terça-feira, 25 de agosto de 2015

Bolito


1 - Compra a droga barata para a vender estupidamente mais cara. Lucríssimo garantido. 4000%? Fosse assim tão simples "bastava" não haver escrúpulos. Não, condição primeira: é preciso não haver praticamente nada que não se seja capaz de fazer, passo necessário para se singrar na jogada milionária instantânea e não ser tragado pela inumana mortífera máquina trituradora. Quatro mil mortes por ano em Ciudad Juárez? A CNN diz que são cinquenta mil só em seis anos, no México. Sobretudo mulheres, na sua maioria jovens, o que dá uns bons milhares de adolescentes raptadas nessa ficcionada Santa Teresa de 2666 de Roberto Bolaño, mas bem real Ciudad Juárez, só para a incomensurável fortuna ainda juntar outro milionário quinhão com esses snuff films e não haver mais palavras descreverem o horror. 
Fosse "só" a maldade pura da besta humana. Não, há um sistema que a alimenta, há um sistema que dela se alimenta. Citando esse ficcionado Westray (Brad Pitt) pela pena bem real e precisa de Cormac McCarthy: pensa nisso quando snifares a tua próxima linha de coca.  

2 - Falemos então no lucro. Onde ele começa, na Colômbia e cercanias. Primeiro é preciso afastar a concorrência. Para pôr lá o dinheiro é preciso um exército, um álibi, ou um especial conhecimento, ou uma empresa, ou se não ter nada a perder, ou ser-se cego das ideias, ou ser-se um doido varrido... Ou então é pagar aos pontos, ou seja, aos subornos, suborno por suborno, a profissionais, o que sempre é menos arriscado. As águas estão cheias de piranhas, crocodilos, também haverá lobos em pele de cordeiro. Voltemos a Westray: Soubesses quem está metido nisto ficarias muito surpreendido, muito surpreendido...

3 - Tudo porque surgiu na jogada um (Michael Fassbender) relativamente civilizado e charmoso aventureiro endividado de gostos caros, razoavelmente bem sucedido e cheio de auto-confiança a tentar fazer a sua abordagem ao mercado. Tão brutal automático instantâneo colossal lucro servem-no para acreditar que vale a pena correr o risco. É avisado, zomba do aviso. Sente-se um ser nobre (e superior) que se está a propor a uma empresa, a uma aventura, com uma ideia vaga do mal mas sem fazer do mal a menor ideia - do mal absoluto muito menos. Desconfia-se que esteja à altura, é prevenido que não o faça, o que o desconforta. Está nessa, claro que está nessa. A fasquia inebria, encandeia a vista, como o mais raro dos diamantes que compra a um joalheiro judeu em Amesterdão (Bruno Ganz). E no entanto... É preciso manter as aparências, o trabalho legal de advogado. Pensa nos mundos separados, nem faz ideia de quem seja a madre de todas las madres. 


4 - E como a Terra é um organismo vivo, lá no mar alto, ou nem tanto, lá se vai formando o tsunami, pois que (no) entretanto o chão tremeu. Tremeu? Foi, nem se sentiu. Valha a verdade que tudo não passou de uma coincidência, nem sequer houve descuido. Coincidência, palavra que não existe no narco-dicionário. Westray: «Eles não acreditam em coincidências, já ouviram falar delas, só não viram é nenhuma». Ora bolas. Nem a volta de aquecimento está dada e já se está fora da corrida. Pior que isso, muito pior, talvez até já se possa pensar no célebre abismo de Nietzsche como um sonho impossível comparado a um buraco negro onde da gravidade nada escapa. Não serve de nada. Westray: «O problema maior não é caíres em desgraça, é quem levas contigo...» 

Lágrimas pelo grande amor (Penélope Cruz), de nada lhe valeram os diamantes, capturada que foi para a produção paralela industrial e milionária do horror que acaba com milhares de mortas numa lixeira, sem cabeça, como todas aquelas milhares de jovens e adolescentes raptadas em Ciudad Juárez. 

5 - Para quem ainda não sabe ou adivinhou, este texto vem no seguimento do tão válido como execrado "The Counselor" de Ridley Scott, vomitado por incapazes em todo o seu pós-moderno cinismo de sequer nomear a urgência do interesse em questão. Não, não é nada bonito e agradável de se ver. Pelo contrário. É se como que atropelado, e o crítico de pena triste acha-o um acto rude, uma desfaçatez, que não vinha nada sinalizado. Como li algures, não consigo agora localizar onde, "The Counselor" esperará a morte do realizador e quiçá mais uns bons aninhos para se tornar um filme de culto. É só umas tantas coisas do agora expirarem o prazo de validade. 

sábado, 22 de agosto de 2015

CTRL F

Um dos efeitos colaterais das novas tecnologias - e eu nem devo ir muito por ali, que sou um tanto ou quanto cada vez mais anacrónico - para um desorganizado como eu, é a inerente insistência no comando Control F em cada palavra de um texto e/ou qualquer esconderijo que seja do meu computador. Cá está o problema colateral, voilà: saiu do computador. Por exemplo agora, em que não encontro o raio da chave de fendas, coisa que nunca uso, como também nunca me aconteceu o estore da sala subir todo para dentro da caixa... Eu não pedia mais nada, renunciava a qualquer uma de todas essas únicas tecnologias, a qualquer tablet ou smartphone ou kindle que nunca tive, mas um CTRL F, um CTRL F acoplado às coisas da minha casa, isso sim, seria verdadeiramente entusiasmante, algo do absoluto extraordinário. Haja alguém que me ajude. A primeira parte da obra aliás já está feita, inserida que foi na minha cabeça, qual chip enxertado pela sua própria realidade. Verdade é que está lá. O outro dia abri o armário da cozinha à procura de um anti-inflamatório e a primeira coisa que me perguntei no pensamento sonhado mais rápido que a realidade, foi: o que é que se passa com o CTRL F? Tinha bem escrita a palavra Flameril...

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

36.

«A casa dele não tinha nada, só água e vinho engarrafados, velas e candeeiros a petróleo. A casa de banho era um género de torre, lá fora, alta, parecia a torre de vigia de um forte medieval, ou então aquelas torres romanas no Asterix, havia um banco, onde te sentavas, e era o da sanita, tudo a céu aberto, maravilha. Cagar a ouvir os pássaros e a ver o campo. Depois havia ganzas a monte. O Saul estava sempre a dar bafos no seu cachimbo de água e era um bacano porque representava sempre, sempre. Dava um bafo e passava-to logo. Andava sempre com a touca e eu também nunca vi ninguém ao pé dele que não estivesse com a touca...»
Ricardo, envergonhado, bateu-lhe forte na perna. Apesar de tudo e de todos os atenuantes aquilo não era conversa para se ter na polícia. Rómulo não estava minimamente chocado - nem sequer Carlos Silva -, do mais, como homem das ruas, sabia do jargão todo e mais algum. Também já lhe acontecera ter de dar bafos em cachimbos de água. Coisas do jogar infiltrado.
«Continua Marco. Estávamos a gostar de ouvir.», disse Carlos Silva.
«Não volto para lá. Não dou mais para aquela maradice.»
«Explica lá melhor o que era a maradice?», perguntou Rómulo.
«A maradice era a quantidade de droga que os freaks tomavam. E ácidos e quê. Alguns eram mesmo marados. Houve uma vez em que um teve os velhos a virem da Alemanha para ali só para o irem buscar. O chaval já tinha quarenta anos. Há mais cerveja?»
Carlos Silva deu-lhe uma lata de cerveja. 
«Depois havia os mamados. O Saul também era um bocado mamado, se bem que o Saul é outro andamento, outra onda. A mulher dele é que era completamente mamada.»
Riram todos. Sabiam o que o Marco queria dizer, mas não puderam evitá-lo. Mamado pela língua estava ele. E Carlos Silva entrou ainda mais por ali adentro:
«O que é o Sr. Marco quer dizer quando diz que a mulher dele é completamente mamada?»
«Mamada quer dizer agarrada. Viciada em heroa, quer dizer, em heroína. Desculpem.»
«Não ligues a advogados, continua.», disse Rómulo.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

35.


- Tanta coisa com o facebook. Depois ninguém lê, está no facebook. Então lê no facebook.

- Tudo é imediatamente tomado em possíveis impossíveis segundas terceiras intenções. Há sempre um plano palmado, estás a ver? Selfie de vida a nossa, que nunca nos faltem os retrovisores.

- O ditador é sempre o senhor da contabilidade, não que perceba de contas, mas percebe de castas. 

- Dias de marés vivas, prenúncios de mudança de estação? Pois, pois. Todos os dias. Vai muito não vai nada. Vem chega não vem foge. Todos os dias. Maré muito alta ou maré baixíssima. Então à noite... quando baixa aquela hora... a maré recolhe tanto que quase me deserto.

- Lobo solitário? Para já não é lobo. Nem dele nem de ninguém. Solitário? Bem, adora estar sozinho muito mais do que detesta estar sozinho - mas tantas vezes detesta estar sozinho, nem fazes ideia... Mas vai ver a qualidade do seu pêlo, não é pêlo de solitário, pêlo de solitário é mais áspero, nem se compara, o que este tem é uma característica semelhante que confunde bastante: não aguenta que o puxem - sai todo, que o esfrangalhem - é alérgico a chatos. 

Esquece, mas não te esqueças de esquecer. 

- Começas a objectivar o que não gostas. Seus porquês. Descobres coisas assaz interessantes. Da presunção ao saloio pedantismo, não saberias o que era não fosse o sabor amargo, esse ranço pretensioso, perfume por cima do cheiro, não fosse o cheiro o verdadeiro perfume. 

- Era falsa a afirmação mas soou sobretudo verdadeira, sobretudo porque era muito mais verdadeira, com muito mais verdade do que se tivesse sido de verdade.

- Furou a parede? Foi um acidente. Era só fachada. 

Barriga Cheia

Exactamente, pensava, dás-te bem com toda a gente. Há aqueles tipos que lavam dinheiro e és grande amigo, há os outros do grupo da fraude fiscal, e és grande amigo, há aquele outro que é empreiteiro para aí de metade das obras em Lisboa e vive ali mesmo no Hotel Sheraton e até deves ir almoçar com ele muitas vezes porque és grande amigo... Depois, como dás-te bem com toda a gente, também estás metido em causas sociais, ajudas instituições de caridade, vais a almoços com os velhos amigos da política, do sindicato, com os velhos amigos maoístas, que alguns deles até deram políticos e têm poder, ou deram colunistas fundamentalistas com poder. Depois há os outros amigos, os amigos de sempre, os melhores amigos, como o Chefe, os amigos sem amigos... 
Perdido em seu devaneio, Rómulo só apanhou a parte final da frase: 
«Mas se queres que eu fale dela, eu falo. Já não falo é de estômago vazio.»
«Siga. Gosto de ouvir-te falar de barriga cheia.»



Primeiro o desenho. A forma do desenho. E de desenhar a realidade. A Nova Iorque da Primeira Grande Guerra. As influências são óbvias. Pensamos, por exemplo, no Era Uma Vez na América de Sérgio Leone. A banda sonora grandiloquente bem pode remeter-nos a Ennio Morricone, o que assim como assim, já nos começa a remeter demasiado. James Gray não merece que se apague uma pontinha do seu mérito. Ele é que arrisca a valer, ele é que cria, executa e concebe magistral e superiormente aquele portentoso cinema. De filme para filme, Gray tem vindo a apurar, mesmo que o primeiro Little Odessa tivesse o fulgor extremo de um tiro de partida, longe de ser superado pelos seguintes e muito bons The Yards, We Own The Night, Two Lovers... Mas eis que chega este The Immigrant, quem diria, de longe, a sua obra maior, a obra-prima, o soco no estômago. 
Todos os filmes de Gray são fortes no melodrama e na tragédia, na força do enredo e dos personagens, The Immigrant, contudo, completa-se em si no circulo superior da força que nos esmaga enquanto nos comove. A matéria essa é tão densa que parece impingir-se em número nas próprias moléculas da realidade. A ciência da trama prova, no entanto, que nos limites das piores armadilhas e alçapões é possível, enfim, a redenção. A religião pode ou deve ser para aqui chamada, faz parte da vida. 

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Rascunho 666

Em 666 posts ao todo neste blogue tenho publicadas 458 entradas e 209 são supostos rascunhos. De vez em quando assusta um bocado olhar para dentro de um subterrâneo.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

34.1


Certa noite estava lá eu metido no estúdio e vi dos bastidores essa ideia romântica que já pouco se sente nos dias de hoje. A de rádio nocturna, de noite, de rádio, transmitida do estúdio pelas ondas aéreas do céu nocturno até às casas da cidade, de um país ou de um continente inteiro. Tom Waits... Leonard Cohen... Holy Cole... Billie Holyday... Dois apitos para as duas da manhã. Pink Floyd? Pink Floyd... Dire Straits... mais tarde Né Ladeiras... Louis Armstrong, era o que era, lá na sua coerência ou incoerência o locutor prosseguiria mas sempre nos limites do gosto, amanhã seria outra coisa, a voz, a voz não sei se bebia pouco, se bebia muito, se bebia de todo, trazia-a levemente decorada a whisky puxando a sela o cowboy solitário. Encorpada, terna, cheia de personalidade na sua conta, peso e medida, apenas o certo tom certo pronto para o afagar sem dar nas vistas, mas nunca mesmo nunca deixando de tentar inebriar o outro, esse ouvinte desconhecido da noite. Auxiliando a insónia, mantendo alerta o automóvel de qualquer longínqua estrada ou auto-estrada vinda de Viana do Castelo ou tanto faz numa esquina em Oeiras. Partilha de solidão, não solidão de partilha. Pode ser só o som de uma voz, ou apenas música som sobre a noite na Terra, dispensa o par, suspende-nos no ar, define-se bem a onda hertziana. A mim chegou da infância a ouvir rádio pela noite nas viagens de carro com o meu pai, ou já mais para a frente numa tenda de campismo acima da caruma dos pinheiros, de mansinho ouvindo do leitor gravador Sanyo sentindo a textura do saco-cama. O que não dá com rádio que não presta [deixem os maus rádios fora disso], rádio que não presta não é rádio, não fixa, nem o momento quanto mais a memória, nem uma memória que seja, nada, fixa nada... O problema da rádio, o grande problema da rádio, é mesmo só mesmo o esquecer-se de si própria. É o que acontece de dia, cada vez mais, em quase todo o lado, até ao dia em que todas as memórias de todas as memórias de rádio apenas se fixem na memória de um dia ter havido no planeta tal singularidade transmitida em tais singulares aparelhos... Agora de noite, de noite é mais difícil, a noite ainda é a última barreira, a guarda pretoriana, de noite a rádio ainda encontra o seu último refúgio, o porto de abrigo das tempestades, a estalagem perdida na Antártida, a abrigada hospedada zona de recolha e silêncio onde uma voz no ar ainda nos pode servir de farol no oceano da noite. 

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Apocalipse, Mano

Já só pensam em sobreviver na rua. Todas suas energias estão concentradas em arranjar uma horta. Eles sim, são sustentáveis, são (os) filhos da terra. Há quem deles já nem leia livros, pá, pelas árvores, claro que há de haver excepções se a leitura for útil, romances não («já não leio romances, diria depois, soprando ares de maturada decisão racional). Mas bem, se forem utópicos ou apocalípticos ou visionários ou com teorias da conspiração de permeio que «ponham a malta a pensar...». Olha para o relógio: «O mundo já acabou e não sabes, assim como não sabes plantar e colher, assim como não imaginas os problemas que nos esperam se tivermos de voltar às serras. Há tanto para falar em termos de sementes, animais, casas abandonadas. Sabes lá tu o que é a Natureza, fazer uma fogueira, sentir o silêncio...» Falo-lhe nos CD's que nunca me devolveu. «Não emprestaste nada... Deves estar a fazer confusão». Então no body, no crime, toda a razão, meu, devo-os ter fertilizado com umas sementes Monsanto. 

domingo, 9 de agosto de 2015

Rupturas e Traumatismos

Uma antiga colega minha do aikido a fazer uma rotura de ligamentos quase no fim da aula e eu a ser espancado por um gang em Santos* podemos dizer o mesmo: na altura não sentimos nada. Claro que nisto houve maneiras distintas de aquecimento, enfim. Ela sabia as horas terríveis que aí viriam, era só o corpo arrefecer... Sim, sabia que ia doer muito. Eu, eu não sabia nada. Foi de choque. Mal compreendia o que se estava a passar. Só mais tarde é que tive aquelas dores de ganir. Vá-lá que o azar não foi assim tanto, era só um traumatismo, num joelho, quase uma massagem... 

* - fui um dos azarados, diz que foram alguns e meteu polícia e até veio no Correio da Manhã, disseram-me, nunca confirmei nem quis saber.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Aberturas

Num dia de Abril de 1957, pela hora da tarde, apareceu em certa aldeola da costa um carro aberto, veloz como o pensamento. 
Já alguém tinha dado por ele quando ainda vinha a distância, roncando pela estrada fora. De longe, como era vermelho, vermelho vivo, lembrava uma chama de rastilho a romper no asfalto, entre mar e cabeços. 
«Que terra é aquela?», perguntou uma rapariga que vinha lá dentro.
«São Qualquer-Coisa», respondeu-lhe o homem que a acompanhava. 
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Guida apreciou deveras este desenho de São Romão com a sua onda bíblica e as iras dos pescadores escorraçados. Deixou o abismo, mãos enfiadas nas algibeiras do casaco, em direcção ao automóvel.
Lembrou-se de perguntar: qual valia mais, o carro ou São Romão?
O carro. Em dinheiro aqueles dez ou doze casebres não dariam para o Talbot Lago, dois litros e meio, que estava adiante, no deserto. Nem que se juntasse toda a tralha de redes podres, covos de lagosta e uma ou outra embarcação de fundo chato. Nem assim, nem mesmo assim.
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Jogo que não tenha regra não é jogo. Jogo sem parceiro também não. Era o que se dava aqui: a jovem Guida batalhava com palavras e o amigo não mexia uma palha para a ajudar. Jogo sem parceiro ou jogo à espera de parceiro, por um lado; jogo sem regra nem desfecho, por outro. 

José Cardoso Pires, em O Anjo Ancorado

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Más horas

- Umas das maiores dificuldades e crises, ou dificuldades da crise, é reconhecer que o mundo mudou. Não que apenas mudou porque mudou (essa é simples e muito mais complicada do que parece) mas sobretudo porque mudou o inimigo, o que traz novas doenças e perigos, perigos novos, perigos sem rosto, perigos com um poder desmesurado. Máscaras 3D (desdobráveis a quatro dimensões, nós é que não vemos), distracções absolutas, irresistíveis, completas, inusitadas, camufladas em novas distracções. Viralidades, radioactividade exposta à falta de pensamento. Se há uma batalha a ser travada estamos a perdê-la nas horas. 

- A democracia é uma conquista dos povos, não é um acaso tecnológico. 

- À extracção da poesia não lhes importa a sua pureza. 

- Tem a seu favor a cobardia da realidade. A realidade - na realidade bem cobarde - que pela cobardia não sabe nem vê o mal que falha.

- Muito se resolve nesse ceder à fraqueza. Quanto mais se cede, mais fraco se fica. E mais se vai ficar a precisar das forças, da força. Disse força, não aparência da força. A aparência da força é só fraqueza. 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

«É poeira para os olhos, sacode-a»

«Prefiro que seja mentira e vender, do que ser verdade e desaparecer», disse um dia um jornalista ao detective Velcoro, de True Detective, ele que bem tentava aparar o golpe ao colega angustiado e atingido pelo assédio das câmaras e microfones:«És um sobrevivente, sacode a poeira». Penso nisso enquanto vejo amigos, alguns com aspas, a arrastarem-se na poeira, pior é que devem pensar que a coisa se trata de uma festa de espuma ou algo do género. O que no fundo vai dar ao mesmo, nada se vê, portanto. Tanto assim é que o nosso único aliado é o tempo, de preferência a clarear. Para o bem e para o mal. Para o bem, pela força das marés. Para o mal, porque as marés um dia acabam. Problema mesmo são alguns marinheiros que acreditam que as comandam.

A Lição Grega

"A dívida é inesgotável, impagável e infinita. Foi com o capitalismo financeiro que a “divída finita e móvel” de antigamente se tornou “dívida infinita”, como a dívida do homem perante Deus. Esta dívida que não pode ser resgatada funciona segundo o modelo do pecado original: no reino dos homens, o devedor nunca acabará de pagar a sua dívida. Recordemos que, para a teologia cristã, existe uma única instituição legal que não conhece interrupção nem fim: o inferno.(...)
Apesar de a dívida ser impagável e infinita, é necessário manter publicamente a aparência (uma crença que deve circular publicamente) de que ela é finita e pagável. A dívida da Grécia é tão infinita como a de muitos outros países. Mas o problema é que, por várias circunstâncias, ela entrou no campo de uma racionalidade que lhe retirou a máscara que protege muitas outras. Sem essa máscara, ela exibiu-se como monstruosa, isto é, algo que se mostra e, assim sendo, cresce sem controlo. O capitalismo financeiro não vive sem o motor da dívida, mas precisa que se mantenha a promessa de que ela será honrada. Honrá-la não é pagá-la."

António Guerreiro, aqui.

terça-feira, 28 de julho de 2015


PREGUNTAS A LA HORA DEL TÉ

Este señor desvaído parece
Una figura de un museo de cera;
Mira a través de los visillos rotos:
Que vale más el oro o la belleza?,
Vale más el arroyo que se mueve
O la chépica fija a la ribera?
A lo lejos se oye una campana
Que abre uns herida más, o que la cierra:
Es más real el agua de la fuente
O la muchacha que se mira en ella?
No se sabe, la gente se lo pasa
Construyendo castillos en la arena:
Es superior el vaso transparente
A la mano del hombre que lo crea?
Se respira una atmósfera cansada
De deniza, de humo, de tristeza:
Lo que se vio una vez ya no se vuelve
A ver igual, dicen las hojas secas.
Hora del té, tostadas, margarina.
Todo envuelto en una especie de niebla. 

Nicanor Parra, Poemas y antipoemas, Edición de Rene de Costa, CÁTEDRA, Letras Hispánicas

domingo, 26 de julho de 2015

Colheita

Dias há que são de colheita. Senti-mo-lo, sabemos. Como? Então se está tudo à mão de colher... Tudo. Também não é fácil, sabemos como as vibrações e o espírito são invisíveis, impossíveis de tocar mesmo quando tudo vibra, reage, tem força, espírito. Mas se é dia de colher, então é dia de colher, o fruto, o alimento, tem de ser, está no ponto, no tempo certo. Não o fazer é arriscar demasiado na planície seca. No tempo errado.

sábado, 25 de julho de 2015




Sublinhado de sublinhados que transcritos ainda acabavam com este blogue:

 - Acontece que com o jazz saio sempre a descoberto, livro-me da carapaça do idêntico para ganhar esponjosidade e simultaneidade porosa. 

 - Macedónio Fernandez:«Recuso-me a assistir ao final dos meus escritos, e é por isso que os termino antes.»

- Tal como tratarmos a linguagem e a escrita assim seremos nós tratados por elas.

- Não é preciso acreditar demasiado na praxis para pressupor que um exercício atento da literatura devia levar a um progresso simultâneo da forma de conduzir o automóvel e no sentido da viagem para a qual nos dirigimos. Como é possível não ver que a única situação do escritor autêntico é o centro do átomo literário, onde partículas conhecidas e outras por conhecer se resolvem na perfeita intencionalidade da obra: a de extremar tudo o que a suscita, a faz e a comunica?(...)
O mal é que se não há ouvido, como dizia Unamuno, se não há ritmo verbal que corresponda a uma economia intelectual e estética, se não há esse sentido infalível do vocabulário, das estruturas sintácticas, dos acatamentos e transgressões que fazem o estilo de um grande escritor, se novelista e leitor são dois cúmplices enfiados na mesma cela a comer o mesmo pão seco, nesse caso qués'sad'fazer, caro amigo, estamos feitos.

- A «mensagem» tão disposta a prescindir alegremente de um estilo também não há-de ser grande coisa. 

- Sofremos na literatura como em muitas outras coisas as desvantagens das nossas vantagens: inteligentes, adaptáveis, rápidos a captar o rumo das circunstâncias, damo-nos ao triste luxo de não acatar a distância elementar que vai do jornalismo à literatura, do amadorismo à profissão, da vocação à obra. Porque é que os nossos homens de ciência valem estatisticamente mais que os nossos literatos? A ciência e a tecnologia não admitem a improvisação, a preguiça e a facilidade na medida em que os nossos literatos crêem inocentemente que a narrativa lhes permite, e tiram por outro lado partido das nossas melhores qualidades.(...) Viva eu é um ímpeto que me fartei de ler e de escrever nos paredões da minha infância, quase sempre acompanhado desse outro ímpeto que também nos desenha: Maldito eu. É assim que nos decretamos um dia escritores ou leitores ex officio, sem noivado e sem vigília de armas.(...) Era e continua a ser divertido comprovar como estes tipos pensam que  basta ser vivo de espírito, inteligente e ler muitíssimo para que o resto seja questão de baskerville e corpo oito.(...) É pena que por esta altura se insinue outra vez tristemente a falta de vontade de ir à luta, a ingenuidade ou a canalhice de querer arrecadar o prémio sem se ter dado um golpe que fosse. 

- Todo o escritor europeu é «escravo do seu baptismo», se é pertinente citar Rimbaud; quer o queira ou não, a sua decisão de escrever comporta arcar com uma imensa e quase pavorosa tradição; quer a aceite, quer lute contra ela, essa tradição habita-o, é um familiar seu ou o seu incubo.(...) Uma suspeita de culpa e de superfluidade leva o intelectual europeu à mais extrema vigilância do seu ofício e dos seus meios, única forma de não refazer caminhos demasiado percorridos. Daí o entusiasmo que produzem as novidades, o assalto em massa à nova rabanada do invisível que alguém consegui corporizar num livro. 

- O tempo de um escritor: diacronia que basta por sim mesma para desajustar qualquer submissão ao tempo da cidade. Tempo de mais adentro ou de mais abaixo: encontros no passado, encontros no futuro com o presente, sondas verbais que penetram simultaneamente o antes e o agora e os anulam.

- Sabemos que só a partir do fundo de um poço se conseguem ver as estrelas em pleno dia. Poço e céu não querem dizer grande coisa, mas é preciso comunicar-se, traçarem-se as abcissas e as ordenadas; Jung oferece a sua nomenclatura, qualquer poeta a sua, a antropologia sabe de regimes nocturnos e diurnos da psique e da imaginação. Pela minha parte, estou seguro de que assim que as circunstâncias exteriores (uma música, um amor, um estranhamento qualquer) me isolam por um momento da consciência vigilante, aquilo que aflora e assume uma forma acarreta consigo a certeza total, um sentimento de verdade exaltante. Suponho que os românticos reservaram para isso o nome de inspiração, e que não era outra coisa senão a mania.

- Se não se pode dizer, há que tentar inventar-lhe a sua palavra, uma vez que é pela insistência que se vai definindo a forma e a partir dos buracos que se vai tecendo a rede.

- O que é que a tua admiração interessava a van Gogh? O que ele queria era a tua cumplicidade, que tentasses olhar como ele olhava, com uns olhos desolados por um fogo heraclito. Quando Saint-Èxupèry sentia que amar não era olhar nos olhos um do outro mas duas pessoas a olharem juntas na mesma direcção, ia mais além do amor do casal, porque todo o amor vai mais além do amor do casal se for amor, e eu cuspo na cara de quem me vier dizer que ama Miguel Ângelo ou E. E. Cummings sem me provar que, ao menos uma vez numa hora extrema foi esse amor, foi também o outro, olhou com ele a partir do seu olhar e aprendeu como ele para a abertura infinita que espera e reclama.


Júlio Cortázar, em A Volta ao Dia em 80 Mundos, Tradução de Alberto Simões, Cavalo de Ferro

Take

Diferença entre «ensaio» e take. O ensaio vai paulatinamente levando à perfeição, não conta como produto, é presente em função de futuro. No take, a criação inclui a sua própria crítica, e é por isso que é interrompido várias vezes para recomeçar; a insuficiência ou fracasso de um take serve como um ensaio para o seguinte, mas o seguinte nunca é uma versão melhor que o anterior, mas sempre outra coisa (se for realmente bom).
O melhor da literatura é sempre take, risco implícito na execução, margem de perigo que faz o prazer do volante, do amor, com o que isso acarreta de perda sensível, mas ao mesmo tempo com esse compromisso total que, noutro plano, dá ao teatro a sua inconquistável imperfeição diante do cinema perfeito. 
Eu gostava de escrever senão takes. 

Júlio Cortázar, em A Volta ao Dia em 80 Mundos, Tradução de Alberto Simões, Cavalo de Ferro, pag. 310

sexta-feira, 24 de julho de 2015

33.

Tiras doze quilos na brincadeira. Basta seguir a via da prioridade, é um brinquedo. Logo ali descobres como não era a preguiça que te armadilhava a uma secretária. Que uma hora sentado já precisavas de uma bicicleta, que uma hora pedalado precisavas era de uma piscina, que uma hora nadado e por aí adiante percorrerias teu mundo inteiro em total fúria exercitada. 
Problema mesmo eram os joelhos, as articulações, essas limitações, as armadilhas que no fundo são limitações articuladas, ou articuladas limitações, ou o que mais acharem, não vos há de valer de nada. A mim tudo se resume em aguentar oito horas a uma secretária, a escrever. Norman Mailer falava na necessidade de sermos atletas, de no físico prepararmos o espírito. Estaria a pensar no seu ringue, nessa modalidade específica do boxe literário, tinha de ir bem preparado. Quem está agora a ler isto não sabe, mas eu sei, já me perdi deste texto, do que queria dizer, da intenção primeira. Estou numa piscina, não essa tal de 25 metros mas outra, pequenina e lúdica, que vi crescer  de coisa gigante até quase à banheira. Foi precisamente aqui que aprendi a nadar uns vinte anos antes de ter escrito um conto entre o Luiz Pacheco e um sonoplasta que eu cá sei. Foi preciso ensinar o raio do conto a nadar, e mesmo assim, mal bóia. Disse-lhe que a vida é feita de pormenores e braçadas e tudo o que vier à rede tem as suas articulações. O que desaprendeu já não é comigo. 

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Laboratório

No caminho pelo outro entras noutro personagem. Até te dão um enredo. Nem precisam saber que vais tomar a direcção acima à esquerda como quem mete para Campo de Ourique. Não, a acção começa a acção com uma mulher bela de ar compassivo e muito simpático e eu cansado, de mau humor e abespinhado a descer a Rua Maria Pia. Nem precisam saber que acabei de sair da natação e que me entrou água pelos ouvidos adentro e ouço o mundo inteiro como se do fundo de um poço. Aquele meu aspecto até podia dar o ar que iria comprar qualquer coisa, que é o que eles querem, assusta que aquele feminino olhar de compaixão pudesse estar a pensar que seria heroína, quando heroína podia ser ela. 

Bola de Berlim

Começou pelo alívio do moço do barco em ouvir-me falar português. Disse-o bem alto e sonoro achando que as duas moças estrangeiras não o ouviam [e eu a querer e a gostar que o ouvissem]. Depois, à volta do rio e da viagem de barco, um espanhol suposto pintor de aguarelas chamado Pepe, ali entre a pose artista e o chunga andaluz, em suma, um pintas, que pinta, lá isso pinta, o pintas, umas aguarelas de umas casas alentejanas [e nem foi preciso denunciar o disfarce, como eu disse, estava tudo nas aguarelas]. 
Depois lituanos, ou letões, leitões ou lagostas tal o vermelho bronzeio sobre a pele de cal, o que daria uma horrível aguarela, eles é que não davam conta disso tal a arrogância hasteada em silêncio [pior mesmo foi a chegada à mente desse mecanismo de associação sob a forma de Europa: a Grécia. Peço desculpa, mas nada posso contra o primeiro pensamento, que é mau, paciência, mas não me censuro]. 
Depois uns yankees, da Florida, para aí, isto pelos ares de Boca Raton sem nunca terem ido à praia, passadas de marina, pés que não sabem que nunca pisaram areia, pela praia adentro afora calçados em sapatos brancos mocassins, ridículo prolongado em calções cremes jardineira, não sei se iam assim os dois, mas o que fica da imagem é um dois em um [repito a pujança dos mocassins brancos sobre a areia, só podiam galgar mesmo as tábuas da marina, umas tábuas muito juntas e uniformes, o inferno de um boardwalk na Praia das Furnas].
Depois, depois espanhóis a falar alto atrás do cliché, agora um casal inglês que se foi pôr aqui mesmo ao meu lado. E logo ali vem um casal francês. A primeira palavra que ouvirei em português será a palavra Bola, a que se seguirá a de Berlim. Depois só mesmo o até amanhã do moço do barco. 

Férias

Parte do objectivo das férias está alcançado: o descanso. O estar de molho por estar de molho necessário porque é necessário que a energia solar se adense e entranhe em excesso no corpo, que Lisboa é dura e num tempo curto também as nossas baterias descarregam num instantinho. Mas esta suspensão da realidade, este não ter expectativas no que é tão importante quanto difícil não querer à força: até mesmo essa coisa de aperfeiçoar as férias, de ter as férias perfeitas, quando a praia alentejana, só a praia a mim já chega e só não sobra como extravasa as medidas. E é só levantar de manhã para ir ter com o mar e a areia. Levar livros, revistas, um caderno, um lápis e  caneta só para ir nadar e apanhar sol para voltar tarde o mais tarde possível. Eis a cura.  

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Fados

Tiraram-lhe há pouco a última perna. Mas não vai de cadeira de rodas, não, usa próteses, muletas, depois levam-no e canta, canta que canta. 
Sessenta anos, sabe o que são sessenta anos de fado? Uma lenda, tanta história... Toda a gente quer ouvir-lhe o fado. Se passa nas casas então querem todos. Ele só pergunta: «o senhor paga-me o jantar? Se não paga, não canto». Ou alguém paga ou alguém vai ter de pagar, é justo. Comigo é diferente. Eu tenho uma maneira de o levar na certa que é começar a cantar-lhe os fados. Aí tem de entrar, não falha. Então se o fado é dele... De uma maneira ou de outra ele canta, canta que é uma maravilha o fado. Canta melhor que ninguém. Também ninguém canta assim, sabe, à antiga? Não todo o fado, mas o seu fado, compreende? São os fados que canta, tem de gostar dos seus fados, de outra maneira não entram, não entram e então ele não entra no fado, não canta. Eu entendo isso, para mim não há nada pior que o fado mal interpretado. O fado quando não se sente não se canta. Se não se tem não se canta. Não sai de dentro é uma coisa horrível, falsa, artificial, reproduzida, horrível, nem sei explicar... Já ouviu o Fado Cravo, do Marceneiro? Então meta ali um desses maus cantores de hotel. E não é só no fado que é assim. Em qualquer música, olhe, a ópera. Os blues, claro. Tem de ser cantado como deve ser tocado. Está a ver a palavra tocado? Olhe para a palavra tocado. Tem de ser tocado mas também tem de ser tocado, entende? O português é uma língua extraordinária. Tocado e cantado, é a língua do fado.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Anti-Nota

1- Devia ter reparado nos seus olhares incompletos. Ainda bem que falo em generosidade, assim sempre mostro um pouco a costura do texto, o cozimento da entrelinha. Para quê?, perguntas tu. Para quê? Pois, também eu me vi obrigado a fazer tal pergunta. Para quê.

2 - Não acabou, que a generosidade é água que apagou seu fogo azul de ressentimento. Ressentimento pelo interesse, não era o texto, era a alma! Gira o disco, pode durar décadas, ninguém se rala. Eu ralo-me. 

3- Foi uma talada de verdade, não uma talada da verdade, e ainda bem, mas posso dizer que foi uma talada, lá isso foi, posso comprovar. Depois a pressão do tempo, o ódio ao marketing (pessoal), o bónus do veículo (promocional), a fatiota (armadura). Outros ainda usam guarda-costas.

Peso à altura

Queres escalar tua alta altura 
Levas com a força de gravidade
É esse o peso que carregas
Teu peso na realidade

sábado, 6 de junho de 2015

32.

Uma turista nova-iorquina nascida em Hong Kong bem te pode dizer que todos estes monumentos europeus no fim equivalem-se. Tudo velho. Quer portuguese cuisine e come umas tapas, também eu soube de uns alemães bebiam um vinho do Porto como vinho corrente,  quem sabe com umas gambas de permeio. Dinheiro torrado, torra-se. Diz que a América do Sul agora é que está a dar. Claro que é só nas zonas onde está a bombar, resortemo-nos pois de toda a violência, venha a nós o mundo novo que aqui cheira muito a tabaco.  A mim não cheira, respondo. Não acredito. Mas não há ninguém, contraponho. Não há, mas houve. Se foi há umas horas ou há uns dias não sei, mas houve. Cuidado, há governantes precavidos a legislar, nem no espaço público quanto mais. Tinha-me esquecido de John Le Carré. Também conta. Está metido na conversa. Claro que há aviões nos céus que não vemos. Estações que não conhecemos. Estações e terminais, no espaço e por aí fora fora o Big Money deixa os jornalistas tontos, é com cada noticiário. Não é preciso ter lido o melhor artigo de Miguel Sousa Tavares em anos para se saber o que é cada vez mais uma irrealidade. Pessoas não se sentem representadas. Então representem. Não sabem, coitadas. Contam o que conta do que conta. Aprontam-se a voltarem a dar o voto na ultra a um bando de impostores. É como o outro, foi reconduzido. Reconduzido no bando, perdão, no banco, no Banco de Portugal. Vá-lá que a minha amiga tem sorte e sempre se pode aproximar de alguma dessas estações directamente para o continente seguinte e não é o Continente Olivais Sul. Fazem lá ideia. Manhattan e um T1 a 5000€. Ali numa zona para o exclusivo. Os amigos piraram-se para os arredores. Fosse assim era todos os fins de semana em Veneza. Ou Las Vegas. Ou em Paris. Ou em Cascais onde ela diz que não há uma praia. Então se não é uma praia como queres tu que não seja minúscula? Queres ir a uma praia-praia vais ter de caminhar para lá da Boca do Inferno. Boca do Inferno, what is Boca do Inferno? Is the mouth of hell, very lovecraftian. Há muito vento, depois estamos em frente um ao outro. Socorro-me de Nietzsche e respondo que às tantas num casamento o que mais vale é a amizade... Já não preciso do grande filósofo alemão para dizer que quando se começa a competir com o parceiro está tudo estragado, o  prazo não sabemos... É um contar decrescente e a bomba pode nem explodir, se é um mês se dez anos... Há casos em ninguém dá por nada. A competição é desenfreada? Deviam ser amigos. Excesso de solicitações? Deviam ser amigos. Então e o amor? É preciso excluir o amor da amizade ou a amizade do amor? Claro que fica tudo sempre mais fácil se um levanta voo para qualquer lado, seja para o Irão, seja para as Filipinas, ainda não foste à Índia? 

sexta-feira, 5 de junho de 2015

31.


- Se a literatura pede licença, a licença é nossa.

- Antes o último vivo da Terra que uma caveira de apocalipse.

- Às tantas já tinhas a intuição bem trabalhada. Era inevitável, o instinto de sobrevivência, essa reacção anti-alérgica, os anti-corpos a reagirem. Agora já te defendes de antemão, até à contra-mão. Apurado apurado. 

- Teu amor de piedade não comanda o destino. 

- Só um Deus pode sustentar um absurdo. 

- Em Portugal mostra-se e logo lhe dizem: vai mostrar lá fora, vai mostrar lá fora... 


- Escrevemos com outros com os outros contra os outros: ler é mais importante que escrever. 

- Se há algo que o afogamento na multidão nos dá a ver de bom é o nosso próprio afogamento. E o colete de forças transformado em colete de salvamento. Do nosso colete de forças, do nosso afogamento. 

- A fotografia continuação do corpo carácter postura olhar sobre o mundo. A fotografia continuação do mundo. Do mundo que é um olhar, um respirar, um trabalho do seu próprio trabalho. 

terça-feira, 2 de junho de 2015

Jamor

Na bancada de imprensa tinha de me conter. Ali o adepto não existe, há um muro invisível resistente, fartei-me de dar murros nesse muro. De quando em quando lá me distraía, se este de quando em quando serve para dizer alguma coisa é que não era de vez em quando mas apenas nas alturas em que não há mesmo outro remédio. Já usar o rosto é mais fácil, sofrido ou alegre, ansioso ou eufórico, uma boa máscara consegue sempre esconder tudo - não fosse na distracção o meu corpo sportinguista começar a agir por conta própria. Disciplina férrea, é o que é. Os jogadores no campo que fizessem o seu trabalho que eu sofria o meu. Pago em acreditações e sem outro remédio que não acreditar. Já usar os olhos é muito mais fácil. Quando o árbitro tão lesto a expulsar Cédric tinha mesmo de ter expulso Baiano, os adeptos viravam-se para a nossa bancada e diziam bem alto de viva voz: «escrevam, escrevam a verdade, denunciem esta roubalheira»*. Foi a primeira vez que o meu corpo agiu por conta própria, com um movimento de pescoço a mover o crânio de cima abaixo, qual assentimento. Sim, sim. Ao intervalo, nem foi preciso, olhos nos olhos bastavam-me para dizer sou tão ou mais sportinguista que vocês. De resto, era o que era, o jogo que era, o Braga ia ganhar, não era? Quem acreditava? Acreditava o Marco Silva, acreditavam os jogadores, não sei se acreditava um benfiquista que tirava fotos lá em baixo e me dizia ao telemóvel «fica descansado  que vais a prolongamento». Vou, vou, respondia eu. Não, não acreditava, se acreditava mais era que o Braga nos abafava de vez, meu pessimismo aliás não é de acreditar em reviravoltas, no meu clube então é onde mais se acentua, trauma daqueles dezoito anos a ter de dizer é para o ano. Como não havia de compreender os adeptos em debandada enquanto as más línguas das rádios falavam no Carrillo "nulidade", no William Carvalho "a gasóleo", no Adrien "sem chama"... Até que entra Mané e mexe com o jogo, depois entra Fredy Montero e mexe ainda mais, sim, o jogo começava a mexer. Mané a defesa direito? Siga, Slimani insiste, insiste. Até que a seis minutos do fim, a hemorragia começou a estancar, o argelino marcou, muitos adeptos paravam à entrada da maratona, outros recuaram. Depois, com tanto anti-jogo bracarense, seis minutos de desconto, que além de naturais, nem seriam necessários... É que ao minuto 90+3 acontece um daqueles momentos míticos, únicos, impossíveis de esquecer a quem ame aquele emblema e aquelas cores: Montero, após magistral passe longo de Paulo Oliveira, usa da frieza clínica e marca. Marca e o Jamor vem literalmente abaixo, mais adeptos a regressar, adeptos regressados a subirem outra vez para as bancadas. Um sobe as escadas, passa por mim, batemos as mãos num cumprimento tão forte como marcador de um momento: tínhamos conseguido. Alcançado o mais difícil dos cumes, o Braga não arranjaria forças para (lá) chegar onde nós estávamos. Esse lugar onde já conseguíamos vislumbrar a glória. Essa glória que é o derradeiro passo do nosso lema. Reaprender a ganhar tem a ver com isso. Com estes momentos. Com estas conquistas. Num jogo inteiro derrotados desde os 15 minutos com menos um jogador, a perder 2-0 desde os 25 com criativos como Carrillo em sub-rendimento, com William e Adrien a jogarem tão pouco num meio campo com um a menos  - e a falta que teria feito João Mário...
Marco Silva explicara no balneário ao intervalo porque é que ninguém saía dali para o campo se não acreditasse na reviravolta. A mesma reviravolta já alcançada na Alemanha e literalmente roubada à beira do fim pelas conveniências de um patrocinador russo. Não, não é uma questão de sermos o segundo clube do mundo com mais títulos em todas as modalidades, ou de sermos o primeiro com mais títulos olímpicos. Não, a questão é mesmo o presidente não mandar o treinador embora. 

* - a propósito Luciano Amaral toca e bem no nervo. Sem mais comentários.  É da maneira que ainda dá mais gozo

terça-feira, 26 de maio de 2015

30.

A banalidade deste nosso luso-quotidiano não sustem nada, só detém; não eleva, só afunda; nunca deu prazer, só dormência; nunca entusiasma,  apenas mói. 

Barthelme

Genial padecimento de pós-modernismo e síndrome da escrita criativa. Quando se atira para dentro da frase somos levados por absolutos inusitados e logo ali desacreditados. Afinal não era nada, a ideia, claro, era levar-nos ao ponto uau (!), mas afinal... Não, não é fácil. As Avenidas de Palcos inauguradas por Rimbaud foram todas homologadas, aqui é possível visitá-las e ao mesmo tempo dizer que não são avenidas e que não está ali nenhum estrado. A escrita esse pode praticar-se a cada esquina com aulas especializadas e orientadas sob as técnicas mais inovadoras como qualquer academia de guitarra de Toronto. Pós-modernismo com escrita criativa é como neoliberalismo com Universidade Católica. Doutrina única decorada com um não é bem assim. Vais ter de explicar tim tim por tim tim e eles ir-te-hão fazer ver o que é, depende, e o que não é, depende. Tudo pelos óbvios preceitos da destruição criadora ou da desesperança ilusiva. Se não te dão volumes de provas - não podem - dar-te-hão volumes de preceitos. Para seres um bom pós-moderno terás de ter bem em mente que toda tua espontaneidade é mui facilmente desmontável e pode e deve apenas funcionar como performance. Se fores straightforward e/ou auto-destrutivo o suficiente dir-te-hão, sobranceiros, que todas as barreiras já foram escancaradas, não lhes falta luz solar e estão todas bem pavimentadas. Não lhes perguntes que barreiras são essas se não os quiseres fazer rir a bom rir. Aí sim, provocarás algum efeito de surpresa. Assim como um livro inteiro - muito bom,  diga-se - onde procurarás alguma coisa e tudo o que encontrarás serão apenas truques, dos bons e nunca vistos, é certo, grandes truques, ora toma. Pimba tumba catrapumbarás em nadas. Terás assim um curso intensivo de balística em módulo de absurdo ricochete. Claro que todas as balas serão de borracha. 

terça-feira, 12 de maio de 2015

Ghost Dog

Amigo, só consigo ter-me autêntico olhos nos olhos de igual para igual, como nas antigas pelejas a céu aberto - antecipar-me a mim próprio é um dos meus modos de combate. Toda a amizade primeira chega à primeira - só precisa ser selada num forte cumprimento. Tirada a bandeira invisível, essa superfície de lealdade - junta sólida de aço e tudo, condimentos bem medidos do verdadeiro sabre de samurai(s que somos). Mas já que o olvido nos deu a tabula rasa, e recapitulando todas as disciplinas, se calhar salvaste-me uma vida: uma ou mais. Isto muito antes desse princípio difícil de interiorizar: ter medo sem ter medo, o que é a mais dura matemática. Os números só sabem insistir. 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Particular Wiseguys

Já disse isto algures, mas foi mesmo pelo acaso ou palpite que me pus a investigar qualquer coisa sobre o Goodfellas de Scorsese e só aí dei com a extensíssima enciclopédica colecção de documentários sobre o fenómenoO caso óbvio em questão era a figura de Henry Hill (interpretado por Ray Liotta), mas também podia ser o de Jimmy "De Niro" Burke, ou o Tommy "Joe Pesci" De Simone.... Mas antes de mais nada quero confessar minha ingénua surpresa ao constatar que afinal toda aquela gente existia... Até calhou bem, pois logo ali arranjei ânimo para ir em frente - e o guilty pleasure foi menor - em toneladas de documentários que se ramificam e bifurcam e ramificam e bifurcam uns sobre (os) outros. Não sem antes - primeira opção consciente - ir dar a esse famoso infiltrado ladrão de jóias nome de código Donnie Brasco, nada menos que o famoso detective Joe Pistone, do FBI. O motivo, já se sabe, era o filme com o mesmo nomePequena ressalva: todo o cinema ou "cinema" sobre o fenómeno não passa da ponta do icebergue, mas continuando: tivesse entrado por Donnie Brasco, ao invés de Goodfellas, e teria logo para a troca documentários ou mini-documentários sobre Sonny "Michael Madsen" Black, Lefty "Al Pacino" Ruggiero, ou sobre aquele tal boss que sai do Cadillac ostentando o charuto, o infame Carmine "The Cigar" Galante. 
Já que falei em guilty pleasure - e é incontornável, o guilty pleasure - devo dizer que circundo as estórias destes péssimos fellas tanto por entusiasmo - não o nego - como para apaziguar ânimos - por vezes até mesmo para acalmar. Ali há muito por onde beber e não ataca o fígado. Por um lado existem histórias, carregadíssimas, cheias de mini-tramas e maiores enredos que encerrariam intrincados policiais e/ou thrillers, nalguns casos talvez westerns modernos. 
Temos a sorte de na nossa melhor literatura haver um extraordinário La Coca, de José Rentes de Carvalho, que nos dá um certo olhar e cheiro de outra realidade similar, se bem que distinta, trazendo consigo o acrescento literário. Também sabemos, segundo o escritor, que aquela gente existiu mesmo, o que traduzindo-se no aqui agora aguçou-me o espírito em relação a algumas histórias que ouvi da Costa Vicentina - mais outras que intuí e/ou imaginei. O que não temos é personagens para dar a ver em séries do National Geographic, do canal História, do Discovery, da BBC, do Biography Channel - ou jornalistas para isso com a classe de um Trevor McDonald, ou de um George Anastacia. Ou se calhar temos, em tempos tivemos, parece, um tal Joseph Barboza, que vendo bem parece uma invenção de George V. Higgins

29.

Encontro-a
Há todo um passado para nos dirigirmos
Se é que dirigimos
Quando era passado por vezes não sabíamos bem o que fazer
Connosco
Mas hoje é como se começasse tudo outra vez
Tudo, mesmo tudo, amolgado, de feridas
Nódoas negras traumatismos hematomas, nenhum vindo de nossos choques, é certo
Que esses não foram tão violentos já cicatrizaram
Mas surpreendo-me ao ver essa marca esquecida no seu olhar fundo
Eu fogo de vista ainda estranhava seu feitio traiçoeiro
No adiante hoje está a ver as coisas pela terra fértil, eu sempre pelo campo de combate
E de abate, com a consciência do tesouro que é por vezes tão pouca coisa
E fazer parte ou ter tomado parte para conseguir retomar nossa conversa
Como se o mesmo fosse outra primeira vez.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

«Então não vistes?»
«O quê?»
«A foto.»
«Que foto?»
«Aquela foto que eu pus lá. Não vistes, pus lá à bocado.»
«Ah! Essa foto. Vi, pois vi, então eu pus lá um comentário...»
«Pusestes?»
«Pus, pus nessa e pus noutra foto que fui lá pôr para tu ires ver.»
«Ver o quê?»
«Vais lá e vês.»
«Quando é que puseste lá mesmo essa foto?»
«Para aí há dez minutos.»
«Então não vi.»
«Pois, não deve ter passado ainda meia hora. Mas ontem à noite... Nem queiras saber. Estive lá até às quatro.»
«Ás quatro da madrugada?»
«Sim.»
«E o passarinho cantou?»
«Não estou a entender.»
«Mas como é que tu havias de entender. Não dormes...»
«O que é que tu tens a ver se eu durmo ou não durmo?»
«Porquê?»
«Porque parece que te causa espécie, que tens inveja. Mas eu agora só lá vou amanhã, para tua informação.»
«Sim, sim. É eu só acordar de noite para ir fazer xi-xi, ir lá espreitar e ver-te lá a pôr coisas.»
«Olha que tu também te deitas cedo.»
«Eu lá ir é só até à hora de jantar. Eu de noite só vejo a televisão.»
«Eu isso não. Eu cada vez vejo menos televisão. Qualquer dia fico só mesmo com a internet.»
«Pois. É internet no computador, internet no telemóvel, internet no ipad menor, internet no tablet maior... O que tu és é uma drógada da internet.»
«Se fosse drógada da internet, como tu dizes, não ia só lá amanhã.»
«Deixa lá que amanhã é só daqui a uma hora...»
«O que é que dissestes?»
«Disse que daqui a uma horas estás lá.»
«Olha-me esta, até parece que não tem telhados de vidro...»
«Agora fui eu que não percebi.»
«Olha, diz o roto ao nu...»
«Não sei que telhados de vidro estás tu a falar. Nem quem é o roto e quem é o nu.»
«Diz lá então como é que eu sou? Diz lá então como é que eu sou?»
«Que és uma drógada da internet. Sim, és uma drógada da internet. Passas a vida lá! A ti é só ir lá, ir lá, ir lá. Passas a vida toda lá, passas a vida inteira lá!»
«Deixa lá que te apanho lá muitas vezes... Tem vezes que estás lá tanto que já não te consigo é ver à frente.»
«Isso és tu a dizer. Por mim, inventa tudo o que quiseres. Eu até posso lá ir todos dias. Só que há uma grande diferença entre ir lá todos dias e ir lá todos minutos. Tu se calhar até quando tomas banho andas lá. Tomas banho, não tomas?»
«Não me estás a perguntar isto, pois não?»
«Então com tanto dispositivo, tanto dispositivo, algum há de ser impermeável. Vai na volta ainda tens um tablet em frente ao chuveiro. Deve ter sido o teu namorado que pôs lá um vidro especial numa caixa de vidro ou o caralho, e aquele fica lá para tu ires vendo, deves ter é de estar sempre a limpar as mãos...»
«Ai tanto disparate! Nossa Senhora!»
«Vais precisar de Nossa Senhora, vais. Vais precisar de nossa Senhora quando acontecer uma catástrofe e não puderes ir lá.»
«E continua...»
«Ah pois! Pode haver uma catástrofe que provoque uma avaria daquelas das grandes nas internetes. Não é um tremor de terra, filha, aquilo que eu te estou sempre a dizer-te. Não, é mesmo a internet toda a acabar! Olha que um dia...»
«A internet toda a acabar, diz ela...»
«Então fala com o Afonso para ver se o que eu digo não é a verdade. Ou então pergunta à Renata, que sabe essas coisas todas. Se não sabias, ficas a saber: a internet são uns cabos muita grandes ou lá o que, e é na América. Se houver uma grande catástrofe naquelas zonas onde está lá guardada a internet acaba-se a internet em todo o lado e cá em Portugal. Ou achas o quê?»
«Isso é mentira.»
«Não é mentira nenhuma. Foi lá que eu vi. Até vi as fotos dos cabos e tudo.»
«Viste lá onde?»
«É uma coisa da Rússia que o Afonso gosta. Eu também fiquei a gostar. Vem em espanhol retraduzido.»
«Conversas dos russos em espanhol. Pelo amor da santa!»
«Prontos, os amaricanos é que são bons, queres ver? Foram lá por causa do Saddam e agora aquilo é só terroristas, ou é mentira, queres ver?»
«Quero ver o quê?»
«Está-se mesmo a ver que não percebes nada disto. Não te informas. És ignorante.»
«Eu cá não percebo muito disso das guerras e das políticas. Nem quero perceber. São todos uns mafiosos, uma cambada de ladrões... Só estão lá para sacarem é o deles.»
«Eu também percebo nada disso. Mas ao menos interesso-me. E às vezes até encontro lá umas cenas fixes. Há lá muita coisa das politicas interessantes. Olha, ficas a ver como é que te andam a gamar...»
«Eu cá prefiro nem saber, nem perceber, só de olhar fico doente. Eu lá prefiro é outras coisas muitíssimo mais interessantes.»
«Bem sei. E que coisas...»
«Tu não me chateies...»
«Não te chateio mas volto a dizer que estás lá daqui a uma hora. Se quiseres até aposto contigo. É só mesmo chegares ao bules. Julgas que eu não sei? O teu chefe é que é tanso, ou então não vê é nada à frente. Vai na volta tem um fraquinho por ti.»
«És tão parva! Julgas que o meu chefe não sabe? O meu chefe também está lá sempre. Sou amiga dele.»
«Melhor para ti. Eu cá não tenho amigos chefes. Nem cá, nem lá. Com o meu patrão devia de ser bonito, havia...»
«Havia...»
«Havia de ser bonito, devia.»
«Tenho sorte. E depois?»
«Depois melhor para ti. Eu cá só quero a felicidade das minhas amigas. Lá também. Não sou nada invejosa, graças a Deuses.»
«Eu sei. Por isso agora até vais fazer um favor aqui à maninha.»
«Pronto. Tinha de vir. Já sabia.»
«As maninhas são para as ocasiões...»
«Então se as maninhas são para as ocasiões, diz ao menos o que é que é. »
«Espera...»
«Espero nada. Vá lá. Solta!»
«Não posso dizer.»
«Não podes dizer...»
«Não posso ainda dizer.»
«Ai não? Então está bem. Respondo na mesma moeda: se me disseres o que é, vou lá. Se não me disseres...»
«Não sejas má, vá lá, vai lá. Vai lá ver e vais ver. Tens é de ir lá ver. Se eu te disser agora não vale a pena. Perde a magia, perde a graça. Tens é de ir lá ver o que é que é. Aqui não podes, é impossível saberes. Tem mesmo de ser lá.»
«Prontos. Não tu repitas. Daqui a bocado vou lá. Satisfeita?»