quarta-feira, 23 de março de 2011

É o "The Wall" e é pena




Sempre localizei "Animals" - um dos albuns mais estranhos do rock'n'roll - com a recessão económica dos anos 70, entre a ressaca da década anterior e o movimento punk prestes a explodir. "Animals", marca de um rock progressivo já a entrar em caducidade, é também por alguns demasiado subvalorizado - dando de barato que é o patinho feio da discografia dos Pink Floyd  e que foi mal conseguida a pretensa colagem a "Animal Farm" de George Orwell -  mesmo que tenha resultado num produto a puxar para o megalómano, confuso e pretensioso
Miguel Esteves Cardoso, numa daquelas belíssimas crónicas de música que fazia, chegou a apelidar o disco de "esforço tão desesperadamente porcino quanto a capa", desta não me esqueço. Mas megalómano e niilista no seu desespero, "Animals" tem sumo e coisas para dizer. E é hoje muito urgente. Como retrato, como metáfora, como forma de chamar os bois pelos nomes. Hoje "psicopatas" como Bernie Madoff, o outro do Lehmann Brothers, Oliveira e Costa ou o Rendeiro do BPP são decalques do "Pigs" e já tive um chefe que era exactamente "You're nearly a good laugh, almost a joker, with your head down in the pig bin, saying "Keep on digging." Pig stain on your fat chin .You're nearly a laugh, you're nearly a laugh but you're really a cry". 
Muitos empresários, gestores, quadros médios, self-made men, workaholics, cínicos, individualistas e toda uma fauna de stressados entram no preocupante quadro de "Dogs", onde me identifico mais; e a carneirada, a enganada, dependente e inofensiva carneirada, continua e continuará a ser a mesma que é retratada em "Sheep", muito passiva, mansa e candidamente a ser pastoreada, quiçá para o matadouro.
Roger Waters, em vez de repetir o já gasto "The Wall" pela trilionésima vez , faria melhor agora um espectáculo de "Animals". Até podia meter o tal porco voador misturado com as caras dos Thatchers de hoje. No esboço do post tinha os "personagens" e a coisa ficou tão tétrica e de mau gosto que deixo à vossa imaginação. Não resisto é a sugerir para Portugal balões de robalos gigantes, tacos de golfe com bolas de 6%, submarinos insufláveis ou facturas da EDP com dez metros de altura. Esgotaria cinco Estádios, em vez de dois Pavilhões Atlânticos.

sábado, 19 de março de 2011

Woke up this morning...




Johnny "Coca Cola" Lardieri, Mickey "Ciggars" Coppola, Louis "Louie Ha Ha" Attanasio,  Angelo "Quack Quack" Ruggiero,  Vincent "Vinnie Gorgeous" Basciano, Philip "Chicken Man"Testa, ou Bobby "Bad Heart", há nos mafiosi americanos algo que me lembra o bairrismo chunga de Lisboa dos meus tempos de miúdo em que haviam alcunhas para tudo e mais alguma coisa. 
Havia um pobre miúdo a quem chamavam de "Deixa Estar Que Eu Chuto", coxeava muito, e como se não bastasse era sempre lembrado pelo defeito físico e do pouco que jogava à bola. "Deixa Estar Que Eu Chuto" ainda assim era mais elaborado que qualquer um dos cromos acima mencionados, mais que por exemplo o aparentado Bobby "Bad Heart", lembrado no nome pelo pacemaker que usava. Com o "Deixa Estar Que Eu Chuto" haviam outros requintes: "Deixa Estar Que Eu Chuto anda cá; Deixa Estar Que Eu Chuto hoje ficas à baliza; Deixa Estar Que Eu Chuto a Andreia quer namorar contigo; Deixa Estar Que Eu Chuto dá-me uma bolacha; Deixa Estar Que Eu Chuto tás sempre a marrar; Deixa Estar Que Eu Chuto, um bom Natal." Em suma, deixa estar que eu chuto.
Por tudo o que sofreu, o "Deixa Estar Que Eu Chuto" (nunca consegui saber seu verdadeiro nome) merece estar agora melhor que todos os rufias que o maltratavam. É bem provável, até porque mânfios tramam-se sempre. Como Mickey "Ciggars", preso há pouco tempo em Manhatan depois de anos em fuga por ter limpado o sebo precisamente ao "Cola Cola" gangster. E Vinnie "Gourgeous", que não vai poder continuar a sua carreira com a prisão perpétua para o resto da vida numa daquelas prisões de alta segurança. 
Aqui de Lisboa é muito cómodo seguir todos estes enredos e conjunturas, alguns até mais interessantes do que os de "Good Fellas", "Casino", "Donnie Brasco", ou da saga "The Godfather". Filmes todos baseados e copiados da realidade. A série "The Sopranos", por exemplo, é um decalque da saga da família De Cavalcante de New Jersey, com algumas coisas da facção local  da familia Lucchese de Nova Iorque. Depois, temos também a máfia de Chicago com "Casino" e "The Untouchables". 
Quando eu conto estas histórias às pessoas mais próximas, elas torcem o nariz, mas depois adoram os filmes, e quando eu digo que aquilo é tudo verdade, não fazem caso disso.
A verdade é que existe um enxame de historiadores do fenómeno, no Amazon a bibliografia é enormíssima. Parte deles estão em todo o que é documentários no You Tube, resmas: de todas as famílias, de cada família, da vertente sociológica, dos personagens, do papel da polícia, dos bufos, deste caso ou daquele... 
Depois ainda há os especialistas: conheço um de Nova Iorque e outro de Filadélfia, um a falar parece o João Querido Manha, o outro é mais Luís Freitas Lobo. Este ultimo tem-se ocupado ultimamente com a eminente saída de Joseph "Skinny Joe" Merlino  da prisão: se vai desafiar a liderança do boss Joseph "Uncle JoeLigambou se segue antes para a Florida para ganhar tempo e marcar território. Da última vez até se meteu o Facebook ao barulho. É que Joe Merlino tem fama, glamour e é género de herói local. Gangster craque benemérito. A culpa é do entertainment, que criou a marca, o estilo, o glamour. E no meio até nos tenta fazer esquecer que o tipo é um criminoso, um demente, um crápula, um ser indigno de respirar oxigénio fora da cadeia. Mas e se Martin Scorsese pegasse nele?




PS: Na foto Joe Merlino e Joe Ligambi num jogo de baseball entre "good fellas". Digam-me lá se não parece que estamos num episódio dos Sopranos. 

sexta-feira, 18 de março de 2011

Perestroika Sporting




Há tantas razões para o sportinguista votar Bruno de Carvalho. E há José de Pina,  Zé Diogo Quintela em dose dupla, Rogério Casanova em dupla dose...Entretenimento de luxo para ler ao som do desespero de Godinho Lopes a contratar toda a gente enquanto à má fila rouba as ideias do tal Vale e Azevedo de terceira categoria, e os "polícias maus" se assanham o suficiente para ser ele a fazer o papel de polícia bom. Nice jobCunha Vaz. Ou como diria o outro, parabéns à prima...

quinta-feira, 17 de março de 2011

Apocalipse Não


Num lindo e normal dia de sol, igual a tantos outros, no meio da mais trivial das rotinas, sem absolutamente nada  fazer temer o que quer que seja. É neste cenário que acontecem as piores catástrofes. Foi assim no Japão, foi assim em 1755, foi assim no 11 de Setembro de 2001. Desta vez assisto incrédulo e assustado à maior catástrofe do meu tempo de vida, seguramente a maior do planeta desde a 2ª Guerra Mundial. A também maior crise económica da minha vida como que se some num grão de areia quando comparada com o que se passa no Japão. Sim, "a NATUREZA tem essa característica que o homem insiste em não ter em conta: gera com alguma facilidade sequências de eventos catastróficos que fazem falhar todos os nossos sistemas de segurança". Porque antes disso foi a ganância, refira-se. 
Não tinha ainda 8 anos de idade, mas lembro-me bem quando queriam nos anos 80 construir uma central nuclear em Vila Nova de Milfontes. No carro dos meus pais estava colado aquele conhecido autocolante do "Energia Nuclear? Não obrigado", e à entrada da vila havia umas pinturas de protesto que não me recordo o que diziam mas davam logo nas vistas a qualquer pessoa que entrasse no paraíso que era a Milfontes da altura. Não ter ido em frente foi um enorme alívio. E nem é preciso ler este excelente post para perceber porquê. Até acho que agora devia dizer-se "Nuclear? Nunca Mais". Mesmo com todas as vozes autorizadas, competentíssimas e por demais habilitadas a insistirem na racionalidade do nuclear - o custo/benefício, a poupança de energia, a não dependência do petróleo - a verdade é que esta sempre esbarrar com a irracionalidade do ser humano. Não vale a pena. Porque há e haverá sempre aquele dia, em que as pessoas se esquecem, em que debaixo da mesa se manda tudo às malvas, em que o mal só acontece aos outros, em que se pensa no fácil que é ganhar dinheiro com o "impossível" de haver uma desgraça. Foi assim em Chernobyl, foi assim em Fukuyama e será concerteza assim daqui a umas décadas quando tiver tudo esquecido. 

segunda-feira, 14 de março de 2011

Da bloga verde e branca

Esta sim, é a verdadeira crónica das eleições do Sporting. E a mais concisa e bem escrita - com todos os rios de tinta que já se escreveram sobre o assunto. Está lá tudo, não é preciso saber mais nada. 
Quem julga que nos blogues da bola não se escreve maravilhosamente é porque não conheceu ainda o Cacifo do Paulinho (aguentando carradas de asneirada) ou  nunca leu o melhor deles todos: o já extinto Mãos ao Ar, seguramente um dos blogues mais bem escritos de todos os tempos, e não só da blogosfera leonina. Os sacanas sabem...
Das  outras cores não sei nem me interessa, registo apenas que há benfiquistas que gostam de ir ao Cacifo. Não resistem. Devem estar como eu  agora, ansiosos pelo Acto II.

sábado, 5 de março de 2011

Motor de ignição


- "Saber onde se está, para saber onde se vai." Ou pelo menos para haver uma ideia por que raio de trilho se está a ir.

- Lutar, lutar, lutar. Conquistar, defender, manter. Como num jogo. Defender e atacar, atacar e defender. Há gente em guerra que tem de matar para atacar e matar para defender. Aí o melhor que se pode arranjar é uma pausa ligeira. E ainda assim, tinha de os ter, os cigarros.

"You can't beat death, but you can beat death in life"Charles Bukowski, amén. 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Um espelho de 4



Mesmo sobre o fim, nos descontos de uma eliminatória sofrida e de um jogo virado a favor, quatro jogadores do adversário surgem isolados na cara do golo, um deles marca e transforma o impensável. Dizem que foi uma distracção e falha colectiva. Errado. Foi muito mais que isso. Nesta imagem de corar de vergonha qualquer sportinguista, estão mais que aqueles seis jogadores, mais do que os onze até. Mais do que os suplentes, o treinador e demais ajudantes. E está muito para além do erro ou distracção, é uma falha que suplanta a sua própria falta de carácter, tal como aquelas pessoas que subitamente descobrimos que afinal não são tão burras quanto isso, porque não podem, porque é impossível chegar-se a tanto...
Este golo é muito mais que azelhice pura e dura. É um golo espelho. E o espelho partiu-se. E agora só resta começar tudo do nada. Persistir só trará mais cacos. Ou mesmo os quatro defesas dos juniores.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Condomínio Europa



Vi-o ontem pela última vez. Mais a carcaça, que o resto já tinha ido sem ninguém dar por nada, às escondidas. Estava cheio de pressa mas tive de parar, até me ofereci um café para estar mais tempo ali, a ver o resto do Cinema Europa a cair no entulho. Eu e mais umas dezenas de pessoas a olhar para um guindaste a ir contra uma fachada única e familiar, algumas sem saber o que pensar daquilo, assim entre o ofendido e o tem de ser tem muita força. Um filhos da puta veio-me à cabeça, perdoem-me o francês. Recuso-me a entender como é que aquilo não podia ser aproveitado para um teatro, um cinema, as duas coisas, uma sala de concertos, as três coisas - numa zona daquelas cheia de gente, restaurantes, cafés, cervejarias. Um condomínio fechado?
No futuro talvez diga aos meus netos que havia ali um cinema desaproveitado, que a sala era excelente, que vi ali um filme aos 6 anos - o Bamby, se bem me recordo - ou um memorável concerto de Julio Pereira gravado para a televisão. Ou uma gravação do 1,2,3 que foi uma seca descomunal mas que me fez saber do prémio antes de toda a escola. 
Fala-se agora que haverá - haverá? - no piso térreo um centro cultural ou uma mediateca. Uma mediateca tenho de certeza melhor em casa. Uma mediateca é uma daquelas coisas mandadas como quem está a gozar sem se rir enquanto joga as cartas debaixo da mesa.  Uma mediateca é uma daquelas coisas que nos faz perguntar: mas para que é que eu quero uma mediateca? 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Por conta própria



"Somos todos feitos de retalhos, entretecidos tão disformemente que cada elemento e cada momento age por conta própria. E tanta diferença há entre nós e nós mesmos como entre nós e outrem."

 [Montaigne]



domingo, 13 de fevereiro de 2011

Pensar alto

Dá-me ideia que andam muito na net a marcar território, não vá o diabo tece-las. Custa-me entender isso, mas também não tenciono perder tempo com subjectividades dessas. Vá-lá que sou dos que conseguem distinguir quem realmente vale a pena do resto da pandilha pretensiosa. Penso que essa é uma das minhas qualidades. E também o não me apetecer entrar nesse tal jogo do território. Porque é que me havia de apetecer? Gosto de respirar. Ninguém me obriga...

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Missing John Lurie



John Lurie deixou a música há mais de 10 anos, problemas  neurológicos vários, coisa em que nem os médicos se resolvem. Conta que nem pode ouvir música, deve evitá-la até, sob pena de tenebrosos efeitos secundários. Outros falam em paranóia. E que Lurie voltou recentemente ao saxofone. 
A verdade é que John Lurie se confinou durante seis anos ao seu apartamento de Manhattan. Depois duma vida passada a criar, a fazer e a acontecer - a solo, com os Lounge Lizards, bandas sonoras, com o alter-ego Marvin Pontiac, como actor, como autor-realizador do soberbo "Fishing With John" - o renaissance man agarrou-se e com sucesso à pintura. Um ultimo refugio, terapêutico certamente, mas antigo para ele pelo menos desde os tempos de Basquiat e Keith Haring. Diz também que tem uma auto-biografia quase pronta porque só lhe davam um ano de vida. Sabe-se que anda fugido desde 2008 por supostamente estar a ser perseguido pelo ex-amigo John Perry. Verdade e paranóia vivem com ele paredes meias.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Constipation Blues



Andei toda a semana com uma Gripe daquelas, na verdade foram dez dias. Mais uma vez armei-me em herói achando que esta seria igual a outras e partiria como chegou, depressa. Não me preocupei sobremaneira, nestas ocasiões lembro-me sempre duma vez em que fui com febre para uma aula de Aikido e transpirei tanto que saí depois do banho limpo e curado. Por isso fiz vida normal, inclusive com uma directa que não sei se serviu para alguma coisa. 
Agora o adversário não foi na conversa, tinha inovações: mais resistente, avisado, cínico, matreiro. Primeiro não me largou do pé. Depois ganhou o controlo do combate mantendo-me a febres fraquinhas para eu cair na esparrela de que já estava quase bom e a seguir ir outra vez ao tapete, ou melhor, para a cama. Dormia, KO, à espera se passava e não passava. Doía-me o corpo quando tossia, exasperava, mas isso só tornava as coisas piores. Atirava-me abaixo e assim sucessivamente. E já estava com os mesmos remédios que tinham sido de uma absoluta eficácia da vez anterior...
Só comecei a ganhar o combate quando percebi a táctica do devagar que tenho pressa. A minha motivação tornou-se dormir, antes disso ainda aproveitava para ir limpando o cardápio de gravações do Meo, só que acabava por apenas ver as coisas mais levezinhas, não tinha estofo para mais, de leituras apenas jornais e blogues só mesmo os mais de casa. A maldita comandava o jogo: ao mínimo esforço, cama.
Anteontem, tosca e desajeitadamente consegui reagir. Ontem finalmente saí de casa. Primeiro escala no café da esquina, depois supermercado. Por fim um jantar como deve ser, uma noite bem rematada e para a próxima tratarei a Gripe com mais respeito. Ou isso é o que digo eu agora.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Lisboísta

Dizia ela, "repara tu que há duas gerações atrás não tinhas ninguém da tua família que fosse de Lisboa, és uma mistura de Cercal, São Luis, Montargil, Quito/Silva Porto, Luanda, Sertã, Ovar, Marinha Grande...Queres mais? Eu aqui tenho ascendentes pelo menos desde o século XIX. Sou muito mais lisboeta que tu." Só lhe faltou falar da faca e alguidar ou das pedras da calçada...

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Liedson é Liedson, JEB é JEB


Jordão foi dos meus maiores ídolos de infância. Em plenos anos 80 punha-o ao lado de super-heróis e ídolos da música, TV e cinema da altura. O agora pintor resistiu intacto à prova do tempo, tanto que ainda hoje sinto a falta dele naquela equipa. O nº 11 de Jordão, e também o 9 de Manuel Fernandes, deixaram um tal vazio no Sporting que só houve uma pessoa em quase trinta anos capaz de o preencher: Liedson, pois claro. 
Se no inicio olhava para Liedson como um diminutivo do meu herói, género quando fôr grande quero ser como o Jordão, com o tempo Liedson tornou-se Liedson, perdoem-me a redundância. Liedson tornar-se Liedson significa ganhar o direito de pelo seu nome ultrapassar todos os melhores adjectivos que o classifiquem. Para um sportinguista Liedson quer dizer tudo e quer dizer Liedson. 
Liedson nunca devia sair do Sporting. Ou pelo menos nesta altura e desta maneira. É um erro histórico. Uma borrada das grandes. E borrada que é borrada tem sempre de meter mais borrada. Então não se faça a coisa por menos. Vende-se o super-craque por uma pechincha e não se contrata ninguém para o substituir, mesmo que para Liedson não haja substituição possível. 
Fazer o quê? JEB despediu-se em grande, também ele ganhou o direito de ter o seu nome acima do adjectivo daquilo é, neste caso bronco. Vamos pôr as coisas nestes termos: Liedson é Liedson,  JEB é JEB.  E devia ser banido do Sporting. Para sempre. 

sábado, 29 de janeiro de 2011

Eu, Vário


Sou Vário, consigo ser vários. Eles existem e não há nada a fazer contra vários Vários. Tantos há que me conhecem e apenas sabem que existe um Vário em tantos outros Vários que sou. Nem se apercebem. Do taberneiro ao produtor de cinema, do cromo da bola ao revolucionário comunista, da dona de casa à artista multi-facetada, do blogger de direita ao anarquista do bairro. E assim sucessivamente, numa corrente interminável de Vários. Todos pensam que sou o Vário mais de casa deles. Ou tendem a pensar, ou querem pensar, não sei. Nem penso que tenha culpa, eu não finjo - todos esses vários são autênticos, emanam do mesmo Vário. São parte de mim e de mais ninguém. Além do mais, gosto muito dos meus amigos. 
Todos esses Vários têm uma constante. Um ponto onde as ramificações e encruzilhadas se encontram. Esse ponto, essa união, essa única constante entre todos os Vários, é o Vário que escreve. Ele é o centro, o chefe, o comando da acção, o nucleu criador de Vários. E os vários Vários acabam por ser o combustível, a lenha e o carvão para o núcleo criador poder carburar, fazer a combustão. 
É uma coincidência feliz, mas nenhum Vário finge, nem sequer tenta o cínismo. Todos eles lutam de verdade pela variedade de ser Vário. Ou vice-versa. 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Gram Parsons


Foi Gram Parsons que me fez ouvir country pela primeira vez, mais especificamente o country-rock-folk que ele inventou. Muito fora de toda a ganga pirosa que enche o género, e mantém longe pelo menos a maioria das pessoas que conheço, que pelos vistos tem piroseiras mais finas e "aceitáveis" que agora não vêm agora ao caso.
Estávamos em plenos anos 90, altura da vida em que realmente descobria bandas, ia a concertos, frequentava a Torpedo e a Carbono, e comprava o NME e o Melody Maker. Aí Evan Dando, J Mascis dos Dinosaur Jr, ou Peter Buck dos REM, entre muitos outros, incansavelmente falavam do fenómeno Gram Parsons, que como Nick Drake ou os Velvets, se tornara uma moda póstuma. Depois inevitavelmente surgia Keith Richards a fazer a ligação para "Exile On Main Street", ou "Sticky Fingers", com as histórias de  Gram Parsons a pairarem sobre o que de melhor fizeram os Rolling Stones. É facil constatar que eram grandes amigos os dois, influenciavam-se mutuamente, e que Gram Parsons foi mais um a ficar pelo caminho do sobre-humano Richards.
Foi portanto um acaso perfeito uma viagem que o meu pai fez aos states de onde me trouxe um CD 2 em 1 de toda a discografia a solo do autor: GP e Grievous Angel. Mais tarde ainda me chegou ás mãos uma compilação do trabalho de Parsons com as suas bandas, entre as quais os Byrds e os Flying Burrito Brothers. Tudo ao nível do génio que morreu não aos 27 mas aos 26 anos, em pleno deserto, sob um cocktail de drogas e tequilla. Um tipo cheio de alma e tormento, da força dos campos intermináveis da américa profunda, talvez essa a alma do country. É para lá que viajo ao ouvir Gram Parsons, a sua música transporta-nos, literalmente. E é tão genuínamente pura que nunca me cansei de ouvi-la. 

domingo, 16 de janeiro de 2011

E ainda nem estava a meio...



O Paulo Bento forever foi o menos. Quando a esmola é tanta o pobre desconfia, quando a inaptidão é tanta, e tão prenunciada, também se desconfia. Nem tudo deve ter sido incompetência ou burrice. Coisa que JEB não tinha quando foi vice-presidente para o futebol e fomos campeões, ou quando chegou a um dos topos do Banco Santander. A ver vamos (n)o futuro. Se fingiu de parvo ou se subitamente emparveceu. 
A mim não me apetece, não tenho tempo, nem sequer paciência para andar aqui a fazer conjecturas político-conspirativas. Quanto mais não seja porque até os abutres rodeiam o clube precisam que o Sporting dê dinheiro, muito daquilo é deles, infelizmente. E José Eduardo Bettencourt não dava a ganhar a ninguém. 
A verdade tem um qualquer mecanismo de revelação, existem muitas teorias acerca disso. A minha preferida é a do azeite. Um clube de futebol não é algo assim tão complexo para que a dita leve uma eternidade a vir ao de cima. Até lá, fica já carimbado o pior presidente da história do Sporting Clube de Portugal. Se se tirasse aqui o "Sporting Clube de" provavelmente não andaria muito longe de acertar num dos piores, vá lá, de todos os clubes de Portugal. Enfim, comecemos pelo mais importante, os adeptos:
 - Chamou a uns contestatários de terroristas e de Herry Batassunas cá do sítio. Em plena conferência de imprensa, com requintes de Verão Quente.
 - Ameaçou um sócio de expulsão. Um míudo de 18 anos.
 - Mandou calar outro, no aeroporto de Lisboa, "ta calado pá", disse em frente às câmaras de TV.
Vamos agora aos tesourinhos deprimentes do futebol.
 - contratou inesquecíveis inaptos como Caicedo ou Angulo, não havia dinheiro. Quando passou a haver, estoirou quase tudo - 6,5 milhões de euros  - em Pongolle.
 - Não conseguiu ter escolhas melhores para treinador do que Carvalhal e Paulo Sérgio. O último, como o próprio sabia, ainda sem experiência nem bagagem. Mandar é difícil, pois é. 
- Escolheu antes Costinha para liderar todo o futebol, outro sem experiência, bagagem, nível e cultura de clube. Um auto-denominado sportinguista, que no passado apertou a genitália para a tribuna onde estava o ex-presidente do Sporting, Filipe Soares Franco. Ele, que no auge da carreira disse que em Portugal só jogava no FC Porto. Eu lembro-me porque li. E nenhum jornalista fez o seu trabalho quando Costinha andava a dar lições de sportinguismo a toda a gente, inclusive a um ex-presidente. Adiante.
- Vendeu o capitão de equipa a um rival histórico e directo. Foi por metade do preço. João Moutinho, formado no clube e titular indiscutível há cinco anos. Como forma de defesa chamou-o de maçã podre, conseguindo assim virar a fúria dos adeptos para o próprio jogador. Mas quando a mesma "maçã podre" estava prestes a regressar ao seu antigo estádio, prontificou-se logo em dizer que Moutinho era um grande profissional. O respeitinho é muito bonito, excepto quando se tem de encarar as acções próprias, não é José Eduardo?
Já nem vou entrar no assunto Sá Pinto, nem na forma desumana como (não) apresentou e despachou Carvalhal, na ostracização de figuras do clube, ou de um craque como Izmailov que antes era exemplo de profissionalismo, dedicação e empenho. De resto, as calças de ganga que se danem. Demais é demais. 
Para concluir, como muito de vós sabem, José Eduardo Bettencourt foi o primeiro presidente profissional do Sporting. Ganhava mais de vinte mil euros por mês, tinha o dia do clube por sua conta. Nos ultimos tempos andava com um ar cansado, envelhecido. Ontem na conferência de imprensa já parecia mais o JEB de antigamente. Mais jovem, rejuvenescido até. Seja.
Nem o Sporting merece Bettencourt, nem Bettencourt merece os 90% de votos que o elegeram. Venha daí o mecanismo do azeite. Muita coisa tem de vir ao de cima. 

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Malangatana



Quando tinha 4/5 anos passava longas tardes de fim de semana em casa da minha tia Luísa, ao Lumiar. Havia sempre muita gente em conversas supostamente entusiasmantes que para mim não passavam de secas intermináveis. Fazia muitas birras para ir para casa, mas quando ficava sossegado, lembro-me de não tirar os olhos de um enorme quadro de Malangatana que preenchia uma parede inteira da sala de estar. Aquela pintura marcava toda a casa, e ainda hoje é assunto de conversas. É que Malangatana enfeitiça, no bom sentido, é claro. E enfeitiçará sempre. Que descanse em paz.  

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Badi-Da

Dormi numa câmara de sono, tal era o silêncio. Ao acordar já via a barragem. Com o dia por minha conta e o meu cérebro a fazer de jukebox automática com o Badi-Da de Fred Neil, versão Mark Lanegan: "I get so tired Hanging round this town, Oh this old city life, Sure brings a fella down ba da da da da da...". Nada de ressaca. Muitos comes deram para aguentar não assim tantos bebes. Saí à rua. A vila prazenteira, um café com boa bica, gente, algum comércio aberto. 
Café bebido, fui caminho errante como que a descer para a barragem. Passada uma clássica trupe de velhos a dizerem boa tarde, uns sentados e outros de pé sob três mesas de cartas, são quatro ruas sem vivalma. Sinto que os meus passos urbano-stressados chocam com o silêncio remisturado pelo cantar dos pássaros. Sobre a igreja matriz, sentado em frente ao pelourinho, reparo melhor no porquê do meu coração bater tanto. De aqui chegado, sentir-me carregado de electricidade. Para descarregar baterias. E deixar-me ficar, momentos sem horas. Todo ouvidos para a infindável orquestra da natureza que orquestra. Depois a cidade vinga-se.  

sábado, 1 de janeiro de 2011

Ano novo, burro velho



Três primeiras notícias do Jornal da Noite da SIC. Cito de memória.


1 - Um pescador morre afogado na Póvoa de Varzim. 
2 - Os trabalhadores do Bingo não se entendem.
3 - Incêndio por causa de umas acendalhas na Amadora. Diz que é na igreja paroquial. 


Hoje, 1-1-11, foram estas as minhas primeiras notícias, fora internet, como é óbvio. Aqui com quatro canais, podia ter sintonizado algum dos outros, mas quem me garante que seria diferente?




Adenda: são 20h45 e ainda estamos com a passagem de ano do rectangulozinho. Do mal o menos. Registo para memória futura.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

2011

Meu individualismo tem um lado virado para os outros, o outro é só para mim. Na verdade, preciso muito respirar, é biológico; preciso de perspectiva, é físico. Terei de treinar mais a acrobacia, o jogo de cintura, a escalada da montanha, a respiração pausada. 
Agora vou ali até Montargil passar o ano e apanhar ar. 
Desejo a todos um bom 2011. Inspirem bem. É meio caminho. 

Separados à nascensa

                                                                                                                         

Roberto Palomar, jornalista redactor chefe da Marca.


John Gotti Jr. gangster ex-chefe da família Gambino.


O primeiro ainda não usa óculos, de resto, onde é que eles se haviam de encontrar...

Totobola



Depois deste revoltante e complicado 2010, temos prontinho um ameaçador 2011. Todos falamos em crise, é o dado inevitável, as cartas sobre mesa. É o que já está, dizem que vai piorar, não se sabe até quando. À falta de melhoras, as apostas para 2011 ramificam-se em três partes. Tipo totobola: 1 x 2.

1 - A mesmisse, melhor representada neste post de Henrique Fialho. Tão solidamente previsível que até enerva. Eu acho que me vou divertir à grande quando for para conferir. 
2 - O tumulto. Pega numa Europa revoltada e a fazer barulho. Fala em explosão iminente. Em pessoas fartas que culpam os políticos e os banqueiros pelo estado a que isto chegou. Fala no perigo das multidões, e no que aconteceu na Bósnia
X - Um misto das duas. Mesmisse com solavancos de revolta. Tudo empatado pois. 

A chave 1 é de longe a que tem mais hipóteses, joga em casa: no país dos brandos costumes, das falinhas mansas, das conveniências, do "parece mal" e ainda por cima, tem consigo a tradição cinquentenária das saudades da crise

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Miyamoto Musashi





Voar entre galhos é um instinto de defesa. Sólido elegante implacável, eis o aço. Forte ágil compacto, imóvel resistente a furacões e tremores de terra. Também à prova de água e da crueldade silenciosa que se apodera do silêncio da noite dos telhados. O aço, que da minúcia dos anos, forma o sabre do samurai. No entanto foi o vento sobre os galhos a aprendizagem do maior guerreiro da História do Japão. O sabre, esse, era de madeira.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Natal


Desde que o Natal sirva para as pessoas estarem juntas, reverem-se, matarem saudades, partilharem histórias, aconchegarem-se no quentinho, conversarem muito, comerem e beberem melhor. Fazerem uma paragem, uma pausa, poderem -  nem que apenas de raspão - sentir a paz das coisas essenciais, com o acrescento das crianças adorarem e sentirem-se únicas, então o Natal vale a pena. 
Claro que grande parte do festim é feito de hipocrisias de quem se detesta enquanto deseja Boas Festas, de conversas estéreis, de secas e conveniências de praxe, do ter de ser, do ter de mostrar... E o pior de tudo, o consumismo desenfreado que nada tem de natalício. Mas até aí o problema está nas pessoas, não culpem o Natal. 

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Wikileaks



Quando, à tua beira, houver um perseguido
e o escárnio se abater sobre o que ele pensa
e o mundo inteiro o perseguir mentindo
uma mentira maior que a dessa ideia, 
defende-a como tua antes que o mundo
esmague em si próprio a chama em que se ateia.

Jorge de Sena

domingo, 12 de dezembro de 2010

Autonomias




Da recente polémica sobre os Açores tenho mais dúvidas que opinião formada. Parece-me óbvio, claro, cristalino, que deva haver um mínimo de equidade quando se trata ir ao bolso do contribuinte. Questão de bom senso. Mas se desato a pensar naquilo já vi, transformo logo as minhas certezas em reservas. Conheço os Açores, onde estive cinco vezes. Devo dizer que nunca conheci terra tão esquecida e ignorada pelo seu próprio país. Só indo mesmo lá - local do mais belo de tudo o que existe - se pode ter a real noção dos custos da insularidade, do isolamento que é estar em minúsculas ilhas a meio do oceano, com perspectivas de voos a 250 euros para Lisboa; ou entre ilhas, a um "módico" preço de 100 euros percurso. Preço médio, vai aumentando à medida que os lugares se vendem. Dos barcos, não sei preços nem frequência. Mas levam tempo. Tirando o canal entre o Faial e o Pico, que é relativamente rápido, nos outros percursos perde-se o dia. Ou os dias.
Daí talvez se compreenda que existam palavras exclusivas para cada ilha, e sotaques distintos. Ou que por exemplo um terceirense tenha menos de temperamento de um habitante de São Miguel, que um tripeiro de um alfacinha, sem ponta de exagero. De resto, a autonomia do arquipélago não é tão perfeita como se quer pintar. Ou será uma autonomia um pouco para o maquilhado. O açoreano queixa-se muito da incompreensão, da morosidade nas decisões, das burocracias, do ter tudo de passar por Lisboa. De um país que acha que lá está sempre mau tempo, e que dos Açores apenas se lembra nas Agências de Viagem, nos noticiários de catástrofes, ou quando a porca torce o rabo e Cavaco se preocupa com o novo Estatuto dos Açores, ou quando o seu presidente eleito - com segundas intenções ou não -  se lembra de dizer meus amigos as coisas não são bem assim. Depois é ver o mundo inteiro a acusá-los de falta de solidariedade. Ou coisas piores.
Eu pessoalmente gosto muito de ver as peças do jogo encaixarem umas nas outras. Alberto João Jardim a não achar muita graça à inesperada concorrência de Carlos César, algo de tão previsível quanto comovedor. Pudera, ele, o mais gigante sorvedouro do pobre Estado português; ele, o mais estridente demagogo da História da Terceira Republica; ele, o maior populista e anti-democrata de toda a nossa Democracia. Ele, logo ele, há de querer aqui correr riscos? Negócios são negócios, um cêntimo é um cêntimo (como diria Joe Berardo, outro "benemérito" madeirense), portanto, toca de se pôr ao lado do "Continente" (leia-se dinheiro) e dizer mata para esfolar mais um bocadinho os vizinhos da sua tão cara "autonomia". Também é bom ver lembrado que os açoreanos são tão portugueses como nós, os continentais, é que já houve vezes em que me esqueci disso... 

102



O ano passado registei 101. Mais os dois filmes por ano. Nunca tem falhado. Para o ano serão 103. E possivelmente os tais dois filmes. Nunca tem falhado. Parabéns Manoel de Oliveira. Nunca tem falhado.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Questões de regime



Apanhando a deixa, devo dizer que me faz bem ver "No Reservations", faz-me mesmo bem ver aquilo. Faz-me bem por todo aquele desassombro, inteligência e adrenalina que me enche as medidas para os píncaros da euforia. Um pouco como ver "Good Fellas", ler um livro de Bukowski, ouvir o "Exile On Main Street" ou ver o meu Sporting esmagar. E não há médico que possa receitar estas coisas. 

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Notas de um Facebook


O Facebook pegou de estaca por ser a rede social que melhor (se) encaixa na vida web 2.0. Daí ergueu uma fortuna colossal, um império incontestável, e o comando do futuro para as próximas décadas. Agora, com a nova e detestável configuração mudam-se mais uma vez as regras do jogo. As pessoas bem podem protestar, piar alto e mandar vir, que depois, como dizia o outro, "habituem-se". Para mim ficou mais piroso, mais ligado à trivialidadezinha, à lamechice dos "interesses comuns" e conversas do passado; a fotos e recuerdos escarrapachados e sem escape possível;  e à vida profissional também, para impedir que redes como o Linkedin sequer pensem em crescer, quanto mais em upgrades "desagradáveis"... É tramado. 
Mas o que causa mais espécie não é isso. Devo aqui dizer que sou mais adepto do Facebook dos desconhecidos - gente interessante que a brincar anda aqui a sério e vice-versa  - ter aquilo só para família, amigos e conhecidos de vista roça o tédio, não que elas e eles sejam entendiantes, pelo contrário, mas onde anda o sal? Voltando ao assunto, o que me causa mais espécie ali é também uma das coisas que me causa mais espécie cá fora: o mau fingimento, o de quem não sabe mas quer à força mostrar que domina, então se o assunto marca a agenda, o que tem de ser tem muita força, para parecer bem... Claro que isso pede certos requintes. E depois há sempre aqueles dispositivos tocantes do sujeito que tem tudo pronto e programado para dizer A) quando é C) e arranjar uma alternativa a B1) se  Beltrano disser Q), ou então fingir que não sabe o J) e depois se Sicrano disser o Z) vai dar um ar de surpresa e exclamar "ai é não sabia". 
No Facebook existe uma maior mediação do que cá fora, como é óbvio. Mas de vez em quando oferece-me espectáculos assim, comoventes. Foi o que aconteceu ontem, ao comentar um dos assuntos políticos em voga e que não vem ao caso. Dei um comentário espontâneo de camaradagem, praticamente esquecido pouco depois, até daí a três horas me ser lembrado de consultar o meu e-mail. Estava lá a resposta. E que resposta: comentário longo, cheio de meandros, de cálculos coiso e tal, clichés meia tijela, barroquices numa de soar bem, não fossem borrifar aquilo tudo. E eu pergunto-me: para quê? Ou pior, para quem? Era um amigo da vida real. Não me acho mau nem mesquinho mas a pretensão mal amanhada ultrapassa-me. Apeteceu-me logo pegar o telemóvel e dizer-lhe ouve lá qual é a tua, mas vendo melhor agora, acho que fiz bem em deixá-lo a achar-se, nas conformidades...
Voltando atrás, começo por vezes a preferir amigos virtuais reais a amigos reais virtuais. É que tendem a ser mais autênticos do que muitos que a geografia e a vidinha deram a conhecer... 

sábado, 4 de dezembro de 2010

Nada é nada ainda



Andei a adiar a vida e a confiar na sorte. Na sorte da segurança. Uma gaiola bonita, aberta, com várias perspectivas de vista. E uma porta para sair, apanhar ar e regressar. Ponto de apoio, de sobrevivências, do gozo de viver, dos livros, dos PC's, filmes, de estaminés, de sofá. Mas ainda assim, uma metáfora de uma gaiola. O medo do falhanço, do aniquilamento, do logro. De animais de rapina maiores ou talvez não. A falta de confiança, o excesso de confiança, o regresso à gaiola. Depois o tempo urge o tempo. E tudo continua na mesma: nada parece o que é.
Penso num poema ZEN onde se fala na montanha que deixa de ser montanha para no final voltar a ser "a montanha". Procuro esse poema. Não o encontro. Talvez o traga o tempo, porque na verdade não há montanha ainda. Ainda. Ou talvez nunca. A minha Lisboa é que é ainda e cada vez a Lisboa dos "serões habituais, as conversas sempre iguais, os horóscopos e os signos ascendentes...": campo de batalha, cidade de pouco e de nada; gare de partidas e chegadas onde se pode ver o rio e beber uma cerveja...
Agora estou na varanda e por cima da ponte o céu combina com um avião em rota de aterragem. O Tejo segue o seu curso. Ainda nada é nada ainda.

Impermeável


sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Notícias do saque



Pedro Lains: "Tributar esses dividendos em 2010 dá desconfiança aos mercados? Mas estamos onde? E isto não é uma crise com cortes do rendimento disponível que deverão chegar, em média, talvez a uns 4-5% do mesmo? Vivemos em que época? Claro que o PS e o governo estão reféns de quem estão. Assim como o PSD. Quando se vão libertar? Precisam das empresas para financiar as campanhas? Não, felizmente estamos na Europa. Então precisam delas para quê? Respeitinho a mais é negativo, mostra coisas menos positivas. Ao mesmo tempo não vão aumentar o salário mínimo? Isto não é um debate sobre economia, é sobre decência."

Eduardo Pitta: "Obama mudou alguma coisa? Timothy Geithner, secretário do Tesouro, não dispensa o conselho de Henry Paulson e outros tenores da Goldman Sachs que cavaram o buraco. Ben Bernanke continua presidente da Reserva Federal. Alan Greenspan goza uma reforma dourada nos Hamptons. Ao pé deles, Madoff é um carteirista do metro."

Henrique Fialho: "O trabalho salva, diziam os nazis aos judeus em campo de concentração. O trabalho salva, repetem os governos aos seus escravos de trazer por casa em campo de centralização. E as vozes fazem-se ouvir da sua cavernosa dívida, têm um compromisso com a saúde dos mercados, não necessariamente com as pessoas, porque isso de viver e de se estar vivo é secundário, o que importa é manter os mercados saudáveis, evitar rupturas sistémicas, garantir os stocks."

Tiago Mota Saraiva: "Os mesmos deputados que chumbaram a proposta de tributação dos dividendos das grandes empresas por rejeitarem alterações de tributação a meio do ano fiscal, preparam-se para, depois de o terem utilizado como bandeira eleitoral, baixar unilateralmente o salário mínimo contratualizado para 2011."

Fernando Martins: "Por causa disto, mas podiam ser muitas outras coisas, estou sempre a lembrar-me que há uma direita portuguesa (e também uma esquerda moderna) que gosta de ser sistematicamente encornada pelos chamados, umas vezes bem outras mal, "grandes interesses económicos".

Vasco Lobo XavierSão tantas as empresas públicas que gravitam na órbita do Governo que eu me pergunto: e o Governo, serve para quê?"


Foto tirada daqui.



Hüsker Düplo



quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O Deus de Norman Mailer



terça-feira, 30 de novembro de 2010

Um saque de corsários


Desde que se soube que o OE 2011 já não escapava, que o mar tem andado mais agitado que o normal. Não ando para aqui com teorias da conspiração, que detesto aliás, mas reparo que há umas semanas atrás havia menos turbulência. Serei só eu? Registo apenas.

1 - Que a montanha pariu um rato.
2 - Outros sociopatas.
3 - Mais poder para os bufos desta vida.
4 - Isto hoje

Outros sei que estão bem e recomendam-se. 

1 - Uns diz que trabalham bem.
2 - Outros melhor ainda.
3 - Outros são os donos do cofre.

Entretanto, enquanto não somos suficientemente competitivos, e com cortes tão radicais a ser feitos, o português comum ganha menos 55% do que a média europeia, e - como as pessoas pouco produzem... - seus gestores mais 55% que os suecos e 23% que os norte-americanos. Ou um CEO como António Mexia ganha mais que Steve Jobs, com o trabalho ímpar de liderar uma empresa em monopólio com a electricidade mais cara da Europa. É obra.
Nem vou falar nos salários dos administradores da Caixa ou do BCP. Fico-me pelos 4000 milhões de euros gastos do Estado para cobrir o caso (de polícia) BPN. Tudo vale a pena para encher Galeões de Corsários.

sábado, 20 de novembro de 2010

Inglês Técnico




A começar pelo vídeo apanhado no Facebook, depois pelo kraftwerkiano brilho do Tolan, até acabar finalmente em Barack Obama "your english is much better than my portuguese"; enfim, já consigo entender mais de inglês técnico...

domingo, 14 de novembro de 2010

Notas de um Google Reader (III)




Descobri ontem estes números "blogosféricos".

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E sou de poucas paciências...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Estrada dos Prazeres


Os acasos, vontades e incómodos da vida sempre me mantiveram em Campo de Ourique, lugar que é mesmo minha casa, onde andei na escola, onde fiz a base, onde deu para quase tudo. Vivi três anos no Lumiar e gostei, mas depois voltei para aqui. Podia lá ter ficado que não me importava, gostava da vida que lá tinha, da namorada, do Gin que era (e é) o cão da (ex) namorada  e de poder ir para o Estádio de Alvalade a pé.
Mas voltei, primeiro para um apartamento do pior que há na Saraiva de Carvalho, cheio de incómodos surreais que agora dão algum gozo lembrar, mas que na altura não tinham graça nenhuma. Agora vivo na Estrada dos Prazeres, mesmo em frente ao cemitério. Não me importo nada de viver em frente a mortos, tenho muito mais medo dos vivos. E este até é o melhor lugar para se viver neste bairro. Continua ao lado de tudo, mas com muita calma e silencio aos fins de semana. Não tem as famílias inteiras com as pessoas entra-café-sai-entra-supermercado-sai que apinham Campo de Ourique enquanto se tropeça e com licença. É o melhor lugar agora, mas nos anos 90 era o pior. João Soares a presidente da CML tirou o "holocausto" daqui. Se eu de noite, no centro do bairro, via de uns 10 em 10 minutos um junkie a passar na direcção do Casal Ventoso, podem vocês imaginar o que seria aqui, onde por fim se dá com a Meia Laranja. Se em 10 ruas a cadência eram dez minutos, aqui as cadências fizeram que com que até hoje tenha sido proibido um trinco na porta deste prédio. Nem preciso de dizer porquê.
João  Soares prometeu acabar com as barracas do Casal Ventoso e foi o que fez. Acabou mesmo. Foi a única vez na minha vida que vi um político a cumprir o prometido. De resto, enquanto o chiqueiro se vai a acumulando na Lisboa mais porca da minha vida, o movimento da Meia Laranja vai aumentando em surdina. Agora dá-me para apanhar ali o autocarro num exercício com requintes de auto flagelação. É tiro e queda. Cruzo a esquina, dizem-me que têm "castanha" e "branca" da boa, não faço caso e sigo para a paragem a cinco metros. Eles também, mas num vai e vem, para trás e para a frente. Atrofiados. Mal cheirosos. Acabados. Uga uga anda aí a bófia. E eu, impaciente em sair daquele simulacro de inferno, olho no céu um avião minúsculo pelo voo alto a sair de Lisboa. Seria mais fácil ganhar o euro milhões do que algum deles poder encontrar naquele avião uma simples metáfora de sobrevivência. Voar bem alto para fora daquilo. Como João Soares ao conseguir acabar com o pior lugar do século XX lisboeta, se bem que há cautela seja  melhor continuar-se a fechar o trinco.