quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Snobeira

A única diferença da snobeira de esquerda para as outras snobeiras é que esta acha que não é snobeira. E achando que não é snobeira também acha que tira o cavalinho da chuva à mais habitual snobeira, pois que sua autenticidade e pureza está imune e acima de toda a snobeira - essa coisa de direita, queque, essa coisa de classe... 
Já a snobeira de direita é uma snobeira que se orgulha e muito de si mesma. Auto-consciente e auto-estimada, bem trabalhadinha e aprumada, não se estranhe por isso que traga consigo uma mais variada gama de trejeitos e remoques, de tiques e de toques. De resto, zomba da snobeira à sua esquerda, sabendo que também ela é zombada. 
De resto, é tudo farinha do mesmo saco. Pudera, vem da mesma colheita, o produto é o mesmo. Nada difícil de entender à luz de umas luzes de Charles Darwin. Pensemos no exemplo dos ursos e suas diferenças devidamente adaptadas a cada meio ambiente natural. Um teve mesmo de se tornar branco (o magnífico urso polar), os outros, enfim, nem por isso. Mas são todos ursos. Ou não são ursos? 

Mímicas

- Ser adulto é saber ler as temperaturas e os diferentes comprimentos de onda. Mas não é preciso ter um termómetro...

- És jogo de ti próprio mais do que jogas o jogo de ti próprio.


Um simples propósito não quer dizer um de propósito, menos ainda um a propósito. Lá porque se combina bem, não é para ser sempre combinado. 

- Fatal erro de equilíbrio: confundir um desequilíbrio, com um em desequilíbrio. 

Jornal

Olhe-se bem para a etiqueta: não traz informação classificada. 


Algures no Peru, milhares deles se juntam na praia como numa romaria. No mar, dezenas ou centenas vão para ali saltar acrobacias, quais surfistas sem tábua. Mais também parecem ginastas olímpicos com seus mortais além  da crista da onda. Secção essa excelentemente narrada por Josh Brolin para a série documental Untamed Americas, que gravei há uns tempos ao acaso e é uma maravilha que não sei bem ainda como classificar, a não ser que dá no canal National Geographic. O que mais nos maravilha ali é a ideia, o rigor, a tenacidade que se sente em todo um trabalho de transposição de uma realidade instantânea e irrepetível, capacidade essa de não apenas dar a ver - o que faz toda a diferença - a mesma Natureza em seus enredos que amiúde repetidos acabam por aborrecer o leigo que apenas constata que as espécies existem. Género quem vê um vê muitos* .
Apanhando de tudo um pouco ao longo de todo um continente de norte a sul - do Alasca à Patagónia - tanto faz que seja ordenada ou aleatória a forma como é apresentada cada espécie ou situação dentro da temática de cada um dos quatro episódios: Montanhas, Costas, Desertos, Florestas. 
Uma banda sonora de reminiscências cinematograficas (a fazer lembrar o Paris/Texas ou qualquer road-movie que se preze) seguida pela sentida e impressiva narração de Brolin através de um texto que em sua verdade, metáfora, timbre e imagética consegue em cheio fundir ideia com presença. Ora é precisamente o que se vê que acaba de servir como mote. Cada sujeito, cada assunto, cada espécie, há ali muita coisa para contar, não temos apenas as belas ou tristes histórias de quem sobrevive ou não, e de quem se impõe ou não se impõe.
Cada espécie em sua especificidade que aprofundada se pode tornar idiossincrasia; ou com melhor sorte, ainda pode descambar em fábula. Falo em fábula moderna, ou pós-moderna,  se quiserem, também pode ser. Não, aqui já não é apenas o leão que vê e a fêmea que caça e a ursa que hiberna e depois tem de caçar. Não, somos muito mais parecidos com os animais do aquilo que pensamos. [continua...]

* - tive de ver muito documentário de leões na savana em criança e não só para, como simples leigo,  estar habilitado a dizer isto, alguns de vós também, aposto. É quase senso comum. 

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Um Diabo no Paraíso

O diabo está nos pormenores. Conrad Moricand, tornado (o) personagem de Um Diabo no Paraíso, de Henry Miller, adivinhara os signos de todos os comensais numa qualquer mesa de jantar. Podiam até mesmo estar de costas. Mesma coisa com certa senhora que, sei de fonte(s) fidedigna(s), olhava para alguém e logo lhe adivinhava o signo, o ascendente, a lua e o pormaior do pormenor do aspecto e da conjugação planetária...
Fernando Pessoa falhou o dia da sua morte em exactamente seis meses. Ele que previa e intuía bem dentro da alta astrologia. Mas que também recusaria saber numa mão seu Destino. Porque não somos donos do nosso Destino, dizia. Desta tomada de posição a propósito das artes de adivinha, e a previsão de seis meses certeiros ao lado da morte, há de haver um longo caminho escuro a percorrer. Ou mais prosaicamente, um valente buraco no texto. Ou talvez não. O suposto Diabo no Paraíso já não saía sequer do seu quartinho alugado. Capricórnio de signo, regido por esse Saturno de toda a limitação, como não podia deixar de ser, achava ele que nada podia fazer para poder lutar contra toda a adversidade que vinha escrita nas estrelas. As cartas, os horóscopos, alguns mesmo colados à parede, não o deixariam mentir... Tudo na miséria dos aspectos astrais batia certo, calculado, fazia todo o sentido. Entretanto desenrolava-se em todo o horror a Segunda Guerra Mundial. E entre os bombardeamentos, o ocultismo das cartas.
Eis tudo o que me lembro da leitura há mais de vinte anos desta singular obra de Henry Miller. Não era preciso ser uma obra-prima quando o que mais dali advinha era a fúria escarrapachada por e/ou contra aquele amigo que às tantas já não sabemos se afinal era um ex-amigo. Porque o que sobressai mesmo é essa zanga de espécie, essa tão humana zanga, que mais não é que uma imensa fúria contra o desagradável aviltamento humano. Existe mesmo gente assim. Gente que se torna impossível caída que está no paradoxo de adivinhar seu futuro. Escrever parece pois essencial para interpretar o fenómeno, não necessariamente o futuro, mas pelo menos certa gente. E apanhar o diabo nos pormenores. Talvez mesmo nalgum paraíso. 

terça-feira, 7 de outubro de 2014

22.

Fugir de algumas praias em épocas altas é também estar em consonância com os robalos. Por exemplo há dias um dos veteranos daqui apanhou um daqueles enormes ao pé da ponte (três quilos, parece). Eu mesmo, se quisesse, bem podia ter-me armado em Robinson Crusoe. Tanto mas tanto robalo, nadando à beira mar, nadando à beira rio. Sem medo. O máximo mesmo era desviarem-se um pouco quando mergulhava, numa atitude que mais parecia dever à boa educação que outra coisa, como que a dizer deixa lá este aqui também poder nadar à vontade... De resto, é quase como se quisessem ser apanhados. Ou como se quisessem dali ser desafiados. Mas não vale a pena cair em aparências. Iludem, andávamos é ao mesmo, em paz e longe do maralhal, que volta. Que sempre volta. Pelo menos para ali sempre volta. 

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Cinema

Toda Ela é Cinema
Sua presença se sente
não apenas se vê
não se filma meramente

Também nem que a visse antes
Musa-imagem assim fotografada
Iria alguma vez imaginar como
Absorve todo meu olhar filmada

E que em seu longo plano me tento
Como vento a emergir da escada
Em todo um acto que só vendo
Pairar depois assim de mim picada

Toda Ela é Cinema
Longo curto mover fixada
Dissipando a parte do presente
É todo o plano ficará mais nada

"Let's Play Cards"

A violência em Abel Ferrara é uma violência. Não é agradável. Não é preciso pintá-la em sangue e morte para torná-la impressiva. Não é estilizada à Tarantino. Não é coisa de efeito (nem é) decorativo - mesmo quando traz em si todo um jogo... Também não é aquela violência reflexão sobre a violência, como em seu Mestre Pasolini. Abel Ferrara assume Pasolini e Godard à cabeça, e quando muito, John Cassavetes, mas tem de tocar seu próprio som, que isto a cada músico a sua peça. Isto escondendo muito bem o profundamente auto-biográfico, que com algum conhecimento de causa, se pode ver ali bem impresso em filme. Esse cinema de quem se sabe fundir num argumento para depois, na realização, na improvisação com os actores, na importância do som e da fotografia, e até mesmo na produção e tudo o que rodeia a feitura da obra - como não podia deixar de ser quando falamos em verdadeiro trabalho de equipa e espírito de missão ou mesmo de guerrilha - tudo se completar em seu círculo círculo coeso, denso e fechado: «is an honour to make movies, a gift from God», diz o cineasta ítalo-americano algures enquanto lembra esse Orson Welles que levou quase uma vida inteira a achar que começaria a filmar na semana seguinte...

Voltemos pois à violência, que é o que aqui é me interessa (eis no que dá começar posts pelo fim), ao invés de é aqui o que interessa. Porque apesar de tudo é uma violência que nunca é princípio, meio ou fim, pois não tem princípio, nem meio, nem fim - ou mesmo forma de (se) acabar. Essa violência que, improvisada, é também contida e distendida, para poder disparar a todo o momento. Como nesse célebre jogo de cartas que acabou quando nem sequer tinha começado. 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014



Há uns anos andava por Campo de Ourique um sósia de Samuel Beckett. Não sei se algum de vós o viu. Se o viu então sabe. Eu via-o sempre ali perto do Bitoque, em plena Ferreira Borges. Depois um blogue entretanto extinto e depois reabilitado testemunhou-o para a posterioridade, ou pelo menos, vá-lá, como marca dos dias. Não era para menos e repito: Samuel Beckett ali perto do Bitoque, em plena Rua Ferreira Borges, muito fácil de encontrar.
Pois Vila Nova de Milfontes deu-me ontem o seu primeiro sósia. Um sósia menos distinto e brilhante. Mas distinto e brilhante de outra maneira. Era um sósia mas ainda assim foi preciso ver melhor. Então estava para ali de tablet na praia. Se arrastava a neurose não sei. Parecia é assim meio à rasca com qualquer coisa... A expressão a puxar o ansioso, os olhos assim meio esgazeados. Exactamente o Franky Vercauteren* do Sporting. Assim meio esgazeado, assim meio à rasca. 

*- o oposto do grandíssimo Vercauteren da minha infância que tão grande jogador era. 

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O Clima e a Meteorologia

Disse que a deixava sempre em baixo. Ele acusou o toque. Pensava que era amor, que se amavam. Ela confundia infelicidade com cansaço. Ele cansaço com normalidade. Então ela acusou o toque. Se tinham vivido a felicidade, viviam agora a ilusão da felicidade, miragem de horizonte longínquo. Mas já só pela ilusão se dirigiam. Uma ilusão de espelho invertido. Ela a esconder a infelicidade. Ele a ver a máscara. Então nem sequer tentava. Cansaço. Era por si mesmo que se cansava. E se alguma vez esse cansaço desaparecesse, como por magia. Ambos iriam confundir clima com meteorologia.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Massagens

- Podia escrevê-lo, descrevê-lo, reinventa-lo, matá-lo, transformá-lo. Isto enquanto ia e vinha. Mas não, não merece. Não merece nem uma linha. 

- Literatura como literatura. Não literatura como relato. Literatura como máquina, como estrutura. Não literatura como perícia, como notícia.


- A frase é boa, mas sua arquitectura uma aberração. Sem engenharia nem guarida, sem sentido nem como beco sem saída.


- Escrevia, mantinha-os todos na linha. Vingaram-se, terão de voltar à linha.

- Fácil de distinguir. Uma é escrita que sai das entranhas. A outra força as entranhas. Uma vem de dentro, qual vulcão transbordante; a outra, não é preciso nos atirarmos a esse poço.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Sentir Bem Sentir Mal

Tanto fazemos porque sentimos que está certo. Por vezes mesmo contra o que nos diga o contrário, contra toda a razão que diz estás enganado, contra toda a evidência. Mas sentimos, sentimos que o devemos fazer, que temos de fazer, que é premente fazer, que é mesmo urgente e o mais correcto fazer. E esse sentir leva-nos e fazemos o que sentimos, o que a intuição nos manda e comanda até ao fim para percebermos que fizemos bem, que estávamos mesmo certos em seguir o que sentíamos certo. Damos então toda a razão a nós próprios, agradecemos, se for caso disso, também à bendita intuição, ao ser certeiro, damos por adquirido esse eu bem sabia, estava cá com um feeling, uma fezada (ou seria fé?), etc. 
Outras vezes - bastante menos, já que é preciso ter ultrapassado um tal "Meridiano da Intuição" e assim dar-lhe carta branca - vamos também nessa direcção, fazendo o que sentimos que é certo, achando mesmo que a dita infalível nunca falha nem se atrasa. Nunca mesmo até chegarmos à outra prova dos nove, ao diferente tira-teimas... Então nunca falhou até falhar... Depois, depois enfim, olha, chapéu, chatice, paciência, ui, que isto afinal estávamos errados, que eu não sei bem o que (me) aconteceu. Então se é grave estávamos completamente enganados, redonda mas redondamente enganados...

Vergílio Ferreira dizia que não havia isso do escrever bem, mas apenas o sentir bem. Tendo a concordar cada vez mais com isso. Cada vez mais tendo também a pensar nela, a pensar e a sentir que é verdadeira. E dá mesmo para usá-la de várias maneiras, assim à laia de prova cientifica. Por exemplo também posso dizer que não existe apenas o sentir bem como também o sentir bem bem, e o sentir bem mal. Só numa dessas de destronar certezas. De achar falível toda a arrogância que acha toda a intuição infalível. E assim me fico a sentir bem.

sábado, 13 de setembro de 2014

Gerador

Nas alturas em que a gente se sente mais fraca e toda a carga do mundo nos cai em cima. Quando nem centelha de luz nos deixa ver no escuro do túnel. Nessas alturas de degelo pessoal, dizia eu, de Inverno longo, desesperado. Nessas alturas sem qualquer espécie de altura, onde só há mesmo uma forma de poder encontrar algum calor que nos aqueça, alguma luz que nos faça ver um mínimo de qualquer coisa, qualquer coisa que nos faça existir: um gerador. Isso, um gerador. Pôr o motor da escrita a funcionar, ou à melhor, a trabalhar, constatar que afinal não enregelou, que afinal a coisa existe. Engendrando assim uma nova experiência, inventada. Ligando a velha à nova memória, inventada. Para que quando a tempestade passar a realidade possa ser esta e a outra, inventada. Não esquecerei nunca de guardar o gerador. Alimentá-lo de energia

O Mau do Mau Tempo

Essencialmente tens tido um mau tempo. Um mau tempo constante, continuo nesse teu perpétuo problema de passar o tempo. Não, de facto não tens tido um grande tempo. Pelo contrário, na melhor da melhor das hipóteses tem andado chocho esse teu tempo. Não, nunca consegues ter um grande tempo. Ou então sou só eu que não recorda a última vez que tiveste bom tempo. O que ainda assim não é o pior do teu tempo: aquilo que esperas do tempo - as tuas (péssimas) expectativas em relação ao teu tempo. Óbvio que só pioram o tempo, isto enquanto esperas desesperas pelo bom tempo. O que piora ainda se te pões a pensar mais matutando nesse mau tempo. O que piora substancialmente mais se te pões a pensar que o tempo pode sempre piorar em toda essa conjectura inclinada do tempo. O que não fica por aqui, se te pões a moer por dentro dessas péssimas previsões de quão péssimo pode vir a ser tão péssimo tempo ainda mais péssimo se tornará o já então péssimo tempo.  
Tens de fugir disso, homem, sim, tens de fugir disso, de ti, dar uma curva, fazer uma viagem não sei onde, mesmo a um café da tua zona. Vai-te perder na cidade, homem, talvez isso te faça perder esse teu mau tempo, homem, que essa água te saia dos ouvidos, homem, essa água que sempre te entra nos ouvidos... Mas o processo, inexorável, lá se vai arrastando. Implacável. Se depender de ti, irreversível. Podemos matutar sobre onde realmente te meteste. Posso também recusar compreender. Mesmo quando, de verdade, sabes tu e sei eu, só pensamos a sério no mau tempo quando o tempo está mesmo mau. 

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Outros Parêntesis




Roberto Bolaño tende a agarrar seu universo - escritores, vivências, literatura, poesia, política, obsessões, Chile, México, afectos, terrores, admirações, ódios de estimação, etc, etc - em seus pontos fortes. Sem ilusões, porém, mesmo que a energia, entusiasmo e forças saibam elevar esse mesmo todo às alturas desse mistério salvífico e/ou destrutivo que é a Literatura. "Entre Paréntesis" (Anagrama) mostra esse seu universo vital em mais de 300 páginas de ideias, pensamentos e linhas de força que se encontram também presentes em seus romances (a maioria dos personagens, diga-se). Como se essa escrita sobre escritores e literatura - aqui em ensaios, artigos e discursos - juntássemos pois os pesadelos do mundo contemporâneo e também os sonhos, nesse sentido borgiano do termo, onde o sonho (ou pesadelo), a poesia e a ficção se confundem e emaranham em seus intrincados labirintos. Claro que Jorge Luis Borges iria mais longe em toda a linha entre o sonho e a realidade, mas isso é toda uma outra conversa.

Roberto Bolaño não viveu a fama em vida, nem menos trabalhou em bibliotecas - muito menos na infindável Biblioteca Nacional de Buenos Aires. Pelo contrário, durante uns bons anos na Catalunha, livros "novos" só mesmo emprestados de amigos ou alugados, claro está, em bibliotecas. Também passava fome. Chegou a viver isolado com seu cão numa casa num bosque, qual eremita desterrado. Seriam os tempos da poesia (a preparar uma séria transição para a prosa) culminados pelo inicio da troca de correspondência com o conhecido poeta chileno Enrique Lihn, que de tanto, não apenas o ajudou a um reganhar de voz e confiança, como iniciou a divulgação da sua obra extraindo-o do anonimado e isolamento num país estrangeiro.

Chegada nos inícios da década de 90, a paternidade fez Bolaño jogar as fichas todas. Romances escritos, uns atrás de outros, em catadupa - romances foram oito, a somar aos livros de contos. Era preciso garantir a sobrevivência do filho, Lautaro Bolaño. Mas não só, com uma rara doença de fígado diagnosticada, o escritor teria a certeza ou quase dos dias contados e cada vez mais comprimidos. Na verdade, é impressionante a quantidade de produção literária possível em tão poucos anos, menos de uma década. Arrisco dizer que os livros já os teria dentro de si - muita leitura, muita escrita, muita vida vivida, muita aprendizagem, muita crise, muita penúria, muito sofrimento, muito trabalho, muita disciplina, muito combate, muito risco, muito pôr-se em causa. Por outro lado, numa de duas entrevistas, as únicas que Bolaño deu a televisões - porventura canais chilenos - este mesmo referiu, que sem estrutura que o sustentasse, seus livros chegariam facilmente às mil páginas. Verdade ou mentira, o certo é que 2666, a sua obra maior, até extravasa a conta. Os tais dias contados é que nem por isso. Essa espera infindável por um transplante que nunca chegava e cinquenta anos de vida e tanta literatura ainda para dar. Uma literatura que, presumo, muita falta faria a este tempo. Uma literatura sem magias de fadas mas de palavras bem marteladas. Esse escrever o que há para ser escrito quando é para ser escrito, como o que se encontra neste poema póstumo, encontrado entre papéis: 

Rechazos de Anagrama, Grijalbo, Planeta, con toda seguridad también de Alfaguara, Mondadori. Uno de Muchnik, Seix Barral, Destino... Todas las editoriales... Todas las editoriales... Todos las editoriales... Todos los lectores...
Todos los gerentes de ventas...
Bajo el puente, mientras llueve, una oportunidad de oro 
para verme a mí mismo:
como una culebra en el Polo Norte, pero escribiendo.
Escrebiendo poesía en el país de los imbéciles.
Escribiendo con mi hijo en las rodillas.
Escribiendo hasta que cae la noche
con un estruendo de mil demonios.
Los demonios que han de llevarme al infierno, 
pero escribiendo.

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A Guiness tem alma. Estou efeito dessa alma. Dá-se bem comigo. Não tem de ser à pressão. Em casa, só mesmo lata ou garrafa. Um trago dessa milagrosa mítica poção cheia de tempos, almas e histórias, e pronto, logo se ouvem as irlandesas músicas; o som das conversas; os tilintares dos copos... Bem-vindos a Dublin, senhoras e senhores. Um concerto no Molloy's, por exemplo. Ou nenhum concerto no Molloy's, ou outro concerto ou nenhum concerto em outro pub qualquer que vos agrade. Há lugar para todos. A Guiness tem sempre lugar para todos. Lugar esse que é agora a minha casa. Pela Guiness estamos sempre em casa. De irlandesa terra neste planeta Terra, medida de todas as alturas, a Guiness vem de sempre, é eterna. Sobreviverá ao Universo. 

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Sumo Despertador

1 - Como se cheira, à distância...

2 - Está próxima, a palavra, precisamos chegar-lhe depressa, não vá ela perder-se, corremos o risco de pensar que a capturamos, de achar que encontramos o que no fundo perdemos. 

3 - Depende da escuta, concentrada, da visão periférica. Mergulhados, podemos até deixar de ver e ouvir o mundo. Podemos também ser acordados, fisicamente, por esses despertadores incontinentes, as pessoas. 

4 - Estávamos despertos pelo contrário quando (nos) interromperam, o que não era em nada um passatempo. Podem vê-lo pelos dois lados. 

Parêntesis


- La literatura es una máquina acorazada. No se preocupa de los escritores. A veces ni siquiera se da cuenta de que éstos están vivos. Su enemigo es outra, mucho más grande, mucho más poderoso, y que a la postre la terminará venciendo. Pero ésa es outra história.

- Muchas pueden ser las patrias, se me ocurre ahora, pero un solo el pasaporte, y esse pasaporte evidentemente es el de la calidad de la escritura. Que no significa escribir bién, y ni siqueira ese, pues escribir maravillosamente bien tanbién lo puede hacer qualquiera. Entonces que es una escritura de calidad? Pues lo que simpre a sido: saber meter la cabeza en el oscuro, saber saltar al vacío, saber que la literatura básicamente es un ofício peligroso. Correr por el borde del precipicio: a un lado el abismo si fondo y al outro lado las caras que uno quiere, las sonrientes caras que uno quiere, y los libros, y los amigos, y la comida. Y aceptar esa evidecia aunque a veces nos pese más que la losa que cubre los restos de todos los escritores muertos.

- Exiliarse no es desaparecer sino enpequeñerse, ir reduciéndose lentamente o de manera vertiginosa hasta alcanzar la altura verdadera, la altura real del ser. (…) Toda literatura lleva en sí el exilio, lo mismo da que el escritor haya tenido que largarse a los veinte años o que nuca haya movido de su casa.(...) El exilio es el valor. El exilio real es el valor real de cada escritor.

- Los cobardes no editan a los valientes.

- Si tubiera que asaltar el banco más vigilado de Europa y si pudiera elegir libremente a mis compañeros de fechorias, sin duda escogería un grupo de cinco poetas. Cinco poetas verdaderos, apolíneos o dionisíacos, da igual, pero verdaderos, es decir com un destino de poetas y com una vida de poetas. No hay nadie en el mundo más valiente que ellos. No hay nada en el mundo que encare el desastre com mayor dignidad y lucidez.

- Las mentiras y los libros de memórias hacen buenas migas.

- (Philip K.) Dick era una especie de Kafka pasado por el ácido lisérgico y por la rabia. Dick es el Toreau más la muerte del sueño americano. Dick escribe, en ocasiones, como un prisionero porque realmente, ética y estéticamente, es un prisionero.

- No sé qué nos dice, hoy, los trovadores. Parecen lejanos allá en su siglo XII y parecen ingénuos. Pero yo no me fiaria demasiado. Sé que inventaron el amor, y también inventaron o reiventaron el orgullo de ser escritor, siempre y cuando uno sepa meter la cabeza en en pozo.

- Detras de esta muchedumbre, sin embargo, se esconde el único, el verdadero mecenas. Si uno tiene la suficiente paciencia como para llegar hasta allí, tal vez lo pueda ver. Lo que ve probabelmente acabe defraudado. No es el diablo. No es el Estado. No es un niño mágico. Es el vacío.

- No se debe plagiar. El plagiario merece que le cuelguen en la praça publica. Esto lo dijo Swift, y Swift, como todos sabemos, tenia más razón que un santo.
Así que este punto queda claro: no se debe plagiar, a menos que desees que te cuelguen en la plaza pública. Aunque a los plagiarios, hoy en dia, no los cuelgan. Por el contrario. Reciben becas, premios, cargos publicos, y, en el mejor de los casos, se converten en best-sellers y líderes de opinión. Que término más estraño y feo: líder de opinión. Supongo que significará lo mismo que pastor de rebaño.

- Nunca aborde a los cuentos de uno en uno. Si uno aborda los cuentos de uno en uno, honestamente, uno puede estar escribiendo el mismo cuento hasta el dia de su muerte.

P - Que le despierta la palabra póstumo?
R - Suena a nombre de gladiador romano. 

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Roberto Bolaño, Entre paréntesis: Ensayos, artículos y discursos (1998-2003), Anagrama, Colección Compactos



Nunca sabes o que queres dizer até o escreveres.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Espaço-Tempo

Com espaço marca-se o tempo, com tempo marca-se o espaço. Partes do mesmo corpo e nunca separadas, nascidos momento-matéria, o mesmo organismo. Einstein despertou-nos para a evidência: Espaço-Tempo, entidade única, indivisível, indissociável, inseparável. Penso no tempo a trabalhar o espaço como todos os átomos do meu organismo - mais que todas as estrelas deste Universo ou grãos de areia de todas as praias do mundo - a interagirem simultâneos enquanto trabalho estas poucas linhas escritas. Posso pensar em todas as linhas escritas.  

quinta-feira, 31 de julho de 2014

21.

No mar fartei-me de nadar e de andar. Nas gélidas águas da costa alentejana deste ano (sim, sim), coisa que não deve haver desde há eras, como diz Neil DeGrasse Tyson, e é difícil de entender, melhor foi o corpo dentro de água, a cabeça fora ao nível do mar em meio êxtase flutuante, brisa marinha na cara e pescoço, e a beleza disto tudo sempre a despertar. Terrence Malick nunca esteve aqui nem na Costa Vicentina, de outra forma já teria filmado. É um sentimento de certeza que eu tenho. Como o encaixe perfeito que teriam sido os Pink Floyd fase 69-71 no enorme que era o cais antigo de Vila Nova de Milfontes, sob o rio, a foz, o mar, uma praia em frente, detrás a vila, do outro lado mais Rio Mira a preparar-se para serpentear ao passar da ponte, a serra sempre além... Seriam os sons de eternidade de Echoes, entre outros, a juntarem-se à "outra" eternidade nestes pontos descoberta a quem venha sofrer o maravilhamento. A eternidade que sempre se manifesta e nós que estamos sempre de passagem. 

NON


Até as falhas nos actores, nos diálogos e os planos e tempos desnecessários parecem fazer parte do cardápio. Manoel de Oliveira paira acima de todo o acidente. Oliveira incorpora, absorve em tudo, mesmo nos erros tudo no filme é sublimado. Pouco importa o redundante e desnecessário de certos momentos, a câmara impõe o desassombro de outros momentos: das interpretações, de certos diálogos, de toda a mise-en-scène desse cinema de representação pura e dura, genuíno em todo o artifício. Cinema para quem o sabe receber, para quem o vê, para quem o merece. 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Novas Parcimónias

Hora e meia (não muito mais) de exercício físico e depois duas (não muito mais) cervejas das saborosas e bem calibradas, eis uma das melhores sínteses fisico-químicas possíveis ao ser humano. Outro dos grandes motivos porque explodiram as super-novas. 

Primeiro há os que escrevem. Depois há os que escrevem o que escrevem.

- O Facebook tem uma saída: a rua.

- Não viver como desculpa para não escrever. Não escrever como desculpa para não viver. Não escrever sem escrita, não viver sem vida. 

- Nem doping, nem controlo anti-doping. 

20.

A vila (será já cidade?) está cheia. Talvez devesse marcar férias mais cedo. Lisboa, porém, dizia-me o contrário, e contra factos não há meteorologias. Então ajustei sonos em três horas mal dormidas. Bendita natureza que me ajusta estas coisas. Agora estou aqui para o sol, para o mar, para os livros, para as escritas (?), com este vento que me leva a ficar na toalha mais tempo que o habitual. Sinto nisto outro ajuste natural pois leio Cem Anos de Solidão, e de facto, é preferível deixar tudo o resto a voar... Outra experiência é ler Sophia frente ao mar, assaz curiosa experiência, já a tinha tido em casa. A lá voltarei, basta ir à estante. Agora uma senhora tira uma selfie. Cálculo que seja para apanhar o mar-horizonte, a foz do rio, a praia em frente, as pessoas (?). Desajeita-se, aposto que é para pôr no facebook. Os piratas já não voltam, as muralhas são agora uma residencial. 

quinta-feira, 12 de junho de 2014

19.

Pela primeira vez na vida escrevi um sonho completo. Um sonho completo  - que na realidade é segmento de sonho mais longo - com principio, meio e fim. E como uma boa história - mesmo que uma história má -, esta inicia-se em andamento: esse autocarro onde me encontrava. Escrever o sonho foi muito importante. Ajudado pela escrita, apanhei sua coerência e visão intrínsecas, também sua unidade, forma e mais real conteúdo. Escrevendo, arrisquei pois a literatura desse sonho. Conto ou mini-conto, foram 560 palavras de rajada. Coisa curta, porém, pormenorizando cada aspecto, serão mais, não muito mais, a não ser que comece a inventar, a usar o sonho como ponto de partida. Ora assim recordo que o velhote barbudo que entrava a reanimar o condutor de autocarros (não vou contar o que aconteceu) no sonho era igual ao do video do The New Pollution de Beck. É óbvio que o sonho veio antes do vídeo. Aos anos que eu não ouvia essa canção. Também o sonho veio antes da internet, é preciso dizê-lo, mas por este andar talvez um dia alguém o esqueça. Mais importante é que nesse sonho, megalomanias à parte, senti-me mais perto de Borges ou Bioy Casares a escreverem certas páginas, esse lado de ente-conto, usando as palavras de Roberto Bolaño. Então saí de casa, tinha de ir ao super-mercado, e tive logo três encontros fortuitos. Um de uma constatação, outro de uma confirmação, o outro de uma dúvida. O primeiro, de um desconhecimento; o seguinte, de uma amizade; o final, de um conhecimento. Este último é o que tem mais dúvidas e áreas de profundidade, para não dizer de perigo. Na amizade, pelo contrário, estamos sãos e salvos. O do desconhecimento, pois, já não me recordo. 

domingo, 11 de maio de 2014

18.

Acordar com a Canção de Lisboa de Jorge Palma na cabeça é coisa que promete pouco. Do mal o menos, irei escrever. Na verdade estou mesmo a escrever agora neste bloco apanhado da mesinha de cabeceira. De certo só mesmo aferir da chama com que me deitei numa noite de palavras decididas. De incerto nada remanesce e arrasta a areia e prova-me a caneta que acordei desafinado. Então subo o volume ao grande Jorge Palma, trazido da melancolia da noite para o dia, o que também é certa decepção de mim próprio: penso em todas as palavras que não li subtraídas ao tempo que as tive para ler. Penso em marimbas no fundo da cabeça que a páginas tantas se nos oferecem no extraordinário Suicidas de Henrique Manuel Bento Fialho. Vá lá que aqui está tudo intacto, nem que seja na aparência. Sei que houve resistência para a avidez das tropas inimigas, hoje mais ávidas que nunca. A gente perde o rasto aos colegas do recrutamento obrigatório. Não me lembro de haver amigos na trincheira. 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

17.

- Levar-se a sério é sinal de avanço. Não se levar, sinal que se avançou. 

- Devagar se vai ao longe, à velocidade da luz o tempo pára. 

- A liberdade precisa das mãos, as mãos precisam da forma. 

- A falsa amizade? Uma desculpa para, um encolhe-te, um prende-te, um as coisas não podem ser assim dessa maneira. A dependência. A pressão alta e a marcação ao homem e à zona. As almofadas. A maquineta de jogos de manipular. A carapuça das aspas acima da palavra. 

Carne para Canhão

Não deixa de ter semelhanças a inconsciência que nos atirou para esta absurda austeridade e perigosa divisão da Europa entre norte e sul, com a inconsciência que precipitou os acontecimentos na Praça Maidan, usando dos piores defeitos da propaganda para esconder o mais puro fascismo doutrinário e um Golpe de Estado contra um governo legitimo e democraticamente eleito. 
De tudo o que eu vi na altura em entusiasmados noticiários, nada mais recordo que a exibição das colossais riquezas à base do roubo, sim, de um governo ladrão e corrupto. Com os palacetes e demais iguarias ficávamos conversados: o governo não só era corrupto, era mais que corrupto, vergonhosa obscenamente corrupto, e a golpada até nos parecia legitima, enfim. Era o povo e tal e nós isso mesmo: burros a olhar para o(s) palácio(s). Problema veio depois. Outros também quiseram, com a verdade - que como Nietzsche dizia, não é propriamente uma velhinha indefesa - de o quererem muito mais legitimamente, fazer também a sua revolução. A começar com a Crimeia, que não foi há dez anos. O resto da história todos já conhecem, ou melhor, vêm conhecendo, de preferência não pelo José Rodrigues dos Santos, que teve na Ucrânia um dos piores e mais parciais exercícios jornalísticos de um enviado especial que eu vi em vida. Agora, enfim, agora é como alguém do mais credível escreveu:«Estamos dependentes da sensatez, ou falta dela, da Rússia». O que até pode ser traduzido por um agora aguentem-se à bomboca. No que é melhor não ser ingénuo. Vou até mais longe, acredito que tal como fomos atirados para esta crise pelos mesmos que tudo dela lucram, poderemos ser atirados para a guerra como povos inteiros antes o foram em tempos de crise. Podemos sempre confiar que a razão estanque a hemorragia das feridas abertas em tempo recorde - e as marcas das feridas têm sido deveras reveladoras. Problema é que a razão não tem sido pródiga em qualquer das partes interessadas. Falemos nos Estados Unidos, é desnecessário de tão óbvio enumerar todos os seus interesses económicos, financeiros, políticos e geoestratégicos (já para nem falar no "military-industrial complex" que só não vê quem não quer ver) em todo este absurdo. Quando a Rússia é o velho patriotismo do Império Russo e Vladimir Putin é Vladimir Putin. Quando a União Europeia é toda esta ordem sem ordem às ordens de Berlim. Talvez eu ande mesmo desmemoriado, mas agora assim não me recordo de nenhuma guerra justa que meta estas gentes e estes povos desde a Segunda Guerra Mundial. Causada por esse Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães que era nazi e fascista e tudo, não era? E o fascismo, nazismo, ou pelo menos, vá-lá, o mais feroz nacionalismo também hoje é parte deste incendiário ilegítimo governo da Ucrânia, não é? Da Europa-América até já aterrou o FMI em Kiev (como aconteceu no Iraque, nunca vi comentador e/ou analista falar nisso, os comentadores e/ou analistas nunca falam na Doutrina de Choque), não foi? Os Estados Unidos e a União Europeia só estão mesmo preocupados, seriamente preocupados, com a democracia, a justiça e a integridade territorial da Ucrânia, não é? Problema que tudo tenha apenas começado

sábado, 3 de maio de 2014

Maio Maduro Maio

Foi instrutivo, não intrusivo. Estavam lá os grupos, grupelhos, fainas, arquitecturas, engenharias. Uma pipa de massa à base de fígado. Uma boa dose de confiança. Também foi fácil dirigir-me à verdade, era só contornar algumas pessoas. Sujeito a quem se pedem predicados, aos outros eu sujeitos só mesmo trabalhando em equipa e/ou contextos de amizade. Géneros de coisas das quais não se pede e só mesmo por acrescento. Nada de guerras, só textos. Com uma população a desaparecer por falta de alimento ao espirito, cheguei ao ponto mais ocidental de mim próprio, logo ali desatei a ler. Já não tinha nem tropas nem aldeões e foi difícil  reiniciar-me com pedras a atacar o estômago. Mas ganhei fôlego. Livros, minha intuição tinha-os fisgados mas foi como conhecer um país estrangeiro que sabíamos extraordinário quando ainda não o tínhamos vivido. Tomos na desordem ordenada como um atelier de Picasso. Esquecido perdido nem reparava no trabalhado e por trabalhar. Detesto o nome laboratório de ideias, é feio vulgarizar assim a palavra através da ciência. Com o seu quê entre o jargão de telejornal e o de criativo publicitário que em tudo me irrita ao ponto do deixem-me em paz. É como o intragável presunção de inocência que não é coisa com coisa e tudo reclama e tudo acusa. Quem se terá lembrado de semelhante ideia? Horas e dias de reflexão e fugas e batalhas contra essa sombra desconhecida só podiam ter dado este resultado: o problema não é meu. 
Seja, certos territórios, estranhas ilhas desconhecidas, estão disponíveis atrás do arvoredo. Desancorar, assaltar armadilhas. Partir do sentimento, não tanto do aperfeiçoamento. 

quinta-feira, 17 de abril de 2014

16.

Inspirado, com as palavras prontas a chegarem sabe-se lá de onde, Henry Miller tinha esse hábito, antes de começar, dizia:«Sou todo ouvidos.». Então escrevia. A inspiração passa a palavra. O escritor só precisa criar condições necessárias à escuta. Limpar o terreno da vidinha. Buscar um género de neutralidade aparente (que de neutro não tem nada). A disponibilidade não se quer indisposta, Henry Miller tinha esse hábito. Dizia que quando não se consegue criar sempre se pode trabalhar. Então é limpar o terreno, deixar tudo a postos. Assim sempre se varre muito sábio conselho da escrita criativa. 

15.

Fosse um duelo, terias de tirar esse cinismo alegre que te serve de escudo. De qualquer forma, ficarias mais leve. Sempre tão dependente das pessoas, das pessoas e dos estímulos das pessoas... Ser um agarrado, dependendo do grau, tem sempre um lado manipulador. Constato o problema, esse calcanhar de Aquiles. Um calcanhar daqueles, diga-se... De vez em quando, ao Sol (que tudo reflecte), fica aí tudo à mostra. Um desses planos bem melindrados.

14.

Mesmo antes de o beber, o mau café já se me tinha atravessado. Vinha do leve cheiro a queimado e de uma mais fina textura que algum telescópio sensível a olho nu nos mostrasse. Qual censor próprio de alarme, avisava que me ia dar mal. Bem que telefonaste, fica o curioso agradecimento. O tempo passou. O café esfriou. De nada valeu nem tê-lo tocado. Acabada a conversa, meu coração mais parecia um tambor africano num ritual da tribo; a desidratada boca a secura de um deserto; um blitzkrieg entretanto preparava-se nos intestinos. O mau café tem um feitiço. 

segunda-feira, 31 de março de 2014

Estado do Tempo

Meu tempo não é o tempo da minha meteorologia. O tempo da minha meteorologia tem dias, tem marés e tem estações. Meu tempo é outra coisa. Não mora em estados de alma. Não vive e sofre as divisões e uniões, concórdias e indecisões, ilusões e desilusões. Meu tempo não tem guerras nem tempestades, nem nunca lhe cairá asteróide em cima. Meu tempo é um quieto caminho. Segue o seu curso, infinito, infinito até que acabe. E quem diz curso diz discurso. Leis que segue conforme, nada em disforme - nem um átomo fora de sua vontade, regra exacta e disciplina. Meu tempo é pois meu tempo. Um tempo com tempo. Tem de ter tempo. É tempo. 

Questões de Interesse

Isso dos interesses comuns pode ser um rol de problemas, escondem o interesse, escondem o problema. 

quinta-feira, 13 de março de 2014

A Máquina de Hemingway

É perigosa auto-consciência. Faz curto-circuito na máquina criativa. Bloqueia certo mecanismo que devia estar virado para fora. Ou dito de outra maneira, a máquina bloqueia se se põe a pensar que é máquina, coitada. Hemingway tinha razão quando dizia que there's nothing to writing etc e tal, tivesse pensado demasiado nisso e talvez nem tivesse saído da primeira frase do valente “The Killers”. O homem é a sua própria máquina de escrever. 

A Nota Dissonante

Sob o ar conforme, consoante e relaxado recebe à chegada meu ar duro, batido e comprometido. Até já se deu o contrário, mas é sempre igual esse estranho contacto de diferentes tempos musicais entrechocados como dois corpos estranhos de numerosos lados incompatíveis. Se houvesse nisso alguma culpa diria que fui eu que entrei como um subterranean home sick blues em meio de um minimalismo repetitivo a la John Cage. A música até que nem era má. Má é esta dissonância em confronto com o diapasão dos dias. Pior mesmo é quando do silêncio apenas se ouve a distorção. 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Paco de Lucía (1947-2014)



Centro de Gravidade

Estou em pleno desequilíbrio. Digo a verdade mas esta projecta-me contra o chão. Atirado pelo impacto da minha própria força contra o nada da minha presença. Levanto-me. Estou em pleno equilíbrio. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Pós-passados

O erro de alguns pós-modernos, parece-me, é tentarem ser autores pós-modernos. Entendo bem toda essa necessidade artística, mas nela convém, antes de mais nada, uma primeira básica condição essencial prioritária: a condição de se estar vivo. Depois de se estar vivo, claro, é preciso viver neste mundo, mesmo que se viva noutro, ou mesmo em vários outros mundos. Ao que, óbvio, é preciso ter mundo, ter mundo, ou, vá-lá, um mínimo módico de mundo. Depois, ou antes disso, mas tão ou mais importante que tudo o resto: é preciso ser artista. É preciso ser artista ou então da necessidade artística ficamos apenas pela necessidade. Mas tentar nunca é demais. 

13.

- Tem vezes na vida em que a comédia ainda é pior que a tragédia*.

- Muito respeito pela cobra venenosa. Mesmo muito respeito. Já demasiado respeito não convém lá muito. Demasiado respeito e não temos como cortar-lhe a cabeça. 

- É completamente diferente dizer que tem falta de substancia do que dizer tem falta de substância na substância. 

- Só somos ilhas porque podemos ter tudo sem podermos ter nada.

- A frescura e ingenuidade da crença têm bastantes qualidades conservantes.


* - escrito antes do congresso do PSD. 

sábado, 22 de fevereiro de 2014




"I only care about the music. It's sad. Sometimes people are damaged by it. People who understand me can understand what that is. When the music is finished with me they'll all be back if they can wait for me. But if you can't see that about me you don't understand me so there's no relationship anyway." 

12.

Energia acumulada,
o curto circuito de um mundo que acaba.

Tu nada.

E de voo picado, vivo, rés no chão, 
cansado contigo, dado solidão.

Voando raramente se dá pela viagem,
e quando regressas, 
regressas de onde não sabem...

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014



A Argentina como o Chile representam no extremo sul do planeta a “Última Thule”. Borges (para o efeito não importa que esteja parcial ou inteiramente cego) trabalha ansioso com o terceiro olho, aquele que perfura qualquer distância. Não contempla apenas a ribeira no outro lado, mas também a terra mais distante. Fixará a vista interior em ilhas tão afastadas como a Islândia, a Última Thule do Setentrião romano. Pretende esgotar meridianos e paralelos. Empreende a travessia indagatória para as vizinhas do Árctico não por um puro exagero de auto-desterrado que se projecta no outro extremo, mas porque no globo terráqueo, que é redondo, todos os pontos fazem parte da cultura universal. A sereia que o chama e provoca é a palavra escrita, os textos cardiais, o entranhável, processo das línguas. Cruza os mares para averiguar a formação de idiomas. Dá crédito à notícia que os vikings (“uma multidão de cães que saíram da caverna de uma leoa barbara") chegaram às costas americanas séculos antes de Colombo. Mas anda também atrás das vagas de soldados da fortaleza romana e das tribos germânicas que demoliam limites e derrotavam legiões, traziam nas mãos a espada e na boca o poder de um rico verbo comunicativo. E foi por isso que ocupavam a Islândia, a Inglaterra, a Irlanda, a Alemanha e a Escandinávia.
O homem nascido na fronteira sul não será um marginal. Sente a atracção do centro e das margens opostas, das histórias de guerreiros que inspiram escritas e engedram poetas com ou sem nome. Faz isso com a consciência de que são herdeiras e várias literaturas europeias modernas. Apaixona-se pela evolução dos alfabetos e a odisseia das escrituras. Sente curiosidade pelos textos subjacentes na superfície dos palimpsestos. Não desconhece que se tratam de pergaminhos cuja escrita original foi apagada para estampar por cima outras diferentes mensagens. Tal fenómeno supressivo, essa operação de substituição e sobreposição dá-se também no caso das religiões triunfantes, que constroem as suas igrejas na base dos templos do vencido. Borges é um caso curioso de um estranho e apaixonado poliglota, amante da gramática histórica, do fluir das filologias, do nascimento obscuro, gradual, acumulativo e correctivo nos lábios dos povos das línguas do hemisfério norte e por que não também no seu próprio. Vidente ou cego embebe-se nos poemas mais antigos, na gesta de Beowulf, nas Eddas da Noruega, Gronelândia e Islândia. Deseja penetrar na trajectória de géneros literários com ressonâncias vindas de além mar, que continuam a transformar-se pela voz das gentes. Seduzem-no as Sagas, espécie de epopeias em prosa, nascidas no século X, recitadas no calor do vinho e dos banquetes por um rapsodo que geralmente celebra façanhas de homens de carne e osso. Na sua opinião, as Sagas revelam “um carácter dramático e prefiguram a técnica do cinematógrafo”. Não tem dificuldade em aceitar que se inspiram na realidade e se reportam a factos verídicos. Não se incomoda que a sua forma seja a de uma crónica vinculada ao acontecimento objectivo e nem sequer se importa desconhecer o nome dos seus autores, mas talvez tivessem sido homens que recolheram esses factos esquecidos no anonimato das aldeias. E de algum modo correspondem ao impulso genético que nasce das próprias raízes e estão na origem do folclore, dos cantos populares que brotam como as flores do campo em todos os continentes, sem excluir sequer os povos latino-americanos.
Observa que a partir de certo momento (indica o ano mil) os 'thulir' ou recitadores sem nome são substituídos pelos escaldos, poetas que se identificam por um apelido e assinalam o aparecimento do escritor assim individualizado, mais ou menos profissional, que surge pela necessidade da sociedade, para a qual a poesia narra a história e denota uma tomada de consciência da sua identidade. Borges não hesitará em servir-se das literaturas estrangeiras de qualquer época e território para semear e adubar o seu próprio território, mas não será um súbdito incondicional. Adere ao princípio da autonomia criadora, tornando sua a opinião de Goethe de que “o Canto dos Nibelungos é clássico, mas não deve ser tomado como modelo, nem tão-pouco os chineses, os sérvios ou Calderón”. 

Os Dois Borges - Vida, Sonhos, Enigmas, Volodia Teitelboim, Trad. Serafim Ferreira, Campo das Letras, 2001

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Parcimónias


- Não deve haver maior satisfação para o tecnocrata do que ver um artista a espalhar-se ao comprido.

- A minha completa distância com a minha completa ausência de separação é com ela pela certa essa fatal contradição.

- O excesso de confiança é a medida das vezes em que não se descobre que se fez merda...

- Já percebo melhor porque me é elegível: excesso de palavras para falta de linguagem, como o excesso de cereais na minha tigela de iogurte.

- Concluir é sempre o mais difícil: ter a frieza certa de acertar em cheio com o contador certo no marcar do tempo.

- É o bom do desafio: partir todo moído para a escrita e pela escrita moer todo o partido. Ou será partir todo o moído?

- Toda a criação é magia. Como a criação do mundo foi magia. 

- É importante distinguir: é escrita a martelo ou escrita à martelada? 

- Só mesmo quando escreve percebe porque tem mesmo de escrever. Mas como haveria outra maneira de o saber? 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Meritocridade

A manigância é a particular espécie de interesse das criaturas sem interesse. A particular e a única. Ler, escrever, pintar, ouvir música, fazer música, tocar um instrumento, ir ao cinema, a um teatro, ver um documentário, um museu, uma exposição, monumentos, animais de estimação, coleccionar coisas, línguas estrangeiras, viajar, gastar tempo em jogos de estratégia, poker de cartas, de dados, playstation, matraquilhos, snooker, ping-pong, budismo, yoga, zazen, artes marciais, esgrima, cozinha, ciência, banda desenhada, desenhos animados, carpintaria, olaria, um voluntariado, vinhos, whisky, cerveja, cocktails com álcool e sem álcool, almoçaradas, jantaradas, cerimónias do chá, vegetarianismo, naturopatia, massagens, acupuntura, horticultura, botânica, numismática, restauro, mergulho, peixes de aquário, mariscadas, charutos, cachimbos, crochet, artesanato, séries de tv, debates, economia, política, história, religião, filosofia, astronomia, astrologia, cosa nostra, anti-heróis, criminologia, geometria, espiritismo, maçonaria, segunda guerra mundial, teorias da conspiração, ovnis, ténis, jogos olímpicos, F1, motociclismo, andebol, voleibol, voleibol de praia, futebol, futebol de praia, futsal, Premier League, Serie A, La Liga, NBA, NFL, rugby, cricket, bowling, surf, bodyboard, canoagem, pesca desportiva, mergulho, escalada, caminhada, patinagem, skate, ciclismo, ciclo-turismo, xadrez, damas, dominó, roleta, roleta ru... Nada. Nada atrai o medíocre manigante. Podia estar aqui horas e o medíocre manigante não diria sim a nada. Falta de vontade? Pois é esse o problema, o medíocre manigante tem até excesso de vontade, vontade e muita ambição, ambição até de nos fazer a folha. E os desinteresses do manigante não são propriamente desinteresses, ele até os pode achar interessantes para o interesse da manigância. O manigante não se acha néscio pelo seu desinteresse nos nossos interesses. Ele é que nos acha néscios pelo nosso interesse nos seus desinteresses. Ele sabe bem de que lado está. Nós é que às vezes não sabemos. 

Nietzsche tinha aquela clássica tirada que dizia que o que não nos mata torna-nos mais fortes. Ora no manigante não é bem isso, no manigante o que não nos definha é que nos torna mais fortes. Então não definham nada, os manigantes, pelo contrário, é neles precisamente o tédio, o completo absurdo aborrecimento, a pasmaceira sem remissão e a aleatoriedade boçal que os fortalece perante o resto da espécie humana. Neste particular e não só, essa sub-espécie de espécie sem espécie de espécie alguma  - qualquer coisa que possa caracterizar o medíocre manigante é ameaça à sua própria sobrevivência - só existe e se caracteriza pelo que não tem. Com o tempo percebe-se porquê: não há nada para falar com o manigante que não meta de permeio as artes que só ele sabe da medíocre manigância. Seres ignorantes dos seus segredos, como é meu caso, sentem-se com o medíocre manigante sempre com vontade que acabe o tempo. Parece que estamos ali a jogar uma modalidade que detestámos na escola, tipo basquetebol (no meu caso). É para perder na certa, como é tão óbvio, e quanto mais demora a coisa mais porrada nós levamos. Depois aqueles terrenos lamacentos escorregadios, as mazelas a obrigarem ao possível recolher obrigatório, as energias dissipadas nos intermináveis caminhos da estupidez humana... 


Valha-nos os nossos terapêuticos interesses. Com eles reganhamos o tempo preso algures nalgum ferro afiado de qualquer armadilha armada pelo medíocre sujeito manigante. Depois sim, recuperados, revigorados e aliviados, constataremos mais uma vez assim um pouco aparvalhados (ficaremos sempre aparvalhados e jamais na vida compreenderemos a criatura manigante) como aquela salvífica medíocridade continuará ad aeternum exactamente na mesmíssima constante onda uniforme afinada pela porfia austera exigida pelo rigoroso trabalho da execução da manigância - haverá casos em que não resultando a manigância, o medíocre manigante até corre o perigo de não ter comida para pôr no prato. Por outro lado, se a manigância está mesmo a resultar, o manigante saboreará a comida de outra distinta maneira. Com o gosto revigorado, ficamos até com a ideia e a ilusão que o manigante ganhou finalmente algum interesse adicional na vida - neste caso na boa da comida. Nada mais errado. Manigante que se preza nunca larga de vista a manigância, nunca baixa a guarda, tem sua amada sempre bem perto, o esquema a trabalhar na cabeça. Cometerão pois caros leitores um erro fatal se virem no manigante alguma centelha de amadorismo. É outra vez o oposto contrário, tudo ali é profissionalismo, puro profissionalismo manigante. Nada, mesmo nada deve suspender a crença do manigante na manigância, nem mesmo um inesperado eclipse total do sol que lhes desse o escuro da noite às três da tarde. O que apenas seria um contratempo na manigância. Que isso da noite é em casa de preferência a pensar na manigância para o dia seguinte. 


William Blake dizia das águas paradas esperem veneno. De qualquer forma eu topo-os bem: no andar, na forma de olhar, em todo aquele suspeitoso mexer, na forma de rir (essa é a mais fácil), no falso brilho dos cabelos, no modo como lhes cai a roupa. Ao corpo, ao espírito, a obstinada tarefa. Pois está aí o problema do medíocre sujeito manigante: há ali toda a falta de presença de espírito. O tão não poder como não querer dar nada a querer pairar a dominar sobre tudo. O pé de apronto para a rasteira bem dada. O lusco-fusco para a pequenina intriga. As finas artes da hipocrisia. A selectiva contradição e suas demais incongruências. A afinada pontaria na areia para os olhos...

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Sem Tinta

O sangue de quem escreve é sumo na sua escrita. O sumo de quem escreve é a tinta da sua escrita. Quando falta tinta melhor não forçar a caneta, não vale a pena. Só mesmo com uma caneta nova, ou com uma nova carga para a caneta. A tinta de quem escreve não pede um cêntimo do seu valor. Encontra-se aqui ali em todo o lado, talvez saltando já para o passado. A tinta tem entre tudo moléculas de experiência, e por vezes a experiência custa dinheiro, daí que não seja correcto dizer que foi de borla porque não foi. Mas desse preço não existe preço. Existe para lá do preço porque custando nada custa mais que todos os preços. E depois há mil e uma em cada mil e uma maneiras de um poder sangrar. Assim como há mil e uma em cada mil e uma maneiras de um achar que consegue escrever sem tinta. 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Aritmética

Pela matemática do texto fui dar à nossa situação de insolvência, ao nosso défice catastrófico, piorado vertiginosamente quando tivemos de fazer alguma coisa para o evitar. Ou talvez na verdade não houvesse nada a combater. A matemática do nosso texto é gigantesco ponto de interrogação. Esta é ainda assim a minha única esperança no meio disto tudo: o gigantesco ponto de interrogação. De concreto concreto, apenas o ponto de partida. O ponto de partida em mais que uma acepção do termo - pelo menos em três - mas não é esse o problema. O ponto de partida nunca é o problema. O problema é o ponto de chegada. Poderá levar uns quinhentos anos. 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Philip Seymour Hoffman (1967-2014)



A primeira vez que vi Philip  Seymour Hoffman foi em "Happiness", como muita gente, num papel daqueles que não se esquece, tão marcante e simultaneamente surpreendente era toda aquela interpretação - decadente, peçonhento, impressionante inesquecível personagem. A surpresa seguinte foi Phil Farma, o médico bom (bem sei que pode soar um pouco pleonástico dizer assim médico bom, mas era mesmo um médico bom, a encarnação absoluta do médico bom, como não me lembro de ver outro) de "Magnolia" que vi antes de "Boogie Nights" do mesmo realizador que me tinha até ali passado despercebido. Vá-lá que tive a sorte de o apanhar numa reposição não me recordo onde - no Cine 222, ou no Quarteto, ou no Nimas, ou no Mundial, ou terá sido na cinemateca, não sei. Só sei que Seymour Hoffman era aquele sonoplasta gordo efeminado e um pouco idiota. Eu que já estava mais que esclarecido em relação ao enormíssimo actor naqueles dois primeiros filmes, não podia acreditar num tal contraste em apenas três interpretações. Tinha ali um verdadeiro camaleão, talvez até mais que isso. A transformação em papéis soberbos e/ou inolvidáveis - que dava a ideia até de ser física, quando no fundo víamos o actor mais ou menos sempre com a mesma compleição - continuei a ver em "Big Lebowski", "State and Main", "Almost Famous", "Punch Drunk Love", "25th Hour", "Capote" (admirável interpretação que deu em Óscar), "Charlie Wilson's War", "Moneyball" (a fazer as vezes do treinador de basebol Art Howe, priceless). Por incrível que (me) pareça ainda não vi "The Master", que não consegui apanhar no cinema e outra vez, por incrível que pareça, não existe no meu clube de vídeo (vai ter de ser no Meo, se calhar hoje) e é de todos o único Paul Thomas Anderson que até hoje ainda não vi. Cruel coincidência. 
Faltar-me à ver também "The Savages" e "Synecdoche, New York", dos que creio que vale mesmo a pena. Curioso que há uns meses, num daqueles acasos felizes, vi pela última vez o actor num filme já de há uns anos. Uma história verídica sobre um viciado no jogo chamado "Owning Mahowny", que o canal Hollywood teve a excelente ideia de pôr no seu alinhamento. Em muito boa hora, diga-se. Mais um personagem verídico onde Seyour Hoffman ultrapassou a fasquia. Ele que nos conseguia surpreender a cada interpretação como se fosse a primeira vez que o víamos actuar. Era como se nos esquecêssemos de todos os seus papéis anteriores. É a tal coisa da fasquia, Philip Seymour Hoffman tinha-a muito, muito alta. Neste caso dir-se-ia que conseguiu engolir o filme todo, quase até deixar de constar que tenha havido ali mais alguém (tenho uma leve ideia de Minnie Driver e John Hurt, que constato agora que lá estava). Deixo-vos este vídeo em jeito de homenagem.