quinta-feira, 17 de maio de 2012

NO BULLSHIT



De alguém como Paulo Pinto Mascarenhas não me surpreende nada. Henrique Raposo a falar em "tugas da choldra" talvez estranhe mais. Digo talvez porque há coisas na direita portuguesa que de tão previsíveis fazem desconfiar até o mais crédulo de todos os crédulos. Raposo  já chamou a "No Reservations" o melhor programa da nossa TV, parto do pressuposto que sabia - como tantas vezes sabe - do que escrevia e não estava a fazer bluff. É que é mesmo muito difícil, senão impossível, dar com "No Reservations" e perceber que o que está ali não são propriamente postais turísticos. Não querendo explicar o tão óbvio - e há tanto de tudo escarrapachado no You Tube - devo dizer que Lisboa até fica muitissimo bem na fotografia num muito bem conseguido episódio e que o elogio à beleza da cidade -  "They don't make cities like this!" -, à excelência da comida e ao lado genuíno e velho desta cidade milenar valem mais do que mil cosméticas para investidores que a nossa direita anda tanto a apregoar - fosse isto há um ano... - e que se há coisa que descreve a persona, a carreira, os programas e os livros de Anthony Bourdain é que o homem não tem contemplações no seu entusiasmo daquilo que gosta, não gosta, sente e pensa em relação a tudo isto aqui agora. Com custos para alguns vegetarianos, adeptos do politicamente correcto, operadores de "luxury travel", entre outros, aos quais parece que acabou de entrar alguma da direita portuguesa.

Deixemos-nos de tretas. Estivessem eles tão preocupados com o que Bourdain quis mostrar de Lisboa e teriam certamente  dado conta do sucesso esmagador dos Dead Combo pós "No Reservations" com três álbuns (três) no top 10 do iTunes conseguidos uma semana após o programa estar no ar. Se isto não é esmagador acerca do sucesso de um produto não sei bem o que é esmagador, nem o que é um sucesso, nem o que é um produto...O que eles queriam sei eu. O que não queriam também: António Lobo Antunes a falar da miséria e do desemprego, as verdades incómodas saídas ao longo de todo o programa acerca da austeridade, da crise, da Troika, da Grécia, com figuras dispares - agora baptizadas "Tugas da Choldra" - desde os Dead Combo aos cozinheiros Henrique Sá Pessoa, José Avillez, passando por Zé Diogo Quintela ou Tozé Brito, em conversas despretensiosas que dizem mais sobre nós do que todos os Prós & Contras que me lembro de ter visto. 
Também não queriam toda a conversa à volta das criminosas politicas da UE em relação à agricultura,  pescas, venda de alimentos...O lado taxativo de Bourdain - "that's the EU thinking", "you've got everything here", etc, etc -  deve lhes ter caído um pouco mal no seu quê de, vá-lá, instinto de rebelião. Que lá fora é muito cool, cá dentro, respeitinho...

Esperava-os mais inteligentes*. Ou ao menos que não se denunciassem daquela maneira. Pena que o programa esteja estupendo. Se não gostam embrulhem, engulam, aguentem, esperneiem. Façam o que muito bem entenderem. Poupem-nos é a um espectáculo que se chamo aqui de provinciano e  saloio é apenas para me poupar nos adjectivos. 


segunda-feira, 14 de maio de 2012

Who is writing this stuff ?


De vez em quando o futebol encarrega-se de nos explicar como é tão óbvia e indiscutivelmente de longe o melhor e mais determinante desporto jamais inventado pelo homem. Não digo o mais emocionante, que o critério aí pode ser discutível, digo o mais dramático, épico, marcante, histórico, memorável. Em boa hora vi ontem o City.  Aqueles últimos 45 minutos, aqueles três minutos finais nos descontos em que nada faria adivinhar um golo, quanto mais dois. Os jogadores do Manchester United esperaram dois minutos pregados no rádio. Iam ser campeões. Não foram

sexta-feira, 11 de maio de 2012

segunda-feira, 7 de maio de 2012

As eleições

Quando se dizia que o Merkozy era irresponsável e perigoso muitos assobiavam para o lado. Agora, aos poucos, como ouvi ontem nas três televisões, já lá vão dizendo que "somos todos a favor do crescimento, quem não é? ". Como se, enfim, o austeritarismo não fosse sobretudo ideológico. Agora, a extrema direita em França e os Nazis na Grécia fazem parte da equação, não apenas do problema. Aqueles pavoneios mútuos nas conferências europeias e a ideologia da austeridade da miséria a bem dos juros a render para o superavit alemão pedem especialistas em desminagem. Porque o terreno está minado, disso não hajam dúvidas, se ganhasse Sarkozy não sei como é que o desastre não seria para já. 

domingo, 6 de maio de 2012

É Na Terra Não é Na Lua


Começa com a aproximação de barco à ilha, ouve-se em conversa o realizador Gonçalo Tocha e o assistente Dídio Pestana, do som. São eles os dois que irão fazer um documentário sobre a ilha do Côrvo, não imaginam ao que vão e enumeram em voz-off os singulares dados estatísticos daquele lugar limite: 400 habitantes, habitada na ponta sul numa única vila, uma cratera (a caldeira), uma estrada, uma aerogare, um posto de bombeiros, uma escola, um restaurante, dois cafés, uma câmara municipal, um porto...Imaginamos o que sentem quando dizem ao que vão: "vamos filmar tudo o que conseguirmos". Nesse ponto já vemos o porto a a aproximar-se e um pouco acima a pequena Vila do Corvo. Filmaram-se 180 horas, da montagem ficaram três. 
Uma das primeiras pessoas a aparecer é a senhora Inês Inês, que ainda sabe fazer o gorro típico do baleeiro local, o Gorro do Corvino. O tecer do gorro com o nome próprio do realizador estampado vai-nos acompanhar durante o documentário, efeito da montagem, enquanto vamos vendo tudo o que há para mostrar naquelas três horas: os campos verdes e pastagens íngremes que acabam em declives a pique sobre o mar; a Caldeira, de cortar a respiração. O som directo ilustra toda aquela natureza em ebulição: o vento, a fúria daquele mar de meio do oceano face a uma ilha de 17 Km de comprimento e 12,5 Km de largura. Outro sinal de natureza quase em estado selvagem são diferentes sons de distintos pássaros , alguns de espécies tão raras que trazem histórias no bico. 
Há todo um passado que une esta comunidade tão  pequena como sólida, solidária e unida. Está-lhe nos genes. Está nas típicas fechaduras de madeira que não trancam totalmente. Todos se conhecem.  Óscar Nunes, ex-cabo do mar, fala da ilha como poucos, tinha um diário, um arquivo infindável que desapareceu não se sabe porquê. O Corvo não tem quase registos da sua história, a tradição oral é que marca e dá identidade à ilha. Sobretudo em  lendas antigas como a do Cavaleiro da Ilha ou da Nossa Senhora do Rosário que protegia os corvinos da ira dos invasores  desviando todos os tiros mandados pelos piratas e devolvendo-os multiplicados. Apesar disso, e como parece óbvio, as novas tecnologias trouxeram ao Corvo um brutal choque de realidade. O mundo subitamente acercou-se de um lugar onde a electricidade só surge em 1963 e o telefone durante os anos 70. Em que no Inverno havia meses em que ninguém entrava na ilha por causa do estado do mar. Hoje tudo se mistura, avionetas que chegam e partem, vitelos que nascem, porcos que se matam. E histórias. As antigas, à volta da caça às baleias. As de vida como a de um homem que queria apenas conhecer a ilha e que ficou  lá de vez, deixando mulher e filha; ou do solitário que quer ir para Angola porque a Europa já não dá nada, e porque um homem sem mulher naquela ilha dá em maluco.  Também as eleições ali são outra coisa, dividam-se 400 habitantes por listas, partidos e apoiantes e compreende-se porque tudo pára no Corvo eleitoral. Do mais, por um voto se resolve uma eleição. 
Para se filmar com um mínimo de fidelidade numa comunidade assim, só mesmo ganhando a confiança das gentes. Interagir, deixar as pessoas à vontade, deixar a experiência acontecer. Três horas de documentário acabam por tornar-se irrelevantes. Podiam ser duas, podiam ser seis. Não o sentimos. Estamos em terrenos nunca tentados e onde muito dificilmente se voltará a ir. Saímos do filme com vontade de conhecer o Corvo. Tornou-se nos familiar. O que é o maior e grande feito deste documentário.

sábado, 5 de maio de 2012

Gostar de Astrofísica

De vez em quando só estou para apagar as luz da sala, sentar-me no sofá e ligar-me numa daquelas séries sobre astrofísica que dão no Meo. É o meu planetário pessoal. Horas passadas Big Bang adentro, buracos negros, galáxias, supernovas, luas, planetas, nebulosas, matéria negra, quasares...Tem qualquer coisa de ritual, música para ouvidos agnósticos, Stephen Hawking a dizer que decifrada a chave da origem do Universo entraremos pela primeira vez na mente de Deus. Talvez o assombroso já esteja intuído na sorte que é estarmos aqui agora vivos e a ler e a escrever em blogues numa probabilidade muito menor que ganhar o euro-milhões. Desde a vitória da matéria sobre a anti-matéria, rés-vés, mais a velocidade da gravidade que está precisamente no ponto certo, passando pelo tamanho exacto do sol, ou a distância exacta que dele distamos, que não pode ser maior nem menor do que é, sob pena de nos aniquilarmos; até à massa do nosso planeta que bastava que fosse um pouco menos esturricar-nos iamos por falta de campo magnético para nos proteger dos raios e ventos solares. Isto falando do universal. Para o particular de sermos precisamente nós a estarmos aqui outro jogo se abre, com probabilidades tão ínfimas que duvido que haja alguma vez maneira de serem calculadas. O próprio Hawking fala numa razão de ser, numa prova pelas leis da física que o Universo foi criado do nada. De qualquer modo tudo isto está para além da nossa inteligência e capacidade de entendimento. Lembro-me de uma vez no Facebook ter lido directamente de São Paulo esta frase de Nelson Rodrigues:"Toda a coincidência é inteligente, não há coincidência burra". Brincar aos planetários serve ao menos para deslocar o quotidiano da pele. 

sexta-feira, 4 de maio de 2012

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Peões e números


Em "The Wire" como aqui agora, a escola não serve propriamente para aprender, a criminalidade não é um problema propriamente a resolver. Ordens são ordens, servem números que servem vereadores, mayors e senadores, ou tenentes, majores e coronéis. Ao topo chega-se pelo jogo das estatísticas. Quem não o aceita renuncia às vantagens, são as excepções, na maioria dos casos - e dada a conjuntura de tudo o que rodeia o negócios da droga com seus lucros titânicos e colossais, ou o poço sem fundo da corrupção - os promovidos tendem a ficar por cima. De vez em quando, por qualquer sentido de justiça, mérito dos honestos, ou porque também os vilões têm inimigos, alguns ainda perdem à grande. Para quando mal possa regressarem rejuvenescidos, com um guião certo e novas cartas na manga ou debaixo da mesa. O que conta são os números. Números. Aldrabar estatísticas faz parte. Esconde, ilude, promove, evita chatices. A imprensa é um problema? Douremos a pílula. O ar está irrespirável? Não é com alarmismos que se vai lá. Há muito território para conquistar. As coisas são como são. A cores ou a preto e branco.

Não admira pois que possam também coexistir no mesmo pardieiro traficantes honestos, heróicos e com bom fundo como Omar Little ou D'Angelo Barksdale e policias do mais crápula, medonho e escorregadio como William Rawls e Ervin Burrell. O jogo mistura gente moral, imoral e amoral em ambos os lados do tabuleiro. Pode ser tarefa impossível passar para o outro lado como nos mostra a série em casos e mais casos, praticamente todos com sustentação verídica na cidade de Baltimore, que segundo o autor David Simon terá pouco de Nova Iorque, LA, Washington DC ou Chicago, mas que é bem representativa da cidade média norte-americana. Não duvido que tenha também um pouco da nossa realidade. Números à parte, lidamos com o mesmo.  Ligamos com o mesmo. 

domingo, 22 de abril de 2012

New Rose Hotel

Há dias em que nos podemos perder como num filme de Abel Ferrara. Dias falhados espelhos de filmes falhados como "New Rose Hotel", filme tão bem falhado no seu papel de falhado que até arrepia. Dias em que se vai à procura de uma coisa sabendo de antemão que ela já está longe, muito longe, talvez para sempre. Cruzar as ruas como um desconhecido. Passar pela net como um viajante à pressa num café de Shangai. Estar bem e mal assim. Estás com bom aspecto, diz-me ela, quando eu julgava que era a cara de um antigo aldeão de Moimenta a avistar pela primeira vez umas escadas rolantes. Li que Abel Ferrara fez agora um filme sobre o fim do mundo. O que há mais para aí são cowboys da meia-noite. 

Caíu-lhe mal

Foi a correr para a folha como se estivesse prestes a vomitar.

Dados ao lixo

Pequenos dramas surgem com a crise. De dinheirinhos, poderesinhos, tudo parece talhado e moldado à migalha. E a caridadezinha, cresce tanto a caridadezinha. A resistência ruiu, as ideias vergaram-se e, lá está, a migalha. Quase ninguém parece dar conta que com tanto imposto, corte, desemprego e o tal tão necessário empobrecimento só no primeiro semestre o défice duplicou, a receita diminuiu, o saldo da Segurança Social caiu, a bem de quem a quer privar, perdão, semi-privatizar. De nada serve, as sondagens não enganam, o discurso do pobre passa, funciona, o medo empurra o resto. O desastre Seguro e a deriva e falta de senso e músculo da esquerda não explicam tudo. Não podem. Daqui a mês e picos começa a histeria, as bandeirinhas, as enchentes no Campo Pequeno e no Parque das Nações. Mais medidas a doer virão, com muita sorte, em rodapés de noticiários. Gritaremos todos: Portugal! Portugal! Portugal! Sem nos esqueceremos de dar uma esmola ao próximo. Amanhã sempre podemos ser nós. Caridosos pobretanas. Amén. 

terça-feira, 10 de abril de 2012

Rugímos


Devo concordar com Nelson Rodrigues, "bola ao poste é bola mal chutada". Mesmo pelo nosso Czar, mesmo um remate daqueles. Mas foi lindo o banho, de público e de bola

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Santa Sexta-feira

Quando era criança pensava muito em silêncio, deitado, a olhar o tecto, horas, a situar-me, a compreender. Acabava sempre revigorado, afinado, o que durava pouco. Mais tarde - talvez na alta adolescência - deixei-me disso. Seguindo a cantilena de o que não me mata torna-me mais forte, tornei-me num género de todo o terreno cheio de lama e tracção ás quatro rodas. Pelo gozo dos saltos, pela adrenalina, pela velocidade, pelo amolganço mútuo, pelo vigor físico, por tudo isso misturado, não sei dizer. Pensando para o tecto podia ter chegado à conclusão que não existe corrida, ou então que existem tantas corridas e tão variados circuitos quantos os que possamos imaginar. 
Agora páro para pensar. Pensar no que tem de ser pensado e pensar no que não tem de ser pensado. Há demasiado ruído. Demasiados todo-o-terreno a chafurdar na lama. E uma mão que me puxa para a suposta corrida e uma mão que me puxa aqui para dentro onde ganho tudo o que é tirado pelo absurdo da multidão. Deixo-me levar pela segunda. O silêncio não seria o mesmo sem o arrastar dos móveis do vizinho ou os carros que passam em compassos longos de feriado. Ou o avião que oiço agora. Vem-me à memória Sean Penn em "Thin Red Line": in this world a men himself is nothing, and there ain't no world but this one... E todos podemos acabar numa cruz num qualquer dia igual a este.  Uma santa sexta-feira. 

domingo, 1 de abril de 2012

Mark Lanegan, Lisboa, 31 de Março




Numa coisa tive a mesma sensação que tive com Kurt Cobain dias antes do fatídico dia: a de ausência de bullshit, ou em bom português, de merdas. Não houve cá "obrigado", nem "boa noite Lisboa" como ouvi no péssimo concerto dos Rolling Stones no Alvalade XXI. Mark Lanegan não precisa disso, a ele podem chamar "a voz" que, imagino, Frank Sinatra não há de levar muito a mal. Daí que tendo tocado uns 75% do tempo um ultimo album manifestamente mais fraco que os restantes, deixou-nos a todos saciados ao tutano e com as medidas cheias. E, não vá ele ter algum dia fatídico, há de  voltar de certeza absoluta. Sem graxismos, Lanegan praticamente o declarou. Não há de Mark Lanegan ser Mark Lanegan?

segunda-feira, 26 de março de 2012

Infinito


Se o Universo é infinito também o poderão ser as resoluções cientificas que o tentam desvendar. Dizem que somos feitos de estrelas, o cálcio dos nossos dentes, o ferro do nosso sangue, os átomos do corpo, o oxigénio que respiramos, tudo o que temos foi feito em estrelas que explodiram. Talvez tenhamos estrelas diferentes em diferentes partes do corpo, talvez estrelas que distavam anos luz umas das outras. Tentando desvendar os seus segredos aproximamos-nos delas. 
No tampo desta secretária, ou na palma da tua mão, os micróbios apenas podiam ser imaginados ou intuídos pelos antigos. Para lá desses micróbios há moléculas, depois átomos, depois núcleos, depois quarks , leptões, bosões, depois...Há quem refira estes três últimos como o tecido do Universo, do espaço-tempo. Que alguns deles transitam mesmo entre os diferentes tempos passado, presente e futuro. Nunca se sabe. Os micróbios antigamente não passavam de meras abstracções. Tentando desvendar os seus segredos aproximámos-nos deles. 

António Tabucchi (1943-2012)



Cheguei a António Tabucchi através de Fernando Pessoa e do extraordinário "Os Três Últimos Dias de Fernando Pessoa". Mais tarde ofereceram-me o "Pequenos Equívocos sem Importância" de que gostei muito e deveria e poderia ter lido mais livros de Tabucchi, coisas que o tempo, a preguiça e outros escritores me impediram. Gostava dele. Tabucchi, mais que uma espécie rara de elegância e humanismo, era o acaso ou o Destino que decidira aprender o português depois de comprar num quiosque de Paris uma edição de "Tabacaria" de um tal de Álvaro de Campos que nunca ouvira falar. O tanto que veio a seguir é por demais conhecido. Longa obra à parte, António Tabucchi foi mais escritor português que muitos escritores portugueses. E lutou mais pela nossa cultura do que muitos dos "nossos".  

quinta-feira, 22 de março de 2012

O grande Conrad


O Joseph Conrad disciplinado, civilizado, polido, exímio no seu inglês, é também uma máscara. Perto da natureza selvagem é tudo mais livre e aterrador. A escrita em Conrad talvez funcionasse como um porto de abrigo, um ancoradouro inevitável perante o talento e genialidade e experiência e sofrimento acumulados. Joseph Conrad primeiro viveu para contar, depois escreveu para contar. Nele o escrever e o viver encontram-se de tal forma emaranhados, entrelaçam-se com tal força e profundidade que é incontornável que ambos se confunda. Um pouco como as árvores de troncos e raízes gigantescas das selvas e florestas inexploradas onde Conrad testou, em alguns livros, os limites do Ocidente. Talvez as raízes estivessem na experiência precoce e traumática de quase orfão fugitivo à sua Polónia invadida pela Rússia, talvez suas ramificações sejam combinados de memórias, testemunhos e imaginação. Muito poucos testemunharam ou puderam testemunhar tanto. Num mundo de aventura e perigo que acabou para sempre, um reservatório de vivências que não merecem o esquecimento, de pensamentos no fio da navalha, de sentimentos em suas mais obscuras contradições. Sob uma paleta literária absolutamente hipnótica. 

quinta-feira, 8 de março de 2012

O Palácio


O palácio não é infinito. Os muros, os terreiros, os jardins, os labirintos, as grades, os terraços, os parapeitos, as portas, os corredores, os pátios circulares ou reccâmaras, as alcovas, as bibliotecas, os desvãos, os cárceres, as celas sem saída e os hipogeus não são menos numerosos do que os grãos de areia do ganges, mas o seu número tem um fim. Das açoteias até ao poente não faltará quem aviste as carpintarias, as cavalariças, as oficinas e as cabanas dos escravos. Ninguém é dado percorrer mais do que uma parte infinitesimal do palácio. Alguns conhecem apenas os subterrâneos. Podemos aperceber-nos de umas caras, de umas vozes, de umas palavras, mas tudo de que nos apercebemos é infimo. Ínfimo e ao mesmo tempo precioso. A data que o aço grava na lápide e que os livros paroquiais registam é posterior à nossa morte; já estamos mortos quando nada nos toca, nem uma palavra, nem um anseio, nem uma memória. Eu sei que não estou morto.


Jorge Luís Borges, O Ouro dos Tigres (1972), Tradução Fernando Pinto do Amaral, Obras Completas II 1952-1972,  Círculo de Leitores, Outubro 1998, p.513

terça-feira, 6 de março de 2012

Le Havre



Passamos as duas horas de "Le Havre" deliciados e um pouco mais esperançosos por ainda existir quem filme assim. Só alguém com a liberdade de Aki Kaurismaki - tão dentro da respiração da sua arte, das suas leis, ritmos, tempos de maturação - pode chegar a este Cinema. De um despojamento, humanidade e candura desarmantes. Com os personagens ao nível do filmado: dignos, sólidos, éticos, consistentes.  Personagens como o velho Marcel Marx, a sua dedicada esposa estrangeira, a intrepida criança africana, a leal barmaid, o distraído e simpaticíssimo merceeiro, a vizinha amiga e solidária, o inspector policial com a sua ética muito própria a marcar a diferença. Todos constatando, na saga da criança imigrante ilegal, o fascismo destes tempos . Sem choradeiras neo-realistas - Aki Kaurismaki chegou a mesmo dizer em entrevista que o realismo no cinema não passa de melodrama - não fosse o realizador finlandês um fruidor, um amante da boa vida, dos lugares, dos copos, das conversas. Sofredores sim, mas com estilo. Até porque é nas margens que este cinema encontra a vida, a autenticidade, alguma verdade.

It's Only Rock 'n' Roll



Agarrado à ideia – vinda de não sei onde para não sei que parte da minha cabeça – que os Rolling Stones acabavam com o “Its's Only Rock'n'Roll”, isto para ser politicamente correcto, porque para mim sempre tinham acabado no “Exile On Main Street”. Agarrado à ideia, dizia eu, duma qualquer pureza ideológica, nunca tinha prestado atenção a uma obra-prima como o “Some Girls”. Quadradice juvenil, depois esquecimento, depois coisas mais "importantes" para ouvir. O que me lixou foi o “Start me Up”, canção daquelas feita para vender e para estragar as expectativas a quem gosta do muito melhor, e que depois não conhecendo fica sem vontade de ouvir mais nada, achando que os Pink Floyd são a banda do "Money" e do "Another Brick In The Wall". O mesmo com o “Satisfation”. Foi a primeira canção que ouvi dos Stones e nunca existe uma segunda oportunidade de causar uma primeira boa impressão. Nada de grave,  a primeira boa impressão nem sequer era juvenil. Era infantil. 
O “Some Girls” ajuda a aguçar-me o interesse pela fase pós Brian Jones/Mick Taylor, estragada ainda mais com o desatroso ultimo concerto que fizeram em Alvalade, para as massas no duplo sentido do termo e para quem não tem nem ideia de metade daquilo que uns Rolling Stones são capazes de fazer. Se calhar o ter bebido antes uma cerveja ao lado do Pestana era uma sinalização para o que aí vinha: rock' n 'roll de hotel, encenação plastificada, betalhada,  som baixissimo, músicos ausentes. Teve uma virtude, apenas uma, mas ainda assim uma grande virtude: a de não me ter arrependido para a vida por ter perdido a "ultima oportunidade". Numa altura em que vivia no Lumiar. Se por um lado conseguia ir a pé ver o Sporting jogar, por outro punha-me a ouvir os concertos quase na íntegra. Em suma, fiquei com receio do que iria perder, de imaginar o que seria estar lá, de me zangar comigo próprio. O arrependimento do que não é feito é das coisas mais idiotas da vida. 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Luíz "Puta Que os Paríu" Pacheco


"Puta Que os Pariu" são 545 páginas que se lêem rápida e compulsivamente. A biografia de Luíz Pacheco por João Pedro George tem força, pujança, domínio, esclarecimento, estilo. Prolonga-nos a vida do escritor e por acrescento dá-nos um eloquente apanhado do Portugal dos últimos setenta anos do século XX. É uma leitura que não se larga. Um prazer que se prolonga além do esperado. Mesmo que as expectativas já venham altas quando se compra o livro. 
Disposto em nove longos capítulos, cada um com a sua história para contar. A infância, os pais, a escola, as mulheres, os filhos, os amigos, as casas, as pensões pelintras, o álcool, o cravanço constante, as prisões e hospitais, o Pacheco escritor, o Pacheco editor, o Pacheco crítico, as polémicas literárias, a fama e reconhecimento na década de noventa, os últimos anos em lares de terceira idade. Peças que em conjunto ou separadas parecem funcionar um pouco como as bonecas Matrioshka russas. Sendo a literatura a cara que se encontra em todas elas, unindo-as e separando. Com todas as dificuldades inerentes à difícil subsistência apenas da escrita, com os seus textos, artigos, edições e traduções pagos no limiar da subsistência. E a falta de tempo, de espaço, a fome, a bebida, a prole para sustentar, a impossibilidade de realizar um trabalho mais planificado, atempado, deixando as grandes páginas escritas não para um romance ou novela mas em contos dispersos, cartas, diários, artigos, polémicas literárias. Tudo submetido a um mesmo projecto: esfumar as fronteiras entre o literário e o quotidiano. Onde está inevitavelmente metido o país atrasado, as amizades e inimizades, as zangas, a hipocrisia do meio literário, os compadrios, os amiguismos. Luíz Pacheco trás muito sumo  a uma biografia. Muita vida vivida e sofrida. Viver no fio da navalha, como um verdadeiro maldito, pareceram dar à sua escrita coragem, acutilância, eficácia, autoridade, audácia. Uma literatura mãos dadas com o Pacheco personagem: "Não se cativa pelo choradeira, mas pelo humor". Sem garantias de ordem alguma, nem certezas, mas com uma força vital, um caminho. Que nunca se sabe realmente qual é. Provavelmente porque se a premissa da vida não estivesse escondida, não conseguiríamos fazer nada com ela. 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Paciência!



No Sporting, Domingos só se pode queixar de si próprio, preferia antes acabar sempre a culpar os outros - jogadores, dirigentes, jornalistas, painereiros, adeptos, opinadores, fadistas... Podemos olhar para os tiros no pé, podemos olhar para uma classificação a dezasseis pontos do primeiro e a oito do terceiro, podemos olhar uma eliminação da miserável Taça da Liga com um grupo miserável que não teria a mínima importância não fosse Domingos querer mesmo ganhá-la, pondo por exemplo a jogar toda a equipa titular contra umas reservas do Moreirense da 2ª Liga e nem assim conseguir...Podemos muita coisa, mas o que não podemos é pôr em causa a competência, a "estabilidade", a "estrutura", o "projecto"... 
Vissem eles o Benfica - ai como alguns gostam de pisar -  ou o Porto - ai como o Bruno Prata gosta de dar lições - na nossa posição e o que não os ouviria de um ser humano, quanto mais de um treinador. É que o grande problema do Sporting é isso dos sportinguistas, é uma chatice, eu sei, os outros, esses nunca cometem erros e raramente se enganam. Os outros, são sempre problema dos outros...
Não, não votei em Godinho Lopes, votei no Bruno de Carvalho. Também não sou, ao contrário do que parece, dos que aprovaram o despedimento de Domingos Paciência. Cheira-me é que isto do Sá Pinto a treinador vai acabar a chatear muita da boa gente que para aí anda. Mais um motivo: Força Sá Pinto

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Piegas, só podem

As pessoas começaram a ir aos descampados onde cresciam as ervas. Tinham aprendido que algumas das ervas podiam ser cozinhadas e comidas. Havia porrada em todo o lado. Andavam todos zangados. (…) Havia pessoas a falar de segundas e terceiras hipotecas. Uma vez à noite o meu pai chegou a casa com um braço partido e os dois olhos negros. A minha mãe tinha algures um emprego mal pago. E cada garoto do bairro tinha um par de calças para domingo e outro par de calças para os outros dias da semana. Quando os sapatos se gastavam não havia outros. Nas lojas vendiam-se solas e saltos a 15 ou 20 cêntimos incluindo a cola, e eles eram colados aos sapatos velhos. Os pais do Gene tinham um galo e algumas galinhas no quintal das traseiras, e se alguma das galinhas não punha ovos suficientes eles comiam-na.
Quanto a mim, era o mesmo – na escola, com o Chuck, o Gene e o Eddie. Não só os adultos se tinham tornado piores, os garotos também, e até os animais. Era como se imitassem as pessoas.


Charles Bukowski,  Ham On Rye (Pão com Fiambre), tradução de Manuel A. Domingos, Ulisseia, 2010, p. 106

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Domingos Sequeira

    Fica sempre de pé, entre o balcão e a porta da saída, não se senta naquelas - no mínimo – 4 horas que para ali anda e ai daquele que ouse ocupar seu território. Dirá senta-te, deita-te, anda, faz o que quiseres, mas este não lugar não é teu, aqui só por cima do meu cadáver. Ninguém o toma a sério, ninguém o toma de maneira nenhuma. É um chato do caraças. Não parava a converseta da treta com o outro, a todo o comprimento da sala vazia. Esse outro via-o eu nos anos 90 a jogar dados com meia dúzia de compinchas, não falhavam uma Sexta-feira. Até ao dia em que as vidinhas se disseminaram por outros lados fora dali. Não sei se casaram, fugiram, sedentarizaram, emigraram, adoeceram, morreram, não sei mesmo. Só sei que ele ficou, e continua a aparecer, sozinho, falando do Dolby Surround que tem  em casa e da sorte que é ter continuado a fazer contabilidade em Lisboa e não ter sido transferido para não sei onde. Seus modos e sotaque têm um quê de africano de Angola misturado com um certo falar lisboeta que diz lesboalampedas e sefás. Sempre são 30 anos de muito jogo com cerveja à mistura. 

domingo, 22 de janeiro de 2012

E pur si muove




A marca de água de “Os Bórgia” de Neil Jordan, e sua rara particularidade, é a forma como consegue fixar o design e os actores em retratos de época. Experimente-se parar a imagem e ficamos com a impressão de uma pintura. Pensamos em Michelangelo, Leonardo Da Vinci e outros pintores da Renascença. Mesmo que inadvertidamente, pois a excelência do decor e a direcção de actores a isso põem-se a jeito. Quem não consiga carregar no botão de pausa poderá ainda assim em determinados momentos intuir um quadro em movimento, ser surpreendido por um “lá está, aqui temos um quadro”. Reparamos no óbvio que é os retratos então pintados serem reproduções de formas de ser e estar daquele tempo. Constatamos que é raro termos isso movendo-se em imagens. Pessoalmente só consigo lembrar-me de uma tentativa na obra-prima de Éric Rohmer "A Inglesa e o Duque”, se bem de forma mais explícita e num registo distinto, cujo exemplo maior é o uso da própria pintura como cenário.

É pois o trabalho de composição a maior valia de "Os Bórgias": fixar o movimento na forma, “pintar” a forma no movimento. No resto, a série talvez prime por um excesso de suspense, morte e violência – ainda vou no terceiro episódio e vejo ali matéria para o triplo  - o que também pode ser considerado uma qualidade, dependendo de por onde se olhe. A verdade é que aquilo agarra, e não chegando aos calcanhares de "Rome", não é pateta e batoteiro como "The Tudors". Valerá sempre a pena, quanto mais não seja por termos Jeremy Irons a fazer de Papa Alexandre VI (Rodrigo Bórgia) numa interpretação de assombro. Ele e a reprodução do Vaticano renascentista por si só valem o tempo empregue. E perdoam qualquer coisinha. 



Adenda: Tentando ver se tudo isto não era só impressão minha, deparei com este esforço curioso. Um esforço que vale a pena :)

sábado, 14 de janeiro de 2012

Documentos


Gosto às vezes de me sentar ao sofá e ir aleatoriamente pelas gravações do Meo. “Bugsy”, de Barry Levinson era dos poucos mafia movies que me falta ver. Bom filme, tem força, drama, mistério, é tudo menos redundante, todo ele à volta da imprevisibilidade da persona de Benjamin "Bugsy" Siegel e da interrogação que ainda sobre ele paira: gangster ou visionário? Creio que seria sobretudo um gangster cheio de vulnerabilidades, era frágil, os maiores mafiosos do século XX não levavam isso a mal até ao dia em que provaram não estar à altura daquela visão milionária. Mal agradecidos, fartaram-se de ganhar dinheiro com ele, provavelmente mais  do que com qualquer outro ser humano. Ainda hoje
Sou cada vez mais levado a crer que os melhores biopics são os que metem bandidos. E que Warren Beaty e Annete Benning foram mesmo feitos um para o outro, e que Ennio Morricone é em si uma marca de agigantamento de um filme. Parece que Barry Levison anda a rodar mais um filme do género, agora sobre a vida de John Gotti e do filho John Gotti Jr. Al Pacino faz do mentor Neil Dellacroce e John Travolta do Gotti mais velho. A história sabe-se que é daquelas de caixão à cova*.

Depois vi o documentário "Documento Boxe" de Miguel Clara Vasconcelos. Tinha isto gravado a 3 de Dezembro. Muito bom. Anda à volta das habituais histórias do boxe e de Jorge Pina, incrível boxeador, atleta e personagem no melhor sentido do termo. 
O boxe é um sub-mundo que verdadeiramente me interessa. Digo sub-mundo porque há ali muito mais sub-mundo que mundo propriamente dito. Como desporto não sou assim grande apreciador, mas o meio fascina-me. Sou grande adepto de tudo o que é filme sobre boxe que me vem parar ás mãos: "Belarmino" de Fernando Lopes, "Counterpuncher" de Bruno de Almeida, "Raging Bull" de Martin Scorsese, "Million Dollar Baby" de Clint Eastwood, o primeiro e ultimo "Rocky" de Silvester Stallone. Uns melhores que outros, são todos bons filmes. Ando doido para ver o documentário “Tyson” de James Toback, o mesmo que escreveu “Bugsy”. Duma maneira ou de outra isto está tudo ligado. 


(*) - Também parece que foi suspensa a rodagem do filme, não há dinheiro, dizem.

Mais uma semana, mais uma viagem




46 mil euros mês acumulando com uma reforma de 9693 euros? Olhem, é bom para o Estado, 50% do que ganho vai para impostos. Insistem? Querem o quê? Se querem competência, eu sou o Cristiano Ronaldo da gestão. Mais perguntas? Logo vi. 
Entretanto, agora é Relvas que quer incentivar os jovens a emigrar, Manuela Ferreira Leite quer que quem tenha mais de 70 anos pague a hemodiálise, o Álvaro quer franchises de pasteis de nata, Mário Crespo quer Miguel Beleza pela 3589 vez no seu programa. Insistem? Querem o quê? Não vêem que isto de Portugal está para lá das vossas possibilidades. Trabalhem muito, rezem. Não há dinheiro. Mais perguntas? Logo vi. 


(Foto Henricartoon)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Habemus Papam




Nanni Moretti é verdadeiramente o que se pode chamar um tipo decente. De finíssimo humor, é culto, despretensioso, afiado na critica, sarcástico, exímio na arte da ironia, entre demais extraordinárias qualidades que o tornam absolutamente essencial em todo este terrífico panorama presente. Depois tem outra particularidade que junta ao seu lúcido esquerdismo militante: é assumidamente ateu. Em “Habemus Papam”, Moretti presta-se a fazer um filme à volta da eleição de um Papa.
O Papa recém eleito (Michel Piccoli) vacila perante o peso da responsabilidade que subitamente tem perante si e a sua vida. Não se sentindo à altura da colossal tarefa que tem em mãos, o Stress, o pânico e a depressão tomam conta dele, Moretti é o psicanalista incumbido de tentar fazer qualquer coisa. Eis o ponto de partida de "Habemus Papam". Espera-se uma “psicanálise” ao Papa eleito, mas a situação digamos que é adiada, o Papa foge e desaparece em Roma, de onde vive sua crise existencial paredes meias com um quotidiano mediático que discute hipóteses e cenários perante o que realmente aconteceu ao novo Papa. Enquanto isto, em pleno Vaticano e à falta de melhor, Moretti, cardeais e não só, vão aguentando o impasse o melhor que podem e sabem. Daí chegam insólitos momentos de comédia como o recolher aos aposentos antes de dormir, os jogos de cartas, ou um campeonato de voleibol a fazer lembrar o jardim escola. Lá fora, o Papa eleito está mais virado para o teatro de Tchekov. Perante isto, o final soa um pouco apressado, rebuscado até. De qualquer forma, a verdade é que o Papa não está nem pronto nem a ponto, não poderia estar, não há milagres, mesmo que inadvertidamente se busque no filme alguma "transcendência divina", mesmo em se tratando de uma comédia de um céptico ateu de esquerda. Mas Nanni Moretti não está ali para enganar ninguém. Na verdade, escolheu o final que escolheu, fez o filme que bem quis e os dois inconciliáveis mundos ateu e católico continuam tão incomunicáveis como estavam no início do filme. Porém, da gentileza desse contacto – não creio que se possa aqui dizer encontro – ambos saem bem na fotografia: o ateísmo puro e duro e a Igreja Católica a poder rir-se de si própria; o tom levemente irreal do filme a isso ajuda. Não por acaso Moretti foi mais atacado por não ter feito um filme de protesto do que por feito troça da igreja católica. O que prova mais uma vez que este genial cineasta romano vive para além do "mercado das expectativas". Fez o  filme que quis e soube fazer e não o filme que a maralha queria que fizesse. O que só abona a seu favor. 

domingo, 8 de janeiro de 2012

A Taberna do Espanhuélio

Estávamos em Milfontes, num Agosto algures em meados dos anos 90. Havia na altura uma taberna perto do castelo que servia de poiso para fugir ao maralhal. Tinha a Sagres barata e era muito agradável, genuína e sem gente. Raramente via lá alguém que não o dono, já com os seus setenta e muitos, e a mãe do senhor, que pelas minhas contas só podia andar pelos noventas. 
Taberna alentejana, mas cheia de luz, com um lindo tecto de canas, paredes brancas e duas mesitas, uma de cada lado. Limpa, aprumada, arejada, com nada que se assemelhe à ideia que normalmente se tem de uma taberna, mais ainda da lisboeta, que escura tresanda a vinho e a alcoolismo decrépito. 
Eu sentava-me na mesa da esquerda, como quem entra, pedia uma Sagres, lia o jornal, um livro, ou então não lia nada, saboreava do silêncio que o velhote taberneiro devia andar farto de saborear. Se fosse pelos ares que tinha, não se devia cansar daquilo, mesmo sendo raro entrar lá alguém e quando entrava era mais de passagem, mesmo à noite, que o pessoal queria era acção e a pouca acção que havia era num ou noutro bar dançante e na Barbacã, onde se ouviam guitarras e se via a noite  na foz do Rio Mira, uma das mais esplendorosas vistas que se podem conhecer em vida.
Um desses dias, vindo da praia, trazia com os jornais o livro “Leão, o Africano”, de Amin Maloouf. Foi a primeira vez que do taberneiro não ouvi a conta.
- Permita-te que lhe interrompa a leitura, mas o que é que o senhor está a ler?
Mostrei o livro.
- Há esse! O Amim Maalouf. Conheço, conheço...
- Este é uma história incrível.
- O jovem deve conhecer "As cruzadas vistas pelos árabes"...
- Não. Esse nunca li.
- Pois esse eu li.
- E gostou?
- Gostei. É muito interessante. 
Começou a falar do livro, das cruzadas, dos árabes, de Maomé, de história, de Portugal, da igreja, de políticos, de bandidos, de vigaristas, tudo numa salganhada confusa, repetitiva e incongruente, que na verdade não me posso recordar. Sei que me fazia perder em divagações, porque não ia ler o jornal ou o livro com ele a dirigir-me a palavra, então deixava-o falar à vontade, mais a mais porque seria incapaz de ser mal educado e rude com o senhor. Só desejava que acabasse o monólogo para ir à minha vida, antes que tivesse de arranjar uma desculpa e cavar dali para fora. Mas nem foi preciso. Pelo contrário. Não podia estar a sonhar.
- Estava-lhe a dizer que é o melhor escritor do mundo. Estive a falar com um senhor que sabe destas coisas e ele informou-me: o Amin Malouf é o melhor escritor do mundo!
Quem sou eu para contradizer juízo tão categórico? Como duma outra vez em que o silêncio se interrompeu com a chegada de duas espanholas de calções e indumentária campista. Queriam conhecer, ver gente, tomar o pulso à vila, conversar. Pediram duas cervejas, mas não se foram sentar na mesa da direita, queriam antes ficar de pé, frente-a-frente. Muito directas, as espanholas.
- Qué hay para ver por aquí?
- Vociês son dondiê?
- Venimos de Madrid.
- De Madrid! Muy bonita, Madrid...
- Usted conoce Madrid?
- No. Solo las fiotios, todas muy líndias, muchos monumentios, mucha artie...
- Si. Nos encanta.
- Pues, pues...La artie encanta...
- Señor, se le olvidó a nuestra pregunta...
- Que pergunta?
- Que hay asi de más bonito y interesante para ver aquí...
- Aqui muchas playas, vila muy bonitia... El castielio...El rio...Los barcios fazen travessias para la otra margen, y tanbién fazen passeios en el Rio Miria...
-Y donde se pueden comprar las tarjetas?
- Desculpie, no ouvi bien. Vociê dissie tarjetas?
- Bilhetes  - disse eu de fundo.
- Tarjetas, tarjetas encuentria ali abaixio, suben esta ruia en frientie, despues viran a la esquierdia, descien siempre las esciadas y finalmientie encuentrian la tarjeteiria; mas tarjetas tarjetas solo amanhiana, a partir de las nuevie...
Não podiam deixar de estranhar tão exótico portunhol, porém sentiam-se fascinadas pela simpatia e candura do velho homem. Eu, afim de me aguentar, nem olhava, limitava-me a ouvir, só mesmo a curiosidade, que era tanta, fazia com que seguisse estoicamente a conversa. Também não me queria desmanchar a rir. Sentir-me ia mal com isso.
- Y para comer?
- La comidia del alentejio es muy buenia. Hay buenios restaurantiés aqui.
- Por ejemplo?
- Por ejemplo "La Fatieixia", al frientie del Caiés tiene muy buenio peixie...
- Usted dijo Cais?
- Si, si. Cais...Cais es en português...

Voltei no dia seguinte à noite, com o meu irmão. Quisemos variar a ementa, mas tínhamos poucas hipóteses: whisky não, vodka não, Gin não, vinhaça sim, cerveja sempre, ginginha sim, Martini sim, este fisicamente falando, pois víamos três garrafas numa prateleira por detrás do balcão, três garrafas. Ele teve a ideia. 
- Queres um Martini?
- Vamos ao Martini.
- Então são dois Martinis.
Olhou-nos como se tivesse sido atingido por alguma coisa que ainda hoje não sei precisar qual, via-se nele como que um remorso de inevitabilidade. Tão irreal e fora de tom como incompreensível naquele momento.
- Martini não há.
Olhámos um para o outro e olhámos para as garrafas. Engolindo em seco, perguntámos em uníssono.
- Não há!?
- As garrafas que estão a ver não são para consumo. 
Sentiu necessidade de se explicar.
-As garrafas só estão ali para compor o mostruário, para enfeitar, não as vou estragar compreendam... Então depois como é que fica? Não me levem a mal. 
Embaraçado, estava a ser sincero, desalmadamente sincero. Da nossa parte não queríamos de forma alguma, nem mesmo a brincar, estragar-lhe seu tão estimado mostruário, daí que a bem, e sem qualquer espécie de ressentimento, decidirmos voltar à Sagres, de onde aliás nunca tínhamos saído. Fomos-nos sentar. Bebemos as cervejas, conversámos. Pedimos mais duas, conversámos mais. Quando estamos juntos é raro pararmos de falar. Nem damos com as horas. Daí que não saiba dizer a quantas páginas chegaram ali as espanholitas do dia anterior. Vais ver agora como não te estava a mentir, disse-lhe logo assim ao ouvido.
Pediram dois Martinis. Não, não me peçam para dizer mais nada, não aguentei. Foi sair, disparado, como um míssil, porta fora. Confirmei mais tarde pela boca do meu irmão: "los Martiniés no puedien sierie, no son para consumio, sólo están aqui para enfeitiarie el mostruiário."

sábado, 7 de janeiro de 2012

Janeiras

Ontem só consegui espreitar de relance a SIC Notícias. Debate quinzenal na Assembleia da Republica. Os mesmos soundbytes de tantos outros debates quinzenais na Assembleia da Republica, existe certamente um arquétipo platónico para os soundbytes dos nossos debates quinzenais na Assembleia da Republica. 
Depois ainda houve tempo para as Janeiras, primeiro com Cavaco, depois com Passos Coelho. E conseguir ouvir da boca do primeiro ministro qualquer coisa como:"o povo tem de sentir estas medidas como sendo suas". Os salazarinhos gostaram. 

sábado, 31 de dezembro de 2011

2011


2011 foi um ano muito difícil, tramado pela crise, pela chegada da Troika e pelos últimos actos deste governo assustadoramente mau. No resto houve catástrofes como todos os anos. O Facebook continuou a sua cavalgada até onde não se sabe onde.  Infelizmente o Porto foi campeão, o Barça também, o Man United também, o AC Milan também; o Corinthians, vá-lá, ganhou no Brasil, se bem que eu quisesse que ganhasse o Fluminense ou o Vasco, o River Plate desceu de divisão na Argentina. O Sporting parece que se salvou da depressão em que andava metido e deixou-me finalmente entusiasmado como não me sentia desde que o Peseiro me meteu sonhos à frente dos olhos para os esfarelar logo a seguir. 
Morreram heróis como Sidney Lumet, Sócrates, Peter Falk, Steve Jobs, Christopher Hitchens e Vaclav Havel. Há esta novidade do cancro nos presidentes dos países da América do Sul, e se as detestáveis teorias da conspiração não merecem aqui alguma legitimação, também não sei onde a poderão merecer. 

Em termos de leituras, 2011 foi um ano de descobertas, algumas tardias e de palmatória: Machado de Assis ("Memórias Póstumas de Brás Cubas" e "Dom Casmurro"), Herman Melville ("Moby Dick" e "Bartleby"), José Rentes de Carvalho ("La Coca"), Martin Amis ("Money" e "Koba, The Dread"), Knut Hamsun ("Fome") e Michel Houellebecq ("A Possibilidade de uma Ilha"). Acabo o ano com um dos meus escritores preferidos, Saul Bellow e "As Aventuras de Augie March", que tanto promete

No cinema vi muito poucos filmes para andar a fazer balanços, mas posso dizer que foi um ano raro. Voltei finalmente a ver um Monte Hellman - do qual "Two Lane Blacktop" há uns anos na Cinemateca se tornou dos filmes da minha vida. Voltei a ver um Terrence Malick, só uma vez, o que se calhar é insuficiente para um filme com a complexidade de "The Tree of Life". Gostei do "Carlos" de Olivier Assayas e vi um dos melhores filmes dos últimos anos - "Sangue do Meu Sangue" de João Canijo. O ultimo do Cronenberg foi uma decepção, comparado com os filmes anteriores; o ultimo Almodóvar reza que sim, mas não vi nem vou ver; devia ter visto o ultimo Woody Allen, mas agora só em vídeo. Nanni Moretti entrará no meu 2012.

2011 fica-me ainda na memória como o ano em que descobri "The Wire". Não faço comparações com "The Sopranos", "Mad Men" ou o "The Office" inglês, só para falar nas séries preferidas, mas nenhuma me bateu forte como esta. Em televisão nunca tinha visto nada assim, que conseguisse sequer ao de leve retratar a realidade - nos seus desequilíbrios e ambiguidades - de uma forma tão realista, estruturada e credível. Deixando no fim um sentimento de ausência, de saudades daquelas "pessoas". Nisso sinto-me com sorte, ainda me faltam ver a 4ª e 5ª séries. 

Agora vem um 2012 cheio de perigos, social, financeira, económica, política e moralmente falando. Ainda assim, há muita vida além da merda que nos trazem validada. Ando estranhamente optimista para 2012, um optimismo pouco racional, muito moderado, muito temperado, muito fraquinho, o meu optimismo.


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Bacalhau com batatas



São livros estáticos, com diálogos em que se repete mil vezes a mesma ideia, se repisa uma questão como fazem os bêbedos. Entretanto, qualquer coisa como uma neblina se vai erguendo da monotonia. E aí atinge-se o que Pessoa visava quando do "sino" da sua "aldeia" dizia que a "primeira pancada" tinha o som de "repetida". É o efeito longínquo da dolência, da balada. Em todo o caso, a neblina leva tempo a erguer-se. Definitivamente, Hemingway era bastante ignorante e de inteligência escassa. Os seus livros só podem agradar inteiramente aos que em cultura e inteligência nos estão aquém ou muito além da média. Estes últimos gostam, como o ricaço gourmet gostava de um prato de bacalhau com batatas. Por desfastio. 

Vergílio Ferreira, Conta-Corrente 1Livraria Bertrand, 1980, p. 289.

Sempre achei Hemingway um chato, e tenho os romances quase todos dele, que me ficaram do meu avô. Dei uma oportunidade a cada um, até mais do que uma, larguei-os a todos. São a meu ver romances frágeis, deslumbram-se demasiado consigo próprios, com tanta graciosidade, engenho, talento e virtuosismo, falta-lhes vigor, verdade, vida, osso e músculo - o que é curioso numa figura como Ernest Hemingway, homem de experiências e virilidades. 
Com efeito, os contos que conheço de Hemingway são excelentes. Ali onde tudo se joga no poder de síntese e não é dado espaço a "poses", leio um escritor mais a sério, a valer, dos muito bons. Por exemplo, no assombroso "Os Assassinos" ("The Killers" no original), a tal neblina fica no final aberto a pender para o trágico - é uma neblina mistério, que nos deixa intrigados sem que nos apeteça passar ao conto seguinte. Nos romances, a neblina é outra, chata como a potassa. Mas ah e tal, faz parte do cânone...
Obrigado Vergílio Ferreira, ao menos sei que o problema não é só meu.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Casos

Meteu na cabeça, tem de ter razão. Nunca dar o braço a torcer. Ponto de partida e chegada porque sim, arma-se em combates de semântica, muitas vezes sob pontos de vista estapafúrdios e argumentos indefensáveis que quando expostos à sua fraqueza derrotada defendem-se em enérgicos desvios de conversa e projecções de sacos de areia para os olhos num eficaz, rápido, enérgico e furioso instinto indefensável. Querer é poder. Vem daí o aprendizado da finta, da dissimulação e em ultima instância do instinto detonador da falsidade que do tão grande desígnio do eu eu mais eu, como que se impera no seu domínio. Isso é a tua opinião, atira, e a armada da semântica ganha outro fôlego. É quando eu largo e desisto - penso em respirar. Toma lá a espada, é de latão.