Às tantas andei a registar, depois perdi esse rasto. Ainda bem, sinal que me deixei disso, de registar o óbvio da marca do assombro, da aparência da imortalidade. Até hoje, pelo meio-dia. Manoel de Oliveira era uma lenda viva, um dos nossos verdadeiros orgulhos. De um povo que, enfim, na sua maioria, sempre aproveitou para bocejar com a figura - como aliás fazia (faz) com outros como João César Monteiro - e para dele fazer galhofa, a pura batota da ignorância. Filmes vistos = 0. O que anula logo um Vou Para Casa, Aniki-Bobó, um Vale Abrãao, A Caixa, o Convento, Non ou a Vã Glória de Mandar, Viagem ao Princípio do Mundo, etc, etc. Mais de cinquenta desde 1931, entre filmes, documentários e curtas-metragens esticadas à longevidade de 105 anos. Aos 106, claro, a obra era para continuar.
domingo, 1 de março de 2015
Vício Inerente
Um clássico de instantes pode não ser clássico instantâneo. Mas é, lá está, um clássico. Leva o seu tempo - graças aos deuses não é para toda a gente (e tarda nada vai embora) -, é preciso dar tempo, ao tempo. Ver mais uma ou duas vezes. Ou já, ou para já.
sábado, 7 de fevereiro de 2015
Nebraska
Os lugares de infância, de memórias, são como ímanes que nos atraem. Foi onde tudo começou. Comove mais se cada lugar, cada rosto, ganhar uma profundidade fotográfica, aprisionada. Como se começando tudo a cores, o sonho se nos fosse desvanecendo em preto-e-branco - negro de dores, branco de memórias. Quando afinal tudo se estende no natural imenso, desse continente, onde nos perdemos, onde ainda pode ecoar o sopro índio, onde ainda ecoa a dignidade de um bom western. Onde não tem força a força da notícia se não vier acompanhada da gente comum - esse velho da terra regressando de passagem com um bilhete aldrabado da lotaria... O que no fundo é um pretexto, uma desculpa santa, um recado para lembrar como nos enganamos a nós próprios. Not much.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
23.
Ir ao lugar, aos lugares, visitar pessoas, apanhar a respiração, dos lugares, das pessoas, juntar ao ar outros ares. A sua calma era completa, relaxada. Bem que estava dentro do seu elemento. Sua existência, alheia, cheia, completa em todo o seu vagar. Naquele momento desfrutava. Naquele momento faltava nada. Tal como eu agora escrevo estas linhas calmas. Sobre um mundo de mundos que se mistura com mundos de mundos. Osmose e harmonia, presença pela presença, reconhecimento, tudo o que a projecção não projecta.
O Lobo de Wall Street
Só agora vi "O Lobo de Wall Street", mea culpa é demasiado exagerado, mas é a tal coisa, fui deixando passar enquanto estava no cinema, já não é a primeira vez que deixo passar um filme, nem sequer é a primeira vez que escrevo aqui que deixo passar um filme... Também tivesse ido pela voz de alguns críticos e talvez mesmo nem escrevesse estas primeiras linhas. Recordo bem como usaram e abusaram do piloto automático, ou desse belo chavão do filme de encomenda - faltaria terem escrito que o filme é uma bela encomenda, foi quase. Tudo tão certo assim à laia de palpite como eu dizer agora, por exemplo, que a próxima eliminatória da Liga Europa com o Wolsburgo vai ter uma derrota 2-4 em Alvalade por causa daquelas, como agora se diz, transições meio-campo ataque que foram a receita certa para esses sacanas alemães pulverizarem o Bayern a semana passada. Como se, enfim, o Sporting não tivesse as suas armas, não estudasse o adversário, a sorte e o azar não fizessem parte, não se tratasse de uma eliminatória de competição europeia. Ou simplificando, como se não tivessem visto o Bayern, a esmagadora superioridade do Bayern.
O cinema não é um jogo, bem sei, talvez o cinema negócio o seja, mas o raciocínio do crítico aqui é o do jogador de apostas: Leonardo Di Caprio ganhou os direitos do filme e contratou Martin Scorsese para o realizar, logo é um filme de encomenda. Não é que o léxico não vá lá. A palavra encomenda é que enfim, traz o recado, o envelope fechado, e imagina-se o resto - e aposta-se - atrás do décor, da direcção de actores, da mesa de montagem...
O cinema não é um jogo, bem sei, talvez o cinema negócio o seja, mas o raciocínio do crítico aqui é o do jogador de apostas: Leonardo Di Caprio ganhou os direitos do filme e contratou Martin Scorsese para o realizar, logo é um filme de encomenda. Não é que o léxico não vá lá. A palavra encomenda é que enfim, traz o recado, o envelope fechado, e imagina-se o resto - e aposta-se - atrás do décor, da direcção de actores, da mesa de montagem...
Scorsese é que não deve ter dado por nada, nem pela encomenda, nem pelo piloto automático onde andou uns bons meses, na cabeça de alguns, a viver e a trabalhar para esquecer, perdão, para aquecer. Da porém ficam algumas perguntas. The Wolf of Wall Street não é um dos clássicos scorseanos? Claramente não, não é um "Raging Bull", um "Goodfellas", ou um"Taxi Driver". Não é um grande filme de Martin Scorsese? Enfim, talvez, depende. Não é o melhor filme de Scorsese desde Casino? Isso já custa mais negar... Não é o filme que soa mais a Scorsese desde Casino? Isso então ainda custa mais... Mais perguntas: estão ou não estão ali ideias e bem definidas? E essa noção de desmedido que gostais tanto em "Goodfellas"? E aqueles planos sequência em voz off? E as inesquecíveis cenas improvisadas? Não está lá Joe Pesci a perguntar "funny how", mas está lá Matthew McConaughey numa cena de antologia, há um Jonan Hill em estado de graça a arrancar de improviso alguns tantos assombros, ou um Di Caprio com um discurso improvisado que ou muito me engano ou é (d)o melhor que fez em toda a sua carreira.
Não chega a Goodfellas, dirão os críticos - e digo eu - mas não são ou não são os wise guys mais interessantes que este tipo assassino de especulador da bolsa? Pelo menos são mais corajosos, arriscam a vida e vão mais vezes presos, perdoem-me a acidez. E faz ou não faz Martin Scorsese em O Lobo de Wall Street uma das coisas que sabe fazer melhor? A saber: mostrar o ponto de vista do personagem - seus pontos fortes, suas óbvias e não tão óbvias vulnerabilidades, seus pontos onde se deixa cair em tentação e não se consegue livrar do mal, amém.
Não chega a Goodfellas, dirão os críticos - e digo eu - mas não são ou não são os wise guys mais interessantes que este tipo assassino de especulador da bolsa? Pelo menos são mais corajosos, arriscam a vida e vão mais vezes presos, perdoem-me a acidez. E faz ou não faz Martin Scorsese em O Lobo de Wall Street uma das coisas que sabe fazer melhor? A saber: mostrar o ponto de vista do personagem - seus pontos fortes, suas óbvias e não tão óbvias vulnerabilidades, seus pontos onde se deixa cair em tentação e não se consegue livrar do mal, amém.
Posso imaginar o busílis em torno da amoralidade que não deixa ver a imoralidade em causa. Entendo. Mas Scorsese é sempre demasiado inteligente para entrar em especificidades, é demasiado instintivo, sanguíneo, temperamental, interessa-lhe o particular, não o geral, interessa-se o indivíduo, a circunstância, a alienação, a tentação, a ambição, as marés onde (se) navega. E tantas são as marés vivas, por vezes o mar é tumultuoso, é preciso mãozinhas para guiar o barco (sabe Deus como) a bom porto... "O Lobo de Wall Street" não é filme denúncia, paciência. É do mais puro entretenimento, paciência. Problema é que denúncia melhor que muito filme denúncia, paciência. Ao mesmo tempo que entretém como o melhor entretenimento, paciência. Tem todos os ingredientes de uma boa comédia-denúncia, porém não se trata de uma comédia, longe disso, mesmo que faça nos faça rir de humor negro como o já mais que citado Goodfellas nos faz rir com arrepios na espinha.
Ora voltemos ao Padre Nosso: os alçapões, esses tais lugares onde podemos cair em tentação e não nos livrarmos do mal. Claro que a desgraça e a ruína estarão lá no inferno à nossa espera, no nosso não, no inferno dos personagens, mesmo que tenham sobrevivido para nos contar a história. Ou que entretanto tenham sido "salvos" - como parece que o foram, pelo menos de uma longa pena de cadeia - quanto mais não seja pela confissão numa autobiografia que deu em best seller*. Martin Scorsese é um grande cineasta católico, porventura o maior de todos.
* - Henry Hill foi ao "confessionário" com Wiseguy pela ágil pena de Nicolas Pileggi, que Martin Scorese aproveitou. Jordan Belfort, com o seu The Wolf of Wall Street, que Scorsese também aproveitou - ou encomendou, ou segundo alguns, foi encomendado. Do primeiro abstenho-me de dizer mais, sei que morreu há mais de dois anos. Do segundo apenas sei que quase não devolveu quase dinheiro nenhum às vítimas do muito que foi mandado devolver
do muito que lucrou com o livro, com o filme, e com palestras que dá em todo o mundo com a notoriedade com ambos ganha.
Ora voltemos ao Padre Nosso: os alçapões, esses tais lugares onde podemos cair em tentação e não nos livrarmos do mal. Claro que a desgraça e a ruína estarão lá no inferno à nossa espera, no nosso não, no inferno dos personagens, mesmo que tenham sobrevivido para nos contar a história. Ou que entretanto tenham sido "salvos" - como parece que o foram, pelo menos de uma longa pena de cadeia - quanto mais não seja pela confissão numa autobiografia que deu em best seller*. Martin Scorsese é um grande cineasta católico, porventura o maior de todos.
* - Henry Hill foi ao "confessionário" com Wiseguy pela ágil pena de Nicolas Pileggi, que Martin Scorese aproveitou. Jordan Belfort, com o seu The Wolf of Wall Street, que Scorsese também aproveitou - ou encomendou, ou segundo alguns, foi encomendado. Do primeiro abstenho-me de dizer mais, sei que morreu há mais de dois anos. Do segundo apenas sei que quase não devolveu quase dinheiro nenhum às vítimas do muito que foi mandado devolver
do muito que lucrou com o livro, com o filme, e com palestras que dá em todo o mundo com a notoriedade com ambos ganha.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
5 Contos para Crianças
Foram todos lidos hoje:
- "O Estado está a praticar usura pura", denuncia Domingues Azevedo, bastonário da Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas (OTOC). "O Estado, neste momento, tem uma taxa de juro incoerente, porque os bancos já praticam um spread de 3%", argumenta. Em 2014, o Estado arrecadou 75,6 milhões de euros com a cobrança de juros de mora e juros compensatórios."
- "Em síntese, mais de um milhão e duzentas mil pessoas, em Portugal, estão mal perante o trabalho, ou porque estritamente desempregados, ou porque desencorajadas, ou porque ainda trabalham como subempregados involuntaria
- "A Academia de Música de Almada deixou recentemente de dar aulas e os professores estão sem salários desde novembro, apesar do esforço dos proprietários."Empenhámos os nossos bens pessoais para conseguir pagar ordenados, encargos à segurança social, finanças, alugueres e luz, necessários ao normal funcionamento de uma escola", contou à Lusa Susana Batoca, diretora administrativa e pedagógica da Academia de Música de Almada."
- "José Carlos Saldanha, um doente com hepatite C que assistia esta manhã à Comissão Parlamentar de saúde, onde era ouvido o ministro da Saúde, Paulo Macedo, dirigiu-se ao governante e pediu-lhe em voz alta: "não me deixe morrer, quero viver". Antes de abandonar a sala, mostrou aos presentes o desespero que sente por estar há meses à espera de autorização para acesso ao medicamento para a hepatite C. "Acabem com isto. Não há direito. Escrevi uma carta a dizer que pagava metade do tratamento e nunca me respondeu"."
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
VEM DE UMA ILHA DO PACÍFICO
No seu olhar ilhas do Pacífico
Sentindo mesmo não sabendo
Que já está cá há muito tempo
A vida inteira fora da ilha
Que ela não lembra mesmo quando lhe vislumbro fundos marinhos no olhar
Em qualquer manhã já pôr do
sol a doirar este pouco suportável Inverno
No escritório
Concentrada ao computador
Sem se lembrar nem conhecer nada
Sem se lembrar nem conhecer nada
Desse lugar de infinidades onde
se absorvem solares
Mistérios antes das estrelas
Tempos atrás de tempos atrás
Tanto o tanto que é de agora ela
ancestral lança dessa ilha de danças
E no que são nisso mil anos... Mesmo
mais mil de mil anos atrás, e mais mil
De mil anos... Dura nem um
segundo
Daí ela não sabe onde ficava para onde olhava
Ela que era ela homens mulheres formaram-se nela
Daí ela não sabe onde ficava para onde olhava
Ela que era ela homens mulheres formaram-se nela
Antes, muito antes da sua ilha
ser descoberta, do arquipélago
De todas as ilhas serem descobertas
Da primeira ilha ser descoberta...
E em todas as ilhas, a sua ilha,
ninguém saía dessa ilha
Havia uma só pequena só estrada
só
Para só ver o mar
Para só ver o mar
Só do horizonte se caía como
(se) da asa de uma ave
A jangada era fraca para tanto
voar...
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
(Notas de) Cavalo Dinheiro
1- Robert Brésson, Straub/Huillet, Godard, Tourneur, uns mais que outros (até) podem servir como aproximação ao cinema de Pedro Costa. Não chegaremos perto, talvez nem à metade, talvez nem à metade da metade, sentimo-lo, conta a voz do momento, conta aquilo que não sabemos, aquelas pessoas-personagens ficcionando memórias, ou melhor, realizando memórias. Com a diferença de se conseguir atravessar a parede traiçoeira do documentário ao (puro) cinema - a parede é dura, as marcas sofridas feridas da vida.
2 - Em todo(s) o(s) plano(s) (des)assombro, clareza, pureza sem mácula. A coragem típica dos cineastas criadores da (sua própria) gramática - como os já citados, ou um Pasolini, Bergman, Aki Kaurismaki, César Monteiro, Ford, entre outros únicos irrepetíveis - navegadores do perigo, dos territórios inexplorados, das visões que se permitem (como consumação) até às últimas consequências, escavando (todo) o cinema possível, conquistando (o seu próprio) território.
5 - Assim nascem aqueles personagens, que são pessoas, mais pessoas que (todos os) personagens. Personagens que aliás nem pensaríamos que alguma vez pudessem existir e ser possíveis, pessoas que jamais imaginaríamos que alguma vez se tornariam personagens - tão absurdas como reais, tão irreais como de carne e osso.
6 - Porém o assombro cinematográfico, a obra-prima - que o é - não é aqui o que mais interessa. O que mais interessa é essa verdade que se impõe, e essa verdade - como aliás o realizador - está longe, muito longe de toda a mise-en-scène desta sociedade do espectáculo, das maquinarias da (sua) produção... A cena final no elevador entre Ventura e o homem-estátua-soldado do MFA é bem a medida dessa verdade. Aquele soldado tem a voz dos fantasmas de Ventura. Acontece que alguns desses fantasmas também são nossos fantasmas, contemporâneos que somos, nem que apenas como descendentes, de toda essa realidade (de memória transmitida). Também é como se algo dentro de nós nos dissesse: "Um soldado do MFA, com que então!". Sim, um soldado do MFA. Como arquétipo, como arquétipo entre arquétipos esquecidos, esquecidos como tantos deserdados dos PALOP.
2 - Em todo(s) o(s) plano(s) (des)assombro, clareza, pureza sem mácula. A coragem típica dos cineastas criadores da (sua própria) gramática - como os já citados, ou um Pasolini, Bergman, Aki Kaurismaki, César Monteiro, Ford, entre outros únicos irrepetíveis - navegadores do perigo, dos territórios inexplorados, das visões que se permitem (como consumação) até às últimas consequências, escavando (todo) o cinema possível, conquistando (o seu próprio) território.
3 - Cavalo Dinheiro é de uma profundidade tal que muitos de nós, presumo - que de uma maneira ou de outra, viveram e vivem, mesmo ignorando paredes meias, toda a realidade pós-25 de Abril - o podem ler como dos filmes mais profundos - de uma profundidade insondável, incomensurável, cheio de raízes passadas e extensões futuras -, negros e fantasmagóricos que viram em vida.
4 - O plano parece iluminado entre o sentido material e espiritual do termo - olha-se o que se olha, vê-se o que não se vê. Ouve-se o que se ouve, sobretudo o que não se ouve. Tudo parece (e provavelmente é) estudado, trabalhado e improvisado para o (seu) momento, para a pura declaração do que é. E não é bonito de se ver, pelo contrário, confronta-nos (com) o esquecimento prestes a saltar para o reino do nunca mais: esse país que fingíamos que não víamos (abandonado), e que assim ignorado cresceu (em miséria, desespero, decrepitude, doença). Criado ou escravo, tanto faz, o dia é para acabar na barraca, agora no bairro social dos subúrbios, mesmo ás portas da cidade.
4 - O plano parece iluminado entre o sentido material e espiritual do termo - olha-se o que se olha, vê-se o que não se vê. Ouve-se o que se ouve, sobretudo o que não se ouve. Tudo parece (e provavelmente é) estudado, trabalhado e improvisado para o (seu) momento, para a pura declaração do que é. E não é bonito de se ver, pelo contrário, confronta-nos (com) o esquecimento prestes a saltar para o reino do nunca mais: esse país que fingíamos que não víamos (abandonado), e que assim ignorado cresceu (em miséria, desespero, decrepitude, doença). Criado ou escravo, tanto faz, o dia é para acabar na barraca, agora no bairro social dos subúrbios, mesmo ás portas da cidade.
5 - Assim nascem aqueles personagens, que são pessoas, mais pessoas que (todos os) personagens. Personagens que aliás nem pensaríamos que alguma vez pudessem existir e ser possíveis, pessoas que jamais imaginaríamos que alguma vez se tornariam personagens - tão absurdas como reais, tão irreais como de carne e osso.
6 - Porém o assombro cinematográfico, a obra-prima - que o é - não é aqui o que mais interessa. O que mais interessa é essa verdade que se impõe, e essa verdade - como aliás o realizador - está longe, muito longe de toda a mise-en-scène desta sociedade do espectáculo, das maquinarias da (sua) produção... A cena final no elevador entre Ventura e o homem-estátua-soldado do MFA é bem a medida dessa verdade. Aquele soldado tem a voz dos fantasmas de Ventura. Acontece que alguns desses fantasmas também são nossos fantasmas, contemporâneos que somos, nem que apenas como descendentes, de toda essa realidade (de memória transmitida). Também é como se algo dentro de nós nos dissesse: "Um soldado do MFA, com que então!". Sim, um soldado do MFA. Como arquétipo, como arquétipo entre arquétipos esquecidos, esquecidos como tantos deserdados dos PALOP.
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
Um Dia na Terra
1 - Nick Cave é um desses que sempre me marcou, já vem de há muito. Bom nos bons dias, perfeito nos maus dias - qual desinfectante para feridas complicadas, qual analgésico para frustrações -, vem mesmo a calhar ouvi-lo falar na canção como desafiadora da morte, a única capaz e com força suficiente para fazer arrancar a cabeça do dragão. Não que a ouvir Nick Cave já não tivesse sentido esse estado em que nos parece possível arrancar a cabeça a esse temível monstro que ainda por cima voa e deita fogo das entranhas.
2 - Nick Cave sabe dar a canção às palavras, mas também sabe dar as palavras à canção. É desses poucos - onde incluo Johnny Cash, Neil Young, Nick Drake, Mark Lanegan, Leonard Cohen, Van Morrison, Jim Morrison, Bob Dylan, Bruce Springsteen, Fausto, Sérgio Godinho, Serge Gainsbourgh, Paolo Conte, Chico Buarque, entre outros tantos; e não incluo tantos outros que são muito boa gente, certamente, até porque têm muito boa imprensa, mas de onde, enfim, ou muito me escapa, ou lhes falta um qualquer destes dois atributos para completar a equação, sobretudo dar a canção às palavras. Já nem falo dessa força, dessa fúria, desse intento visceral, da sentida inspiração, da mesmo que momentânea iluminação, da capacidade que nos faz ao menos acreditar que, se não é tudo possível, pelo menos é possível qualquer coisa, quanto mais não seja ouvir uma canção que nos encha as medidas. Isto com o maior dos pessimismos, claro, com a absoluta descrença do falhanço. Com tudo o que Nick Cave tem criado desde os Birthday Party.
2 - Nick Cave sabe dar a canção às palavras, mas também sabe dar as palavras à canção. É desses poucos - onde incluo Johnny Cash, Neil Young, Nick Drake, Mark Lanegan, Leonard Cohen, Van Morrison, Jim Morrison, Bob Dylan, Bruce Springsteen, Fausto, Sérgio Godinho, Serge Gainsbourgh, Paolo Conte, Chico Buarque, entre outros tantos; e não incluo tantos outros que são muito boa gente, certamente, até porque têm muito boa imprensa, mas de onde, enfim, ou muito me escapa, ou lhes falta um qualquer destes dois atributos para completar a equação, sobretudo dar a canção às palavras. Já nem falo dessa força, dessa fúria, desse intento visceral, da sentida inspiração, da mesmo que momentânea iluminação, da capacidade que nos faz ao menos acreditar que, se não é tudo possível, pelo menos é possível qualquer coisa, quanto mais não seja ouvir uma canção que nos encha as medidas. Isto com o maior dos pessimismos, claro, com a absoluta descrença do falhanço. Com tudo o que Nick Cave tem criado desde os Birthday Party.
3 - Junto ao poder do cinema, à forma como nele se pode projectar o valor do som e da imagem em sua gramática própria fundida às da canção e da palavra. Nick Cave diz que passa o tempo emerso a escrever, da escrita surgem as canções. Da vida, da morte e do porquê disto tudo ser tão escuro, tão negro, confuso, perdido. No labirinto de Cave, o que não é lúdico pelo seu humor tão negro, é trágico nesse sentido poético do termo, onde a saída é a sublimação do sentimento que não há saída. De onde se impõe por exemplo aquele encandeante acorde de orgão de Warren Ellis. Ou aquele final onde se completam e colam as diferentes peças do filme com a naturalidade como se explica a Forma da canção.
4 - Outra coisa são as palavras que trazem de dentro profundidades inauditas. Mas eis que entretanto as ideias já entraram, tomaram parte na casa... Verdade que vieram de dentro, seguindo a intuição segundo seu preceito de pensamento total concentrado, de expressão da sua e da nossa singularidade. Porque só nos conhecemos a nós próprios, quando, enfim, ainda não nos tínhamos conhecido.
5 - Isto num dia de nevoeiro, Nick Cave falava do tempo, da forma como temia a natureza a partir da janela de sua casa frente ao mar na cidade inglesa de Brighton. Eu pus-me a pensar que sim, que havia ali esse nobre velho sentimento respeitoso do temente a algo que nos ultrapassa e nos é incomensuravelmente superior - algo bem próximo e descendente directo desse antigo temente a Deus com que o homem se tomava perante a sua real insignificância, e que hoje faz condão em esquecer e ignorar... Depois, ou cada vez mais de vem em quando, lá vem a "velha" Natureza ser lembrada, antes de mais nada, num qualquer alerta vermelho. Depois... Cave falava nas nuvens que cada vez mais se vêem no céu a ameaçar a catástrofe. O que da Natureza e por sua natureza vem de quem está habituado a enfrentar dragões.
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PS: Este post vai atrasado, este blogue não é pago, e com isto aproveito para dizer que ainda há uma sessão diária do filme às 20 horas, enquanto houver sessões e enquanto houver salas...
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PS: Este post vai atrasado, este blogue não é pago, e com isto aproveito para dizer que ainda há uma sessão diária do filme às 20 horas, enquanto houver sessões e enquanto houver salas...
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
F
Comecemos pela Estrutura literária, essa maquinaria de realidade em F, de Luís Seabra. Uma lógica totalitária de que perigosamente nos aproximamos hoje quando a mentira é escondida por cosméticas, por forjados factos, por novas palavras para dizer o contrário do que significam, onde a orwelliana novilíngua ganha outras novas audaciosas cores. Tratando-se F de uma obra sobre o totalitarismo num futuro possível de estado policial total (com 10 % da população presa, todo o restante é suspeito) onde o único escape possível é o espaço do sono e do sonho por onde o detido se pode, enfim, libertar, mas onde o pesadelo é o único (elo) possível para o estado de vigília, qual teste de stress para os perigos da selva e antecipação dos piores cenários - de tortura, de medo, pressão constante da vigia e delação - de pesadelo como única chave dentro do pesadelo, o medo como única chave dentro do medo. Neste aspecto F remete-nos ao fascismo e estalinismo, entre outros totalitarismos, aos métodos sádicos de uma PIDE ou de uma Stasi. Mas não fosse apenas esse passado que nos assombra, não, para quem ler bem, em F é o presente que nos assombra. O presente como um futuro que temos muito por onde suspeitar, e se não assustar, pelo menos prevenir. Temos no presente o exemplo das prisões privatizadas de certas zonas dos Estados Unidos, bem dentro da lógica do lucro neoliberal, podemos supor um presente-futuro por essa mesma lógica corporativa que cada vez mais nos tolhe a esperança, que toma conta de nós próprios e dos nossos dias, dos nosso próprios governos, da Democracia, que dá-nos cabo da liberdade - ao que se torna implícita uma certa ideia de prisão, que neste plano inclinado por onde tudo piora, e tomando conta da linguagem, como bem sabemos que toma, pelo mecanismo da propaganda, pode adquirir no Estado Policial outros contornos mais explícitos.
Esses mesmos contornos tomam mesmo forma em F nos orwellianos Politique Nacionale de Regroupement Préventif, Ministére des Libertés et des Privations Publiques, Ministére du Conformisme, bem como nessa lecture contrante que nos lembra, e de certa forma remete, para esse dois minutos de ódio de 1984, de George Orwell. mesmo que numa lógica ainda mais sádica e perversa...
Quanto mais não seja porque F é sobretudo um romance de Estrutura, o que caracteriza a verdadeira literatura, que não se resume apenas ao que se passa e acontece, ao biográfico, ao arbitrário, ao aleatório, ao prosaico da vidinha. É a Estrutura que verdadeiramente comanda e distingue a literatura, que de certa forma protege a literatura, que ajuda a erguer a literatura, que torna a própria literatura como uma máquina da (sua própria) realidade. Em F a Estrutura é pois esse motor, força implacável que se autonomiza em si própria, que cria as suas próprias regras, que nunca se desliga do seu todo, do seu propósito.
Pessoalmente, numa obra gosto de observar de perto o "como é feito", ou o bem feito, se quiserem, e a verdade é que não há uma costura, como li algures numa das muitas críticas francesas à obra, tudo é feito de um modo e precisão clínica, há em F um sentido de economia, síntese, concisão, precisão e eficácia que o tornam absolutamente vertiginoso, mas vertiginoso em seu duplo sentido do termo - velocidade de leitura, e vertigem perante o abismo lá em baixo...
Mas voltemos ao presente, ao (nosso) mundo com esses certos dirigentes e funcionários das corporações que nos mandam e comandam os dias, quais oligarcas, o nosso sistema económico, e, cada vez mais, o nosso sistema político, já para nem falar na massiva propaganda. Têm para isso esse bom veículo: os idiotas úteis e "úteis" que não têm o que nunca tiveram nem podem ter na vida: uma voz própria. O que não quer dizer que não tenham uma voz, e uma voz bem mais forte que a nossa: a voz da corporação, da organização, do orgão, da empresa, tomado com princípio, meio e fim de todas as coisas. Mas não só, também como alimento de onde extraem a energia, a razão de ser, de estar, de viver, sentido (único) de utilidade, até mesmo, vá-lá, de um certo módico de talento, e também, porque não, desse génio perverso que mais não vem que desse tão forte e puro instinto de sobrevivência de todos os medíocres deste planeta. Sempre e sempre na defensiva, claro, pois nada existe fora da organização. Onde a liberdade, qualquer forma de liberdade, por mais ténue que seja, é tomada como a verdadeira inimiga, o alvo a abater. À qual o medo, o terror e a constante suspeita são a única possível e eficaz forma de a poder neutralizar e domesticar. Porém é preciso mais alguma coisa, de forma a tomar a tarefa possível, para organizar (desorganizando), para legitimar por fim, a organização totalitária é precisa a mais intrincada burocracia.
A isso, normalmente, há um dado que escapa: a burocracia tem de ser incoerente. Também não deve ser claramente inteligível (apenas o suficiente) e deve ser pautada pela disfuncionalidade, uma disfuncionalidade não assumida. Ou seja, a matéria de aperfeiçoamento deve confundir-se com sua matéria de confusão. Com coerência não sobra espaço para manigâncias. Com coerência há um módico de regras, um jogo de causa-consequência, um mínimo sentido de regra e de justiça. Sobra assim pouco para o escorregadio, para a calúnia escondida, para o veneno sub-reptício. Porém a própria mentira, como algo assumido, assumiria sua verdade, claro está, a novilíngua-propaganda tem de dizer que sua mentira intrínseca é verdade. Que nada é digno de ser questionado, algo que só a burocracia legitima, alimenta. Todos os átomos dessa Prisão de Schendorf - com os seus detidos e seus polícias e directores e vigilantes, todos delatores - estão encerrados nessa mesma estrutura molecular de Prisão Ideia. O princípio, o meio e o fim último só querem dizer uma coisa: Prisão. Todos estão presos. Lá fora também. Da própria prisão já não há escape. Onde tudo (nos) é vigiado. Onde se é detido em intrincados mecanismos burocráticos, claro está. Numa sociedade onde o delito maior é ir, nem que seja ao de leve, contra essa mesma ideia de sociedade como prisão.
Não é preciso irmos muito longe, basta pensarmos na nossa PIDE, e não é preciso dizer mais nada... Claro que é necessária a Mentira para simular as formas. Claro que é necessário o Terror e o Medo para não dar espaço ao pensamento. É necessário que o individuo se renda, mas que se renda incondicionalmente. É preciso encerrá-lo, completamente, sua prisão intrínseca não deve gerar aberturas, se o gerar cá fora, é preciso pois encerrá-lo dentro. Nesse mecanismo, político e/ou corporativo, o indivíduo não conta, não existe. É preciso jogar com os piores fantasmas da mente, com o modus operandi da constante e absoluta desconfiança, com a quebra de toda motivação, pela mais aleatória imprevisibilidade onde cada um sabe que pode a qualquer momento ser apanhado pelas engrenagem implacável de uma sociedade prisional totalitária.
Remetemo-nos aqui para romances como 1984, ou Brave New World, ou mesmo o Processo de Kafka, entre outros. F deixa um alerta claro, um aviso. Deixa-nos de certa forma em sentido, mas por outro lado não nos deixa de deslumbrar em seu jogo cirúrgico, que nos manipula e leva exactamente como e para onde quer, em termos físicos e como ideia: para a prisão. Ali estamos tão desorientados como o advogado Linz, ou o Director da prisão Boehm, ou o preso F, que tem o verdadeiro poder, e é muito mais que um preso, e mais não digo. Mudemos de assunto.
A pena do escritor parece conhecer aqui cada palmo de terreno, seu próprio tabuleiro de jogo. Comanda e domina os recursos com uma notável lucidez visionária, ao mesmo tempo que em torrente (não confundir com torrencial), cadência e ritmo uniformes, mas impiedosamente incessantes, a matéria é contada nessa tal dupla vertigem com uma notável gestão dos tempos. A própria informação (elíptica) é pois gerida por essa já tão nomeada Estrutura que se ergue a alta altura e que a própria leitura completa e integral da obra não deixa ver completamente. Nem poderia ser de outra maneira, de outra forma não haveria forma de deixar a via aberta à liberdade, ao sonho, à ficção. O veneno de F traz também a sua cura.
Falando em Estrutura, outra referência menos óbvia, mas que está, a meu ver, bem presente, é Alfred Hitchcock, muito mais que a referência a David Lynch que tanto se repete na imprensa francesa. Não há em F uma ponta solta, mesmo que tudo possa ser, enfim, sonhado, o que há é sim essas típicas cadeias de suspense que arrasam "cenários" criando novos "cenários" com novos intrigantes (e intrincados) elementos num continuum inédito, intrigante e tanto ou quanto assustador. Há ali suspense, não qualquer ideia de terror subjacente, tudo se alicerça sim numa lógica geométrica cuja solidez, comprovada, em nada é garantida, e onde a cada instante, o chão pode cair debaixo dos nossos pés. Sim, estou a pensar em Vertigo - que devia ser traduzido em português como Vertigem mas saiu esse "misterioso" A Mulher Que Viveu Duas Vezes.
Em suma, é como se a ideia de Prisão per se, até ás suas ultimas consequências, constituísse o próprio MacGuffin da trama. Problema é que o espaço dado à adivinha e respiração é muito pouco, como é óbvio. A absoluta claustrofobia prisional assim o impõe. Contudo, esse claro, audacioso e mesmo intrépido jogo de adivinha, não tem como propósito o seu próprio adivinhar, daí o MacGuffin.
Franz Kafka é presença ainda mais forte, sobretudo pelo seu lado intrigante e obsessivo, pelo seu lado lúdico perante o horrendo, numa certa forma como somos martelados pelas palavras, na impiedade bizarra e ao mesmo tempo livre e estranhamente objectiva. Porém, a meu ver, a maior influência de F - não tanto no estilo, mas sobretudo na forma e na ideia - está em Jorge Luis Borges. Borges não apenas pelo labirinto, que existe e tanto nos perde, mas sobretudo porque paira na obra como um todo, e assim no seu todo, marcando o início e o fim de F. Começando na frase inicial - "A certeza de que tudo está escrito nos anula ou faz de nós fantasmas" - que ao longo da leitura cada vez mais nos surge desligada da obra, mas que se introduz (diria que se injecta) em seu final para pôr os pontos nos iis - calibrando tudo em seu todo de sonho e/ou pesadelo - como Literatura, Estrutura, máquina literária total.
Esse epílogo de F, borgiano quanto baste, é a centelha, a margem de esperança, esse céu que se abre sobre a Prisão de Schendorf e sobre nós com ela. E como Borges também tinha seus pesadelos, essa ideia do não está nada feito, é precisamente essa mesma mensagem de esperança que se deixa em aberto na leitura. De esperança sim, mas também de desafio, de mote, de urgência. Esse aviso que também é uma realidade: não está nada feito porque na realidade não está nada feito - a própria ideia de que está tudo feito em tudo carece de prova, problema é que nunca prova coisa nenhuma - mas sobretudo porque em si a ideia de que está tudo feito é a mais pura receita para a auto-anulação, para a renúncia do presente, para a arte de manipulação e lavagem cerebral, para a propaganda da mentira, em suma, para o desastre. A própria linguagem, no seu quê de jargão, exprime o óbvio contra tanto nariz empinado que é muito boa gente que para aí anda: se pensamos que está tudo feito, está tudo feito...
Como se a liberdade já estivesse construída e não estivesse por construir, como a liberdade não fosse algo que se constantemente se conquistasse, como se a liberdade não fosse em si uma ideia de verdade. Sim, a ideia que está tudo tudo feito é apenas uma ideia de prisão...
domingo, 2 de novembro de 2014
DESPENSA
Ando
a escrever textos para a despensa. Não se aproveitam, eu sei, mas sempre
se podem aproveitar. Bem guardados e preservados, talvez um dia ainda me façam
uso e já os tenho. E se vou lá buscá-los é porque preciso deles para alguma
coisa. Uma despensa de textos, sim, de palavras, de frases, de ideias, de
parágrafos, de expressões, coisas que não se distinguem muito das outras
despensas bem ou mal arrumadas. Bem ou mel amanhadas.
Todos
as têm, todas existem. Algures mais tarde que o dia de um princípio - esse
arquétipo platónico da Despensa, a ideia de um princípio, o princípio da
Despensa. Tenho-o aqui mesmo no Scrivener, guardado para a Dropbox.
O que no século XX era para a gaveta, também o uso no bolso do casaco. Lá cabe
um Black & Decker, há fita-cola, cola-tudo, chaves de fendas, chaves
de pregos, alicates. Há até lá mais ferramentas de que nem sequer sei o nome. Às vezes tenho de perguntar a alguém, se
não houver ninguém sempre posso usar o dicionário, ir a sítios da internet
especializados, por vezes mesmo à Wikipedia. Só estou-me a esquecer do mais
importante: o martelo. O martelo é das ferramentas que me dão mais jeito.
Claro
que é tudo uma questão de feitio, do feitio da despensa. Depois sim, o meu
feitio lá se terá de arranjar com a forma como estão os meus escritos
dispensados, guardados ou mesmo atirados à má ré por essa porta e depois fecho a porta - talvez até
nunca mais.
Essa despensa que abarca disciplina(s), mas que traz em si o mau
arranjo das indisciplinas. Por outro lado - porque eu até agora apenas
me fiquei pela caixa de ferramentas - não quer dizer, nem pouco mais ou menos,
que vos esteja a falar de tudo. Porque, claro fica, há para lá muita mais tralha.
Por exemplo um escadote, por exemplo um aspirador que não trabalha, dois
tapetes de rua, um tapete de banho, um banco partido, duas fichas triplas,
quatro gavetas metálicas, madeiras várias… E ainda não toquei no mais
importante: os produtos alimentares. Falo no atum de conserva, no feijão, no
milho enlatado, nos quilos de arroz. Esse produtos uso mais que os alicates ou as chaves de parafuso, claro
está. É quando nada mais tenho, e cozinhado ainda melhor. Se bem que dependa, é
preciso aferir da qualidade do esboço escrito.
domingo, 26 de outubro de 2014
Estacionados e Agachados
Andamos todos ao mesmo, dizem certos. Não quero concordar. Porém circundo o bairro, são quase duas da manhã, e é como ver carros estacionados contornar a cidade inteira. Juventudes do presente, old vintage, velha guarda, num bar todos se guardam do tempo em reservas ultra-condescendentes. Portanto tudo na mesma, pior que a lesma. Nunca nos mexemos e mal contornamos os obstáculos. Estacionada no passado, a antiga expressão andamos todos ao mesmo soa ainda pior hoje. Do mais, é uma expressão feia, agachada, pior que a vulgar meter todos no mesmo saco. Na verdade, este ar aqui nunca foi fresco, puro só mesmo fora deste transito humano estacionado. Não há lugar para ninguém. Culpam, reculpam, desculpam, mas sempre consoante o estacionamento. Vá-lá que os automóveis guardam segredo. Não têm nada a ver com isso.
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Navegação Ponto por Ponto
1 - Como é que o homem aprendeu a navegar? Tirou uma carta de marinheiro. Coisa recente. Antes podia ir navegando, navegando e navegado, lá ia escrevendo essa carta. Então era um ponto a ponto, ponto por ponto. Aos poucos, partindo, chegando, naufragando - das jangadas às barcas, das barcas aos navios mais avançados: petroleiros, cruzeiros, porta-aviões, cacilheiros...
2 - Dizia que era giro o que dizia, giro no sentido de engraçado, com piada no sentido de gozado. Cheio desse sentido de humor unilateral que quer que os outros achem graça como George W. Bush queria exportar Democracia para o Iraque.
3 - Gostava de ver-te tirar carta de marinheiro. Mais ainda que a escrevesses. Ponto por ponto. Escrever como? Pois, boa pergunta: escrever como?
4 - Antes escrever o presente que editar o passado.
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
A Maldição do Detective
Quem viu a absoluta obra-prima (assim mesmo: absoluta obra-prima) que foi essa incrível série da HBO chamada "True Detective" sabe bem o que significa a Detective's Curse. Aplica-se à vida, claro. Então em relação à "incompetência" (as aspas são absolutamente deliberadas) deste Governo, o que está à frente do nariz é tão óbvio que nem parece verdade. Mas não é? Está mesmo à frente do nosso nariz.
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
Sentido
A palavra Sentido é o Santo Graal, o El Dorado. É o que quiserem da nossa língua, a palavra sentido pode até trazer em si o Quinto Império. É uma arma de construção maciça. Funde sentimento com direcção. Ou sentimento com propósito e direcção. Por outro lado, também pode tornar uma pessoa sentida. Ou deveras sentida. O que pode ser bom. Também pode ser mau, seu pólo negativo mostra que também pode ser uma arma de destruição, não diria maciça, mas no mínimo destrutiva. Tudo depende pois do uso que se dá ao sentido. Tanto do uso do seu sentido, como do seu uso sentido. Tudo faz sentido pelo sentido.
Snobeira
A única diferença da snobeira de esquerda para as outras snobeiras é que esta acha que não é snobeira. E achando que não é snobeira também acha que tira o cavalinho da chuva à mais habitual snobeira, pois que sua autenticidade e pureza está imune e acima de toda a snobeira - essa coisa de direita, queque, essa coisa de classe...
Já a snobeira de direita é uma snobeira que se orgulha e muito de si mesma. Auto-consciente e auto-estimada, bem trabalhadinha e aprumada, não se estranhe por isso que traga consigo uma mais variada gama de trejeitos e remoques, de tiques e de toques. De resto, zomba da snobeira à sua esquerda, sabendo que também ela é zombada.
De resto, é tudo farinha do mesmo saco. Pudera, vem da mesma colheita, o produto é o mesmo. Nada difícil de entender à luz de umas luzes de Charles Darwin. Pensemos no exemplo dos ursos e suas diferenças devidamente adaptadas a cada meio ambiente natural. Um teve mesmo de se tornar branco (o magnífico urso polar), os outros, enfim, nem por isso. Mas são todos ursos. Ou não são ursos?
Mímicas
- Ser adulto é saber ler as temperaturas e os diferentes comprimentos de onda. Mas não é preciso ter um termómetro...
- És jogo de ti próprio mais do que jogas o jogo de ti próprio.
- Um simples propósito não quer dizer um de propósito, menos ainda um a propósito. Lá porque se combina bem, não é para ser sempre combinado.
- Fatal erro de equilíbrio: confundir um desequilíbrio, com um em desequilíbrio.
- És jogo de ti próprio mais do que jogas o jogo de ti próprio.
- Um simples propósito não quer dizer um de propósito, menos ainda um a propósito. Lá porque se combina bem, não é para ser sempre combinado.
- Fatal erro de equilíbrio: confundir um desequilíbrio, com um em desequilíbrio.
Algures no Peru, milhares deles se juntam na praia como numa romaria. No mar, dezenas ou centenas vão para ali saltar acrobacias, quais surfistas sem tábua. Mais também parecem ginastas olímpicos com seus mortais além da crista da onda. Secção essa excelentemente narrada por Josh Brolin para a série documental Untamed Americas, que gravei há uns tempos ao acaso e é uma maravilha que não sei bem ainda como classificar, a não ser que dá no canal National Geographic. O que mais nos maravilha ali é a ideia, o rigor, a tenacidade que se sente em todo um trabalho de transposição de uma realidade instantânea e irrepetível, capacidade essa de não apenas dar a ver - o que faz toda a diferença - a mesma Natureza em seus enredos que amiúde repetidos acabam por aborrecer o leigo que apenas constata que as espécies existem. Género quem vê um vê muitos* .
Apanhando de tudo um pouco ao longo de todo um continente de norte a sul - do Alasca à Patagónia - tanto faz que seja ordenada ou aleatória a forma como é apresentada cada espécie ou situação dentro da temática de cada um dos quatro episódios: Montanhas, Costas, Desertos, Florestas.
Uma banda sonora de reminiscências cinematograficas (a fazer lembrar o Paris/Texas ou qualquer road-movie que se preze) seguida pela sentida e impressiva narração de Brolin através de um texto que em sua verdade, metáfora, timbre e imagética consegue em cheio fundir ideia com presença. Ora é precisamente o que se vê que acaba de servir como mote. Cada sujeito, cada assunto, cada espécie, há ali muita coisa para contar, não temos apenas as belas ou tristes histórias de quem sobrevive ou não, e de quem se impõe ou não se impõe.
Cada espécie em sua especificidade que aprofundada se pode tornar idiossincrasia; ou com melhor sorte, ainda pode descambar em fábula. Falo em fábula moderna, ou pós-moderna, se quiserem, também pode ser. Não, aqui já não é apenas o leão que vê e a fêmea que caça e a ursa que hiberna e depois tem de caçar. Não, somos muito mais parecidos com os animais do aquilo que pensamos. [continua...]
* - tive de ver muito documentário de leões na savana em criança e não só para, como simples leigo, estar habilitado a dizer isto, alguns de vós também, aposto. É quase senso comum.
quinta-feira, 9 de outubro de 2014
Um Diabo no Paraíso
O diabo está nos pormenores. Conrad Moricand, tornado (o) personagem de Um Diabo no Paraíso, de Henry Miller, adivinhara os signos de todos os comensais numa qualquer mesa de jantar. Podiam até mesmo estar de costas. Mesma coisa com certa senhora que, sei de fonte(s) fidedigna(s), olhava para alguém e logo lhe adivinhava o signo, o ascendente, a lua e o pormaior do pormenor do aspecto e da conjugação planetária...
Fernando Pessoa falhou o dia da sua morte em exactamente seis meses. Ele que previa e intuía bem dentro da alta astrologia. Mas que também recusaria saber numa mão seu Destino. Porque não somos donos do nosso Destino, dizia. Desta tomada de posição a propósito das artes de adivinha, e a previsão de seis meses certeiros ao lado da morte, há de haver um longo caminho escuro a percorrer. Ou mais prosaicamente, um valente buraco no texto. Ou talvez não. O suposto Diabo no Paraíso já não saía sequer do seu quartinho alugado. Capricórnio de signo, regido por esse Saturno de toda a limitação, como não podia deixar de ser, achava ele que nada podia fazer para poder lutar contra toda a adversidade que vinha escrita nas estrelas. As cartas, os horóscopos, alguns mesmo colados à parede, não o deixariam mentir... Tudo na miséria dos aspectos astrais batia certo, calculado, fazia todo o sentido. Entretanto desenrolava-se em todo o horror a Segunda Guerra Mundial. E entre os bombardeamentos, o ocultismo das cartas.
Eis tudo o que me lembro da leitura há mais de vinte anos desta singular obra de Henry Miller. Não era preciso ser uma obra-prima quando o que mais dali advinha era a fúria escarrapachada por e/ou contra aquele amigo que às tantas já não sabemos se afinal era um ex-amigo. Porque o que sobressai mesmo é essa zanga de espécie, essa tão humana zanga, que mais não é que uma imensa fúria contra o desagradável aviltamento humano. Existe mesmo gente assim. Gente que se torna impossível caída que está no paradoxo de adivinhar seu futuro. Escrever parece pois essencial para interpretar o fenómeno, não necessariamente o futuro, mas pelo menos certa gente. E apanhar o diabo nos pormenores. Talvez mesmo nalgum paraíso.
terça-feira, 7 de outubro de 2014
22.
Fugir de algumas praias em épocas altas é também estar em consonância com os robalos. Por exemplo há dias um dos veteranos daqui apanhou um daqueles enormes ao pé da ponte (três quilos, parece). Eu mesmo, se quisesse, bem podia ter-me armado em Robinson Crusoe. Tanto mas tanto robalo, nadando à beira mar, nadando à beira rio. Sem medo. O máximo mesmo era desviarem-se um pouco quando mergulhava, numa atitude que mais parecia dever à boa educação que outra coisa, como que a dizer deixa lá este aqui também poder nadar à vontade... De resto, é quase como se quisessem ser apanhados. Ou como se quisessem dali ser desafiados. Mas não vale a pena cair em aparências. Iludem, andávamos é ao mesmo, em paz e longe do maralhal, que volta. Que sempre volta. Pelo menos para ali sempre volta.
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
Cinema
Toda Ela é Cinema
Sua presença se sente
não apenas se vê
não se filma meramente
Também nem que a visse antes
Musa-imagem assim fotografada
Iria alguma vez imaginar como
Absorve todo meu olhar filmada
E que em seu longo plano me tento
Como vento a emergir da escada
Em todo um acto que só vendo
Pairar depois assim de mim picada
Toda Ela é Cinema
Longo curto mover fixada
Dissipando a parte do presente
É todo o plano ficará mais nada
Sua presença se sente
não apenas se vê
não se filma meramente
Também nem que a visse antes
Musa-imagem assim fotografada
Iria alguma vez imaginar como
Absorve todo meu olhar filmada
E que em seu longo plano me tento
Como vento a emergir da escada
Em todo um acto que só vendo
Pairar depois assim de mim picada
Toda Ela é Cinema
Longo curto mover fixada
Dissipando a parte do presente
É todo o plano ficará mais nada
"Let's Play Cards"
A violência em Abel Ferrara é uma violência. Não é agradável. Não é preciso pintá-la em sangue e morte para torná-la impressiva. Não é estilizada à Tarantino. Não é coisa de efeito (nem é) decorativo - mesmo quando traz em si todo um jogo... Também não é aquela violência reflexão sobre a violência, como em seu Mestre Pasolini. Abel Ferrara assume Pasolini e Godard à cabeça, e quando muito, John Cassavetes, mas tem de tocar seu próprio som, que isto a cada músico a sua peça. Isto escondendo muito bem o profundamente auto-biográfico, que com algum conhecimento de causa, se pode ver ali bem impresso em filme. Esse cinema de quem se sabe fundir num argumento para depois, na realização, na improvisação com os actores, na importância do som e da fotografia, e até mesmo na produção e tudo o que rodeia a feitura da obra - como não podia deixar de ser quando falamos em verdadeiro trabalho de equipa e espírito de missão ou mesmo de guerrilha - tudo se completar em seu círculo círculo coeso, denso e fechado: «is an honour to make movies, a gift from God», diz o cineasta ítalo-americano algures enquanto lembra esse Orson Welles que levou quase uma vida inteira a achar que começaria a filmar na semana seguinte...
Voltemos pois à violência, que é o que aqui é me interessa (eis no que dá começar posts pelo fim), ao invés de é aqui o que interessa. Porque apesar de tudo é uma violência que nunca é princípio, meio ou fim, pois não tem princípio, nem meio, nem fim - ou mesmo forma de (se) acabar. Essa violência que, improvisada, é também contida e distendida, para poder disparar a todo o momento. Como nesse célebre jogo de cartas que acabou quando nem sequer tinha começado.
Voltemos pois à violência, que é o que aqui é me interessa (eis no que dá começar posts pelo fim), ao invés de é aqui o que interessa. Porque apesar de tudo é uma violência que nunca é princípio, meio ou fim, pois não tem princípio, nem meio, nem fim - ou mesmo forma de (se) acabar. Essa violência que, improvisada, é também contida e distendida, para poder disparar a todo o momento. Como nesse célebre jogo de cartas que acabou quando nem sequer tinha começado.
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
Há uns anos andava por Campo de Ourique um sósia de Samuel Beckett. Não sei se algum de vós o viu. Se o viu então sabe. Eu via-o sempre ali perto do Bitoque, em plena Ferreira Borges. Depois um blogue entretanto extinto e depois reabilitado testemunhou-o para a posterioridade, ou pelo menos, vá-lá, como marca dos dias. Não era para menos e repito: Samuel Beckett ali perto do Bitoque, em plena Rua Ferreira Borges, muito fácil de encontrar.
Pois Vila Nova de Milfontes deu-me ontem o seu primeiro sósia. Um sósia menos distinto e brilhante. Mas distinto e brilhante de outra maneira. Era um sósia mas ainda assim foi preciso ver melhor. Então estava para ali de tablet na praia. Se arrastava a neurose não sei. Parecia é assim meio à rasca com qualquer coisa... A expressão a puxar o ansioso, os olhos assim meio esgazeados. Exactamente o Franky Vercauteren* do Sporting. Assim meio esgazeado, assim meio à rasca.
*- o oposto do grandíssimo Vercauteren da minha infância que tão grande jogador era.
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
O Clima e a Meteorologia
Disse que a deixava sempre em baixo. Ele acusou o toque. Pensava que era amor, que se amavam. Ela confundia infelicidade com cansaço. Ele cansaço com normalidade. Então ela acusou o toque. Se tinham vivido a felicidade, viviam agora a ilusão da felicidade, miragem de horizonte longínquo. Mas já só pela ilusão se dirigiam. Uma ilusão de espelho invertido. Ela a esconder a infelicidade. Ele a ver a máscara. Então nem sequer tentava. Cansaço. Era por si mesmo que se cansava. E se alguma vez esse cansaço desaparecesse, como por magia. Ambos iriam confundir clima com meteorologia.
terça-feira, 23 de setembro de 2014
Massagens
- Podia escrevê-lo, descrevê-lo, reinventa-lo, matá-lo, transformá-lo. Isto enquanto ia e vinha. Mas não, não merece. Não merece nem uma linha.
- Literatura como literatura. Não literatura como relato. Literatura como máquina, como estrutura. Não literatura como perícia, como notícia.
- A frase é boa, mas sua arquitectura uma aberração. Sem engenharia nem guarida, sem sentido nem como beco sem saída.
- Escrevia, mantinha-os todos na linha. Vingaram-se, terão de voltar à linha.
- Fácil de distinguir. Uma é escrita que sai das entranhas. A outra força as entranhas. Uma vem de dentro, qual vulcão transbordante; a outra, não é preciso nos atirarmos a esse poço.
- Literatura como literatura. Não literatura como relato. Literatura como máquina, como estrutura. Não literatura como perícia, como notícia.
- A frase é boa, mas sua arquitectura uma aberração. Sem engenharia nem guarida, sem sentido nem como beco sem saída.
- Escrevia, mantinha-os todos na linha. Vingaram-se, terão de voltar à linha.
- Fácil de distinguir. Uma é escrita que sai das entranhas. A outra força as entranhas. Uma vem de dentro, qual vulcão transbordante; a outra, não é preciso nos atirarmos a esse poço.
sábado, 20 de setembro de 2014
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
Sentir Bem Sentir Mal
Tanto fazemos porque sentimos que está certo. Por vezes mesmo contra o que nos diga o contrário, contra toda a razão que diz estás enganado, contra toda a evidência. Mas sentimos, sentimos que o devemos fazer, que temos de fazer, que é premente fazer, que é mesmo urgente e o mais correcto fazer. E esse sentir leva-nos e fazemos o que sentimos, o que a intuição nos manda e comanda até ao fim para percebermos que fizemos bem, que estávamos mesmo certos em seguir o que sentíamos certo. Damos então toda a razão a nós próprios, agradecemos, se for caso disso, também à bendita intuição, ao ser certeiro, damos por adquirido esse eu bem sabia, estava cá com um feeling, uma fezada (ou seria fé?), etc.
Outras vezes - bastante menos, já que é preciso ter ultrapassado um tal "Meridiano da Intuição" e assim dar-lhe carta branca - vamos também nessa direcção, fazendo o que sentimos que é certo, achando mesmo que a dita infalível nunca falha nem se atrasa. Nunca mesmo até chegarmos à outra prova dos nove, ao diferente tira-teimas... Então nunca falhou até falhar... Depois, depois enfim, olha, chapéu, chatice, paciência, ui, que isto afinal estávamos errados, que eu não sei bem o que (me) aconteceu. Então se é grave estávamos completamente enganados, redonda mas redondamente enganados...
Vergílio Ferreira dizia que não havia isso do escrever bem, mas apenas o sentir bem. Tendo a concordar cada vez mais com isso. Cada vez mais tendo também a pensar nela, a pensar e a sentir que é verdadeira. E dá mesmo para usá-la de várias maneiras, assim à laia de prova cientifica. Por exemplo também posso dizer que não existe apenas o sentir bem como também o sentir bem bem, e o sentir bem mal. Só numa dessas de destronar certezas. De achar falível toda a arrogância que acha toda a intuição infalível. E assim me fico a sentir bem.
sábado, 13 de setembro de 2014
Gerador
Nas
alturas em que a gente se sente mais fraca e toda a carga do mundo
nos cai em cima. Quando nem centelha de luz nos deixa ver no escuro do túnel. Nessas alturas de degelo pessoal, dizia eu, de Inverno longo, desesperado. Nessas alturas sem qualquer espécie de altura, onde só há mesmo uma forma de poder encontrar algum calor que nos aqueça, alguma luz que nos faça ver um mínimo de qualquer coisa, qualquer coisa que nos faça existir: um gerador. Isso, um gerador. Pôr o motor da escrita a funcionar, ou à melhor, a trabalhar, constatar que afinal não enregelou, que afinal a coisa existe. Engendrando assim uma nova experiência, inventada. Ligando a velha à nova memória, inventada. Para que quando a tempestade passar a realidade possa ser esta e a outra, inventada. Não esquecerei nunca de guardar o gerador. Alimentá-lo de energia.
O Mau do Mau Tempo
Essencialmente
tens tido um mau tempo. Um mau tempo constante, continuo nesse teu perpétuo problema de passar o tempo. Não, de facto não tens
tido um grande tempo. Pelo contrário, na melhor da melhor das hipóteses tem andado chocho esse teu tempo. Não, nunca consegues ter um grande tempo. Ou então sou só eu que não recorda a última vez que tiveste bom tempo. O que ainda assim não é o pior do teu tempo: aquilo que esperas do tempo - as tuas (péssimas) expectativas em relação ao teu tempo. Óbvio que só pioram o tempo, isto enquanto esperas desesperas pelo bom tempo. O que piora ainda se te pões a pensar mais matutando nesse mau
tempo. O que piora substancialmente mais se te pões a pensar que o tempo pode sempre piorar em toda essa conjectura inclinada do tempo. O que não fica por aqui, se te pões a moer por dentro dessas péssimas previsões de quão péssimo pode vir a ser tão péssimo tempo ainda mais péssimo se tornará o já então péssimo tempo.
Tens de fugir disso, homem, sim, tens de fugir disso, de ti, dar uma curva, fazer uma viagem não sei onde, mesmo a um café da tua zona. Vai-te perder na cidade, homem, talvez isso te faça perder esse teu mau tempo, homem, que essa água te saia dos ouvidos, homem, essa água que sempre te entra nos ouvidos... Mas o processo, inexorável, lá se vai arrastando. Implacável. Se depender de ti, irreversível. Podemos matutar sobre onde realmente te meteste. Posso também recusar compreender. Mesmo quando, de verdade, sabes tu e sei eu, só pensamos a sério no mau tempo quando o tempo está mesmo mau.
Tens de fugir disso, homem, sim, tens de fugir disso, de ti, dar uma curva, fazer uma viagem não sei onde, mesmo a um café da tua zona. Vai-te perder na cidade, homem, talvez isso te faça perder esse teu mau tempo, homem, que essa água te saia dos ouvidos, homem, essa água que sempre te entra nos ouvidos... Mas o processo, inexorável, lá se vai arrastando. Implacável. Se depender de ti, irreversível. Podemos matutar sobre onde realmente te meteste. Posso também recusar compreender. Mesmo quando, de verdade, sabes tu e sei eu, só pensamos a sério no mau tempo quando o tempo está mesmo mau.
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
Outros Parêntesis
Roberto Bolaño tende a agarrar seu universo - escritores, vivências, literatura, poesia, política, obsessões, Chile, México, afectos, terrores, admirações, ódios de estimação, etc, etc - em seus pontos fortes. Sem ilusões, porém, mesmo que a energia, entusiasmo e forças saibam elevar esse mesmo todo às alturas desse mistério salvífico e/ou destrutivo que é a Literatura. "Entre Paréntesis" (Anagrama) mostra esse seu universo vital em mais de 300 páginas de ideias, pensamentos e linhas de força que se encontram também presentes em seus romances (a maioria dos personagens, diga-se). Como se essa escrita sobre escritores e literatura - aqui em ensaios, artigos e discursos - juntássemos pois os pesadelos do mundo contemporâneo e também os sonhos, nesse sentido borgiano do termo, onde o sonho (ou pesadelo), a poesia e a ficção se confundem e emaranham em seus intrincados labirintos. Claro que Jorge Luis Borges iria mais longe em toda a linha entre o sonho e a realidade, mas isso é toda uma outra conversa.
Roberto Bolaño não viveu a fama em vida, nem menos trabalhou em bibliotecas - muito menos na infindável Biblioteca Nacional de Buenos Aires. Pelo contrário, durante uns bons anos na Catalunha, livros "novos" só mesmo emprestados de amigos ou alugados, claro está, em bibliotecas. Também passava fome. Chegou a viver isolado com seu cão numa casa num bosque, qual eremita desterrado. Seriam os tempos da poesia (a preparar uma séria transição para a prosa) culminados pelo inicio da troca de correspondência com o conhecido poeta chileno Enrique Lihn, que de tanto, não apenas o ajudou a um reganhar de voz e confiança, como iniciou a divulgação da sua obra extraindo-o do anonimado e isolamento num país estrangeiro.
Chegada nos inícios da década de 90, a paternidade fez Bolaño jogar as fichas todas. Romances escritos, uns atrás de outros, em catadupa - romances foram oito, a somar aos livros de contos. Era preciso garantir a sobrevivência do filho, Lautaro Bolaño. Mas não só, com uma rara doença de fígado diagnosticada, o escritor teria a certeza ou quase dos dias contados e cada vez mais comprimidos. Na verdade, é impressionante a quantidade de produção literária possível em tão poucos anos, menos de uma década. Arrisco dizer que os livros já os teria dentro de si - muita leitura, muita escrita, muita vida vivida, muita aprendizagem, muita crise, muita penúria, muito sofrimento, muito trabalho, muita disciplina, muito combate, muito risco, muito pôr-se em causa. Por outro lado, numa de duas entrevistas, as únicas que Bolaño deu a televisões - porventura canais chilenos - este mesmo referiu, que sem estrutura que o sustentasse, seus livros chegariam facilmente às mil páginas. Verdade ou mentira, o certo é que 2666, a sua obra maior, até extravasa a conta. Os tais dias contados é que nem por isso. Essa espera infindável por um transplante que nunca chegava e cinquenta anos de vida e tanta literatura ainda para dar. Uma literatura que, presumo, muita falta faria a este tempo. Uma literatura sem magias de fadas mas de palavras bem marteladas. Esse escrever o que há para ser escrito quando é para ser escrito, como o que se encontra neste poema póstumo, encontrado entre papéis:
Rechazos de Anagrama, Grijalbo, Planeta, con toda seguridad también de Alfaguara, Mondadori. Uno de Muchnik, Seix Barral, Destino... Todas las editoriales... Todas las editoriales... Todos las editoriales... Todos los lectores...
Todos los gerentes de ventas...
Bajo el puente, mientras llueve, una oportunidad de oro
para verme a mí mismo:
como una culebra en el Polo Norte, pero escribiendo.
Escrebiendo poesía en el país de los imbéciles.
Escribiendo con mi hijo en las rodillas.
Escribiendo hasta que cae la noche
con un estruendo de mil demonios.
Los demonios que han de llevarme al infierno,
pero escribiendo.
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