terça-feira, 9 de julho de 2013

Pregão da Tarde

Na praia um dia esplêndido, épico. Eu lia na areia, ou apanhava sol, não me lembro, sei que às tantas me ergui da toalha para ver o mar e dei de costas com alguém que parecia mesmo tu. Olha ela, pensei. Veio-me cair aqui hoje por milagre, só pode. Pormenor de requinte, ias à água com os elegantes óculos escuros - cheios de charme e estilo - postos. Nadavas sem molhar a cabeça. Quando voltavas foste directamente para a toalha e o que é que te puseste a fazer? Ora adivinha, a ler um livro. Trazias contigo duas pessoas, uma ela e um ele, os dois com um certo ar de centro ou norte da Europa, podiam ser holandeses, belgas, dinamarqueses, alemães... 
O tempo entretanto a passar, eu entre o extremo lúdico de um Elmore Leonard e o grave de um Miguel de Unamuno; o mar que refresca e o sol que preguiça; ia não ia, falava não falava, olhava não olhava. Entre tanto piraste-te com a amiga, julguei que tinhas ido para aquela esplanada de madeira suspensa onde se celebra o oceano com a bebida mais refrescante que conheço. Quase às sete da tarde passaríamos a uns dois metros um do outro. Tivesse sido real. Virtual também não era. 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Tábuas Rasas


Olho o copo de vinho meio cheio sobre a mesa. Aprecio a luz do sol pelo estore dando linhas ao vidro da janela. Na mesa ainda o prato, pão, talheres, vinho, oregãos, tabasco, migalhas, telecomando. O silêncio à espera de ser levantado. 

Na medida em que se enreda, vai revelando seu enredo. No processo, interminável, tudo se acabará por enredar. Descoberto, é a própria descoberta. 

Fraquezas que na solidão são de uma maneira são as mesmas que nos seus mais diversos ambientes se formam completamente distintas. Tanto que nem se distinguem.

Apocalipse Segunda Guerra




Há sempre uma altura para ver, ouvir, ou ler qualquer obra. Há uns anos, quando estreou a tão badalada "Apocalipse Segunda Guerra Mundial" - série da France Television que teve o destaque bastante, ia ter imagens nunca vistas, cinquenta por cento documentos inéditos, etc e tal – eu ainda vi o primeiro episódio e gostei, mas não lembro porquê, acabei por faltar ao resto. Também não faço a mínima porque vi tudo agora. Não interessa. Antes assim, em catadupa, não fosse toda a série mostrada como uma longuíssima sequência, ponta a ponta, como se uma determinada noite da minha vida estivesse reservada para isso - portátil ligado, auscultadores nos ouvidos, ver para crer, voltar atrás, parar se necessário. Sentida a vertigem, perdoem o cliché, passei a dividir tudo o que vi e li até agora sobre a Segunda Guerra Mundial de um lado, e do outro esta série magistral. Que se dane se não estou a ser justo ou "objectivo". 

Apetece-me começar pelo som, com pujante banda sonora do japonês Kenji Kawai em simultâneo com o som directo ou a leitura feita das imagens em movimento. Seu poder de encaixe com a narração não vem apenas da interpretação sonora da mais sangrenta das guerras, joga também com os sons característicos, ou se quiserem, género de trilhos sonoros*, que nos sabem ilustrar o perigo, o terror nazi, a febre do combate, as vidas (ainda) intactas, as partidas, fugas e abandonos, depois Moscovo, o Pacífico, Mac Arthur, Hiroshima...cada episódio a desaguar no tema final do genérico que serve de imagem ou cartão de visita da série; ali não podia deixar de estar a piscadela de olho ao mestre Ennio Morricone. Oiçam e não se enganem. 

Dito isto, "Apocalipse Segunda Guerra" tem outros valiosos atributos muito além do trabalho exaustivo de investigação e recolha de tudo o que se pudesse meter mão. Já falei na banda sonora, ainda não falei da montagem febril que nos mantém numa sensação de constante suspense que pelo menos a mim me deixou mais de cinco horas a seguir uma história que sabia como iria acabar. Muito ajudam as inúmeras imagens que nunca tinham visto a luz da humanidade, gente anónima, outro jacktpot da série - tocar o particular, as histórias para além da História, as histórias esmagadas pela História. Por exemplo a da menina inglesa que contava dos bombardeamentos filtrado pela explicação dos pais que pelos vistos gostavam de filmar em Super-8. Em outros exemplos nós apenas presumimos que....O efeito, conseguido, é aproximar das distancias, temporais e humanas, ver como podíamos sofrer o mesmo, marcados e sem redenção possível. Marionetas de um teatro fantasmagórico que hoje em dia parece, mesmo que muito ténue e timidamente, ganhar forma nesta Europa de governantes tomados de desfaçatez, ignorância e estupidez militante. Não foi assim à tanto tempo. Na nossa Europa, na velha Europa. Onde as marionetas são gente de carne e osso. Têm rostos, alguns bonitos, como a moça que comecei a ver num genérico final e que mais tarde vim a descobrir que era uma ucraniana, quiçá cortejada por um oficial nazi num momento em que em sua casa se davam chá e bolinhos aos "libertadores" do jugo estalinista, pelo que não se tardou a ver, não lhes valeu de nada. O que está mau pode sempre ficar muito pior. 


* - A mim fez-me lembrar Ennio Morricone nos western spaghetti de Sérgio Leone.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Lembrar Alto


Por vários motivos a morte de Ray Manzarek pôs-me a máquina da memória a funcionar. Claro que no tempo em que ouvi os The Doors pela primeira vez não havia internet, muito menos You Tube, até os CD’s eram novidade. Menos mal, "bebíamos" os álbuns desde as capas até ao impagável som analógico do LP sob a agulha do gira-discos. 
       Nem a cinco minutos de casa havia uma loja de discos  - onde agora se não me engano é uma Multi Ópticas. Não me sei se gastei tudo o que tinha, mas lembro que se destacavam todos os LP's dos Doors, incluindo o pós-Morrison. Pouco antes, um colega mais velho da escola conhecido como Nuno "Morrison" pusera-me a ouvir a banda, coisa pouca ainda, nem sequer um apanhado para ter ideias discográficas mas suficiente para ter definido um padrão: o Jim Morrison eram os The Doors e os The Doors eram o Jim Morrison... Ponto assente e decisivo para andar por ali ás voltas indeciso entre os seis discos que havia de levar até que fui pela capa no primeiro, o homónimo, e pelo o outro ao calhas, o “Waiting For The Sun”. 
Esta é daquelas boas “geometrias da vida" que não sei se é obra do acaso ou do nada por acaso. A mesma que me levou a acabar de ler o “Viagem Ao Fim da Noite” aos primeiros raios de luz do dia. Penso nisso agora porque a primeira vez que desci a agulha ao prato num disco dos Doors, zás:“Break On Through (To the Other Side)”. Depois, os discos todos, comprados ou gravados em cassete a que se seguiram os CD's; mais a biografia de Jim Morrison da Assírio e Alvim “Daqui Ninguém Sai Vivo” e depois os poemas e os bónus de influências de Rimbaud a Nietzsche à Viagem do Céline...
Do que se pode chamar pós-The Doors a conversa vai por outro atalho. Primeiro, pela pouca curiosidade que me tomou. Depois porque Manzarek/Krieger/Densmore decidiram retirar os álbuns da discografia oficial. Depois pelo leve trago a traiçãozinha*...
Dito isto, acabei esta semana por ouvir no You Tube tudo o que havia de “Other Voices” e “Full Circle”. Nunca tal me ocorrera e, com a devida vénia, confesso que foi devido ao Facebook de Henrique Fialho, que postando "The Peking King and The New York Queen" me pôs a pensar: espera láIsto não é nada mau. Pensar quando “folheei” aqueles LP’s que os descobriria desta maneira seria transformar em realidade pura ficção cientifica. E das capas dos discos, do “Full Circle” nem ideia, a do “Other Voices” tinha-a definida na minha cabeça. Ao que vem o ter começado a escrever o post: algo que li não me recordo onde sobre a fraqueza da memória, impossibilitada que está de recordar na exactidão o acontecimento, embotada que está por toda nossa subjectividade. Pois na minha capa-memória do "Other Voices", Ray Manzarek está tão maior e mais alto que Krieger e Densmore que era só dele que lembrava. Na verdadeira,  enfim...


* - Casos há em que a única solução possível é a que levou à criação dos New Order.

PS: este post estava para ser publicado à uns cinco, seis dias... Não digo fora de validade, mas inaugurar com isto as catacumbas do draft até que era
 uma ideia. 

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Botão na Pausa


E reparas, o entrevistador, assertivo e competente, tem nos olhos bem vincada impaciência. Do partido do chefe, contrário ao do pai, mas diria igual na aderência clubistica e facciosismo elementar, ora ao ataque, ora à defesa do argumento que melhor serve a dialéctica do jogo. Na oposição em cima deles, no poder a fazer pressão alta e a tentar não dar espaços. Joga pela direitola, o pai esse vai pelo centrão e também não aprecia a esquerdalha, a quem não reconhece qualquer tipo de saber táctico.

O entrevistado está para o chateado, há nele a leve neura, o humor mal amanhado. A persuasão e ênfase habituais continuam porém intactos. Profissional e muito bem preparado, no tom da voz apanha o enfado para no olhar usar a gana imensa de chamar ignorante ao entrevistador. Verdade é que já lá vão uns anos fora dos corredores. Deve embirrar com travessias do deserto. É daqueles que imaginamos infelizes longe dos holofotes. Vendo melhor até me parece de ressaca. 

terça-feira, 21 de maio de 2013

Ray Manzarek (1939-2013)


Para o panteão bastava o solo de Light My Fire mas When The Music's Over, Soul Kitchen, Riders On The Storm, LA Woman, Love Me Two Times, The Christal Ship, Shaman's Blues, Strange Days, People Are Strange, The End, The Soft Parade,  The Changeling, Break On Through to the Other Side, entre quantas mais, chega e sobra para a imortalidade. Mas Ray Manzarek ainda se arranjava para ao piano tocar aquele baixo de assombro, combinando com John Densmore uma secção rítmica de respeito. Palavras de Densmore, ontem:

domingo, 19 de maio de 2013

Coisos


- Escrever sobre alguma coisa é o que é preciso. Alguma coisa é alguma coisa. Alguma coisa o pedalar numa bicicleta, coisa nenhuma o deixar cair, parar, de pedalar. 

 - Fingir-me enganar, dar vantagem à mentira, deixá-la pousar, sentar na mesa. Fazer de surdo, como recomendava Nietzsche, é tão infalível como esticar à luz uma nota.  

 - Não tem de ser mau dar muito mais que receber, é bom. Nem receber muito menos que dar. Chato mesmo é não saber dar sem não querer nada em troca. 

-  A delicadeza que desmarca teu terreno pode ser a indelicadeza que outro usa para o tomar. 

- Não levar a sério para poder levar a sério. Largar peso para poder carregar mais.  

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Medicina


Quando o desequilíbrio, como o nosso, é devido a uma situação estrutural do próprio tecido produtivo, a gente pode fazer os sacrifícios financeiros que quiser que os problemas vão continuar lá. E os sacrifícios não vão servir para nada. Foi esse o grande erro da Comissão Europeia, que tinha a responsabilidade de conhecer a situação. Costumo dar este exemplo: se os Estados Unidos tivessem encarado a situação na Europa após a Segunda Guerra Mundial como a Comissão Europeia encara esta crise, ainda hoje a Europa estava destruída.  
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A questão fundamental é que a Alemanha ganhou um poder que não tinha com o Tratado de Maastricht e quer uma Europa à sua medida, o que significa ter uma moeda forte. Se os países do Sul não aguentam, pior para eles. E vai-se-lhes dando umas migalhas para eles não saírem, mas isso não é sustentável.
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O grande drama vai ser quando as pessoas se aperceberem de que, feitos os sacrifícios todos, não estamos melhor. Um dos momentos que tornarão visível a situação vai ser voltarmos aos mercados. Depois do regresso triunfante aos mercados teremos no dia seguinte mais austeridade em cima. E quando as pessoas se aperceberem de que todos os sacrifícios pedidos foram em vão vai haver um tumulto sério no país. Será provavelmente o fim desta política. Não sei o que virá depois.
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Nós podemos financiar-nos a juros mais baixos, mas isso dá apenas a sustentação na agonia porque continuamos a aumentar o desemprego e a recessão. O problema é que o país não tem sustentação demográfica assim: se saem 110 mil jovens por ano, como o ano passado, ao fim de uma década são um milhão e tal – e como é que o país vai aguentar, com o envelhecimento que tem à partida, esta autêntica sangria? Não vai. Nos anos 60 saiu um milhão e tal de pessoas activas, mas o país era jovem, a estrutura demográfica não tinha nada a ver com a que temos hoje. A sustentabilidade demográfica do país, que é a condição básica para o país existir, ficará totalmente em causa se esta política durar dez anos.

E mais, mais pedra para partir

(via Declínio e Queda)


sexta-feira, 19 de abril de 2013

Pronto


Chegaram*:

Um Elmore Leonard mesclado a "wise guys", detectives, Ezra Pound, Miami, Itália e o que ainda não sei.  

O clássico que inaugura um "género". Quase construído em diálogo, "The Friends of Eddie Coyle" de George V. Higgins's é daqueles que fizeram escola. Antes de pesquisar fui lá pelas referências: do Leonard, que encontrou nele chaves decisivasDe Norman Mailer, David Mamet, de um Anthony Bourdain em Boston, de Dennis Lehane, de Quentin Tarantino. Reparei que as duas primeiras palavras do livro são Jackie Brown

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* -  Escritores à parte, pareço encalhado na fórmula. Acabada "A grande arte", começo "Mentiras e Diamantes". Com balanço... 

domingo, 14 de abril de 2013

O Caderno

Arrancou a folha do caderno grosso de argolas. Era um caderno antigo, tinha-lhe chagado à mão como tudo o que aparece: do nada, como se se insinuasse. O caderno estava escrito há muito, dado como terminado, fechado, quase selado, com uns poucos espaços aqui e ali: dois quartos de página, um terço de página, uma páginas e uma página em branco. Gostava daquele caderno, fora caro, era de desenho, mas tinha gostado naquela capa preta dura e das folhas de papel grosso a darem força e conforto à caneta. 
 Não se devem ter dado mal, tanto que finito e escrito ainda não tinha sido fechado numa gaveta, perdido ou sequer mandado fora. Conta ter sido caderno amigo, companheiro, bastava olhá-lo e logo vinham-lhe à memória sensações de familiaridade e vizinhança de mochilas, viagens, relações e três apartamentos em seis anos. 
Arrancou uma folha sem o perceber, era a página por escrever com um quarto de página livre do outro lado, espaços em branco como intervalos de azul entre céus carregados. Achava ali uma oportunidade de sobrepor um novo tempo ao tempo. Só a letra se mantinha o que era: execrável. Eram as nuvens escuras, mil vezes o computador, tem ao menos forma legível, e de apagar, e de se voltar atrás. 
Tinha pois a folha separada em seu poder, puxou-a a si sobre o caderno para a posição correcta para começar. Caderno sob a sua mão esquerda sustentada pelo joelho, mão direita ao ataque, cómoda como ele, deitado na cama sobre a almofada, e o candeeiro à direita a dar luz ao acontecimento, qual terno ombro amigo.
Escreveu - pois escreveu - letra pequenina, austeridade da folha para o que queria debitar, escrevia era três vezes mais pequeno do que cinco anos antes. Só a letra, tenebrosa, mantinha um certo padrão estético e temporal além da tinta preta. Do mal o menos, folha em branco é que não, era ver as letras umas atrás das outras, activas caldeiras vulcânicas, explodidas pelos dedos, seguidas como cardumes, tempestade jurassica de estrelas cadentes...
Virada a página, continuou na mesma cadência, na outra página, a branca, de um terço fez com que a letra pequena atascasse ainda mais na falta de espaço, fugindo pelos limites, qual trepadeira, fazendo do horizontal, vertical. Foi quando ele reparou que a folha encaixava nas argolas como se nunca fora arrancada. Possível, mas curioso. Já sem espaço na folha, ia experimentar um teste de aderência, assim como se fazem aos pneus de competição. O teste consistia em retirar a folha do caderno e voltar a colocá-la outra vez na mesma posição. Mecânico e às tentativas. Uma, duas, três, quatro, cinco vezes, nada. Não só não conseguiu, como reparou que para voltar a conseguir, só no paciente exercício de introduzir a folha para lá da barreira das argolas, o que implicava passar para o outro lado a parte rasgada pelo arrancar das argolas. Seria fácil numa folha fina, naquela, pelo contrário, esbarrava contra a argola. Muita paciência era precisa quando entrava uma parcela da folha no outro lado e logo saía outra neste exercício inútil onde o todo o tempo se desperdiçava. Tentou dezenas de vezes, para ter a prova, para perceber como o fizera antes sem pensar e ou a mínima ideia do que estaria a fazer. 

A resposta, tinha à frente do nariz, óbvia como o encaixe da folha no caderno. Era a escrita, o comprometimento com o texto, na possível consumação, naquele preciso momento, de um novo passo iniciático. Fora ele mesmo que o escrevera. 

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Ler a Voz

Ler deve ser mais importante que escrever. Claro que escrever muito é condição não apenas de escrever bem, como de o saber fazer a sério; como o músico que tem de praticar constantemente. 
Outra coisa é a Voz de quem escreve, ou o Som de quem toca. Não se alcançam esticando o braço, distam milhas, anos de distância. Para quem escreve é trabalhar muito, escrever anos e anos a fio, tempo indeterminado. E talvez daí sim: a mão certa, o apuro, a precisão e técnica no manejo do sabre...
A ler não encontramos a Voz, mas podemos encontrar (as) vozes, distintas vozes, que nos mostram o que é ter (um)a voz. Aí já posso esticar o braço. Dou logo com A grande arte. 

*

Se baixares a guarda não te esqueças onde deixaste as armas.

sábado, 6 de abril de 2013

Dalton Trevisan




Via Tempo Contado e Antologia do Esquecimento fiquei com o escritor fisgado. Coincidiu com a atribuição do Prémio Camões 2012. Pouco depois, não me recordo em que morada , li de uma promoção de livros de Dalton Trevisan no meu bairro, na "minha" livraria, a Livraria Ler a quem sempre dou prioridade. O preço era de ir a correr: 1 euro. Lá constantei que não era um, mas dois euros e meio. Mas não por um livro de contos mas dois: o "Crimes de Paixão"(1978) e o "Ah, é?"(1994). Quis a sorte que um amigo me oferecesse pouco depois o "Cemitério de Elefantes"(1964), outra pechincha: três euros e meio... Juro que é um dos melhores livros de contos que se pode ler em vida. Exemplos:

Bento mastigava a raiva no prato de feijão. Envelhece, ambos intransigentes no seu rancor, o ancião lépido aos setenta anos e José, bigode grisalho, na flor dos quarenta. Tão  diversas, são todas iguais nos olhos que enchem a cara miudinha - o olho aflito do adulto. (pag.35) 

A fumaça branca na sua boquinha pintada trazia até ali quente aconchego da cama. Os cães gemiam e arrastavam a corrente, nem a voz da dona os aquietava. (pag.  46) 

Mil promessas no diário: Não fumar mais que três cigarros por dia. Copia pensamento na revista: O amor é sonho nebuloso. (p.79) 


No cartaz a fotografia colorida de Elza, quase nua: Estrela do bailado afro-brasileiro! Ao batuque do tambor entre as piadinhas cruéis da canalha, saracoteava pobre imitação de hula-hula. (p.87)

No silêncio o bzzz dos pernilongos assinala o posto de cada um, assombrados com o mistério da noite, o farol piscando no alto do morro.(…) O vencedor descasca o ingá, chupa de olho guloso a fava adocicada. Jamais correu sangue no cemitério, a faquinha na cinta é para descamar peixe. E, aos brigões, incapazes de se moverem, basta xingarem-se à distância. (p.93)





Por vezes cómica, outras vezes melancólica, frequentemente nostálgica, esta prosa tem o mérito supremo de respeitar a vida na sua essência temperamental. O mais estranho é que Dalton Trevisan tem a capacidade de nos desenfastiar da realidade mostrando-nos a realidade. (...)
Compreendemos que a rua é a casa do contista, os episódios desenrolam-se a partir da relação entre os elementos que a compõem revelando, por vezes em meros pormenores na acção dos personagens, que noutras circunstâncias dissipar-se-iam e passariam despercebidos, a matéria com que se cozinha a humanidade.

Dalton Trevisan não dá entrevistas nem se deixa fotografar desde 1972. É um desconhecido conhecido, anónimo à sua maneira. Quem o ler seguindo quem verdadeiramente sabe não terá dificuldade em compreender o porquê de tanto esconderijo. Basta dar com a riqueza das histórias, dos personagens, das situações que tão bem retratam o viver no seu  tanto de estranho, inusitado, aleatório, caótico. Sabemos que a realidade supera a ficção, e Dalton Trevisan parece ser o dono da chave, a esponja que tudo capta. Mas com uma condição: a de ninguém o ver, respeito, ele está a trabalhar, e é um feiticeiro, não quebremos o feitiço. E é um caçador, não pode ser visto pelas presas em seu habitat, lugares onde ele sabe encontrar os espaços com os olhos fechados.... Para os amigos, conhecidos e mesmo desconhecidos, o Dalton anda ou andará por aí, achá-lo é que é complicado mas também não é assim tão difícil... Sempre irá às suas duas livrarias habituais, ao Mercado (de Curitíba), transitando um pouco por todo o lado da cidade e arredores. Vegetariano plena em forma aos 87 anos de idade, Trévisan é homem lido e tido em literatura mas não só, esponja que é lê os jornais todos, é cinéfilo inveterado. Depois no escrever é absoluto perfeccionista, buscando a palavra certeira como o único dos tiros possíveis, no que é preciso inovar, ser pioneiro, procurando a síntese total, potenciando a palavra ao máximo reduzindo as palavras ao mínimo, e nem uma vírgula a mais. Nunca está perfeito. Nunca. A náusea é tanta que toda a obra é constantemente reeditada enquanto se vão construindo novos edifícios, novas estruturas, contam-se histórias de edições antigas que comprou ao leitor sortudo e desprevenindo oferendo a (boa) nova. Claro que o contemplado não pode imaginar o que o contempla. 


* - Recomendo vivamente também os posts do Âncoras e Nefelibatas à volta do escritor e da sua Curitíba, bem como o artigo de Alexandra Lucas Coelho. Ou este documentário adoçante.


sexta-feira, 29 de março de 2013

Os Botequins


Noite fria e, como todas as noites, o botequim deserto.
José sentava-se à mesa do fundo, o gordo vinha com a garrafa. Enquanto ele ficava no botequim (e ficava até a hora de fechar), o gordo deixa a garrafa aberta no balcão. José trazia o jornal dobrado no bolso. O cálice fazia um círculo úmido na mesa.
Antes de beber, lia uma notícia inteira. Erguendo o cálice e fechando os olhos, engolia dum trago. Ao abri-los, via no teto a sombra redonda da lâmpada. O gordo contornava o balcão, enchia o cálice até a borda,derramada uma gota. José esperava o dia em que, atrás do jornal, iria lamber a gota perdida.
Na quarta ou quinta dose bebia em mais de um gole. Estendia as pernas sob a mesa, contemplava a sombra do teto, lia o jornal. Não olhava para o gordo de calva brilhosa, galhinho de arruda na orelha. Se demorava em servir, José batia o cálice na mesa.
O botequim era corredor escuro, três ou quatro mesas encostadas à parede e o balcão no meio, atrás do qual o gordo curvava a cabeça sob as garrafas. No balcão um vidro de pepinos com mancha de bolor no vinagre.
E nenhum espelho na parede. José não gostava de se olhar. Descobriu aquele botequim e vinha, toda noite, sentar-se à sua mesa, o jornal no bolso. Sempre o mesmo, puído nas dobras. Lia notícia completa antes de emborcar a primeira dose.
Raros intrusos que se aventuravam no botequim davam as costas a José. Quem gosta de ficar, no botequim vazio, de cara com um desconhecido? A sua mesa junto ao reservado. Cada vez que alguém entrava, José sentia o odor ácido do amoníaco. E chapéu, o rosto na sombra, bebendo seus tragos. Hora de fechar, o gordo tirava da barriga o avental sujo e, sem olhar para o cliente, contava o dinheiro da gaveta.
José avançava preguiçoso por entre as mesas. Tinha casa e família, preferia o botequim, desenhando na mesa os círculos úmidos. Botequim frio, escuro e pestilento. Com ninguém falava, sequer o patrão. Ali não se sentia só. No balcão a garrafa aberta. Mulher alguma diria: Não beba mais, por favor...Pelas cinco chagas de Nosso Senhor, seja esse o último cálice! Não tinha vergonha de beber no botequim. O gordo era pessoa que compreendia as coisas. Além do mais, não havia espelho.
O gordo compreendia. Quando José não tinha dinheiro, deixava o jornal no bolso, depois do quinto cálice ainda o bebia dum trago. Fim de noite, empurrava a cadeira e saía, sem que o patrão corresse atrás. Noite seguinte, voltava; o relógio no bolsinho do colete, a aliança na mão balofa do gordo haviam sido a sua aliança e o seu relógio. Por amor da família – se é que tinha família - sujeitava-se a encher o cálice do único freguês.
No balcão, ao lado do vidro de pepinos, um prato com ovos cozidos, a casca escura de pó. O gordo ali debruçado, raminho fresco de arruda na orelha. Medo da solidão, conservava o botequim aberto, na esperança de que alguém entrasse? O último bar funcionando no domingo sem a fumaça dos cigarros, sem o burburinho das vozes, sem o bafo azul dos bebedores.
Naquela noite um desconhecido surgiu no botequim deserto, além do gordo e de José na mesa do fundo. Em vez de dar-lhe as costas, sentou-se à mesa mais próxima. O patrão serviu-o e retirou-se. O outro saudou José e, lívido, careta de medo, misturou o pó rosado no copo.
José observou a sombra redonda no teto, as duas manchas de goteira, o vizinho que, depois de beber, deixava a cabeça cair na mesa e o braço pender até o chão – lentamente o copo veio rolando a seus pés.
O gordo, sem tirar o avental, recolhia o dinheiro da gaveta. José afastou-se devagar e, a cada passo, sentia a meia encharcada. Por mais cansado, podia andar a noite inteira na chuva. Não era hora de ir para casa. Teria de achar outro botequim e começar outra vez.



     Dalton Trevisan, Cemitério de Elefantes, Relógio D'Água, Ed.n.8 (Março de 1984)

quarta-feira, 20 de março de 2013

Parecer Vítor Gaspar



Diz o ditado que à mulher de César não basta ser séria, tem de o parecer. Ao Ser Vítor Gaspar ajudou o próprio mérito, pois estudou, queimou pestanas, inspirou-se a fundo nas escalas do Friedman. Já na condição do Parecer ainda se distinguiu mais, de tão sério que parece. Atente-se na fruição, no talento de adormecer em números o deleite sádico pelo sacrifício alheio. Ou na "coragem" em desgraçar umas boas centenas de milhares de vidas. O Ser e o Parecer Gaspar fundem-se aqui no Infalível Gaspar
Consta que já em 1993 não (se) acertava (uma). Nada que impedisse o Ser de ir fazer carreira no BCE. E como de afinidades e fanatismos enche o tempo o ar, acabou ministro das finanças de um primeiro-ministro eleito no esplendor da falácia e aldrabice - nesse, faça-se justiça, o que parece é: um biltre, uma espécie agressiva de hipócrita, a descrição bem focada da besta quadrada, a alta definição do perfeito imbecil. 
Agora anda tudo muito esquecido, mas eu vi, vi e gravei. A propaganda massiva meses a fio, ele era Silva Lopes, João Duque, Cantiga Esteves, Miguel Beleza ou mesmo Medina Carreira, entre tantos outros que se derretiam entre o "homem sério", a "excelente escolha", o "não podia se podia ter acertado melhor". "Parabéns Portugal", o melhor povo do mundo tinha pois a obrigação de engolir a dose do impressionante Gaspar, pura quimioterapia com laivos de selvajaria social que só podia dar em desastre económico, recessão profunda e desemprego galopante. E foi. Foi tudo o que qualquer um adivinhava: uma recessão (pelo menos) ao dobro do previsto, 350 mil desempregados assim como que por defeito. Tanto que o próprio Parecer Gaspar prevê agora décadas de sacrifício e uma geração perdida, isto para o Ser Gaspar continuar a parecer o tal impressionante homem sério. Porque aqui qualquer pessoa séria podia acabar num haraquiri, ou no mínimo fugia do país, ou no mínimo dos mínimos demitia-se, ou no mínimo do mínimo dos mínimos era imediatamente posto no olho da rua. Não o julguem incompetente, Vítor Gaspar é muito mais que isso, ou muito menos se quiserem ou virem a coisa de outro ângulo. Depende só da calibragem. 

quarta-feira, 13 de março de 2013

Stairway to Heaven


No que há de mais inventivo, genuíno e inovador o cinema clássico pode ser desafiado à vontade. Entre tantos, tantos outros, um “Aurora”, um “Citizen Kane”, um “Vertigo”, “Vontade Indómita”, "A Sombra do Caçador" ou este "A Matter of Life and Death" ("Stairway To Heaven" nos Estados Unidos)  da dupla Michael Powell / Emeric Pressburger. Quem faça - ou já fez - a experiência de ver esta obra-prima repara que é instantânea a sensação de que se está ali perante um objecto único: a mui tosca e arcaica tentativa de reprodução do Universo com as estrelas e as galáxias como um abrir de cortina  inicial só se concretiza quando se lê o THE END no fim. Uma história de amor como história da vida e da morte, sobre o que está além e aquém, sob o signo da ciência, da religião, da mitologia e do inexplicável enquanto somos inebriados pelo estupendo argumento e diálogos. 
Tentando resumir: um aviador da RAF na Segunda Grande Guerra é atingido em combate. É ainda o único sobrevivente de um bombardeiro que arde em queda livre, Peter David Carter  de seu nome (David Niven) fala ao intercomunicador com Jane (Kim Hunter), sabe que vai morrer e ela também, nada mais resta na última vez que falaria com alguém, tratando-se ele de um poeta a conversa ganha outro tom, sendo um soldado a combater tropas nazis a tomarem o mundo a coragem mistura-se com a absoluta intrepidez perante o que está em causa, o resultado acaba por evocar os deuses. Peter David Carter  sobrevive - um milagre sem pára-quedas - e encontra Jane, outro milagre. Com tanto "sub-texto" antes do primeiro encontro, o beijo entre os dois consuma-se sem soar forçado, o que é a primeira conquista do filme e  onde tudo começa: no jogo entre o real e imaginário. Como em Homero, dois enredos desenrolam-se em simultâneo, um do mundo visível, outro do "invisível". Peter terá de pagar pelos dois milagres, o além-mundo ainda não se decidira. Na verdade ele ainda não se salvou, tem dores de cabeça lancinantes, visões, alucinações, terá de ser operado. No mundo terreno lutará pela vida, lá em cima tem Deus  - ou os Deuses - e os antepassados a decidirem em tribunal celeste se ele viverá ou não, outra missão complicada, ter-se-ia de abrir um precedente. É desnecessário dizer que não há um céu ou inferno. Este é um filme sobre o purgatório, porque toda a incerteza é também ela uma espécie de purgatório. Os meandros e a forma como tudo se desenrola é o melhor prato do filme, não pode ser contado. Tenho só de sublinhar a maravilha que é aquela escada infinita para o céu, aquela stairway que me deixou a matutar se não seria dali que Plant, Page e companhia foram buscar o seu “Stairway to Heaven”, acho que não, mas parecia...

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Django Acorrentado



"Django Libertado" é um Tarantino de dimensão superior. Os pontos fortes estão lá: diálogos capazes de moverem montanhas; a mistura e (o soberbo) cozinhado de influências; o efeito surpresa, cavado a muita escrita, deixando as camadas escondidas sempre prontas a emergir, à hora certa, ou em plena tempestade. Essa segurança sente-se, é contagiante. Estamos a ver o filme bem lançado e podemos até dar palpites de "até onde é que isto vai chegar", na escala... O melhor Tarantino? O segundo, o terceiro...Dos melhores é concerteza (na minha hierarquia, salvo seja, só está atrás de "Jackie Brown" e "Pulp Fiction"), e com algo que o distingue dos outros: a mensagem. Efectivada em cinema e não o seu contrário, algo comum em tantos filmes políticos e biopics desta vida. 
Dr. King Schultz - superiormente interpretado por Christopher Waltz - funcionaria aqui como a voz do autor, distâncias geográficas e temporais à parte, o que até os aproxima mais, até num certo cinismo subentendido no personagem, passado por cima pela imensa intrepidez e coragem do caçador de prémios pronto e disposto a arriscar tudo quando necessário. É ele que com Django (e Broomhilda) contará na ultima parte do filme com o desafio supremo. Elevado à fasquia não só da trama como do próprio filme: Calvin Candie e Stephen  nas extraordinárias interpretações de Leonardo Di Caprio e Samuel L. Jackson. 
Se Di Caprio tem aqui um dos papéis de uma vida, já Samuel L. Jackson está de tal forma afinado e apurado que se pode imaginar ali qualquer outro a estatelar-se ao comprido. Jogando com a narrativa como se de cordas de marioneta se tratassem, capaz de virar tudo ao contrário consoante os "estremeções". Isso é a história, poderão pensar, passa ao lado, é que a "história", ou o personagem, escreveu-a Tarantino a pensar precisamente em Samuel L. Jackson; com ele em mente é que vieram as "fasquias". Cumplicidade essa que só reforça o que tem de ser reforçado: o tema da Traição que emerge inesperada e em toda a sua pujança, do mais em época de escravatura. Aquele que é assumido por Quentin Tarantino como o mais imperdoável dos defeitos tem aqui o melhor aliado para encarnar as suas formas mais retorcidas e perigosas: a traição entre os seus pares; depois a traição do subalterno, do capataz, do lambe-botas. O final de "Django Libertado" está assim mais que subentendido, mesmo que há quem o tenha como um tanto ou quanto forçado. À justiça o que é da justiça, como em qualquer filme de vingança ou western spaghetti que se preze (e não só, Clint Eastwood que o diga). As balizas estão claramente definidas. Ponto. O que interessa está adiante, muito além da "história". Está lá toda, escarrapachada, a falta de vergonha e desumanidade da escravatura. E os fantasmas que forem precisos. Só não podem é estragar o filme que Tarantino quer fazer. A escravatura torna-se assim um ingrediente, importantíssimo, mas ainda assim um ingrediente. Tal como a história que também fascinou Wagner e as homenagens e piscadelas de olho ao western spaghetti e a Sérgio Leone. 
A mão de Tarantino está primeiro no argumento, só depois na câmara, como que a dizer eu decido, mando e comando o que quero, como quero e quando quero; insistirei no horror da escravatura as vezes que forem necessárias para que no fim, naquela colossal explosão de dinamite, naquela total destruição do símbolo esclavagista que é aquele casarão, a catarse se torne em festa, "A Fistful od Dynamite", para não sobrar nem mais fina das ervas daninhas...

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Reality



"Reality" de Matteo Garrone começa com um plano geral sobre Nápoles e o Vesúvio, a câmara vai depois descendo em lenta panorâmica aérea até chegarmos a um casamento, ou melhor, a um casamento em ponto de festa. Começará  como acaba, em Luciano*, um peixeiro da Nápoles mais antiga: alegre, afectuoso, hiper-extrovertido, misto de chefe de família e animador de serviço - o que mal mal parado pode dar em bobo da corte, como se verá mais tarde. No casamento está Pepe, um vencedor do Big Brother italiano. Sendo isto igual em todo o lado, Pepe dedica-se às aparições em festas, casamentos e "eventos", enquanto rende o peixe, tentando escalar patamares e (ou) evitar o mais possível o esquecimento. Luciano, esse tem talento de sobra, diz a família, dizem amigos, vizinhos, conhecidos. E repetem e insistem tanto que acabam a puxá-lo para um casting em Roma, em plena Cinecittà  - pelos vistos na Itália inventada por Berlusconi os lendários estúdios podem também para servir isso... -  e depois é só esperar. Tudo certo então num mundo em que o que é preciso é acreditar e ter pensamento positivo - a ideia é never give up, como diz o tal Enzo vencedor. Luciano, à sua boa maneira, é o maior, e muito melhor que muito nabo vazio que é eleito para aqueles concursos, está só a um curto passo da fortuna, da fama, do reconhecimento, dos problemas financeiros. O trabalho como peixeiro perde aqui todo o sentido, há que vender a banca do peixe. Entramos, enfim, no âmago de "Reality". Luciano acredita tanto que está prestes a entrar "na casa" que é ele próprio que se torna o reality show, tragicamente mais real que o outro, mas isso é outra conversa. O que é preciso é acreditar, dar aos peritos o que é dos peritos. Ele ainda não foi chamado mas se vão entrar mais duas pessoas no concurso e andarão por aí avaliadores, porque não então aquelas duas senhoras com ar suspeito? É que as senhoras se denunciaram, não paravam de olhar e diziam que andavam à procura de alguém quando esse alguém não se sabe quem é nem nunca foi visto ali. Tinha de haver um propósito: ver in loco a futura estrela, confirmar que ele tem mesmo a tal banca de peixe como o disse nas audições. E se assim é para quê ser desagradável com o imprestável e inútil chato que ali anda sempre a pedir esmola e comida? Não, à cautela melhor mostrar-se a melhor das pessoas. Uma coisa leva à outra, a páginas tantas vai de dar os bens da casa, despojar-se de tudo, ser o benfeitor da comunidade para entrar como um herói no Grande Fratello. E nós que o vemos, constatamos o que todos já sabem: Luciano foi-se, ficou tão alienado que já não é o Luciano perante o mundo, mas o mundo perante Luciano. Perante Luciano, salvo seja, perante uma certa imagem de si próprio, ou melhor, uma certa imagem que quer projectar perante o mundo. Numa realidade em constante auto-projecção, a paranóia torna-se ainda mais efectiva na sua congruência implacável. Não fosse "Reality" uma comédia (dramática) tão bem esgalhada e veríamos com outros contornos aquele grilo que Luciano constatou que nunca tinha estado em sua casa, fazendo a nós e à sua pobre família imaginar que, porque não, poderá também haver ali uma câmara escondida. É aqui que o sonho, doentio (o sonho de entrar num Big Brother é um sonho doentio, não me lixem), invade finalmente e em toda a sua pujança a nossa frágil realidade. E já não há forma possível de se aceitar a realidade da derrota quando se tem toda a certeza da glória eminente. A negação ganha assim modos de sobrevivência. Pode até ser uma loucura temporária, passageira, um atordoamento sem grandes consequências. Uma alienação das sérias, um emparvecimento doentio mas passageiro, quando o “Big Brother” acabar isso passa,  dizem...
A comédia de “Reality” é muito mais que uma comédia, é um valente soco no estômago, mais, é um soco que hoje tem de ser dado. Não, não é o "Grande Fratello", mas sim o grande plano do rosto de Luciano o verdadeiro reality show. Sem tretas, nada de planos abertos, luzinhas de televisão e aparências estudadas ao pormenor, polidas ao extremo, impessoais e inofensivas como peixes num aquário. Matteo Garrone tem a coragem de mostrar sem dó nem piedade que só mesmo pela ausência de olhar e pensamento nos é possível esbanjarmos as horas do dia em frente a um ecrã para (vi)ver uma coisa daquelas. O que vale a Luciano é que todos tentam que regresse à realidade. Começa a trabalhar para uma igreja local. Mas é mais parece recaída de toxicodependente quando em Roma Luciano escapa à missa - não vemos o Papa mas imaginamos que esteja lá - para se escapar para Cinecittà. Não consegue resistir, qual toxicodependente às portas do Casal Ventoso. 
Se depois de finalmente conseguir entrar, e deixar-se filmar naquele enorme aquário simulado, acabou a rir a bandeiras despegadas não ficamos a saber porquê. Se era o riso dos loucos ou um riso de libertação isso já nos escapa. Já sem o dia claro, a bela Nápoles e o Vesúvio, mas antes com a noite e o frieza do betão de uns estúdios onde Fellini, entre outros génios, filmaram no passado grandes clássicos e obras-primas.A panorâmica faz então o movimento inverso. Se antes partimos do geral para o particular, no fim partimos do particular para o geral, bem mais próximos da realidade...  

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* - Na vida real a história é outra, o actor é o recluso Aniello Arena, antigo soldado da Camorra condenado a prisão perpétua. Vale de pouco entrar no lugar comum da surpresa de termos num preso para a vida numa interpretação daquelas. Interessa mais imaginar o outro actor que ele poderia ter sido. Aniello Arena é um actor imenso.

PS: Agora a editar isto descubro que o filme é baseado numa história verídica. Bem que eu escrevi que Luciano é que era a realidade. Mas, vá-lá, a banca do peixe foi readquirida.

As Férias do Sr. Ulrich

Ouvido hoje no autocarro, pelas repetições e atropelos da matraca tento reproduzir o melhor possível: "Isto a gente anda aqui de férias. Um dia partimos e foi só uma passagem. Foi Ele que nos pôs cá e quando quiser nos leva, mas a verdade é que estamos aqui de férias e é mesmo assim. Uns passam-nas muito mal, outros doentes, outros trabalham  muito. Depois para outros, bem para outros as férias são uma maravilha, um passeio, esses têm sorte, passam a vida a ser servidos. Mas é mesmo assim: estamos mesmo todos aqui de férias,  que quem comanda e quem manda é Ele. Quando Ele decide, as férias acabam, de resto é mesmo assim: somos todos iguais, uns e outros estamos aqui de passagem, uns melhores que outros mas não interessa." Era manifesto que falava para o espectáculo, para ouvirmos todos. Eu por mim fiquei esclarecido. Obrigado minha senhora, não sei o seu nome, mas agradeço-lhe na mesma. É que estava na dúvida acerca daquele amoral catolicismo que se vê em filmes de Máfia em que os padrinhos se confessam no Vaticano. Aquele mesmo catolicismo de um tal de Fernando Ulrich, sabe? Todos sabemos que isto são só umas feriazinhas, os que não são católicos ainda vêm para aqui com lições de moral. Uns são sem abrigo hoje mas os que têm umas ricas férias também podem ser sem abrigo amanhã, não é? Porque não? E na verdade, aqui entre nós, porque é que há gente que se queixa tanto. Gente que diz que não aguenta. Mas porquê, se isto é só uma passagem? Aquele senhor é que tem razão: ai aguenta, aguenta! Se até aqueles que têm umas férias assim para o piorzinho aguentam! Mais uma vez agradecido minha senhora. É que estava na dúvida acerca do catolicismo desse tal banqueiro Ulrich e afinal já percebi. Deve ser como o da senhora: todos de férias, todos de passagem. Hoje aqui e amanhã ali, não é verdade? 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Leonard Tarantino

É difícil encontrar autores tão aparentados como Elmore Leonard e Quentin Tarantino. Homens do "carácter", do personagem, onde o ponto de vista é a voz que comanda e avança e onde nem notamos quando tudo se resume a conversas, a um diálogo constante. Partindo da escrita o que acontece surge no seu processo, na sua própria descoberta. Para quê a "backstory" quando as melhores ideias nascem no (seu) momento? Um dos motivos porque Elmore Leonard recusou Hollywood - onde John Fante quase destruiu uma carreira, e F. Scott Fitzgerald se ajudou a desgraçar mais. - era porque não estava para isso. Quentin Tarantino é homem do cinema mas vai dando uns sinais ou ameaços de futura dedicação à escritaNuma entrevista em que ficamos a saber que os filmes que escreve são antes de tudo novelas prontas a sair ficando umas grossas fatias de lado na passagem para o (argumento) cinematográfico - um dia estarão cá fora, aposto. O propósito, óbvio, é o apanhar (d)a história, o beber da "poção mágica". De "Rum Punch" para o extraordinário "Jackie Brown" o processo pode ter sido o mesmo.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Risco

Isto às vezes combina. Um filme quase insuportável no cinema e o metro apanhado logo a seguir. Que isto está cada vez pior eu sei, é uma constatação. Rostos mais cerrados, cinzas, assustados. Alguns nada para brincadeiras. Aqui e ali cheira-se um bafo apocalíptico, outra triste constatação, como "Holy Motors" de Leos Carax. Desnecessário, se servia para o "desconforto" do espectador, não me fez questionar nada, aprender coisa nenhuma. O muito bem feito pouco me interessa, nem sequer a "obra-prima". O que me interessa é que detestei aquela "obra", para não chamar outra coisa. Deve ter sido pela minha crónica falta de pachorra para a perversidade auto-indulgente mesclada de cinismo rastejante que me raia o insuportável.  Que me borrifa as 4 estrelas do Público. Antes uma caneta que escreva. Ao menos risco. 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Outra vez o Opus Night

Uma das coisas boas de ter uma bicicleta estática em casa, além do exercício que passa num instante, é que me dou tempo para determinados programas que de outra forma não sei se via - canais História e Odisseia, Quadraturas do Círculo, achados da RTP Memória como o "Portugal no Século XX" e quando calha algum "Falatório" que apanhe a jeito. Quando calham bons escritores, e Clara Ferreira Alves os apanha bem, há poucas hipóteses para os outros programas. E se José Saramago é bom mas um pouco chato, já Mia Couto extravasa a chatice e é de apagar logo. O que não pode acontecer com um António Lobo Antunes, Dinis Machado, ou José Cardoso Pires, onde o nível é altíssimo, estupendo, maravilha. 
O melhor para mim, porque mais útil, é também dos meus portugueses favoritos, falo claro do grande José Cardoso Pires, e do bom que foi reviver com ele e a entrevistadora Sebastião Opus Night, a quem regresso agora, arranjado está um bom pretexto. Mas não há como não falar em Sebastião Opus Night. Não pela comédia de lágrimas aos olhos, não pela singularidade do tipo, mas porque aquele personagem existe mesmo. Ou se não existe , morreu há pouco tempo. E se morreu mesmo não terá sido no seu corpo físico mas no seu tempo, que se foi, que vai indo, que anda aos anos a acabar e espero que nunca acabe. Mesmo que não frequente, mesmo que apenas saiba que existe. Opus Night é, mais que um personagem, também uma certa noite de Lisboa, uma certa vivência, uma certa boémia, uns certos e determinados bares e apeadeiros. O Opus Night que conheci pintava o cabelo de muito preto achando que assim podia recuar pelo menos uns trinta anos. Até deixar de o ver. Já não frequento essa noite, na verdade nunca a frequentei, fui mais um turista ou repórter, uma espécie que as espécies já não se recordam, falta-me a pedalada, a fibra do navegador pelas tempestades da ressaca. Ao Opus Night vi-o a última vez a umas quatro da tarde ao lado do Elevador da Glória. Claro que não me reconheceu, nem a mim, nem se calhar a si próprio. Branco como a cal, um cabo das tormentas de homem, tão longe estava ainda de ultrapassar o Meridiano da Ressaca. Se tem verdade isso da Lisboa cidade branca, então ele estava mais branco que Lisboa. Vá que dali a umas horas, com a noite bem avançada e os uísques bem aviados, o Sebastião lá ganharia outra voz, alcançando o humor e a cor que o caracterizam. Ponto da viagem onde tardará até se tornar incongruente, chato, insolente e salazarento. Todo ele bem fixo em seu barco bêbado, cheio de ideias firmes e certezas sobre tudo e o que venha à rede. Com bife ou sem bife só whisky, pois a hora não era para misturas

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Bom 2013





A todos os leitores e amigos. Que tenham um ano excelente. Pessoalmente vou (ter de) seguir alguns conselhos aqui do Bob Dylan*. A parte das dívidas já me remete ao Gaspar. Até porque um dos meus maiores votos para 2013 é que nos vejamos finalmente livres daquela gosma refinadamente nojenta. E do Godinho Lopes, já agora. Coragem, força, vamos à guerra.


* - surripiado daqui

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Winesburg, Ohio




Winesburg, Ohio tocou-me e de que maneira. Para tentar pôr as coisas em perspectiva devo dizer que ao nível do conto só lhe encontro paralelo em Chekhov. Mas Winesburg, Ohio não é só livro de contos, é também um romance, se calhar o mais apropriado é chamar-lhe romance de contos. O que não chega porque o que dele prevalece e predomina é o Conto. Independente na sua forma e estrutura, é ele que intervém e interdepende no universo ficcional da também ficcional Winesburg, no Estado do Ohio, no horizonte temporal que culmina na maturidade do personagem (alter-ego?) George Willard  e seu consequente pirar-se dali para fora. 
Winesburg, Ohio explora o conto na sua capacidade literária, tratamento dos meandros, no poder de síntese, nas suas valências descritivas e temporais. Mas também é romance no seu todo, no conjunto de todos os contos, qual super-ego a unificar toda a multitude criativa e formal em roda do personagem George Willard e das vidas que de uma forma ou de outra com ele intervieram naquele fim de mundo com pouco mais de mil habitantes e uma main street que termina na estação de comboios, ponto de partida e comunicação com o mundo daquele minúsculo lugar perdido no Midwest. O ultimo conto é disso o melhor exemplo: George Willard presta-se a partir - e todo o conjunto unifica-se num todo e os contos lidos mais se parecem com capítulos -, entretanto o comboio arranca, Winesburg para trás, pouca-terra, pouca-terra, uh uh, o leitor com pena de não poder continuar, George marimbando-se todo contente...

Winesburg é baseada na Camden natal de Sherwood Anderson. Em literatura esta cidade e suas cercanias são feitas da gente comum com seus dramas, tragédias, idiossincrasias, erros, azares, comédias*. Lembramo-nos de Chekhov no seu efeito de lente de aproximação ao ser humano, permitindo ler no mais banal dos sujeitos o heroísmo feito de luta surda e desenfreada; a riqueza humana paredes meias com a fatalidade e tragédia invisíveis. Realismo esse que é atenuado pela forte vertente alegórica do livro. Ou vice-versa, pois às vezes temos o alegórico limado por gente de carne e osso. Há quem veja aqui a influência do outro grande herói literário de Sherwood Anderson: Mark Twain.


* - o único conto propriamente cómico faz jackpot, tão estupidamente bom como os outros,  é de levar as lágrimas aos olhos.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Pergunta à Lama


 - A escrita de Dostoievski sente-se fisicamente. Há ali um magnetismo, textura, solidez, dureza, elegância sustentada, fraternidade trágica e resistência que a possibilita navegar nas lamas mais profundas e ameaçadoras. Consegue tornar a mais tétrica, indigente e depressiva miséria em algo quase apelativo. Com Dostoiesvki estamos dispostos a seguir pelo pântano afora. Vamos até ao fim. Seremos sempre compensados. 
Seu discípulo John Fante foi desaguar no deserto os amores desencontrados de Arturo Bandini por Camilla Lopez e desta por um tal de Sam. O deserto do Mojave era a parte de fora, o limite físico, romanesco e literário daquela Los Angeles das luzes a perder de vista como estrelas da Via Láctea. O crime de “Crime e Castigo” é outro, mas enquanto houver gente a ler livros, suas sementes continuarão a germinar, mesmo em desertos como o Mojave. 

 - Ir buscar referências a outros e tornar nossas as referências é também dar referências a quem nos chegue perdido à procura de qualquer coisa. Uma luzinha na montanha pode ser a diferença entre a vida e a morte. Onde há luz há qualquer coisa. Olhem as estrelas, as galáxias, o Universo. Com tudo escuro só vemos aqueles pontinhos claros. E não há nada como uma noite estrelada. 

- Nunca hei de compreender a burrice dos que na amizade se põem com estratégias. Por cobardia, excesso de energia ou insegurança desperdiçam munições que deveriam servir outras guerras; jogam a peça A julgando que assim jogamos a B e ficam banzados porque não jogamos peça nenhuma; confundem significado com significante; pensam que jogando tudo seguirá conforme. Não vêm o logro, inconscientes que estão da artificialidade que emanam. Achando que a vida é um jogo não têm forma de destrinçar que ele há coisas em que o jogo não vai a jogo.