador de currículos e é sumamente utilizado como farda de almirante. Há quem lhe gabe as qualidades afrodisíacas. 
O Século XX costuma ser seu habitat de pastorícia, seus praticantes também costumam, por desfastio, ir dar uma volta à Grécia antiga.... Seus detractores acusam-nos do paradoxo do niilismo de banquete.  Mundialmente expandido e com muita pujança em Portugal - só o ano passado, por exemplo, Portugal ficou em 3º lugar no WLC - o Culturismo Literário tem até uma igreja própria, tal singularidade põe muitos a pensar em paralelos com a argentina Igreja Maradoniana, nada tem que ver uma coisa com a outra, pois se para a Igreja Maradoniana, Diego Armando Maradona é Deus, já para o Culturismo Literário a divina ideia é que já foi tudo escrito. 

sexta-feira, 2 de março de 2018

A Escolha do Jorge

Ao ler o conto de abertura, tive uma vaga sensação de ter regressado às ilhas, como se ali, no decurso da narrativa, constassem episódios que me eram de certa forma familiares dado, talvez, a exiguidade e a geografia das ilhas que promove um certo modo de vida que lhe é específico e, não raras vezes, estranho a quem é de fora, além do carácter insólito de algumas das histórias apresentadas.A conquista foi imediata para a restante leitura da obra. Os dados estavam lançados sendo raro acontecer uma primeira obra de ficção prender a minha atenção, tanto pela qualidade da escrita, como pela originalidade das histórias trazidas a conto.Lisboa é o centro nevrálgico da grande maioria dos contos. Os personagens vivem e deambulam na cintura urbana da cidade com todos os tiques que habitualmente reconhecemos naquilo que nos é próprio, característico, não esquecendo todos os aspectos da vida quotidiana em permanente mutação.

Jorge Navarro, aqui

104.

Tempos curiosos estes em que o coberto tanto se torna descoberto, e é tão descoberto, o coberto. 
Coberto no que as pessoas dizem que são. Descoberto na forma como realmente actuam...

Estou a ver tudo de Espanha, detrás das montanhas, 72 quilómetros de Chaves - tudo exposto, pensamos, mas hás de saltar mais alto que toda essa lava feita em merda. Ou talvez não. 
Gráficas omissões contra a parede - salta! Apenas te projectam contra a parede -  salta! 

Acabei de ver um filme que de todo desconhecem. É a quinta vez que o vejo. Então as sombras já não contam para nada. Ou por exemplo a educação ou a falta dela nos personagens, e muito menos aquilo que realmente sabem.

Até há teses gráficas do silêncio. Segredam até dentro das almofadas. 

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

PRAIA LONTANO - prefácio de Elisa Costa Pinto


Os quinze contos reunidos neste volume apresentam uma assumida diversidade temática e estilística, verificável desde o inaugural “Praia Lontano”, até ao último, “Manhã Piscina Caixa Gravação”. No entanto, fios invisíveis se insinuam, numa rede de relações várias que, adiante, tentaremos desocultar. Quero com isto dizer que, atrás da diversidade, se ergue uma voz narrativa reconhecível e singular, que pode escapar ao leitor menos atento.
É sabido que o conto é um género exigente, que requer uma mestria literária de difícil domínio, pois habita aquela zona exígua do cruzamento da contenção da poesia com a peripécia narrativa. Ora, nesta colectânea, Pedro Góis Nogueira revela, em vários contos, essa mestria.
Caminhemos, pois, pela manta que é sempre uma colectânea e assinalemos as linhas de afinidade dos seus quadrados, já que as de diversidade são muitas e não será objectivo desta breve apresentação retirar ao leitor o prazer do desconhecido. Sinalizo como primeiro traço aglutinador da maioria dos contos a presença de um narrador na 1.ª pessoa, masculino, protagonista quase sempre de um olhar sobre si mesmo. Apenas cinco contos escapam a esta escolha que, longe de ser aleatória, obedece a um critério de adequação narrativa: enquanto a primeira pessoa é a voz que se pensa, analisa, recorda e, frequentemente, procura um autoconhecimento, a salvação ou a aniquilação, a terceira pessoa é o observador, não raras vezes irónico, de cenas do quotidiano urbano ou de percursos alheios, que situam a narrativa num tempo e num espaço reconhecível, crítico ou risível.
As personagens dos cinco contos referidos são gente comum, ou nem tanto, habitantes esfumados de uma cidade que atravessam sem deixarem grande marca mas, ainda assim, detentores de uma especificidade que lhes garante a atenção do narrador: o informador da Judiciária, em “Tu cá, tu lá”, o instável candidato a escritor, em “O Caderno”, os namorados desavindos, de “Dinossauro Júnior”, o sapateiro e a menina, no conto com este nome, o praticante de Jujitsu e o seu Mestre, em “”Sou Daqui”. É claro que a estas, poderíamos juntar outras figuras de outros contos: o vigarista atormentado, de “Aurora”, as duas jovens agarradas pela internet, em “Lá (em baixo)”, a astróloga espertalhona, de “Astrologia comestível”.

Nestes contos, a ironia, a sátira e até o nonsense assentam que nem uma luva, na combinação com divertidos e inesperados jogos de palavras e alguns diálogos muito bem conseguidos.
Creio, no entanto, que é sobretudo em alguns contos na primeira pessoa que o autor se aventura por caminhos mais ousados e experimentais, revelando o pleno da sua oficina de escrita (tema, aliás implícito ou explícito em vários contos).

Pela sua singularidade e significação, proponho um olhar particular sobre “Praia Lontano”, o primeiro conto, cujo nome se alargará a todos os outros, já que é o título do livro. Nesta narrativa inicial, parece-me residir aquilo que de essencial os contos de Pedro Góis Nogueira transportam. Numa pequena ilha vulcânica, hipoteticamente descoberta por um companheiro de Colombo, um antigo operário galego refugia-se na procura apaziguadora da Natureza pura, da solidão e de um tempo parado, sem sobressaltos. A este propósito, adverte-nos logo na primeira página “O tempo é relativo, poderão dizer. Direi que não, que o tempo aqui é um absoluto, mais um absoluto, nunca abrevia, apenas condensa”. Ora, o tempo condensado é o tempo do conto, que fixa um instante da vida, como uma fotografia. Pode até o narrador conceder-nos a sugestão do passado ou a previsão do futuro, mas é do tempo condensado que o conto se alimenta.
Tempo, solidão, autoconhecimento, mistério e poder da escrita são as grandes linhas temáticas deste conto e, afinal, deste livro. É por isso que “Praia Lontano” se me afigura portador da chave interpretativa da busca das personae do seu autor. Desde logo o nome – Lontano – lugar imáginário onde o Sul latino ecoa, e também a distância atlântica, a mesma das ilhas demandadas por tantos escritores, desde que Thomas More criou a sua 'Utopia', Camões a Ilha dos Amores, Humberto Eco, 'A Ilha do Dia Antes', Pessoa “As Ilhas afortunadas” (e fico por aqui, já que a lista seria interminável). A Ilha é sempre um lugar simbólico, de excepção, mas também de totalidade, de isolamento, mas de encontro, de terra firme e de sonho.

Ora, o protagonista de “Praia Lontano”, como os outros habitantes, apenas teme o vulcão ou a submersão, porque na mais tranquila ilha uma erupção pode mudar o curso dos acontecimentos.
E é, precisamente, o que acontece a outros protagonistas, de outros contos, perdidos numa qualquer busca de si mesmos, que se encontram – ou não – através do sobressalto do amor, das armadilhas da memória, da autodisciplina nem sempre disciplinável, do caos ou da escrita. A ilha é, enfim, a metáfora da vida de cada um, da vida vivida ou recordada com desfocagens surrealizantes (o conto “Miragem”) ou ternamente divertidas (o conto “Três Martinis no Mostruário”).

É claro que a diversidade destes contos obriga a deixar de fora muitos aspectos interessantes, mas não queria deixar de seguir a linha que nos conduz pelos caminhos da Literatura, constituída como tema de si mesma. É curioso verificar que em quase metade dos contos – sete – este tema emerge sob diferentes capas. Se em “Praia Lontano”, o mistério da ilha é revelado num livro escrito por um visitante de passagem, em “O caderno”, a escrita parece auto-comandar o indeciso escritor, que sente a imposição das palavras “umas atrás das outras, activas caldeiras vulcânicas explodidas pelos dedos, levadas de cardumes”. Se em “Dinossauro júnior”, a incomunicação do par resulta do mergulho do namorado no livro de Stephen King, enquanto a namorada desespera, em “Três Martinis no mostruário”, os livros de Amin Malouf constituem-se como elos de uma comunicação improvável e, em “Astrologia comestível”, o protagonista confessa “(...) este texto, testemunho da grande transformação que em mim se apoderou. Escrevo-o para entender melhor, sobretudo para descobrir, pela escrita - que nos faz descobrir e poder ver além, para além de nós”. Pelo meio, o eco de Álvaro de Campos e de Ginsberg em “Lobo à Colina para Alcântara” e a enumeração torrencial de nomes de escritores (influência?) no enigmático “Ela Que Vela”.
Mas é, talvez, o conto que encerra o livro aquele que vai mais longe na reflexão sobre a escrita. A propósito de 'Exercícios de Estilo', de Luiz Pacheco, o narrador (o autor?) escancara a sua experimental oficina de escrita, ao mesmo tempo que grita, sarcástico e a plenos pulmões, um manifesto à Literatura que se cozinha e que se vende, declarando - “Agradeço ao livro que eu trazia na mochila. Agradeço a este bloco de notas. Agradeço à piscina. Escrevo numa piscina, conseguem ler?” (eu acho que consigo…). 

E, enfim, termina: “Acabo. É tempo de guardar a caixa gravadora (a) escrita. De dar outro mergulho (take 3). De carregar no STOP”.


Elisa Costa Pinto

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

PRAIA LONTANO EM LISBOA - LANÇAMENTO


     

Já em casa em terras galegas quero muito agradecer a quem marcou presença e encheu a sala e me fez ficar tão contente com a minha primeira apresentação de um livro.
Um agradecimento muito especial à Elisa Costa Pinto que, com uma extraordinária apresentação, nos encheu a todos as medidas. Mais uma vez voltei a ter a grande sorte e o privilégio de poder contar com toda a sua inteligência, classe e saber. Já para não falar desse seu sexto sentido literário de grande leitora que é, e tanto nos ensina como desconcerta. Há muito da Elisa em Praia Lontano, e já vamos muito além do prefácio.

Também devo sublinhar a superior interpretação do lobo na leitura de Lobo à Colina para Alcântara pelo actor Nuno Góis - que ainda leu alguns poemas do Estrada dos Prazeres. Foi ao mesmo tempo estranho e desconcertante perceber como aquele lobo já não é meu, e que provavelmente o Nuno (já) sabe muito mais do lobo do que eu. Foi uma leitura e tanto, essa é que é essa. E é impossível não ter havido alguém que não lhe tenha sentido o toque o impacto. Uivemos a isso!
Há que destacar todo o trabalho do Rui A. Pereira, companheiro de armas e de guerrilla (salvo seja). De decisiva importância.Tanto em termos de labor como artisticamente. Esta é a minha segunda obra e é a segunda vez que tenho o Rui do meu lado. Para terem bem a ideia - ou, vá-lá, uma certa ideia - de todo aquele extraordinário talento, convido-os a irem à Rua Voz do Operário nº 62 para verem a magnífica exposição - Peles Vermelhas é o nome da série. Também sabemos que a coisa não acaba aqui...
Para finalizar quero estender os agradecimentos à editora Campo das Letras / letras papalelas, e à livraria Círculo das Letras, que além de servir de abrigo e ponto de venda das nossas obras, nos concedeu um extraordinário espaço para a apresentação do livro. Não poderia pedir mais.




 







domingo, 18 de fevereiro de 2018

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

103.


[Mesquita-Catedral, Córdova, 2018]

Não fosse Sevilha e Granada a servirem de filtro e Córdova como existe já não existia. Ali, como em nenhum outro lugar, nem mesmo Granada, se sente o Al Andalus como presente dos tempos. Tem ruas e recantos onde tudo se mantém intacto, onde se fizermos acertos é como se uma civilização inteira tivesse ido dali embora a semana passada. É como um carimbo que nos marca ainda (um) fresco de um apogeu. Muito mais urgente e importante desde que o fanatismo destruiu Palmira, ou Aleppo. Depois de todas as mesquitas que se fizeram igrejas ou catedrais como a de Sevilha. Ou catedrais que se fizeram mesquitas como as de Istambul. Tal como refere o excelente Luis Récio Mateo, lendário guia da Mesquita-Catedral: "Córdoba es la continuación de Damasco". Quem somos nós para o negar. Ou como contradizê-lo quando diz que é aquele o último bastião da paz e coabitação entre as duas mais conflituosas religiões da Terra. Verdade é que Córdoba é um centro de generosidade que grava intacta sua memória, que mostra orgulhosa seu admirável instinto de conservação, capaz de um contínuo cuidado com suas mais fundas raízes. Só mesmo Córdova na mediterrânea Europa para encontramos esse fascínio que encontrou o Islão em Bizâncio sem neutralizar o românico esplendor. Viramos o disco ao contrário, sabendo que fellahmenghu quer dizer um poeta a cantar e a verdade é que os tablaos não pararam de crescer. Continuem pois os Estados Unidos a fazer filas de três horas para o Alhambra. É da maneira que podemos entrar pela Mesquita-Catedral quando nos der na gana. Pelo menos até que venha o papa.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

102.


Há esse Estádio na Pedreira de Braga, arquitectado por Souto Moura
Pressente no futuro além da cidade 
Dirige-se de um passado cantábrico
Podemos ver bem detrás desse fotograma
Um corpo habita sua mecânica
A cada milímetro, milénio 
assalta a grama. 
Pode ir de Vertov a Brésson 
Philip K. Dick
Rima a Edgar Pêra
No que entretanto é Covadonga. 

101.



Estádio Municipal de Braga (ou Estádio AXA, se quiserem), 2017





Capa, ilustração e paginação Rui A. Pereira, Letras Paralelas

Nas livrarias:  

Círculo das Letras - Rua da Voz do Operário, 62

Biblos Clube de Lectores - Lugar Quinta, 8, 15391 Cesuras, A Coruña

Encomendas para gn.pedro@gmail.com


101.



SAUDADES DE LISBOA

1.
Saudades tantas saudades pujantes
Faria já mais de 500 quilómetros
Só para ver Lisboa
Amanhecer

2.
Mas não é a ti que vou atender
Não, quando estou em Lisboa 
Não quero o meu tempo patrulhado pela minha ausência 
Preciso travar contas com a cidade

3.
Eu naquela dor aquela casa
Era toda esta amargura que sinto agora
Era o sofrer que já sofria
O futuro a pairar a ver-me 
Perder em negrura

4.
É por isso que as saudades remetem a outra zona da cidade
Trazem-me o rio e as ruas que sobem 
Montanhosa ribeirinhas
Como só Lisboa sabe ser

6.
Era o que era: destruir sempre
Para sempre poder começar de novo

7.
Mas quando tu me tocas eu sinto o sentido inteiro que é 
Agora

100.

1.
Japanese Breakfast não resulta no carro. Lloyd Cole sim. Lloyd Cole resulta mais que nunca. Dança pelas curvas a levitar o carro em velocidade pelas altitudes de uma tarde de Sol no Inverno bem entrado na Galiza na direcção de Ourense. De resto é o corte. Não saber bem puxar o carro para trás e deixar um ligeiro (íssimo) arranhão na lateral de outro carro. Que desastre! Vale a generosidade do atingido. Um velho senhor galego de olhos compassivos. Deus o abençoe. Não me senti seguro. Nunca me sinto seguro, aliás. Paguei a mensalidade da dívida à Segurança Social. Li o jornal "A Bola". Escrevi para um portal desportivo a crónica (que não é crónica nenhuma) da final da Taça da Liga de ontem. De bola mais tarde vi os últimos dez minutos de um Getafe a satisfazer-me a ânsia de justiça divina pelo que o Sevilla fez a Berizzo. Mas o que sei eu sobre isso? O que sei, claro está, toca num dos meus valores mais caros. E o que não sei não interessa tanto como o que sei. Claro que houve justiça divína, o Betis foi ao Sanchez Pizjuan espetar cinco contra três, bela Getafada. 

2.
Ir a Portugal só para ir ao Pingo Doce. Poderia explicar. Mas dar-me ia um texto muito chato de escrever. De óbvio. De prosaico. Não tenho a culpa que Portugal e Espanha se ignorem olímpicamente. 

3.
Onde é que se encontra hoje grandeza em Portugal? Tenho umas ideias. Ou talvez nem sejam bem ideias. Ou talvez até sejam, não sei. Verdade é que não concluem nada. E só o ter de andar à procura de uma resposta... que encontrei. Claro que encontrei. Dei com dois tipos de grandeza. Uma de tipo heróico; outra de tipo óbvio. 

4.
Quase sinto vergonha de não termos um escritor da estatura de um Javier Marias. E nem nos vamos abismar pelas leituras adentro... 

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

99.



NOTAS A PARTIR DE 82 RETRATOS DE DAVID HOCKNEY


A luz de Los Angeles de frente para. A ponta do pincel. Cada 
Toque particular apanhado à primeira 
Diz sempre a luz amiga
E as cores alegres
Claro que o auricular da exposição se limita ao jornalismo
Generaliza o bem, explica como se fosse tudo
Sem dizer nada sobre o que realmente é
Como em cor Kockney respira
A afinidade ou esse preciso onde nasce a cor afecto 
Ao esplêndido o momento azul solarizado
Eléctrico onde não há como nos queimarmos
Ou como se capta a luz do negativo preciso 
Pelo espontâneo do nó mesmo desprendido 
Da leveza com que se recebe
Para nos podermos cristalizar nesse grande afago: o abraço à mistura.


segunda-feira, 15 de janeiro de 2018




Começou no Museu Guggenheim, acabou no Café Bilbau, à Praça Maior; ainda passei na Praça Miguel de Unamuno, e uma ou outra rua do Casco Viejo mas o tempo e o tempo não deram para mais. David Hockney, sobretudo David Hockney, mas também Robert Rauschenberg, Damián Ortega, Anselm Kiefer, Richard Long ou Richard Serra ao magnífico encontro do Guggenheim não deram espaço. Tivesse seguido minha intuição, aproveitando o sol a abençoar a manhã, enfim, guardava para o dia seguinte e toda aquela chuveirada incessante. Agora sinto-me obrigado a regressar. À cidade que tão bem explica como se consegue juntar Espanha à mítica Euskal Herria, o que nem os romanos conseguiram. Diz que também tem menos fantasmas que grande parte do resto de Euskadi. Por mim falo, vi uns quantos a 23 quilómetros, em Amorebieta, não dei por nenhum em Bilbau. 


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

98.


1 - As raízes da civilização seguram-nos, asseguram-nos.

2 - Podemos escrever além. Brindemos à nossa!

3 - A tragédia faz parte da equação da vida. Melhor viver com ela. Antes que tome parte de ti próprio. A equação, a não vida. 

4 - Se as tuas palavras são espadas, então escreve como espadas. Dirige-te ao mestre de esgrima, teu futuro. 



Foz, Porto, 2017

97.


CATALUNHA CIRCO

Acordo com a Catalunha a tocar, acordo
A Catalunha está sempre a tocar
Nas televisões, remetidas, presumíveis informativos
À altura, o acontecimento
Rematando, entretendo
É o mais duro político
O entretenimento
Remata, remata, e arremata
Vai fora, até da própria pele
Tanto dicionário didáctico, tanto esclareço tudo
Tudo a cingir, ao erro crasso

A Catalunha não toca em nada

A prova é que mergulhei na piscina ninguém
A hidro-massagem depois
Génese romano-aristocrata
E a Catalunha, enfim...
Os francos estão à porta do hotel




Ourense, 2017

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Zé Pedro




Sempre o vi em grande. Dos tempos do Johnny Guitar aos concertos com os Xutos. A pôr música, a tocá-la. Em Lisboa. Na Zambujeira do Mar. Em Odemira, num magnífico 25 de Abril, sempre nos máximos, sempre generoso, homem da dádiva do rock'n'roll. Bom astral a emanar sempre que o vi por aí. Uma delas a comprar discos quando havia ainda discos no Amoreiras. Quem falava dele só dizia maravilhas. As mesmas que se ouvem agora e tudo bate certo. Todos queriam conhecê-lo. Não o conheci pessoalmente, conheci-o pelas cassetes do meu irmão, eterno fã dos Xutos.
Também me lembro dos programas de rádio com o Henrique Amaro. Depois outros, pelos tempos afora. Vias da descoberta do bom velho rock'n'roll. Bandas que descobri por ele. Sempre a dar o novo, sempre renovado, sempre a dar esperança. Sempre a espalhar as boas ondas. Até mesmo neste último combate com a doença, dava-nos a certeza que se safava. A gente acreditava. Belas entrevistas também as deu. Era um homem que viveu. Viveu e fez os outros viver. Em alta. Encarnando o melhor espírito do rock'n'roll. E como todos os rockers que se prezem morreu jovem. Jovem no sentido em que Iggy Pop morrerá jovem. Jovem como tudo o que nos sobrevive. Não morrer de velho é a verdadeira lição. E podermos olhar o ser humano como uma homenagem. Como algo que verdadeiramente valeu a pena. Obrigado, Zé Pedro!

sábado, 25 de novembro de 2017






- Há livros que são injustamente esquecidos; nenhum é injustamente lembrado.

- A mão busca constantemente um pretexto para deter-se.

- Muitos escritores sofrem de vez em quando de ataques de falsidade, tal como outros sofrem períodos de insónia. O remédio em ambos os casos é bastante simples: se não se consegue dormir, há que mudar a dieta; se não se consegue escrever, há que mudar as companhias.

- Alguns escritores confundem autenticidade, ao qual devem sempre aspirar, com originalidade, da qual ninguém se deveria preocupar.

- Pouco talento basta para enxergar o que está mesmo em frente ao nosso nariz, mas é preciso muito para saber em que direcção apontá-lo.

- O poeta não deve apenas cortejar sua musa, senão também a sua dama: a filologia.

- A impossibilidade de definir a relação, junto à impossibilidade de negá-la, constitui a essência dos versos.

- É algo frívola a ideia de ler apenas os grandes poemas. As obras-primas devem guardar-se para as festividades mais importantes do espírito.

- Nunca se saberá do que se é capaz de escrever se não se tem uma ideia geral do que é preciso escrever.

- O poema é um rito: daí seu carácter formal e ritual. O uso que se faz da linguagem é deliberado e ostensivamente diferente da fala comum. Incluindo quando se empregam a entoação e o ritmo da conversação, faz-se com uma informalidade deliberada, propondo a norma com a qual se pretende produzir um contraste.

- Se há poucos artistas "comprometidos", é porque seu modo de vida não os compromete: para bem ou para mal, não pertencem de todo à cidade.

- O ideal da civilização é a integração num todo do maior número possível de actividades distintas com a menor tensão possível entre elas.

- Se uma civilização se joga segundo o duplo padrão do grau de diversidade obtido com o grau de unidade conservado, dificilmente resulta exagerado afirmar que os atenienses do século V a.C. foram as pessoas mais civilizadas que alguma vez existiram.

- A fonte da poesia há de buscar-se, como afirmou Yeats, «na quinquilharia suja do coração».

- Na maioria das manifestações de patriotismo é impossível distinguir uma das maiores virtudes - o amor à pátria -, do pior dos vícios humanos: o egoísmo colectivo.