Já não há palavras que classifiquem o topete, a atitude vale tudo e a desonestidade desafiante de Eduardo Catroga. A não ser dizer que tarda nada Catroga é um adjectivo, ou um estado mental referente a estar, isso mesmo, catroga.
Agora o personagem que ele próprio criou diz in extremis que tem andado acelerado. Tentou fazer de policia mau mas a coisa não correu como queria. De Hitler já ninguém o livra, de César Monteiro muito menos...
O Nem Paz, Nem Guerra, onde tive o gosto de escrever, está de volta. Com o meu irmão ao volante e depois de uma valente guinada à esquerda. Mas vai em frente e cheio de força, espero. Um blogue de e do combate para o combate.
Decidi reactivar o Céu Aberto para pôr lá textos, que como diz o Artur Jorge, se não calhar não cabem aqui. Coisas inúteis que saem do esconderijo e vêm apanhar ar.
Os Neandertais eram baixos, fortes,rápidos, comparáveis hoje aos jogadores de futebol americano, chumaços incluídos. Caçavam em grupo, em equipa, com lanças compridas em direcção aos mostrengos. As lesões e hematomas que contraíam eram parecidas às dos cowboys dos rodeios. Tinham também a particularidade de só caçarem os animais maiores, por terem mais carne e gordura. Os mais pequenos deixavam de fora, não interessavam. Jogavam forte e forte arriscavam, de resto só comiam carne, não estavam para variedades. Também não eram dados a misticismos como o Homo Sapiens, não se pintavam nem faziam rituais. Eram tipos tiro e queda. Burros é que não deviam ser, as pedras afiadas que esculpiam para lascar os animais caçados levavam meses até estarem prontas, e com tal precisão que artesãos de hoje com mais de vinte anos de experiência dificilmente chegam a tanto.
Sabe-se agora que os Neandertais se extinguiram à volta de 40 mil anos, pouco depois do Homo Sapiens migrar para a Europa. Não existem provas de extermínio, nem de assimilação. Não se sabe ao certo porque desapareceram.
Há uma teoria que diz que houve uma alteração na corrente do Golfo que fez com que a Europa gelasse por completo. Morreram animais, extinguiram-se espécies, a caça grossa foi à vida e os Neandertais desapareceram aos poucos, um a um. Como eram de poucos gostos acabaram por se tramar. A nossa espécie não, pelo contrário, prosperou, caçava o que havia para caçar, comia de tudo, raízes, frutas, o que estivesse á mão. Mais sensata, disseminou-se por todo o planeta e o resto foi história, inclusive o racismo. Coisa que os Neandertais provavelmente teriam dificuldade em compreender, homens Sapiens racistas de homens Sapiens, e que até há racistas em povos de homens Sapiens independentes há umas dúzias de anos, isto depois de uma vida inteira a levar nas orelhas...
Até à expulsão, Pepe estava a ser o melhor em campo, "comia bolas", ganhava espaços, cavava faltas, destruía o jogo a um Barcelona que já não sabia mais o que fazer, e o Real Madrid preparava o golo a marcar na altura certa, para depois gerir com pinças a vantagem na segunda mão, em Camp Nou. Só assim podia passar esta eliminatória. Nos limites e sem cometer erros. Fora isso, a queda seria fatal, como no caso do "louco" equilibrista que passou duma torre a outra do World Trade Center. É que este Barça "joga nas alturas". Daí que compreenda toda a fúria de Mourinho: aquele vermelho a Pepe deve ter valido por dois ou três penaltis. Sem Pepe era preciso tempo para prevenir o desastre. Tempo esse que Messi aproveitou com todos os requintes da genialidade.
Filme sobre um filme dentro dum filme, "Road To Nowhere" é um filme sobre o próprio cinema, com planos, cenas e personagens sobrepostos em notáveis efeitos surpresa impossíveis de poder ser inteligíveis num primeiro visionamento pois tudo ali é jogado em enigmas de enigmas de um puzzle em que só vendo e reparando mais uma vez poderão encaixar melhor todo o enredo no misterioso e surpreendente final. Entretanto sobra a beleza dum cinema que em Monte Hellman vive além do espaço e tempos convencionais de um filme. Quantas vezes me lembrei de "Two Lane Black Top" ao ver "Road To Nowhere", talvez por serem feitos da mesma gramática, duma ideia difusa de principio e fim, de partida e chegada, onde sobretudo existe o prazer e mistério da fruição e todo o concreto se dissolve em Cinema.
O que talvez me falhe em "Road To Nowhere" é Mitchell Haven, o alter-ego do realizador, que não me parece convincente o suficiente para sair do registo just pretending to. Mas como vou ter de ver tudo outra vez...
Adenda: Leio agora no Ipsilon, através de Luís Miguel Oliveira, que Monte Hellman disse "não basta vê-lo duas vezes". E se há coisa que ele não tem é espírito comercial...
Já vi muitos renascimentos no cinema. E reciclagens, como de Cary Grant para George Clooney que também reciclou Jimmy Stewart de certeza absoluta. Depois existem casos que intrigam mesmo, feitos de semelhanças absolutas completamente separadas no tempo e geografia.
Ver Marika Green em "Pick Pocket" (O Carteirista) é quase como ter Natalie Portman nos finais dos anos 50 a ser dirigida por Robert Bresson. Fisicamente não se distinguem, a cara é igual, os olhos são os mesmos, o olhar - penetrante - é que já não, mas ninguém (nos) olha como Natalie Portman. Mesmo assim, não estivesse Marika Green viva e falar-se ia em reencarnação. Ou será que alguém já perguntou se passou por Israel há trinta anos?
Ouvia a conversa num café daqui, "mas então os gajos é que têm a guita...". Na televisão a TVI dava os senhores da Troika, palavras da jornalista. Senhores da Troika isto, senhores da Troika aquilo, os senhores da Troika entraram violentamente no nosso vocabulário. E vão se entranhar por muitos e muitos anos. Os senhores da Troika são como a pasta medicinal Couto, andam na boca de toda a gente, é verdade. E também são medicinais com a receita que costumam aplicar, tipo quimioterapia. Senhores da Troika dito assim soa algo salazarento, como se me estivessem a dizer “vêem aí os senhores, bico calado, respeitinho...”.
Entretanto o homem não se calava, “ouve lá, ouve, os gajos é que têm a guita...”. Isto a propósito do PCP e BE se terem recusado a negociar por uma questão de soberania nacional, dizem, como se a dita soberania nacional não estivesse agora em bolsos alheios. Como se apertar com os senhores da Troika não fosse muito mais útil para nós do que apenas protestar ou clamar vitórias morais.
Apeteceu-me dizer ao picareta falante que há um senhor da Troika que parece um rei mago e um outro que é mesmo a cara de um daqueles árbitros que rouba tão descaradamente que já nem consegue fingir. Não negociaram, negociassem...
O que escrevo agora é tão absurdo como a tua morte: devias ter avisado que a gente não deixava. Que te fosses embora assim de surpresa, aos 40 anos. Quando ias dar e ver tanta coisa, aquecer os dias com a tua companhia, por mais distante que fosse, por andares por aí algures, a viver a tua vida, a que tanto tributo prestavas. À tua boa maneira, que subitamente faz tanta falta e que tantos sentem como terrível perda. Foste mesmo embora amigo? Ou andarás noutro ponto da viagem?
"Outra década nisto e podemos exumar o Suetónio, que ao menos já treinou com as biografias de Nero, Galba e Vitélio: não eram mais doidos que os nossos. Nem Calígula, que elevou um cavalo a senador, se lembraria de ir buscar o Fernando Nobre." Luís M. Jorge, aqui. Exagero? Não vejo onde.
Não conheço todos os filmes de Sidney Lumet, nem pouco mais ou menos. Ainda assim vi “Serpico”, “Dog Day Afternoon”, “Equus”, “The Verdict”, “Night Falls on Manhattan” e “Before The Devil Knows You're Dead”, todos a ponto de me encherem as medidas. Não é digno desta lista o fraco e despreocupado “Find Me Guilty”, feito certamente em piloto automático, mas que do pouco que tem ainda vale pelos diálogos, pelo humor e por um Vin Diesel a dar ares de grande actor, o que é qualquer coisa...
Lumet era dos bons, seus filmes tinham carácter: intensos, intrigantes, incisivos, inteligentes, preocupados. Densos, com ritmo, vertigem, estupendas interpretações de grandes actores, agarrando-nos no enredo, fazendo-nos pensar. Pensar a sério. Creio que viverão por muito e muito tempo. Isto se a humanidade não o(s) desmerecer.
Tão ou mais difícil do que termos um novo filme do divino Terrence Malick, é voltarmos a ter um filme do mítico Monte Hellman.
Do pouco que vi de Hellman, a obra-prima"Two Lane Blacktop" está no meu top 10 de sempre, os westerns artesanais com Jack Nicholson "The Shooting" e "Ride In The Wirlwind" estão ali numa caixa em frente a olhar para mim, depois de eu já ter gostado de olhar para deles.
Quentin Tarantino queria-o para realizar "Reservoir Dogs", Vincent Gallo para "Buffalo 66", ripando-o depois descaradamente em "The Brown Bunny". Monte Hellman é dos poucos cineastas americanos a saber despertar o 6º sentido cinéfilo. Mal possa estarei lá sentado.
Li algures a bela da pergunta "onde estava você no dia 6 de Abril?". Ora eu, apesar desta bronquite e de chatos afazeres profissionais, faço anos hoje. Não os comemorarei agora, fica para amanhã ou depois - e ainda bem porque hoje foi um dia terrível para Portugal. Mas já que tenho o dia amaldiçoado, também não resisto ao meu statement: não, não irei votar Sócrates, de forma alguma, Passos Coelho muito menos, seria fisicamente incapaz. Resta-me pois a esquerda ou a extrema esquerda. Seja. É inseguro? Irei pelo restolho? Pois com toda a certeza. O restolho neste momento é o piso mais fiável...
Desconfio sempre das pessoas aborrecidas. As pessoas aborrecidas aborrecem, e não dão nada mais que o próprio aborrecimento. Não porque não saibam, mas porque não querem. Questões de carácter. De bondade intrínseca. As pessoas aborrecidas são tacanhas. Acreditam na mediocridade. Estão como o mar morto, parado, sem marés, é aquilo e pronto. Ás pessoas aborrecidas tenho de dar rédea curta, muito pouco espaço, para não aborrecer de morte. E poder ficar com o dia arruinado. Infectado de tédio.
Mas como vez não são vezes, há sempre uma vez em que que se me relaxam os músculos e, enfim, retiro as ditas da (tão) necessária distância de segurança. É tiro e queda. Apanham logo a deixa, as pessoas aborrecidas. E lá se revelam, vá-lá, em todo o seu extertor: chatas como a potassa. E enquanto passa o interminável tempo em que a chatice se revela em tédio e aborrecimento, penso, mais uma vez - enervado, arrependido, zangado comigo, a dar a razão e valor à tão infalível da intuição - na (tão) necessária distância de segurança, na rédea curta, nas coisas da aprendizagem, em noções essenciais da experiência...
Tinha gravado há meses, mas só vi agora - um "Toda a Verdade" sobre a Coreia do Norte. Não sei se viram, o meu irmão diz que já viu alguns no You Tube, e de facto não existe nada melhor para sem violência ou morte se poder ficar em estado de choque. Imagina-se "1984" e é mesmo assim. A cidade não tem transito nem carros e são os autocarros que escoam o povo de casa para o trabalho e vice-versa. Não há outra rotina. Tudo é vigiado, tudo é olhos e ouvidos presentes e obrigatórios. Assassinados, mortos à fome, ninguém deve saber, sob pena de morte que nem sequer constará como coisa, quanto mais como facto. O indivíduo é a perversão, o colectivo a salvação e para unir o conjunto só existe a figura do Grande Líder, o único possível garante de sobrevivência.
Existe ali uma pizzaria, a única num país com mais de 20 milhões de habitantes, diz que o chefe supremo gosta muito de pizzas e enviou então um chefe para aprender a fazê-las em itália. É só para turistas ou figuras do regime, o comum dos mortais não deve sobrepor-se em questões de gosto, muito menos terá 5€ para pagar uma. Se quer comer tem farináceos, algas, e o que mais houver, e nem sequer interessa que morram por ano 800 mil pessoas à fome. Os pensamentos devem estão todos guardados para o Grande Líder, única garantia contra a perversão do mundo. Não há mais nada além dele, nem sequer morrer.
Turismo ali existe ao preço das Seycheles, vindo de Operadores Turísticos especializados em pacotes para países em guerras, catástrofes, atentados e epidemias. Vão a Gaza, ao Iraque, ou ao Sudão para testemunhar o sofrimento atroz, faz parte do Pacote, depois há gente que paga e bem. Agora se calhar organizam excursões ao Japão do terramoto e à Líbia, caríssimas e exclusivas, escondidas porque as pessoas têm vergonha, sim, existe uma economia gerada pela infinita tristeza. E dá muito dinheiro. Inclusive para a Coreia do Norte.
Os turistas são franceses, neste caso, comandados por dois guias-vigilantes-polícias nativos, e por um tour leader francês que pouco pode com seu ar de proto-nazi milionário pelas comissões que cobra. Entre os turistas está uma descendente de pai norte-coreano com ar de soberba assim meio mesquinho e um lambe botas a dizer bem de tudo aquilo com cara de personagem de um livro apocalíptico de Houéllebecq. Regra principal, ali ninguém pode passear sozinho, fazer perguntas incómodas, nem sequer tocar ao de leve no equilíbrio maquilhado do regime. O mais leve descuido pode descambar numa detenção de meses, ou em crescendo de uns anitos em trabalhos forçados, ou no limite a tortura e a morte. Não existem acordos de repatriamento com nenhum país do mundo, para eles, os outros países nem deviam existir. Dali, tal como nos Buracos Negros das galáxias, tudo o que entra não sai. É a chamada gravidade absoluta, que de tão pesada até a luz retém e é exactamente isso que se passa na Coreia do Norte, onde a gravidade é outra, mas de onde também nada escapa.
Imagino 1984, a obra-prima de George Orwell, livro que marcou a minha vida e a de tanta gente. Orwell meteu o totalitarismo dentro do mecanismo literário e ficcional pensando-o até às ultimas consequências, o resultado foi o feito de tornar uma obra de ficção cientifica num tratado de realismo e capacidade de leitura e antecipação de cenários apocalípticos. A Coreia do Norte é "1984", é esse mesmo totalitarismo. É o país das ultimas consequências.
Embasbacado em frente ao ecrã, fico a saber que a propaganda ensina que o chefe criador do regime, o primeiro grande líder, Kim II-sung é herói militar desde os 12 anos, mentira mesmo assim tão real quanto a vida: quem não acredita nisso entretanto já morreu. E nós, que não fazemos parte dos que acham que Kim II-sung não é herói militar desde os 12 anos, também não existimos. Porque lá dentro nunca existiríamos. E se Obama tentasse ali fazer o mesmo que fez agora na Líbia, e W.Bush no Iraque, pois todos juntos deixaríamos de existir. Kim Jong-il sabe que isso nunca acontecerá em séculos. E em Pyonyang, a mulher polícia sinaleiro do documentário, continuará a marcar um transito sem carros. Isso digo eu aqui, porque para eles os carros existem porque está lá a polícia sinaleiro. E vai daí, o povo a cem metros da dita lá vai fazendo a sua ridícula e triste ginástica antes de ir apanhar os autocarros para o meio do "caótico" trânsito da cidade do Grande Líder. O duplo pensar dirá que a felicidade suprema é viver no meio do mais pobre dos fascismos igualitários. Não é em vão que alguns livros ensinam que toda a humanidade acaba no totalitarismo sem escape possível.
Sempre localizei "Animals" - um dos albuns mais estranhos do rock'n'roll - com a recessão económica dos anos 70, entre a ressaca da década anterior e o movimento punk prestes a explodir. "Animals", marca de um rock progressivo já a entrar em caducidade, é também por alguns demasiado subvalorizado - dando de barato que é o patinho feio da discografia dos Pink Floyd e que foi mal conseguida a pretensa colagem a "Animal Farm" de George Orwell - mesmo que tenha resultado num produto a puxar para o megalómano, confuso e pretensioso.
Miguel Esteves Cardoso, numa daquelas belíssimas crónicas de música que fazia, chegou a apelidar o disco de "esforço tão desesperadamente porcino quanto a capa", desta não me esqueço. Mas megalómano e niilista no seu desespero, "Animals" tem sumo e coisas para dizer. E é hoje muito urgente. Como retrato, como metáfora, como forma de chamar os bois pelos nomes. Hoje "psicopatas" como Bernie Madoff, o outro do Lehmann Brothers, Oliveira e Costa ou o Rendeiro do BPP são decalques do "Pigs" e já tive um chefe que era exactamente "You're nearly a good laugh, almost a joker, with your head down in the pig bin, saying "Keep on digging." Pig stain on your fat chin .You're nearly a laugh, you're nearly a laugh but you're really a cry".
Muitos empresários, gestores, quadros médios, self-made men, workaholics, cínicos, individualistas e toda uma fauna de stressados entram no preocupante quadro de "Dogs", onde me identifico mais; e a carneirada, a enganada, dependente e inofensiva carneirada, continua e continuará a ser a mesma que é retratada em "Sheep", muito passiva, mansa e candidamente a ser pastoreada, quiçá para o matadouro.
Roger Waters, em vez de repetir o já gasto "The Wall" pela trilionésima vez , faria melhor agora um espectáculo de "Animals". Até podia meter o tal porco voador misturado com as caras dos Thatchers de hoje. No esboço do post tinha os "personagens" e a coisa ficou tão tétrica e de mau gosto que deixo à vossa imaginação. Não resisto é a sugerir para Portugal balões de robalos gigantes, tacos de golfe com bolas de 6%, submarinos insufláveis ou facturas da EDP com dez metros de altura. Esgotaria cinco Estádios, em vez de dois Pavilhões Atlânticos.
Johnny "Coca Cola" Lardieri, Mickey "Ciggars" Coppola, Louis "Louie Ha Ha" Attanasio, Angelo "Quack Quack" Ruggiero, Vincent "Vinnie Gorgeous" Basciano, Philip "Chicken Man"Testa, ou Bobby "Bad Heart", há nos mafiosi americanos algo que me lembra o bairrismo chunga de Lisboa dos meus tempos de miúdo em que haviam alcunhas para tudo e mais alguma coisa.
Havia um pobre miúdo a quem chamavam de "Deixa Estar Que Eu Chuto", coxeava muito, e como se não bastasse era sempre lembrado pelo defeito físico e do pouco que jogava à bola. "Deixa Estar Que Eu Chuto" ainda assim era mais elaborado que qualquer um dos cromos acima mencionados, mais que por exemplo o aparentado Bobby "Bad Heart", lembrado no nome pelo pacemaker que usava. Com o "Deixa Estar Que Eu Chuto" haviam outros requintes: "Deixa Estar Que Eu Chuto anda cá; Deixa Estar Que Eu Chuto hoje ficas à baliza; Deixa Estar Que Eu Chuto a Andreia quer namorar contigo; Deixa Estar Que Eu Chuto dá-me uma bolacha; Deixa Estar Que Eu Chuto tás sempre a marrar; Deixa Estar Que Eu Chuto, um bom Natal." Em suma, deixa estar que eu chuto. Por tudo o que sofreu, o "Deixa Estar Que Eu Chuto" (nunca consegui saber seu verdadeiro nome) merece estar agora melhor que todos os rufias que o maltratavam. É bem provável, até porque mânfios tramam-se sempre. Como Mickey "Ciggars", preso há pouco tempo em Manhatan depois de anos em fuga por ter limpado o sebo precisamente ao "Cola Cola" gangster. E Vinnie "Gourgeous", que não vai poder continuar a sua carreira com a prisão perpétua para o resto da vida numa daquelas prisões de alta segurança. Aqui de Lisboa é muito cómodo seguir todos estes enredos e conjunturas, alguns até mais interessantes do que os de "Good Fellas", "Casino", "Donnie Brasco", ou da saga "The Godfather". Filmes todos baseados e copiados da realidade. A série "The Sopranos", por exemplo, é um decalque da saga da família De Cavalcante de New Jersey, com algumas coisas da facção local da familia Lucchese de Nova Iorque. Depois, temos também a máfia de Chicago com "Casino" e "The Untouchables". Quando eu conto estas histórias às pessoas mais próximas, elas torcem o nariz, mas depois adoram os filmes, e quando eu digo que aquilo é tudo verdade, não fazem caso disso.
A verdade é que existe um enxame de historiadores do fenómeno, no Amazon a bibliografia é enormíssima. Parte deles estão em todo o que é documentários no You Tube, resmas: de todas as famílias, de cada família, da vertente sociológica, dos personagens, do papel da polícia, dos bufos, deste caso ou daquele...
Depois ainda há os especialistas: conheço um de Nova Iorque e outro de Filadélfia, um a falar parece o João Querido Manha, o outro é mais Luís Freitas Lobo. Este ultimo tem-se ocupado ultimamente com a eminente saída de Joseph "Skinny Joe" Merlino da prisão: se vai desafiar a liderança do bossJoseph "Uncle Joe" Ligambi ou se segue antes para a Florida para ganhar tempo e marcar território. Da última vez até se meteu o Facebook ao barulho. É que Joe Merlino tem fama, glamour e é género de herói local. Gangster craque benemérito. A culpa é do entertainment, que criou a marca, o estilo, o glamour. E no meio até nos tenta fazer esquecer que o tipo é um criminoso, um demente, um crápula, um ser indigno de respirar oxigénio fora da cadeia. Mas e se Martin Scorsese pegasse nele?
PS: Na foto Joe Merlino e Joe Ligambi num jogo de baseball entre "good fellas". Digam-me lá se não parece que estamos num episódio dos Sopranos.
Num lindo e normal dia de sol, igual a tantos outros, no meio da mais trivial das rotinas, sem absolutamente nada fazer temer o que quer que seja. É neste cenário que acontecem as piores catástrofes. Foi assim no Japão, foi assim em 1755, foi assim no 11 de Setembro de 2001. Desta vez assisto incrédulo e assustado à maior catástrofe do meu tempo de vida, seguramente a maior do planeta desde a 2ª Guerra Mundial. A também maior crise económica da minha vida como que se some num grão de areia quando comparada com o que se passa no Japão. Sim, "a NATUREZA tem essa característica que o homem insiste em não ter em conta: gera com alguma facilidade sequências de eventos catastróficos que fazem falhar todos os nossos sistemas de segurança". Porque antes disso foi a ganância, refira-se.
Não tinha ainda 8 anos de idade, mas lembro-me bem quando queriam nos anos 80 construir uma central nuclear em Vila Nova de Milfontes. No carro dos meus pais estava colado aquele conhecido autocolante do "Energia Nuclear? Não obrigado", e à entrada da vila havia umas pinturas de protesto que não me recordo o que diziam mas davam logo nas vistas a qualquer pessoa que entrasse no paraíso que era a Milfontes da altura. Não ter ido em frente foi um enorme alívio. E nem é preciso ler este excelente post para perceber porquê. Até acho que agora devia dizer-se "Nuclear? Nunca Mais". Mesmo com todas as vozes autorizadas, competentíssimas e por demais habilitadas a insistirem na racionalidade do nuclear - o custo/benefício, a poupança de energia, a não dependência do petróleo - a verdade é que esta sempre esbarrar com a irracionalidade do ser humano. Não vale a pena. Porque há e haverá sempre aquele dia, em que as pessoas se esquecem, em que debaixo da mesa se manda tudo às malvas, em que o mal só acontece aos outros, em que se pensa no fácil que é ganhar dinheiro com o "impossível" de haver uma desgraça. Foi assim em Chernobyl, foi assim em Fukuyama e será concerteza assim daqui a umas décadas quando tiver tudo esquecido.
Esta sim, é a verdadeira crónica das eleições do Sporting. E a mais concisa e bem escrita - com todos os rios de tinta que já se escreveram sobre o assunto. Está lá tudo, não é preciso saber mais nada.
Quem julga que nos blogues da bola não se escreve maravilhosamente é porque não conheceu ainda o Cacifo do Paulinho (aguentando carradas de asneirada) ou nunca leu o melhor deles todos: o já extinto Mãos ao Ar, seguramente um dos blogues mais bem escritos de todos os tempos, e não só da blogosfera leonina. Os sacanas sabem...
Das outras cores não sei nem me interessa, registo apenas que há benfiquistas que gostam de ir ao Cacifo. Não resistem. Devem estar como eu agora, ansiosos pelo Acto II.
- "Saber onde se está, para saber onde se vai." Ou pelo menos para haver uma ideia por que raio de trilho se está a ir.
- Lutar, lutar, lutar. Conquistar, defender, manter. Como num jogo. Defender e atacar, atacar e defender. Há gente em guerra que tem de matar para atacar e matar para defender. Aí o melhor que se pode arranjar é uma pausa ligeira. E ainda assim, tinha de os ter, os cigarros.
- "You can't beat death, but you can beat death in life". Charles Bukowski, amén.
Mesmo sobre o fim, nos descontos de uma eliminatória sofrida e de um jogo virado a favor, quatro jogadores do adversário surgem isolados na cara do golo, um deles marca e transforma o impensável. Dizem que foi uma distracção e falha colectiva. Errado. Foi muito mais que isso. Nesta imagem de corar de vergonha qualquer sportinguista, estão mais que aqueles seis jogadores, mais do que os onze até. Mais do que os suplentes, o treinador e demais ajudantes. E está muito para além do erro ou distracção, é uma falha que suplanta a sua própria falta de carácter, tal como aquelas pessoas que subitamente descobrimos que afinal não são tão burras quanto isso, porque não podem, porque é impossível chegar-se a tanto...
Este golo é muito mais que azelhice pura e dura. É um golo espelho. E o espelho partiu-se. E agora só resta começar tudo do nada. Persistir só trará mais cacos. Ou mesmo os quatro defesas dos juniores.
Vi-o ontem pela última vez. Mais a carcaça, que o resto já tinha ido sem ninguém dar por nada, às escondidas. Estava cheio de pressa mas tive de parar, até me ofereci um café para estar mais tempo ali, a ver o resto do Cinema Europa a cair no entulho. Eu e mais umas dezenas de pessoas a olhar para um guindaste a ir contra uma fachada única e familiar, algumas sem saber o que pensar daquilo, assim entre o ofendido e o tem de ser tem muita força. Um filhos da puta veio-me à cabeça, perdoem-me o francês. Recuso-me a entender como é que aquilo não podia ser aproveitado para um teatro, um cinema, as duas coisas, uma sala de concertos, as três coisas - numa zona daquelas cheia de gente, restaurantes, cafés, cervejarias. Um condomínio fechado?
No futuro talvez diga aos meus netos que havia ali um cinema desaproveitado, que a sala era excelente, que vi ali um filme aos 6 anos - o Bamby, se bem me recordo - ou um memorável concerto de Julio Pereira gravado para a televisão. Ou uma gravação do 1,2,3 que foi uma seca descomunal mas que me fez saber do prémio antes de toda a escola.
Fala-se agora que haverá - haverá? - no piso térreo um centro cultural ou uma mediateca. Uma mediateca tenho de certeza melhor em casa. Uma mediateca é uma daquelas coisas mandadas como quem está a gozar sem se rir enquanto joga as cartas debaixo da mesa. Uma mediateca é uma daquelas coisas que nos faz perguntar: mas para que é que eu quero uma mediateca?
"Somos todos feitos de retalhos, entretecidos tão disformemente que cada elemento e cada momento age por conta própria. E tanta diferença há entre nós e nós mesmos como entre nós e outrem."
Dá-me ideia que andam muito na net a marcar território, não vá o diabo tece-las. Custa-me entender isso, mas também não tenciono perder tempo com subjectividades dessas. Vá-lá que sou dos que conseguem distinguir quem realmente vale a pena do resto da pandilha pretensiosa. Penso que essa é uma das minhas qualidades. E também o não me apetecer entrar nesse tal jogo do território. Porque é que me havia de apetecer? Gosto de respirar. Ninguém me obriga...
John Lurie deixou a música há mais de 10 anos, problemas neurológicos vários, coisa em que nem os médicos se resolvem. Conta que nem pode ouvir música, deve evitá-la até, sob pena de tenebrosos efeitos secundários. Outros falam em paranóia. E que Lurie voltou recentemente ao saxofone.
A verdade é que John Lurie se confinou durante seis anos ao seu apartamento de Manhattan. Depois duma vida passada a criar, a fazer e a acontecer - a solo, com os Lounge Lizards, bandas sonoras, com o alter-ego Marvin Pontiac, como actor, como autor-realizador do soberbo "Fishing With John" - o renaissance man agarrou-se e com sucesso à pintura. Um ultimo refugio, terapêutico certamente, mas antigo para ele pelo menos desde os tempos de Basquiat e Keith Haring. Diz também que tem uma auto-biografia quase pronta porque só lhe davam um ano de vida. Sabe-se que anda fugido desde 2008 por supostamente estar a ser perseguido pelo ex-amigo John Perry. Verdade e paranóia vivem com ele paredes meias.
Andei toda a semana com uma Gripe daquelas, na verdade foram dez dias. Mais uma vez armei-me em herói achando que esta seria igual a outras e partiria como chegou, depressa. Não me preocupei sobremaneira, nestas ocasiões lembro-me sempre duma vez em que fui com febre para uma aula de Aikido e transpirei tanto que saí depois do banho limpo e curado. Por isso fiz vida normal, inclusive com uma directa que não sei se serviu para alguma coisa. Agora o adversário não foi na conversa, tinha inovações: mais resistente, avisado, cínico, matreiro. Primeiro não me largou do pé. Depois ganhou o controlo do combate mantendo-me a febres fraquinhas para eu cair na esparrela de que já estava quase bom e a seguir ir outra vez ao tapete, ou melhor, para a cama. Dormia, KO, à espera se passava e não passava. Doía-me o corpo quando tossia, exasperava, mas isso só tornava as coisas piores. Atirava-me abaixo e assim sucessivamente. E já estava com os mesmos remédios que tinham sido de uma absoluta eficácia da vez anterior...
Só comecei a ganhar o combate quando percebi a táctica do devagar que tenho pressa. A minha motivação tornou-se dormir, antes disso ainda aproveitava para ir limpando o cardápio de gravações do Meo, só que acabava por apenas ver as coisas mais levezinhas, não tinha estofo para mais, de leituras apenas jornais e blogues só mesmo os mais de casa. A maldita comandava o jogo: ao mínimo esforço, cama.
Anteontem, tosca e desajeitadamente consegui reagir. Ontem finalmente saí de casa. Primeiro escala no café da esquina, depois supermercado. Por fim um jantar como deve ser, uma noite bem rematada e para a próxima tratarei a Gripe com mais respeito. Ou isso é o que digo eu agora.
Dizia ela, "repara tu que há duas gerações atrás não tinhas ninguém da tua família que fosse de Lisboa, és uma mistura de Cercal, São Luis, Montargil, Quito/Silva Porto, Luanda, Sertã, Ovar, Marinha Grande...Queres mais? Eu aqui tenho ascendentes pelo menos desde o século XIX. Sou muito mais lisboeta que tu." Só lhe faltou falar da faca e alguidar ou das pedras da calçada...
Jordão foi dos meus maiores ídolos de infância. Em plenos anos 80 punha-o ao lado de super-heróis e ídolos da música, TV e cinema da altura. O agora pintor resistiu intacto à prova do tempo, tanto que ainda hoje sinto a falta dele naquela equipa. O nº 11 de Jordão, e também o 9 de Manuel Fernandes, deixaram um tal vazio no Sporting que só houve uma pessoa em quase trinta anos capaz de o preencher: Liedson, pois claro.
Se no inicio olhava para Liedson como um diminutivo do meu herói, género quando fôr grande quero ser como o Jordão, com o tempo Liedson tornou-se Liedson, perdoem-me a redundância. Liedson tornar-se Liedson significa ganhar o direito de pelo seu nome ultrapassar todos os melhores adjectivos que o classifiquem. Para um sportinguista Liedson quer dizer tudo e quer dizer Liedson. Liedson nunca devia sair do Sporting. Ou pelo menos nesta altura e desta maneira. É um erro histórico. Uma borrada das grandes. E borrada que é borrada tem sempre de meter mais borrada. Então não se faça a coisa por menos. Vende-se o super-craque por uma pechincha e não se contrata ninguém para o substituir, mesmo que para Liedson não haja substituição possível. Fazer o quê? JEB despediu-se em grande, também ele ganhou o direito de ter o seu nome acima do adjectivo daquilo é, neste caso bronco. Vamos pôr as coisas nestes termos: Liedson é Liedson, JEB é JEB. E devia ser banido do Sporting. Para sempre.
Sou Vário, consigo ser vários. Eles existem e não há nada a fazer contra vários Vários. Tantos há que me conhecem e apenas sabem que existe um Vário em tantos outros Vários que sou. Nem se apercebem. Do taberneiro ao produtor de cinema, do cromo da bola ao revolucionário comunista, da dona de casa à artista multi-facetada, do blogger de direita ao anarquista do bairro. E assim sucessivamente, numa corrente interminável de Vários. Todos pensam que sou o Vário mais de casa deles. Ou tendem a pensar, ou querem pensar, não sei. Nem penso que tenha culpa, eu não finjo - todos esses vários são autênticos, emanam do mesmo Vário. São parte de mim e de mais ninguém. Além do mais, gosto muito dos meus amigos. Todos esses Vários têm uma constante. Um ponto onde as ramificações e encruzilhadas se encontram. Esse ponto, essa união, essa única constante entre todos os Vários, é o Vário que escreve. Ele é o centro, o chefe, o comando da acção, o nucleu criador de Vários. E os vários Vários acabam por ser o combustível, a lenha e o carvão para o núcleo criador poder carburar, fazer a combustão. É uma coincidência feliz, mas nenhum Vário finge, nem sequer tenta o cínismo. Todos eles lutam de verdade pela variedade de ser Vário. Ou vice-versa.
Foi Gram Parsons que me fez ouvir country pela primeira vez, mais especificamente o country-rock-folk que ele inventou. Muito fora de toda a ganga pirosa que enche o género, e mantém longe pelo menos a maioria das pessoas que conheço, que pelos vistos tem piroseiras mais finas e "aceitáveis" que agora não vêm agora ao caso.
Estávamos em plenos anos 90, altura da vida em que realmente descobria bandas, ia a concertos, frequentava a Torpedo e a Carbono, e comprava o NME e o Melody Maker. Aí Evan Dando, J Mascis dos Dinosaur Jr, ou Peter Buck dos REM, entre muitos outros, incansavelmente falavam do fenómeno Gram Parsons, que como Nick Drake ou os Velvets, se tornara uma moda póstuma. Depois inevitavelmente surgia Keith Richards a fazer a ligação para "Exile On Main Street", ou "Sticky Fingers", com as histórias de Gram Parsons a pairarem sobre o que de melhor fizeram os Rolling Stones. É facil constatar que eram grandes amigos os dois, influenciavam-se mutuamente, e que Gram Parsons foi mais um a ficar pelo caminho do sobre-humano Richards.
Foi portanto um acaso perfeito uma viagem que o meu pai fez aos states de onde me trouxe um CD 2 em 1 de toda a discografia a solo do autor: GP e Grievous Angel. Mais tarde ainda me chegou ás mãos uma compilação do trabalho de Parsons com as suas bandas, entre as quais os Byrds e os Flying Burrito Brothers. Tudo ao nível do génio que morreu não aos 27 mas aos 26 anos, em pleno deserto, sob um cocktail de drogas e tequilla. Um tipo cheio de alma e tormento, da força dos campos intermináveis da américa profunda, talvez essa a alma do country. É para lá que viajo ao ouvir Gram Parsons, a sua música transporta-nos, literalmente. E é tão genuínamente pura que nunca me cansei de ouvi-la.
O Paulo Bento forever foi o menos. Quando a esmola é tanta o pobre desconfia, quando a inaptidão é tanta, e tão prenunciada, também se desconfia. Nem tudo deve ter sido incompetência ou burrice. Coisa que JEB não tinha quando foi vice-presidente para o futebol e fomos campeões, ou quando chegou a um dos topos do Banco Santander. A ver vamos (n)o futuro. Se fingiu de parvo ou se subitamente emparveceu.
A mim não me apetece, não tenho tempo, nem sequer paciência para andar aqui a fazer conjecturas político-conspirativas. Quanto mais não seja porque até os abutres rodeiam o clube precisam que o Sporting dê dinheiro, muito daquilo é deles, infelizmente. E José Eduardo Bettencourt não dava a ganhar a ninguém.
A verdade tem um qualquer mecanismo de revelação, existem muitas teorias acerca disso. A minha preferida é a do azeite. Um clube de futebol não é algo assim tão complexo para que a dita leve uma eternidade a vir ao de cima. Até lá, fica já carimbado o pior presidente da história do Sporting Clube de Portugal. Se se tirasse aqui o "Sporting Clube de" provavelmente não andaria muito longe de acertar num dos piores, vá lá, de todos os clubes de Portugal. Enfim, comecemos pelo mais importante, os adeptos:
- Mandou calar outro, no aeroporto de Lisboa, "ta calado pá", disse em frente às câmaras de TV.
Vamos agora aos tesourinhos deprimentes do futebol.
- contratou inesquecíveis inaptos como Caicedo ou Angulo, não havia dinheiro. Quando passou a haver, estoirou quase tudo - 6,5 milhões de euros - em Pongolle.
- Não conseguiu ter escolhas melhores para treinador do que Carvalhal e Paulo Sérgio. O último, como o próprio sabia, ainda sem experiência nem bagagem. Mandar é difícil, pois é.
- Escolheu antes Costinha para liderar todo o futebol, outro sem experiência, bagagem, nível e cultura de clube. Um auto-denominado sportinguista, que no passado apertou a genitália para a tribuna onde estava o ex-presidente do Sporting, Filipe Soares Franco. Ele, que no auge da carreira disse que em Portugal só jogava no FC Porto. Eu lembro-me porque li. E nenhum jornalista fez o seu trabalho quando Costinha andava a dar lições de sportinguismo a toda a gente, inclusive a um ex-presidente. Adiante.
- Vendeu o capitão de equipa a um rival histórico e directo. Foi por metade do preço. João Moutinho, formado no clube e titular indiscutível há cinco anos. Como forma de defesa chamou-o de maçã podre, conseguindo assim virar a fúria dos adeptos para o próprio jogador. Mas quando a mesma "maçã podre" estava prestes a regressar ao seu antigo estádio, prontificou-se logo em dizer que Moutinho era um grande profissional. O respeitinho é muito bonito, excepto quando se tem de encarar as acções próprias, não é José Eduardo?
Já nem vou entrar no assunto Sá Pinto, nem na forma desumana como (não) apresentou e despachou Carvalhal, na ostracização de figuras do clube, ou de um craque como Izmailov que antes era exemplo de profissionalismo, dedicação e empenho. De resto, as calças de ganga que se danem. Demais é demais.
Para concluir, como muito de vós sabem, José Eduardo Bettencourt foi o primeiro presidente profissional do Sporting. Ganhava mais de vinte mil euros por mês, tinha o dia do clube por sua conta. Nos ultimos tempos andava com um ar cansado, envelhecido. Ontem na conferência de imprensa já parecia mais o JEB de antigamente. Mais jovem, rejuvenescido até. Seja.
Nem o Sporting merece Bettencourt, nem Bettencourt merece os 90% de votos que o elegeram. Venha daí o mecanismo do azeite. Muita coisa tem de vir ao de cima.
Quando tinha 4/5 anos passava longas tardes de fim de semana em casa da minha tia Luísa, ao Lumiar. Havia sempre muita gente em conversas supostamente entusiasmantes que para mim não passavam de secas intermináveis. Fazia muitas birras para ir para casa, mas quando ficava sossegado, lembro-me de não tirar os olhos de um enorme quadro de Malangatana que preenchia uma parede inteira da sala de estar. Aquela pintura marcava toda a casa, e ainda hoje é assunto de conversas. É que Malangatana enfeitiça, no bom sentido, é claro. E enfeitiçará sempre. Que descanse em paz.
Dormi numa câmara de sono, tal era o silêncio. Ao acordar já via a barragem. Com o dia por minha conta e o meu cérebro a fazer de jukebox automática com o Badi-Da de Fred Neil, versão Mark Lanegan: "I get so tired Hanging round this town, Oh this old city life, Sure brings a fella down ba da da da da da...". Nada de ressaca. Muitos comes deram para aguentar não assim tantos bebes. Saí à rua. A vila prazenteira, um café com boa bica, gente, algum comércio aberto.
Café bebido, fui caminho errante como que a descer para a barragem. Passada uma clássica trupe de velhos a dizerem boa tarde, uns sentados e outros de pé sob três mesas de cartas, são quatro ruas sem vivalma. Sinto que os meus passos urbano-stressados chocam com o silêncio remisturado pelo cantar dos pássaros. Sobre a igreja matriz, sentado em frente ao pelourinho, reparo melhor no porquê do meu coração bater tanto. De aqui chegado, sentir-me carregado de electricidade. Para descarregar baterias. E deixar-me ficar, momentos sem horas. Todo ouvidos para a infindável orquestra da natureza que orquestra. Depois a cidade vinga-se.
Três primeiras notícias do Jornal da Noite da SIC. Cito de memória.
1 - Um pescador morre afogado na Póvoa de Varzim. 2 - Os trabalhadores do Bingo não se entendem. 3 - Incêndio por causa de umas acendalhas na Amadora. Diz que é na igreja paroquial.
Hoje, 1-1-11, foram estas as minhas primeiras notícias, fora internet, como é óbvio. Aqui com quatro canais, podia ter sintonizado algum dos outros, mas quem me garante que seria diferente?
Adenda: são 20h45 e ainda estamos com a passagem de ano do rectangulozinho. Do mal o menos. Registo para memória futura.
Meu individualismo tem um lado virado para os outros, o outro é só para mim. Na verdade, preciso muito respirar, é biológico; preciso de perspectiva, é físico. Terei de treinar mais a acrobacia, o jogo de cintura, a escalada da montanha, a respiração pausada.
Agora vou ali até Montargil passar o ano e apanhar ar. Desejo a todos um bom 2011. Inspirem bem. É meio caminho.
Depois deste revoltante e complicado 2010, temos prontinho um ameaçador 2011. Todos falamos em crise, é o dado inevitável, as cartas sobre mesa. É o que já está, dizem que vai piorar, não se sabe até quando. À falta de melhoras, as apostas para 2011 ramificam-se em três partes. Tipo totobola: 1 x 2.
1 - A mesmisse, melhor representada neste post de Henrique Fialho. Tão solidamente previsível que até enerva. Eu acho que me vou divertir à grande quando for para conferir.
2 - O tumulto. Pega numa Europa revoltada e a fazer barulho. Fala em explosão iminente. Em pessoas fartas que culpam os políticos e os banqueiros pelo estado a que isto chegou. Fala no perigo das multidões, e no que aconteceu na Bósnia.
X - Um misto das duas. Mesmisse com solavancos de revolta. Tudo empatado pois.
A chave 1 é de longe a que tem mais hipóteses, joga em casa: no país dos brandos costumes, das falinhas mansas, das conveniências, do "parece mal" e ainda por cima, tem consigo a tradição cinquentenária das saudades da crise.
Voar entre galhos é um instinto de defesa. Sólido elegante
implacável, eis o aço. Forte ágil compacto, imóvel resistente a furacões e
tremores de terra. Também à prova de água e da crueldade silenciosa que se
apodera do silêncio da noite dos telhados. O aço, que da minúcia dos anos,
forma o sabre do samurai. No entanto foi o vento sobre os galhos a aprendizagem
do maior guerreiro da História do Japão. O sabre, esse, era de madeira.
Desde que o Natal sirva para as pessoas estarem juntas, reverem-se, matarem saudades, partilharem histórias, aconchegarem-se no quentinho, conversarem muito, comerem e beberem melhor. Fazerem uma paragem, uma pausa, poderem - nem que apenas de raspão - sentir a paz das coisas essenciais, com o acrescento das crianças adorarem e sentirem-se únicas, então o Natal vale a pena.
Claro que grande parte do festim é feito de hipocrisias de quem se detesta enquanto deseja Boas Festas, de conversas estéreis, de secas e conveniências de praxe, do ter de ser, do ter de mostrar... E o pior de tudo, o consumismo desenfreado que nada tem de natalício. Mas até aí o problema está nas pessoas, não culpem o Natal.