terça-feira, 12 de julho de 2011

Lisboa - Cascais




Ao avançar na viagem de comboio reparo que o percurso continua esplêndido como dantes, à beira-rio temos beleza, ordem e progresso, Lisboa é uma cidade fascinante para quem pode, mas também para quem quer. Mesmo em frente um grupo de turistas delicia-se com a perspectiva, passamos pelas docas e debaixo da ponte, depois Jerónimos, CCB e Torre de Belém, passamos pela desmontagem do palco do Festival Optimus Alive, na zona Cruz Quebrada-Caxias vislumbramos a saída do mar com a ilha do Farol do Bugio. Vejo uma funda ironia no olhar do turista germanófilo. Talvez não passe de presunção, talvez não seja nem sequer alemão, pode até ser israelita, ou inglês, ou dinamarquês, ou ucraniano por exemplo. Mas sou um julgador de hábitos e o hábito faz o monge. Tento mas entendo que língua falam, não consigo, é o barulho da carruagem, são as conversas que se acentuam de gente para as praias da linha, são as quatro filas de cadeiras a distanciar-nos. Vou lendo Machado de Assis e as suas “Memórias Póstumas de Brás Cubas” a cultivarem humor directamente do além, antigas e cheias de estilo. Apetece-me perguntar ao escritor brasileiro que tal isto aqui agora. Iria-me responder concerteza num saber cómico fulminante-mente literário, o que nem imagino o que fosse. Talvez me fulminasse, já estou para tudo. 
Entretanto acabou de entrar um enxame de gente em Oeiras, desafortunadamente passei a ter uma senhora muito gorda sentada a meu lado, e o grupo de turistas, germanófilo ou não, sai mesmo aqui e já não vai para o Estoril ou Cascais. Eu perco a graça à leitura. Com o comboio à pinha e a berraria circundante terei 15 minutos muito longos até chegar ao meu destino. Agora sim, sinto que me levantei às cinco e meia da manhã… 

quinta-feira, 7 de julho de 2011

18h50 no Monumental



Sessão das 18h50, cinema Monumental no Saldanha, sala 3, o filme é "Tree of Life", obra-prima de Terrence Malick, só mais uma pessoa na sala além de mim. Passados uns vinte minutos meia hora, entra um casal à conversa e assim continua até ganhar juízo com aquela parte indescritivelmente bela da qual alguns cínicos e detractores do filme gostam de chamar momento National Geographic. 
Já me tinha acontecido ser eu e apenas mais uma pessoa na sala, mas foi num dia de semana, numa sessão da meia-noite no Amoreiras, e uma outra em que éramos um em cada canto do extinto cinema das Twin Towers. Agora estamos a falar da zona mais central de Lisboa e logo a seguir a um dia de trabalho quando pode ser bem apelativa uma ida ao cinema, quanto mais não seja como distracção, alívio do stress, ou conseguir deixar as coisas em perspectiva. Também não me lembro, desde os finais do Escudo, tirando na Cinemateca, de a um dia de semana ter pago tão pouco por um bilhete de cinema: 4 euros. Isto vai parar onde?

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Casa Tomada





Este assombroso e assombrado conto de Julio Cortázar aumenta sua força e dimensão lido pelo próprio. Mesmo gostando da animação penso que é totalmente dispensável, não que seja redundante, é simplesmente desnecessária aqui. 
Jorge Luís Borges disse que "Casa Tomada" foi o único Cortázar que leu porque entretanto ficou cego. Não consta que lhe tenha ouvido a voz


Ler a Ler


“Como entre bancos e clientes, a relação entre autor e leitor é uma relação de confiança: todo o edifício se desmorona no momento em que uma pessoa coloca a hipótese de aquilo ser tudo um enorme embuste, e de a gerência saber entoar a cantiguinha da tabuada, mas não saber fazer as contas.”

Rogério Casanova


“A narração e o enredo são raros em Portugal, porque implicam a colocação das personagens num espaço concreto, num cenário social, cultural e político. Ou seja o enredo implica um certo retrato da realidade. E esse é precisamente o problema: a ficção portuguesa tem alergia á realidade portuguesa. É como se os portugueses fossem indignos de aparecer na prosa supina dos nossos oráculos literários. Lemos romances portugueses, mas não vemos lá dentro os portugueses, não sentimos lá dentro o cheiro e o pó do Portugal de hoje ou dos Portugais do passado.”

Henrique Raposo


Os dois artigos onde se encontram as frases acima citadas talvez valham os 5€ da revista, Rogério Casanova brilhante a arrasar Jack Kerouac e Henrique Raposo a maravilhar-se tão bem com os livros de Rentes de Carvalho. Passando isso não há ali nada que verdadeiramente entusiasme, que nos leve nalguma direcção, que tente ao menos justificar os mil escudos da moeda antiga. Fica-se com a ideia que faltam craques á revista, mas a verdade é que há lá uns quantos que parecem estar em piloto automático a fazer um número que fazem melhor cá fora. Aproveitando a deixa futebolística, esta LER parece um bocado Casanova e mais 10. Tem meses. O mês passado, por exemplo, foi muito melhor que este. 


Um caso dos pequeninos

João Gonçalves, o Céline da direcção-geral de Finanças, o intratável revoltado inspirado em Salazar e no Dr. House, o incómodo implacável contra tudo e contra todos. O estóico e solitário lutador combatente deste mundo e do outro de gente sem o nível da sua figura. O homem das verdades incómodas, com muito Luíz Pacheco e cagalhão na tola à mistura. Poucos se têm livrado da sua pena, muito menos Passos Coelho e Miguel Relvas. Esses não se livraram mesmo: os baptismos de alforreca e Torquemada de Tomar ficaram para a posteridade, foi um fartar vilanagemAté ao dia, em que convidado, decidiu unir forças com o Torquemada de Tomar e trabalhar para a alforreca. Os valores do negócio ficam no segredo dos deuses. Moral da história: tudo está bem quando acaba bem...

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A DANÇA DAS FERIDAS


Isolando cada caso amoroso "capturado" um a um, “A Dança das Feridas” de Henrique Fialho encontra momentos sublimes de poesia, archotes de luz no terreno do(s) amor(es) em seus encantos, desencantos e vivências possíveis imaginadas pelos seus rastos deixados no mundo: “em matéria de amores somos todos tão estultos que ainda não nos tocaram à campainha e já vamos perguntando “quem é” (Allen Ginsberg a Peter Orlovsky), “se não dependêssemos um do outro, como é que explicarias o teu cheiro nas minhas palavras?” (Henry Miller a Annais Nin), “dedos desastrados para os arames mas tão suaves para prosas quebradas em verso” (Jorge a Mécia de Sena), ou em tons mais absolutos e visionários: “o mundo é um emprego remunerado com a morte que apenas conforta a vida quando à sorte cabe um amor que não sare como uma ferida vulgar.”(STEFAN ZWEIG A CHARLOTTE ALTMANN) e que “depois estoura dentro de nós e espalha tudo numa página sob a forma de um poema e nos desfaz em partículas invisíveis e nos funde com as horas absurdas deste desconsolado final de dia” (RAINER MARIA RILKE A LOU ANDRÉAS-SALOMÉ). Ele há tanta força e variedade nos 68 poemas de "A Dança das Feridas" quanto os amores dali retratados. Quase se sente na carne a forma como cravaram suas estacas no Destino. Se imortalizaram nas suas (im)possibilidades. 
Entre os poemas que mais me são caros destaco Blaise Cendars a Féla Poznanska, Lee Krasner a Jackson Pollock, Marguerite Yourcenar a Grace Frick, Rainer Maria Rilke a Lou Andréas-Salomé, Raymond Carver a Tess Gallagher, Serge Gainsbough a Jane Birkin, Declaração, Alexandre O'Neill a Nora Mitrani, Charles Baudelaire a Jeanne Duval e Stefan Zweig a Charlotte Altmann. Ao que junto este poema abaixo. 



CHRISTO A JEANNE-CLAUDE

Quando te perturbarem as rugas
de rosto, os cabelos brancos,
as manchas que na pele denunciam
o tempo a passar velozmente,
quando escorrerem dos poros
lágrimas de suor agitado
e o vento arrastar as nuvens
para um horizonte distante,
lembra-te que a realidade mente,
que por cima da pele há sempre
uma outra pele que nos protege
da previsibilidade dos dias.
E que por mais que escondamos
a idade, a realidade mente
por não saber que para lá do tempo
há o amor que forma o tempo
e lhe confere alguma dignidade.


Henrique Manuel Bento Fialho, "A Dança das Feridas", edição do autor, colecção Insónia, Caldas da Rainha, 2011, pag.17

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Se me quero informar tenho a net

Já vou no terceiro dia seguido sem telejornal. Não vale a pena iludir-me: é austeridade + austeridade + austeridade, mais medidas do governo para antecipar a austeridade e tudo muito bem que os mercados gostam. Depois há as notícias Correio da Manhã como agora a morte do DZRT e quando as há querem-nos cercados no massacre noticioso, aí confundem-nos as coisas: os noticiários com o Correio da Manhã. 
Depois temos sempre aquela dúzia de comentadores que nos dizem constantemente a mesmíssima coisa sob diferentes perspectivas dentro da mesma perspectiva, ao que é necessária alguma imaginação, ou a absoluta falta dela, ainda não sei.
A verdade é que tenho agora as portas da varanda abertas, vem uma brisa amena de Verão, está um belo pôr do sol sobre Monsanto, ainda não me privatizaram isso de modo que isto vai começar a ser rotina. E como as jogadas já nos foram todas antecipadas, tenho o silêncio possível, tenho livros, CD's, nalguns dias até posso meter Gin Tónico.

domingo, 26 de junho de 2011

Ainda Peter Falk, com a devida vénia



Falarem da morte de Peter Falk e dizerem que morreu o detective Columbo e não mencionarem nem ao de leve o papel fulcral que Falk teve em filmes de John Cassavetes, esquecendo por exemplo que foi um dos actores de mão do cineasta ao lado de nomes como Gena Rowlands, Ben Gazzarra ou Seymour Cassel faz-me imensa impressão. É que o meu Peter Falk é o Peter Falk de Cassavetes, de resto sou até capaz de apostar que os obituários jornalistas nem sequer viram um episódio do Columbo...

Tudo isto numa hora

São cinco horas na cidade, Vasco já abriu o estor, esteve a trabalhar até de manhã. Vai só tomar um duche rápido, fazer a barba. A porteira guardou-lhe a encomenda duns livros - ele desligou a campainha por causa do carteiro e dos miúdos da publicidade - mal o vê vai logo ter com ele que educadamente agradece e despacha-a pois o que quer agora é uma cerveja e uma sandes de ovo. De caminho passa pelo restaurante da rua de fugida, sem que o vejam, ele está à espera de receber uns dinheiros e o restaurante está prestes a fechar com a crise. Os óculos escuros largos e um marchar diferente no outro lado do passeio ajudam à camufragem. Missão cumprida. Mais à frente no café das sandes tem logo à espera o Sr. Leitão cujo nome não pressupõe o que imaginam: é magro que nem um palito, a alcunha na escola era "o espinhas" mas hoje quase ninguém sabe disso, quem o sabe fica calado porque porque hoje o Sr.Leitão é um tipo muito assertivo e boa pessoa. E falador, agora estava em pulgas para falar da política enquanto que Vasco gosta é de estar sossegado, mas lá teve de ser, “olhe, estive a pensar e afinal o senhor tinha razão em relação áquilo da Merkel..”. Passado uns dias dirá o seu contrário, isso já se sabe, porque com a Merkel ninguém brinca, se não estivesse sempre a falar disso provavelmente Vasco esqueceria a discussão acesa que tinha tido com ele em que chamou de tudo à frau . Na altura ia na sétima cerveja e agora sente-se ao escuro por dormir de dia. Se calhar vai mas é meter férias,  mas pensando bem o problema do momento é que a cerveja está choca e cerveja ao natural é das piores coisas que lhe podem fazer, “olhe lá, não me podia trocar esta cerveja?”; O espadaúdo respondeu que acabaram de ser postas no frigorífico. Ora gaita, Vasco olha então para o relógio, diz que são seis da tarde, a unidade das horas é na maioria das vezes muito limitada. 

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Exercício

A folha branca deixa de ser branca quando está escrita e a escrita preenche-se pela imaginação e nunca pela tinta. Pensava nisso quando agora a tentava preencher com uma parede branca à minha frente. Contaram-me que um dos exercícios do Zazen é estar horas em posição de lótus a olhar para uma parede branca, e que passado algum tempo as dores nos joelhos tornam-se tão intoleráveis que só as esquecendo se consegue aguentar. E que sobre a parede branca se começam a projectar imagens num enredo caótico com possíveis momentos de coerencia. Imagens atrás de imagens atrás de imagens. Porque é nos ser impossível ter o branco indefenidamente. Porque o branco não veio antes de nós. 

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Livralhada, cá vai


O Tolan lançou-me o desafio, respondo com prazer.  

1 - Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Existem vários. 

2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
O “Teatro de Sabbath” do Philip Roth. Lamento desapontar toda a maralha que para aí anda tão tida e lida no Roth, aquilo é a mais acabada das chatices.

3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Se escolhesse um fariam falta os outros, inclusive os que gostaria de ter lido. Se calhar é por isso que Borges falava no livro com todos os livros.

4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
“O Guerra e Paz”, de Tolstoi. Já o queria ler 
antes, mas por causa do Tolan vou apressar a coisa:)

5- Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?
Não me recordo agora assim de um livro com a “cena final”, lembro-me antes de uma pós-cena final que foi acabar de ler “A Viagem ao Fim da Noite” do Céline por volta das seis da manhã, tinha pegado depois de jantar. Foi pura sorte. O livro esse “bateu-me” de verdade, e fiquei com a eterna curiosidade de saber a que horas é que Jim Morrison acabou de o ler.

6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Nada de especial, lembro de ler “Os Cinco” e “Os Sete” e aquelas coisas. Eu era mais BD´s. Tentaram-me meter-me a ler Julio Verne com a “A Viagem ao Centro da Terra” mas eu começava a ler aquilo e só olhava para o fim a pensar falta tanto. Claro que nunca o li.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Lembro de ouvir o Al Berto dizer numa entrevista: “a um livro dou-lhe 30 páginas, se não gosto largo, e quero lá saber se é uma obra-prima...” Ouvir aquilo libertou-me logo de não sei quantos constrangimentos. Não dou 30, mas costumo dar 60. Também largo livros a meio. Não considero isso uma qualidade, mas cada um sabe de si.   

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
“A Ilíada” e “A Odisseia” de Homero, “I, Claudius” de Robert Graves, “Herzog” de Saul Bellow, “O Trópico de Câncer” de Henry Miller , “Money” de Martin Amis, “O Coração das Trevas “ de Joseph Conrad, “O Vermelho e o Negro” de Stendhal, “Os Detectives Selvagens” de Roberto Bolaño, “Viagem do Fim da Noite” de Céline,  “A Metamorfose” do Kafka,“O Livro do Desassossego”de Fernando Pessoa/Bernardo Soares, “O Medo” de Al Berto, "Diário" de Miguel Torga, "Ensaio Sobre a Cegueira" de Saramago, “1984” de George Orwell, “Solaris” de Stanislaw Lem, “A Possibilidade de uma Ilha” de Houellebecq. Não quero deixar aqui de lado todas as novelas do Bukowski, a obra inteira de Nietszshe e as Obras Completas de Jorge Luis Borges.

Que livro estás a ler neste momento?
Leio vários ao mesmo tempo, um por categoria. Agora ando com “Moby Dick” do Herman Melville (mais vale tarde que nunca) “O Bestiário” de Julio Cortázar, “A Dança das Feridas” do Henrique Fialho e o 3º volume do “Conta-Corrente” de Vergílio Ferreira.

10. Indica dez amigos para o Meme Literário:


terça-feira, 21 de junho de 2011

O grau zero da política (II)


Bastava-lhe por exemplo marcar uma conferência de imprensa. Há uma semana atrás seria suficiente - que não reunindo os consensos necessários renunciava ao cargo e (por incrivel que pareça) saía airosamente do embaraço, inclusivé com nova força política, ainda reconquistava adeptos, o sortudo. Mas não, ambições assim desmedidas têm de ir até ao fim. A paga depois teve-a com juros - e foi vê-lo expectante, isolado, meio acossado, com vontade de se esconder debaixo do chão mas nem assim perdendo aquela estrondosa vaidade, e no final, na curta declaração, em todas as entrelinhas dando ares de revolta e indignação como que culpando o mundo tal como antes tinha acusado alguns dos seus milhares de ex-fãs do Facebook de conspiração para o derrubar pelo simples facto de se terem indignado pela sua indignidade. Fernando Nobre cometeu o pecado de mostrar o (mau) jogo. Todo o jogo.  Agora como deputado, se entretanto não renunciar, não só tem muito trabalhinho a fazer como ainda por cima sabe que os outros sabem que ele sabe que está ali apenas para ser a estrela da companhia. 

domingo, 19 de junho de 2011

O grau zero da política




É cada vez mais provável que este ano tétrico da política portuguesa vá desaguar ainda no vaidoso oportunista troca-tintas demagogo do Fernando Nobre, com todo o respeito pelo seu exemplo e percurso de vida - que me impede de debitar aqui ainda mais adjectivos - o que nem é necessário mencionar visto que a figura faz constantemente questão de sublinhá-lo despudoradamente em proveito próprio, chamando isso de "cidadania". Se Fernando Nobre for eleito Presidente da Assembleia da República cairemos finalmente no grau zero da política, a partir daí é só a descer, quiçá irreversivelmente. Se duvidam pensem na Itália de hoje, o melhor exemplo para entender que não existem limites para a desfaçatez.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Schaars



Godinho Lopes (e já agora Luís Duque e Carlos Freitas) anda a fazer um excelente trabalho. Em surdina. Enquanto apaga os fogos internos de disputas de poder e egos inflamados, lá vai metendo a casa em ordem e preparando a glória com contratações cirúrgicas no limite do custo. Verdadeiros achados, tudo menos óbvios mas de valor tão certo quanto impossível de (nos) enganar, ainda por cima iludindo empresários chupistas e toda a imprensa que mesmo involuntariamente inflaciona custos enchendo de dinheiro os bolsos errados. Mesmo assim confesso que ainda não consigo olhar muito tempo para Godinho Lopes quando o vejo na televisão, fiquei demasiado aturdido pela possível vigarice eleitoral a la W. Bush, imposta (ou não) por interesses que são do conhecimento público. De qualquer forma Godinho anda a trabalhar muito bem, gradualmente passando de "este não é o meu presidente" para "o nosso grande presidente".

Acid casualty



Foi pelo fim que os Pink Floyd começaram.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

A Melhor Juventude



Foi "Casa de Lava", filmado na ilha do Fogo, que fez com que lá chegasse - para fazer o favor de entregar umas coisas a familiares de gente que conheceu na ilha. Para Pedro Costa entrar nas Fontainhas foi um choque equivalente a uma chegada a África ou à Índia, como diria mais tarde. Primeiro estranhou bastante, mas rapidamente envolveu-se naquele mundo e comunidade onde até como tesoureiro serviu. Trabalhou,  realizou obras-primas, tomou a comunidade como sua. Ali paredes meias de Lisboa, num sub-mundo de miséria, filmando horas a fio num longo moroso processo de repetições, dores, conflitos, maturações, numa longa teia tecida entre a pessoa de carne e osso e seu terrível enredo onde vêm à luz reminiscências de Robert Bresson, Straubb/Huillet, Rosselini ou Pasolini. Com a coragem de um cinema assim - artesanal, transcendente, singular o suficiente para se poder considerar uma nova cinematografia - vive ali o mais brutal e desesperado dos pessimismos, que se confunde bem com o seu realismo: não existe saída, ponto. O feito de Pedro Costa está no sublimar de tal desolação, de toda aquela inumanidade e miséria. Tal como Joseph Conrad no seu "Coração nas Trevas", tudo ali é sinuoso, fechado na obscuridade, no silêncio, na lassidão, onde o climax é não só o ponto mais longínquo da viagem, como a própria condição de um regresso.
Não há fórmulas para tal, nem a folha em branco se ensina. A folha em branco aqui é o plano. Está tudo lá, na folha: o som, os diálogos criados e improvisados incessantemente até a uma forma que os sustente. O olhar, a presença do personagem, feita de meses e meses de empatia vivida, transportando verdade para o filme trabalhado sobre o abismo entre nós e a irremediável miséria dos deserdados do mundo. 
A primeira vez que visitei o seu "cinema das Fontainhas" passei quiça por um semelhante processo de aceitação. Primeiro de estranheza e rejeição, depois de revelação e descoberta. Tem de se conquistar o prazer daquela fruição. De tudo o que está lá dentro - a sua poesia, a sua metafísica, o seu processo de catarse. E tanta humanidade na desumanidade. One of the most important artists on the international film scene , podem dizer o mesmo em Nova Iorque, LA, Paris, São Paulo, Tóquio...Contra todas as probabilidades é nele que estão postos os olhares do cinema mais genuíno.  Mesmo achando que o Cinema como ofício no seu sentido mais artesanal é uma arte em vias de extinção. Pronta a desvanecer-se.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Lá Fora



Dá ideia que se passa muita coisa durante “Barton Fink”, mas vendo bem há um assassínio, um incêndio e pouco mais. Nem são os momentos de Fink nas suas divagações, bloqueios de escrita ou dúvidas existenciais que suportam o tempo do filme. Não, o filme sustenta-se em 3 ou 4 pontos chave, com arcos suspensos entre eles e entre esses arcos literalmente levitamos diante da tragédia. No final pouco nos interessa o mundo lixado e o sarilho em que o personagem está metido. Isto porque o que nos leva é que o vai escrito. O que nos conta é a cabeça do escritor, o mundo, esse está lá fora como o quadro da mulher na praia. Se é real ou imaginado é-nos indiferente, é que no meio das palavras ambos são indistinguíveis.

Parvo parvalhão

A agressão é coisa do diabo, a agressão temos de estar sempre a lidar com ela. Ontem ligou-me para desabafar que ele a insultou violentamente ao telefone, já dois anos depois de ter acabado com a relação. “Como é que é possível? Tratou-me pior que lixo...”. Conhecendo-a tão bem e percebendo pelo tom onde a conversa ia dar, cortei mais rápido que a própria sombra. É simples, ligou-te porque é parvo, insultou-te porque é mesquinho, dois anos depois porque é um ressentido e ainda por cima de uma cabine telefónica, porque é burro. Tentei depois armar-me em engraçado sugerindo que soletrasse P-A-R-V-O à maneira disco sound anos 70. A rir assim meia desarmada – e eu também pela espontânea acabada pirosice – voltou à carga, “mas eu não mereço isto”, cortei então com os japoneses que quase apocalipsaram com um tremor de terra e não mereciam, com as crianças da Palestina, com o povo do Zimbabwe, com as mulheres da Arábia Saudita, com quem trabalha e vai à sopa dos pobres, que no limite quase ninguém merece, menos ainda aquele casal do prémio do euro-milhões se bem que ao contrário, que se deixe disso porque o gajo é um parvalhão. P-A-R-V-O. P-A-R-V-O. P-A-R-V-O. Não vês que ele quer-te com os hematomas da agressão? Com manchas de sangue na roupa. Não percebes que se te rires ele descarrila, que se o olhares de frente então não se levanta mais?

sábado, 11 de junho de 2011

Real ficção



O realismo em “The Wire” (em português "A Escuta") é parte da sua urgência, da sua mensagem, do efeito que pretende criar, do que pretende reflectir. No final de cada série teremos um quadro tão extenso como abstracto, mas acima de tudo verdadeiro. O objectivo esse foi conseguido, entrarmos dentro da acção como dentro da própria realidade: infestada de impurezas, aleatória, subjectiva, tendo o bem e o mal não apenas como valores mas mais como lados onde nos encontramos no xadrez da vida - ele há gangsters com elementos de nobreza e ele há detectives deformados em bullshit. Na verdade vivemos a vida em tantos tabuleiros que nada melhor que as camadas em“The Wire” para o ilustrar, numa trama em que estamos em simultâneo presos e confundidos, tal como presos e confundidos nos encontramos tantas vezes no nosso dia a dia. Nesse sentido “The Wire” é também politico, pois coerentemente obriga-nos a pensar na importância do que está diluído no presente. Esta forma de realismo cola-se a nós mais do que muito que há para aí de "realismo" e que perante isto se torna apenas trivial. Muitos não se inibem de dizer “best tv show ever”. Discutível ou não, "The Wire" aceita todas as fasquias. 

Quadripolaridades

A blogosfera é e tem sido uma caixa de surpresas, as boas têm suplantado as más por larga margem, ainda bem e que assim continue. Depois há também raridades como esta. Um grande obrigado ao Quadripolaridades.

80

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Woke Up This Morning




Entretanto em Filadélfia as coisas deram uma volta de 180º. O boss Joe “Uncle Joe” Ligambi, seu underboss Joseph “Mousie” Massimino, o capitão e braço direito Anthony Staino e mais uns quantos foram apanhados e presos. Foi desmontado pelo FBI um esquema de máquinas de póquer em cafés e bares que davam um lucro colossal, a marosca, simples, constituía na percentagem do lucro sobre tudo o que era máquina no sul de Filadélfia e New Jersey. Não há mortos ou feridos, há sim escutas de um microfone de um associado metido no meio do esquema. Não havia nada que enganar, as pessoas pagam para não terem problemas e tenta-se fazer as coisas de um modo "legitimo" criando para tal uma empresa chamada JMA industries (J de Joe Ligambi, M de Mousie Massimino e A de Anthony Staino , "it’s all profit, it’s all profit"...). Mas tramaram-se, agora Ligambi com 71 anos arrisca uma pena de 20, o que naquele caso é prisão perpétua. 
Já lá dentro sabe-se que Ligambi teve uma brutal discussão com o sobrinho e consiglieri George Borgesi que já estava preso e aproveitou a oportunidade para se queixar de não estar a ter o combinado e da sua família não ser acompanhada convenientemente, Ligambi esse pode-se queixar do tipo que os tramou com o microfone vir da parte de "Bent Finger" Lou Monticello, um associado de Borgesi. Entretanto cá fora Joey Merlino prepara-se para novamente tomar conta da Philadelphia Crime Family, preso até Março deste ano foi para a Florida para não se envolver demasiado, ou pelo menos para fugir dos holofotes. Joe Merlino é uma quase celebridade em Filadélfia e as coisas passaram-se muito mais depressa do que imaginava. Agora está numa posição de pegar ou largar, daí que tenha nomeado o seu homem de mão e ex-underboss Steve Mazzone para tentar tomar conta do território. Só que Ligambi parece não estar pelos ajustes e quer continuar comandar as operações. A discussão de Mazzone com familiares do ainda chefe "Uncle Joe" serve bem de ilustração. O problema acresce porque Ligambi tomou o poder há 12 anos quando Merlino foi preso. Enfim, dou por mim e parece que acompanho os Sopranos ao vivo todas as semanas nos sites do canal Fox 29 e Phily.com. Com alguma culpa à mistura, diga-se. Mas bem vistas as coisas, quase tudo o que aconteceu nos Sopranos mafia related e não só é real e verídico, o mesmo se passa com 95% de "Good Fellas", "Casino" ou "Donnie Brasco". E casos como o BPN são bem piores que video poker machines, com a agravante de não terem glamour absolutamente nenhum.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Eleições - notas finais


- Foi a maior abstenção desde 1976 – 41,1%. E Bateu-se o recorde dos votos em branco - 103.537.

- Com PSD e CDS (50,3%) a direita ganhou. Estrondosamente. O povo subscreveu a receita. Estrondosamente.

- Daniel Oliveira na melhor intervenção da noite, “as pessoas quando foram votar sabiam. Estava lá tudo." Sim, escarrapachado, escrito, dito, repetido. Mas nem o possível fim do SNS como o conhecemos, ou o argumento de se ir mais longe que a Troika impressionou o eleitor. Nem Fernando Nobre, ou sequer Leite de Campos, quanto mais Eduardo Catroga.

- Pelos vistos o povo português gosta muito do moralismo dos cortes e da austeridade, não vai é achar tanta graça quando este lhe cair em cima, e vai cair mesmo, em força. E contra factos desta vez não sei com que argumentos responderá. A bem dizer nem sequer imagino...

- A esquerda, exceptuando o PCP, sofreu uma humilhação histórica, poderá talvez aprender alguma coisa da necessidade de deixar de ser tão "pavloviana", de começar a pensar mais estratégicamente. Deixar de achar que PS, PSD e CDS é tudo igual, porque não é. Aprender a ser mais flexível, a ter inteligência para além da "indignação". Perceber que tiros no pé são tiros no pé.

- O género de desporto nacional chamado “a culpa é toda do Sócrates” começará a ter cada vez menos adeptos, eventualmente desaparecerá do mapa. Ainda bem, o barulho é ensurdecedor.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Domingo está dado o tiro de partida

Sente-se no ar o regresso do PSD ao governo. A blogosfera da direita ansiosa e aos foguetes nem deixa que se respire. Há bloggers à média de três posts por dia a execrar José Sócrates por todos os nossos males presentes e passados e isto nivelando a coisa por baixo. Tudo aquilo que foi escrito nos últimos meses deu como que um valente spin de aceleração. Soa quase a purga. A caça ao homem. Não vou votar PS por isso estou à vontade para dizer: é de entontecer.
Do mal o menos, ou melhor, tentando pegar pelo lado menos sujo da questão: deixaremos de ter só um bode expiatório. Porque ao que aí vem inevitavelmente muito vai ter de vir ao de cima, algo que este salivar pelo poder não vê nem quer ver. Como poderia, se ele próprio das duas uma, ou ia a eleições no PSD ou no país? A conjuntura internacional não será atenuante de nada se até agora foi tida como factor lateral ao verdadeiro objectivo de se chegar ao governo. Porque pelos vistos os países andam todos a crescer, menos a Grécia e a irlanda, esses trapaceiros...Irão dizer, sim, vão dizer “a culpa é toda do governo anterior” e que atire a primeira pedra quem não se lembra do Guterres de governo minoritário execrado e culpado de todos os males da terra, enquanto Cavaco com duas maiorias absolutas era tido como o bom, o virtuoso, o honesto, o acima de toda a suspeita, o culpado de coisa nenhuma. Ninguém reparou no desbaste da agricultura,no abandono das pescas, em Oliveira e Costa e no BPN, em Dias Loureiro, nos enriquecimentos ilícitos, nas reformas de roubo em acumulo.  
Hoje televisões, jornais, revistas, todos tocam pelo mesmo diapasão. O problema está localizado: temos de nos livrar de José Sócrates. Seja. O objectivo está prestes a ser alcançado. Logo a seguir temos prometido um longo filme noir serie B. 

Andando

Ando aqui como quem não anda, mas ando bem andado, 50 minutos a pé por dia na ganga e com uma mochila com uns cinco quilos às costas, de momento é o melhor que se arranja e tarda nada começo a nadar e quero ver se volto às artes marciais. Um corpo bem tratado devolve a cortesia ao espirito através de uma protecção especial tida em bónus de intuição,  sangue frio, criatividade, capacidade de concentração e humor como deve ser. Existe gente porreira, cool e cheia de coisas boas mas que depois é impossível de ego, neuróticos na quinta casa, vai-se a ver o seu sistema muscular e aquilo é tudo flácido, mole, derrotado, todo um espírito com um corpo a mandá-lo à merda. É uma escolha. Li há pouco tempo que Philip Roth - de quem não aprecio por aí além – faz caminhadas e vai nadar todos os dias e Norman Mailer fazia desporto diariamente sublinhando que o escritor é um atleta e que por isso deve praticar exercício físico. Eu não sou um escritor mas nada me faz tão bem na vida como escrever palavras e pôr os músculos a falar.

domingo, 29 de maio de 2011

Futebol do além


Torci pelo Manchester United, antes tinha torcido pelo Real Madrid. Embirrava com o Barcelona e todo aquele unanimismo sobranceiro à volta do "indiscutível Barça", ignorando arbitragens de vergonha em jogos decisivos e o mais despudurado anti-desportivismo que há memória. 
Dito isto, ontem converti-me. À grande. O Barcelona 2011 de Guardiola é a melhor equipa de futebol da minha vida. E a minha memória das grandes equipas vai até ao Brasil de 82.
Este Barça é talvez a mais espectacular, implacável, eficaz e temível máquina de futebol jamais criada pelo ser humano. Fortíssima em todos os sectores, joga puro futebol de ataque sem nunca perder coesão defensiva, irrepreensível tacticamente, põe logo os adversários em sentido com terror de perderem a bola e o problema é que não só a perdem tantas vezes como depois muito dificilmente conseguem recupera-la, parecem então uns aldeões cercados por uma legião romana, prontos a serem pilhados ou coisa pior. Ninguém melhor do que Mourinho percebeu isso.  
Em suma, uma equipa de uma outra dimensão muito além da concorrência, e com toda a vontade irresistível de dar espectáculo com requintes de sadismo, de baile, de patinagem artística.
Talvez só daqui a vinte anos se volte a ver algo parecido. Quem não assistiu à final de Wembley arranje maneira. Com aquela segunda parte até o Pacheco Pereira se embevecia. 

domingo, 22 de maio de 2011

Minnie, Moskowitz & Cassavetes


"Minnie & Moskowitz" joga com o romance improvável entre um quase vagabundo e uma sensivel curadora de museu. Ela em crise existencial e amante de um homem casado, ele acabado de chegar a Los Angeles e vivendo biscate a biscate. Mal o estranho acaso os põe em contacto as coisas começam a acontecer. Dá-se o clique, gera-se entre os dois uma energia colossal, uma montanha russa de emoções. No final já não conseguirão viver um sem o outro.
A viagem porém é tortuosa, difícil, num equilíbrio precário, pronto a explodir-se, mas quiçá única via de se poder chegar ao amor (quase) impossível num romance contra todas as possibilidades, género de agulha num palheiro.
Mesmo num registo de comédia, "Minnie & Moskowitz", tal como todos os outros filmes de John Cassavetes, tem como tema a viagem emocional dos personagens, não tanto a acção propriamente dita. Com interpretações absolutamente notáveis, só mesmo possíveis com uma total confiança e segurança no realizador. Não é por acaso que o circulo dos actores "cassavetianos" anda sempre à roda dos mesmos. Sente-se ali intimidade, cumplicidade, amizade. De outra forma a cena não pegaria daquela maneira, não teria aquela fluência. Afortunadamente está lá Gena Rowlands, a actriz da minha vida, casada precisamente com John Cassavetes. Há casal mais exaltante que este? 

sábado, 14 de maio de 2011

Moral da Scut




Mais dois dias de campanha e ninguém pegou nisto.

Catroga


Já não há palavras que classifiquem o topete, a atitude vale tudo e a desonestidade desafiante de Eduardo Catroga. A não ser dizer que tarda nada Catroga é um adjectivo, ou um estado mental referente a estar, isso mesmo, catroga. 
Agora o personagem que ele próprio criou diz in extremis que tem andado acelerado. Tentou fazer de policia mau mas a coisa não correu como queria. De Hitler já ninguém o livra, de César Monteiro muito menos...

sábado, 7 de maio de 2011

terça-feira, 3 de maio de 2011

Recomeços

O Nem Paz, Nem Guerra, onde tive o gosto de escrever, está de volta. Com o meu irmão ao volante e depois de uma valente guinada à esquerda. Mas vai em frente e cheio de força, espero. Um blogue de e do combate para o combate.
Decidi reactivar o Céu Aberto para pôr lá textos, que como diz o Artur Jorge, se não calhar não cabem aqui. Coisas inúteis que saem do esconderijo e vêm apanhar ar.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Neandertais



Os Neandertais eram baixos, fortes, rápidos, comparáveis hoje aos jogadores de futebol americano, chumaços incluídos. Caçavam em grupo, em equipa, com lanças compridas em direcção aos mostrengos. As lesões e hematomas que contraíam eram parecidas às dos cowboys dos rodeios. Tinham também a particularidade de só caçarem os animais maiores, por terem mais carne e gordura. Os mais pequenos deixavam de fora, não interessavam. Jogavam forte e forte arriscavam, de resto só comiam carne, não estavam para variedades. Também não eram dados a misticismos como o Homo Sapiens, não se pintavam nem faziam rituais. Eram tipos tiro e queda. Burros é que não deviam ser, as pedras afiadas que esculpiam para lascar os animais caçados levavam meses até estarem prontas, e com tal precisão que artesãos de hoje com mais de vinte anos de experiência dificilmente chegam a tanto.
Sabe-se agora que os Neandertais se extinguiram à volta de 40 mil anos, pouco depois do Homo Sapiens migrar para a Europa. Não existem provas de extermínio, nem de assimilação. Não se sabe ao certo porque desapareceram. 
Há uma teoria que diz que houve uma alteração na corrente do Golfo que fez com que a Europa gelasse por completo. Morreram animais, extinguiram-se espécies, a caça grossa foi à vida e os Neandertais desapareceram aos poucos, um a um. Como eram de poucos gostos acabaram por se tramar. A nossa espécie não, pelo contrário, prosperou, caçava o que havia para caçar, comia de tudo, raízes, frutas, o que estivesse á mão. Mais sensata,  disseminou-se por todo o planeta e o resto foi história, inclusive o racismo. Coisa que os Neandertais provavelmente teriam dificuldade em compreender, homens Sapiens racistas de homens Sapiens, e que até há racistas em povos de homens Sapiens independentes há umas dúzias de anos, isto depois de uma vida inteira a levar nas orelhas...

Ainda o jogo de ontem



Até à expulsão, Pepe estava a ser o melhor em campo, "comia bolas", ganhava espaços, cavava faltas, destruía o jogo a um Barcelona que já não sabia mais o que fazer, e o Real Madrid preparava o golo a marcar na altura certa, para depois gerir com pinças a vantagem na segunda mão, em Camp Nou. Só assim podia passar esta eliminatória. Nos limites e sem cometer erros. Fora isso, a queda seria fatal, como no caso do "louco" equilibrista que passou duma torre a outra do World Trade Center. É que este Barça "joga nas alturas". Daí que compreenda toda a fúria de Mourinho: aquele vermelho a Pepe deve ter valido por dois ou três penaltis. Sem Pepe era preciso tempo para prevenir o desastre. Tempo esse que Messi aproveitou com todos os requintes da genialidade. 

domingo, 24 de abril de 2011

Take 1



Filme sobre um filme dentro dum filme, "Road To Nowhere" é um filme sobre o próprio cinema, com planos, cenas e personagens sobrepostos em notáveis efeitos surpresa impossíveis de poder ser inteligíveis num primeiro visionamento pois tudo ali é jogado em enigmas de enigmas de um puzzle em que só vendo e reparando mais uma vez poderão encaixar melhor todo o enredo no misterioso e surpreendente final. Entretanto sobra a beleza dum cinema que em Monte Hellman vive além do espaço e tempos convencionais de um filme. Quantas vezes me lembrei de "Two Lane Black Top" ao ver "Road To Nowhere", talvez por serem feitos da mesma gramática, duma ideia difusa de principio e fim, de partida e chegada, onde sobretudo existe o prazer e mistério da fruição e todo o concreto se dissolve em Cinema. 
O que talvez me falhe em "Road To Nowhere" é Mitchell Haven, o alter-ego do realizador, que não me parece convincente o suficiente para sair do registo just pretending to. Mas como vou ter de ver tudo outra vez...





Adenda: Leio agora no Ipsilon, através de Luís Miguel Oliveira, que Monte Hellman disse  "não basta vê-lo duas vezes". E se há coisa que ele não tem é espírito comercial...

sábado, 23 de abril de 2011

Marika Portman



Já vi muitos renascimentos no cinema. E reciclagens, como de Cary Grant para George Clooney que também reciclou Jimmy Stewart de certeza absoluta. Depois existem casos que intrigam mesmo, feitos de semelhanças absolutas completamente separadas no tempo e geografia. 
Ver Marika Green em "Pick Pocket" (O Carteirista) é quase como ter Natalie Portman nos finais dos anos 50 a ser dirigida por Robert Bresson. Fisicamente não se distinguem, a cara é igual, os olhos são os mesmos, o olhar - penetrante -  é que já não, mas ninguém (nos) olha como Natalie Portman. Mesmo assim, não estivesse Marika Green viva e falar-se ia em reencarnação. Ou será que alguém já perguntou se passou por Israel há trinta anos? 

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Troikados



Ouvia a conversa num café daqui, "mas então os gajos é que têm a guita...". Na televisão a TVI dava os senhores da Troika, palavras da jornalista. Senhores da Troika isto, senhores da Troika aquilo, os senhores da Troika entraram violentamente no nosso vocabulário. E vão se entranhar por muitos e muitos anos. Os senhores da Troika são como a pasta medicinal Couto, andam na boca de toda a gente, é verdade. E também são medicinais com a receita que costumam aplicar, tipo quimioterapia. Senhores da Troika dito assim soa algo salazarento, como se me estivessem a dizer “vêem aí os senhores, bico calado, respeitinho...”. 
Entretanto o homem não se calava, “ouve lá, ouve, os gajos é que têm a guita...”. Isto a propósito do PCP e BE se terem recusado a negociar por uma questão de soberania nacional, dizem, como se a dita soberania nacional não estivesse agora em bolsos alheios. Como se apertar com os senhores da Troika não fosse muito mais útil para nós do que apenas protestar ou clamar vitórias morais. 
Apeteceu-me dizer ao picareta falante que há um senhor da Troika que parece um rei mago e um outro que é mesmo a cara de um daqueles árbitros que rouba tão descaradamente que já nem consegue fingir. Não negociaram, negociassem... 

sábado, 16 de abril de 2011

Ricardo

O que escrevo agora é tão absurdo como a tua morte: devias ter avisado que a gente não deixava. Que te fosses embora assim de surpresa, aos 40 anos. Quando ias dar e ver tanta coisa, aquecer os dias com a tua companhia, por mais distante que fosse, por andares por aí algures, a viver a tua vida, a que tanto tributo prestavas. À tua boa maneira, que subitamente faz tanta falta e que tantos sentem como terrível perda. Foste mesmo embora amigo? Ou andarás noutro ponto da viagem?

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O cavalo de Passos Coelho


"Outra década nisto e podemos exumar o Suetónio, que ao menos já treinou com as biografias de Nero, Galba e Vitélio: não eram mais doidos que os nossos. Nem Calígula, que elevou um cavalo a senador, se lembraria de ir buscar o Fernando Nobre." Luís M. Jorge, aqui. Exagero? Não vejo onde. 

segunda-feira, 11 de abril de 2011

RIP Sidney Lumet



Não conheço todos os filmes de Sidney Lumet, nem pouco mais ou menos. Ainda assim vi “Serpico”, “Dog Day Afternoon”, “Equus”, “The Verdict”, Night Falls on Manhattan” e “Before The Devil Knows You're Dead”, todos a ponto de me encherem as medidas. Não é digno desta lista o fraco e despreocupado “Find Me Guilty”, feito certamente em piloto automático, mas que do pouco que tem ainda vale pelos diálogos, pelo humor e por um Vin Diesel a dar ares de grande actor, o que é qualquer coisa...  
Lumet era dos bons, seus filmes tinham carácter: intensos, intrigantes, incisivos, inteligentes, preocupados. Densos, com ritmo, vertigem, estupendas interpretações de grandes actores, agarrando-nos no enredo, fazendo-nos pensar. Pensar a sério. Creio que viverão por muito e muito tempo. Isto se a humanidade não o(s) desmerecer.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Monte Hellman voltou


Tão ou mais difícil do que termos um novo filme do divino Terrence Malick, é voltarmos a ter um filme do mítico Monte Hellman.
Do pouco que vi de Hellman, a obra-prima"Two Lane Blacktop" está no meu top 10 de sempre, os westerns artesanais com Jack Nicholson "The Shooting" e "Ride In The Wirlwind" estão ali numa caixa em frente a olhar para mim, depois de eu já ter gostado de olhar para deles.
Quentin Tarantino queria-o para realizar "Reservoir Dogs", Vincent Gallo para "Buffalo 66", ripando-o depois descaradamente em "The Brown Bunny". Monte Hellman é dos poucos cineastas americanos a saber despertar o 6º sentido cinéfilo. Mal possa estarei lá sentado.