sexta-feira, 20 de setembro de 2013

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1 - We're told that, to remain competitive economically, we need to forget about the humanities and teach our children "passion" for digital technology and prepare them to spend their entire lives incessantly re-educating themselves to keep up with it. The logic says that if we want things like Zappos.com or home DVR capability – and who wouldn't want them? – we need to say goodbye to job stability and hello to a lifetime of anxiety. We need to become as restless as capitalism itself.
Now it's hard to get through a meal with friends without somebody reaching for an iPhone to retrieve the kind of fact it used to be the brain's responsibility to remember. The techno-boosters, of course, see nothing wrong here. They point out that human beings have always outsourced memory – to poets, historians, spouses, books. But I'm enough of a child of the 60s to see a difference between letting your spouse remember your nieces' birthdays and handing over basic memory function to a global corporate system of control.
2 - Amazon wants a world in which books are either self-published or published by Amazon itself, with readers dependent on Amazon reviews in choosing books, and with authors responsible for their own promotion. The work of yakkers and tweeters and braggers, and of people with the money to pay somebody to churn out hundreds of five-star reviews for them, will flourish in that world. But what happens to the people who became writers because yakking and tweeting and bragging felt to them like intolerably shallow forms of social engagement? What happens to the people who want to communicate in depth, individual to individual, in the quiet and permanence of the printed word, and who were shaped by their love of writers who wrote when publication still assured some kind of quality control and literary reputations were more than a matter of self-promotional decibel levels? As fewer and fewer readers are able to find their way, amid all the noise and disappointing books and phony reviews, to the work produced by the new generation of this kind of writer, Amazon is well on its way to making writers into the kind of prospectless workers whom its contractors employ in its warehouses, labouring harder for less and less, with no job security, because the warehouses are situated in places where they're the only business hiring. And the more of the population that lives like those workers, the greater the downward pressure on book prices and the greater the squeeze on conventional booksellers, because when you're not making much money you want your entertainment for free, and when your life is hard you want instant gratification ("Overnight free shipping!").
But so the physical book goes on the endangered-species list, so responsible book reviewers go extinct, so independent bookstores disappear, so literary novelists are conscripted into Jennifer-Weinerish self-promotion, so the Big Six publishers get killed and devoured by Amazon: this looks like an apocalypse only if most of your friends are writers, editors or booksellers. Plus it's possible that the story isn't over. Maybe the internet experiment in consumer reviewing will result in such flagrant corruption (already one-third of all online product reviews are said to be bogus) that people will clamour for the return of professional reviewers. Maybe an economically significant number of readers will come to recognise the human and cultural costs of Amazonian hegemony and go back to local bookstores or at least to barnesandnoble.com, which offers the same books and a superior e-reader, and whose owners have progressive politics. Maybe people will get as sick of Twitter as they once got sick of cigarettes. Twitter's and Facebook's latest models for making money still seem to me like one part pyramid scheme, one part wishful thinking, and one part repugnant panoptical surveillance.
3 - But apocalypse isn't necessarily the physical end of the world. Indeed, the word more directly implies an element of final cosmic judgment. In Kraus's chronicling of crimes against truth and language in The Last Days of Mankind, he's referring not merely to physical destruction. In fact, the title of his play would be better rendered in English as The Last Days of Humanity: "dehumanised" doesn't mean "depopulated", and if the first world war spelled the end of humanity in Austria, it wasn't because there were no longer any people there. Kraus was appalled by the carnage, but he saw it as the result, not the cause, of a loss of humanity by people who were still living. Living but damned, cosmically damned.

E muito mais, aqui.

5.

Tive de lhe dizer que há gente muito boa neste mundo mas que a maioria “mata-te” e ignora-te nas alturas em que estás mais frágil e na merda. São teus amigos? Pois, olha... Maus? Não, cobardes, na melhor das hipóteses. Sentes-te só e nascemos e morremos sós? Eles não, não têm pensamentos desses, zombam de tanta tristeza. Nos funerais até se esquecem quem morreu, no meio de tanto socialite. Não iam perder a oportunidade, a gente já não se via há tanto tempo

domingo, 15 de setembro de 2013

Petróleo

Charles Bukowski dizia numa das Tapes que a Natureza o aborrecia de morte, natureza para ele eram cidades e o smog. Bukowski é dos meus escritores de eleição, mas tendo a apreciar as "duas naturezas". Talvez mais a primeira. Também de que me serviria uma "segunda natureza" apinhada de fascistas? Ou mesmo de gente sem calor, interesse ou substancia alguma? Há muito por onde aprender na Natureza, suspeito é que não aprendemos nada ou não aprendemos nada bem. Mesmo assim, acredito que há de haver nela sinais que nos salvem e poderão esperar ser desvendados. Sinais como o líquido preto que nos reinventou. Tomem o tempo como quiserem, milhões de anos o sedimentaram na Terra.  

Adenda: Mesmo no fim, lembrei-me disto. Fica como suplemento. 

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Tabu

Lisboa naquele triste e nostálgico extraordinário preto e branco, um presente que logo ali se adivinha, português de tão antigo. É possível que a Saudade tenha nascido dessa antiga gesta a mundos remotos e desconhecidos, à memória do que já não volta. Deciframo-la quando Ventura nos conta de "Tabu" em África, ele a única ponte, a memória, o elo possível entre o que (ainda) resta e o que (nunca) foi. Pelo que ouvimos e vemos, percebemos que ela chamar-se Aurora não é ao acaso. E que todo o cinema é mudo, mesmo não sendo. 

4.

A praia é o melhor lugar para nos darmos conta dos elementos da Natureza. Participando neles, sentindo - a brisa marítima, a água no mar, o sol que queima, a areia - misturando-os em nós, transformamos nós próprios no processo. E de noite aquele abençoado cansaço cansaço bom da praia, como diz(ia) minha mãe - é o ponto perfeito para o sono perfeito.  E para um novo recomeço. 

sexta-feira, 30 de agosto de 2013




Jorge Guillermo Borges era um literato e tinha aspirações intelectuais. "Procurou ser um escritor e fracassou nesse desejo. Escreveu alguns sonetos muito bons", observa o filho. Parece óbvio que a sua própria carreira como autor ficou selada ou recebeu pelo menos um impulso por aquela frustração. Não exprimiu essa vontade por escrito, mas a família interpretou-a como um mandato implícito: o filho devia concretizar o malogrado sonho paterno." No tempo em que era criança, quando lhe sobreveio a cegueira, ficou tacitamente entendido que eu devia cumprir esse destino literário que as circunstâncias negaram a meu pai..." Mas o desejo de se ver realizado no filho tinha uma base e a mãe de Borges defende que aos seis anos o filho disse ao pai que desejava ser escritor. E relembra que por várias vezes, mesmo antes de rabiscar qualquer coisa, estava convencido de que o seria. Imitava o pai nos actos e nos gestos e quando dona Leonor o ouviu recitar poesia inglesa comentou: "Possui a mesma voz".
O pai era um fanático por enciclopédias e consultava-as todos os dias, em especial a Britânica. E o filho fez a mesma coisa. Vários contos e ensaios borgianos têm aí o seu ponto de partida. Não são traduções, simples resumos ou cópias, não, trata-se de recriações literárias. Com o correr do tempo, passou a trabalhá-las como camafeus surpreendentes, lavrados por um prolixo miniaturista. Procedia com liberdade. Condensava, alterava, introduzia histórias em vários planos, alimentava uma intriga e desenlaces inesperados. Anotava a cada passo referências apócrifas. Despistava e brincava. Gostava de causar espanto. 

Os Dois Borges - Vida, sonhos, Enigmas, Volodia Teitelboim, Tradução Serafim Ferreira, Campo das Letras, 2001

Pesa? Amputa-se

Como já é por demais sabido, ao número de mortes indirectas por medidas criminosas desde DesGoverno, somam-se agora os bombeiros deste ano

E é até redundante dizer que foram lançados avisos 

E o Tribunal Constitucional chumba mais uma medida, só quem é ingénuo ou anda a dormir pode achar que não fora antecipada como mote para nova farsa

E que acabado o mês, é só esperar mais um pouco. Primeiro as autárquicasÓbvio, previsível, aguardem.

Aqui há tempos, não sei precisar quem, comparou a política de cortes cegos deste DesGoverno com o absurdo e irracionalidade de um médico que perante alguém com excesso de peso mandasse cortar uma perna e assim ficava o problema resolvido. É de eficácia comprovada. 

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Guerra

Cada dia é dia de guerra. Uma guerra que começou a morrer com as armas de fogo. Ao samurai - que treinava pelo menos 12 horas por dia em todas as técnicas e suas variantes possíveis sob uma férrea disciplina física e espiritual feita numa aprendizagem em retiro desde tenra idade basta o gatilho e já está. Para não falar da bomba lançada de um avião, essa pode estoirar um templo inteiro com um exército de samurais lá dentro mais os seus mestres. Como todos os que só querem viver até apanharem com a mesma dose no telhado do prédio. Há outras maneiras, o horror das armas químicas, como agora na Síria; ou numa bomba atómica como a de Hiroshima, de um horror mais inimaginável. Ou com granadas e morteiros, ou aquela mina pisada sem querer.

Guerra que é guerra devia deixar os inocentes em paz. Fosse levada à letra e nem armas de fogo eram permitidas. Toda a guerra hoje não passa do tiro no escuro. Ganhar é só e apenas não apanharmos com o tiro no escuro do outro lado, ou até do nosso, como também acontece. Guerra que é guerra devia ter só guerreiros. Falo de guerreiros, não de soldados. Sabendo aliás de onde vem a palavra guerreiro, não consigo imaginar de onde virá a palavra soldado. Também pouco interessa, não é também o soldado carne para canhão?

Guerra que é guerra é do domínio do físico, do emocional, do espiritual, do mental, é contra o outro, mas é sobretudo connosco próprios. A guerra aliás é mais benéfica quando é feita contra nós próprios, os sujeitos da guerra, os fazedores da guerra. É essa a sua moral. O samurai apenas atacava no limite do limite. Quando assim era, normalmente safava-se. O primeiro a atacar, coitado, ficava sem cabeça. Vejam os filmes do Kurosawa, vejam a forma como Sérgio Leone o transpôs para os duelos nos westerns. O duelo sim, o duelo como forma leal no uso das armas de fogo. No cinema. 

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

3.

Se agora é leve compasso de espera, antes era valente intervalo. Portas encerradas em todas as ruas, estores fechados em todos os prédios. Aberta uma janela ou duas, uma tabacaria ou duas, a mercearia, o supermercado, dois ou três cafés. A cervejaria habitual, único lugar no bairro aberto até às duas da manhã, fechada o mês inteiro. Lisboa parecia um pátio andaluz, o paraíso. Hoje não, nem pensar. Mal sinto diferença nos meses, tanto que hoje até estranhei ver tão pouca gente. O que terá acontecido? Pirou-se tudo a 21 de Agosto? Foi da lua cheia de ontem? Deve ter sido da lua cheia de ontem. Os focos de incêndio não desapareceram. 

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Elmore Leonard (1926-2013)




Não o conheci primeiro pelos livros. Foi pelo cinema, como muitos, através de "Jackie Brown", "Out of Sight" e "Get Shorty". Duas ou três gerações antes, há de haver quem tenha entrado pelos westerns – "Hombre", "Valdez Is Coming", "3:10 To Yuma", "Joe Kidd" – ou por "Mr. Majestyk", com Charles Bronson. Talvez uma percentagem maior, quem sabe. Nessa altura Elmore "Dutch" Leonard era menos conhecido como escritor do que como argumentista de cinema, mesmo que as histórias fossem contos que escrevera durante mais de dez anos para pulp magazines, entre as cinco e as sete da manhã, antes de ir trabalhar numa agência de publicidade. Hoje, há quem entre pela série de tv "Justifiedou pelo remake do "3:10 To Yuma" de há gerações atrás, escrito naquelas madrugadas.

Detestado por detractores e/ou por quem não lhe perdoasse o sucesso, alguma superficialidade e o lado comercial assumido, Elmore Leonard valia-se da qualidade, quantidade e diversidade do seu trabalho. O prestígio de alguma crítica e o peso literário de quem o incensava também contavam. Sobretudo Martin Amis, que o entrevistou e decifrou como poucos ou ninguém. Do nosso país, sei da admiração de José Rentes de Carvalho, melhor exemplo também não poderia encontrar. 

Depois há a safra dos “discípulos” ou fortemente influenciados: George Pelecanos, Michael Connelly, Dennis Lehane, Quentin Tarantino... Stephen King receava o dia em que deixaria de poder ler o último livro do old man. A mim sempre atraíram as "Ten Rules of Writing". Do resto, até agora, li muito pouco. Cuba Libre em português e Pronto no original. O suficiente para saber que Elmore Leonard deve ser lido em inglês, a diferença é da noite para o dia. Algo óbvio e natural em quem, acima de tudo, privilegia o som e os ritmos da escrita. A partir de "Pronto", e com ganas de continuar a ler o escritor, fiz uma aproximação de prioridades a partir de uma selecção entre o elementar e o minucioso: Riding The Rap”, The Complete Western Stories”, Tishomingo Blues, “The Hot Kid; enfim, talvez “Get Shorty”, talvez "Freaky Deaky","Road Dogs", etc... Já sou dos que entendem quem devore a obra do "Dutch", limpando tudo o que apareça à frente

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Vala Comum





Cinquenta páginas de prosa com balanço para muito mais, "Vala Comum", de manuel a. domingos, lê-se num tiro. Viagem auto-biográfica entre memórias de um passado e impressões difusas de uma vida em seus múltiplos comprimentos de onda - humor, amargura, ironia, cinismo, sarcasmo, notas mais pueris, dispensáveis ou no mínimo discutíveis - onde tudo parece rodar, qual espiral em torno das obsessões, embirrações, idiossincrasias, contradições, subjectivismos ou superficialidades caras ao autor, temperadas aqui e ali por estórias sumarentas a pedir para ser contadas. Tomadas por uma certa arte do desconcerto

Como é costume dizer: cada um tem aquilo que merece. João César Monteiro disse num dos seus filmes (cito de memória): «não se nasce português». Ora eu não sei se ando a ficar português, mas tenho alternativa? Não sei. É uma das muitas coisas que me atormenta. Mas durmo bem à noite. Se o colchão é bom, claro. Há colchões que são uma boa porcaria. E há pessoas que alugam casas com camas que têm colchões horríveis. É como aqueles anúncios de quartos com janela e a janela, afinal, é o postigo no alto de uma parede. Mas não é isso que me tira o sono. O café é que começa a tirar-me o sono.

E por aí fora, que o assunto não acaba aqui, nem muito menos começou. Pois que ligada e ao mesmo tempo desligada do seu todo, cada frase como que dribla a anterior e parece querer fugir numa longa finta que há de acabar nalgum lado. Claro que é parte de sua sequência lógica, o interessante é que essa mesma sequência vem desse drible desconcertante. Difícil? Sim ou não, largo a bola e pego na improvisação do jazz (ou de algum jazz-rock dos setentas) onde sobre meia dúzia de acordes os excelentes músicos se perdem para se reencontrarem mais à frente, para depois se voltarem a perder, e assim sucessivamente. Como improviso, esta suposta mini auto-biografia serve também como um longo monólogo que, concordo, podia perfeitamente ser levado a cena. É que eloquente quanto baste, dá-se a ler em voz alta. Mesmo em silêncio tem vezes que parece que temos o escritor ali ao nosso lado a contar-nos (das) coisas. Nesse aspecto lembrou-me "Life", a extraordinária auto-biografia de Keith Richards. Puro efeito de ilusão, eu sei, e ainda bem que assim é. Como quando me apeteceu dizer, «Manuel, dá cá mais cinco» 

A adolescência é um território muito estranho. Foi dolente e sem qualquer rasgo de originalidade - em todos os sentidos.
(...)
[sobre António Lobo Antunes] 
Os seus últimos romances são uma cacofonia completa. Aquilo que escreve não lembra ao demónio e não é devido a isso que é grande literatura. São apenas uma cópia manhosa (e com um certo exagero estilístico) do Som e a Fúria de Faulkner! acho que não é tão difícil ver isso, ou é? Ás vezes questiono-me se sou eu que vejo coisas onde elas não existem.
(...)
Existem outras coisas das quais eu não gosto. Por exemplo: não gosto da música rock convertida em jazz ou bossa-nova. Ainda o outro dia ouvi Smells Like Teen Spirit - que é uma música dos Nirvana, cujo título foi inspirado num desodorizante muito popular chamado Teen Spirit - em versão jazz e nem consigo descrever o arrepio que senti na espinha ao ouvir tal coisa. 
(...)
Querem um exemplo: Céline. Mais directo que ele conheço poucos escritores. Talvez um outro: Bukowski. Este é mesmo muito, muito directo. Tão directo que quase ninguém o entende. Tão directo que é bastante ignorado, pois a chamada "crítica" só considera realmente literário aquilo que é praticamente incompreensível. Exemplo: Finnegans Wake. Não me espantava nada que o início do livro fosse utilizado em exorcismos. Porra, aquilo afasta qualquer demónio. 

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

2.

É sempre pacífico sentir Lisboa em transito para qualquer lado onde espairecer. Quando o faço, o lugar onde estou torna-se estranhamente tranquilo, como por magia. As pessoas que vejo são outras, diferentes, mais acessíveis, descontraídas. O oposto do dia a dia. Mais como o tipo de gente que se apanha em viagem. É como se de repente me tornasse viajante do meu próprio lugar. E reparo nos pormenores que o viajante repara. 

terça-feira, 13 de agosto de 2013

GUADALCANAL

A Batalha de Guadalcanal pode ter sido muito importante na Segunda Guerra, não duvido, só não se pode é comparar a outras bem mais sangrentas, aterradoras e destrutivas o suficiente para não ficar pedra sobre pedra, muito menos imagens e histórias para contar.
De Guadalcanal ficaram documentos, relatos, fotos, filmagens, livros de história e romances. Nestes o maior destaque vai para "The Thin Red Line" de James Jones que além de soldado também era escritor e fez do inferno de Guadalcanal a segunda parte da sua Trilogia da Segunda Guerra Mundial*. O escritor pôde transpor para livro muito do que aconteceu e vivênciou. Décadas depois surgiria daí uma obra-prima para a História do Cinema. 

Volto de quando em quando à barreira invisível de Terrence Malick. Não existe tal coisa como o melhor filme da vida, no entanto, por várias razões que não vêm ao caso, devo dizer que "The Thin Red Line" de Terrence Malick é o filme da minha vida. Vi-o mais de vinte vezes, apenas três em sala, digo apenas porque a primeira vez foi no ultimo dia de visionamento e querendo revê-lo só o consegui anos depois na cinemateca para onde voltei outra vez outros anos depois. Sinto-me pois auto-autorizado a dar crédito à minha visão destes trinta segundos de documentário**, qual 
flashback, três planos que são o lado real de muito do que vi naquelas vinte e tal vezes. Pensei "é isto, é mesmo isto!". Imagino que foi por imagens destas que Malick dava cabo dos actores com takes atrás de takes que os atiravam às cordas. 

Do mais, nunca encontrei batalha na Segunda Guerra Mundial com o mesmo peso de metáfora, de capacidade de resumir tudo numa imagem, uma imagem que consiga contar uma história, uma imagem que encerrada de tal forma em sua redoma, consiga fechar o seu próprio círculo. Do que se vê, mais do que se sabe, Guadalcanal é o rosto daquele soldado a tal ponto desesperado que, no limite, pode chegar ao auto-desvanecimento - já não saber bem onde está, do porquê de estar ali, de lhe restar apenas o absurdo. É onde fica a barreira invisível, naquela estranha atmosfera hostil,  infestada de insectos, répteis, vírus, charcos, selva, canaviais. Onde o próprio tempo pode ser um inimigo maior que o inimigo que nos combate, quando tudo de dissipa como a luz num Buraco Negro.  

Lembro a reacção pouco entusiástica de um amigo meu na altura. A minha surpresa vinha mais de ele ter bom gosto cinéfilo e gostar de alguns grandíssimos filmes e cineastas. Mas adiante. Justificava ele o cepticismo, que "as coisas não se podem pôr assim desta maneira". Foi objectivo, talvez porque os japoneses estavam do lado errado da barricada. Não via o óbvio mesmo à frente do nariz. Por exemplo que se tratava de uma reflexão sobre a guerra, mais que um filme de guerra, que Guadalcanal era tão só o perfeito "ponto de cozedura". 
Tenho para mim que Terrence Malick não poderia fazer uma obra assim sobre o Vietname ou qualquer outra das guerras injustas. Onde é que encontraria aí o ponto? Onde ilustraria melhor a solidão do soldado moderno tão cara ao autor do livro? Onde é que melhor poderia encontrar a linha ténue, a barreira invisível? 

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* - "From Here To Eternity" sobre a vida na tropa, Pearl Harbour, o soldado Prewitt (o Witt de Malick, o espantoso Jim Caviezel) e a sua recusa em juntar-se à armada. "Thin Red Line". "Whistle" sobre o regresso, a convalescença e as marcas da guerra. 

** - A partir dos 36:48, a sequência e as imagens.

                  

1.

Três da manhã, num site os jornais dão as capas do dia. Todos já actualizaram menos um desportivo. Já não haverá novidade nenhuma quando de manhã passar pelo quiosque habitual. Agora nem as capas dos jornais podem esperar. Quando nem um café abriu e o edifício de escritórios em frente não se distingue do escuro da noite. Sem luz, sombra ou contorno que se vejam é como se nem existisse. Parece a Matéria Negra do Universo, não se pode ver mas detecta-se pela força da gravidade. Aqui há meses, via ali luzes acesas em pelo menos três pisos. Falo de um desses bancos onde há marosca. Hoje tudo parece calmo. 

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Tudo parecia rimar


Embarcar para França no Chicago no princípio de Junho foi como ter de deixar bruscamente um livro que andasse a ler e não tivesse terminado. Ned e a mãe e Mr. Cooper e a senhora letrada consideravelmente mais velha que ele com quem tinha dormido várias vezes muito desconfortavelmente no apartamento de dois pisos que ela tinha em Central Park South, e a sua poesia e os seus amigos pacifistas e as luzes da Marginal tremulamentte reflectidas no rio Charles esbatiam-se no seu espírito como parágrafos de um romance posto de parte sem acabar de ler. Ia um pouco enjoado e um pouco assustado com o barco e a multidão alcoolizada e barulhenta e as lúgubres mulheres da Cruz Vermelha a arrepiarem-se umas às outras com histórias de bebés belgas a assarem no espeto e de oficiais canadianos crucificados e de freiras idosas violadas; sentia a espiral de tensão de um relógio com a corda excessivamente enrolada de tanto imaginar como seriam as coisas por lá.
Bordéus, o rubro Garona, as ruas pastel de casas velhas e altas como telhados de mansarda, o sol e a sombra tão delicadamente azuis e amarelos, os nomes das estações todos tirados de Shakespeare, os romances de capa amarela nas estantes, as garrafas de vinho nas buvettes eram diferentes de tudo o que imaginara. Todo o caminho até Paris os campos vagamente verde-azuis se polvilhavam de escarlates papoilas como os primeiros versos de um poema; o pequeno comboio avançava sacudido em dáctilos; tudo parecia rimar. 


John Dos Passos, 1919, Editorial Presença, tradução João Martins, 2010

Pacific Ocean Blue




Diz-se que Dennis Wilson tinha as ideias no mar, navegando pelo iate, seguia depois para estúdio. Que nesse vai-vem passou boa parte dos anos 70. Presumo que gostava de espaços transitórios.  Também o amor aos carros e às estradas devia vir daí. Monte Hellman fez bem em escolhê-lo para "Two Lane Blacktop". 
Bem que Dennis Wilson podia ter continuado assim: no mar, na estrada e no estúdio - espaços de todos os espaços, lugares de partidas e chegadas. Mas, coisas da vidinha, os Beach Boys - falidos ou com ganas de ganhar uma pipa - venderam o tal estúdio à beira do mar. Perdido o farol ou ponto de orientação, coincidência ou não, o barco acabou também vendido. O álcool ajudava a tontura. Contaria também a ressaca de uma turbulenta relação de amor ódio com a actriz Karen Lamm resumida legalmente em dois casamentos e dois divórcios e artisticamente num extraordinário album a solo e num outro inacabado. 
Sabemos também dos fantasmas vindos de um violento pai tirânicoDennis Wilson foi amiúde espancado, fisicamente era o mais mal tratado; Brian Wilson, o mais abusado psicologicamente e humilhado publicamente. Este caiu depois na depressão, delírio e megalomania. Dennis foi o álcool. O precipício já teria começado com o impensável despedimento dos Beach Boys, a decadência seguiu-se em hotéis baratos defronte a bares ia gastar a vida. Era visto na mesma praia onde domara ondas nos dias em que as pranchas eram autênticas tábuas de long board
Também passava os dias na marina onde antes atracara o barco. Os amigos  lá lhe iam aparando os golpes, talvez salvando a vida. Situação típica a que quanto mais nos habituamos, menos acreditamos em "mudanças". É quando o abismo se torna trivial, quotidiano, diário. E as constantes más surpresas não são surpresa nenhuma. Dennis Wilson andava como andava, a beber desde manhã, num devaneio decidiu mergulhar para apanhar umas coisas que tinha atirado do iate três anos antes. Correu mal. Ao menos ficam as memórias

domingo, 28 de julho de 2013

William Carvalho


Sou dos que ontem ficaram maravilhados com o show de William Carvalho. Fui ver melhor quem era. Campeão de juniores - o que para o Sporting não é nada; uma época na segunda divisão, emprestado ao Fátima; uma época na primeira divisão belga, no Cercle Brugge. Acabava contrato este ano, o clube belga queria-o mais um, Leonardo Jardim viu-o jogar e terá dito nem pensar, primeira equipa já. Assim foi de estágio para o Canadá, fez grande golo ao Peñarol, renovou contrato, com a Real Sociedad foi o que se viu. Tudo isto ainda mal começou. 
Já que estamos de coincidências, horas antes do jogo uma sugestão do You Tube não podia ser recusada: um resumo de imagens do grande Douglas, o melhor médio defensivo que alguma vez vi jogar. Claro que sua super-técnica era outra. Nem pouco mais ou menos o nosso William chega lá. Não interessa. Falamos de trincos, não falamos? William Carvalho é bem mais possante que o mineirão. Há quem lembre Patrick Vieira, mas mesmo esse não me parece nada, visto bem, nem sequer se assemelham. Suspeito mesmo que William Carvalho (já) só se pareça com William Carvalho. Um dia espero conseguir explicar porquê. 

J.J. Cale (1938-2013)




Foi com ele que entrei por aqui adentro. Dessa madrugada é só mesmo o que recordo. Não procuramos o que nos encontra. E entre "Troubadour" e o músico o Universo é extenso. Com canções como estaesta ou esta.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

De casa para dentro não se entra

Conquistou o tempo para construir o seu trabalho?
Sim, com muitas defesas. Isso obriga-me a ser muito anti-social num certo sentido. Não sinto obrigação de responder aos e-mails, ao telemóvel. Não acho que se deva ceder a uma das maiores pragas do mundo contemporâneo que é obrigar as pessoas, por vias tecnológicas, a estarem sempre presentes. Se eu quiser escrever ou ler, tenho de escapar dessa presença. Muitas vezes paga o justo pelo pecador. 
()
Basta haver uma deriva autoritária para não ser preciso nenhum big brother, está tudo feito.
As séries de televisão banalizam isso, como se fosse normal...
Mas não é normal. E infelizmente ainda se vai agravar porque os mais novos utilizam as tecnologias para se controlarem uns aos outros. O telemóvel é um instrumento de controlo. Namorados e namoradas, pais e mães. Não é para fazer telefonemas. O número de telefonemas que uma pessoa faz num dia com o objectivo de comunicar alguma coisa, para dar uma informação, é pequeníssimo em relação aos telefonemas que começam pela sacrossanta pergunta «onde é que estás».
Na internet, no Facebook, aceitam expor-se, diminuir a sua privacidade. Elas próprias estão a perder uma cultura que demorou muito tempo a criar à civilização burguesa, a cultura da intimidade, da privacidade, a cultura do «de casa para dentro não se entra».

José Pacheco Pereira, Ler, Julho|Agosto

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Amigo de Eddie Coyle



Meia folha de folha de rascunho A5, eis o meu marcador acidental para “The Friends of Eddie Coyle” de George V. Higgins. Com a mania de encher os livros do carvão do lápis em sublinhados e notas laterais, achei ali uma boa oportunidade. O livro em si é daqueles que limitado no género*, ainda é para muitos expoente máximo inultrapassável. Novela seminal, choque frontal com tudo o que até 1970 se tinha escrito sobre o mundo do crime, "The Friends of Eddie Coyle" fez-se existir criando novas regras, separando as águas entre um antes e um depois, decretando novos parâmetros, um novo jogo no seu género. 
Cercado de diálogo(s), páginas e páginas inteiras de conversa atrás de conversa, ora em esgrima verbal, ora na descrição enfática e idiossincrática que cada personagem dá à sua versão da realidade, que nada mais é do que sua carta(da) jogada da forma e na hora certa ou incerta. Orientado ou desorientado o leitor - os dois sentidos são aqui simultaneamente possíveis - directo ao cerne dessa unidade que é a cena, tão dentro ao âmago da acção que por vezes se torna vertigem, ignorando se sabemos ou não onde estamos, o que é sua intenção, quiçá exacta, de nos dar a visão crua, o mais imediata possível da acção, obrigando-nos a que nos orientemos o melhor possível nela, que é o que fazem aqueles enigmáticos personagens que nos surgem como completos desconhecidos e apenas podemos ver e avaliar pelo que fazem. É bem real pois esse mútuo jogo da cabra cega, como poderemos comprovar findada a leitura das 182 páginas desta curta novela. Em sua estrutura o efeito joga-se na síntese, secura e eficácia da linguagem - nada ali a mais, o que é feito em grande estilo no puro gozo do linguajar de rua transposto em escrita sumarenta e dona dos seus terrenos, sabendo dessa forma muito bem apanhar-nos a jeito... 

Falei nos diálogos, são à vontade 90% da peça, personagens que falam pelos cotovelos, aparentemente incapazes de se calar, falariam até com uma cadeira, escreve Dennis Lehane na introdução. Ali o que se ouve mais é o calão e conversa de rua - slang. Ou os diferentes dialectos de etnia afro, irlandesa ou italianas - o patois. Trabalhados ao tutano, ao âmago, ao que podem dar de inebriante, como um bom licor, às vezes uma bela aguardente. Foneticamente atractivo, quase musical, com um ritmo e beat esmagadores, as falas de Eddie Coyle inauguraram uma época, o tal antes e depois pois como que encontraram a fonte de onde passou a estar sempre a jorrar água para um nunca mais acabar de canais usados e abusados em livros e no cinema desde o dia em que "The Friends of Eddie Coyle" veio ao mundo. Escritores do género, realizadores e argumentistas, as duas coisas, dramaturgos, demais escritores, leitores anónimos como eu, não acredito que quem tenha lido esta obra-prima não tenha extraído da fonte qualquer coisa. Elmore Leonard considera-o até hoje the best crime novel ever written, também ninguém como ele aproveitou o filão, inebriado de beat e sonoridade suficientes para desatarmos a ler em voz alta ou regressar um dia como àquela tal canção de um disco que gostamos. Sem "The Friends of Eddie Coyle", se calhar nunca conheceríamos um certo Quentin Tarantino (1). Ou o mesmo David Mamet. Ou a série "The Wire(2), pelo seu lado mais profundo e reflexivo, na moralidade para além do bem e do mal, ou na completa ausência de bullshit

Peço outra vez auxílio à excelente introdução de Dennis Lehane, outro auto-assumido devedor: 
«How can a slim book with minimal description and no heroes lay claim to the status of modern masterpiece? Let's start with the title, "The Friends of Eddie Coyle". Eddie Coyle has no friends. Eddie barely has acquaintances. Eddie Coyle is our hopeless, helpless, hopeless Everyman in the Boston criminal underworld of 1970. He might be the worst guide ever, because he is utterly out of his depth. Or. On second thought, maybe he's the best guide ever, because most of the people who swim in this sea are out of their depht.»
+
«Relying on his own experience as an assistant U.S. Attorney, Higgins pulls back the veneer on the real criminal underworld, not the romanticized version readers kept in their heads before "The Friends of Eddie Coyle" was published. There are no noble gangsters swept up in high tragedy in Higgins world and no righteous cops obsessed with justice.»

Só mais algumas notas, tiradas daquele simulacro de folha que já estará algures numa lixeira da zona de Lisboa.

Imaginação prática: cada palavra, cada frase com sua respiração e intencionalidade próprias / A acção é sempre o personagem, o personagem é sempre a acção. Na vida e na morte, no génio e na nabice / Directo à cena, quais capitulo, qual quê, como que a dizer "aguentem que eu trato do resto" / A impressão subjectiva dada de forma objectiva, a objectiva, não necessariamente / Nitidez máxima, até no nevoeiro se conseguem ver as finas formas do fumo / A ambiência não é gratuita, nem é logo dada ao inicio, vem do espaço mas também vem com o tempo: é unidade espaço/tempo / Gigantesco tabuleiro de jogo onde todos vendem cara a derrota, no fio da navalha, quando todos só podem ganhar, o jogo é estupendamente bom /A coragem de se ser rude, de ter força necessária no martelo de nada vale aqui se não combinada com o extremo virtuosismo, rigor e precisão, trabalhos de artista e de artesão.


* - os abrangentes crime novel e thriller servem; o português policial é uma palavra que, não sei...

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1 - “He didn't show up,” Foley said. “I sit there for about half an hour, and I have a cheese sandwich and a cup of cofee. Jesus, I forgot how bad a thing a cheese sandwick is to eat. It's just like eating a piece of linoleum, you know?”
“You got to put mayonnaise on it, “ Waters said. “It's never going to have any flavor at all unless you put some mayonnaise on the bread before you put the cheese on.” I never heard of that,” Foley said. You put it on the outside, do you?”
“Nah,” Waters said, “you put on the inside. You still put the butter on the outside and all. But when the cheese melts, there, it's the mayonnaise that gives it the flavor. You got to use real mayonnaise, though, the stuff with eggs in it. You can use that other stuff that most people use when they say they're using mayonaise, that salad dressing stuff, you can use it. But it isn't going to taste the same. I think that other stuff scalds or something. It doesn't taste right, anyway.”
“They don't go for those refinements up the Rexal's anyway,” Foley said. “What the hell, you go in there and order a cheese sandwich, they got a whole stack of them, already made up, problably since last Wednesday, and they take out one of them goddamed things, big fat piece of this orange cheese in it, and throw on some grease, they pretend it's butter but i sure don't believe that, and then they go and they fuse it all together with a hot press there. My stomach's still trying to break that thing down into something I can live on, just like a big piece, two big pieces, of bathroom tile with some mastic in between. Srved hot. I get sick, you're gonne have to give me a pension.”

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2  - “Good Christ,” Clark said, “you guys want to put the world in jail. This is a young kid. He doesn't have a record. He didn't try to hurt anybody. He's never been in court before in his life: he doesn't have a goddamned traffic ticket, for God's sake.”
“I know that,” the prosecutor said, “ I also know he was driving a car that cost four grand and he's twenty-seven years old and we can't find a place he ever worked. He's a nice, clean-cut gun dealer, is what he is, and if he wanted to, he could problably make half the hoods and forty per cent of the bikies in this district. But he doesn't want to do that. Okay, he's a stand-up guy. Stand-up guys do time.”
“So he's got to talk”, Clark said.
“Nope,” the prosecutor said, “he doesn't have to do a damned thing except decide which he want's to do more, talk, and make somebody important for us, or go down to Danbury there and get rehabilited.”
“That's a pretty tough choice to make,” Clarke said.
“He's a pretty though kid,” the prosecutor said. “Look, we don't need to stand here and play the waltz music. You know what you got: you got a mean kid. He's been lucky up to now; he's never been caught before. And you know what i got, too: i got him fat. You've talked to him. You saw him and you told him it was talk or take the fall, and he told you to go and fuck yourself, or something equally polite. So now you got to try the case, because he won't plead without a deal that put's him on the street and I don't make that kind of deal for machine gun salesmen that don't want to give me anything. So we try this one, and it'll take two days or so, and he'll get convicted. Then the boss'll tell me say three, or maybe five, and the judge'll give him two, or maybe three, and you'll appeal, maybe, and some time around Washinghton's Birthday he'll surrender to the marshall's and go down to Danbury for a while. Hell, he'll be out in a year, year and a half. It isn't as though he was up against a twenty-year minimum mandatory.”
“And in another year or so,” Clark said, “he'll be in again, here or somewhere else, and i'll be talking to some other bastard, or maybe even you again, and we'll try another one and he'll go away again,. Is there any end for this shit? Does anything ever change in this racket?”
“Hey Foss,” the prosecutor said, taking Clark by the arm, “of course ir changes. Don't take it so hard. Some of us die, the rest of us get older, new guys come along, old guys disappear. It changes every day.”
“It's hard to notice, though,” Clark said.“ It is,” the prosecutor said, “it certainly is.”

sexta-feira, 12 de julho de 2013

O Grande Culpado

Era imensa a treta do consenso à volta do desGoverno no início do mandato. Também não era mentira nenhuma. Pedro Passos Coelho tinha tudo menos os partidos mais à esquerda que tinham acabado de dar um jeitão no assalto ao poder. Durou pouco, muito pouco, que o programa da troika é o programa do governo e queremos ir além da troika, emigrem, o desemprego é uma oportunidade, há que sair da zona de conforto, não sejam piegas, entre tanto e tanto mais.  

Mudemos a agulha, seguiram-se os partidos, acima de todos o PS. Depois a própria Constituição: dois anos, dois orçamentos anti-constitucionais, cada cavadela, cada minhoca. Os sindicatos, as associações patronais. Os alvos a abater: reformados, pensionistas e funcionários públicos. O Tribunal Constitucional. Tanto comentador, analista ou tudólogo e este governo era apenas incompetente, irracional, incoerente. O mais óbvio, cristalino e verdadeiro adjectivo é que nunca foi usado, também não o vou usar aqui, a incompetência defende-o bem, é que mesmo para isso são precisas mãozinhas... 

Fiquemos pelo rufia político - que se fez com Relvas, mas não só - o perfeito imbecil - aquele que acha que por esticar a corda esta deixa de se partir. A verdade é que parte, parte mesmo. 

terça-feira, 9 de julho de 2013

...

O Escrever disse à Vida que precisava um pouco de paz de espírito, baixar o volume, mais silêncio. A Vida não respondeu, o som até aumentou. O Escrever não gostou, baixou o volume à Vida, bastante, tanto ao ponto de a quase deixar de ouvir. Levantou a voz, disse, o tumulto agora vem daqui, sou eu que o decreto, tenho escrito. A Vida não respondeu, nunca responde. 

Pregão da Tarde

Na praia um dia esplêndido, épico. Eu lia na areia, ou apanhava sol, não me lembro, sei que às tantas me ergui da toalha para ver o mar e dei de costas com alguém que parecia mesmo tu. Olha ela, pensei. Veio-me cair aqui hoje por milagre, só pode. Pormenor de requinte, ias à água com os elegantes óculos escuros - cheios de charme e estilo - postos. Nadavas sem molhar a cabeça. Quando voltavas foste directamente para a toalha e o que é que te puseste a fazer? Ora adivinha, a ler um livro. Trazias contigo duas pessoas, uma ela e um ele, os dois com um certo ar de centro ou norte da Europa, podiam ser holandeses, belgas, dinamarqueses, alemães... 
O tempo entretanto a passar, eu entre o extremo lúdico de um Elmore Leonard e o grave de um Miguel de Unamuno; o mar que refresca e o sol que preguiça; ia não ia, falava não falava, olhava não olhava. Entre tanto piraste-te com a amiga, julguei que tinhas ido para aquela esplanada de madeira suspensa onde se celebra o oceano com a bebida mais refrescante que conheço. Quase às sete da tarde passaríamos a uns dois metros um do outro. Tivesse sido real. Virtual também não era. 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Tábuas Rasas


Olho o copo de vinho meio cheio sobre a mesa. Aprecio a luz do sol pelo estore dando linhas ao vidro da janela. Na mesa ainda o prato, pão, talheres, vinho, oregãos, tabasco, migalhas, telecomando. O silêncio à espera de ser levantado. 

Na medida em que se enreda, vai revelando seu enredo. No processo, interminável, tudo se acabará por enredar. Descoberto, é a própria descoberta. 

Fraquezas que na solidão são de uma maneira são as mesmas que nos seus mais diversos ambientes se formam completamente distintas. Tanto que nem se distinguem.

Apocalipse Segunda Guerra




Há sempre uma altura para ver, ouvir, ou ler qualquer obra. Há uns anos, quando estreou a tão badalada "Apocalipse Segunda Guerra Mundial" - série da France Television que teve o destaque bastante, ia ter imagens nunca vistas, cinquenta por cento documentos inéditos, etc e tal – eu ainda vi o primeiro episódio e gostei, mas não lembro porquê, acabei por faltar ao resto. Também não faço a mínima porque vi tudo agora. Não interessa. Antes assim, em catadupa, não fosse toda a série mostrada como uma longuíssima sequência, ponta a ponta, como se uma determinada noite da minha vida estivesse reservada para isso - portátil ligado, auscultadores nos ouvidos, ver para crer, voltar atrás, parar se necessário. Sentida a vertigem, perdoem o cliché, passei a dividir tudo o que vi e li até agora sobre a Segunda Guerra Mundial de um lado, e do outro esta série magistral. Que se dane se não estou a ser justo ou "objectivo". 

Apetece-me começar pelo som, com pujante banda sonora do japonês Kenji Kawai em simultâneo com o som directo ou a leitura feita das imagens em movimento. Seu poder de encaixe com a narração não vem apenas da interpretação sonora da mais sangrenta das guerras, joga também com os sons característicos, ou se quiserem, género de trilhos sonoros*, que nos sabem ilustrar o perigo, o terror nazi, a febre do combate, as vidas (ainda) intactas, as partidas, fugas e abandonos, depois Moscovo, o Pacífico, Mac Arthur, Hiroshima...cada episódio a desaguar no tema final do genérico que serve de imagem ou cartão de visita da série; ali não podia deixar de estar a piscadela de olho ao mestre Ennio Morricone. Oiçam e não se enganem. 

Dito isto, "Apocalipse Segunda Guerra" tem outros valiosos atributos muito além do trabalho exaustivo de investigação e recolha de tudo o que se pudesse meter mão. Já falei na banda sonora, ainda não falei da montagem febril que nos mantém numa sensação de constante suspense que pelo menos a mim me deixou mais de cinco horas a seguir uma história que sabia como iria acabar. Muito ajudam as inúmeras imagens que nunca tinham visto a luz da humanidade, gente anónima, outro jacktpot da série - tocar o particular, as histórias para além da História, as histórias esmagadas pela História. Por exemplo a da menina inglesa que contava dos bombardeamentos filtrado pela explicação dos pais que pelos vistos gostavam de filmar em Super-8. Em outros exemplos nós apenas presumimos que....O efeito, conseguido, é aproximar das distancias, temporais e humanas, ver como podíamos sofrer o mesmo, marcados e sem redenção possível. Marionetas de um teatro fantasmagórico que hoje em dia parece, mesmo que muito ténue e timidamente, ganhar forma nesta Europa de governantes tomados de desfaçatez, ignorância e estupidez militante. Não foi assim à tanto tempo. Na nossa Europa, na velha Europa. Onde as marionetas são gente de carne e osso. Têm rostos, alguns bonitos, como a moça que comecei a ver num genérico final e que mais tarde vim a descobrir que era uma ucraniana, quiçá cortejada por um oficial nazi num momento em que em sua casa se davam chá e bolinhos aos "libertadores" do jugo estalinista, pelo que não se tardou a ver, não lhes valeu de nada. O que está mau pode sempre ficar muito pior. 


* - A mim fez-me lembrar Ennio Morricone nos western spaghetti de Sérgio Leone.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Lembrar Alto


Por vários motivos a morte de Ray Manzarek pôs-me a máquina da memória a funcionar. Claro que no tempo em que ouvi os The Doors pela primeira vez não havia internet, muito menos You Tube, até os CD’s eram novidade. Menos mal, "bebíamos" os álbuns desde as capas até ao impagável som analógico do LP sob a agulha do gira-discos. 
       Nem a cinco minutos de casa havia uma loja de discos  - onde agora se não me engano é uma Multi Ópticas. Não me sei se gastei tudo o que tinha, mas lembro que se destacavam todos os LP's dos Doors, incluindo o pós-Morrison. Pouco antes, um colega mais velho da escola conhecido como Nuno "Morrison" pusera-me a ouvir a banda, coisa pouca ainda, nem sequer um apanhado para ter ideias discográficas mas suficiente para ter definido um padrão: o Jim Morrison eram os The Doors e os The Doors eram o Jim Morrison... Ponto assente e decisivo para andar por ali ás voltas indeciso entre os seis discos que havia de levar até que fui pela capa no primeiro, o homónimo, e pelo o outro ao calhas, o “Waiting For The Sun”. 
Esta é daquelas boas “geometrias da vida" que não sei se é obra do acaso ou do nada por acaso. A mesma que me levou a acabar de ler o “Viagem Ao Fim da Noite” aos primeiros raios de luz do dia. Penso nisso agora porque a primeira vez que desci a agulha ao prato num disco dos Doors, zás:“Break On Through (To the Other Side)”. Depois, os discos todos, comprados ou gravados em cassete a que se seguiram os CD's; mais a biografia de Jim Morrison da Assírio e Alvim “Daqui Ninguém Sai Vivo” e depois os poemas e os bónus de influências de Rimbaud a Nietzsche à Viagem do Céline...
Do que se pode chamar pós-The Doors a conversa vai por outro atalho. Primeiro, pela pouca curiosidade que me tomou. Depois porque Manzarek/Krieger/Densmore decidiram retirar os álbuns da discografia oficial. Depois pelo leve trago a traiçãozinha*...
Dito isto, acabei esta semana por ouvir no You Tube tudo o que havia de “Other Voices” e “Full Circle”. Nunca tal me ocorrera e, com a devida vénia, confesso que foi devido ao Facebook de Henrique Fialho, que postando "The Peking King and The New York Queen" me pôs a pensar: espera láIsto não é nada mau. Pensar quando “folheei” aqueles LP’s que os descobriria desta maneira seria transformar em realidade pura ficção cientifica. E das capas dos discos, do “Full Circle” nem ideia, a do “Other Voices” tinha-a definida na minha cabeça. Ao que vem o ter começado a escrever o post: algo que li não me recordo onde sobre a fraqueza da memória, impossibilitada que está de recordar na exactidão o acontecimento, embotada que está por toda nossa subjectividade. Pois na minha capa-memória do "Other Voices", Ray Manzarek está tão maior e mais alto que Krieger e Densmore que era só dele que lembrava. Na verdadeira,  enfim...


* - Casos há em que a única solução possível é a que levou à criação dos New Order.

PS: este post estava para ser publicado à uns cinco, seis dias... Não digo fora de validade, mas inaugurar com isto as catacumbas do draft até que era
 uma ideia. 

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Botão na Pausa


E reparas, o entrevistador, assertivo e competente, tem nos olhos bem vincada impaciência. Do partido do chefe, contrário ao do pai, mas diria igual na aderência clubistica e facciosismo elementar, ora ao ataque, ora à defesa do argumento que melhor serve a dialéctica do jogo. Na oposição em cima deles, no poder a fazer pressão alta e a tentar não dar espaços. Joga pela direitola, o pai esse vai pelo centrão e também não aprecia a esquerdalha, a quem não reconhece qualquer tipo de saber táctico.

O entrevistado está para o chateado, há nele a leve neura, o humor mal amanhado. A persuasão e ênfase habituais continuam porém intactos. Profissional e muito bem preparado, no tom da voz apanha o enfado para no olhar usar a gana imensa de chamar ignorante ao entrevistador. Verdade é que já lá vão uns anos fora dos corredores. Deve embirrar com travessias do deserto. É daqueles que imaginamos infelizes longe dos holofotes. Vendo melhor até me parece de ressaca. 

terça-feira, 21 de maio de 2013

Ray Manzarek (1939-2013)


Para o panteão bastava o solo de Light My Fire mas When The Music's Over, Soul Kitchen, Riders On The Storm, LA Woman, Love Me Two Times, The Christal Ship, Shaman's Blues, Strange Days, People Are Strange, The End, The Soft Parade,  The Changeling, Break On Through to the Other Side, entre quantas mais, chega e sobra para a imortalidade. Mas Ray Manzarek ainda se arranjava para ao piano tocar aquele baixo de assombro, combinando com John Densmore uma secção rítmica de respeito. Palavras de Densmore, ontem:

domingo, 19 de maio de 2013

Coisos


- Escrever sobre alguma coisa é o que é preciso. Alguma coisa é alguma coisa. Alguma coisa o pedalar numa bicicleta, coisa nenhuma o deixar cair, parar, de pedalar. 

 - Fingir-me enganar, dar vantagem à mentira, deixá-la pousar, sentar na mesa. Fazer de surdo, como recomendava Nietzsche, é tão infalível como esticar à luz uma nota.  

 - Não tem de ser mau dar muito mais que receber, é bom. Nem receber muito menos que dar. Chato mesmo é não saber dar sem não querer nada em troca. 

-  A delicadeza que desmarca teu terreno pode ser a indelicadeza que outro usa para o tomar. 

- Não levar a sério para poder levar a sério. Largar peso para poder carregar mais.