quarta-feira, 5 de outubro de 2011
terça-feira, 27 de setembro de 2011
sábado, 24 de setembro de 2011
20 anos
Nevermind apanhou-me a jeito, com 17 anos rondava na altura a extinta discoteca Torpedo na estação do Rossio passando partes das tardes a ouvir sons novos e a ser aconselhado no rock alternativo por um senhor muito alto alemão (creio) – na altura para mim era senhor, talvez hoje fosse um jovem – e por uma espanhola baixinha. Mas nem foi lá que eu ouvi Nevermind a primeira vez, foi (também creio) na XFM que ouvi “Smells Like Teen Spirit” achava então que era das coisas mais excitantes que tinha ouvido. Quem tenha vivido aquela época percebe perfeitamente o que quero dizer: Kurt Cobain simplesmente tinha conseguido criar um antes e um depois, rasgando do mapa toda a foleirice de hard rock poseur e demais treta vinda dos anos 80 e germinava então como cogumelos em bosque humido.
Confesso que conheci os Nirvana ainda antes de os ter ouvido. Tinha começado a comprar pouco tempo antes e também a ler à sorrapa no Amoreiras todos os New Musical Express ou Melody Maker que me apareciam à frente e aconteceu-me apanhar uma daquelas gripes que me deixam knockout e a precisar que me amparem a vida, pedi então à minha mãe que me trouxesse um daqueles dois jornais e ela trouxe-me à cama um célebre NME em que os Nirvana se deram a conhecer ao Reino Unido - Cobain com uma T-shirt dos Captain America, Chris (na altura era Chris) Novoselic com uma dos Sonic Youth e Dave Grohl (cool como nunca voltou a ser...) com um charro posto debaixo do labio inferior.
O que aconteceu a seguir foi história: lembro-me do buzz criado com mais e mais entrevistas até à única Rolling Stone que comprei na vida, de uma entrevista que um amigo me passou em VHS de um programa da MTV (na altura era isso e cassetes) onde Cobain era entrevistado de vestido amarelo e falava em influências de Vaselines, Bikini Kill, The Pixies, The Melvins, The Breeders e por aí fora, lembro a ascenção de bandas incríveis que de outra forma nunca sairiam da obscuridade como os Sonic Youth, Dinosaur Jr, Husker Du, Screaming Trees, Soundgarden, Mudhoney, Meat Puppets, etc e etc. Lembro-me das bocas de destruição maciça aos Guns and Roses, aos Extreme e até aos Pearl Jam.
Quando já tinhamos redescoberto “Bleach” e ouvido “Incesticide” o “In Utero” foi apenas mais uma revelação, cada aparição de Cobain deixava o mundo em sentido, refém do talento visionário. Só que Cobain era frágil como vidro e aquela agressividade provocadora escondia uma vulnerabilidade e incapacidade de protecção impossíveis de se defender perante um mundo ávido e cheio de abutres e gente escravizada. Cobain provocava constantemente. Quem verdadeiramente gostava da Nirvana family Tree deliciava-se com isso, a ralé que comia (e come) tudo o que lhes é dado das duas uma, ou não compreendia de todo, ou julgava que aquilo era só pose.
O resto é história, Cobain casou-se com Courtney Love, teve uma filha, agarrou-se à heroína. Por fim lançou-se numa última digressão mundial que uns quantos felizardos tiveram a sorte de ver, eu incluído. Foi num Dramático de Cascais à pinha. Kurt de tão magro parecia um agarrado do Casal Ventoso, vendo-o assim não imaginei que se seguiriam mais de duas horas de concerto non stop em alta rotação com “Bleach”, “Incesticide”, “Nevermind” e “In Utero” despachados em tom detonante. O som estava perfeito, a energia transbordava, Kurt deixou no publico saciado a ideia que era impossível dar mais.
Pouco tempo depois estava eu em Paris e um amigo bastardo que não suportava Nirvana deu-me a terrível notícia: Kurt Cobain tinha-se matado com um tiro na cabeça. Contava-me a notícia com tais ares de “eu bem te tinha avisado” que logo me fez acreditar que não estaria a mentir. O choque teve réplicas até hoje.
Quando já tinhamos redescoberto “Bleach” e ouvido “Incesticide” o “In Utero” foi apenas mais uma revelação, cada aparição de Cobain deixava o mundo em sentido, refém do talento visionário. Só que Cobain era frágil como vidro e aquela agressividade provocadora escondia uma vulnerabilidade e incapacidade de protecção impossíveis de se defender perante um mundo ávido e cheio de abutres e gente escravizada. Cobain provocava constantemente. Quem verdadeiramente gostava da Nirvana family Tree deliciava-se com isso, a ralé que comia (e come) tudo o que lhes é dado das duas uma, ou não compreendia de todo, ou julgava que aquilo era só pose.
O resto é história, Cobain casou-se com Courtney Love, teve uma filha, agarrou-se à heroína. Por fim lançou-se numa última digressão mundial que uns quantos felizardos tiveram a sorte de ver, eu incluído. Foi num Dramático de Cascais à pinha. Kurt de tão magro parecia um agarrado do Casal Ventoso, vendo-o assim não imaginei que se seguiriam mais de duas horas de concerto non stop em alta rotação com “Bleach”, “Incesticide”, “Nevermind” e “In Utero” despachados em tom detonante. O som estava perfeito, a energia transbordava, Kurt deixou no publico saciado a ideia que era impossível dar mais.
Pouco tempo depois estava eu em Paris e um amigo bastardo que não suportava Nirvana deu-me a terrível notícia: Kurt Cobain tinha-se matado com um tiro na cabeça. Contava-me a notícia com tais ares de “eu bem te tinha avisado” que logo me fez acreditar que não estaria a mentir. O choque teve réplicas até hoje.
Praia Autocarro
Naquele dia na praia estavam dezenas de pessoas em grupos e grupinhos e eu sozinho a ler no meio do areal que era grande. A tempos e às vezes ao mesmo tempo punham-se a olhar-me com caras de não compreender. Eu voltava ao livro. A páginas tantas reparei que havia um problema com tanto olhar, talvez fosse a leitura, talvez fosse eu estar ali, sem ninguém ao lado, a única pessoa sozinha naquela praia, e isso começava a incomodar não por me doerem as costas ou pelo livro ser o "Fome" de Knut Hamsun. Todos eles ali, cheios de superioridades mas sem sequer um "Correio da Manhã" para ler a completarem-se em monossílabos e jogos de cartas e de bola, isto a minoria, porque a maioria olhava para o vazio do horizonte sem qualquer vislumbre da beleza daquele mar, quais versões relaxadas daqueles que apanho no autocarro cheio a carregarem suas vidas em costas desistidas e cansadas. Em quantas vejo eu que nunca tiveram a coragem de uma caminhada a pé no fresco duma tarde, que não inventaram uma alegria com a vida, nem sequer ao menos se revoltaram porque seria tão difícil como serem olhadas na praia por todos os que não lêem uma linha.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Troy Davis
Em muito dos Estados Unidos ainda se vive com o padrão da lei dos colonos europeus que lá chegaram no século XVI para fugir à fome e à miséria. Ali em terra incerta e coberta de perigos mandava como na Europa a justiça do pelourinho, do olho por olho dente por dente e da culpa formada por convicção, credo ou coisa pior. Mal se evoluiu até hoje. O total desconhecimento da História que ignora o passado é apenas um dos sinais de que o tempo ali de certa forma parou.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
La Coca
"La Coca" de José Rentes de Carvalho começa à volta de uma reportagem policial sobre o contrabando e tráfego de droga no norte de Portugal. Passando de fugida pela zona ribeirinha do Porto e Gaia segue depois para onde está a acção: no Minho e na Galiza. Aí o enredo emaranha-se em inúmeras histórias fascinantes em roda de contrabandistas, traficantes de droga, polícias e um jornalista "suicida". Mais tarde surgirá uma culta tutora francesa com o gosto dos livros, um lorde inglês erudito e milionário e até Pablo Picasso que se torna decisivo num diálogo confirmado pelo próprio Rentes de Carvalho em recente entrevista. Só lendo.
Em todas essas histórias, ou memórias se quiserem, o único fio condutor é a lembrança do que aconteceu e do que ainda pode ser testemunhado. As recordações têm buracos, falhas, são inseguras, pouco fiáveis, cheias que estão de impressões e subjectividades quer advindas do tempo presente, quer embotadas pelo próprio sujeito que já não se reconhece o mesmo nos emaranhados e complicados caminhos da vida. Nada que atrapalhe a leitura pois o livro lê-se de um trago. Na verdade fica-se literalmente agarrado a "La Coca" desde a primeira frase.
Romance com mistos de reportagem, biografia e relato de viagem, "La Coca" parece desenrolar-se sob a memória como um policial - o que aconteceu, o que ficou por acontecer, o que perdura, o que se esfumou no tempo. É sob a recordação que gira toda a sua maquinaria. A nitidez da escrita faz o resto: vêem-se as paisagens, as pessoas de carne e osso, sentem-se os ambientes. Os relatos são primorosos, os diálogos sumarentos, os personagens únicos. Mas sempre com a neblina da memória a pairar como dúvida, cheia de perguntas a que o tempo foi diluindo as respostas confundindo o real com o imaginado. O que fica não será tanto o que se viveu mas o que ficou contado. Sem frases a mais, numa escrita virtuosa, elegante, fluída, certeira, sem palha para queimar, com uma beleza e trato de língua só ao alcance dos grandes escritores. Para terminar assim, em testemunho:
«Julguei viver. Tive aventuras e medos, conheci alegrias, conheci paixões. Tudo fugidio, curto demais. Fundindo o ontem no hoje o tempo negou-me o espaço onde eu me pudesse reencontrar, tornou hostil o que pelo hábito dos anos me deveria ser querido, levou-me a olhar com indiferença o que foi familiar. E agora, constrangido dou-me agora conta de que na minha vida nunca realmente houve partidas nem chegadas, nem pessoas, lugares ou eventos.
O que nela existiu e se prolonga ainda são cenários e personagens, sombras, as imagens desordenadas da memória que, presas na narrativa, se tornam uma dupla ficção."
sábado, 17 de setembro de 2011
Andaram anos para isto...
Não se tem bem a noção do desespero que anda para aí. Gente que pagava todos os meses suas dívidas a prestações e que viram sem mais nem menos a conta ser penhorada, comerciantes que deixam de ter o multibanco a funcionar para "eles" não irem à conta, gente que larga tudo e pega numa auto-caravana com roupa e pertences e literalmente rapa daqui para fora, outra que diz que o pai a chama "prá terra" - nasceram ontem 10 porcos - porque aqui ao menos não passas fome; ou um taxista que sai-se com esta: "nós vivemos é dos pobres. Os ricos são tão sovinas que não andam de taxi..."
É redundante dizer que a economia paralela está forte e em crescendo, que as máfias esfregam mãos à oportunidade, que o Estado terá muito mais a perder do que a ganhar com um país mais e mais ingovernável. É quase unânime considerar que este governo é coisa de amadores. De um ministro da propaganda que inventa comissões e contrata bloguers a retalho, do "polícia mau" das finanças, do Álvaro, de um ministro da saúde que na lógica do número até corta nos transplantes, do aumento do IVA para o triplo até do que a Troika pede, do aumento de 15% nos transportes, da falta de escrúpulos e vergonha das 769 nomeações (de rapaziada, presumo) num só mês, dos tais buracos colossais que afinal são todos made in PSD, da privatização de tudo o que mexe, até da própria água, tudo numa amálgama de hipocrisia, desfaçatez e falsidade aterradoras. Querem que continue?
O motivo afinal não era José Sócrates ter mentido e não poder exigir mais sacrifícios aos portugueses, o motivo era mesmo o assalto ao poder a todo o custo e uma guerra sem quartel ao bem público, se calhar é por isso mesmo que Passos Coelho falou em incendiar de ruas e queimar Portugal. No seu intimo tem a noção da gravidade, sabe demasiado bem quem abriu as hostilidades, no resto apenas se atraiçoou com a mesma displicência com que nos tem confrontado diariamente com o desastre da sua governação. É da praxe, todos sabemos disso...
Il Divo
E depois a televisão pifou. De vez. Já não liga mais. Caput. E o sinistro Andreotti andou todo o filme a dizer "Io non ci credo al caso; io credo alla volontà di Dio."
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Fome
Esteve um daqueles dias de praia épicos, numa das prainhas selvagens de Porto Côvo, quase sem gente. Enquanto caminhava sorrateiro em direcção à costa só via casas e vivendas de estore fechado, num dia tórrido destes imagino como estaria Lisboa, que é sempre mais quente do que qualquer local da costa sul até Sagres. Enfim, o mundo está lá, inclusivé a minha casa, está lá, ficou. Os barcos gigantescos que se vêem daqui na costa de Sines também estão lá, e mesmo a milhas parecem do tamanho desta aldeia. Adiante.
Na praia gosto de ficar a olhar para o mar sem pensar em nada, tenho aquele fio do sol até ao horizonte, tenho o som do mar e das ondas a baterem à costa e nas rochas, tenho em frente um cão feliz da vida a nadar na água por causa de uma bola. Ando a ler o "Fome" do Knut Hamsun, é do melhor que li em anos, mas faz contraste com tudo isto, ler o “Fome” e mandar todo o stress para trás das costas? Aqui? Talvez o “Pan” fosse mais adequado para torrar na areia, mas não sou bom a planear leituras para circunstâncias, tenho uma filosofia curta e grossa, a andar...Deu-me para reparar que a cor da toalha de praia é exactamente igual à capa do livro. E não só a cor como as próprias tonalidades do verde e azul. Não sei qual é a ideia. A não ser não contrastar nada.
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
A culpa aqui não é do Relvas
Ainda há pouco tempo, meses, não mais que isso, lembro-me de enumerar blogues de leitura diária ou obrigatória, a conta subia dos trinta para cima e por aí fora. Creio que há uns anos ainda eram bastante mais, mas não posso precisar até porque não me vou dar ao trabalho para os ler hoje, dos que ficaram, porque blogues apagados do melhor da história da nossa bloga há uns quantos.
Agora tenho em conta uns dez, de vício diário, uns 20 obrigatórios e não leio mais. A pioria é evidente, as redes sociais de certa forma são responsáveis pelo efeito, os blogues foram infectados pela irrelevância - reprodução de notícias, sound bites da treta e inanidades que bem podiam estar num wall ou mural de Facebook mas que num blogue querem ganhar outro buzz. Acontece também que há murais no Google + e Facebook melhores e mais interessantes que boa parte dos blogues, e também gente que escreve em caixas de texto coisas muito boas. É certo que o Verão – e principalmente os finais de Julho e Agosto - é a estação mais morta das escritas. Há pouco regressaram três dos meus blogues preferidos. Desses e de outros que não dispenso, o meu entusiasmo é tão evidente que provavelmente o saberão. Também que são muito melhores que a esmagadora maioria da maralha editada por aí, da imprensa às estantes das livrarias. Saísse-me o Euromilhões e editava-os a todos.
Opus Night
Tomado o gosto, a leitura levantou voo, "Alexandra Alpha" de José Cardoso Pires é tão bom tão bom, tão categoricamente excelente, que até dá para as apostas mais categóricas. Por exemplo da quantidade de vezes que Cardoso Pires terá ouvido e lido que ninguém como ele terá alguma vez escrito Lisboa daquela maneira, a viver. Numa escrita cinematográfica mas cheia de variedade linguística e de estilos, emersa em sub-plots dum plot principal que pouco ou nada conta para o total da obra pois conta é o que é mostrado. Um caleidoscópio de personagens, personalidades e vivências, riquíssimo como o vocabulário utilizado, muito característico e próprio e original, mas sobretudo eficaz, objectivo, impiedoso, certeiro, ao osso; nunca estéril, antes com toneladas de humor e ironia.
"Alexandra Alpha" fez-me regressar a uma Lisboa que era mais de pais e avós, deixando-me ainda rastos na infância, de um depois ainda não calcinado por este presente cínico e devorador de esperanças. Mesmo assim nem tudo se sumiu. Falamos de Lisboa, certo? Então ainda há muito de "Alexandra Alpha" por aí. Se sair hoje à noite a alguns bares da boémia mais antiga talvez possa ainda encontrar algum Sebastião Opus Night de algibeira, personagem com que me ri tanto nas noites/madrugadas dos últimos dias, precisamente as horas dos Opus Nights da vida. É certo que nenhum deles chegaria a tal (im)perfeição, mas se voltar a ver um, prometo que aviso.
Mas ainda há outros personagens tão ou mais importantes no romance: Alexandra Alpha, Maria, Sophia Bonifrates, o tio Berlengas, qualquer um a merecer longos textos e dissertações; depois há o Bernardo Bernardes, o Amadeu Fragoso, o Bruno Senna, etc, etc.
Mas ainda há outros personagens tão ou mais importantes no romance: Alexandra Alpha, Maria, Sophia Bonifrates, o tio Berlengas, qualquer um a merecer longos textos e dissertações; depois há o Bernardo Bernardes, o Amadeu Fragoso, o Bruno Senna, etc, etc.
Não gosto de escrever sobre livros ou filmes abrindo o véu à história, prefiro recomendar. Fora todas as qualidades de obra-prima que fazem de "Alexandra Alpha" talvez o melhor livro de Cardoso Pires, é fundamental ali o retrato de um certo ambiente do Portugal pré e pós-25 de Abril, da Lisboa dos anos 60 e 70, dos desencontros da vida e crises de identidade, da noite e da boémia e de tanta gente. Enquanto o Opus Night vai aparecendo empurrando copos no seu delírio de vinho ao contrário.
domingo, 28 de agosto de 2011
Gostar de Astrofísica
Devoro tudo o que é documentário sobre astronomia e astro-física, o melhor deles todos é "How The Universe Works", que dá no Discovery Channel, os outros são bons mas este suplanta-os em poder de síntese, na locução, efeitos especiais e no lado didático e explicativo. Já há muito tempo que tinha deixado de pensar no tema, depois de na adolescência ter lido "Cosmos" de Carl Sagan e depois boa parte da colecção de ciência da Gradiva. Agora vejo que muito evoluiu desde "Breve História do Tempo" de Stephen Hawking, e em teorias ousadíssimas como a Teoria das Cordas e da possibilidade do próprio Big Bang não ser mais do que o outro lado de um Buraco Negro. Mas sendo credíveis ou não os "delírios" do popular Michio Kaku prefiro agora algo mais palpável: estrelas e planetas. Da beleza que é o núcleo de ferro da Terra gerar um campo magnético que serve de escudo protector contra o vento solar que por ele já nos teria pulverizado. Um astronauta contava que na protecção duma nave espacial o vento solar vê-se quando se fecham os olhos, num fecho de luz que pisca de 20 em 20 minutos. Faz faísca no globo ocular. Entra no sono e não deixa dormir.
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Diego Capel
Ontem fui a Alvalade ver o Sporting, voltei para casa a dizer que vi o Capel. O espectáculo foi todo ele, e dele, aquela fúria, aquela vontade de viver o jogo, de transmitir paixão. Generoso, empolgante, incansável, corajoso, artístico. Ou muito me engano, ou Capel dará histórias para contar aos netos.
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Só falta tocar
Há uma inventividade, energia e grau de aleatório que só podem vir do mais intricado dos realismos. Onde nada do que parece é e num momento tudo se transforma. Aí as formas não existem vincadas a priori, como num enredo mais clássico, nem se deixam ir ao sabor do vento e dos humores do momento; as coisas são como são em Baltimore e não só, na verdade todos nós somos irremediavelmente joguetes de corporações e o jogo está truncado.
Polícias, gangsters, estivadores, políticos, professores, alunos, jornalistas, advogados, todos em barcos diferentes dentro do mesmo rio turvo e perigoso. Muitos a tentar viver da melhor forma possível enquanto se tentam salvar e as feridas não parecem estancar. Não existem aqui maniqueísmos, todos os lados têm o bem e o mal.
Vendo no You Tube alguns documentários sobre o fenómeno, os cidadãos de Baltimore falam em 99,9% de veracidade, mais que factualmente, é a reprodução desses viver que sai decalcado em "The Wire". O que não cola ali é o argumento de que a criminalidade não é desculpa ou que todos se podem salvar numa cidade com seis vezes a criminalidade de Nova Iorque. Claro que há quem se salve ou se redima, mas não se podem salvar todos.
Vendo no You Tube alguns documentários sobre o fenómeno, os cidadãos de Baltimore falam em 99,9% de veracidade, mais que factualmente, é a reprodução desses viver que sai decalcado em "The Wire". O que não cola ali é o argumento de que a criminalidade não é desculpa ou que todos se podem salvar numa cidade com seis vezes a criminalidade de Nova Iorque. Claro que há quem se salve ou se redima, mas não se podem salvar todos.
Os criadores da obra não se limitaram a investigar o terreno ao pormenor, eles proprios foram parte dele, e durante quase uma vida: Ed Burds, como ex-polícia, pela maior parte das experiências que servem de matéria prima à série; David Simon (ex-repórter do crime) concebendo-as e pondo em papel, adicionando também as suas como repórter do Baltimore Sun (nomeadamente na 5ª série). Todo o lado da rua - através dos gangs e dramas adjacentes e associados -, experimentaram os dois durante meses, vivendo literalmente no terreno, ao que muito ajudou terem levado ao hospital um "soldado" baleado, o que abriu todas as portas para um acesso"all areas".
O registo esse jamais foi experimentado e a credibilidade dos criadores serve também de combustível a todos os que dela fazem parte e ao colossal esforço necessário para levar avante algo que nunca foi tentado nem ao de leve. Arrisco dizer que todos experimentam a mesma voracidade, a mesmo desesperança. Para mostrar-nos num espelho a forma como podemos ser esmagados. Do que fica praticamente só nos falta tocar.
O registo esse jamais foi experimentado e a credibilidade dos criadores serve também de combustível a todos os que dela fazem parte e ao colossal esforço necessário para levar avante algo que nunca foi tentado nem ao de leve. Arrisco dizer que todos experimentam a mesma voracidade, a mesmo desesperança. Para mostrar-nos num espelho a forma como podemos ser esmagados. Do que fica praticamente só nos falta tocar.
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Eu, meu personagem
Meu estar na net é um personagem. Por decalque depois transforma-se em máscara, claro está, não há a mínima hipótese...Ao longo da vida já tive de assumir outros personagens, tão diferentes. Tive de actuar bem, a necessidade aguça o engenho. Constatei então que sendo tímido os meus personagens não têm nada disso. Pelo contrário. Nem sequer o que vem com meu nome. Sempre me senti um género de Jimmy McNulty sem posto. Só desvantagens. Tudo ultra-realista.
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
A.K.A.
Os gangsters dos filmes e séries ajudam a passar o tempo. Como é que se tornaram entertenimento de luxo isso é algo que me escapa, mas também a culpa não é nossa. Lembrei-me disso ao ver na net uma foto de Joe Pistone (a.k.a Donnie Brasco) ao lado do actor que o interpretou, Johnny Depp.
Pistone era um agente do FBI infiltrado sob a máscara de Donnie Brasco, e uma das causas do estrondoso sucesso da sua missão foi a irmandade e grande camaradagem que tinha com os outros mafiosos que ao que consta eram tipos "normais" que depois matavam e roubavam e ameaçavam e infernizavam a vida ao outro como modo de vida. Acabado o expediente discutiam comida, vinhos, carros, baseball, escola dos filhos, jogavam cartas...O business de resto não era nothing personal. Não se discutia. Matavam ou morriam. Roubavam ou morriam. Obedeciam ou morriam.
Donnie estava ali para metê-los na cadeia. Ponto que correu mal ao seu melhor amigo no bando, o capo Dominick "Sonny Black" Napolitano a quem um dia prometera que cuidaria das filhas se lhe acontecesse alguma coisa. E aconteceu. Foi morto quando se descobriu que Donnie Brasco era afinal o agente Joe Pistone que depois da missão cumprida tem andado escondido entre tribunais, conferências, livros e aparições mediáticas. À sua custa dezenas deles foram dentro. Incluindo quem matou Sonny Black. Don the jeweler, não era? A fugazi.
domingo, 14 de agosto de 2011
Literatura
A literatura é, e deve ser, um veneno ministrado sabiamente; uma arte de prestidigitador, capaz de, com elegância ou com violência, levantar um sujeito acima do chão, ou tirar-lhe, como quem tira um tapete, o chão debaixo dos seus pés; e a literatura não tem obrigação alguma de conservar o sujeito no ar, em qualquer dos casos: a intencionalidade da literatura consiste mesmo em suspender a acção mágica e em deixá-lo cair, perplexo e perdido, de quanto mais alto melhor.
(...)
Só por si, o hábito da leitura não significa um conhecimento ou reconhecimento da literatura como tal. Mas, ainda que esse reconhecimento se processe em muitos leitores, daí não resulta que eles sintam necessidade de se situar, correlacionar, comparar, historiar o que estimam, que os fira o apetite de comunicarem a outros as observações que fizeram, ou que a literatura ocupe, em suas vidas, um lugar preponderante, absorvente, que seja ela o que dá sentido e estrutura a essas vidas.
(...)
(...)
A literatura não pode ser ensinada. Ensinar seja o que for é apresentar um instrumental adequado e explicar a maneira de uma pessoa tirar proveito dele.
(...)
Há que amar a literatura. Sabemos bem que o amor pode ser fugaz, intermitente, inconstante, frágil, imenso, ocasional, calculado, uma paixão subita, uma paciente conquista. Amando-a, porém, é impossível não querer conhecê-la em toda a parte e em todos os tempos, em extensão e em profundidade, é impossível não querer estudá-la, para transmitir e comunicar aos outros a fascinação que ela exerce sobre nós; é impossível não querer vivê-la, gratuitamente e como agente,que ela é, de tudo o que constantemente se pretende que ela seja e de tudo o que ela constantemente ultrapassa em si mesma e em nós.
Jorge de Sena in O Reino da Estupidez-I
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
A maior jogada de todos os tempos
"Como sabemos, ou deveríamos saber até de mais, o capitalismo - quer a gente queira, quer não queira - não está nada decadente. Está pelo contrário, lançando-se na maior jogada de todos os tempos: a absoluta concentração do poder nas mãos de uma rede de corporações supranacionais."
Jorge de Sena, em 1976...
Lisboa-Cascais (II)
Cravava-me um cigarro, não tenho, respondi. Tu aqui? O comboio aproximava-se. Antes que respondesse, uma senhora idosa fumadora nos setentas veio agradecer a ajuda que dei na máquina dos bilhetes, deixe lá que eu também não sei como é que aquilo funciona, foi de improviso. De olhar tão vivo dava a ideia que envelhecer foi só uma coisa que lhe aconteceu. Ao lado uma mulher magra sentada num banco olhava-nos. Cabelos pretos, convencional, bonita. Ele continuou, "já não vives mais em Campo de Ourique, né...", tão certo de si que confundia viver com aparecer e eu moro sim, são as vidas, chutei para canto.
Entrámos pois na carruagem, ele encontrou logo um amigo com quem iria ter a Cascais - pontaria - e sugeriu-me que me sentasse de costas no outro lado do corredor. Deixa ficar, detesto andar de costas, dá-me tonturas, saiu-me em voz alta. E a bonita convencional sentou-se me mesmo em frente. Também me levantei às 5 e meia da manhã e o livro agora era o "Dom Casmurro". Não parava de me olhar,olhar amargo, fixa como uma esfinge. Depois nervosa retirava da carteira papeis de contas, bilhetes Lisboa Viva, calendários de farmácia, alinhava-os e voltavam para a carteira outra vez, depois cremes, para a carteira, depois recibos multibanco, para a carteira. Tonturas. Acabou mesmo por sair na mesma estação onde da ultima vez entrou toda aquela maralha de gente. Já em Cascais creio ter visto Capitu umas horas depois, estava acompanhada por uma amiga. A vila parava por onde passava. Quando acordei já era tarde.
quarta-feira, 27 de julho de 2011
Numa semana
- Não era fundamentalista muçulmano, nem estava ligado a um daqueles fascistas satânicos ou odinistas fanáticos pregadores da ideologia viking e paganismo nórdico através do black metal, que entre outras insanidades, desejam que a Escandinávia largue o alfabeto latino. Não, era antes um fundamentalista cristão fascista de extrema direita com a particularidade de ser anti-nazi e matar a sua própria gente. Não me parece que este megalómano psicopata vá conseguir que outros dementes façam o mesmo. Mas venceu, mais uma vez o medo venceu.
- O caso Murdoch passou assim naturalmente para segundo plano, as proporções do monstro a isso obrigam. O Guardian não tem mãos a medir nos dois casos. Os restantes jornais britânicos, e não só, deixaram-se ficar para trás. E os tempos que vivemos previnem-nos a ir por quem melhor nos acompanha...
- Amy Winehouse morreu sem surpresa mas não sem choque, e muitos dos que a tinham como um boneco de bêbeda drogadita agora vêem ali uma mártir. Quero acreditar que se ela visse o que se vai passar nos próximos tempos em redor do "mito" talvez tivesse tido um pouco mais de cuidado. Muitos dos que vão ganhar dinheiro com a sua morte são os mesmos que a obrigavam a dar concertos a agarrar-se às paredes. Andam por aí desde os tempos do Jimi Hendrix.
- Fernando Ulrich e as medidas da Troika, "para o conjunto do país e para o sector público penso que é bom, mas para o sector financeiro não faz sentido". Eu sinceramente achava que os bancos tinham ficado satisfeitos com o pacote. Não me ocorreu que algumas coisas sejam TÃO previsíveis...
- O PS escolheu-se a si próprio. A piada começou com o "jovens a dias". Logo ele. Eu que me lembro do "Tó-Zé" Seguro dos tempos em que me dava com uma JOVEM fotógrafa estagiária que trabalhou um ano sem receber um tostão da JS para depois ser mandada borda fora. Foi há muito tempo, é certo. Perdi-lhe o rasto e telefone. O Tó-Zé, esse, é que nunca imaginei, nem nos meus piores vaticínios, que chegasse a líder do PS. Mas também nunca imaginei Durão Barroso a primeiro-ministro (muito menos presidente da Comissão Europeia), nem Santana Lopes, nem Pedro Passos Coelho...A política portuguesa é um tédio em descendendo.
- Pela nova dieta do Estado, só mesmo consultando um novo dicionário.
- Pela nova dieta do Estado, só mesmo consultando um novo dicionário.
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Sinuca, Peteca e Aristóteles
Outra cousa que também me parece metafísica é isto: - Dá-se movimento a uma bola, por exemplo; rola esta, encontra outra bola, transmite-lhe o impulso, e eis a segunda bola a rolar como a primeira rolou. Suponhamos que a primeira bola se chama... Marcela, - é uma simples suposição; a segunda, Brás Cubas; a terceira, Virgília. Temos que Marcela, recebendo um piparote do passado rolou até tocar em Brás Cubas, - o qual, cedendo à fôrça impulsiva, entrou a trolar também até esbarrar em Virgília, que não tinha nada com a primeira bola; e eis como, pela simples transmissão de uma fôrça, se tocam os extremos sociais, e se estabelece uma cousa que poderemos chamar - solidariedade do aborrecimento humano. Como é que este capítulo escapou a Aristóteles?
(pags.92-93)
Meu espirito (permitam-me aqui uma comparação de criança!) meu epírito era naquela ocasião uma espécie de peteca. A narração do Quincas Borba dava-lhe uma palmada, e êle subia; quando ia a cair, o bilhete de Virgília dava-lhe outra palmada, e êle era de novo arremessado aos ares; descia, e o episódio do Passeio Público recebia-o com outra palmada, igualmente rija e eficaz. Cuido que não nasci para situações complexas. Êsse puxar e empuxar de cousas opostas, desiquilibrava-me; tinha vontade de embrulhar o Quincas Borba, o Lôbo Neves e o bilhete de Virgília na mesma filosofia, e mandá-los de presente a Aristóteles.
(pag.172)
Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Editora Cultrix, São Paulo
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Le Jenou de Claire
É certo que a inteligência do enredo, a riqueza do pormenor, a autenticidade dos personagens, a espiritualidade dos diálogos, a cor do Verão, a beleza dos lugares e aqueles impagáveis actores, entre tanto mais, nos deixam em constante estado de graça cinematográfica, algo tão corrente no cinema de Eric Rohmer como a água que jorra das fontes. Ali parece que o tempo não tem tempo e sua fruição é tão prazerosa que nem o sentimos passar. Mas pela sua geometria tão precisa e provocadora no final acabamos com mais vontade da vida que seguirá dentro de momentos...
terça-feira, 12 de julho de 2011
Lisboa - Cascais
Ao avançar na viagem de comboio reparo que o percurso continua esplêndido como dantes, à beira-rio temos beleza, ordem e progresso, Lisboa é uma cidade fascinante para quem pode, mas também para quem quer. Mesmo em frente um grupo de turistas delicia-se com a perspectiva, passamos pelas docas e debaixo da ponte, depois Jerónimos, CCB e Torre de Belém, passamos pela desmontagem do palco do Festival Optimus Alive, na zona Cruz Quebrada-Caxias vislumbramos a saída do mar com a ilha do Farol do Bugio. Vejo uma funda ironia no olhar do turista germanófilo. Talvez não passe de presunção, talvez não seja nem sequer alemão, pode até ser israelita, ou inglês, ou dinamarquês, ou ucraniano por exemplo. Mas sou um julgador de hábitos e o hábito faz o monge. Tento mas entendo que língua falam, não consigo, é o barulho da carruagem, são as conversas que se acentuam de gente para as praias da linha, são as quatro filas de cadeiras a distanciar-nos. Vou lendo Machado de Assis e as suas “Memórias Póstumas de Brás Cubas” a cultivarem humor directamente do além, antigas e cheias de estilo. Apetece-me perguntar ao escritor brasileiro que tal isto aqui agora. Iria-me responder concerteza num saber cómico fulminante-mente literário, o que nem imagino o que fosse. Talvez me fulminasse, já estou para tudo.
Entretanto acabou de entrar um enxame de gente em Oeiras, desafortunadamente passei a ter uma senhora muito gorda sentada a meu lado, e o grupo de turistas, germanófilo ou não, sai mesmo aqui e já não vai para o Estoril ou Cascais. Eu perco a graça à leitura. Com o comboio à pinha e a berraria circundante terei 15 minutos muito longos até chegar ao meu destino. Agora sim, sinto que me levantei às cinco e meia da manhã…
quinta-feira, 7 de julho de 2011
18h50 no Monumental
Sessão das 18h50, cinema Monumental no Saldanha, sala 3, o filme é "Tree of Life", obra-prima de Terrence Malick, só mais uma pessoa na sala além de mim. Passados uns vinte minutos meia hora, entra um casal à conversa e assim continua até ganhar juízo com aquela parte indescritivelmente bela da qual alguns cínicos e detractores do filme gostam de chamar momento National Geographic.
Já me tinha acontecido ser eu e apenas mais uma pessoa na sala, mas foi num dia de semana, numa sessão da meia-noite no Amoreiras, e uma outra em que éramos um em cada canto do extinto cinema das Twin Towers. Agora estamos a falar da zona mais central de Lisboa e logo a seguir a um dia de trabalho quando pode ser bem apelativa uma ida ao cinema, quanto mais não seja como distracção, alívio do stress, ou conseguir deixar as coisas em perspectiva. Também não me lembro, desde os finais do Escudo, tirando na Cinemateca, de a um dia de semana ter pago tão pouco por um bilhete de cinema: 4 euros. Isto vai parar onde?
quarta-feira, 6 de julho de 2011
Casa Tomada
Este assombroso e assombrado conto de Julio Cortázar aumenta sua força e dimensão lido pelo próprio. Mesmo gostando da animação penso que é totalmente dispensável, não que seja redundante, é simplesmente desnecessária aqui.
Jorge Luís Borges disse que "Casa Tomada" foi o único Cortázar que leu porque entretanto ficou cego. Não consta que lhe tenha ouvido a voz.
Jorge Luís Borges disse que "Casa Tomada" foi o único Cortázar que leu porque entretanto ficou cego. Não consta que lhe tenha ouvido a voz.
Ler a Ler
“Como entre bancos e clientes, a relação entre autor e leitor é uma relação de confiança: todo o edifício se desmorona no momento em que uma pessoa coloca a hipótese de aquilo ser tudo um enorme embuste, e de a gerência saber entoar a cantiguinha da tabuada, mas não saber fazer as contas.”
Rogério Casanova
“A narração e o enredo são raros em Portugal, porque implicam a colocação das personagens num espaço concreto, num cenário social, cultural e político. Ou seja o enredo implica um certo retrato da realidade. E esse é precisamente o problema: a ficção portuguesa tem alergia á realidade portuguesa. É como se os portugueses fossem indignos de aparecer na prosa supina dos nossos oráculos literários. Lemos romances portugueses, mas não vemos lá dentro os portugueses, não sentimos lá dentro o cheiro e o pó do Portugal de hoje ou dos Portugais do passado.”
Henrique Raposo
Os dois artigos onde se encontram as frases acima citadas talvez valham os 5€ da revista, Rogério Casanova brilhante a arrasar Jack Kerouac e Henrique Raposo a maravilhar-se tão bem com os livros de Rentes de Carvalho. Passando isso não há ali nada que verdadeiramente entusiasme, que nos leve nalguma direcção, que tente ao menos justificar os mil escudos da moeda antiga. Fica-se com a ideia que faltam craques á revista, mas a verdade é que há lá uns quantos que parecem estar em piloto automático a fazer um número que fazem melhor cá fora. Aproveitando a deixa futebolística, esta LER parece um bocado Casanova e mais 10. Tem meses. O mês passado, por exemplo, foi muito melhor que este.
Um caso dos pequeninos
João Gonçalves, o Céline da direcção-geral de Finanças, o intratável revoltado inspirado em Salazar e no Dr. House, o incómodo implacável contra tudo e contra todos. O estóico e solitário lutador combatente deste mundo e do outro de gente sem o nível da sua figura. O homem das verdades incómodas, com muito Luíz Pacheco e cagalhão na tola à mistura. Poucos se têm livrado da sua pena, muito menos Passos Coelho e Miguel Relvas. Esses não se livraram mesmo: os baptismos de alforreca e Torquemada de Tomar ficaram para a posteridade, foi um fartar vilanagem. Até ao dia, em que convidado, decidiu unir forças com o Torquemada de Tomar e trabalhar para a alforreca. Os valores do negócio ficam no segredo dos deuses. Moral da história: tudo está bem quando acaba bem...
segunda-feira, 4 de julho de 2011
A DANÇA DAS FERIDAS
Isolando cada caso amoroso "capturado" um a um, “A Dança das Feridas” de Henrique Fialho encontra momentos sublimes de poesia, archotes de luz no terreno do(s) amor(es) em seus encantos, desencantos e vivências possíveis imaginadas pelos seus rastos deixados no mundo: “em matéria de amores somos todos tão estultos que ainda não nos tocaram à campainha e já vamos perguntando “quem é” (Allen Ginsberg a Peter Orlovsky), “se não dependêssemos um do outro, como é que explicarias o teu cheiro nas minhas palavras?” (Henry Miller a Annais Nin), “dedos desastrados para os arames mas tão suaves para prosas quebradas em verso” (Jorge a Mécia de Sena), ou em tons mais absolutos e visionários: “o mundo é um emprego remunerado com a morte que apenas conforta a vida quando à sorte cabe um amor que não sare como uma ferida vulgar.”(STEFAN ZWEIG A CHARLOTTE ALTMANN) e que “depois estoura dentro de nós e espalha tudo numa página sob a forma de um poema e nos desfaz em partículas invisíveis e nos funde com as horas absurdas deste desconsolado final de dia” (RAINER MARIA RILKE A LOU ANDRÉAS-SALOMÉ). Ele há tanta força e variedade nos 68 poemas de "A Dança das Feridas" quanto os amores dali retratados. Quase se sente na carne a forma como cravaram suas estacas no Destino. Se imortalizaram nas suas (im)possibilidades.
Entre os poemas que mais me são caros destaco Blaise Cendars a Féla Poznanska, Lee Krasner a Jackson Pollock, Marguerite Yourcenar a Grace Frick, Rainer Maria Rilke a Lou Andréas-Salomé, Raymond Carver a Tess Gallagher, Serge Gainsbough a Jane Birkin, Declaração, Alexandre O'Neill a Nora Mitrani, Charles Baudelaire a Jeanne Duval e Stefan Zweig a Charlotte Altmann. Ao que junto este poema abaixo.
CHRISTO A JEANNE-CLAUDE
Quando te perturbarem as rugas
de rosto, os cabelos brancos,
as manchas que na pele denunciam
o tempo a passar velozmente,
quando escorrerem dos poros
lágrimas de suor agitado
e o vento arrastar as nuvens
para um horizonte distante,
lembra-te que a realidade mente,
que por cima da pele há sempre
uma outra pele que nos protege
da previsibilidade dos dias.
E que por mais que escondamos
a idade, a realidade mente
por não saber que para lá do tempo
há o amor que forma o tempo
e lhe confere alguma dignidade.
Henrique Manuel Bento Fialho, "A Dança das Feridas", edição do autor, colecção Insónia, Caldas da Rainha, 2011, pag.17
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Se me quero informar tenho a net
Já vou no terceiro dia seguido sem telejornal. Não vale a pena iludir-me: é austeridade + austeridade + austeridade, mais medidas do governo para antecipar a austeridade e tudo muito bem que os mercados gostam. Depois há as notícias Correio da Manhã como agora a morte do DZRT e quando as há querem-nos cercados no massacre noticioso, aí confundem-nos as coisas: os noticiários com o Correio da Manhã.
Depois temos sempre aquela dúzia de comentadores que nos dizem constantemente a mesmíssima coisa sob diferentes perspectivas dentro da mesma perspectiva, ao que é necessária alguma imaginação, ou a absoluta falta dela, ainda não sei.
A verdade é que tenho agora as portas da varanda abertas, vem uma brisa amena de Verão, está um belo pôr do sol sobre Monsanto, ainda não me privatizaram isso de modo que isto vai começar a ser rotina. E como as jogadas já nos foram todas antecipadas, tenho o silêncio possível, tenho livros, CD's, nalguns dias até posso meter Gin Tónico.
domingo, 26 de junho de 2011
Ainda Peter Falk, com a devida vénia
Falarem da morte de Peter Falk e dizerem que morreu o detective Columbo e não mencionarem nem ao de leve o papel fulcral que Falk teve em filmes de John Cassavetes, esquecendo por exemplo que foi um dos actores de mão do cineasta ao lado de nomes como Gena Rowlands, Ben Gazzarra ou Seymour Cassel faz-me imensa impressão. É que o meu Peter Falk é o Peter Falk de Cassavetes, de resto sou até capaz de apostar que os obituários jornalistas nem sequer viram um episódio do Columbo...
Tudo isto numa hora
São cinco horas na cidade, Vasco já abriu o estor, esteve a trabalhar até de manhã. Vai só tomar um duche rápido, fazer a barba. A porteira guardou-lhe a encomenda duns livros - ele desligou a campainha por causa do carteiro e dos miúdos da publicidade - mal o vê vai logo ter com ele que educadamente agradece e despacha-a pois o que quer agora é uma cerveja e uma sandes de ovo. De caminho passa pelo restaurante da rua de fugida, sem que o vejam, ele está à espera de receber uns dinheiros e o restaurante está prestes a fechar com a crise. Os óculos escuros largos e um marchar diferente no outro lado do passeio ajudam à camufragem. Missão cumprida. Mais à frente no café das sandes tem logo à espera o Sr. Leitão cujo nome não pressupõe o que imaginam: é magro que nem um palito, a alcunha na escola era "o espinhas" mas hoje quase ninguém sabe disso, quem o sabe fica calado porque porque hoje o Sr.Leitão é um tipo muito assertivo e boa pessoa. E falador, agora estava em pulgas para falar da política enquanto que Vasco gosta é de estar sossegado, mas lá teve de ser, “olhe, estive a pensar e afinal o senhor tinha razão em relação áquilo da Merkel..”. Passado uns dias dirá o seu contrário, isso já se sabe, porque com a Merkel ninguém brinca, se não estivesse sempre a falar disso provavelmente Vasco esqueceria a discussão acesa que tinha tido com ele em que chamou de tudo à frau . Na altura ia na sétima cerveja e agora sente-se ao escuro por dormir de dia. Se calhar vai mas é meter férias, mas pensando bem o problema do momento é que a cerveja está choca e cerveja ao natural é das piores coisas que lhe podem fazer, “olhe lá, não me podia trocar esta cerveja?”; O espadaúdo respondeu que acabaram de ser postas no frigorífico. Ora gaita, Vasco olha então para o relógio, diz que são seis da tarde, a unidade das horas é na maioria das vezes muito limitada.
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Exercício
A folha branca deixa de ser branca quando está escrita e a escrita preenche-se pela imaginação e nunca pela tinta. Pensava nisso quando agora a tentava preencher com uma parede branca à minha frente. Contaram-me que um dos exercícios do Zazen é estar horas em posição de lótus a olhar para uma parede branca, e que passado algum tempo as dores nos joelhos tornam-se tão intoleráveis que só as esquecendo se consegue aguentar. E que sobre a parede branca se começam a projectar imagens num enredo caótico com possíveis momentos de coerencia. Imagens atrás de imagens atrás de imagens. Porque é nos ser impossível ter o branco indefenidamente. Porque o branco não veio antes de nós.
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Livralhada, cá vai
O Tolan lançou-me o desafio, respondo com prazer.
1 - Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Existem vários.
2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
O “Teatro de Sabbath” do Philip Roth. Lamento desapontar toda a maralha que para aí anda tão tida e lida no Roth, aquilo é a mais acabada das chatices.
3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Se escolhesse um fariam falta os outros, inclusive os que gostaria de ter lido. Se calhar é por isso que Borges falava no livro com todos os livros.
4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
“O Guerra e Paz”, de Tolstoi. Já o queria ler antes, mas por causa do Tolan vou apressar a coisa:)
Existem vários.
2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
O “Teatro de Sabbath” do Philip Roth. Lamento desapontar toda a maralha que para aí anda tão tida e lida no Roth, aquilo é a mais acabada das chatices.
3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Se escolhesse um fariam falta os outros, inclusive os que gostaria de ter lido. Se calhar é por isso que Borges falava no livro com todos os livros.
4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
“O Guerra e Paz”, de Tolstoi. Já o queria ler antes, mas por causa do Tolan vou apressar a coisa:)
5- Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?
Não me recordo agora assim de um livro com a “cena final”, lembro-me antes de uma pós-cena final que foi acabar de ler “A Viagem ao Fim da Noite” do Céline por volta das seis da manhã, tinha pegado depois de jantar. Foi pura sorte. O livro esse “bateu-me” de verdade, e fiquei com a eterna curiosidade de saber a que horas é que Jim Morrison acabou de o ler.
6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Nada de especial, lembro de ler “Os Cinco” e “Os Sete” e aquelas coisas. Eu era mais BD´s. Tentaram-me meter-me a ler Julio Verne com a “A Viagem ao Centro da Terra” mas eu começava a ler aquilo e só olhava para o fim a pensar falta tanto. Claro que nunca o li.
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Lembro de ouvir o Al Berto dizer numa entrevista: “a um livro dou-lhe 30 páginas, se não gosto largo, e quero lá saber se é uma obra-prima...” Ouvir aquilo libertou-me logo de não sei quantos constrangimentos. Não dou 30, mas costumo dar 60. Também largo livros a meio. Não considero isso uma qualidade, mas cada um sabe de si.
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
“A Ilíada” e “A Odisseia” de Homero, “I, Claudius” de Robert Graves, “Herzog” de Saul Bellow, “O Trópico de Câncer” de Henry Miller , “Money” de Martin Amis, “O Coração das Trevas “ de Joseph Conrad, “O Vermelho e o Negro” de Stendhal, “Os Detectives Selvagens” de Roberto Bolaño, “Viagem do Fim da Noite” de Céline, “A Metamorfose” do Kafka,“O Livro do Desassossego”de Fernando Pessoa/Bernardo Soares, “O Medo” de Al Berto, "Diário" de Miguel Torga, "Ensaio Sobre a Cegueira" de Saramago, “1984” de George Orwell, “Solaris” de Stanislaw Lem, “A Possibilidade de uma Ilha” de Houellebecq. Não quero deixar aqui de lado todas as novelas do Bukowski, a obra inteira de Nietszshe e as Obras Completas de Jorge Luis Borges.
“A Ilíada” e “A Odisseia” de Homero, “I, Claudius” de Robert Graves, “Herzog” de Saul Bellow, “O Trópico de Câncer” de Henry Miller , “Money” de Martin Amis, “O Coração das Trevas “ de Joseph Conrad, “O Vermelho e o Negro” de Stendhal, “Os Detectives Selvagens” de Roberto Bolaño, “Viagem do Fim da Noite” de Céline, “A Metamorfose” do Kafka,“O Livro do Desassossego”de Fernando Pessoa/Bernardo Soares, “O Medo” de Al Berto, "Diário" de Miguel Torga, "Ensaio Sobre a Cegueira" de Saramago, “1984” de George Orwell, “Solaris” de Stanislaw Lem, “A Possibilidade de uma Ilha” de Houellebecq. Não quero deixar aqui de lado todas as novelas do Bukowski, a obra inteira de Nietszshe e as Obras Completas de Jorge Luis Borges.
Que livro estás a ler neste momento?
Leio vários ao mesmo tempo, um por categoria. Agora ando com “Moby Dick” do Herman Melville (mais vale tarde que nunca) “O Bestiário” de Julio Cortázar, “A Dança das Feridas” do Henrique Fialho e o 3º volume do “Conta-Corrente” de Vergílio Ferreira.
Leio vários ao mesmo tempo, um por categoria. Agora ando com “Moby Dick” do Herman Melville (mais vale tarde que nunca) “O Bestiário” de Julio Cortázar, “A Dança das Feridas” do Henrique Fialho e o 3º volume do “Conta-Corrente” de Vergílio Ferreira.
10. Indica dez amigos para o Meme Literário:
terça-feira, 21 de junho de 2011
O grau zero da política (II)
Bastava-lhe por exemplo marcar uma conferência de imprensa. Há uma semana atrás seria suficiente - que não reunindo os consensos necessários renunciava ao cargo e (por incrivel que pareça) saía airosamente do embaraço, inclusivé com nova força política, ainda reconquistava adeptos, o sortudo. Mas não, ambições assim desmedidas têm de ir até ao fim. A paga depois teve-a com juros - e foi vê-lo expectante, isolado, meio acossado, com vontade de se esconder debaixo do chão mas nem assim perdendo aquela estrondosa vaidade, e no final, na curta declaração, em todas as entrelinhas dando ares de revolta e indignação como que culpando o mundo tal como antes tinha acusado alguns dos seus milhares de ex-fãs do Facebook de conspiração para o derrubar pelo simples facto de se terem indignado pela sua indignidade. Fernando Nobre cometeu o pecado de mostrar o (mau) jogo. Todo o jogo. Agora como deputado, se entretanto não renunciar, não só tem muito trabalhinho a fazer como ainda por cima sabe que os outros sabem que ele sabe que está ali apenas para ser a estrela da companhia.
domingo, 19 de junho de 2011
O grau zero da política
É cada vez mais provável que este ano tétrico da política portuguesa vá desaguar ainda no vaidoso oportunista troca-tintas demagogo do Fernando Nobre, com todo o respeito pelo seu exemplo e percurso de vida - que me impede de debitar aqui ainda mais adjectivos - o que nem é necessário mencionar visto que a figura faz constantemente questão de sublinhá-lo despudoradamente em proveito próprio, chamando isso de "cidadania". Se Fernando Nobre for eleito Presidente da Assembleia da República cairemos finalmente no grau zero da política, a partir daí é só a descer, quiçá irreversivelmente. Se duvidam pensem na Itália de hoje, o melhor exemplo para entender que não existem limites para a desfaçatez.
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Schaars
Godinho Lopes (e já agora Luís Duque e Carlos Freitas) anda a fazer um excelente trabalho. Em surdina. Enquanto apaga os fogos internos de disputas de poder e egos inflamados, lá vai metendo a casa em ordem e preparando a glória com contratações cirúrgicas no limite do custo. Verdadeiros achados, tudo menos óbvios mas de valor tão certo quanto impossível de (nos) enganar, ainda por cima iludindo empresários chupistas e toda a imprensa que mesmo involuntariamente inflaciona custos enchendo de dinheiro os bolsos errados. Mesmo assim confesso que ainda não consigo olhar muito tempo para Godinho Lopes quando o vejo na televisão, fiquei demasiado aturdido pela possível vigarice eleitoral a la W. Bush, imposta (ou não) por interesses que são do conhecimento público. De qualquer forma Godinho anda a trabalhar muito bem, gradualmente passando de "este não é o meu presidente" para "o nosso grande presidente".
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