domingo, 22 de janeiro de 2012

E pur si muove




A marca de água de “Os Bórgia” de Neil Jordan, e sua rara particularidade, é a forma como consegue fixar o design e os actores em retratos de época. Experimente-se parar a imagem e ficamos com a impressão de uma pintura. Pensamos em Michelangelo, Leonardo Da Vinci e outros pintores da Renascença. Mesmo que inadvertidamente, pois a excelência do decor e a direcção de actores a isso põem-se a jeito. Quem não consiga carregar no botão de pausa poderá ainda assim em determinados momentos intuir um quadro em movimento, ser surpreendido por um “lá está, aqui temos um quadro”. Reparamos no óbvio que é os retratos então pintados serem reproduções de formas de ser e estar daquele tempo. Constatamos que é raro termos isso movendo-se em imagens. Pessoalmente só consigo lembrar-me de uma tentativa na obra-prima de Éric Rohmer "A Inglesa e o Duque”, se bem de forma mais explícita e num registo distinto, cujo exemplo maior é o uso da própria pintura como cenário.

É pois o trabalho de composição a maior valia de "Os Bórgias": fixar o movimento na forma, “pintar” a forma no movimento. No resto, a série talvez prime por um excesso de suspense, morte e violência – ainda vou no terceiro episódio e vejo ali matéria para o triplo  - o que também pode ser considerado uma qualidade, dependendo de por onde se olhe. A verdade é que aquilo agarra, e não chegando aos calcanhares de "Rome", não é pateta e batoteiro como "The Tudors". Valerá sempre a pena, quanto mais não seja por termos Jeremy Irons a fazer de Papa Alexandre VI (Rodrigo Bórgia) numa interpretação de assombro. Ele e a reprodução do Vaticano renascentista por si só valem o tempo empregue. E perdoam qualquer coisinha. 



Adenda: Tentando ver se tudo isto não era só impressão minha, deparei com este esforço curioso. Um esforço que vale a pena :)

sábado, 14 de janeiro de 2012

Documentos


Gosto às vezes de me sentar ao sofá e ir aleatoriamente pelas gravações do Meo. “Bugsy”, de Barry Levinson era dos poucos mafia movies que me falta ver. Bom filme, tem força, drama, mistério, é tudo menos redundante, todo ele à volta da imprevisibilidade da persona de Benjamin "Bugsy" Siegel e da interrogação que ainda sobre ele paira: gangster ou visionário? Creio que seria sobretudo um gangster cheio de vulnerabilidades, era frágil, os maiores mafiosos do século XX não levavam isso a mal até ao dia em que provaram não estar à altura daquela visão milionária. Mal agradecidos, fartaram-se de ganhar dinheiro com ele, provavelmente mais  do que com qualquer outro ser humano. Ainda hoje
Sou cada vez mais levado a crer que os melhores biopics são os que metem bandidos. E que Warren Beaty e Annete Benning foram mesmo feitos um para o outro, e que Ennio Morricone é em si uma marca de agigantamento de um filme. Parece que Barry Levison anda a rodar mais um filme do género, agora sobre a vida de John Gotti e do filho John Gotti Jr. Al Pacino faz do mentor Neil Dellacroce e John Travolta do Gotti mais velho. A história sabe-se que é daquelas de caixão à cova*.

Depois vi o documentário "Documento Boxe" de Miguel Clara Vasconcelos. Tinha isto gravado a 3 de Dezembro. Muito bom. Anda à volta das habituais histórias do boxe e de Jorge Pina, incrível boxeador, atleta e personagem no melhor sentido do termo. 
O boxe é um sub-mundo que verdadeiramente me interessa. Digo sub-mundo porque há ali muito mais sub-mundo que mundo propriamente dito. Como desporto não sou assim grande apreciador, mas o meio fascina-me. Sou grande adepto de tudo o que é filme sobre boxe que me vem parar ás mãos: "Belarmino" de Fernando Lopes, "Counterpuncher" de Bruno de Almeida, "Raging Bull" de Martin Scorsese, "Million Dollar Baby" de Clint Eastwood, o primeiro e ultimo "Rocky" de Silvester Stallone. Uns melhores que outros, são todos bons filmes. Ando doido para ver o documentário “Tyson” de James Toback, o mesmo que escreveu “Bugsy”. Duma maneira ou de outra isto está tudo ligado. 


(*) - Também parece que foi suspensa a rodagem do filme, não há dinheiro, dizem.

Mais uma semana, mais uma viagem




46 mil euros mês acumulando com uma reforma de 9693 euros? Olhem, é bom para o Estado, 50% do que ganho vai para impostos. Insistem? Querem o quê? Se querem competência, eu sou o Cristiano Ronaldo da gestão. Mais perguntas? Logo vi. 
Entretanto, agora é Relvas que quer incentivar os jovens a emigrar, Manuela Ferreira Leite quer que quem tenha mais de 70 anos pague a hemodiálise, o Álvaro quer franchises de pasteis de nata, Mário Crespo quer Miguel Beleza pela 3589 vez no seu programa. Insistem? Querem o quê? Não vêem que isto de Portugal está para lá das vossas possibilidades. Trabalhem muito, rezem. Não há dinheiro. Mais perguntas? Logo vi. 


(Foto Henricartoon)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Habemus Papam




Nanni Moretti é verdadeiramente o que se pode chamar um tipo decente. De finíssimo humor, é culto, despretensioso, afiado na critica, sarcástico, exímio na arte da ironia, entre demais extraordinárias qualidades que o tornam absolutamente essencial em todo este terrífico panorama presente. Depois tem outra particularidade que junta ao seu lúcido esquerdismo militante: é assumidamente ateu. Em “Habemus Papam”, Moretti presta-se a fazer um filme à volta da eleição de um Papa.
O Papa recém eleito (Michel Piccoli) vacila perante o peso da responsabilidade que subitamente tem perante si e a sua vida. Não se sentindo à altura da colossal tarefa que tem em mãos, o Stress, o pânico e a depressão tomam conta dele, Moretti é o psicanalista incumbido de tentar fazer qualquer coisa. Eis o ponto de partida de "Habemus Papam". Espera-se uma “psicanálise” ao Papa eleito, mas a situação digamos que é adiada, o Papa foge e desaparece em Roma, de onde vive sua crise existencial paredes meias com um quotidiano mediático que discute hipóteses e cenários perante o que realmente aconteceu ao novo Papa. Enquanto isto, em pleno Vaticano e à falta de melhor, Moretti, cardeais e não só, vão aguentando o impasse o melhor que podem e sabem. Daí chegam insólitos momentos de comédia como o recolher aos aposentos antes de dormir, os jogos de cartas, ou um campeonato de voleibol a fazer lembrar o jardim escola. Lá fora, o Papa eleito está mais virado para o teatro de Tchekov. Perante isto, o final soa um pouco apressado, rebuscado até. De qualquer forma, a verdade é que o Papa não está nem pronto nem a ponto, não poderia estar, não há milagres, mesmo que inadvertidamente se busque no filme alguma "transcendência divina", mesmo em se tratando de uma comédia de um céptico ateu de esquerda. Mas Nanni Moretti não está ali para enganar ninguém. Na verdade, escolheu o final que escolheu, fez o filme que bem quis e os dois inconciliáveis mundos ateu e católico continuam tão incomunicáveis como estavam no início do filme. Porém, da gentileza desse contacto – não creio que se possa aqui dizer encontro – ambos saem bem na fotografia: o ateísmo puro e duro e a Igreja Católica a poder rir-se de si própria; o tom levemente irreal do filme a isso ajuda. Não por acaso Moretti foi mais atacado por não ter feito um filme de protesto do que por feito troça da igreja católica. O que prova mais uma vez que este genial cineasta romano vive para além do "mercado das expectativas". Fez o  filme que quis e soube fazer e não o filme que a maralha queria que fizesse. O que só abona a seu favor. 

domingo, 8 de janeiro de 2012

A Taberna do Espanhuélio

Estávamos em Milfontes, num Agosto algures em meados dos anos 90. Havia na altura uma taberna perto do castelo que servia de poiso para fugir ao maralhal. Tinha a Sagres barata e era muito agradável, genuína e sem gente. Raramente via lá alguém que não o dono, já com os seus setenta e muitos, e a mãe do senhor, que pelas minhas contas só podia andar pelos noventas. 
Taberna alentejana, mas cheia de luz, com um lindo tecto de canas, paredes brancas e duas mesitas, uma de cada lado. Limpa, aprumada, arejada, com nada que se assemelhe à ideia que normalmente se tem de uma taberna, mais ainda da lisboeta, que escura tresanda a vinho e a alcoolismo decrépito. 
Eu sentava-me na mesa da esquerda, como quem entra, pedia uma Sagres, lia o jornal, um livro, ou então não lia nada, saboreava do silêncio que o velhote taberneiro devia andar farto de saborear. Se fosse pelos ares que tinha, não se devia cansar daquilo, mesmo sendo raro entrar lá alguém e quando entrava era mais de passagem, mesmo à noite, que o pessoal queria era acção e a pouca acção que havia era num ou noutro bar dançante e na Barbacã, onde se ouviam guitarras e se via a noite  na foz do Rio Mira, uma das mais esplendorosas vistas que se podem conhecer em vida.
Um desses dias, vindo da praia, trazia com os jornais o livro “Leão, o Africano”, de Amin Maloouf. Foi a primeira vez que do taberneiro não ouvi a conta.
- Permita-te que lhe interrompa a leitura, mas o que é que o senhor está a ler?
Mostrei o livro.
- Há esse! O Amim Maalouf. Conheço, conheço...
- Este é uma história incrível.
- O jovem deve conhecer "As cruzadas vistas pelos árabes"...
- Não. Esse nunca li.
- Pois esse eu li.
- E gostou?
- Gostei. É muito interessante. 
Começou a falar do livro, das cruzadas, dos árabes, de Maomé, de história, de Portugal, da igreja, de políticos, de bandidos, de vigaristas, tudo numa salganhada confusa, repetitiva e incongruente, que na verdade não me posso recordar. Sei que me fazia perder em divagações, porque não ia ler o jornal ou o livro com ele a dirigir-me a palavra, então deixava-o falar à vontade, mais a mais porque seria incapaz de ser mal educado e rude com o senhor. Só desejava que acabasse o monólogo para ir à minha vida, antes que tivesse de arranjar uma desculpa e cavar dali para fora. Mas nem foi preciso. Pelo contrário. Não podia estar a sonhar.
- Estava-lhe a dizer que é o melhor escritor do mundo. Estive a falar com um senhor que sabe destas coisas e ele informou-me: o Amin Malouf é o melhor escritor do mundo!
Quem sou eu para contradizer juízo tão categórico? Como duma outra vez em que o silêncio se interrompeu com a chegada de duas espanholas de calções e indumentária campista. Queriam conhecer, ver gente, tomar o pulso à vila, conversar. Pediram duas cervejas, mas não se foram sentar na mesa da direita, queriam antes ficar de pé, frente-a-frente. Muito directas, as espanholas.
- Qué hay para ver por aquí?
- Vociês son dondiê?
- Venimos de Madrid.
- De Madrid! Muy bonita, Madrid...
- Usted conoce Madrid?
- No. Solo las fiotios, todas muy líndias, muchos monumentios, mucha artie...
- Si. Nos encanta.
- Pues, pues...La artie encanta...
- Señor, se le olvidó a nuestra pregunta...
- Que pergunta?
- Que hay asi de más bonito y interesante para ver aquí...
- Aqui muchas playas, vila muy bonitia... El castielio...El rio...Los barcios fazen travessias para la otra margen, y tanbién fazen passeios en el Rio Miria...
-Y donde se pueden comprar las tarjetas?
- Desculpie, no ouvi bien. Vociê dissie tarjetas?
- Bilhetes  - disse eu de fundo.
- Tarjetas, tarjetas encuentria ali abaixio, suben esta ruia en frientie, despues viran a la esquierdia, descien siempre las esciadas y finalmientie encuentrian la tarjeteiria; mas tarjetas tarjetas solo amanhiana, a partir de las nuevie...
Não podiam deixar de estranhar tão exótico portunhol, porém sentiam-se fascinadas pela simpatia e candura do velho homem. Eu, afim de me aguentar, nem olhava, limitava-me a ouvir, só mesmo a curiosidade, que era tanta, fazia com que seguisse estoicamente a conversa. Também não me queria desmanchar a rir. Sentir-me ia mal com isso.
- Y para comer?
- La comidia del alentejio es muy buenia. Hay buenios restaurantiés aqui.
- Por ejemplo?
- Por ejemplo "La Fatieixia", al frientie del Caiés tiene muy buenio peixie...
- Usted dijo Cais?
- Si, si. Cais...Cais es en português...

Voltei no dia seguinte à noite, com o meu irmão. Quisemos variar a ementa, mas tínhamos poucas hipóteses: whisky não, vodka não, Gin não, vinhaça sim, cerveja sempre, ginginha sim, Martini sim, este fisicamente falando, pois víamos três garrafas numa prateleira por detrás do balcão, três garrafas. Ele teve a ideia. 
- Queres um Martini?
- Vamos ao Martini.
- Então são dois Martinis.
Olhou-nos como se tivesse sido atingido por alguma coisa que ainda hoje não sei precisar qual, via-se nele como que um remorso de inevitabilidade. Tão irreal e fora de tom como incompreensível naquele momento.
- Martini não há.
Olhámos um para o outro e olhámos para as garrafas. Engolindo em seco, perguntámos em uníssono.
- Não há!?
- As garrafas que estão a ver não são para consumo. 
Sentiu necessidade de se explicar.
-As garrafas só estão ali para compor o mostruário, para enfeitar, não as vou estragar compreendam... Então depois como é que fica? Não me levem a mal. 
Embaraçado, estava a ser sincero, desalmadamente sincero. Da nossa parte não queríamos de forma alguma, nem mesmo a brincar, estragar-lhe seu tão estimado mostruário, daí que a bem, e sem qualquer espécie de ressentimento, decidirmos voltar à Sagres, de onde aliás nunca tínhamos saído. Fomos-nos sentar. Bebemos as cervejas, conversámos. Pedimos mais duas, conversámos mais. Quando estamos juntos é raro pararmos de falar. Nem damos com as horas. Daí que não saiba dizer a quantas páginas chegaram ali as espanholitas do dia anterior. Vais ver agora como não te estava a mentir, disse-lhe logo assim ao ouvido.
Pediram dois Martinis. Não, não me peçam para dizer mais nada, não aguentei. Foi sair, disparado, como um míssil, porta fora. Confirmei mais tarde pela boca do meu irmão: "los Martiniés no puedien sierie, no son para consumio, sólo están aqui para enfeitiarie el mostruiário."

sábado, 7 de janeiro de 2012

Janeiras

Ontem só consegui espreitar de relance a SIC Notícias. Debate quinzenal na Assembleia da Republica. Os mesmos soundbytes de tantos outros debates quinzenais na Assembleia da Republica, existe certamente um arquétipo platónico para os soundbytes dos nossos debates quinzenais na Assembleia da Republica. 
Depois ainda houve tempo para as Janeiras, primeiro com Cavaco, depois com Passos Coelho. E conseguir ouvir da boca do primeiro ministro qualquer coisa como:"o povo tem de sentir estas medidas como sendo suas". Os salazarinhos gostaram. 

sábado, 31 de dezembro de 2011

2011


2011 foi um ano muito difícil, tramado pela crise, pela chegada da Troika e pelos últimos actos deste governo assustadoramente mau. No resto houve catástrofes como todos os anos. O Facebook continuou a sua cavalgada até onde não se sabe onde.  Infelizmente o Porto foi campeão, o Barça também, o Man United também, o AC Milan também; o Corinthians, vá-lá, ganhou no Brasil, se bem que eu quisesse que ganhasse o Fluminense ou o Vasco, o River Plate desceu de divisão na Argentina. O Sporting parece que se salvou da depressão em que andava metido e deixou-me finalmente entusiasmado como não me sentia desde que o Peseiro me meteu sonhos à frente dos olhos para os esfarelar logo a seguir. 
Morreram heróis como Sidney Lumet, Sócrates, Peter Falk, Steve Jobs, Christopher Hitchens e Vaclav Havel. Há esta novidade do cancro nos presidentes dos países da América do Sul, e se as detestáveis teorias da conspiração não merecem aqui alguma legitimação, também não sei onde a poderão merecer. 

Em termos de leituras, 2011 foi um ano de descobertas, algumas tardias e de palmatória: Machado de Assis ("Memórias Póstumas de Brás Cubas" e "Dom Casmurro"), Herman Melville ("Moby Dick" e "Bartleby"), José Rentes de Carvalho ("La Coca"), Martin Amis ("Money" e "Koba, The Dread"), Knut Hamsun ("Fome") e Michel Houellebecq ("A Possibilidade de uma Ilha"). Acabo o ano com um dos meus escritores preferidos, Saul Bellow e "As Aventuras de Augie March", que tanto promete

No cinema vi muito poucos filmes para andar a fazer balanços, mas posso dizer que foi um ano raro. Voltei finalmente a ver um Monte Hellman - do qual "Two Lane Blacktop" há uns anos na Cinemateca se tornou dos filmes da minha vida. Voltei a ver um Terrence Malick, só uma vez, o que se calhar é insuficiente para um filme com a complexidade de "The Tree of Life". Gostei do "Carlos" de Olivier Assayas e vi um dos melhores filmes dos últimos anos - "Sangue do Meu Sangue" de João Canijo. O ultimo do Cronenberg foi uma decepção, comparado com os filmes anteriores; o ultimo Almodóvar reza que sim, mas não vi nem vou ver; devia ter visto o ultimo Woody Allen, mas agora só em vídeo. Nanni Moretti entrará no meu 2012.

2011 fica-me ainda na memória como o ano em que descobri "The Wire". Não faço comparações com "The Sopranos", "Mad Men" ou o "The Office" inglês, só para falar nas séries preferidas, mas nenhuma me bateu forte como esta. Em televisão nunca tinha visto nada assim, que conseguisse sequer ao de leve retratar a realidade - nos seus desequilíbrios e ambiguidades - de uma forma tão realista, estruturada e credível. Deixando no fim um sentimento de ausência, de saudades daquelas "pessoas". Nisso sinto-me com sorte, ainda me faltam ver a 4ª e 5ª séries. 

Agora vem um 2012 cheio de perigos, social, financeira, económica, política e moralmente falando. Ainda assim, há muita vida além da merda que nos trazem validada. Ando estranhamente optimista para 2012, um optimismo pouco racional, muito moderado, muito temperado, muito fraquinho, o meu optimismo.


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Bacalhau com batatas



São livros estáticos, com diálogos em que se repete mil vezes a mesma ideia, se repisa uma questão como fazem os bêbedos. Entretanto, qualquer coisa como uma neblina se vai erguendo da monotonia. E aí atinge-se o que Pessoa visava quando do "sino" da sua "aldeia" dizia que a "primeira pancada" tinha o som de "repetida". É o efeito longínquo da dolência, da balada. Em todo o caso, a neblina leva tempo a erguer-se. Definitivamente, Hemingway era bastante ignorante e de inteligência escassa. Os seus livros só podem agradar inteiramente aos que em cultura e inteligência nos estão aquém ou muito além da média. Estes últimos gostam, como o ricaço gourmet gostava de um prato de bacalhau com batatas. Por desfastio. 

Vergílio Ferreira, Conta-Corrente 1Livraria Bertrand, 1980, p. 289.

Sempre achei Hemingway um chato, e tenho os romances quase todos dele, que me ficaram do meu avô. Dei uma oportunidade a cada um, até mais do que uma, larguei-os a todos. São a meu ver romances frágeis, deslumbram-se demasiado consigo próprios, com tanta graciosidade, engenho, talento e virtuosismo, falta-lhes vigor, verdade, vida, osso e músculo - o que é curioso numa figura como Ernest Hemingway, homem de experiências e virilidades. 
Com efeito, os contos que conheço de Hemingway são excelentes. Ali onde tudo se joga no poder de síntese e não é dado espaço a "poses", leio um escritor mais a sério, a valer, dos muito bons. Por exemplo, no assombroso "Os Assassinos" ("The Killers" no original), a tal neblina fica no final aberto a pender para o trágico - é uma neblina mistério, que nos deixa intrigados sem que nos apeteça passar ao conto seguinte. Nos romances, a neblina é outra, chata como a potassa. Mas ah e tal, faz parte do cânone...
Obrigado Vergílio Ferreira, ao menos sei que o problema não é só meu.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Casos

Meteu na cabeça, tem de ter razão. Nunca dar o braço a torcer. Ponto de partida e chegada porque sim, arma-se em combates de semântica, muitas vezes sob pontos de vista estapafúrdios e argumentos indefensáveis que quando expostos à sua fraqueza derrotada defendem-se em enérgicos desvios de conversa e projecções de sacos de areia para os olhos num eficaz, rápido, enérgico e furioso instinto indefensável. Querer é poder. Vem daí o aprendizado da finta, da dissimulação e em ultima instância do instinto detonador da falsidade que do tão grande desígnio do eu eu mais eu, como que se impera no seu domínio. Isso é a tua opinião, atira, e a armada da semântica ganha outro fôlego. É quando eu largo e desisto - penso em respirar. Toma lá a espada, é de latão. 

заботиться





sábado, 24 de dezembro de 2011

Natal


Não sou pró nem anti-Natal. O Natal é bom se juntar as pessoas em bom espírito, comunhão, afecto e conversa, se houver crianças a vibrarem como eu vibrava, melhor ainda; se os abandonados à miséria, ou os sem abrigo sentirem algum calor humano e companhia melhor ainda...
O Natal é mau se – como é muito habitual – der azo a todo o género de hipocrisias de gente - familiares, conhecidos, colegas de trabalho - que não se grama nem tolera; ou se se servir de um consumismo desenfreado e exibicionismo parolo. Porque cansativo é sempre, não conheço ninguém a quem as maratonas de Natal não sejam cansativas. Se o cansaço é do bom e salutar isso já são outros quinhentos.

Eu vou passar o Natal em família, comer e beber bem. Desejo um feliz Natal a todos menos aqueles a quem não o desejo de todo, infelizmente não são poucos. 
Claro que o Natal é quando o homem quiser, mas a mim nada bate um bom de dia de praia na Costa Vincentina. Isso é que era um presente: toma lá um grande dia de praia. 


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Bios



Deitei-lhes hoje uma vista de olhos e parecem-me imbatíveis. Como não sou grande adepto de biografias e biopics, a crítica 5 estrelas de Mário Lopes no Público à auto-biografia de Keith Richards, de fazer fazer crescer água na boca, ou os eloquentes elogios de MEC à biografia de Luiz Pacheco por João Pedro George, nunca seriam por si só suficientes. Sempre são quase 50€, tenho em casa uma extensa fila de espera, há os livros que quero comprar, os autores que quero conhecer, sou pobre. Mas ter-lhes posto a mão em cima e lido dois ou três parágrafos de cada um vai agora obrigar-me a ler tudo o resto dos dois. Provei do veneno. Foi fatal. Já não tenho hipóteses.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Teorias


"Teorias" de manuel a. domingos tem poemas que gosto muito, outros nem tanto, é curto e breve e no final fica-se com vontade de prolongar o prazer. Sabe a muito sabendo a pouco. Destaco o efeito da ironia, o inusitado, a escrita seca, afiada, a espontaneidade, o ritmo fluído. 
Edição de autor, limitada a 100 exemplares, "Teorias" pode ser adquirido aqui. Abaixo fica um dos meus poemas eleitos.

Os meus fantasmas

Uma caneta
que não escreve
no momento
que o poema 
aperta

Cães a ladrar
para espantar a noite
que aperta contra 
a caneta

que não escreve

na noite 
onde cães ladram
para espantar
a caneta
que não escreve
o poema

que aperta
que me aperta

E a caneta
que não escreve
E os cães a ladrar
para espantar
a noite
para espantar 
a caneta que mesmo

assim não escreve
o poema 
que aperta


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Ossos

Tenho um problema num joelho a que nunca liguei nenhuma até há exactamente uma semana. Foram dias de dores altas, daquelas de ganir, daquelas que nos fazem rebolar como um jogador de futebol que tivesse levado uma valente cacetada. Ai o raio das dores. Aquilo sim é um aqui agora a que é impossível escapar, um não sais daqui, um agora é isto, aguenta-te e respira fundo. A melhor forma que tenho para descrever o pior daquilo é qualquer coisa como câimbras dormentes múltiplas, como se tivessem sido postas num pedal delay. Quando o tormento acalmava iniciava-se a alternância: dói aqui, dói ali, estala acoli, arde mais acima, pica mais abaixo, marioneta de cartilagens, articulações e tendões, fiquei logo a saber da pior forma como a dor num músculo da perna esquerda nos impossibilita de subir a cabeça na almofada da cama para sequer conseguir ler, que estar sentado é só durante pouco tempo e virado para a frente...Mesmo depois do hospital, mesmo depois das dosagens generosas de analgésicos e anti-inflamatórios. 
Os nervos também iam na enxurrada, inflamavam-se, caídos na armadilha do desgaste, caceteiro, mordendo o juízo, quebrando o sono a menos de duas horas seguidas, queimando todas as reservas de paciência. Que fazer? A solução só ocorreu a um médico grande amigo da família: talvez um calmante. Acertou. 
Foi tiro e queda, o arsenal de injecções, anti-inflamatórios e analgésicos teve finalmente a permissão para entrar em combate e foi como se o cavalo já estivesse dentro das muralhas de Tróia. Dormi a primeira noite da semana - a de Quinta para Sexta-feira. Quando acordei foi como um milagre erguer-me da cama sem ser preciso aplicar técnicas rotativas de jujitsu brasileiro para evitar as tais câimbras em pedal de delay. E conseguir pôr o pé no chão sem dores. E dormir mais ainda, de sol a sol. E depois noite adentro. E acordar ressuscitado. 


Só Sábado li os primeiros blogues da semana. Soube das péssimas noticias: morreu Christopher Hitchens, morreu Cesária Évora. Ontem morreu Václav Hável. Fiquei a pensar no aforismo "do que não me mata torna-me mais forte". Mas hoje morreu Kim Jong Hill, um assassino totalitário execrável demente filho da puta, ainda assim pronto a ser erguido à figura de deus daqueles milhões que tiveram o azar de nascer ali. Como quereriam ao menos ter um imbecil primeiro-ministro que sugerisse que emigrassem...

domingo, 11 de dezembro de 2011

103


Não resisto, há três anos que marco o ponto neste dia. Com a certeza de que vamos continuar a ter Cinema de Manoel de Oliveira. Filmes bons, outros não tão bons, uns se calhar sublimes, outros se calhar chatíssimos, mas todos a terem de ser tidos em conta. Clint Eastwood disse há pouco tempo que lhe quer seguir o exemplo. Há melhor exemplo?

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Haja saúde

Campo de Ourique, você é de Campo de Ourique? Sou. Tive lá um restaurante, muitos anos. Estou a reconhecê-lo, respondi. Campo de Ourique já não é o que era, antigamente era muito melhor. Anuí e reforcei: agora quando se diz que se é de Campo de Ourique soa logo a coisa bem. E enquanto eu pensava em tias a apinhar cafés, ele continuou a repetir, antigamente era muito melhor...
O taxímetro já ia em mais de sete euros mas ninguém se arrepende disso quando tem um joelho desfeito. E quem diria que passados uns 15 anos apanharia num taxi o dono daquele restaurante ao Jardim da Parada. Junto ao clube dos que largaram o café, dos engenheiros desempregados aos 50, dos reformados à mingua, dos antigos trabalhadores da Lisnave, e mais umas quantas histórias complicadas.
No Marquês retoma a conversa, eu agora daqui a 4 anos reformo-me e vou seis meses para o Brasil, não faço mais nada, só praia. Pois faz muito bem. Faço muito bem? Olhe meu amigo, eu trabalho desde 1964...Silêncio, rotunda percorrida e logo subimos a Bramcaamp, viro a cara para o prédio de José Sócrates, mas foi de Passos Coelho que ele falou. Com alguma distância, que quatro anos passam num instante. Foi rápido até me largar. Quanto é? Nove euros. Então faça 10. Muito obrigado, juntou a nota numa caixa e daí se virou, simpático e ternamente enrugado - olhe, muita saúde, o que é preciso na vida é ter saúde, o resto...Eu não peço mais nada na vida a não ser saúde. Não, engano-me, há mais uma coisa que peço...Calou-se para eu perguntar o que era. E respondeu: mulheres, mulheres, com isso...Com mulheres e com saúde eu vou a todo o lado...Saúde, mulheres e não peço mais nada. Era agora outro homem por trás do bigode. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Sangue do Meu Sangue



Numa guerra sem quartel ao cliché, "Sangue do Meu Sangue" de João Canijo é um filme sobre o amor incondicional no seio duma família. Partindo dessa premissa, partilha da sua força, pathos e sentimento.
Truffaut dizia que se consegue ver numa tela de cinema todo o trabalho dum filme desde o primeiro momento, que está tudo lá, escarrapachado para quem o conseguir ver. Em "Sangue do Meu Sangue" consegue-se perceber em toda aquela densidade o trabalho aturado, a dedicação incondicional, a direcção de actores, a forma como estes emergiram nos seus papeis, o absoluto sentido do pormenor. Numa estrutura que não parecendo é absolutamente linear na sua concepção de tragédia grega. O que nos ilude e ao mesmo tempo nos emerge no filme é essa unidade suprema a que chamamos de cena, aqui tratada em todas as suas implicações, remetendo-nos um pouco ao cinema comportamental de John Cassavetes e ao realismo social de Mike Leigh. Há momentos em que podemos pensar que se está a ultrapassar a fronteira, a ir longe demais. Percebe-se mais tarde que se foi até onde tinha de ir e ponto final. Mais nos surpreendemos ainda com a forma como tudo se acaba por encaixar no corpo do filme, que afinal nunca sai do seu caminho, ainda que se perca nos seus meandros.
Filme de actores, onde praticamente todas as interpretações são sublimes - com destaque maior para a grande actriz que é Rita Blanco; Anabela Moreira não lhe ficará muito atrás, também gosto muito de Cleia Almeida, de Rafael Morais, de Nuno Lopes, enfim, de todos, cada um há sua maneira a marcar o filme aqui e ali em momentos - cálculo - de elevadíssimo grau de entrega e dificuldade, ilustrados e bem no documentário "Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor". 
"Sangue do Meu Sangue" é uma obra-prima, de longe o melhor filme que vi em 2011 e seguramente dos melhores que vi em anos. Quem embarca nos peditórios habituais que desqualificam o cinema português não tem bem ideia do que perde. 


Adenda: Fui ver a versão longa do filme, leva mais de três horas que mais parecem hora e meia. Não consigo conceber versão mais curta. Se o filme fosse de 6 horas, provavelmente pensaria o mesmo. 



domingo, 4 de dezembro de 2011

Sócrates (1954-2011)


Sócrates era com Zico o mais carismático daquela mítica selecção que encheu a tantos as medidas para o resto da vída. Com Falcão, Júnior, Éder, Toninho Cerezo, Luisinho, ali até o frangueiro Valdir Peres tinha a sua aura. Sócrates era o mais único deles todos. Ele era o diferente, o médico doutor, o democrata activista contra a ditadura, o instigador e líder da Democracia Corinthiana. Não sei se foi por isso que via os meus pais e amigos a gostarem mais dele que dos outros, o que interessa é que aprendi bem cedo a respeitá-lo. Até sempre, super-craque. 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Passo


David Cronenberg disse que uma das motivações para "Dangerous Method" foi trazer de volta à vida Freud e Jung. Se o objecto foi a curiosidade, pois muito bem, Freud (Viggo Mortensen nunca nos deixa ficar mal) está excelente, Jung (Michael Fassbender) não destoa, a fotografia é soberba, os diálogos espirituosos, o décor lindíssimo, falta o resto: "Dangerous Method" é um filme sem rasgo nem força que o sustente. 
Com uma Keira Knightley sempre em esforço – nos momentos de histeria então tem a convicção de Catarina Furtado – e uma trama  incapaz de se fazer valer que não em truques de marca, "Dangerous Method" choca um pouco com a realidade, que implacável nos mostra que neste momento há muito melhor cinema em cartaz.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Um espelho cá fora


Ontem tive um daqueles longos sonhos inquietantes. Era Verão, a praia uma maravilha, sentia-me na Zambujeira mas mais parecia Porto Côvo - eu que "sou" de Vila Nova de Milfontes - quando subitamente um avião aproximou-se em queda livre e miraculosamente conseguiu amarar. Foi um tremendo alivio que logo foi desaparecendo ao reparar que todos continuavam na sua a gozar a bela da praia. Nem o nadador salvador se incomodou. Tive de sair dali afim de pedir socorro (no sonho não deviam haver telemóveis). Era na Costa da Caparica e nenhum telefone funcionava. Houve então quem me surgisse a acudir: "compreendo, mas agora já não vale a pena. Já se afogou tudo de certeza”. Aí acordei. Lixado com a cama em que me deitava.  

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Unending Ascent



An Ending (Ascent), do album Apollo: Atmospheres & Soundtracks de Brian Eno é dos sons mais estranhos e belos que se podem ouvir. Tendo algo de etéreo, ao mesmo tempo terreno e cósmico, com uma aura única de indecifrável mistério. A admiração e comoção que causa vê-se quantidade de vídeos e comentários no You Tube e não têm rival à altura – eu nunca vi – ainda para mais num artista desconhecido das grandes massas. 
A primeira versão que me foi dada a ver já lá não está talvez por ser feito de campas e cemitérios reflectindo talvez demasiado o lado post mortem de An Ending (Ascent). Eu pelo contrário acho que é música sobre a vida. Claro que há gostos com versões para tudo. Na Lua, na Lua com a sonda Apollo, no mar ao pôr do sol, em imagens da NASA, em simulacros chill-out, na simetria do espelho, no Afeganistão, na floresta, à beira estrada, à beira neve, à beira rio, ao mar, a navegar, em arquitecturas, nas nuvenschorai arcadas do violoncelo, em fotos editadas a gosto, no trânsito a cores, no trânsito e preto e branco, a la National Geographic, em remixes, em esquisitices, no cinema, em mais cinema, em desenho, com a Terra de perfíl, também assim, em modo trance, num sujeito que descobriu como se faz no sintetizador e claro que capa do albúm. Mas há mais, muitas mais, e vão continuar a aparecer mais.




Adenda: no vídeo acima vê-se parte da Península Ibérica e entrada do mediterrâneo, consegue-se ver o Algarve e a toda a costa alentejana. Parece o Estuário do Tejo em ponto gigante. 

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Carlos


A partir da vida imaginada do mais famoso terrorista das décadas de 70/80, Carlos de Olivier Assayas procura dar-nos a noção dos vários tempos, modos e espaços, mesclados com a crueza e a urgência da acção letal. Somos transportados em países, cidades, ambientes e pessoas, pontos de passagem de um terrorismo a larga escala secundado por aeroportos, alfandegas, hotéis, campos de treino ou esconderijos, tudo locais onde as línguas faladas se misturam como produtos dum mesmo mercado. A escolha do actor Edgar Martinez encaixa aqui que nem uma luva – também ele é venezuelano, também ele teve um percurso de vida que o pôs a falar fluentemente várias línguas, cinco: espanhol, francês, inglês, alemão e italiano. 
O real e verdadeiro Carlos, o Chacal, de nome Ilich Ramírez Sánchez, a cumprir pena de prisão perpétua em França, já veio dizer que o filme é uma "manipulação, uma mentira voluntária". Mas não será essa mesma a forma mais correcta de recriar uma vida que trabalhou o seu mito também em manipulações e mentiras voluntárias? Onde uns o apontam como um combatente revolucionário e outros como um terrorista sanguinário. Como poderemos nós alguma vez ter toda a certeza? Fiquemos pelos sonhos, vencidos, e pelo irremediável, padrinho da incerteza e do desconhecimento. E pelo filme, que é muito bom.


sábado, 19 de novembro de 2011

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Notas de um Facebook (II)



Tirando alguns amigos que perdi o rasto, o meu Facebook é mais sobre quem não conheço pessoalmente que outra coisa. Sigo gente que admiro, estimo e com quem aprendo e o feed de notícias tomo como uma espécie exótica de Google Reader. A ideia em si de uma pessoa instalar-se num computador e dar de bandeja o seu tempo livre a não fazer mais que continuar a conversa lá de fora é algo que me transcende, mais a mais porque a conversa é sempre a mesma e as excepções não vão parar ao Facebook. Depois ainda há os "amigos" da vidinha - escola, emprego, cercanias, arredores – que nos custaram ter de aturar no dia a dia e anos depois aparecem ali a luzir num pedido de amizade pendente. Queres ser meu amigo? Outra vez? 

O que me anima ainda são os lembretes non sense. Ver por exemplo fulano - tipo interessante, fixe, vivido, saudável - a ser alvo de alertas tipo "sugere-lhe amigos". Ver o meu pai - que quando começou criou duas páginas - aparecer em "pessoas que talvez conheças". Humor esse que é cortado de vez em quando com a cara de um João Duque, José Lello, ou José Luís Peixoto, entre outros que tais. Sem necessidade nenhuma. 

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Mailer surfava as ondas gigantes



"What ruins most writers of talent is that they don't get enough experience, so their novels tend to develop a certain paranoid perfection.
For example, how much of the words of the history that's made around us is conspiracy, how much is simple fuckups? You have to know the world to get some idea of that."

"You can't change a single word. The best short stories are built on this premise."

"Some of my best ideas come because i haven't fixed my novel's future in concrete. Once you know your end, it's disastrous to get a new idea."

"The act of writing is a mistery, and the more you labor at it, the more you become aware after a lifetime of such activity that is not answers which are being offered so much as a greater appreciation of the literary mysteries."

"Nothing lifts our horizons like a piece of unexpected luck or the generosity of the gods."



Norman MailerThe Spooky Art - Some Thoughts on Writing 
(Random House / New York, 2003)

sábado, 12 de novembro de 2011

Estatísticas



"Há vários nomes para o que aconteceu na Alemanha e na Polónia nos primeiros anos quarenta. Holocausto, Shoah, Vento de Morte. Em romani chama-se Porreimos, Voracidade. Não há nomes para o que aconteceu na União Soviética entre 1917 e 1953 (embora os Russos refiram, totemicamente, “os Vinte Milhões” e a Estalinstchina, o tempo de Estaline). Que havemos de chamar-lhe? A matança? O Fratricídio? O Menticídio? Não. Chamar-lhe Zatchto? Chamar-lhe para quê?"

"Foi durante o período da Colectivização que a delação deu o grande salto em frente. Nas aldeias os camponeses mais pobres eram incitados a denunciar os mais ricos. “Era tão fácil meter um homem dentro! Explica Grossman. “Escrevia-se uma denúncia, nem sequer era preciso assinar”: Pelos meados dos anos trinta, quando o terror se voltou para as vilas e cidades, a denúncia era louvada na imprensa como “dever sagrado de todo o bolchevique seja ou não membro do Partido”. 
Pode-se denunciar alguém por medo de que essa pessoa nos denuncie; pode-se ser denunciado por não denunciar o bastante; o único desincentivo à denúncia era a possibilidade de ser denunciado por não ter denunciado primeiro;"

"Se, como é corrente dizer-se, o poder é uma droga; então há casos em que a droga deixa de dar efeito a não ser que se aumente a dose – no caso exponencialmente. Para Estaline, o poder era coisa dos sentidos e das membranas. E ele procurava invariavelmente o limite superior. A Colectivização terminou quando os camponeses foram todos colectivizados. O Terror-Fome terminou quando já não restava ninguém para semear a colheita seguinte. O gulag continuou a expandir-se até parecer que ia rebentar. O Terror prosseguiu até mesmo as prisões temporárias, as escolas e as igrejas estarem todas cheias e os tribunais em funções vinte e quatro horas por dia."

"Toda a gente sabe de Auschwitz e Belsen. Ninguém sabe de Vorkuta e Solovetski.
Toda a gente sabe de Himmler e Eichman. Ninguém sabe de Iejov e Dzerjiinski.
Toda a gente sabe dos 6 milhões do Holocausto. Ninguém sabe dos 6 milhões do Terror-Fome."


Martin AmisKoba o Terrível [Lisboa: Teorema; tradução de Telma Costa; 2003]



Fica uma amostra do excelente Koba o Terrível de Martin Amis que li dum trago (bem amargo). Para muitos que não conheçam ou tenham lido nada sobre o período 1917-1953, tal horror talvez não passe duma estatística (*). Há aspectos em que Estaline conseguiu ir tão longe como Hitler, não os reproduzo aqui. Mais: é quase unânime entre historiadores que tivesse Estaline vivido mais um ano e também os judeus na URSS teriam sido exterminados. De castigo já tinham morrido 5 milhões de ucranianos. Estatísticas.




(*) - "A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística." (Estaline)


terça-feira, 8 de novembro de 2011

Roubar a Tchekov


Tchekov é uma fonte inesgotável. Tem aquela coisa de mestre mais à frente que os autores da frente do presente e do futuro e nos leva a achar que tudo o mais é reciclagem. 
Sei que hoje andava na rua a tentar apanhar contos de Tchekov. Mas não vi nenhum, ou não tive talento e engenho para isso. Com a televisão foi mais fácil, num desses programas forum em que o tema devia ser a crise, uma senhora idosa quase chorava ao telefone mais ou menos isto: “ou compro os medicamentos ou passo fome, o meu dinheiro não dá para as duas coisas. Sofro de pedras nos rins, sempre trabalhei, trabalho desde os 9 anos...”. Fez-me lembrar uma martelada que levei ontem à noite:
“ Os olhos de Iona percorrem aflitos as pessoas que passam pela rua, como se procurassem, entre os milhares de rostos desconhecidos, alguém que esteja disposto a escutar as suas mágoas. (...) A tristeza cresce então dentro do seu peito, abafa-o, enorme, infinita. Se lhe abrissem agora o peito e ala se espalhasse, saisse cá para fora, inundaria o mundo inteiro.”
Já os Medinas Carreiras desta vida, sempre aviados e afiados com as mesmas  inevitabilidades fazem-me mais lembrar a descrição abaixo:
Zapoikin está sempre pronto para discursar, em qualquer hora ou em qualquer estado: com sono ou em jejum, a cair de bêbedo ou cheio de febre. As palavras brotam-lhe da boca com extrema fluência, como um jacto de àgua que jorrasse de um cano; e no seu escolhido vocabulário, há expressões capazes de comover uma rocha, e, em começando, é difícil fazê-lo parar; já tem acontecido, principalmente em casamentos, ser preciso chamar a polícia para conseguirem que se cale.”

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Aquele Dia


Um dia banal pode também ser o ponto onde tudo se condensa. Em Paris de Chistophe Honoré gira em torno duma família à volta da decepção amorosa de um dos seus, regressado a casa e a ressacar uma relação amorosa falhada. Os restantes membros são o irmão mais novo, juvenil e mulherengo, o pai divorciado - um dos melhores pais chatos e repetitivos que tenho memória no cinema - e a mãe que vive noutro casamento. Falta ali a irmã, que se suicidou aos 17 anos com uma depressão.
A riqueza humana, a ternura, as parábolas juvenis e o tom de comédia ligeira do filme atenuam e modelam o seu efeito dramático, sugerindo o mais importante: o que fica, o que (sobre)vive. Porque há sempre um dia entre dias em que nós, protagonistas ou testemunhas da encruzilhada, também acabamos por nos encontrar. Este belo e discreto filme é um desses dias. Em Paris encontra-se na sua passagem. Completa-se no seu círculo.