Também se escreve no vazio, mesmo escrevendo. Anestesiados não sentimos sequer a possibilidade da dor. A escrita anestesiada pede ainda um melhor fingimento, tão melhor quanto falso, nada que ver com esse fingimento "que deveras sente", mas com um outro qualquer, porventura aquele que deveras quer sentir. O que é vigarice, embuste, uma falsificação bem relaxada, escrever com um comando à distância, como se a pena não passasse de um drone. Pior é que nem isso: nem mesmo o drone é verdadeiro - o que obrigaria a outros desafios. Muito escritor falso auto-satisfeito imagino eu seja mesmo assim : um falso drone, um charlatão embuste, sua pena nem à distância comanda, seu fingimento deveras quer sentir.
terça-feira, 5 de maio de 2015
domingo, 3 de maio de 2015
Gin Tónico, o Gajo
Costumava chamá-lo de Gajo. De manandro do camandro, é que o gajo não é bem malandro, então chamava-o antes de manandro, de manandro do camandro.
Um jóia de boa pessoa, uma lição de vida, o Gajo. Nunca se queixava, a não ser
depois, depois de velho, com a horrível dor da pedra nos rins, mesmo assim tão
estoicamente que até fazia dó. Coisas da forma de (o) ser. É que o Gajo ria, ria, ria com a vida, e ria para a vida com uma euforia extrema. Era mesmo assim, o Gajo. A suprema festiva vida do Gajo era motivo mais que justo para festejo, que era mesmo assim sua forma de estar, de não ser sozinho, num festejo. Gostasse o Gajo de beber senão água e
seria um extraordinário companheiro de copos. Sempre contente e pronto a entabular a conversa, o Gajo. Não era preciso muito, um carinho
naquele pelo da cara de barbas de Pai Natal e cuidado, não fosse o Gajo entrar em beatitude. Então se o nível de gratificação aumentasse, tipo "vamos à rua, Gin", ou se numa voz sádicazinha de fomes de comidas falássemos em carninha ou ossinho então o Gajo perdia-se das adrenalinas, era como se tivesse acabado de ganhar um Oscar. Ele lá sabia, o Gajo.
Já vão uns bons anos, estava eu incrédulo quase a chorar o
falhanço da ida do Sporting à final da Taça UEFA, que sabemos que ia ser em
Alvalade, quando Miguel Garcia marcou aquele golo no ultimo segundo do jogo e eu
disparei-me em pilhas de euforia para semanas inteiras. Sentia-me uma autêntica máquina
de rega descontrolada. Berrava GOLO, corria, gritava, nem dei pelo Gajo, que olhava para mim como que a dizer “Olha. Ensandeceu...!”. Depois ia
para perto da Dona, como que a pedir-lhe uma explicação, como que a precisar de desabafar, como que cheio de necessidade de discutir, de debater, de matutar em mim. Não sei o que dona ouviu, mas disse: “vai dar uma festa ao Gin,
ficou muito preocupado contigo...”. E eu lá fui dar uma festa ao Gajo e o Gajo
começou a rir outra vez. Também qual era a dele, armado em quê? O chavascal quando era para ir à rua era umas
cem vezes superior ao estaradalhaço que eu dei com a primeira final europeia da
minha vida...
O Gajo gostava e queria tanto sempre ir à rua que ficava atento
a todo e qualquer mínimo pormenor. A intuição essa apurou-a tanto que
até cheguei a um ponto em que me bastava pensar nisso para o Gajo entrar logo de imediato em festejos - quem não acredite, não acredite, agora já não dá mais para fazer uma aposta. Poderia, quem sabe, até
ganhar dinheiro com isto, tinha de arranjar um lugar, um palco, só não podia é ser na rua, e com muito pouca gente
que o Gajo era de se distrair facilmente.
O processo esse começara uma vez com um
simples queres ir à rua?; - assim se arrastou umas semanas; depois, passou para um vamos à rua?; mais uns tempos e depois
passou para um vamos?; depois para um Vam, depois para um V, depois, enfim, depois quando já não havia mais nada verbalmente a decifrar restava o quê? Um olhos nos olhos. Era a coisa mais fácil bastava olhar o Gajo a pensar nisso, no mesmo: na rua. O que é que mais restava para, como dizer, aperfeiçoarmos a comunicação. Telepatia à distância, pois claro. Então bastava pôr-me de costas a
pensar no assunto, ele adivinhava. Claro que ainda tive de inovar mais, pôr-me na cozinha a pensar nisso com o Gajo na sala. Era só esperar que do nada começasse a ouvir aquele ladrar doideufórico. Ladrava, ladrava, ladrava, parecia um huno a saquear
Roma, grande caixa toráxica devia ter o Gajo! Tinha logo de pôr a trela,
qual armadura, e sair logo porta fora escadas abaixo não fosse ele virar o prédio de
pantanas com aqueles ladrares entusiástico-histéricos. Depois, já na rua, era um gajo doido a querer saber de tudo, da
relva mais limpinha ao canteiro mais javardo. Claro que ia ficar tão roto com o passeio que à noite até lhe daria para ressonar... Mas sempre a acordar com esse sono leve-vigilante de cão um dia tive mesmo de lhe provocar: “sonhaste com quê, Gin? Foi com carninha?” Nem respondeu, não estava ao seu nível.
Very few films anymore deal with what's happening. They have lost touch with reality. There's been a dumbing down of our culture. We're all getting spinned out. We believe all this shit like it's the truth. Where can you go to get the truth now? It is hard to find in your own life, cause we have been so brain washed by this junk. That fills the airways, that's in the movie screens while the technics get greater and greater, and the technical discoveries and developments get so unique that a director's wildest vision can be fullfiled.
sexta-feira, 1 de maio de 2015
Rufia há só um

Poderia, por exemplo, escrever sobre a organização social dos golfinhos, daria muito que pensar em tudo o que são questões feministas e mesmo de género. Outras e até novas linhas de leitura, quem sabe, pistas em que eu não corro, mas respeito, apoio e voto a favor. Mas um golfinho é um golfinho e com ele não preciso tanto de organizar o caos. Também ele não tem a má sorte de ser um leão-marinho, assim como há seres humanos que têm azar de o serem e outros não.
Comecemos então com a fábula vista à meses num documentário da tv e tanto me intrigou que me pôs a escrever para o blogger, tarefa que acabei até que esqueci, até que reparei, enfim, que a tinha posta em draft já lá muito em baixo a marinar, a apodrecer ou as duas coisas:
Uma leoa-marinha acabada de ter filhotes está já sem reservas. Vai ter de se alimentar. De outra forma não haverá leite para ninguém, nenhuma cria para amamentar. Não é no ponto onde está - numa praia rochosa algures no Perú - entre milhares de comparsas de espécie, que irá conseguir comer alguma coisa. Então tem de partir. Ir à caça, mais que à pesca. O que também significará que a descendência deverá ficar quieta e sossegada, mas com muita atenção, como se verá a seguir...
A primeira missão é ainda em terra: cheirar, farejar muito bem os seus e as suas, toda a atenção é pouca, pois o faro será o único meio para reencontrar a linhagem quando regressar - entre centenas ou milhares (só) alcançará os seus pelo cheiro. Segue-se então a partida para a arriscada aventura, que durará semanas. Mais porque sendo preciso caçar é preciso primeiro enfardar à grande, porque só enfardando à grande para engordar bem se criarão dali as necessárias reservas para os meses de repasto da prole. O tanque tem pois de voltar bem cheio. Vamos então ao a seguir.
Chegamos aos vilões da história, uns vilões sem qualquer categoria, diga-se. Não passam de frustrados adolescentes leões-marinhos, imediatamente traduzidos na minha mente para rufias que não têm mais nada com que se entreter. Sim, sim, é aquilo em que estão a pensar: vão fazer a folha aos coitadinhos. Serão sádicos por natureza? Também. Estarão frustrados? Muito. Mais que frustrados, levaram a tampa das suas vidas. Ficaram a saber que não prestam pelas respectivas leoas-marinhas que escolheram outros leões-marinhos achando esses sim capazes para a generosa honrosa tarefa de serem eles (os) procriadores. A questão existencial se eram rufias a priori/se eram rufias a posteriori define-se tão simplesmente neste ponto: eram rufias. Porquê? Por causa do que o rufia faz. E o que é que o rufia faz? Faz o que normalmente os rufias fazem quando se sentem frustrados e/ou contrariados: dão cabo do juízo a alguém - sobretudo ao mais fraco.
Cá nós podemos pegar nos rufias da escola, nos rufias da política, nos rufias das empresas, nos rufias de café, nos rufias das claques, nos rufias das artes, nos rufias das praxes - do que é que eu fui-me lembrar... - é um nunca mais acabar de (exemplos) rufias.
Aos leões marinhos, à falta de outra opção, a electricidade da frustração é usada para roubar vida aos mais pequenos. Malhar ou matar pode ser apenas um pormenor - olhem os rufias das praxes. E isto às claras, em frente a milhares da sua espécie - mas cada um na sua, quem disse que o egoísmo é exclusivo humano?
O que me intriga, todavia, vai um pouco mais além, não sei se já repararam: está no futuro. É que muito do rufia (leão-marinho) que rebenta o coro à cria indefesa também já foi ele cria indefesa. Ele próprio é um sobrevivente de rufias...
Moral da história há um ou (os) dois: 1 - que rufia só há um, 2 - os leões marinhos são todos uma cambada de rufias. Já pus a minha cruz no 1.
quinta-feira, 30 de abril de 2015
terça-feira, 28 de abril de 2015
Baudelaire
Dizem que os mestres se combatem, pelo menos a determinada altura. Li Charles Baudelaire demasiado cedo - será? - à luz do que eram os meus dezoito anos. Tomei-o demasiado à letra. Usei suas palavras como armadura e condenação, como libertação e como poço sem fundo, como evasão e como beco sem saída. A realidade comprovava seu magistério, pior é que comprovando era uma forma de o capturar. Era o tempo de levar tudo à frente, o que não fosse inteiro (como Nietzsche, Rimbaud, O Medo de Al Berto) era parcial inteiro - todo o Miller dos Trópicos, o Kerouac do Dharma Bums ou do On The Road, todo o Pessoa que havia menos o Ricardo Reis, vá-se lá saber porquê, o Céline da Viagem ao Fim da Noite, mas nunca o da Morte a Crédito (esse nem hoje). Só mais tarde é que comecei, vá-lá, a temperar as gastronomias. Sobretudo a deixar para trás esse "mestre do spleen", esse certo romantismo Exilado por suas "asas de gigante". Eram becos sem saída, achava eu, e o punk rock sempre foi bom para dar murros na vida maldita, só que anteontem, ao acaso, também já não era sem tempo, abri, por palpite, a página 153 das Flores do Mal e dei com O Irreparável:
Podemos sufocar o antigo Remorso,
Que vive e se torce, agitado
E se nutre de nós como os vermes dos mortos
Ou as lagartas dos carvalhos?
Podemos sufocar o implacável Remorso?
Ou as lagartas dos carvalhos?
Podemos sufocar o implacável Remorso?
No se preocupe, no se preocupe, se é para tomar à letra, dêem-me apenas o manejo da Forma, o absoluto controlo de todos os recursos, essa capacidade de domar o monstro de olhos vendados. O que é apenas um princípio, pois a solidez de uma rocha apenas se pode comprovar quando já nada é o que era. Ou como estava.
PS: a quem interesse.
PS: a quem interesse.
segunda-feira, 27 de abril de 2015
Álbum de Fotos
1 - Imagem da minha imagem, mas não era eu quem lá estava...
2 - Subitamente vejo os outros. A distância. Dos outros, daquele sabor a ambiente, de eu pelo fundo da noite...
3 - Misto de familiaridade, estranheza e nostalgia. A tristeza da falta vai da ausência à futura ausência. Fade out de agora até daqui a vinte anos. Carinho por aquele momento que depois de tudo fica, mesmo que naquela altura só me sentisse cansado.
Já me ia esquecendo, pouco interessa, tarda nada colaremos isto agora a outro passado que para aí anda. Em álbuns de letras, álbuns de fotos, futuras notas de rodapé...
Já me ia esquecendo, pouco interessa, tarda nada colaremos isto agora a outro passado que para aí anda. Em álbuns de letras, álbuns de fotos, futuras notas de rodapé...
4 - Era apenas conversa de circunstância...
5 - Vias as fotos e não imaginavas as vozes, os falares, a geometria afectiva. Ainda hoje sei distinguir um a um, senão os sons todos, pelo menos as falas. Sotaques que para alguns serão séculos passados.
É Mentira...
É mentira, era um homem, o cantor era o Zé Cabra
Os actores tinham sido substituídosPor uma câmara combustível gasolina Super 8
Bebida de um conto Bukowski adentro de Um Homem que era
Um lavador de pratos mas acima de tudo era Um Homem que dizia
Que era um homem de verdade.
Charles Bukowski talvez mandasse bugiar o Zé Cabra
Quando este, num silêncio pós-Mahler, se pôs a cantar acima do personagem
George, o lavador de pratos, que cantava seu opus de verdade
Charles Bukowski nem sequer estaria a pensar nalguma daquelas assistentes
Quando o Zé Cabra ainda pensou levá-las para o hotel
Enfim, deu por si a insistir sabe-se lá bem como e levou tampa
À discussão Bukowski até fez bem em interceder
Que ao menos ouvissem Tom Waits
Perdido num ano sem recordações
Tudo tão mal sintonizado que também daqui ainda não sabemos
Se era Primavera, se Outono, se estava quente, se era frio
Se ali chovia era em mono que Zé Cabra desafinava
E cantava «É Mentira, É Mentira...», e o George, de raiva, salivava
Não queria ser o copinho de leite que ela tinha deixado
E que era um homem de verdade e também sabia cantar
Haviam de ouvir a sua voz...
Bukowski, enfim, lá teve outra vez de interceder
Pois a cada Zé Cabra, o seu Zé Cabra...
sábado, 25 de abril de 2015
27.
Quando partes não te podes partir. Acontecer não é não acontecer. Não pensas acontecimento, vives acontecimento. Pensar deves pensar depois, muito, mas se pensas antes ficas partido, repartido, fragmentado, indeciso, matutando como a centopeia do provérbio chinês. Sem unidade, sem fluente corrente, não és sequer âncora.
Operação Outono
A síntese influência cinéfila versus história/acontecimento parece funcionar na perfeição em "Operação Outono", de Bruno de Almeida, criando uma obra de fôlego e importância. Presenças certas que mesmo indefinidas se sentem. Está lá John Cassavetes, o que é tudo menos óbvio - mas sondem bem as interpretações. Mais vincado, claro, um certo Martin Scorsese, o vintage, na vertigem e no ritmo. Ou esse Sidney Lumet mais político e justiceiro, que sendo de Filadélfia tem Nova Iorque numa costela, como também é incontornável dizer que o português lisboeta nascido em Paris Bruno de Almeida também a tem, não tivesse também ele feito de Manhattan a sua casa durante uns bons vinte anos. Sim, há uma partilha dessa marca, uma génese que se sente continuar e está na filmografia do realizador, mesmo que aqui o assunto se prenda à figura da PIDE e de Humberto Delgado. O que só abre boas linhas de leitura ao filme, de um rigor e realismo levados ao extremo, por vezes trabalhado quase ao nível da fotocópia. Mas voltando aos temperos, a gastronomia recomenda-se. "Operação Outono" é interessante, honesto e desafiador. Neste caso mistura-se ao cinema o serviço público (e cívico), não roubando, porém, de um lado para dar a outro como acontece em tanto filme-denuncia e como é regra recorrente nos biópicos desta vida que despontam amiúde em mero interesse ilustrativo.
"Operação Outono" tudo vale porque é provado e comprovado em factos reais. E tudo interessa por saber com isso prestar disso o devido tributo cinematográfico. A começar na direcção de actores e superlativos desempenhos. Nalguns casos de distinção máxima, como um Carlos Santos em absoluto estado de graça como Rosa Casaco. Ou Diogo Dória num autêntico canto do bandido (facho) da espécie mais repelente que este país alguma vez criou. Pena o "soprano" John Ventimiglia estar ali tão mal dobrado, o que não invalida a interpretação competente. Ana Padrão excelente, para não variar. Nuno Lopes idem, desta vez nas vezes do bufo encoberto camuflado de comuna. No que resta podia estar aqui a enumerar mais alguns, um a um, ia quase todo o elenco, onde mesmo no mutismo de Cleia Almeida se sente força e presença. Mesmo assim é preciso não deixar de nomear um não-actor que muito brilha em seu pequeno papel. Falo de Camané, um achado como António Semedo, o guarda fronteiriço, que acaso ou não do destino seria sósia do fadista, e como sósia de Camané tornou-o assim actor a auto-recriar o sósia.
Continuemos pela forma, a começar pela banda sonora dos Dead Combo que marca a toada trágico-tensa do filme, vivendo o som entre um tom Ennio Morriconiano e um certo minimalismo de uma musicalidade bem tuga e datada.
Depois, a unidade de ritmo e montagem que distribui e redistribui com eficácia os dois tempos do filme – o antes e depois do assassinato de Humberto Delgado – não deixando de dar espaço e respiração à unidade da cena. Feita de muito jogo de cinema, força e eficácia no(s) diálogo(s) sem mácula, não deixando de escapar aqui ali um certo sentido de humor de mórbido que não deixa de nos causar um certo arrepio na espinha. Há nisso, felizmente, vá-lá, um certo tom lúdico diria scorsesiano cuidadosamente dentro de certos bem desenhados limites, até porque a tensão (do) real e o tom claustrofóbico da obra não dão - como a própria PIDE não dava - margem a grandes contemplações - muito menos a grandes diversões. Daí ao mesmo tempo também resulta e bem essa certa graça-sem-graça típica de todas as gentes e ambientes do bafio da época, coisas do humano bolor, que da nossa parte foi essa terrível dose de quase cinquenta anos de ditadura salazarista. Tão bem vindo o alívio da cena do 25 de Abril na sede da PIDE, onde e quando o ambiente claustrofóbico dos corredores dá lugar às janelas abertas e ao ar puro e à maravilha da luz do sol para matar os ácaros.
quinta-feira, 23 de abril de 2015
26.
Tudo demasiado confuso e em cacos, nasce uma vida, tudo recomeça de novo entre os cacos. Deram-te um papel, dizem que o tinhas esquecido, tu próprio não sabias dele, desse papel que não tinha nada escrito, era a folha em branco, e por defeito, era mesmo o papel que desempenhavas. Papel esse que cada um tem, o seu. É a vida. És tu sempre a acreditar na maneira certa. Mania que um ideal é o ideal. Não há como desmentir, a utopia é o princípio da respiração que nunca alcança. Mas avança, como já foi dito e escrito. Escapa a palavra, a utopia não depende das palavras. Tem a beleza dos moinhos de vento.
Há de haver um instante
A
realidade é outra e demasiado profunda a sua tragédia para a
podermos redimir. Os bárbaros justificaram-se com o cristianismo
aproveitado à pressa mas que preencheu dois mil anos. Os bárbaros
de hoje não têm um sucedâneo desse cristianismo para o
aproveitarem. A grande dignidade do homem foi toda a sua criação em
torno de um mito e da força que vinha nele. Mas nenhum grande mito
hoje pode ser mais forte do que a nossa consciência, nenhum mito
assim a pode subjugar. Assim talvez o homem viveu até hoje pelo que
pôde saber e viverá amanhã pelo que puder esquecer.
O homem viveu até hoje pelo que acumulou de dignidade – e viverá
amanhã pelo que acumular de desumanização. No limite disso, porém,
no limite do autómato gregário, há-se haver um instante em que ao
menos por descuido ele se interrogará sobre o seu destino. E tudo
então recomeçará.
Vergílio Ferreira, Conta-Corrente III, Livraria Bertrand, 1983, p. 100-101
terça-feira, 21 de abril de 2015
Trunques
-
Distintos pontos de vista aumentam-nos o contraste, a gama das cores. Pintamos melhor compreendendo a(s) forma(s), os contornos.
- Se a escrita tem sumo dissemina-se para fora e para dentro ao mesmo tempo. As vitaminas são essenciais ao organismo.
- Eliminas o supérfluo e as palavras mexem-se, a frase é outra, tem de fazer pela vida.
- Napalm sobre a afectação.
- Honestidade à prova do fogo.
- Editar é um grande pára-quedas.
- Saber dar com as junções. Podem ser de outro puzzle que para aí anda...
segunda-feira, 20 de abril de 2015
Poeiras
- Continua gélida, mas em pior, não sei explicar... Vê como é - disse o outro - imagina vinte anos a apodrecer no frigorífico. Não ia cheirar lá muito bem.
- Sabe de menos e quer fazer jogos. Seu perigo, naïf, está no medo de parecer naïf. Depois inventa campos e adversários, engendra regras, chama-lhes batalha.
- Aprende como a vida paira acima do poema que paira acima da vida. É mais fácil assim, garante, contra-natura, simula a estação da fúria, a alta temperatura.
- Não há som sem transmissão de som. E estamos todos cá fora.
...
The Drug War in Mexico is on the brink of tearing apart the country. Since December 2006, more than 19,000 people have died in battles across Mexico. Even to call it a “drug war” or a “war” does it a disservice. In many ways, what we see in Juarez (and Mexico) now is a new way of human beings interacting and fighting and killing each other. I suspect Roberto Bolaño knew there was something unique about this attitude towards death pre-2003.
One point I’d like to make is that the system that primarily fails Juarez (and Santa Teresa) is the civic system. It turns out to be a system that feeds on human bodies and deposits them in waste dumps outside the city limits. The religious system has failed (more on the Penitent later), the social system has failed, the federal political system is nonexistent, but the civic system is particularly accountable for the enforcement of local laws and the complete failure to maintain any sense of human dignity. One of the great secrets of the Part About the Crimes is that it is not just a litany of murders. There are other characters populating the storylines—but most of these characters hold civil offices: they are city police officers, investigators, contractors, employees of the city sanitarium. The economics of the city seem designed to rely on the availability of young, unskilled women to perform the tasks of the maquiladoras, and yet their relatively short lifespans mean that the true source of employment comes from the investigation of those murders, the enforcement of seemingly meaningless laws. And yet who has any idea how to stop the murders?
Aqui.
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Da Luz Alvalade
Ir ao Estádio da Luz e de Alvalade para escrever são duas experiências distintas. Na Luz consigo carburar muito facilmente. Em Alvalade, enfim, é difícil, às vezes mesmo muito difícil, como contra o Wolsburgo onde já só me apetecia abandonar-me, invadir-me, ser adepto, ir ter com a malta, tornar-me um índio, fundir-me na fúria, no rugido leonino.
No Estádio da Luz não, ponho-me a racionalizar a maravilha que é o Jonas, o Gaitán e o rolo compressor quando é ligado - com o Estoril, com o Boavista, com o Braga.... Que remédio! Compreender compreendo muita coisa. Quase toda a minha família é benfiquista e boa parte dos meus amigos, conhecidos então são mais que as mães... Depois, há aqueles que só aparecem quando o Benfica ganha qualquer coisa, aí é a surpresa: nem pensávamos que gostassem de futebol. Ingenuidade: a maioria dos adeptos benfiquistas percebe pouco ou nada de bola. Fala no glorioso, na chama imensa, mas não sabe um quarto da equipa titular, se é que sabe o nome de algum jogador. Mas enfim o Benfica é universal, joga na catedral, o Estádio mais parecido de todos com o que se passa cá fora. Está lá quase toda a gente.
Alvalade não, Alvalade é mais um culto, um exército de resistência. Mais pequeno, mais bem cerrado em suas fileiras. Metendo quarenta mil a muito esforço de dias enquanto esses vizinhos acomodam sessenta mil num abrir e fechar de bilheteiras. Não seja por isso, ir ao Estádio de Alvalade é bem mais intenso, por vezes até demasiado. Não é instantâneo como a Luz. Este e o antigo estádio. Falando da Luz, estive mais de vinte anos sem lá ir - eu quando ia era para os lugares cativos de um primo mais velho, doido pela águia. Calhou eu ir nos melhores tempos do Eriksson: 7-0 ao Braga (eu vi), 8-0 ao Vitória de Guimarães (esse já não vi), 1-1 ao Sporting (o anti-climax, eu estava lá)... Agora, regresso como se nada fosse, e, toma lá cinco Boavista, toma lá seis Estoril... Esperem aí, menti à bocado, não foram tantos anos, sempre houve o Euro 2004 mais a sorte de um convite: a Inglaterra ganhou 4-2 à Croácia. Em suma, uma vindima. Mas nada como um 7-1 em Alvalade.
No Estádio da Luz não, ponho-me a racionalizar a maravilha que é o Jonas, o Gaitán e o rolo compressor quando é ligado - com o Estoril, com o Boavista, com o Braga.... Que remédio! Compreender compreendo muita coisa. Quase toda a minha família é benfiquista e boa parte dos meus amigos, conhecidos então são mais que as mães... Depois, há aqueles que só aparecem quando o Benfica ganha qualquer coisa, aí é a surpresa: nem pensávamos que gostassem de futebol. Ingenuidade: a maioria dos adeptos benfiquistas percebe pouco ou nada de bola. Fala no glorioso, na chama imensa, mas não sabe um quarto da equipa titular, se é que sabe o nome de algum jogador. Mas enfim o Benfica é universal, joga na catedral, o Estádio mais parecido de todos com o que se passa cá fora. Está lá quase toda a gente.
Alvalade não, Alvalade é mais um culto, um exército de resistência. Mais pequeno, mais bem cerrado em suas fileiras. Metendo quarenta mil a muito esforço de dias enquanto esses vizinhos acomodam sessenta mil num abrir e fechar de bilheteiras. Não seja por isso, ir ao Estádio de Alvalade é bem mais intenso, por vezes até demasiado. Não é instantâneo como a Luz. Este e o antigo estádio. Falando da Luz, estive mais de vinte anos sem lá ir - eu quando ia era para os lugares cativos de um primo mais velho, doido pela águia. Calhou eu ir nos melhores tempos do Eriksson: 7-0 ao Braga (eu vi), 8-0 ao Vitória de Guimarães (esse já não vi), 1-1 ao Sporting (o anti-climax, eu estava lá)... Agora, regresso como se nada fosse, e, toma lá cinco Boavista, toma lá seis Estoril... Esperem aí, menti à bocado, não foram tantos anos, sempre houve o Euro 2004 mais a sorte de um convite: a Inglaterra ganhou 4-2 à Croácia. Em suma, uma vindima. Mas nada como um 7-1 em Alvalade.
quarta-feira, 15 de abril de 2015
Democratismo
Toda a gente ignorante ter uma voz significa toda a gente ignorante ter uma voz. Não é mais nada. Ignorância voluntária não passa de ignorância voluntária. Não sabe porque não quer saber. Não quer saber porque se está nas tintas. Então não vota, ou então vota com o que não (quer) sabe(r). Qualquer ditadura receberá com o mesmo encolher de ombros - falará então da barriga. Dança a música da corporação, sempre é o que está mais a dar. Tudo e todos podem ser substituídos a qualquer altura, nada se altera. Não há cá reis nem vice-reis, czares ou imperadores, quem manda aqui são os accionistas. Ninguém, mesmo ninguém, se livra da cabeça de um accionista, é que nem o próprio accionista, que também depende do accionista, que também depende do accionista... Muito dinheiro-gera-dinheiro-gera-dinheiro, ou então inventa dinheiro, rotativas ou narrativas, tanto faz, que o que conta, afinal de contas, é o que aparece nos monitores. Também é preciso pilotos para tão velozes lanchas. Não há de haver travagens nem reduções de velocidade, mesmo quando muito se acelera, travões nem pensar. É sempre em frente, sim, o que é preciso é ir sempre em frente, nem direita nem esquerda, já não há direita nem esquerda - é tudo a mesma coisa, dizem -: «eu só penso em direita e em esquerda quando me apanho num cruzamento», dizia o outro dia alguém no facebook, desses que não vota, desses que de bom grado até substituiria a votação pela notação consoante os valores do mercado e as expectativas dos investidores. Assim como assim, de notação em notação, se classifica a coisa, perdão, a Democracia.«Money is the master», dizia Gabriel Byrne nesse filme de Costa-Gavras. Não é fácil. Convém que seja sempre Primavera. O crescimento não pode parar, nunca pode parar, se inundar constroem-se diques, fazem-se ajustamentos, constrói-se um mealheiro e põe-se milhões de pessoas lá dentro, magicam-se expressões, palavras novas como inconseguimento.
P.S. - a partir de uma ideia de Luís Seabra.
25.
Preciso interiorizar o que aconteceu. Mas só exteriorizando, na escrita, são precisas palavras. Caso contrário, só resta a amálgama primordial disforme. Sem qualquer trabalho de edição, de aperfeiçoamento, nada mesmo a ser melhorado. Nenhum poema, nenhum conto, nenhum texto, nenhum problema, nenhuma ideia. São gostos. Eu cá prefiro a crónica de nada à crónica do nada. Porquê? Porque é o melhor que se arranja. Não largar a mão para não perder o pé.
24.
A história destes meus últimos tempos tem sido a história do meu cansaço. A aprendizagem do sono da guerra: um olho aberto o outro fechado, os dois olhos abertos ao mesmo tempo fechados. Gradações não é só do ver... Também há do dormir, do descansar, do fazer nenhum. Lá porque tantos perdem a capacidade total de concentração. Disse total, podia ter dito essencial. É que não precisam de mais, só navegam à costa. Disse dormir, podia ter dito acordar.
sábado, 4 de abril de 2015
Pá, toca a escavar
Anda um amigo meu lá fora a arrastar-se. Deixa andar, deixa-se andar, nada a fazer. Não há nada a fazer, vais lá fazes nada, ele quer que tu pares, pares onde ele pára, pares. Ah pois, tens sempre de lá ficar umas horas, onde ele ficou, lá, naquela paragem. No seu caminho, sempre no mesmo sítio do caminho, portanto sempre no mesmo caminho, do mesmo sítio. Mas é só um bocadinho e lá ficamos. Ficamos, quanto mais não seja, porque se sente sozinho quando se encontra aborrecido, o que cada vez mais acontece, cada vez mais no mesmo sítio. Ganzas, cerveja, a merda da sociedade, política, a anarquia contra a anarquia, poder do contra poder, está bem, pois que mande, ou não mande, por mim não faz mal, por mim melhor assim, então está bem, concordo, não estou ali para me transformar em lobo. Então e gajas? Nem nenhuma, elas não alinham no plano de estratégia. Num ponto têm toda a razão: não há ali qualquer plano de estratégia, não há ali plano de coisa nenhuma, nem plano, nem planura, nem monte de terra sequer, nada a não ser ganzas, cerveja e o todo o poder contra de todo o contra poder. Por mim, já disse, repito, dava-lhe a ele todo o império. O meu também, já agora, desde que deixasse comigo o tempo. Certo, certo, tenho-o certo como o (mais) genuíno, o puro malte da autenticidade. É casco da madeira mais rara. Mesmo que me digam que estragada anda com aquela cara de amarelo bexigado. Figadeira? Nah, não há de ser nada. Ainda estão para aí os túneis que nunca há de percorrer, as montanhas virgens de si próprio - agora cheias de arame farpado. Problema maior são as passagens de nível, os guardas, as fronteiras... Bem juram que nunca o viram por lá. Eu via, via-o sempre, ali quieto nas cercanias dos bosques, abeirando-se da estrada, nunca perdendo o corte, a compostura, virada a norte, mas nunca arriscando qualquer sorte... É preciso reparar na espera contínua, é a da revolução, diz que ela chegará, um dia. E eu é que não era nada razoável, sempre à cata de milagres. Este gajo é doido, pensava, senão pensava, pensei, pensei até mais do que uma vez. Sem revolução não há milagres, respondia ele, ressentido por eu não acreditar nesse milagre entre tantos outros em que acreditava. O milagre dele sempre fazia parte da realidade, senão fazia, ao menos queria fazer qualquer coisa com ela, a dita, a dita coruja. Transformá-la. Ela quem? gracejava eu. Onde é que isso já se viu?, era nos outros o comentário mais em voga, eu nunca fiz caso disso coisa nenhuma, pelo contrário, ouvi-lo servia como pára-choques acolchoado.
Dez anos depois, tudo na mesma, vinte anos, na mesma. Tire-se-lhe o chapéu ao seu aspecto, seco, limpo, sopimpa, ainda nas marcas dos vinte e poucos, jovem, quais bexigas? Se calhar eram de tanto esforço de Sísifo, dos pântanos, de andar atascado até aos joelhos. Ali, onde marcha sempre mais uma cerveja. Ai marcha, marcha. Então não marcha? Não marcha?
Cante
A indolência do sentir alentejano tem uma inusitada força, mas traz também a sua tragédia, a sua irreversível fatalidade. Que alimenta sua forma do sentir, magnânima. Que também o perde campos afora, nesse intenso milenar lamento. Vidas que cantam a falta do seu Alentejo, vidas que cantam a solidão do seu Alentejo, vidas que cantam a beleza do seu Alentejo. Como um fado, pode ser, mas sobretudo por outros ramos dessa mesma raiz - mourisca, por aqui mais descida (a) sul. Lamento que também noutro lado se ramifica no flamenco - mais (a) sul, sempre (a) sul. Labirintos beleza doutros (mouros) lamentos, fundo do fundo fundo onde nunca nos perdemos.
quinta-feira, 2 de abril de 2015
Ao Sonho Impunha-se o Cansaço
Ao sonho impunha-se o cansaço. O cansaço descansava-me as forças. Poderia até dormir de pé. Ao sonho não opunha a menor desistência. Sonhos impressionantes, sonhos impressionáveis, como a água. Nesse enquanto eu escrevia o sonho, esticadas as pernas sobre a secretária. Claro que se me inundara o chão da sala. Até via os peixes nadarem nela… No chão, debaixo dos meus pés, era como se estivessem num lago. Tinha a porta da varanda aberta. Não via como o rio vinha de fora. Para tirar as pernas da secretária, teria mesmo de acordar…
Manoel de Oliveira (1908 - 2015)
Às tantas andei a registar, depois perdi esse rasto. Ainda bem, sinal que me deixei disso, de registar o óbvio da marca do assombro, da aparência da imortalidade. Até hoje, pelo meio-dia. Manoel de Oliveira era uma lenda viva, um dos nossos verdadeiros orgulhos. De um povo que, enfim, na sua maioria, sempre aproveitou para bocejar com a figura - como aliás fazia (faz) com outros como João César Monteiro - e para dele fazer galhofa, a pura batota da ignorância. Filmes vistos = 0. O que anula logo um Vou Para Casa, Aniki-Bobó, um Vale Abrãao, A Caixa, o Convento, Non ou a Vã Glória de Mandar, Viagem ao Princípio do Mundo, etc, etc. Mais de cinquenta desde 1931, entre filmes, documentários e curtas-metragens esticadas à longevidade de 105 anos. Aos 106, claro, a obra era para continuar.
domingo, 1 de março de 2015
Vício Inerente
Um clássico de instantes pode não ser clássico instantâneo. Mas é, lá está, um clássico. Leva o seu tempo - graças aos deuses não é para toda a gente (e tarda nada vai embora) -, é preciso dar tempo, ao tempo. Ver mais uma ou duas vezes. Ou já, ou para já.
sábado, 7 de fevereiro de 2015
Nebraska
Os lugares de infância, de memórias, são como ímanes que nos atraem. Foi onde tudo começou. Comove mais se cada lugar, cada rosto, ganhar uma profundidade fotográfica, aprisionada. Como se começando tudo a cores, o sonho se nos fosse desvanecendo em preto-e-branco - negro de dores, branco de memórias. Quando afinal tudo se estende no natural imenso, desse continente, onde nos perdemos, onde ainda pode ecoar o sopro índio, onde ainda ecoa a dignidade de um bom western. Onde não tem força a força da notícia se não vier acompanhada da gente comum - esse velho da terra regressando de passagem com um bilhete aldrabado da lotaria... O que no fundo é um pretexto, uma desculpa santa, um recado para lembrar como nos enganamos a nós próprios. Not much.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
23.
Ir ao lugar, aos lugares, visitar pessoas, apanhar a respiração, dos lugares, das pessoas, juntar ao ar outros ares. A sua calma era completa, relaxada. Bem que estava dentro do seu elemento. Sua existência, alheia, cheia, completa em todo o seu vagar. Naquele momento desfrutava. Naquele momento faltava nada. Tal como eu agora escrevo estas linhas calmas. Sobre um mundo de mundos que se mistura com mundos de mundos. Osmose e harmonia, presença pela presença, reconhecimento, tudo o que a projecção não projecta.
O Lobo de Wall Street
Só agora vi "O Lobo de Wall Street", mea culpa é demasiado exagerado, mas é a tal coisa, fui deixando passar enquanto estava no cinema, já não é a primeira vez que deixo passar um filme, nem sequer é a primeira vez que escrevo aqui que deixo passar um filme... Também tivesse ido pela voz de alguns críticos e talvez mesmo nem escrevesse estas primeiras linhas. Recordo bem como usaram e abusaram do piloto automático, ou desse belo chavão do filme de encomenda - faltaria terem escrito que o filme é uma bela encomenda, foi quase. Tudo tão certo assim à laia de palpite como eu dizer agora, por exemplo, que a próxima eliminatória da Liga Europa com o Wolsburgo vai ter uma derrota 2-4 em Alvalade por causa daquelas, como agora se diz, transições meio-campo ataque que foram a receita certa para esses sacanas alemães pulverizarem o Bayern a semana passada. Como se, enfim, o Sporting não tivesse as suas armas, não estudasse o adversário, a sorte e o azar não fizessem parte, não se tratasse de uma eliminatória de competição europeia. Ou simplificando, como se não tivessem visto o Bayern, a esmagadora superioridade do Bayern.
O cinema não é um jogo, bem sei, talvez o cinema negócio o seja, mas o raciocínio do crítico aqui é o do jogador de apostas: Leonardo Di Caprio ganhou os direitos do filme e contratou Martin Scorsese para o realizar, logo é um filme de encomenda. Não é que o léxico não vá lá. A palavra encomenda é que enfim, traz o recado, o envelope fechado, e imagina-se o resto - e aposta-se - atrás do décor, da direcção de actores, da mesa de montagem...
O cinema não é um jogo, bem sei, talvez o cinema negócio o seja, mas o raciocínio do crítico aqui é o do jogador de apostas: Leonardo Di Caprio ganhou os direitos do filme e contratou Martin Scorsese para o realizar, logo é um filme de encomenda. Não é que o léxico não vá lá. A palavra encomenda é que enfim, traz o recado, o envelope fechado, e imagina-se o resto - e aposta-se - atrás do décor, da direcção de actores, da mesa de montagem...
Scorsese é que não deve ter dado por nada, nem pela encomenda, nem pelo piloto automático onde andou uns bons meses, na cabeça de alguns, a viver e a trabalhar para esquecer, perdão, para aquecer. Da porém ficam algumas perguntas. The Wolf of Wall Street não é um dos clássicos scorseanos? Claramente não, não é um "Raging Bull", um "Goodfellas", ou um"Taxi Driver". Não é um grande filme de Martin Scorsese? Enfim, talvez, depende. Não é o melhor filme de Scorsese desde Casino? Isso já custa mais negar... Não é o filme que soa mais a Scorsese desde Casino? Isso então ainda custa mais... Mais perguntas: estão ou não estão ali ideias e bem definidas? E essa noção de desmedido que gostais tanto em "Goodfellas"? E aqueles planos sequência em voz off? E as inesquecíveis cenas improvisadas? Não está lá Joe Pesci a perguntar "funny how", mas está lá Matthew McConaughey numa cena de antologia, há um Jonan Hill em estado de graça a arrancar de improviso alguns tantos assombros, ou um Di Caprio com um discurso improvisado que ou muito me engano ou é (d)o melhor que fez em toda a sua carreira.
Não chega a Goodfellas, dirão os críticos - e digo eu - mas não são ou não são os wise guys mais interessantes que este tipo assassino de especulador da bolsa? Pelo menos são mais corajosos, arriscam a vida e vão mais vezes presos, perdoem-me a acidez. E faz ou não faz Martin Scorsese em O Lobo de Wall Street uma das coisas que sabe fazer melhor? A saber: mostrar o ponto de vista do personagem - seus pontos fortes, suas óbvias e não tão óbvias vulnerabilidades, seus pontos onde se deixa cair em tentação e não se consegue livrar do mal, amém.
Não chega a Goodfellas, dirão os críticos - e digo eu - mas não são ou não são os wise guys mais interessantes que este tipo assassino de especulador da bolsa? Pelo menos são mais corajosos, arriscam a vida e vão mais vezes presos, perdoem-me a acidez. E faz ou não faz Martin Scorsese em O Lobo de Wall Street uma das coisas que sabe fazer melhor? A saber: mostrar o ponto de vista do personagem - seus pontos fortes, suas óbvias e não tão óbvias vulnerabilidades, seus pontos onde se deixa cair em tentação e não se consegue livrar do mal, amém.
Posso imaginar o busílis em torno da amoralidade que não deixa ver a imoralidade em causa. Entendo. Mas Scorsese é sempre demasiado inteligente para entrar em especificidades, é demasiado instintivo, sanguíneo, temperamental, interessa-lhe o particular, não o geral, interessa-se o indivíduo, a circunstância, a alienação, a tentação, a ambição, as marés onde (se) navega. E tantas são as marés vivas, por vezes o mar é tumultuoso, é preciso mãozinhas para guiar o barco (sabe Deus como) a bom porto... "O Lobo de Wall Street" não é filme denúncia, paciência. É do mais puro entretenimento, paciência. Problema é que denúncia melhor que muito filme denúncia, paciência. Ao mesmo tempo que entretém como o melhor entretenimento, paciência. Tem todos os ingredientes de uma boa comédia-denúncia, porém não se trata de uma comédia, longe disso, mesmo que faça nos faça rir de humor negro como o já mais que citado Goodfellas nos faz rir com arrepios na espinha.
Ora voltemos ao Padre Nosso: os alçapões, esses tais lugares onde podemos cair em tentação e não nos livrarmos do mal. Claro que a desgraça e a ruína estarão lá no inferno à nossa espera, no nosso não, no inferno dos personagens, mesmo que tenham sobrevivido para nos contar a história. Ou que entretanto tenham sido "salvos" - como parece que o foram, pelo menos de uma longa pena de cadeia - quanto mais não seja pela confissão numa autobiografia que deu em best seller*. Martin Scorsese é um grande cineasta católico, porventura o maior de todos.
* - Henry Hill foi ao "confessionário" com Wiseguy pela ágil pena de Nicolas Pileggi, que Martin Scorese aproveitou. Jordan Belfort, com o seu The Wolf of Wall Street, que Scorsese também aproveitou - ou encomendou, ou segundo alguns, foi encomendado. Do primeiro abstenho-me de dizer mais, sei que morreu há mais de dois anos. Do segundo apenas sei que quase não devolveu quase dinheiro nenhum às vítimas do muito que foi mandado devolver
do muito que lucrou com o livro, com o filme, e com palestras que dá em todo o mundo com a notoriedade com ambos ganha.
Ora voltemos ao Padre Nosso: os alçapões, esses tais lugares onde podemos cair em tentação e não nos livrarmos do mal. Claro que a desgraça e a ruína estarão lá no inferno à nossa espera, no nosso não, no inferno dos personagens, mesmo que tenham sobrevivido para nos contar a história. Ou que entretanto tenham sido "salvos" - como parece que o foram, pelo menos de uma longa pena de cadeia - quanto mais não seja pela confissão numa autobiografia que deu em best seller*. Martin Scorsese é um grande cineasta católico, porventura o maior de todos.
* - Henry Hill foi ao "confessionário" com Wiseguy pela ágil pena de Nicolas Pileggi, que Martin Scorese aproveitou. Jordan Belfort, com o seu The Wolf of Wall Street, que Scorsese também aproveitou - ou encomendou, ou segundo alguns, foi encomendado. Do primeiro abstenho-me de dizer mais, sei que morreu há mais de dois anos. Do segundo apenas sei que quase não devolveu quase dinheiro nenhum às vítimas do muito que foi mandado devolver
do muito que lucrou com o livro, com o filme, e com palestras que dá em todo o mundo com a notoriedade com ambos ganha.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
5 Contos para Crianças
Foram todos lidos hoje:
- "O Estado está a praticar usura pura", denuncia Domingues Azevedo, bastonário da Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas (OTOC). "O Estado, neste momento, tem uma taxa de juro incoerente, porque os bancos já praticam um spread de 3%", argumenta. Em 2014, o Estado arrecadou 75,6 milhões de euros com a cobrança de juros de mora e juros compensatórios."
- "Em síntese, mais de um milhão e duzentas mil pessoas, em Portugal, estão mal perante o trabalho, ou porque estritamente desempregados, ou porque desencorajadas, ou porque ainda trabalham como subempregados involuntaria
- "A Academia de Música de Almada deixou recentemente de dar aulas e os professores estão sem salários desde novembro, apesar do esforço dos proprietários."Empenhámos os nossos bens pessoais para conseguir pagar ordenados, encargos à segurança social, finanças, alugueres e luz, necessários ao normal funcionamento de uma escola", contou à Lusa Susana Batoca, diretora administrativa e pedagógica da Academia de Música de Almada."
- "José Carlos Saldanha, um doente com hepatite C que assistia esta manhã à Comissão Parlamentar de saúde, onde era ouvido o ministro da Saúde, Paulo Macedo, dirigiu-se ao governante e pediu-lhe em voz alta: "não me deixe morrer, quero viver". Antes de abandonar a sala, mostrou aos presentes o desespero que sente por estar há meses à espera de autorização para acesso ao medicamento para a hepatite C. "Acabem com isto. Não há direito. Escrevi uma carta a dizer que pagava metade do tratamento e nunca me respondeu"."
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
VEM DE UMA ILHA DO PACÍFICO
No seu olhar ilhas do Pacífico
Sentindo mesmo não sabendo
Que já está cá há muito tempo
A vida inteira fora da ilha
Que ela não lembra mesmo quando lhe vislumbro fundos marinhos no olhar
Em qualquer manhã já pôr do
sol a doirar este pouco suportável Inverno
No escritório
Concentrada ao computador
Sem se lembrar nem conhecer nada
Sem se lembrar nem conhecer nada
Desse lugar de infinidades onde
se absorvem solares
Mistérios antes das estrelas
Tempos atrás de tempos atrás
Tanto o tanto que é de agora ela
ancestral lança dessa ilha de danças
E no que são nisso mil anos... Mesmo
mais mil de mil anos atrás, e mais mil
De mil anos... Dura nem um
segundo
Daí ela não sabe onde ficava para onde olhava
Ela que era ela homens mulheres formaram-se nela
Daí ela não sabe onde ficava para onde olhava
Ela que era ela homens mulheres formaram-se nela
Antes, muito antes da sua ilha
ser descoberta, do arquipélago
De todas as ilhas serem descobertas
Da primeira ilha ser descoberta...
E em todas as ilhas, a sua ilha,
ninguém saía dessa ilha
Havia uma só pequena só estrada
só
Para só ver o mar
Para só ver o mar
Só do horizonte se caía como
(se) da asa de uma ave
A jangada era fraca para tanto
voar...
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
(Notas de) Cavalo Dinheiro
1- Robert Brésson, Straub/Huillet, Godard, Tourneur, uns mais que outros (até) podem servir como aproximação ao cinema de Pedro Costa. Não chegaremos perto, talvez nem à metade, talvez nem à metade da metade, sentimo-lo, conta a voz do momento, conta aquilo que não sabemos, aquelas pessoas-personagens ficcionando memórias, ou melhor, realizando memórias. Com a diferença de se conseguir atravessar a parede traiçoeira do documentário ao (puro) cinema - a parede é dura, as marcas sofridas feridas da vida.
2 - Em todo(s) o(s) plano(s) (des)assombro, clareza, pureza sem mácula. A coragem típica dos cineastas criadores da (sua própria) gramática - como os já citados, ou um Pasolini, Bergman, Aki Kaurismaki, César Monteiro, Ford, entre outros únicos irrepetíveis - navegadores do perigo, dos territórios inexplorados, das visões que se permitem (como consumação) até às últimas consequências, escavando (todo) o cinema possível, conquistando (o seu próprio) território.
5 - Assim nascem aqueles personagens, que são pessoas, mais pessoas que (todos os) personagens. Personagens que aliás nem pensaríamos que alguma vez pudessem existir e ser possíveis, pessoas que jamais imaginaríamos que alguma vez se tornariam personagens - tão absurdas como reais, tão irreais como de carne e osso.
6 - Porém o assombro cinematográfico, a obra-prima - que o é - não é aqui o que mais interessa. O que mais interessa é essa verdade que se impõe, e essa verdade - como aliás o realizador - está longe, muito longe de toda a mise-en-scène desta sociedade do espectáculo, das maquinarias da (sua) produção... A cena final no elevador entre Ventura e o homem-estátua-soldado do MFA é bem a medida dessa verdade. Aquele soldado tem a voz dos fantasmas de Ventura. Acontece que alguns desses fantasmas também são nossos fantasmas, contemporâneos que somos, nem que apenas como descendentes, de toda essa realidade (de memória transmitida). Também é como se algo dentro de nós nos dissesse: "Um soldado do MFA, com que então!". Sim, um soldado do MFA. Como arquétipo, como arquétipo entre arquétipos esquecidos, esquecidos como tantos deserdados dos PALOP.
2 - Em todo(s) o(s) plano(s) (des)assombro, clareza, pureza sem mácula. A coragem típica dos cineastas criadores da (sua própria) gramática - como os já citados, ou um Pasolini, Bergman, Aki Kaurismaki, César Monteiro, Ford, entre outros únicos irrepetíveis - navegadores do perigo, dos territórios inexplorados, das visões que se permitem (como consumação) até às últimas consequências, escavando (todo) o cinema possível, conquistando (o seu próprio) território.
3 - Cavalo Dinheiro é de uma profundidade tal que muitos de nós, presumo - que de uma maneira ou de outra, viveram e vivem, mesmo ignorando paredes meias, toda a realidade pós-25 de Abril - o podem ler como dos filmes mais profundos - de uma profundidade insondável, incomensurável, cheio de raízes passadas e extensões futuras -, negros e fantasmagóricos que viram em vida.
4 - O plano parece iluminado entre o sentido material e espiritual do termo - olha-se o que se olha, vê-se o que não se vê. Ouve-se o que se ouve, sobretudo o que não se ouve. Tudo parece (e provavelmente é) estudado, trabalhado e improvisado para o (seu) momento, para a pura declaração do que é. E não é bonito de se ver, pelo contrário, confronta-nos (com) o esquecimento prestes a saltar para o reino do nunca mais: esse país que fingíamos que não víamos (abandonado), e que assim ignorado cresceu (em miséria, desespero, decrepitude, doença). Criado ou escravo, tanto faz, o dia é para acabar na barraca, agora no bairro social dos subúrbios, mesmo ás portas da cidade.
4 - O plano parece iluminado entre o sentido material e espiritual do termo - olha-se o que se olha, vê-se o que não se vê. Ouve-se o que se ouve, sobretudo o que não se ouve. Tudo parece (e provavelmente é) estudado, trabalhado e improvisado para o (seu) momento, para a pura declaração do que é. E não é bonito de se ver, pelo contrário, confronta-nos (com) o esquecimento prestes a saltar para o reino do nunca mais: esse país que fingíamos que não víamos (abandonado), e que assim ignorado cresceu (em miséria, desespero, decrepitude, doença). Criado ou escravo, tanto faz, o dia é para acabar na barraca, agora no bairro social dos subúrbios, mesmo ás portas da cidade.
5 - Assim nascem aqueles personagens, que são pessoas, mais pessoas que (todos os) personagens. Personagens que aliás nem pensaríamos que alguma vez pudessem existir e ser possíveis, pessoas que jamais imaginaríamos que alguma vez se tornariam personagens - tão absurdas como reais, tão irreais como de carne e osso.
6 - Porém o assombro cinematográfico, a obra-prima - que o é - não é aqui o que mais interessa. O que mais interessa é essa verdade que se impõe, e essa verdade - como aliás o realizador - está longe, muito longe de toda a mise-en-scène desta sociedade do espectáculo, das maquinarias da (sua) produção... A cena final no elevador entre Ventura e o homem-estátua-soldado do MFA é bem a medida dessa verdade. Aquele soldado tem a voz dos fantasmas de Ventura. Acontece que alguns desses fantasmas também são nossos fantasmas, contemporâneos que somos, nem que apenas como descendentes, de toda essa realidade (de memória transmitida). Também é como se algo dentro de nós nos dissesse: "Um soldado do MFA, com que então!". Sim, um soldado do MFA. Como arquétipo, como arquétipo entre arquétipos esquecidos, esquecidos como tantos deserdados dos PALOP.
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
Um Dia na Terra
1 - Nick Cave é um desses que sempre me marcou, já vem de há muito. Bom nos bons dias, perfeito nos maus dias - qual desinfectante para feridas complicadas, qual analgésico para frustrações -, vem mesmo a calhar ouvi-lo falar na canção como desafiadora da morte, a única capaz e com força suficiente para fazer arrancar a cabeça do dragão. Não que a ouvir Nick Cave já não tivesse sentido esse estado em que nos parece possível arrancar a cabeça a esse temível monstro que ainda por cima voa e deita fogo das entranhas.
2 - Nick Cave sabe dar a canção às palavras, mas também sabe dar as palavras à canção. É desses poucos - onde incluo Johnny Cash, Neil Young, Nick Drake, Mark Lanegan, Leonard Cohen, Van Morrison, Jim Morrison, Bob Dylan, Bruce Springsteen, Fausto, Sérgio Godinho, Serge Gainsbourgh, Paolo Conte, Chico Buarque, entre outros tantos; e não incluo tantos outros que são muito boa gente, certamente, até porque têm muito boa imprensa, mas de onde, enfim, ou muito me escapa, ou lhes falta um qualquer destes dois atributos para completar a equação, sobretudo dar a canção às palavras. Já nem falo dessa força, dessa fúria, desse intento visceral, da sentida inspiração, da mesmo que momentânea iluminação, da capacidade que nos faz ao menos acreditar que, se não é tudo possível, pelo menos é possível qualquer coisa, quanto mais não seja ouvir uma canção que nos encha as medidas. Isto com o maior dos pessimismos, claro, com a absoluta descrença do falhanço. Com tudo o que Nick Cave tem criado desde os Birthday Party.
2 - Nick Cave sabe dar a canção às palavras, mas também sabe dar as palavras à canção. É desses poucos - onde incluo Johnny Cash, Neil Young, Nick Drake, Mark Lanegan, Leonard Cohen, Van Morrison, Jim Morrison, Bob Dylan, Bruce Springsteen, Fausto, Sérgio Godinho, Serge Gainsbourgh, Paolo Conte, Chico Buarque, entre outros tantos; e não incluo tantos outros que são muito boa gente, certamente, até porque têm muito boa imprensa, mas de onde, enfim, ou muito me escapa, ou lhes falta um qualquer destes dois atributos para completar a equação, sobretudo dar a canção às palavras. Já nem falo dessa força, dessa fúria, desse intento visceral, da sentida inspiração, da mesmo que momentânea iluminação, da capacidade que nos faz ao menos acreditar que, se não é tudo possível, pelo menos é possível qualquer coisa, quanto mais não seja ouvir uma canção que nos encha as medidas. Isto com o maior dos pessimismos, claro, com a absoluta descrença do falhanço. Com tudo o que Nick Cave tem criado desde os Birthday Party.
3 - Junto ao poder do cinema, à forma como nele se pode projectar o valor do som e da imagem em sua gramática própria fundida às da canção e da palavra. Nick Cave diz que passa o tempo emerso a escrever, da escrita surgem as canções. Da vida, da morte e do porquê disto tudo ser tão escuro, tão negro, confuso, perdido. No labirinto de Cave, o que não é lúdico pelo seu humor tão negro, é trágico nesse sentido poético do termo, onde a saída é a sublimação do sentimento que não há saída. De onde se impõe por exemplo aquele encandeante acorde de orgão de Warren Ellis. Ou aquele final onde se completam e colam as diferentes peças do filme com a naturalidade como se explica a Forma da canção.
4 - Outra coisa são as palavras que trazem de dentro profundidades inauditas. Mas eis que entretanto as ideias já entraram, tomaram parte na casa... Verdade que vieram de dentro, seguindo a intuição segundo seu preceito de pensamento total concentrado, de expressão da sua e da nossa singularidade. Porque só nos conhecemos a nós próprios, quando, enfim, ainda não nos tínhamos conhecido.
5 - Isto num dia de nevoeiro, Nick Cave falava do tempo, da forma como temia a natureza a partir da janela de sua casa frente ao mar na cidade inglesa de Brighton. Eu pus-me a pensar que sim, que havia ali esse nobre velho sentimento respeitoso do temente a algo que nos ultrapassa e nos é incomensuravelmente superior - algo bem próximo e descendente directo desse antigo temente a Deus com que o homem se tomava perante a sua real insignificância, e que hoje faz condão em esquecer e ignorar... Depois, ou cada vez mais de vem em quando, lá vem a "velha" Natureza ser lembrada, antes de mais nada, num qualquer alerta vermelho. Depois... Cave falava nas nuvens que cada vez mais se vêem no céu a ameaçar a catástrofe. O que da Natureza e por sua natureza vem de quem está habituado a enfrentar dragões.
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PS: Este post vai atrasado, este blogue não é pago, e com isto aproveito para dizer que ainda há uma sessão diária do filme às 20 horas, enquanto houver sessões e enquanto houver salas...
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PS: Este post vai atrasado, este blogue não é pago, e com isto aproveito para dizer que ainda há uma sessão diária do filme às 20 horas, enquanto houver sessões e enquanto houver salas...
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
F
Comecemos pela Estrutura literária, essa maquinaria de realidade em F, de Luís Seabra. Uma lógica totalitária de que perigosamente nos aproximamos hoje quando a mentira é escondida por cosméticas, por forjados factos, por novas palavras para dizer o contrário do que significam, onde a orwelliana novilíngua ganha outras novas audaciosas cores. Tratando-se F de uma obra sobre o totalitarismo num futuro possível de estado policial total (com 10 % da população presa, todo o restante é suspeito) onde o único escape possível é o espaço do sono e do sonho por onde o detido se pode, enfim, libertar, mas onde o pesadelo é o único (elo) possível para o estado de vigília, qual teste de stress para os perigos da selva e antecipação dos piores cenários - de tortura, de medo, pressão constante da vigia e delação - de pesadelo como única chave dentro do pesadelo, o medo como única chave dentro do medo. Neste aspecto F remete-nos ao fascismo e estalinismo, entre outros totalitarismos, aos métodos sádicos de uma PIDE ou de uma Stasi. Mas não fosse apenas esse passado que nos assombra, não, para quem ler bem, em F é o presente que nos assombra. O presente como um futuro que temos muito por onde suspeitar, e se não assustar, pelo menos prevenir. Temos no presente o exemplo das prisões privatizadas de certas zonas dos Estados Unidos, bem dentro da lógica do lucro neoliberal, podemos supor um presente-futuro por essa mesma lógica corporativa que cada vez mais nos tolhe a esperança, que toma conta de nós próprios e dos nossos dias, dos nosso próprios governos, da Democracia, que dá-nos cabo da liberdade - ao que se torna implícita uma certa ideia de prisão, que neste plano inclinado por onde tudo piora, e tomando conta da linguagem, como bem sabemos que toma, pelo mecanismo da propaganda, pode adquirir no Estado Policial outros contornos mais explícitos.
Esses mesmos contornos tomam mesmo forma em F nos orwellianos Politique Nacionale de Regroupement Préventif, Ministére des Libertés et des Privations Publiques, Ministére du Conformisme, bem como nessa lecture contrante que nos lembra, e de certa forma remete, para esse dois minutos de ódio de 1984, de George Orwell. mesmo que numa lógica ainda mais sádica e perversa...
Quanto mais não seja porque F é sobretudo um romance de Estrutura, o que caracteriza a verdadeira literatura, que não se resume apenas ao que se passa e acontece, ao biográfico, ao arbitrário, ao aleatório, ao prosaico da vidinha. É a Estrutura que verdadeiramente comanda e distingue a literatura, que de certa forma protege a literatura, que ajuda a erguer a literatura, que torna a própria literatura como uma máquina da (sua própria) realidade. Em F a Estrutura é pois esse motor, força implacável que se autonomiza em si própria, que cria as suas próprias regras, que nunca se desliga do seu todo, do seu propósito.
Pessoalmente, numa obra gosto de observar de perto o "como é feito", ou o bem feito, se quiserem, e a verdade é que não há uma costura, como li algures numa das muitas críticas francesas à obra, tudo é feito de um modo e precisão clínica, há em F um sentido de economia, síntese, concisão, precisão e eficácia que o tornam absolutamente vertiginoso, mas vertiginoso em seu duplo sentido do termo - velocidade de leitura, e vertigem perante o abismo lá em baixo...
Mas voltemos ao presente, ao (nosso) mundo com esses certos dirigentes e funcionários das corporações que nos mandam e comandam os dias, quais oligarcas, o nosso sistema económico, e, cada vez mais, o nosso sistema político, já para nem falar na massiva propaganda. Têm para isso esse bom veículo: os idiotas úteis e "úteis" que não têm o que nunca tiveram nem podem ter na vida: uma voz própria. O que não quer dizer que não tenham uma voz, e uma voz bem mais forte que a nossa: a voz da corporação, da organização, do orgão, da empresa, tomado com princípio, meio e fim de todas as coisas. Mas não só, também como alimento de onde extraem a energia, a razão de ser, de estar, de viver, sentido (único) de utilidade, até mesmo, vá-lá, de um certo módico de talento, e também, porque não, desse génio perverso que mais não vem que desse tão forte e puro instinto de sobrevivência de todos os medíocres deste planeta. Sempre e sempre na defensiva, claro, pois nada existe fora da organização. Onde a liberdade, qualquer forma de liberdade, por mais ténue que seja, é tomada como a verdadeira inimiga, o alvo a abater. À qual o medo, o terror e a constante suspeita são a única possível e eficaz forma de a poder neutralizar e domesticar. Porém é preciso mais alguma coisa, de forma a tomar a tarefa possível, para organizar (desorganizando), para legitimar por fim, a organização totalitária é precisa a mais intrincada burocracia.
A isso, normalmente, há um dado que escapa: a burocracia tem de ser incoerente. Também não deve ser claramente inteligível (apenas o suficiente) e deve ser pautada pela disfuncionalidade, uma disfuncionalidade não assumida. Ou seja, a matéria de aperfeiçoamento deve confundir-se com sua matéria de confusão. Com coerência não sobra espaço para manigâncias. Com coerência há um módico de regras, um jogo de causa-consequência, um mínimo sentido de regra e de justiça. Sobra assim pouco para o escorregadio, para a calúnia escondida, para o veneno sub-reptício. Porém a própria mentira, como algo assumido, assumiria sua verdade, claro está, a novilíngua-propaganda tem de dizer que sua mentira intrínseca é verdade. Que nada é digno de ser questionado, algo que só a burocracia legitima, alimenta. Todos os átomos dessa Prisão de Schendorf - com os seus detidos e seus polícias e directores e vigilantes, todos delatores - estão encerrados nessa mesma estrutura molecular de Prisão Ideia. O princípio, o meio e o fim último só querem dizer uma coisa: Prisão. Todos estão presos. Lá fora também. Da própria prisão já não há escape. Onde tudo (nos) é vigiado. Onde se é detido em intrincados mecanismos burocráticos, claro está. Numa sociedade onde o delito maior é ir, nem que seja ao de leve, contra essa mesma ideia de sociedade como prisão.
Não é preciso irmos muito longe, basta pensarmos na nossa PIDE, e não é preciso dizer mais nada... Claro que é necessária a Mentira para simular as formas. Claro que é necessário o Terror e o Medo para não dar espaço ao pensamento. É necessário que o individuo se renda, mas que se renda incondicionalmente. É preciso encerrá-lo, completamente, sua prisão intrínseca não deve gerar aberturas, se o gerar cá fora, é preciso pois encerrá-lo dentro. Nesse mecanismo, político e/ou corporativo, o indivíduo não conta, não existe. É preciso jogar com os piores fantasmas da mente, com o modus operandi da constante e absoluta desconfiança, com a quebra de toda motivação, pela mais aleatória imprevisibilidade onde cada um sabe que pode a qualquer momento ser apanhado pelas engrenagem implacável de uma sociedade prisional totalitária.
Remetemo-nos aqui para romances como 1984, ou Brave New World, ou mesmo o Processo de Kafka, entre outros. F deixa um alerta claro, um aviso. Deixa-nos de certa forma em sentido, mas por outro lado não nos deixa de deslumbrar em seu jogo cirúrgico, que nos manipula e leva exactamente como e para onde quer, em termos físicos e como ideia: para a prisão. Ali estamos tão desorientados como o advogado Linz, ou o Director da prisão Boehm, ou o preso F, que tem o verdadeiro poder, e é muito mais que um preso, e mais não digo. Mudemos de assunto.
A pena do escritor parece conhecer aqui cada palmo de terreno, seu próprio tabuleiro de jogo. Comanda e domina os recursos com uma notável lucidez visionária, ao mesmo tempo que em torrente (não confundir com torrencial), cadência e ritmo uniformes, mas impiedosamente incessantes, a matéria é contada nessa tal dupla vertigem com uma notável gestão dos tempos. A própria informação (elíptica) é pois gerida por essa já tão nomeada Estrutura que se ergue a alta altura e que a própria leitura completa e integral da obra não deixa ver completamente. Nem poderia ser de outra maneira, de outra forma não haveria forma de deixar a via aberta à liberdade, ao sonho, à ficção. O veneno de F traz também a sua cura.
Falando em Estrutura, outra referência menos óbvia, mas que está, a meu ver, bem presente, é Alfred Hitchcock, muito mais que a referência a David Lynch que tanto se repete na imprensa francesa. Não há em F uma ponta solta, mesmo que tudo possa ser, enfim, sonhado, o que há é sim essas típicas cadeias de suspense que arrasam "cenários" criando novos "cenários" com novos intrigantes (e intrincados) elementos num continuum inédito, intrigante e tanto ou quanto assustador. Há ali suspense, não qualquer ideia de terror subjacente, tudo se alicerça sim numa lógica geométrica cuja solidez, comprovada, em nada é garantida, e onde a cada instante, o chão pode cair debaixo dos nossos pés. Sim, estou a pensar em Vertigo - que devia ser traduzido em português como Vertigem mas saiu esse "misterioso" A Mulher Que Viveu Duas Vezes.
Em suma, é como se a ideia de Prisão per se, até ás suas ultimas consequências, constituísse o próprio MacGuffin da trama. Problema é que o espaço dado à adivinha e respiração é muito pouco, como é óbvio. A absoluta claustrofobia prisional assim o impõe. Contudo, esse claro, audacioso e mesmo intrépido jogo de adivinha, não tem como propósito o seu próprio adivinhar, daí o MacGuffin.
Franz Kafka é presença ainda mais forte, sobretudo pelo seu lado intrigante e obsessivo, pelo seu lado lúdico perante o horrendo, numa certa forma como somos martelados pelas palavras, na impiedade bizarra e ao mesmo tempo livre e estranhamente objectiva. Porém, a meu ver, a maior influência de F - não tanto no estilo, mas sobretudo na forma e na ideia - está em Jorge Luis Borges. Borges não apenas pelo labirinto, que existe e tanto nos perde, mas sobretudo porque paira na obra como um todo, e assim no seu todo, marcando o início e o fim de F. Começando na frase inicial - "A certeza de que tudo está escrito nos anula ou faz de nós fantasmas" - que ao longo da leitura cada vez mais nos surge desligada da obra, mas que se introduz (diria que se injecta) em seu final para pôr os pontos nos iis - calibrando tudo em seu todo de sonho e/ou pesadelo - como Literatura, Estrutura, máquina literária total.
Esse epílogo de F, borgiano quanto baste, é a centelha, a margem de esperança, esse céu que se abre sobre a Prisão de Schendorf e sobre nós com ela. E como Borges também tinha seus pesadelos, essa ideia do não está nada feito, é precisamente essa mesma mensagem de esperança que se deixa em aberto na leitura. De esperança sim, mas também de desafio, de mote, de urgência. Esse aviso que também é uma realidade: não está nada feito porque na realidade não está nada feito - a própria ideia de que está tudo feito em tudo carece de prova, problema é que nunca prova coisa nenhuma - mas sobretudo porque em si a ideia de que está tudo feito é a mais pura receita para a auto-anulação, para a renúncia do presente, para a arte de manipulação e lavagem cerebral, para a propaganda da mentira, em suma, para o desastre. A própria linguagem, no seu quê de jargão, exprime o óbvio contra tanto nariz empinado que é muito boa gente que para aí anda: se pensamos que está tudo feito, está tudo feito...
Como se a liberdade já estivesse construída e não estivesse por construir, como a liberdade não fosse algo que se constantemente se conquistasse, como se a liberdade não fosse em si uma ideia de verdade. Sim, a ideia que está tudo tudo feito é apenas uma ideia de prisão...
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