sexta-feira, 3 de junho de 2016

The Bank of Korea


1 - Já o tinha visto de manhã. Parecia ir para um trabalho lixado. Conheço-o de não sei onde. 

2 - Foi pouco depois de finalmente ter reencontrado uma conhecida que até pode ser amiga - faz tempo desde que eu a vi com uns dezassete, dezoito anos, assim de estalo. Agora é mulher, tem um miúdo, casada, sou amigo de dois irmãos dela, mesmo que nunca os veja, com o mais velho, por exemplo, há coisa de um mês, retomei uma conversa de 1999.

3 - Correntes e remoinhos, dificuldade em nadar neste lago. Até mesmo como personagem - não, não é mais fácil com braçadeiras, nem uso duplos, nem me dependuro...

4 - Esquina da Saraiva de Carvalho com a Ferreira Borges. 

5 - Vi-o depois à noite ali ao pé dos bolos quentes*. Nem 24 horas já envelhecera dez anos. Desolação desértica, um saco azul do Ikea com as roupas e haveres, os sapatos novos cheios de pinta.

6 - Não tenho especiais recordações da escola, nem num facebook os quero, quanto mais. 

7 - Dei-lhe euro e meio, olhei-o nos olhos. Valeu-me o compasso de uma merenda na rotunda. Deitado fora o papel de embrulho, lá estava ele, consternado, abatido, devastado. Bom ter uma nota de cinco encolhida no bolso pequeno das calças. Festa no estômago.

8 - Leva lá, amigo, leva. Que sim, sim senhor, mas só se for troca por troca. Respondi que não, não era preciso, de todo, de todo não, esticou-me o braço com uma nota de mil do outro lado do planeta: The Bank of Korea - tenho-a aqui mesmo à frente, mais verdadeira que as verdadeiras... 

9 - A continuar assim chegará ao ponto de ser confundido com quem chuta castanha antes de ir para um canto refundido... 

10 - Venha daí uma segunda emenda.

* - pastelaria que vende bolos e pão madrugada adentro, e cerveja. Lá se costuma dizer isto não existe. Ainda bem.

domingo, 29 de maio de 2016

52.


Ainda estou muito longe dela
Consigo ver o bastante
E quantas milhas de anos
Comprimidos absorvidos condensados
Concentrados, em meses
Mais, mais...
Quanta distância...
Sei que entretanto continuas a jogar
Esse bluff cheio de trunfos
Entretanto ainda se chora a solidão
Entretanto ainda (e) sempre ando todo dia para aqui a arregaçar as mangas
Quanta distância...
O fascínio de qualquer viagem que cubra
Esta nudez de desespero
Na estrada não se vê bem, é de um interior qualquer
Pudera ser de outra maneira
Só que por dentro transformo-me dentro dela
Por ela
A viagem é ela
Caminha
Até ao dia em que diremos chegámos
Isso que vinha escrito numa estrela
De uma noite passada
Essa certeza que
Não a podes ignorar...

terça-feira, 17 de maio de 2016

Betlegeuse




Acordar tarde finalizados os sonhos descontinuados. Jamais vi aquelas pessoas, aqueles lugares, aquelas situações. Uma asiática e uma farmácia; um metaleiro pedinte; um carteiro numa cidade inidentificável. Isto depois de ter adormecido na tua imagem. Até despertar suado-arrependido. Raio comprimido o raio do comprimido - mas adiante. Vivam os copos. Vivam os anti-corpos. Os anti-corpos nunca o anti-corpo - e a nossa corda é muito mais forte que tudo aquilo que a sustém, vá-lá. Eu vou. Intuo tudo através dessa luz precisa nascida no preciso momento em que nos conhecemos. Autómato negro dicionário. Do sacrifício que ninguém lê. Do sacrifício que lê o que ninguém vê. Do sacrifício que é = a sacrifício + nada = sacrifício. Do sacrifício que multiplicado, bem sabemos, equivale ao zero. Pois assim como assim graças à matemática fui desde ti até à infância. Ter com a equação irresolúvel. Combinar naturalidade com o medo de te perder... Medir o receio de te magoar com o teu absoluto desinteresse... Enfim, talvez possa daí poder inspirar algum novo malabarismo, alguma variação no trilião... Interesse, nenhum. Depois, todo o já é aqui já aqui agora já. Esquece a memória: obscena a forma como seu diâmetro incha e expande, é como ter o Sol ao lado de Betlegeuse. Grão de areia contra a montanha. Matéria luz 2 = 0. 2.0, ai do ser, a Super-Nova. 

terça-feira, 19 de abril de 2016

51.

- Fez um teste de resistência ao meio. Por ali mesmo passou-lhe a lâmina. 

- Dormindo com todas as mulheres só se sentia a dormir com ela. Quando dormisse com ela, dormiria com todas as mulheres. 

- Não sou eu sem o meu poncho dos Andes, esse cachecol, só me serve em casa.

- Não entro nesses meandros, nessa sopa de algas, nem quero saber se faz bem à pele.

- É do jazz, sou do cinema. 

- Pegar num livro e chegar de imediato ao lugar exacto onde se devia estar. Nada há de tão mais divertidíssimo. 

- Ter o mapa inteiro, as coordenadas... Tudo descoordenado.

- Seu texto está cheio de equívocos. Como se a latrina fosse a lotaria... 

- Teu poema queimou-me as superfícies certas. Laser sobre a ferida, salvo (o) erro...

- Sou daqueles que acredita que todo o lodo é batota. 

- Lá porque não se gosta de ouvir não quer dizer que tenha de ficar calado a vida inteira.

- Jesus Cristo Júlio César Augusto Marco António Cleópatra Bonaparte Cláudio Constantino Buda?

- Muito obrigado, Miguel-Manso. Muito obrigado, António Poppe. 

- Deixar de ter de depender não é deixar de depender...

quarta-feira, 6 de abril de 2016

50.

Sou muito fácil de encontrar, mas não venham ter comigo. Três quarteirões seguindo pelo acaso até parar três horas mais tarde - três pessoas em conversa - a concluir que nada havia ao acaso. Pior mesmo foi saber o que se perdeu no (teu) incêndio no Chiado. Duzentos e tantos metros quadrados por um T2 (ou era T1?) na Zona J - e sabias lá tu o que era a Zona J, suponho que ninguém sabia, da minha parte só tomei conhecimento uns quinze anos depois... Infância, Agosto, férias em Vila Nova de Milfontes, aparvalhado e combalido pelo choque - nunca tinha visto nada a arder, e logo o Chiado... No dia seguinte estaria nos jornais, no próprio dia fomos ao café ver o telejornal. Tu estavas de viagem  para o Algarve até que deste meia volta à chegada. Ainda não havia telemóveis, internet, essa coisa da cidadania onde já não sei se hei de meter aspas ou não. Pela descrição que deste se calhar até o Julian Schnabel ficaria maluco pelo teu ex-espaço. Mas indo ao Abecassis da questão, isso da cidadania, meu caro, pelo menos como a entendemos... Quantos é que eram mesmo? Os traumas pegam-se, amigo. Ia escrever - ou à melhor, no caderno antes de ser passado a computador vinha escrito - os traumas pagam-se. Deixa(r) arder. Pensar no fogo criador quando já não há nada a fazer. Que a humanidade mal existia na Idade do Gelo. Vou fazer como tu, agora que perdi a confiança. Sim, no que tantos encontram um privilégio, perdi completamente a mão. Mas eis que tu e a tua especialíssima cara metade  - deu para ver, perfeitamente para perceber, intuo-te a tanta sorte - inspiraram-me. Por enquanto vou apanhando alguns bocados daquilo que para os afortunados são pequenas coisas e para o habitante da Serra Leoa um sonho jamais realizável: um Bacalhau à Brás no dia seguinte, um texto espantoso no facebook de alguém a quem prometi mostrar o meu bisavô versus Sidónio Pais. Scanning directo à carótida, acredita. Enfim, no caderno lia escrito à Carbonária, claro que não era, vai na volta, com a minha letra, se calhar era mesmo à coronhada... 

terça-feira, 5 de abril de 2016

49.

E a montanha pariu um rato. As montanhas andam sempre a parir ratos. Parecendo que não ando desde quarta-feira a tentar mas ainda não cheguei sequer ao pedal da embraiagem. É noite-após-noite-após-noite. Atrás-atrás-atrás-atrás-atrás... Nada. Acha-se um piadão ser fantasma. Esconde-esconde-esconde pede (é) tudo o que não sou. Truz-truz-truz não e não e não. É da cartilha, a vencedora, conhece-se mas não se conhece... Ou à melhor, ou melhor, a partir do momento em que desaparece toda a vantagem nesse ponto de Lisboa onde a ravina se prepara para inclinar à séria... Enfim, é de ir pela boca do rio. Isto até ao Terramoto - mas adiante, é só um parêntese. 
Mas voltando ao fantasma - já que não te apanho (a) forma (alguma) de forma alguma -, a mim lembra certa vez em Sintra a rirmos que nem uns perdidos nesse Estágio de Verão de Aikido. Tanta prática, prática, prática, o físico ao limite do espírito, o espírito ao limite do físico, horizontes carregados de verdade, verdade carregada de horizontes, sempre a furar, sempre a furar, incessantemente, a ultrapassar... Depois, no fim, relaxados até mais não, endorfina (à) solta, já íamos de noite bem jantada, epá, qual é a cor do teu cinto? O meu sinto é pardo, e o teu? Pardo? Então o meu também é pardo. Óbvio que é pardo. De noite todos os cintos são pardos ah-ah-ah... Não tem piada? Entendo, é precisa muita endorfina para lá chegar, só mesmo de turbo accionado à horas. Mas ficou bela a definição. Tão sublime que desde aí me acompanha, até hoje. Graduação? Sou pardo, não insistas. 

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

48.

Vá-lá que reajo. Olho inchado. Doença sem doença. Ainda apanho o autocarro. Ao dia cinza, a cinza. Mais estranho é tão estranho não dar com o contraste. Não há. Acabou. Parecemos diluídos mas não estamos. Secaram-me as plantas em casa. A missão era incumbida de nadas - festim de equívocos, recuso tomar parte. Eu que ao inverso penso noutras coisas. Emerso. Tento pensar. Imenso. Tentar sempre é meio caminho andado. Mais fácil, muito mais fácil que entender que tudo em ti é só fachada. Reclamas demasiado para tentar justificar, justificas demasiado para poder trair, trais demasiado para não levantar suspeitas... Desleal batota, jogo forjado... I'm always scheming and i'm right and you're wrong, é como diz a máfia, que é como quem diz, dá-me igual, sabes nada, faz-me à vontade as perguntas que eu tenho as centenas de respostas. Não é o Goodfellas, querida, aqui o ponto de partida não é o ponto de chegada. Alto! A fachada, espera, posso ler agora? Bom, sempre posso passar pelos pingos da chuva, dizer com licença, obrigado. Ver-me livre, acrescentar ao não ter a palavra querer. Pois que fique à vontade, coloca-se bem, muito bem, em qualquer lado da frase. E diverte-se, pelo menos nisto o querer sabe o que quer. Sabe o que quer. Sabe o que quer. Todo o mestre sabe usar qualquer Não como gelo na bebida. Dar-lhe a frescura necessária. Depois há quem goste, depois há quem não goste. Depois há quem não tenha por onde gostar ou deixar de gostar. Sobretudo quando deixa o tempo levar (o) tempo, ou quando permite que tudo (se) choque à temperatura ambiente, ou quando ignora todos os índices de intolerância... Depois... Enfim, depois é pior que cerveja morta, é que nem gás, nem sabor, além de nojento, imbebível. Mas não te apoquentes, nunca darei gelo a cerveja defunta. É do horror, não me interessa. Contigo só o não me interessa...

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

47.


COBERTO DE VENTO, NO PENSAMENTO

Aos 16 anos escreveu:

A barca ao vento
cobre de tempo
meu pensamento

Coberta de vento
no pensamento
a barca ao tempo

Depois escreveu Nada durante uns 20 anos, diz que viveu
Só 
Que esqueceu. 

Toback, The Man

                     
                         

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Dicionário de Sonhos

Sonho que entro sozinho num elevador de madeira bem velho e apertado, carrego no seu único botão, começo a ascensão, pego na folha que tenho no bolso do casaco com um poema de Gabriel Garcia Marquez, ia começar a recitar... É o fim: o elevador pára. O fim no plot pointGame Over. Eu bem carrego no botão solteiro, mas nada. Não anda mais. Mal visto a minha voz abrir a boca e logo ali acaba a brincadeira. Depois o alarme não funciona. Depois eu grito, ninguém me ouve. Estou preso, eu mais o tal do poema. Será tanto mais o tempo claustrofóbico ali fechado quanto me custará sair do sonho. Tento ler o poema, não distingo as letras. É bem feito: não sabia que Garcia Marquez tinha poemas - descobri-o agora. É bem feito: existem faltas que nem os sonhos perdoam. Limites são limites, que isto do sonhar não é o Universo (se é) infinito. Então não era eu que queria tanto o conselho do travesseiro? Para onde é que queria realmente subir? Era mesmo para casa da minha avó? 

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

45.

Sorvia-me como se fosse respiração assistida. Estranhei até perceber que sim, que estava, que sim, havia. Havia chegado o dia. As horas já não via às escuras. Podia tirar o capacete à vontade. Mesmo que a última passagem pelo túnel fosse nada fácil - tudo preto, tudo preto antes do último sinal - fechava os olhos via melhor. Cinco da manhã desperto. Às onze minhas costas já pesavam três toneladas - tive de me sentar. Sentar e esquecer. Esquecer até o ar deixar de pesar. Então por um qualquer vácuo fui projectado para a cidade. Esquecendo-me de almoçar creio ter visto Paulo Nozolino frente ao quartel da Ferreira Borges. Reflectia e observava. Então comecei a reflectir e a observar. Então um choque de lucidez largou-me um fantasma - iria perder-se pelos autocarros... Três da tarde pesava a tonelagem de 2666 e nem por um momento pensei em Ciudad Juárez. Aguentas bem, disse, tens aí depósito para muito mais. Depois é tanta gasolina a arder por dentro que pelo núcleo de ferro consigo magnetizar todas as lojas. Problema mesmo é nos supermercados. Bem podem os seguranças fazer-me revista. Anos à frente o céu está tão límpido que poderia ver Tróia pela Serra do Cercal. Nenhuma tempestade o impedirá. Nem o tempo acaba com os relógios.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

42.


GUILHOTINA

Ora põe aqui tua cabeça

Corta não corta
Corta

Umas horas: medo de ser ignorada, do arrasto da almofada, que fique tudo na mesma.
Umas horas: medo de perder, de um muro gigante se erguer, que fique tudo na mesma.

Corta não corta
Corta

O medo que desapareça

Talvez nalgum ajuste de contas
Só numa de alinhar a direcção perfeita
Partimos transcontinentes

Corta não corta
Corta

Roendo todas as horas
Bem podes esperar a vida inteira...

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Abel, The Man

                         
                         

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

44.


IMPOSSÍVEL

Não quereria dominá-la - nem tal passaria pela ideia
Só queria mesmo era entrar na praia
A única forma de poder apanhar a onda, aquela onda
A pura adrenalina sem vertigem
A pura da mais puta alegria
Impossível
Completamente impossível, disse-me alguém,
É que ninguém...
Pois respondo-lhe agora, prosaicamente, que pelo impossível tenho percorrido muitos possíveis
Milhas e milhas de possíveis, todas as milhas possíveis
E dentro das milhas possíveis, ainda mais milhas possíveis
Lisboas quantas? Umas tantas
Sim, tenho percorrido muita Lisboa...

Mas diz que é impossível
Mesmo
Mesmo mesmo mesmo impossível.

Calma, também não iria surfar um tsunami
Isto houve algum tremor de terra? Então calma
Calma...

Pense-se ao menos nesses alegres doidos sem bem a noção das costuras 
Como eu agora não sei do raio do comando que me projecta essa constante:
Cabeças de alfinete, formigas a descer montanhas de água
Vagalhões que nem Waimea Bay, que nem qualquer canhão da Nazaré
E essas ondas existem, se existem, elas e todos os loucos que as tentam
Depois há quem as apanhe e as surfe. Depois há quem morra dentro delas. 
Podem perfeitamente ser os mesmos. Podem haver estranhas simetrias. 
Disse-me ele então que ou são levados da breca ou são levados pela breca
Pois eu prefiro pensar que são levados pela leva valente leva
Que estão tão puramente possuídos pela euphoria versus vertigem
Que podem até citar Gilles Villeneuve, esse Aquiles em turbo: «Vida ou morte é apenas um pormenor...»
Levados da breca ou levados da leva?
Tanto faz, amigo, tanto faz... 



43.

Meu bairro Outono
cidade
passado
presente 
como cura
de vontade.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

41.

Nunca será meu amor a fazer-me perder o sentido de humor. É que meu humor nunca perdeu o sentido de amor. E a ingratidão é feia, além de mesquinha. 

sábado, 31 de outubro de 2015

40.

Nunca me tentes comandar à distância. Não vale a pena. Não me conheces as leis da física. 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

39.


BALA CANHÃO FORÇA

Diz que vai embora
Embora para melhor

Já se esqueceu como era como 
Teve de aprender tudo
Era o pior do pior do refugo
Impossível insegura 
Incapaz
Bala canhão para o olho da rua

Mas não e não e não
Salvei-a do poço aos gritos
Tive de berrar para se desviar das cobras
Ainda meti os braços na água só para o arrancar das piranhas - e arranquei a cabeça às piranhas
Assim mesmo
Lá foi ganhando confiança
Avançando no tempo
Avançando
Avançando tanto 
Avançando
Que já avançada, no tempo
Avançado
Deixou o próprio tempo ultrapassado

Verdade é que se pisgou, nariz empinado
Nem resistiu à tirada excelente 
Desabotoada em pólvora
Desejando-me força.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Personagem

Não foste tu que conseguiste, foi o personagem. Nem foste tu que o fizeste, que disseste, que aconteceste. Foi o personagem. Mas foste tu quem o sofreste na pele, na carne, no osso, nas entranhas. Quem sofre o amor és tu, quem o ama também és tu. Por certo, se levares a tampa quem se aleija também és tu. Agora alcançar, conquistar, quem consegue sempre, sempre e sempre a seu bel prazer não és tu, nunca és tu, é o personagem. Vestes-lhe a pele e então és o super-homem, o faz diz acontece, o diz bem diz mal, o redentor da lenda, o que se apura e trabalha. Apura-se e trabalha-se e mete-te a ti em apuros e trabalhos, que é o que demais te acontece na vida, meteres-te em apuros e trabalhos. Claro que depois és tu quem tem de aguentar, quem arca consequências, quem assume a responsabilidade... O personagem esse não, não está, foi não sei onde. Pirou-se. Puta que pariu. Pum-pum. Sumiu. Ou já o viste tu alguma vez na solidão? Ou quando te sentes assim triste e miserável como estás hoje? Ou quando sofres a bom sofrer do amor e desamor? E na decepção. E na frustração. Não mintas. Onde é que ele anda? Vai lá buscá-lo, vá, encontra-o, pergunta. 

Mas primeiro também deves reconhecer: sem o personagem não ias lá. Não ias lá nem ias a parte nenhuma. Nem a ti próprio ias, quanto mais. Era o ias. Não tinhas a mínima das hipóteses, fugirias do jogo. É muita areia para a tua camioneta, filho. Por mim, até acho que lhe devias dar mais chances... Sair com ele mais vezes. Tentar, ao menos, tentar. Já aguentar é que já não sei... A sofrer dessa maneira... E às tantas as dores e as dores às tantas... Ó pensas tu que é vestir-lhe a pele e o fatinho? Não, a vida não é o teu teatro. 

segunda-feira, 5 de outubro de 2015


- We have a right to set limits. We feel too guilty in Europe -- our multicultural tolerance is the effluent of a bad conscience, of a guilt complex that could cause Europe to perish. The greatest threat to Europe is its inertia, its retreat into a culture of apathy and general relativism. I am dogmatic in that sense. Freedom cannot be sustained without a certain amount of dogmatism. I don't want to cast doubt on everything or question everything. That's why I am also against every form of political correctness, which attempts to control something that should be a part of our moral substance with societal or legal bans.

 - Multiculturalism, with its mutual respect for the sensitivities of the others, no longer works when it gets to this "impossible-à-supporter" stage. Devout Muslims find it impossible to tolerate our blasphemous images and our disrespectful humor, which constitute a part of our freedom. But the West, with its liberal practices, also finds forced marriages or the segregation of women, which are a part of Muslim life, to be intolerable. That's why I, as a Leftist, argue that we need to create our own leading culture.

 - We are attached to our idiosyncrasies. But we have to recognize that the particular is based in a contingency, a happenstance that isn't substantial to the self. Universality is the opening to a radical contingency.

 - Individual hedonism and fundamentalism are mutually driving each other. You can only effectively combat fundamentalism with a new collective project of radical change. And there is nothing trivially hedonistic about that.

 - My answer is to struggle. Empty universality is clearly not enough. The clash of cultures should not be overcome through a feeling of global humanism, but rather through overall solidarity with those struggling within every culture. Our struggle for emancipation should be coupled with the battle against India's caste system and the workers' resistance in China. Everything is dependent on this: the battle for the Palestinians and against anti-Semitism, WikiLeaks and Pussy Riot -- all are part of the same struggle. If not, then we can all just kill ourselves.

Slavoj Žižek, aqui.

sábado, 3 de outubro de 2015

38.

É em Ambulance Blues do soberbo On The Beach que Neil Young tem aquela famosa tirada do mijar contra o vento*. Creio que foi numa sua biografia assim para o sofrível - não nesta auto-biografia recente, que diz que é excelente, e quero ler, mas de uma antiga da Assírio & Alvim - que esse foi género de remoque final à sua geração, à laia de boca a colegas, amigos, companheiros de estrada, certamente alguns dos Buffalo Springfield e Crosby, Stills, Nash & Young, e se escrevo todos é porque o próprio Young não se punha fora da equação. No que rimava um pouco com esse bastante anterior Everybody Knows This Is Nowhere em que contra euforias sessentistas o meu herói queria é voltar para casa e levar mas é as coisas numa de calma, precisamente porque, vá: everybody knows this is nowhere... Ora é assim que eu me sinto. Das duas maneiras. Primeiro a mijar contra o vento, essa é a principal, depois, a querer mas é voltar para casa e tomar as coisas numa de calma, e depois ver um filme e depois escrever aqui uma resenha ao dito cujo, o que me toma tempo que nem imaginam e serve tanto como fazer uma paciência de cartas (paciência) e nem sequer é modalidade em que eu pilote por aí além - às vezes até piloto bastante mal. Mas adiante, tenho saudades. Um homem perde vinte quilos e parece que fica mais novo vinte anos e depois parece (parece não, é) que tem de resolver coisas que não estavam resolvidas lá atrás e seguiram para bingo vida adentro qual aspirina. 

* - You're all just pissing in the wind
     You don't know it but you are
    And there ain't nothing like a friend
    Who can tell you you're just pissing in the wind

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

37.


REMO A SUL

Um grilo já se ouve aqui chamando o sul
Antecipando alegria
Antes do sul, antes do grilo
Ainda indefinida
Cá comigo ficavas, suspendia-se a saudade
Parada perdida no Alentejo
Desse dia antes depois do amor 
Que não te atingiu em Lisboa
Agora amena, pacífica, pudera, temos outra vez o grilo
Antecipando o sul, sempre e sempre
A cantilena de sempre do sempre
E não partisse amanhã seria apenas essa estranha passagem
Algo assim entre um azul e um nunca mais...
Digo eu isto agora assim meio perdido - escrevi este esboço de futuro faz quê, três semanas?
Mas agora ganhei esta absoluta verdade telegráfica 
Deste final de Setembro reza o ano de 2015
Escreverei só e apenas que há um antes 
E outro depois
Deixa lá ficar quem eu fui, não te apoquentes
Aliás pouco interessa se morri se sofri...
Até mesmo se renasci, por todas as deusas e todos os deuses
Born again coisa nenhuma
Quando passo apenas de um convertido, mesmo que nada me possa mudar. 

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

34.3


DA POSSIBILIDADE DE UMA ILHA

Aproximamo-nos de 1984
Mas também estamos perto de A Possibilidade de Uma Ilha
Dissoluções num ecrã, projecções sem muro
Vidas inteiras sem ninguém se ver
Clonado a nunca envelhecer
Eterno preceito da juventude
Falando entre eras sem tempo
«Sem chão a Terra já só é gás até ao núcleo de ferro fundido?»
Lá dentro, fechado, lá fora, do mundo
Lá sempre, interagindo, só mesmo interagindo...

sábado, 5 de setembro de 2015

Bixente Lizarazu




Um dos melhores defesas esquerdos da história, que ganhou tudo o que havia para ganhar, sobretudo com a sua França e no Bayern de Munique, ele que sendo nativo do país basco francês assim pôde jogar no Athletic Bilbau - clube que como se sabe só aceita bascos - o que o levaria a ser mais tarde ameaçado pela ETA  por jogar "na selecção de um país inimigo", já depois de uma saída pouco pacífica de San Mamés. Ele que, abandonando o futebol em 2006 foi dedicar-se ao Jujitsu brasileiro para logo se sagrar campeão da Europa na modalidade*. Lizarazu também surfa com dedicação, o que não significa que tenha completamente abandonado a sua ligação ao futebol, pelo contrário, parte do seu tempo dedica-o à TF1 como comentador residente. Daí que estive ontem não a mais de dois metros de distância da lenda. Que, como poderia suspeitar, faz da simplicidade, simpatia e modéstia a marca de uma atitude, grande na verdadeira acepção do termo. Eu lá ia escrevendo a crónica para o nosso humilde portal, ele comentava o jogo em directo para a França inteira, salvo as estratosféricas ressalvas e distâncias, salvo ter preferido não perder mais uma vez contra gauleses, e sem o odioso de qualquer luso complexo de inferioridade, verdade é que genuinamente gostei que o grande Lizarazu tivesse saído de Alvalade satisfeito. Foi uma honra tê-lo por perto. Do mais, deu para apanhá-lo perfeitamente: sujeito normalíssimo, sem qualquer átomo de cagança ou afectação, se emanava alguma coisa era decência e boa disposição. Há de ser um simples sobredotado, ou se quiserem a deixa, um simplesmente sobredotado. Também espero que tenha por cá surfado umas boas ondas. Lá boa onda tem ele. 


* - Em Lisboa, pelos vistos dá-se bem por cá.

Precisar

Nunca aprendes, filho. Tudo o que precisas já tens. Teu grande problema - e mete isso na cabeça de uma vez por todas - é essa tua mania de precisar, sobretudo de precisar do que não precisas sequer para precisar. 

Telemóvel...


Michel Houellebecq em O Rapto de Michel Houellebecq.

- Não fazes nada, aborreces-te e alguma coisa vai acabar por acontecer na tua cabeça, as ideias vêm. As palavras vêm do vazio. 
- E consegues criar o vazio?
- Sim, mas tem de se ter as condições certas. Por exemplo, não vais escrever um livro agora porque esperas uma chamada e isso inquieta-te...



ELLA REINA SOBRE TODAS LAS DESTRUCCIONES

Qué me lleva hacia ti.
El sueño que se convierte en pesadilla.
El rumor del mar y de las ratas
En la fábrica abandonada.
Saber que después de todo estás allí, 
En la oscuridad. Sola y con los ojos abiertos.
Como el pájaro leproso, el pájaro cagado
De las historias de terror de nuestra infancia.
Firme. No: ondulante, como las luces
Más allá del bosque, más allá de las dunas.
Las luces de los automóviles
Que toman la curva y luego desaparecen.
Pero tus ojos no son como los ojos
De los conductores. Ellos
Se deslizan plácidamente hacia el hogar
O la muerte. Tú estás fija en la oscuridad:
Sin luces ni promesas. Las ratas velan tu mirada.
Las olas velan tu mirada.
El viento que levanta remolinos en los linderos
Del bosque me llevan hacia ti: apenas
Una señal ininteligible en el camino de los perros. 

Roberto Bolaño, em La Universidad Desconocida, ANAGRAMA - Narrativas hispánicas



A little room on 7th street is getting cold
And secrets sing like mescaline
They don't get old
I saw a pattern on a blanket just the other day
It looked just like the pillow you threw away

terça-feira, 1 de setembro de 2015


OUTRA DIVAGAÇÃO

Onde estão os que o silêncio oculta?
Pergunta ao silêncio, se for a tua hora,
e com seus lábios o silêncio te falará.
Ao silêncio não podes responder-lhe
se não for com o silêncio que tu sabes
onde encontrar. Aí o silêncio habita
e neles estão os que o silêncio ouviram. 

Fernando Ortiz em Poesia Espanhola de Agoratrad. Joaquim Manuel Magalhães, Relógio de Água, 1997

sábado, 29 de agosto de 2015

Sopa de Pedras


- Se a esquerda me cerca entre a espada e a parede, então sou de direita, pela esquerda.  

- Ouvido em Sete Rios:«antigamente tínhamos amigos imaginários, agora, graças ao facebook, imaginamos amigos...»

- Perguntaram-te de certeza se eras tu. Responderam-me de certeza que eras tu

- Exactamente, Tarantino:«They might be a drag for a moment, but after that moment is over, it always ends up being gasoline to my fire.»

- Por eles melhor nem apareças. Nunca digas nada. Já o viste, aliás. Muito vulneráveis, vulneráveis, mas depois espetam-te um longo ferrão pelas costas. Iam agora impressionar-se com um elefante numa loja de porcelana, do mais quando não há loja, não há porcelana, e o elefante não passa de um brinquedo comprado num qualquer palácio da literatura. 

- Nunca se encararam como irmãos, até agora. Mas eis que tem gente que espera que a birra dure a vida inteira. Minando os caminhos. A vida inteira.

- Portugal é um alçapão. Há muitos, há piores, mas é um alçapão, uma armadilha, muitos dos nossos grandes a quem tanto devemos fatalmente chegaram a acreditar nisto, tramaram-se. Tivessem ficado bem longe... Que em Portugal, bem sabemos, se se é ignorado, é se ostensivamente ignorado. Porquê? Suspeito de um filho de um jesuíta.  

- É necessário treinar a primeira de mão a partir do momento em que as ideias nunca mais param de pular umas sobre as outras. Não nos podemos dar ao luxo - nem o luxo se pode dar a nós - de queimar tempo com esse criado que nunca foi criado na vida. Depois há o José Cardoso Pires

- BOLAÑO«La literatura se parece mucho ala pelea de los samuráis, pero un samurái ni pelea contra otro samurái: pelea contra un monstruo. Generalmente sabe, además, que va a ser derrotado. Tener el valor, sabiendo previamente que vas a ser derrotado, y salir a pelear: eso es la literatura.»

- Sair de um casulo, palmilhar terrenos, ganhar palmos, jardas, percorrer baldios, aguentar porradas.

- Fosse aluguer de afectos,  ganhava à comissão.

- Vai pelo frio, vai, arrefece à vontade, por quem sois, mas depois, depois, depois, olha, não te estou a guardar lenha para o Inverno...

34.2

Nesse tempo em que lias, lembras-te? Ou era da escola? A mim até deu jeito, apanhaste-me a jogada de um chico-esperto, essa cena que vinha decalcada de Os Maias, essa cena, lembras? Ou desses tempos em que sabias melhor quem era o Zizek, que eu precisei relembrar-te a partir de um cappuccino que bebias. Ora pois, enfim, é como esse teu antigo prof que calha ser um dos meus colunistas preferidos. Faz parte da tua realidade, quem diria? Mais que da minha. Falas nas aulas, no estímulo, no interessante, uma maravilha, imagino, mas há quantos anos não lhe lês um artigo? Mal sabes que estão à borla na net, posso contar dez anos desde a última vez que compraste um jornal. Certo? Não, agora não, estou a falar com as minhas amigas. Todo o tempo? Não. Não? Não. 

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Adenda




Das leituras melhor ler aqui. Ou aqui.



A experiência interior é doravante interdita, pela sociedade em geral, e pelo espectáculo em particular. Falava em assassino. O que eles chamam imagem está a tornar-se o assassínio do presente.


Só os seres livres podem ser estranhos uns aos outros. 









Ingenuidade On The Record

É bom ter escrito num caderno do antigamente toda a minha passada ingenuidade que eu gosto da minha ingenuidade bem passada. Nem vale a pena passar a limpo. Está aqui. À minha vista. A comparar o que veio a seguir. Servido como prova testemunhal lírica. És um lírico, diz assim. Que assim fica. Que assim fica bem. Dividido o quintal em duas partes. 

terça-feira, 25 de agosto de 2015

+ -

- O insuportável cinismo de hoje por vezes é quase incomportável, irrespirável, absurdo. Mas pior mesmo é seu péssimo aspecto, pestilento, de matar tudo à roda, mesmo assim, coitados, mal se aguentam.

- A vulgarização, a relativização, o fingimento, o lado onde durmo melhor, a falta de reciprocidade, a politiquice pessoal, a falta de sentido de lealdade, de risco, etc. Tudo ajuda: separa-se o trigo do joio, dá-se consistência ao estar nas tintas - nada de deitar fora, até pela qualidade da tinta.

- Só perdes o teu tempo fazendo-me perder tempo. 

- Não podemos escolher o momento. Não é possível medir o incalculável.

- Para reescrever, mais que para escrever, é preciso o cérebro bem ligado. É necessário destrinçar a asneira do pormenor. O motor de captação precisa muita luz, gasta muita energia.

- Lá porque nunca te julgue não quer dizer que te aprove. Lá porque a sentença é não culpado, não quer dizer que sejas inocente. 

Bolito


1 - Compra a droga barata para a vender estupidamente mais cara. Lucríssimo garantido. 4000%? Fosse assim tão simples "bastava" não haver escrúpulos. Não, condição primeira: é preciso não haver praticamente nada que não se seja capaz de fazer, passo necessário para se singrar na jogada milionária instantânea e não ser tragado pela inumana mortífera máquina trituradora. Quatro mil mortes por ano em Ciudad Juárez? A CNN diz que são cinquenta mil só em seis anos, no México. Sobretudo mulheres, na sua maioria jovens, o que dá uns bons milhares de adolescentes raptadas nessa ficcionada Santa Teresa de 2666 de Roberto Bolaño, mas bem real Ciudad Juárez, só para a incomensurável fortuna ainda juntar outro milionário quinhão com esses snuff films e não haver mais palavras descreverem o horror. 
Fosse "só" a maldade pura da besta humana. Não, há um sistema que a alimenta, há um sistema que dela se alimenta. Citando esse ficcionado Westray (Brad Pitt) pela pena bem real e precisa de Cormac McCarthy: pensa nisso quando snifares a tua próxima linha de coca.  

2 - Falemos então no lucro. Onde ele começa, na Colômbia e cercanias. Primeiro é preciso afastar a concorrência. Para pôr lá o dinheiro é preciso um exército, um álibi, ou um especial conhecimento, ou uma empresa, ou se não ter nada a perder, ou ser-se cego das ideias, ou ser-se um doido varrido... Ou então é pagar aos pontos, ou seja, aos subornos, suborno por suborno, a profissionais, o que sempre é menos arriscado. As águas estão cheias de piranhas, crocodilos, também haverá lobos em pele de cordeiro. Voltemos a Westray: Soubesses quem está metido nisto ficarias muito surpreendido, muito surpreendido...

3 - Tudo porque surgiu na jogada um (Michael Fassbender) relativamente civilizado e charmoso aventureiro endividado de gostos caros, razoavelmente bem sucedido e cheio de auto-confiança a tentar fazer a sua abordagem ao mercado. Tão brutal automático instantâneo colossal lucro servem-no para acreditar que vale a pena correr o risco. É avisado, zomba do aviso. Sente-se um ser nobre (e superior) que se está a propor a uma empresa, a uma aventura, com uma ideia vaga do mal mas sem fazer do mal a menor ideia - do mal absoluto muito menos. Desconfia-se que esteja à altura, é prevenido que não o faça, o que o desconforta. Está nessa, claro que está nessa. A fasquia inebria, encandeia a vista, como o mais raro dos diamantes que compra a um joalheiro judeu em Amesterdão (Bruno Ganz). E no entanto... É preciso manter as aparências, o trabalho legal de advogado. Pensa nos mundos separados, nem faz ideia de quem seja a madre de todas las madres. 


4 - E como a Terra é um organismo vivo, lá no mar alto, ou nem tanto, lá se vai formando o tsunami, pois que (no) entretanto o chão tremeu. Tremeu? Foi, nem se sentiu. Valha a verdade que tudo não passou de uma coincidência, nem sequer houve descuido. Coincidência, palavra que não existe no narco-dicionário. Westray: «Eles não acreditam em coincidências, já ouviram falar delas, só não viram é nenhuma». Ora bolas. Nem a volta de aquecimento está dada e já se está fora da corrida. Pior que isso, muito pior, talvez até já se possa pensar no célebre abismo de Nietzsche como um sonho impossível comparado a um buraco negro onde da gravidade nada escapa. Não serve de nada. Westray: «O problema maior não é caíres em desgraça, é quem levas contigo...» 

Lágrimas pelo grande amor (Penélope Cruz), de nada lhe valeram os diamantes, capturada que foi para a produção paralela industrial e milionária do horror que acaba com milhares de mortas numa lixeira, sem cabeça, como todas aquelas milhares de jovens e adolescentes raptadas em Ciudad Juárez. 

5 - Para quem ainda não sabe ou adivinhou, este texto vem no seguimento do tão válido como execrado "The Counselor" de Ridley Scott, vomitado por incapazes em todo o seu pós-moderno cinismo de sequer nomear a urgência do interesse em questão. Não, não é nada bonito e agradável de se ver. Pelo contrário. É se como que atropelado, e o crítico de pena triste acha-o um acto rude, uma desfaçatez, que não vinha nada sinalizado. Como li algures, não consigo agora localizar onde, "The Counselor" esperará a morte do realizador e quiçá mais uns bons aninhos para se tornar um filme de culto. É só umas tantas coisas do agora expirarem o prazo de validade.