quinta-feira, 31 de julho de 2014

21.

No mar fartei-me de nadar e de andar. Nas gélidas águas da costa alentejana deste ano (sim, sim), coisa que não deve haver desde há eras, como diz Neil DeGrasse Tyson, e é difícil de entender, melhor foi o corpo dentro de água, a cabeça fora ao nível do mar em meio êxtase flutuante, brisa marinha na cara e pescoço, e a beleza disto tudo sempre a despertar. Terrence Malick nunca esteve aqui nem na Costa Vicentina, de outra forma já teria filmado. É um sentimento de certeza que eu tenho. Como o encaixe perfeito que teriam sido os Pink Floyd fase 69-71 no enorme que era o cais antigo de Vila Nova de Milfontes, sob o rio, a foz, o mar, uma praia em frente, detrás a vila, do outro lado mais Rio Mira a preparar-se para serpentear ao passar da ponte, a serra sempre além... Seriam os sons de eternidade de Echoes, entre outros, a juntarem-se à "outra" eternidade nestes pontos descoberta a quem venha sofrer o maravilhamento. A eternidade que sempre se manifesta e nós que estamos sempre de passagem. 

NON


Até as falhas nos actores, nos diálogos e os planos e tempos desnecessários parecem fazer parte do cardápio. Manoel de Oliveira paira acima de todo o acidente. Oliveira incorpora, absorve em tudo, mesmo nos erros tudo no filme é sublimado. Pouco importa o redundante e desnecessário de certos momentos, a câmara impõe o desassombro de outros momentos: das interpretações, de certos diálogos, de toda a mise-en-scène desse cinema de representação pura e dura, genuíno em todo o artifício. Cinema para quem o sabe receber, para quem o vê, para quem o merece. 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Novas Parcimónias

Hora e meia (não muito mais) de exercício físico e depois duas (não muito mais) cervejas das saborosas e bem calibradas, eis uma das melhores sínteses fisico-químicas possíveis ao ser humano. Outro dos grandes motivos porque explodiram as super-novas. 

Primeiro há os que escrevem. Depois há os que escrevem o que escrevem.

- O Facebook tem uma saída: a rua.

- Não viver como desculpa para não escrever. Não escrever como desculpa para não viver. Não escrever sem escrita, não viver sem vida. 

- Nem doping, nem controlo anti-doping. 

20.

A vila (será já cidade?) está cheia. Talvez devesse marcar férias mais cedo. Lisboa, porém, dizia-me o contrário, e contra factos não há meteorologias. Então ajustei sonos em três horas mal dormidas. Bendita natureza que me ajusta estas coisas. Agora estou aqui para o sol, para o mar, para os livros, para as escritas (?), com este vento que me leva a ficar na toalha mais tempo que o habitual. Sinto nisto outro ajuste natural pois leio Cem Anos de Solidão, e de facto, é preferível deixar tudo o resto a voar... Outra experiência é ler Sophia frente ao mar, assaz curiosa experiência, já a tinha tido em casa. A lá voltarei, basta ir à estante. Agora uma senhora tira uma selfie. Cálculo que seja para apanhar o mar-horizonte, a foz do rio, a praia em frente, as pessoas (?). Desajeita-se, aposto que é para pôr no facebook. Os piratas já não voltam, as muralhas são agora uma residencial. 

quinta-feira, 12 de junho de 2014

19.

Pela primeira vez na vida escrevi um sonho completo. Um sonho completo  - que na realidade é segmento de sonho mais longo - com principio, meio e fim. E como uma boa história - mesmo que uma história má -, esta inicia-se em andamento: esse autocarro onde me encontrava. Escrever o sonho foi muito importante. Ajudado pela escrita, apanhei sua coerência e visão intrínsecas, também sua unidade, forma e mais real conteúdo. Escrevendo, arrisquei pois a literatura desse sonho. Conto ou mini-conto, foram 560 palavras de rajada. Coisa curta, porém, pormenorizando cada aspecto, serão mais, não muito mais, a não ser que comece a inventar, a usar o sonho como ponto de partida. Ora assim recordo que o velhote barbudo que entrava a reanimar o condutor de autocarros (não vou contar o que aconteceu) no sonho era igual ao do video do The New Pollution de Beck. É óbvio que o sonho veio antes do vídeo. Aos anos que eu não ouvia essa canção. Também o sonho veio antes da internet, é preciso dizê-lo, mas por este andar talvez um dia alguém o esqueça. Mais importante é que nesse sonho, megalomanias à parte, senti-me mais perto de Borges ou Bioy Casares a escreverem certas páginas, esse lado de ente-conto, usando as palavras de Roberto Bolaño. Então saí de casa, tinha de ir ao super-mercado, e tive logo três encontros fortuitos. Um de uma constatação, outro de uma confirmação, o outro de uma dúvida. O primeiro, de um desconhecimento; o seguinte, de uma amizade; o final, de um conhecimento. Este último é o que tem mais dúvidas e áreas de profundidade, para não dizer de perigo. Na amizade, pelo contrário, estamos sãos e salvos. O do desconhecimento, pois, já não me recordo. 

domingo, 11 de maio de 2014

18.

Acordar com a Canção de Lisboa de Jorge Palma na cabeça é coisa que promete pouco. Do mal o menos, irei escrever. Na verdade estou mesmo a escrever agora neste bloco apanhado da mesinha de cabeceira. De certo só mesmo aferir da chama com que me deitei numa noite de palavras decididas. De incerto nada remanesce e arrasta a areia e prova-me a caneta que acordei desafinado. Então subo o volume ao grande Jorge Palma, trazido da melancolia da noite para o dia, o que também é certa decepção de mim próprio: penso em todas as palavras que não li subtraídas ao tempo que as tive para ler. Penso em marimbas no fundo da cabeça que a páginas tantas se nos oferecem no extraordinário Suicidas de Henrique Manuel Bento Fialho. Vá lá que aqui está tudo intacto, nem que seja na aparência. Sei que houve resistência para a avidez das tropas inimigas, hoje mais ávidas que nunca. A gente perde o rasto aos colegas do recrutamento obrigatório. Não me lembro de haver amigos na trincheira. 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

17.

- Levar-se a sério é sinal de avanço. Não se levar, sinal que se avançou. 

- Devagar se vai ao longe, à velocidade da luz o tempo pára. 

- A liberdade precisa das mãos, as mãos precisam da forma. 

- A falsa amizade? Uma desculpa para, um encolhe-te, um prende-te, um as coisas não podem ser assim dessa maneira. A dependência. A pressão alta e a marcação ao homem e à zona. As almofadas. A maquineta de jogos de manipular. A carapuça das aspas acima da palavra. 

Carne para Canhão

Não deixa de ter semelhanças a inconsciência que nos atirou para esta absurda austeridade e perigosa divisão da Europa entre norte e sul, com a inconsciência que precipitou os acontecimentos na Praça Maidan, usando dos piores defeitos da propaganda para esconder o mais puro fascismo doutrinário e um Golpe de Estado contra um governo legitimo e democraticamente eleito. 
De tudo o que eu vi na altura em entusiasmados noticiários, nada mais recordo que a exibição das colossais riquezas à base do roubo, sim, de um governo ladrão e corrupto. Com os palacetes e demais iguarias ficávamos conversados: o governo não só era corrupto, era mais que corrupto, vergonhosa obscenamente corrupto, e a golpada até nos parecia legitima, enfim. Era o povo e tal e nós isso mesmo: burros a olhar para o(s) palácio(s). Problema veio depois. Outros também quiseram, com a verdade - que como Nietzsche dizia, não é propriamente uma velhinha indefesa - de o quererem muito mais legitimamente, fazer também a sua revolução. A começar com a Crimeia, que não foi há dez anos. O resto da história todos já conhecem, ou melhor, vêm conhecendo, de preferência não pelo José Rodrigues dos Santos, que teve na Ucrânia um dos piores e mais parciais exercícios jornalísticos de um enviado especial que eu vi em vida. Agora, enfim, agora é como alguém do mais credível escreveu:«Estamos dependentes da sensatez, ou falta dela, da Rússia». O que até pode ser traduzido por um agora aguentem-se à bomboca. No que é melhor não ser ingénuo. Vou até mais longe, acredito que tal como fomos atirados para esta crise pelos mesmos que tudo dela lucram, poderemos ser atirados para a guerra como povos inteiros antes o foram em tempos de crise. Podemos sempre confiar que a razão estanque a hemorragia das feridas abertas em tempo recorde - e as marcas das feridas têm sido deveras reveladoras. Problema é que a razão não tem sido pródiga em qualquer das partes interessadas. Falemos nos Estados Unidos, é desnecessário de tão óbvio enumerar todos os seus interesses económicos, financeiros, políticos e geoestratégicos (já para nem falar no "military-industrial complex" que só não vê quem não quer ver) em todo este absurdo. Quando a Rússia é o velho patriotismo do Império Russo e Vladimir Putin é Vladimir Putin. Quando a União Europeia é toda esta ordem sem ordem às ordens de Berlim. Talvez eu ande mesmo desmemoriado, mas agora assim não me recordo de nenhuma guerra justa que meta estas gentes e estes povos desde a Segunda Guerra Mundial. Causada por esse Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães que era nazi e fascista e tudo, não era? E o fascismo, nazismo, ou pelo menos, vá-lá, o mais feroz nacionalismo também hoje é parte deste incendiário ilegítimo governo da Ucrânia, não é? Da Europa-América até já aterrou o FMI em Kiev (como aconteceu no Iraque, nunca vi comentador e/ou analista falar nisso, os comentadores e/ou analistas nunca falam na Doutrina de Choque), não foi? Os Estados Unidos e a União Europeia só estão mesmo preocupados, seriamente preocupados, com a democracia, a justiça e a integridade territorial da Ucrânia, não é? Problema que tudo tenha apenas começado

sábado, 3 de maio de 2014

Maio Maduro Maio

Foi instrutivo, não intrusivo. Estavam lá os grupos, grupelhos, fainas, arquitecturas, engenharias. Uma pipa de massa à base de fígado. Uma boa dose de confiança. Também foi fácil dirigir-me à verdade, era só contornar algumas pessoas. Sujeito a quem se pedem predicados, aos outros eu sujeitos só mesmo trabalhando em equipa e/ou contextos de amizade. Géneros de coisas das quais não se pede e só mesmo por acrescento. Nada de guerras, só textos. Com uma população a desaparecer por falta de alimento ao espirito, cheguei ao ponto mais ocidental de mim próprio, logo ali desatei a ler. Já não tinha nem tropas nem aldeões e foi difícil  reiniciar-me com pedras a atacar o estômago. Mas ganhei fôlego. Livros, minha intuição tinha-os fisgados mas foi como conhecer um país estrangeiro que sabíamos extraordinário quando ainda não o tínhamos vivido. Tomos na desordem ordenada como um atelier de Picasso. Esquecido perdido nem reparava no trabalhado e por trabalhar. Detesto o nome laboratório de ideias, é feio vulgarizar assim a palavra através da ciência. Com o seu quê entre o jargão de telejornal e o de criativo publicitário que em tudo me irrita ao ponto do deixem-me em paz. É como o intragável presunção de inocência que não é coisa com coisa e tudo reclama e tudo acusa. Quem se terá lembrado de semelhante ideia? Horas e dias de reflexão e fugas e batalhas contra essa sombra desconhecida só podiam ter dado este resultado: o problema não é meu. 
Seja, certos territórios, estranhas ilhas desconhecidas, estão disponíveis atrás do arvoredo. Desancorar, assaltar armadilhas. Partir do sentimento, não tanto do aperfeiçoamento. 

quinta-feira, 17 de abril de 2014

16.

Inspirado, com as palavras prontas a chegarem sabe-se lá de onde, Henry Miller tinha esse hábito, antes de começar, dizia:«Sou todo ouvidos.». Então escrevia. A inspiração passa a palavra. O escritor só precisa criar condições necessárias à escuta. Limpar o terreno da vidinha. Buscar um género de neutralidade aparente (que de neutro não tem nada). A disponibilidade não se quer indisposta, Henry Miller tinha esse hábito. Dizia que quando não se consegue criar sempre se pode trabalhar. Então é limpar o terreno, deixar tudo a postos. Assim sempre se varre muito sábio conselho da escrita criativa. 

15.

Fosse um duelo, terias de tirar esse cinismo alegre que te serve de escudo. De qualquer forma, ficarias mais leve. Sempre tão dependente das pessoas, das pessoas e dos estímulos das pessoas... Ser um agarrado, dependendo do grau, tem sempre um lado manipulador. Constato o problema, esse calcanhar de Aquiles. Um calcanhar daqueles, diga-se... De vez em quando, ao Sol (que tudo reflecte), fica aí tudo à mostra. Um desses planos bem melindrados.

14.

Mesmo antes de o beber, o mau café já se me tinha atravessado. Vinha do leve cheiro a queimado e de uma mais fina textura que algum telescópio sensível a olho nu nos mostrasse. Qual censor próprio de alarme, avisava que me ia dar mal. Bem que telefonaste, fica o curioso agradecimento. O tempo passou. O café esfriou. De nada valeu nem tê-lo tocado. Acabada a conversa, meu coração mais parecia um tambor africano num ritual da tribo; a desidratada boca a secura de um deserto; um blitzkrieg entretanto preparava-se nos intestinos. O mau café tem um feitiço. 

segunda-feira, 31 de março de 2014

Estado do Tempo

Meu tempo não é o tempo da minha meteorologia. O tempo da minha meteorologia tem dias, tem marés e tem estações. Meu tempo é outra coisa. Não mora em estados de alma. Não vive e sofre as divisões e uniões, concórdias e indecisões, ilusões e desilusões. Meu tempo não tem guerras nem tempestades, nem nunca lhe cairá asteróide em cima. Meu tempo é um quieto caminho. Segue o seu curso, infinito, infinito até que acabe. E quem diz curso diz discurso. Leis que segue conforme, nada em disforme - nem um átomo fora de sua vontade, regra exacta e disciplina. Meu tempo é pois meu tempo. Um tempo com tempo. Tem de ter tempo. É tempo. 

Questões de Interesse

Isso dos interesses comuns pode ser um rol de problemas, escondem o interesse, escondem o problema. 

quinta-feira, 13 de março de 2014

A Máquina de Hemingway

É perigosa auto-consciência. Faz curto-circuito na máquina criativa. Bloqueia certo mecanismo que devia estar virado para fora. Ou dito de outra maneira, a máquina bloqueia se se põe a pensar que é máquina, coitada. Hemingway tinha razão quando dizia que there's nothing to writing etc e tal, tivesse pensado demasiado nisso e talvez nem tivesse saído da primeira frase do valente “The Killers”. O homem é a sua própria máquina de escrever. 

A Nota Dissonante

Sob o ar conforme, consoante e relaxado recebe à chegada meu ar duro, batido e comprometido. Até já se deu o contrário, mas é sempre igual esse estranho contacto de diferentes tempos musicais entrechocados como dois corpos estranhos de numerosos lados incompatíveis. Se houvesse nisso alguma culpa diria que fui eu que entrei como um subterranean home sick blues em meio de um minimalismo repetitivo a la John Cage. A música até que nem era má. Má é esta dissonância em confronto com o diapasão dos dias. Pior mesmo é quando do silêncio apenas se ouve a distorção. 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Paco de Lucía (1947-2014)



Centro de Gravidade

Estou em pleno desequilíbrio. Digo a verdade mas esta projecta-me contra o chão. Atirado pelo impacto da minha própria força contra o nada da minha presença. Levanto-me. Estou em pleno equilíbrio. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Pós-passados

O erro de alguns pós-modernos, parece-me, é tentarem ser autores pós-modernos. Entendo bem toda essa necessidade artística, mas nela convém, antes de mais nada, uma primeira básica condição essencial prioritária: a condição de se estar vivo. Depois de se estar vivo, claro, é preciso viver neste mundo, mesmo que se viva noutro, ou mesmo em vários outros mundos. Ao que, óbvio, é preciso ter mundo, ter mundo, ou, vá-lá, um mínimo módico de mundo. Depois, ou antes disso, mas tão ou mais importante que tudo o resto: é preciso ser artista. É preciso ser artista ou então da necessidade artística ficamos apenas pela necessidade. Mas tentar nunca é demais. 

13.

- Tem vezes na vida em que a comédia ainda é pior que a tragédia*.

- Muito respeito pela cobra venenosa. Mesmo muito respeito. Já demasiado respeito não convém lá muito. Demasiado respeito e não temos como cortar-lhe a cabeça. 

- É completamente diferente dizer que tem falta de substancia do que dizer tem falta de substância na substância. 

- Só somos ilhas porque podemos ter tudo sem podermos ter nada.

- A frescura e ingenuidade da crença têm bastantes qualidades conservantes.


* - escrito antes do congresso do PSD. 

sábado, 22 de fevereiro de 2014




"I only care about the music. It's sad. Sometimes people are damaged by it. People who understand me can understand what that is. When the music is finished with me they'll all be back if they can wait for me. But if you can't see that about me you don't understand me so there's no relationship anyway." 

12.

Energia acumulada,
o curto circuito de um mundo que acaba.

Tu nada.

E de voo picado, vivo, rés no chão, 
cansado contigo, dado solidão.

Voando raramente se dá pela viagem,
e quando regressas, 
regressas de onde não sabem...

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014



A Argentina como o Chile representam no extremo sul do planeta a “Última Thule”. Borges (para o efeito não importa que esteja parcial ou inteiramente cego) trabalha ansioso com o terceiro olho, aquele que perfura qualquer distância. Não contempla apenas a ribeira no outro lado, mas também a terra mais distante. Fixará a vista interior em ilhas tão afastadas como a Islândia, a Última Thule do Setentrião romano. Pretende esgotar meridianos e paralelos. Empreende a travessia indagatória para as vizinhas do Árctico não por um puro exagero de auto-desterrado que se projecta no outro extremo, mas porque no globo terráqueo, que é redondo, todos os pontos fazem parte da cultura universal. A sereia que o chama e provoca é a palavra escrita, os textos cardiais, o entranhável, processo das línguas. Cruza os mares para averiguar a formação de idiomas. Dá crédito à notícia que os vikings (“uma multidão de cães que saíram da caverna de uma leoa barbara") chegaram às costas americanas séculos antes de Colombo. Mas anda também atrás das vagas de soldados da fortaleza romana e das tribos germânicas que demoliam limites e derrotavam legiões, traziam nas mãos a espada e na boca o poder de um rico verbo comunicativo. E foi por isso que ocupavam a Islândia, a Inglaterra, a Irlanda, a Alemanha e a Escandinávia.
O homem nascido na fronteira sul não será um marginal. Sente a atracção do centro e das margens opostas, das histórias de guerreiros que inspiram escritas e engedram poetas com ou sem nome. Faz isso com a consciência de que são herdeiras e várias literaturas europeias modernas. Apaixona-se pela evolução dos alfabetos e a odisseia das escrituras. Sente curiosidade pelos textos subjacentes na superfície dos palimpsestos. Não desconhece que se tratam de pergaminhos cuja escrita original foi apagada para estampar por cima outras diferentes mensagens. Tal fenómeno supressivo, essa operação de substituição e sobreposição dá-se também no caso das religiões triunfantes, que constroem as suas igrejas na base dos templos do vencido. Borges é um caso curioso de um estranho e apaixonado poliglota, amante da gramática histórica, do fluir das filologias, do nascimento obscuro, gradual, acumulativo e correctivo nos lábios dos povos das línguas do hemisfério norte e por que não também no seu próprio. Vidente ou cego embebe-se nos poemas mais antigos, na gesta de Beowulf, nas Eddas da Noruega, Gronelândia e Islândia. Deseja penetrar na trajectória de géneros literários com ressonâncias vindas de além mar, que continuam a transformar-se pela voz das gentes. Seduzem-no as Sagas, espécie de epopeias em prosa, nascidas no século X, recitadas no calor do vinho e dos banquetes por um rapsodo que geralmente celebra façanhas de homens de carne e osso. Na sua opinião, as Sagas revelam “um carácter dramático e prefiguram a técnica do cinematógrafo”. Não tem dificuldade em aceitar que se inspiram na realidade e se reportam a factos verídicos. Não se incomoda que a sua forma seja a de uma crónica vinculada ao acontecimento objectivo e nem sequer se importa desconhecer o nome dos seus autores, mas talvez tivessem sido homens que recolheram esses factos esquecidos no anonimato das aldeias. E de algum modo correspondem ao impulso genético que nasce das próprias raízes e estão na origem do folclore, dos cantos populares que brotam como as flores do campo em todos os continentes, sem excluir sequer os povos latino-americanos.
Observa que a partir de certo momento (indica o ano mil) os 'thulir' ou recitadores sem nome são substituídos pelos escaldos, poetas que se identificam por um apelido e assinalam o aparecimento do escritor assim individualizado, mais ou menos profissional, que surge pela necessidade da sociedade, para a qual a poesia narra a história e denota uma tomada de consciência da sua identidade. Borges não hesitará em servir-se das literaturas estrangeiras de qualquer época e território para semear e adubar o seu próprio território, mas não será um súbdito incondicional. Adere ao princípio da autonomia criadora, tornando sua a opinião de Goethe de que “o Canto dos Nibelungos é clássico, mas não deve ser tomado como modelo, nem tão-pouco os chineses, os sérvios ou Calderón”. 

Os Dois Borges - Vida, Sonhos, Enigmas, Volodia Teitelboim, Trad. Serafim Ferreira, Campo das Letras, 2001

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Parcimónias


- Não deve haver maior satisfação para o tecnocrata do que ver um artista a espalhar-se ao comprido.

- A minha completa distância com a minha completa ausência de separação é com ela pela certa essa fatal contradição.

- O excesso de confiança é a medida das vezes em que não se descobre que se fez merda...

- Já percebo melhor porque me é elegível: excesso de palavras para falta de linguagem, como o excesso de cereais na minha tigela de iogurte.

- Concluir é sempre o mais difícil: ter a frieza certa de acertar em cheio com o contador certo no marcar do tempo.

- É o bom do desafio: partir todo moído para a escrita e pela escrita moer todo o partido. Ou será partir todo o moído?

- Toda a criação é magia. Como a criação do mundo foi magia. 

- É importante distinguir: é escrita a martelo ou escrita à martelada? 

- Só mesmo quando escreve percebe porque tem mesmo de escrever. Mas como haveria outra maneira de o saber? 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Meritocridade

A manigância é a particular espécie de interesse das criaturas sem interesse. A particular e a única. Ler, escrever, pintar, ouvir música, fazer música, tocar um instrumento, ir ao cinema, a um teatro, ver um documentário, um museu, uma exposição, monumentos, animais de estimação, coleccionar coisas, línguas estrangeiras, viajar, gastar tempo em jogos de estratégia, poker de cartas, de dados, playstation, matraquilhos, snooker, ping-pong, budismo, yoga, zazen, artes marciais, esgrima, cozinha, ciência, banda desenhada, desenhos animados, carpintaria, olaria, um voluntariado, vinhos, whisky, cerveja, cocktails com álcool e sem álcool, almoçaradas, jantaradas, cerimónias do chá, vegetarianismo, naturopatia, massagens, acupuntura, horticultura, botânica, numismática, restauro, mergulho, peixes de aquário, mariscadas, charutos, cachimbos, crochet, artesanato, séries de tv, debates, economia, política, história, religião, filosofia, astronomia, astrologia, cosa nostra, anti-heróis, criminologia, geometria, espiritismo, maçonaria, segunda guerra mundial, teorias da conspiração, ovnis, ténis, jogos olímpicos, F1, motociclismo, andebol, voleibol, voleibol de praia, futebol, futebol de praia, futsal, Premier League, Serie A, La Liga, NBA, NFL, rugby, cricket, bowling, surf, bodyboard, canoagem, pesca desportiva, mergulho, escalada, caminhada, patinagem, skate, ciclismo, ciclo-turismo, xadrez, damas, dominó, roleta, roleta ru... Nada. Nada atrai o medíocre manigante. Podia estar aqui horas e o medíocre manigante não diria sim a nada. Falta de vontade? Pois é esse o problema, o medíocre manigante tem até excesso de vontade, vontade e muita ambição, ambição até de nos fazer a folha. E os desinteresses do manigante não são propriamente desinteresses, ele até os pode achar interessantes para o interesse da manigância. O manigante não se acha néscio pelo seu desinteresse nos nossos interesses. Ele é que nos acha néscios pelo nosso interesse nos seus desinteresses. Ele sabe bem de que lado está. Nós é que às vezes não sabemos. 

Nietzsche tinha aquela clássica tirada que dizia que o que não nos mata torna-nos mais fortes. Ora no manigante não é bem isso, no manigante o que não nos definha é que nos torna mais fortes. Então não definham nada, os manigantes, pelo contrário, é neles precisamente o tédio, o completo absurdo aborrecimento, a pasmaceira sem remissão e a aleatoriedade boçal que os fortalece perante o resto da espécie humana. Neste particular e não só, essa sub-espécie de espécie sem espécie de espécie alguma  - qualquer coisa que possa caracterizar o medíocre manigante é ameaça à sua própria sobrevivência - só existe e se caracteriza pelo que não tem. Com o tempo percebe-se porquê: não há nada para falar com o manigante que não meta de permeio as artes que só ele sabe da medíocre manigância. Seres ignorantes dos seus segredos, como é meu caso, sentem-se com o medíocre manigante sempre com vontade que acabe o tempo. Parece que estamos ali a jogar uma modalidade que detestámos na escola, tipo basquetebol (no meu caso). É para perder na certa, como é tão óbvio, e quanto mais demora a coisa mais porrada nós levamos. Depois aqueles terrenos lamacentos escorregadios, as mazelas a obrigarem ao possível recolher obrigatório, as energias dissipadas nos intermináveis caminhos da estupidez humana... 


Valha-nos os nossos terapêuticos interesses. Com eles reganhamos o tempo preso algures nalgum ferro afiado de qualquer armadilha armada pelo medíocre sujeito manigante. Depois sim, recuperados, revigorados e aliviados, constataremos mais uma vez assim um pouco aparvalhados (ficaremos sempre aparvalhados e jamais na vida compreenderemos a criatura manigante) como aquela salvífica medíocridade continuará ad aeternum exactamente na mesmíssima constante onda uniforme afinada pela porfia austera exigida pelo rigoroso trabalho da execução da manigância - haverá casos em que não resultando a manigância, o medíocre manigante até corre o perigo de não ter comida para pôr no prato. Por outro lado, se a manigância está mesmo a resultar, o manigante saboreará a comida de outra distinta maneira. Com o gosto revigorado, ficamos até com a ideia e a ilusão que o manigante ganhou finalmente algum interesse adicional na vida - neste caso na boa da comida. Nada mais errado. Manigante que se preza nunca larga de vista a manigância, nunca baixa a guarda, tem sua amada sempre bem perto, o esquema a trabalhar na cabeça. Cometerão pois caros leitores um erro fatal se virem no manigante alguma centelha de amadorismo. É outra vez o oposto contrário, tudo ali é profissionalismo, puro profissionalismo manigante. Nada, mesmo nada deve suspender a crença do manigante na manigância, nem mesmo um inesperado eclipse total do sol que lhes desse o escuro da noite às três da tarde. O que apenas seria um contratempo na manigância. Que isso da noite é em casa de preferência a pensar na manigância para o dia seguinte. 


William Blake dizia das águas paradas esperem veneno. De qualquer forma eu topo-os bem: no andar, na forma de olhar, em todo aquele suspeitoso mexer, na forma de rir (essa é a mais fácil), no falso brilho dos cabelos, no modo como lhes cai a roupa. Ao corpo, ao espírito, a obstinada tarefa. Pois está aí o problema do medíocre sujeito manigante: há ali toda a falta de presença de espírito. O tão não poder como não querer dar nada a querer pairar a dominar sobre tudo. O pé de apronto para a rasteira bem dada. O lusco-fusco para a pequenina intriga. As finas artes da hipocrisia. A selectiva contradição e suas demais incongruências. A afinada pontaria na areia para os olhos...

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Sem Tinta

O sangue de quem escreve é sumo na sua escrita. O sumo de quem escreve é a tinta da sua escrita. Quando falta tinta melhor não forçar a caneta, não vale a pena. Só mesmo com uma caneta nova, ou com uma nova carga para a caneta. A tinta de quem escreve não pede um cêntimo do seu valor. Encontra-se aqui ali em todo o lado, talvez saltando já para o passado. A tinta tem entre tudo moléculas de experiência, e por vezes a experiência custa dinheiro, daí que não seja correcto dizer que foi de borla porque não foi. Mas desse preço não existe preço. Existe para lá do preço porque custando nada custa mais que todos os preços. E depois há mil e uma em cada mil e uma maneiras de um poder sangrar. Assim como há mil e uma em cada mil e uma maneiras de um achar que consegue escrever sem tinta. 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Aritmética

Pela matemática do texto fui dar à nossa situação de insolvência, ao nosso défice catastrófico, piorado vertiginosamente quando tivemos de fazer alguma coisa para o evitar. Ou talvez na verdade não houvesse nada a combater. A matemática do nosso texto é gigantesco ponto de interrogação. Esta é ainda assim a minha única esperança no meio disto tudo: o gigantesco ponto de interrogação. De concreto concreto, apenas o ponto de partida. O ponto de partida em mais que uma acepção do termo - pelo menos em três - mas não é esse o problema. O ponto de partida nunca é o problema. O problema é o ponto de chegada. Poderá levar uns quinhentos anos. 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Philip Seymour Hoffman (1967-2014)



A primeira vez que vi Philip  Seymour Hoffman foi em "Happiness", como muita gente, num papel daqueles que não se esquece, tão marcante e simultaneamente surpreendente era toda aquela interpretação - decadente, peçonhento, impressionante inesquecível personagem. A surpresa seguinte foi Phil Farma, o médico bom (bem sei que pode soar um pouco pleonástico dizer assim médico bom, mas era mesmo um médico bom, a encarnação absoluta do médico bom, como não me lembro de ver outro) de "Magnolia" que vi antes de "Boogie Nights" do mesmo realizador que me tinha até ali passado despercebido. Vá-lá que tive a sorte de o apanhar numa reposição não me recordo onde - no Cine 222, ou no Quarteto, ou no Nimas, ou no Mundial, ou terá sido na cinemateca, não sei. Só sei que Seymour Hoffman era aquele sonoplasta gordo efeminado e um pouco idiota. Eu que já estava mais que esclarecido em relação ao enormíssimo actor naqueles dois primeiros filmes, não podia acreditar num tal contraste em apenas três interpretações. Tinha ali um verdadeiro camaleão, talvez até mais que isso. A transformação em papéis soberbos e/ou inolvidáveis - que dava a ideia até de ser física, quando no fundo víamos o actor mais ou menos sempre com a mesma compleição - continuei a ver em "Big Lebowski", "State and Main", "Almost Famous", "Punch Drunk Love", "25th Hour", "Capote" (admirável interpretação que deu em Óscar), "Charlie Wilson's War", "Moneyball" (a fazer as vezes do treinador de basebol Art Howe, priceless). Por incrível que (me) pareça ainda não vi "The Master", que não consegui apanhar no cinema e outra vez, por incrível que pareça, não existe no meu clube de vídeo (vai ter de ser no Meo, se calhar hoje) e é de todos o único Paul Thomas Anderson que até hoje ainda não vi. Cruel coincidência. 
Faltar-me à ver também "The Savages" e "Synecdoche, New York", dos que creio que vale mesmo a pena. Curioso que há uns meses, num daqueles acasos felizes, vi pela última vez o actor num filme já de há uns anos. Uma história verídica sobre um viciado no jogo chamado "Owning Mahowny", que o canal Hollywood teve a excelente ideia de pôr no seu alinhamento. Em muito boa hora, diga-se. Mais um personagem verídico onde Seyour Hoffman ultrapassou a fasquia. Ele que nos conseguia surpreender a cada interpretação como se fosse a primeira vez que o víamos actuar. Era como se nos esquecêssemos de todos os seus papéis anteriores. É a tal coisa da fasquia, Philip Seymour Hoffman tinha-a muito, muito alta. Neste caso dir-se-ia que conseguiu engolir o filme todo, quase até deixar de constar que tenha havido ali mais alguém (tenho uma leve ideia de Minnie Driver e John Hurt, que constato agora que lá estava). Deixo-vos este vídeo em jeito de homenagem. 


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

11.

Dito assim passado é passado não é nenhuma mentira. Mas de que serve dizer passado é passado a quem não aceita contemplar o futuro? Seja porque não quer, seja porque não pode, seja porque não vislumbra nada além das nuvens negras que constantes poluem e impedem a(s) vista(s). Passado assim sempre a olhar o passado já nem é passado, é mais presente, sempre presente, passado presente, nunca passado passado. E o próprio futuro já não está nem vive no futuro, nem sequer está no presente. É mais passado, futuro inserido no passado, futuro perdido no passado. 

sábado, 18 de janeiro de 2014

Uma Cópia de Verdade



Orson Welles andou um filme inteiro a estudar falsificações. Histórias de cópias e falsários de tal forma complexas, intrincadas e substanciais que a determinada altura, como que sub-repticiamente, a pergunta impõem-se: e se a cópia, à sua maneira, se torna tão ou mais relevante que o original? Ou pelo menos fica o sublinhado em como determinado tipo de cópias acabará de certa forma por se tornar o seu próprio original. Para isso é preciso ver o exemplar do seu trabalho sobre o invisível mimetismo da grande obra de arte. Há também hierarquias para isso, claro, tem de haver. Hierarquias sustentadas no saber do falsificador em sua complicada tarefa do alcançar da veracidade - onde podem contar altos níveis de virtuosismo, minúcia e sentido de pormenor -, sendo o alvo mais ou menos atingido consoante o falso (a mentira) se consegue confundir com o verdadeiro (a verdade). 
O que pode ocorrer de duas maneiras: ou ludibriando-nos - por tempo indeterminado, quem sabe -, ou então assumindo sua natureza de cópia mostrando ao mundo todo o seu jogo. No primeiro caso, a ignorância do seu mérito maior é seu próprio segredo e assinatura (de excelência). No segundo, impõe-se essa tal hierarquia de aproximação ao verdadeiro. É quando podemos dizer: «é uma cópia de verdade!». Quando também podíamos dizer: «é uma cópia apanhada pela verdade». O que pode não ocorrer nas melhores falsificações. As tais que tão bem se confundem com o verdadeiro que a verdade mesma fica por revelar por tempo indeterminado.

            

Abbas Kiarostami em "Cópia Certificada" vai por aí de outra maneira. Aqui o faz de conta é uma possível e/ou impossível história de amor que acontece a determinado momento entre um escritor que se debruça sobre falsificações e uma galerista de arte que se interessa pela sua obra - onde se pode incluir um livro publicado sobre esse mesmo assunto. 
Resumindo: um escritor (William Shimell) e uma galerista (Juliette Binoche) que nunca se haviam cruzado até então - tendo-se conhecido pouco antes numa palestra do escritor - embarcam por um desses circunstanciais acasos da vida numa viagem de carro através da Toscânia. Conversa puxa conversa, muito acerca do assunto das cópias e falsificações, gera-se ao mesmo tempo um processo de empatia e envolvimento que tem seu ponto culminante* quando uma senhora num café os confunde com um casal de verdade. Se é apenas um acaso ou se a reflexão interior acerca do sujeito verdade versus falsidade (ou veracidade) teve sobre isso influência, isso agora interessa, podendo sempre ficar como tópico de reflexão. Interessa sim e muito, é o que aconteceu imediatamente a seguir, de somais importância em sua, passe o termo, singular singularidade: o exacto ponto de intersecção entre a realidade e o sonho, entre a verdade e veracidade, entre o original e a cópia. Esse ponto está precisamente ali, no seu assumir como um casal de verdade, eis essa a ponte para o outro lado. Afinal o assunto sobre o qual haviam falado e reflectido está mesmo ali à frente dos olhos, a poder ser vivenciado, testado, experimentado. Eles mesmos tinham ali a (sua) oportunidade (tão rara), eles mesmos podiam ser a cópia de um original, a cópia de um casal original. 
Há nos dois personagens (enfim, mais nela que nele) a tentação e o instinto de passarem para esse outro lado, de cruzarem instantaneamente essa ponte fictícia. Ela exteriorizando-o mais. Ele vivendo-o também, se bem que reflectindo bastante, sendo mais contido. Sim, podia ser um mote, uma mola, uma alavanca para uma história de amor. Porém um mote que abre em si todo um problema, quiçá irresolúvel, pois que assumindo-o como disfarce, o mesmo cai em si pelo mecanismo da verdade, ou dito por outra palavras, os dois não teriam assim nenhuma hipótese de prosseguir assim tão sublime jogo. 
Por outro lado, não assumindo o disfarce, e fingindo o amor como se tivesse realmente acontecido, acabam eles por entrar no âmbito do sonho. E no sonho, quanto menos sabemos que é sonho, quanto mais o sonho é fiel a si mesmo, à sua natureza de sonho. Não, o sonho aqui não é o sonho do amor vivido, isso podiam atingir eles acordados. Já o serem um casal feliz há muitos anos juntos, e com uma vida em comum completa e satisfatória, para dois desconhecidos só mesmo em sonho. Porém os sonhos apenas duram enquanto nos iludem. A cópia também, e como nos exemplos de "F Fake", também esta cópia (de casal) é suficientemente complexa, intrincada e substancial para acabar por desenvolver o seu próprio mecanismo, a sua própria história, o seu teatro. Eis o que assemelha as duas obras, o que as une até, pois tanto dois desconhecidos a fingir o casal perfeito como os falsários das grandes obras de arte têm em comum esse negativo da cópia. O mérito supremo de Orson Welles e Abbas Kiarostami é darem-nos a ver o seu lado positivo. 


* - o chamado plot point, que se pode ler em certos on writings desta vida, é uma expressão aqui perfeitamente adequada. A hell of a plot point, digo eu, ponham a hell nisso. Só duvido é que esteja devidamente enquadrado no ponto geométrico que certos gurus dizem que deve estar, mas isso é toda uma outra conversa.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O que não parece, é

Interessa-me pouco a escrita diarística como mero registo factual de eventos. Deixando o mais pessoal de fora, ou não engreno com isso ou não sei engrenar. Menos interessa o que vai para debaixo do tapete, ou coisa pior, tipo havia um bêbado na rua de madrugada, chegou-me ao correio uma carta das finanças, já não é a primeira vez que me falha este esquentador; ou o transito estava impossível e bem pior que em todas estas greves do Metro às quintas-feiras... Não vou duvidar do curioso para lembrança futura. Ler como se olha aquele álbum de fotos que como mais nada na vida nos atiça e reinventa (as) memórias. Pena que tão raramente me dê a esses trabalhos - duas ou três vezes por ano, se tanto -, mas quando eventualmente acontece, é sempre a mesma luta inglória a cada frase. Sobretudo por querer entrar pelo que escrevo adentro e depois ter o problema de não saber muito bem quando nem onde saio e o que quero ali é comer o bolo todo até ao fim. Para o texto o gozo do texto, enumerar factos não é propriamente escrever. O factual, na melhor das hipóteses, não me passa da panorâmica à vista do que já se vi. Na pior, é mais um burocrático aborrecido exercício, o que até faz mal, força o sistema nervoso. E então, como remédio, vai de meter ficção, truncagens e forjanços, muita sumária aldrabice para temperar o gosto e poder haver algum mínimo interesse no my own subject. Claro que nem todos somos parentes de Dom Quixote, nem sequer primos distantes. Nem de um David Foster Wallace com as suas mais de mil páginas a letra minúscula (dizem, ainda não folheei o livro). 
Disso da distância que nos dá o longínquo Foster Wallace fiz prova primeira há pouco tempo ao ler aquele muito bom ensaio sobre um famoso jogo Federer/Agassi. Ainda não fiz prova segunda, muito menos a verdadeira prova, que tenho fora das prioridades. Mesmo assim nunca se sabe, talvez o entusiasmo de Rogério Casanova e a recente leitura de Rui Ângelo Araújo façam com que um dia morda o isco. Ou se existir isso do tempo e da leitura certos para a altura certa, tipo colheita da Primavera (quem sabe?). O que não me parece. Ou então parece que não me parece. O não me parece choca com esse batidíssimo cliché que leio e ouço aqui ali de vez em quando: o de que o que parece, é. Já as variantes nunca se ouvem. Ou ouvem? Eu nunca ouvi. Nunca ouvi dizer o que não parece, é. Nunca ouvi dizer o que parece, não é. Mas na política, no futebol, nos negócios, em conversas subliminares ou naqueles normais palpites do real, quantas vezes não o ouço dizer: o que parece, é. O que se diz em jeito de adivinha adivinhada, de sabimento e conhecimento. Problema é as vezes em que o parecer se vê desmentido - muitas mais do que parecem, claro - e a realidade dá a ver, cristalina, que o que parecia afinal não parecia nada. E não parecia mesmo. Como dizia o mago João Pinto, o defesa direito: "prognósticos só no fim da partida". Não há cá testes a posteriori. Não há mas eu fiz um. Teste de quê? Um teste de realidade a posteriori, claro, e fazer um teste de realidade a posteriori assim agora, só mesmo com os exemplos acima citados, a contar da terceira linha do texto. Pois dito e feito, resultado unânime em quatro das prerrogativas: o que não parece, é. Vejam o bêbado, descobri quem era numa investida à varanda, e se vos disser o quanto não fazia a mínima ideia, o quanto tal nunca me passou pela cabeça... Ressalvo que tive de eliminar a carta das finanças, fez batota e aquilo nem é bem um roubo, é mais um assalto autorizado. 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

David Simon - The Horror Show

Há muito para onde ir quando o assunto é David Simon. Também acontece ser das vozes que me mais vale a pena ouvir quando se fala nos tempos presentes. Não estivéssemos todos metidos num mesmo barco que se afunda. Eis um apanhado, editado quanto baste, de um discurso longo já por si editado do visionário, jornalista, escritor e criador da série "The Wire" (com Ed Burns), o que na medida de importância, será sempre um sumário.


I think Marx was a much better diagnostician than he was a clinician. He was good at figuring out what was wrong or what could be wrong with capitalism if it wasn't attended to and much less credible when it comes to how you might solve that.

You know if you've read Capital or if you've got the Cliff Notes, you know that his imaginings of how classical Marxism – of how his logic would work when applied – kind of devolve into such nonsense as the withering away of the state and platitudes like that. But he was really sharp about what goes wrong when capital wins unequivocally, when it gets everything it asks for.

That may be the ultimate tragedy of capitalism in our time, that it has achieved its dominance without regard to a social compact, without being connected to any other metric for human progress.

We understand profit. In my country we measure things by profit. We listen to the Wall Street analysts. They tell us what we're supposed to do every quarter. The quarterly report is God. Turn to face God. Turn to face Mecca, you know. Did you make your number? Did you not make your number? Do you want your bonus? Do you not want your bonus?

And that notion that capital is the metric, that profit is the metric by which we're going to measure the health of our society is one of the fundamental mistakes of the last 30 years. I would date it in my country to about 1980 exactly, and it has triumphed. 

Capitalism stomped the hell out of Marxism by the end of the 20th century and was predominant in all respects, but the great irony of it is that the only thing that actually works is not ideological, it is impure, has elements of both arguments and never actually achieves any kind of partisan or philosophical perfection.

It's pragmatic, it includes the best aspects of socialistic thought and of free-market capitalism and it works because we don't let it work entirely. And that's a hard idea to think – that there isn't one single silver bullet that gets us out of the mess we've dug for ourselves. But man, we've dug a mess.

(...)

Labour doesn't get to win all its arguments, capital doesn't get to. But it's in the tension, it's in the actual fight between the two, that capitalism actually becomes functional, that it becomes something that every stratum in society has a stake in, that they all share.

The unions actually mattered. The unions were part of the equation. It didn't matter that they won all the time, it didn't matter that they lost all the time, it just mattered that they had to win some of the time and they had to put up a fight and they had to argue for the demand and the equation and for the idea that workers were not worth less, they were worth more.

Ultimately we abandoned that and believed in the idea of trickle-down and the idea of the market economy and the market knows best, to the point where now libertarianism in my country is actually being taken seriously as an intelligent mode of political thought. It's astonishing to me. But it is. People are saying I don't need anything but my own ability to earn a profit. I'm not connected to society. I don't care how the road got built, I don't care where the firefighter comes from, I don't care who educates the kids other than my kids. I am me. It's the triumph of the self. I am me, hear me roar.

That we've gotten to this point is astonishing to me because basically in winning its victory, in seeing that Wall come down and seeing the former Stalinist state's journey towards our way of thinking in terms of markets or being vulnerable, you would have thought that we would have learned what works. Instead we've descended into what can only be described as greed. This is just greed. This is an inability to see that we're all connected, that the idea of two Americas is implausible, or two Australias, or two Spains or two Frances.

Societies are exactly what they sound like. If everybody is invested and if everyone just believes that they have "some", it doesn't mean that everybody's going to get the same amount. It doesn't mean there aren't going to be people who are the venture capitalists who stand to make the most. It's not each according to their needs or anything that is purely Marxist, but it is that everybody feels as if, if the society succeeds, I succeed, I don't get left behind. And there isn't a society in the west now, right now, that is able to sustain that for all of its population.

And so in my country you're seeing a horror show. You're seeing a retrenchment in terms of family income, you're seeing the abandonment of basic services, such as public education, functional public education. 

(...)

We have become something other than what we claim for the American dream and all because of our inability to basically share, to even contemplate a socialist impulse.

I'm utterly committed to the idea that capitalism has to be the way we generate mass wealth in the coming century. That argument's over. But the idea that it's not going to be married to a social compact, that how you distribute the benefits of capitalism isn't going to include everyone in the society to a reasonable extent, that's astonishing to me.

And so capitalism is about to seize defeat from the jaws of victory all by its own hand. That's the astonishing end of this story, unless we reverse course. Unless we take into consideration, if not the remedies of Marx then the diagnosis, because he saw what would happen if capital triumphed unequivocally, if it got everything it wanted.

And one of the things that capital would want unequivocally and for certain is the diminishment of labour. They would want labour to be diminished because labour's a cost. And if labour is diminished, let's translate that: in human terms, it means human beings are worth less.

(...)

Mistaking capitalism for a blueprint as to how to build a society strikes me as a really dangerous idea in a bad way. Capitalism is a remarkable engine again for producing wealth. It's a great tool to have in your toolbox if you're trying to build a society and have that society advance. You wouldn't want to go forward at this point without it. But it's not a blueprint for how to build the just society. There are other metrics besides that quarterly profit report.

The idea that the market will solve such things as environmental concerns, as our racial divides, as our class distinctions, our problems with educating and incorporating one generation of workers into the economy after the other when that economy is changing; the idea that the market is going to heed all of the human concerns and still maximise profit is juvenile. It's a juvenile notion and it's still being argued in my country passionately and we're going down the tubes. And it terrifies me because I'm astonished at how comfortable we are in absolving ourselves of what is basically a moral choice. Are we all in this together or are we all not?

(...)

And that's what The Wire was about basically, it was about people who were worth less and who were no longer necessary, as maybe 10 or 15% of my country is no longer necessary to the operation of the economy. It was about them trying to solve, for lack of a better term, an existential crisis. In their irrelevance, their economic irrelevance, they were nonetheless still on the ground occupying this place called Baltimore and they were going to have to endure somehow.

That's the great horror show. What are we going to do with all these people that we've managed to marginalise? It was kind of interesting when it was only race, when you could do this on the basis of people's racial fears and it was just the black and brown people in American cities who had the higher rates of unemployment and the higher rates of addiction and were marginalised and had the shitty school systems and the lack of opportunity.

And kind of interesting in this last recession to see the economy shrug and start to throw white middle-class people into the same boat, so that they became vulnerable to the drug war, say from methamphetamine, or they became unable to qualify for college loans. And all of a sudden a certain faith in the economic engine and the economic authority of Wall Street and market logic started to fall away from people. And they realised it's not just about race, it's about something even more terrifying. It's about class. Are you at the top of the wave or are you at the bottom?

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Depois de Moby Dick

Não é dos meus romances de eleição, certo que achei nele passagens extraordinárias, históricas, épicas até, mesmo inesquecíveis; mas também encontrei o enfadonho aborrecimento, por vezes um certo arrastar penoso, pastoso, um tanto ou quanto para o chato. Porém, enfim, como nos grandes clássicos, algo no conjunto transportava-me em sua viagem, apontando muito além da escuridão que emanava. Recordo bem a louca e indestrutível obstinação de Ahab, que perante o prenuncio do desastre, se tornava em crescendo assustadora. Era a tensão principal, entre várias. Mas do bolo o recheio: a descrição do Pequod, dos mares e marinheiros, os singulares personagens, suas rotinas diárias, as particularidades e características da genuína navegação. Depois a viagem mental de Ismael, seu fluxo de consciência entre os meandros do medo e da descoberta, suas reflexões e iluminações, certa preparação iniciática, e, finalmente, com o perigo eminente à espreita, a preparação para o embate final e definitivo - a baleia branca gigantesca indomável, letal e impossível ao desafio humano. Os efeitos da fúria de Moby Dick encerram a obra, ecoando depois muito além da leitura - apenas entendida pelo mundo bastante depois da edição do livro -, ou melhor, ecoaram...  

Mesmo assim não posso dizer que Moby Dick me tenha deixado particulares saudades, pouco até creio que alguma vez se torne um verdadeiro companheiro de viagem, muito menos livro de cabeceira, simplesmente não é obra que me dê vontade de reler, ou sequer sinta curiosidade em regressar. Moby Dick porém pensa o contrário. Ou melhor, pensava o contrário. Certo dia em que se fez anunciar. Para dizer que ainda não tinha sido lido por inteiro. 
Fez-se anunciar sim. Certo dia fez-se anunciar, e entrou, eu já tinha começado a sentir a sua presença, não sei porquê pensando no livro, até que comecei a revivê-lo
Tudo começara enquanto seguia viagem para sul. Eu disperso em pensamentos, a sentir-me em dias negros, estava Moby Dick a chegar-se a mim, até tudo se tornar mais claro, claro em sua própria escuridão, até eu seguir outra vez dentro daquele mesmo barco. 

Era eu, Ismael, a navegar em negritude, tempestade e névoa lá fora, o perigo crescente e repetido alternando idas e vindas num acentuar-se em espiral à medida do seu tempo. Sentia o mal eminente, sabia que assim chegaria a algum ponto culminante, a algum trágico final. Alguma espécie de colossal baleia branca estaria perto, muito perto. Eu era o próprio Ahab, não podia ser mais ninguém. Também era o Pequod, os marinheiros, tudo ali era eu, via ao naufrágio anunciado. Saber toda a história não serviria para nada, o livro ainda hoje não me diz grande coisa. Todos os avisos eu ignorara, prosseguir viagem, alcançar a baleia branca era tudo o que desejava, com a obstinação dos loucos, nada me faria demover contra todos os avisados e até sábios conselhos que insistentemente dera a mim próprio. Isto ia até ao fim! E foi, foi até ao fim. Talvez Moby Dick  me fosse o mal inultrapassável, talvez fosse enfim a natureza a querer dar-me sua categórica e definitiva lição. Verdade é que já estava fora, naufragara. Afinal de contas, não tinha acabado de ler o livro. Achava que tinha, por tê-lo fechado depois de lida a última palavra na última página, depois de ter lido todas as palavras de todas as páginas. Mas afinal não, não tinha, havia contas a ajustar, fora eu mesmo que as fizera. 

Hoje sei, sinto, posso dizer: Moby Dick não voltará mais. 

Mestre Georges Stobbaerts (1940-2014)

A profound thing in a simple way

Li uma vez um texto de Charles Bukowski em que este falava de um suposto poeta menor que ter-lhe-à dito certo dia "eu posso escrever como tu, mas tu não podes escrever como eu". Ele apenas pensa que pode escrever como eu, eis a resposta do escritor, ao que se seguiu a célebre deixa: "Genius could be the ability to say a profound thing in a simple way, or even to say a simple thing in a simpler way". Ele há quem não consiga ou não queira reparar na mestria na aparente simplicidade e desembaraço da técnica, ou na sabedoria vinda de anos de trabalho duro e desesperado no fio da navalha, ou mesmo num pouco ortodoxo humor que galga milhas no caminho da sabedoria. Não terá lido "Pulp" (o texto até é muito anterior)  - sobre o qual eu escrevo agora que mesmo assim não é nem de perto nem de longe, nem mesmo a lente de telescópio, do melhor e mais autêntico Bukowski que se pode ler. Mesmo assim, na desmontagem do cliché, no inusitado dos diálogos ou no non sense que da aparente puerilidade se pode encerrar no mais definitivo e profundo sentido, genius could be the ability to say a profound thing in a simple way, or even to say a simple thing in a simpler way. Como em jeito de brincadeira:
ou: