terça-feira, 21 de junho de 2011

O grau zero da política (II)


Bastava-lhe por exemplo marcar uma conferência de imprensa. Há uma semana atrás seria suficiente - que não reunindo os consensos necessários renunciava ao cargo e (por incrivel que pareça) saía airosamente do embaraço, inclusivé com nova força política, ainda reconquistava adeptos, o sortudo. Mas não, ambições assim desmedidas têm de ir até ao fim. A paga depois teve-a com juros - e foi vê-lo expectante, isolado, meio acossado, com vontade de se esconder debaixo do chão mas nem assim perdendo aquela estrondosa vaidade, e no final, na curta declaração, em todas as entrelinhas dando ares de revolta e indignação como que culpando o mundo tal como antes tinha acusado alguns dos seus milhares de ex-fãs do Facebook de conspiração para o derrubar pelo simples facto de se terem indignado pela sua indignidade. Fernando Nobre cometeu o pecado de mostrar o (mau) jogo. Todo o jogo.  Agora como deputado, se entretanto não renunciar, não só tem muito trabalhinho a fazer como ainda por cima sabe que os outros sabem que ele sabe que está ali apenas para ser a estrela da companhia. 

domingo, 19 de junho de 2011

O grau zero da política




É cada vez mais provável que este ano tétrico da política portuguesa vá desaguar ainda no vaidoso oportunista troca-tintas demagogo do Fernando Nobre, com todo o respeito pelo seu exemplo e percurso de vida - que me impede de debitar aqui ainda mais adjectivos - o que nem é necessário mencionar visto que a figura faz constantemente questão de sublinhá-lo despudoradamente em proveito próprio, chamando isso de "cidadania". Se Fernando Nobre for eleito Presidente da Assembleia da República cairemos finalmente no grau zero da política, a partir daí é só a descer, quiçá irreversivelmente. Se duvidam pensem na Itália de hoje, o melhor exemplo para entender que não existem limites para a desfaçatez.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Schaars



Godinho Lopes (e já agora Luís Duque e Carlos Freitas) anda a fazer um excelente trabalho. Em surdina. Enquanto apaga os fogos internos de disputas de poder e egos inflamados, lá vai metendo a casa em ordem e preparando a glória com contratações cirúrgicas no limite do custo. Verdadeiros achados, tudo menos óbvios mas de valor tão certo quanto impossível de (nos) enganar, ainda por cima iludindo empresários chupistas e toda a imprensa que mesmo involuntariamente inflaciona custos enchendo de dinheiro os bolsos errados. Mesmo assim confesso que ainda não consigo olhar muito tempo para Godinho Lopes quando o vejo na televisão, fiquei demasiado aturdido pela possível vigarice eleitoral a la W. Bush, imposta (ou não) por interesses que são do conhecimento público. De qualquer forma Godinho anda a trabalhar muito bem, gradualmente passando de "este não é o meu presidente" para "o nosso grande presidente".

Acid casualty



Foi pelo fim que os Pink Floyd começaram.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

A Melhor Juventude



Foi "Casa de Lava", filmado na ilha do Fogo, que fez com que lá chegasse - para fazer o favor de entregar umas coisas a familiares de gente que conheceu na ilha. Para Pedro Costa entrar nas Fontainhas foi um choque equivalente a uma chegada a África ou à Índia, como diria mais tarde. Primeiro estranhou bastante, mas rapidamente envolveu-se naquele mundo e comunidade onde até como tesoureiro serviu. Trabalhou,  realizou obras-primas, tomou a comunidade como sua. Ali paredes meias de Lisboa, num sub-mundo de miséria, filmando horas a fio num longo moroso processo de repetições, dores, conflitos, maturações, numa longa teia tecida entre a pessoa de carne e osso e seu terrível enredo onde vêm à luz reminiscências de Robert Bresson, Straubb/Huillet, Rosselini ou Pasolini. Com a coragem de um cinema assim - artesanal, transcendente, singular o suficiente para se poder considerar uma nova cinematografia - vive ali o mais brutal e desesperado dos pessimismos, que se confunde bem com o seu realismo: não existe saída, ponto. O feito de Pedro Costa está no sublimar de tal desolação, de toda aquela inumanidade e miséria. Tal como Joseph Conrad no seu "Coração nas Trevas", tudo ali é sinuoso, fechado na obscuridade, no silêncio, na lassidão, onde o climax é não só o ponto mais longínquo da viagem, como a própria condição de um regresso.
Não há fórmulas para tal, nem a folha em branco se ensina. A folha em branco aqui é o plano. Está tudo lá, na folha: o som, os diálogos criados e improvisados incessantemente até a uma forma que os sustente. O olhar, a presença do personagem, feita de meses e meses de empatia vivida, transportando verdade para o filme trabalhado sobre o abismo entre nós e a irremediável miséria dos deserdados do mundo. 
A primeira vez que visitei o seu "cinema das Fontainhas" passei quiça por um semelhante processo de aceitação. Primeiro de estranheza e rejeição, depois de revelação e descoberta. Tem de se conquistar o prazer daquela fruição. De tudo o que está lá dentro - a sua poesia, a sua metafísica, o seu processo de catarse. E tanta humanidade na desumanidade. One of the most important artists on the international film scene , podem dizer o mesmo em Nova Iorque, LA, Paris, São Paulo, Tóquio...Contra todas as probabilidades é nele que estão postos os olhares do cinema mais genuíno.  Mesmo achando que o Cinema como ofício no seu sentido mais artesanal é uma arte em vias de extinção. Pronta a desvanecer-se.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Lá Fora



Dá ideia que se passa muita coisa durante “Barton Fink”, mas vendo bem há um assassínio, um incêndio e pouco mais. Nem são os momentos de Fink nas suas divagações, bloqueios de escrita ou dúvidas existenciais que suportam o tempo do filme. Não, o filme sustenta-se em 3 ou 4 pontos chave, com arcos suspensos entre eles e entre esses arcos literalmente levitamos diante da tragédia. No final pouco nos interessa o mundo lixado e o sarilho em que o personagem está metido. Isto porque o que nos leva é que o vai escrito. O que nos conta é a cabeça do escritor, o mundo, esse está lá fora como o quadro da mulher na praia. Se é real ou imaginado é-nos indiferente, é que no meio das palavras ambos são indistinguíveis.

Parvo parvalhão

A agressão é coisa do diabo, a agressão temos de estar sempre a lidar com ela. Ontem ligou-me para desabafar que ele a insultou violentamente ao telefone, já dois anos depois de ter acabado com a relação. “Como é que é possível? Tratou-me pior que lixo...”. Conhecendo-a tão bem e percebendo pelo tom onde a conversa ia dar, cortei mais rápido que a própria sombra. É simples, ligou-te porque é parvo, insultou-te porque é mesquinho, dois anos depois porque é um ressentido e ainda por cima de uma cabine telefónica, porque é burro. Tentei depois armar-me em engraçado sugerindo que soletrasse P-A-R-V-O à maneira disco sound anos 70. A rir assim meia desarmada – e eu também pela espontânea acabada pirosice – voltou à carga, “mas eu não mereço isto”, cortei então com os japoneses que quase apocalipsaram com um tremor de terra e não mereciam, com as crianças da Palestina, com o povo do Zimbabwe, com as mulheres da Arábia Saudita, com quem trabalha e vai à sopa dos pobres, que no limite quase ninguém merece, menos ainda aquele casal do prémio do euro-milhões se bem que ao contrário, que se deixe disso porque o gajo é um parvalhão. P-A-R-V-O. P-A-R-V-O. P-A-R-V-O. Não vês que ele quer-te com os hematomas da agressão? Com manchas de sangue na roupa. Não percebes que se te rires ele descarrila, que se o olhares de frente então não se levanta mais?

sábado, 11 de junho de 2011

Real ficção



O realismo em “The Wire” (em português "A Escuta") é parte da sua urgência, da sua mensagem, do efeito que pretende criar, do que pretende reflectir. No final de cada série teremos um quadro tão extenso como abstracto, mas acima de tudo verdadeiro. O objectivo esse foi conseguido, entrarmos dentro da acção como dentro da própria realidade: infestada de impurezas, aleatória, subjectiva, tendo o bem e o mal não apenas como valores mas mais como lados onde nos encontramos no xadrez da vida - ele há gangsters com elementos de nobreza e ele há detectives deformados em bullshit. Na verdade vivemos a vida em tantos tabuleiros que nada melhor que as camadas em“The Wire” para o ilustrar, numa trama em que estamos em simultâneo presos e confundidos, tal como presos e confundidos nos encontramos tantas vezes no nosso dia a dia. Nesse sentido “The Wire” é também politico, pois coerentemente obriga-nos a pensar na importância do que está diluído no presente. Esta forma de realismo cola-se a nós mais do que muito que há para aí de "realismo" e que perante isto se torna apenas trivial. Muitos não se inibem de dizer “best tv show ever”. Discutível ou não, "The Wire" aceita todas as fasquias. 

Quadripolaridades

A blogosfera é e tem sido uma caixa de surpresas, as boas têm suplantado as más por larga margem, ainda bem e que assim continue. Depois há também raridades como esta. Um grande obrigado ao Quadripolaridades.

80

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Woke Up This Morning




Entretanto em Filadélfia as coisas deram uma volta de 180º. O boss Joe “Uncle Joe” Ligambi, seu underboss Joseph “Mousie” Massimino, o capitão e braço direito Anthony Staino e mais uns quantos foram apanhados e presos. Foi desmontado pelo FBI um esquema de máquinas de póquer em cafés e bares que davam um lucro colossal, a marosca, simples, constituía na percentagem do lucro sobre tudo o que era máquina no sul de Filadélfia e New Jersey. Não há mortos ou feridos, há sim escutas de um microfone de um associado metido no meio do esquema. Não havia nada que enganar, as pessoas pagam para não terem problemas e tenta-se fazer as coisas de um modo "legitimo" criando para tal uma empresa chamada JMA industries (J de Joe Ligambi, M de Mousie Massimino e A de Anthony Staino , "it’s all profit, it’s all profit"...). Mas tramaram-se, agora Ligambi com 71 anos arrisca uma pena de 20, o que naquele caso é prisão perpétua. 
Já lá dentro sabe-se que Ligambi teve uma brutal discussão com o sobrinho e consiglieri George Borgesi que já estava preso e aproveitou a oportunidade para se queixar de não estar a ter o combinado e da sua família não ser acompanhada convenientemente, Ligambi esse pode-se queixar do tipo que os tramou com o microfone vir da parte de "Bent Finger" Lou Monticello, um associado de Borgesi. Entretanto cá fora Joey Merlino prepara-se para novamente tomar conta da Philadelphia Crime Family, preso até Março deste ano foi para a Florida para não se envolver demasiado, ou pelo menos para fugir dos holofotes. Joe Merlino é uma quase celebridade em Filadélfia e as coisas passaram-se muito mais depressa do que imaginava. Agora está numa posição de pegar ou largar, daí que tenha nomeado o seu homem de mão e ex-underboss Steve Mazzone para tentar tomar conta do território. Só que Ligambi parece não estar pelos ajustes e quer continuar comandar as operações. A discussão de Mazzone com familiares do ainda chefe "Uncle Joe" serve bem de ilustração. O problema acresce porque Ligambi tomou o poder há 12 anos quando Merlino foi preso. Enfim, dou por mim e parece que acompanho os Sopranos ao vivo todas as semanas nos sites do canal Fox 29 e Phily.com. Com alguma culpa à mistura, diga-se. Mas bem vistas as coisas, quase tudo o que aconteceu nos Sopranos mafia related e não só é real e verídico, o mesmo se passa com 95% de "Good Fellas", "Casino" ou "Donnie Brasco". E casos como o BPN são bem piores que video poker machines, com a agravante de não terem glamour absolutamente nenhum.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Eleições - notas finais


- Foi a maior abstenção desde 1976 – 41,1%. E Bateu-se o recorde dos votos em branco - 103.537.

- Com PSD e CDS (50,3%) a direita ganhou. Estrondosamente. O povo subscreveu a receita. Estrondosamente.

- Daniel Oliveira na melhor intervenção da noite, “as pessoas quando foram votar sabiam. Estava lá tudo." Sim, escarrapachado, escrito, dito, repetido. Mas nem o possível fim do SNS como o conhecemos, ou o argumento de se ir mais longe que a Troika impressionou o eleitor. Nem Fernando Nobre, ou sequer Leite de Campos, quanto mais Eduardo Catroga.

- Pelos vistos o povo português gosta muito do moralismo dos cortes e da austeridade, não vai é achar tanta graça quando este lhe cair em cima, e vai cair mesmo, em força. E contra factos desta vez não sei com que argumentos responderá. A bem dizer nem sequer imagino...

- A esquerda, exceptuando o PCP, sofreu uma humilhação histórica, poderá talvez aprender alguma coisa da necessidade de deixar de ser tão "pavloviana", de começar a pensar mais estratégicamente. Deixar de achar que PS, PSD e CDS é tudo igual, porque não é. Aprender a ser mais flexível, a ter inteligência para além da "indignação". Perceber que tiros no pé são tiros no pé.

- O género de desporto nacional chamado “a culpa é toda do Sócrates” começará a ter cada vez menos adeptos, eventualmente desaparecerá do mapa. Ainda bem, o barulho é ensurdecedor.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Domingo está dado o tiro de partida

Sente-se no ar o regresso do PSD ao governo. A blogosfera da direita ansiosa e aos foguetes nem deixa que se respire. Há bloggers à média de três posts por dia a execrar José Sócrates por todos os nossos males presentes e passados e isto nivelando a coisa por baixo. Tudo aquilo que foi escrito nos últimos meses deu como que um valente spin de aceleração. Soa quase a purga. A caça ao homem. Não vou votar PS por isso estou à vontade para dizer: é de entontecer.
Do mal o menos, ou melhor, tentando pegar pelo lado menos sujo da questão: deixaremos de ter só um bode expiatório. Porque ao que aí vem inevitavelmente muito vai ter de vir ao de cima, algo que este salivar pelo poder não vê nem quer ver. Como poderia, se ele próprio das duas uma, ou ia a eleições no PSD ou no país? A conjuntura internacional não será atenuante de nada se até agora foi tida como factor lateral ao verdadeiro objectivo de se chegar ao governo. Porque pelos vistos os países andam todos a crescer, menos a Grécia e a irlanda, esses trapaceiros...Irão dizer, sim, vão dizer “a culpa é toda do governo anterior” e que atire a primeira pedra quem não se lembra do Guterres de governo minoritário execrado e culpado de todos os males da terra, enquanto Cavaco com duas maiorias absolutas era tido como o bom, o virtuoso, o honesto, o acima de toda a suspeita, o culpado de coisa nenhuma. Ninguém reparou no desbaste da agricultura,no abandono das pescas, em Oliveira e Costa e no BPN, em Dias Loureiro, nos enriquecimentos ilícitos, nas reformas de roubo em acumulo.  
Hoje televisões, jornais, revistas, todos tocam pelo mesmo diapasão. O problema está localizado: temos de nos livrar de José Sócrates. Seja. O objectivo está prestes a ser alcançado. Logo a seguir temos prometido um longo filme noir serie B. 

Andando

Ando aqui como quem não anda, mas ando bem andado, 50 minutos a pé por dia na ganga e com uma mochila com uns cinco quilos às costas, de momento é o melhor que se arranja e tarda nada começo a nadar e quero ver se volto às artes marciais. Um corpo bem tratado devolve a cortesia ao espirito através de uma protecção especial tida em bónus de intuição,  sangue frio, criatividade, capacidade de concentração e humor como deve ser. Existe gente porreira, cool e cheia de coisas boas mas que depois é impossível de ego, neuróticos na quinta casa, vai-se a ver o seu sistema muscular e aquilo é tudo flácido, mole, derrotado, todo um espírito com um corpo a mandá-lo à merda. É uma escolha. Li há pouco tempo que Philip Roth - de quem não aprecio por aí além – faz caminhadas e vai nadar todos os dias e Norman Mailer fazia desporto diariamente sublinhando que o escritor é um atleta e que por isso deve praticar exercício físico. Eu não sou um escritor mas nada me faz tão bem na vida como escrever palavras e pôr os músculos a falar.

domingo, 29 de maio de 2011

Futebol do além


Torci pelo Manchester United, antes tinha torcido pelo Real Madrid. Embirrava com o Barcelona e todo aquele unanimismo sobranceiro à volta do "indiscutível Barça", ignorando arbitragens de vergonha em jogos decisivos e o mais despudurado anti-desportivismo que há memória. 
Dito isto, ontem converti-me. À grande. O Barcelona 2011 de Guardiola é a melhor equipa de futebol da minha vida. E a minha memória das grandes equipas vai até ao Brasil de 82.
Este Barça é talvez a mais espectacular, implacável, eficaz e temível máquina de futebol jamais criada pelo ser humano. Fortíssima em todos os sectores, joga puro futebol de ataque sem nunca perder coesão defensiva, irrepreensível tacticamente, põe logo os adversários em sentido com terror de perderem a bola e o problema é que não só a perdem tantas vezes como depois muito dificilmente conseguem recupera-la, parecem então uns aldeões cercados por uma legião romana, prontos a serem pilhados ou coisa pior. Ninguém melhor do que Mourinho percebeu isso.  
Em suma, uma equipa de uma outra dimensão muito além da concorrência, e com toda a vontade irresistível de dar espectáculo com requintes de sadismo, de baile, de patinagem artística.
Talvez só daqui a vinte anos se volte a ver algo parecido. Quem não assistiu à final de Wembley arranje maneira. Com aquela segunda parte até o Pacheco Pereira se embevecia. 

domingo, 22 de maio de 2011

Minnie, Moskowitz & Cassavetes


"Minnie & Moskowitz" joga com o romance improvável entre um quase vagabundo e uma sensivel curadora de museu. Ela em crise existencial e amante de um homem casado, ele acabado de chegar a Los Angeles e vivendo biscate a biscate. Mal o estranho acaso os põe em contacto as coisas começam a acontecer. Dá-se o clique, gera-se entre os dois uma energia colossal, uma montanha russa de emoções. No final já não conseguirão viver um sem o outro.
A viagem porém é tortuosa, difícil, num equilíbrio precário, pronto a explodir-se, mas quiçá única via de se poder chegar ao amor (quase) impossível num romance contra todas as possibilidades, género de agulha num palheiro.
Mesmo num registo de comédia, "Minnie & Moskowitz", tal como todos os outros filmes de John Cassavetes, tem como tema a viagem emocional dos personagens, não tanto a acção propriamente dita. Com interpretações absolutamente notáveis, só mesmo possíveis com uma total confiança e segurança no realizador. Não é por acaso que o circulo dos actores "cassavetianos" anda sempre à roda dos mesmos. Sente-se ali intimidade, cumplicidade, amizade. De outra forma a cena não pegaria daquela maneira, não teria aquela fluência. Afortunadamente está lá Gena Rowlands, a actriz da minha vida, casada precisamente com John Cassavetes. Há casal mais exaltante que este? 

sábado, 14 de maio de 2011

Moral da Scut




Mais dois dias de campanha e ninguém pegou nisto.

Catroga


Já não há palavras que classifiquem o topete, a atitude vale tudo e a desonestidade desafiante de Eduardo Catroga. A não ser dizer que tarda nada Catroga é um adjectivo, ou um estado mental referente a estar, isso mesmo, catroga. 
Agora o personagem que ele próprio criou diz in extremis que tem andado acelerado. Tentou fazer de policia mau mas a coisa não correu como queria. De Hitler já ninguém o livra, de César Monteiro muito menos...

sábado, 7 de maio de 2011

terça-feira, 3 de maio de 2011

Recomeços

O Nem Paz, Nem Guerra, onde tive o gosto de escrever, está de volta. Com o meu irmão ao volante e depois de uma valente guinada à esquerda. Mas vai em frente e cheio de força, espero. Um blogue de e do combate para o combate.
Decidi reactivar o Céu Aberto para pôr lá textos, que como diz o Artur Jorge, se não calhar não cabem aqui. Coisas inúteis que saem do esconderijo e vêm apanhar ar.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Neandertais



Os Neandertais eram baixos, fortes, rápidos, comparáveis hoje aos jogadores de futebol americano, chumaços incluídos. Caçavam em grupo, em equipa, com lanças compridas em direcção aos mostrengos. As lesões e hematomas que contraíam eram parecidas às dos cowboys dos rodeios. Tinham também a particularidade de só caçarem os animais maiores, por terem mais carne e gordura. Os mais pequenos deixavam de fora, não interessavam. Jogavam forte e forte arriscavam, de resto só comiam carne, não estavam para variedades. Também não eram dados a misticismos como o Homo Sapiens, não se pintavam nem faziam rituais. Eram tipos tiro e queda. Burros é que não deviam ser, as pedras afiadas que esculpiam para lascar os animais caçados levavam meses até estarem prontas, e com tal precisão que artesãos de hoje com mais de vinte anos de experiência dificilmente chegam a tanto.
Sabe-se agora que os Neandertais se extinguiram à volta de 40 mil anos, pouco depois do Homo Sapiens migrar para a Europa. Não existem provas de extermínio, nem de assimilação. Não se sabe ao certo porque desapareceram. 
Há uma teoria que diz que houve uma alteração na corrente do Golfo que fez com que a Europa gelasse por completo. Morreram animais, extinguiram-se espécies, a caça grossa foi à vida e os Neandertais desapareceram aos poucos, um a um. Como eram de poucos gostos acabaram por se tramar. A nossa espécie não, pelo contrário, prosperou, caçava o que havia para caçar, comia de tudo, raízes, frutas, o que estivesse á mão. Mais sensata,  disseminou-se por todo o planeta e o resto foi história, inclusive o racismo. Coisa que os Neandertais provavelmente teriam dificuldade em compreender, homens Sapiens racistas de homens Sapiens, e que até há racistas em povos de homens Sapiens independentes há umas dúzias de anos, isto depois de uma vida inteira a levar nas orelhas...

Ainda o jogo de ontem



Até à expulsão, Pepe estava a ser o melhor em campo, "comia bolas", ganhava espaços, cavava faltas, destruía o jogo a um Barcelona que já não sabia mais o que fazer, e o Real Madrid preparava o golo a marcar na altura certa, para depois gerir com pinças a vantagem na segunda mão, em Camp Nou. Só assim podia passar esta eliminatória. Nos limites e sem cometer erros. Fora isso, a queda seria fatal, como no caso do "louco" equilibrista que passou duma torre a outra do World Trade Center. É que este Barça "joga nas alturas". Daí que compreenda toda a fúria de Mourinho: aquele vermelho a Pepe deve ter valido por dois ou três penaltis. Sem Pepe era preciso tempo para prevenir o desastre. Tempo esse que Messi aproveitou com todos os requintes da genialidade. 

domingo, 24 de abril de 2011

Take 1



Filme sobre um filme dentro dum filme, "Road To Nowhere" é um filme sobre o próprio cinema, com planos, cenas e personagens sobrepostos em notáveis efeitos surpresa impossíveis de poder ser inteligíveis num primeiro visionamento pois tudo ali é jogado em enigmas de enigmas de um puzzle em que só vendo e reparando mais uma vez poderão encaixar melhor todo o enredo no misterioso e surpreendente final. Entretanto sobra a beleza dum cinema que em Monte Hellman vive além do espaço e tempos convencionais de um filme. Quantas vezes me lembrei de "Two Lane Black Top" ao ver "Road To Nowhere", talvez por serem feitos da mesma gramática, duma ideia difusa de principio e fim, de partida e chegada, onde sobretudo existe o prazer e mistério da fruição e todo o concreto se dissolve em Cinema. 
O que talvez me falhe em "Road To Nowhere" é Mitchell Haven, o alter-ego do realizador, que não me parece convincente o suficiente para sair do registo just pretending to. Mas como vou ter de ver tudo outra vez...





Adenda: Leio agora no Ipsilon, através de Luís Miguel Oliveira, que Monte Hellman disse  "não basta vê-lo duas vezes". E se há coisa que ele não tem é espírito comercial...

sábado, 23 de abril de 2011

Marika Portman



Já vi muitos renascimentos no cinema. E reciclagens, como de Cary Grant para George Clooney que também reciclou Jimmy Stewart de certeza absoluta. Depois existem casos que intrigam mesmo, feitos de semelhanças absolutas completamente separadas no tempo e geografia. 
Ver Marika Green em "Pick Pocket" (O Carteirista) é quase como ter Natalie Portman nos finais dos anos 50 a ser dirigida por Robert Bresson. Fisicamente não se distinguem, a cara é igual, os olhos são os mesmos, o olhar - penetrante -  é que já não, mas ninguém (nos) olha como Natalie Portman. Mesmo assim, não estivesse Marika Green viva e falar-se ia em reencarnação. Ou será que alguém já perguntou se passou por Israel há trinta anos? 

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Troikados



Ouvia a conversa num café daqui, "mas então os gajos é que têm a guita...". Na televisão a TVI dava os senhores da Troika, palavras da jornalista. Senhores da Troika isto, senhores da Troika aquilo, os senhores da Troika entraram violentamente no nosso vocabulário. E vão se entranhar por muitos e muitos anos. Os senhores da Troika são como a pasta medicinal Couto, andam na boca de toda a gente, é verdade. E também são medicinais com a receita que costumam aplicar, tipo quimioterapia. Senhores da Troika dito assim soa algo salazarento, como se me estivessem a dizer “vêem aí os senhores, bico calado, respeitinho...”. 
Entretanto o homem não se calava, “ouve lá, ouve, os gajos é que têm a guita...”. Isto a propósito do PCP e BE se terem recusado a negociar por uma questão de soberania nacional, dizem, como se a dita soberania nacional não estivesse agora em bolsos alheios. Como se apertar com os senhores da Troika não fosse muito mais útil para nós do que apenas protestar ou clamar vitórias morais. 
Apeteceu-me dizer ao picareta falante que há um senhor da Troika que parece um rei mago e um outro que é mesmo a cara de um daqueles árbitros que rouba tão descaradamente que já nem consegue fingir. Não negociaram, negociassem... 

sábado, 16 de abril de 2011

Ricardo

O que escrevo agora é tão absurdo como a tua morte: devias ter avisado que a gente não deixava. Que te fosses embora assim de surpresa, aos 40 anos. Quando ias dar e ver tanta coisa, aquecer os dias com a tua companhia, por mais distante que fosse, por andares por aí algures, a viver a tua vida, a que tanto tributo prestavas. À tua boa maneira, que subitamente faz tanta falta e que tantos sentem como terrível perda. Foste mesmo embora amigo? Ou andarás noutro ponto da viagem?

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O cavalo de Passos Coelho


"Outra década nisto e podemos exumar o Suetónio, que ao menos já treinou com as biografias de Nero, Galba e Vitélio: não eram mais doidos que os nossos. Nem Calígula, que elevou um cavalo a senador, se lembraria de ir buscar o Fernando Nobre." Luís M. Jorge, aqui. Exagero? Não vejo onde. 

segunda-feira, 11 de abril de 2011

RIP Sidney Lumet



Não conheço todos os filmes de Sidney Lumet, nem pouco mais ou menos. Ainda assim vi “Serpico”, “Dog Day Afternoon”, “Equus”, “The Verdict”, Night Falls on Manhattan” e “Before The Devil Knows You're Dead”, todos a ponto de me encherem as medidas. Não é digno desta lista o fraco e despreocupado “Find Me Guilty”, feito certamente em piloto automático, mas que do pouco que tem ainda vale pelos diálogos, pelo humor e por um Vin Diesel a dar ares de grande actor, o que é qualquer coisa...  
Lumet era dos bons, seus filmes tinham carácter: intensos, intrigantes, incisivos, inteligentes, preocupados. Densos, com ritmo, vertigem, estupendas interpretações de grandes actores, agarrando-nos no enredo, fazendo-nos pensar. Pensar a sério. Creio que viverão por muito e muito tempo. Isto se a humanidade não o(s) desmerecer.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Monte Hellman voltou


Tão ou mais difícil do que termos um novo filme do divino Terrence Malick, é voltarmos a ter um filme do mítico Monte Hellman.
Do pouco que vi de Hellman, a obra-prima"Two Lane Blacktop" está no meu top 10 de sempre, os westerns artesanais com Jack Nicholson "The Shooting" e "Ride In The Wirlwind" estão ali numa caixa em frente a olhar para mim, depois de eu já ter gostado de olhar para deles.
Quentin Tarantino queria-o para realizar "Reservoir Dogs", Vincent Gallo para "Buffalo 66", ripando-o depois descaradamente em "The Brown Bunny". Monte Hellman é dos poucos cineastas americanos a saber despertar o 6º sentido cinéfilo. Mal possa estarei lá sentado.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Irei pelo restolho



Li algures a bela da pergunta "onde estava você no dia 6 de Abril?". Ora eu, apesar desta bronquite e de chatos afazeres profissionais, faço anos hoje. Não os comemorarei agora, fica para amanhã ou depois - e ainda bem porque hoje foi um dia terrível para Portugal. 
Mas já que tenho o dia amaldiçoado, também não resisto ao meu statement: não, não irei  votar Sócrates, de forma alguma, Passos Coelho muito menos, seria fisicamente incapaz. Resta-me pois a esquerda ou a extrema esquerda. Seja. É inseguro? Irei pelo restolho? Pois com toda a certeza. O restolho neste momento é o piso mais fiável...

As pessoas aborrecidas

Desconfio sempre das pessoas aborrecidas. As pessoas aborrecidas aborrecem, e não dão nada mais que o próprio aborrecimento. Não porque não saibam, mas porque não querem. Questões de carácter. De bondade intrínseca. As pessoas aborrecidas são tacanhas. Acreditam na mediocridade. Estão como o mar morto, parado, sem marés, é aquilo e pronto. Ás pessoas aborrecidas tenho de dar rédea curta, muito pouco espaço, para não aborrecer de morte. E poder ficar com o dia arruinado. Infectado de tédio.
Mas como vez não são vezes, há sempre uma vez em que que se me relaxam os músculos e, enfim, retiro as ditas da (tão) necessária distância de segurança. É tiro e queda.  Apanham logo a deixa, as pessoas aborrecidas. E lá se revelam, vá-lá,  em todo o seu extertor: chatas como a potassa. E enquanto passa o interminável tempo em que a chatice se revela em tédio e aborrecimento, penso, mais uma vez - enervado, arrependido, zangado comigo, a dar a razão e valor à tão infalível da intuição - na (tão) necessária distância de segurança, na rédea curta, nas coisas da aprendizagem, em noções essenciais da experiência...

sexta-feira, 1 de abril de 2011

1 de Abril



E caí que nem um patinho

Entretanto existe a Coreia do Norte



Tinha gravado há meses, mas só vi agora - um "Toda a Verdade" sobre a Coreia do Norte. Não sei se viram, o meu irmão diz que já viu alguns no You Tube, e de facto não existe nada melhor para sem violência ou morte se poder ficar em estado de choque. Imagina-se "1984" e é mesmo assim. A cidade não tem transito nem carros e são os autocarros que escoam o povo de casa para o trabalho e vice-versa. Não há outra rotina. Tudo é vigiado, tudo é olhos e ouvidos presentes e obrigatórios. Assassinados, mortos à fome, ninguém deve saber, sob pena de morte que nem sequer constará como coisa, quanto mais como facto. O indivíduo é a perversão, o colectivo a salvação e para unir o conjunto só existe a figura do Grande Líder, o único possível garante de sobrevivência. 
Existe ali uma pizzaria, a única num país com mais de 20 milhões de habitantes, diz que o chefe supremo gosta muito de pizzas e enviou então um chefe para aprender a fazê-las em itália. É só para turistas ou figuras do regime, o comum dos mortais não deve sobrepor-se em questões de gosto, muito menos terá 5€ para pagar uma. Se quer comer tem farináceos, algas, e o que mais houver, e nem sequer interessa que morram por ano 800 mil pessoas à fome. Os pensamentos devem estão todos guardados para o Grande Líder, única garantia contra a perversão do mundo. Não há mais nada além dele, nem sequer morrer. 
Turismo ali existe ao preço das Seycheles, vindo de Operadores Turísticos especializados em pacotes para países em guerras, catástrofes, atentados e epidemias. Vão a Gaza, ao Iraque, ou ao Sudão para testemunhar o sofrimento atroz, faz parte do Pacote, depois há gente que paga e bem. Agora se calhar organizam excursões ao Japão do terramoto e à Líbia, caríssimas e exclusivas, escondidas porque as pessoas têm vergonha, sim, existe uma economia gerada pela infinita tristeza. E dá muito dinheiro. Inclusive para a Coreia do Norte.
Os turistas são franceses, neste caso, comandados por dois guias-vigilantes-polícias nativos, e por um tour leader francês que pouco pode com seu ar de proto-nazi milionário pelas comissões que cobra. Entre os turistas está uma descendente de pai norte-coreano com ar de soberba assim meio mesquinho e um lambe botas a dizer bem de tudo aquilo com cara de personagem de um livro apocalíptico de Houéllebecq. Regra principal, ali ninguém pode passear sozinho, fazer perguntas incómodas, nem sequer tocar ao de leve no equilíbrio maquilhado do regime. O mais leve descuido pode descambar numa detenção de meses, ou em crescendo de uns anitos em trabalhos forçados, ou no limite a tortura e a morte. Não existem acordos de repatriamento com nenhum país do mundo, para eles, os outros países nem deviam existir. Dali, tal como nos Buracos Negros das galáxias, tudo o que entra não sai. É a chamada gravidade absoluta, que de tão pesada até a luz retém e é exactamente isso que se passa na Coreia do Norte, onde a gravidade é outra, mas de onde também nada escapa. 
Imagino 1984, a obra-prima de George Orwell, livro que marcou a minha vida e a de tanta gente. Orwell meteu o totalitarismo dentro do mecanismo literário e ficcional pensando-o até às ultimas consequências, o resultado foi o feito de tornar uma obra de ficção cientifica num tratado de realismo e capacidade de leitura e antecipação de cenários apocalípticos. A Coreia do Norte é "1984", é esse mesmo totalitarismo. É o país das ultimas consequências. 
Embasbacado em frente ao ecrã, fico a saber que a propaganda ensina que o chefe criador do regime, o primeiro grande líder, Kim II-sung é herói militar desde os 12 anos, mentira mesmo assim tão real quanto a vida: quem não acredita nisso entretanto já morreu. E nós, que não fazemos parte dos que acham que Kim II-sung não é herói militar desde os 12 anos, também não existimos. Porque lá dentro nunca existiríamos. E se Obama tentasse ali fazer o mesmo que fez agora na Líbia, e W.Bush no Iraque, pois todos juntos deixaríamos de existir. Kim Jong-il sabe que isso nunca acontecerá em séculos. E em Pyonyang, a mulher polícia sinaleiro do documentário, continuará a marcar um transito sem carros. Isso digo eu aqui, porque para eles os carros existem porque está lá a polícia sinaleiro. E vai daí, o povo a cem metros da dita lá  vai fazendo a sua ridícula e triste ginástica antes de ir apanhar os autocarros para o meio do "caótico" trânsito da cidade do Grande Líder. O duplo pensar dirá que a felicidade suprema é viver no meio do mais pobre dos fascismos igualitários. Não é em vão que alguns livros ensinam que toda a humanidade acaba no totalitarismo sem escape possível.



sexta-feira, 25 de março de 2011

Feel Good Hit Of The Summer




"Sócio, por favor, não é? Pá peço-lhes por favor porque senão pá não é tou concentradissimo, por favor não é?"

quarta-feira, 23 de março de 2011

É o "The Wall" e é pena




Sempre localizei "Animals" - um dos albuns mais estranhos do rock'n'roll - com a recessão económica dos anos 70, entre a ressaca da década anterior e o movimento punk prestes a explodir. "Animals", marca de um rock progressivo já a entrar em caducidade, é também por alguns demasiado subvalorizado - dando de barato que é o patinho feio da discografia dos Pink Floyd  e que foi mal conseguida a pretensa colagem a "Animal Farm" de George Orwell -  mesmo que tenha resultado num produto a puxar para o megalómano, confuso e pretensioso
Miguel Esteves Cardoso, numa daquelas belíssimas crónicas de música que fazia, chegou a apelidar o disco de "esforço tão desesperadamente porcino quanto a capa", desta não me esqueço. Mas megalómano e niilista no seu desespero, "Animals" tem sumo e coisas para dizer. E é hoje muito urgente. Como retrato, como metáfora, como forma de chamar os bois pelos nomes. Hoje "psicopatas" como Bernie Madoff, o outro do Lehmann Brothers, Oliveira e Costa ou o Rendeiro do BPP são decalques do "Pigs" e já tive um chefe que era exactamente "You're nearly a good laugh, almost a joker, with your head down in the pig bin, saying "Keep on digging." Pig stain on your fat chin .You're nearly a laugh, you're nearly a laugh but you're really a cry". 
Muitos empresários, gestores, quadros médios, self-made men, workaholics, cínicos, individualistas e toda uma fauna de stressados entram no preocupante quadro de "Dogs", onde me identifico mais; e a carneirada, a enganada, dependente e inofensiva carneirada, continua e continuará a ser a mesma que é retratada em "Sheep", muito passiva, mansa e candidamente a ser pastoreada, quiçá para o matadouro.
Roger Waters, em vez de repetir o já gasto "The Wall" pela trilionésima vez , faria melhor agora um espectáculo de "Animals". Até podia meter o tal porco voador misturado com as caras dos Thatchers de hoje. No esboço do post tinha os "personagens" e a coisa ficou tão tétrica e de mau gosto que deixo à vossa imaginação. Não resisto é a sugerir para Portugal balões de robalos gigantes, tacos de golfe com bolas de 6%, submarinos insufláveis ou facturas da EDP com dez metros de altura. Esgotaria cinco Estádios, em vez de dois Pavilhões Atlânticos.

sábado, 19 de março de 2011

Woke up this morning...




Johnny "Coca Cola" Lardieri, Mickey "Ciggars" Coppola, Louis "Louie Ha Ha" Attanasio,  Angelo "Quack Quack" Ruggiero,  Vincent "Vinnie Gorgeous" Basciano, Philip "Chicken Man"Testa, ou Bobby "Bad Heart", há nos mafiosi americanos algo que me lembra o bairrismo chunga de Lisboa dos meus tempos de miúdo em que haviam alcunhas para tudo e mais alguma coisa. 
Havia um pobre miúdo a quem chamavam de "Deixa Estar Que Eu Chuto", coxeava muito, e como se não bastasse era sempre lembrado pelo defeito físico e do pouco que jogava à bola. "Deixa Estar Que Eu Chuto" ainda assim era mais elaborado que qualquer um dos cromos acima mencionados, mais que por exemplo o aparentado Bobby "Bad Heart", lembrado no nome pelo pacemaker que usava. Com o "Deixa Estar Que Eu Chuto" haviam outros requintes: "Deixa Estar Que Eu Chuto anda cá; Deixa Estar Que Eu Chuto hoje ficas à baliza; Deixa Estar Que Eu Chuto a Andreia quer namorar contigo; Deixa Estar Que Eu Chuto dá-me uma bolacha; Deixa Estar Que Eu Chuto tás sempre a marrar; Deixa Estar Que Eu Chuto, um bom Natal." Em suma, deixa estar que eu chuto.
Por tudo o que sofreu, o "Deixa Estar Que Eu Chuto" (nunca consegui saber seu verdadeiro nome) merece estar agora melhor que todos os rufias que o maltratavam. É bem provável, até porque mânfios tramam-se sempre. Como Mickey "Ciggars", preso há pouco tempo em Manhatan depois de anos em fuga por ter limpado o sebo precisamente ao "Cola Cola" gangster. E Vinnie "Gourgeous", que não vai poder continuar a sua carreira com a prisão perpétua para o resto da vida numa daquelas prisões de alta segurança. 
Aqui de Lisboa é muito cómodo seguir todos estes enredos e conjunturas, alguns até mais interessantes do que os de "Good Fellas", "Casino", "Donnie Brasco", ou da saga "The Godfather". Filmes todos baseados e copiados da realidade. A série "The Sopranos", por exemplo, é um decalque da saga da família De Cavalcante de New Jersey, com algumas coisas da facção local  da familia Lucchese de Nova Iorque. Depois, temos também a máfia de Chicago com "Casino" e "The Untouchables". 
Quando eu conto estas histórias às pessoas mais próximas, elas torcem o nariz, mas depois adoram os filmes, e quando eu digo que aquilo é tudo verdade, não fazem caso disso.
A verdade é que existe um enxame de historiadores do fenómeno, no Amazon a bibliografia é enormíssima. Parte deles estão em todo o que é documentários no You Tube, resmas: de todas as famílias, de cada família, da vertente sociológica, dos personagens, do papel da polícia, dos bufos, deste caso ou daquele... 
Depois ainda há os especialistas: conheço um de Nova Iorque e outro de Filadélfia, um a falar parece o João Querido Manha, o outro é mais Luís Freitas Lobo. Este ultimo tem-se ocupado ultimamente com a eminente saída de Joseph "Skinny Joe" Merlino  da prisão: se vai desafiar a liderança do boss Joseph "Uncle JoeLigambou se segue antes para a Florida para ganhar tempo e marcar território. Da última vez até se meteu o Facebook ao barulho. É que Joe Merlino tem fama, glamour e é género de herói local. Gangster craque benemérito. A culpa é do entertainment, que criou a marca, o estilo, o glamour. E no meio até nos tenta fazer esquecer que o tipo é um criminoso, um demente, um crápula, um ser indigno de respirar oxigénio fora da cadeia. Mas e se Martin Scorsese pegasse nele?




PS: Na foto Joe Merlino e Joe Ligambi num jogo de baseball entre "good fellas". Digam-me lá se não parece que estamos num episódio dos Sopranos. 

sexta-feira, 18 de março de 2011

Perestroika Sporting




Há tantas razões para o sportinguista votar Bruno de Carvalho. E há José de Pina,  Zé Diogo Quintela em dose dupla, Rogério Casanova em dupla dose...Entretenimento de luxo para ler ao som do desespero de Godinho Lopes a contratar toda a gente enquanto à má fila rouba as ideias do tal Vale e Azevedo de terceira categoria, e os "polícias maus" se assanham o suficiente para ser ele a fazer o papel de polícia bom. Nice jobCunha Vaz. Ou como diria o outro, parabéns à prima...

quinta-feira, 17 de março de 2011

Apocalipse Não


Num lindo e normal dia de sol, igual a tantos outros, no meio da mais trivial das rotinas, sem absolutamente nada  fazer temer o que quer que seja. É neste cenário que acontecem as piores catástrofes. Foi assim no Japão, foi assim em 1755, foi assim no 11 de Setembro de 2001. Desta vez assisto incrédulo e assustado à maior catástrofe do meu tempo de vida, seguramente a maior do planeta desde a 2ª Guerra Mundial. A também maior crise económica da minha vida como que se some num grão de areia quando comparada com o que se passa no Japão. Sim, "a NATUREZA tem essa característica que o homem insiste em não ter em conta: gera com alguma facilidade sequências de eventos catastróficos que fazem falhar todos os nossos sistemas de segurança". Porque antes disso foi a ganância, refira-se. 
Não tinha ainda 8 anos de idade, mas lembro-me bem quando queriam nos anos 80 construir uma central nuclear em Vila Nova de Milfontes. No carro dos meus pais estava colado aquele conhecido autocolante do "Energia Nuclear? Não obrigado", e à entrada da vila havia umas pinturas de protesto que não me recordo o que diziam mas davam logo nas vistas a qualquer pessoa que entrasse no paraíso que era a Milfontes da altura. Não ter ido em frente foi um enorme alívio. E nem é preciso ler este excelente post para perceber porquê. Até acho que agora devia dizer-se "Nuclear? Nunca Mais". Mesmo com todas as vozes autorizadas, competentíssimas e por demais habilitadas a insistirem na racionalidade do nuclear - o custo/benefício, a poupança de energia, a não dependência do petróleo - a verdade é que esta sempre esbarrar com a irracionalidade do ser humano. Não vale a pena. Porque há e haverá sempre aquele dia, em que as pessoas se esquecem, em que debaixo da mesa se manda tudo às malvas, em que o mal só acontece aos outros, em que se pensa no fácil que é ganhar dinheiro com o "impossível" de haver uma desgraça. Foi assim em Chernobyl, foi assim em Fukuyama e será concerteza assim daqui a umas décadas quando tiver tudo esquecido. 

segunda-feira, 14 de março de 2011

Da bloga verde e branca

Esta sim, é a verdadeira crónica das eleições do Sporting. E a mais concisa e bem escrita - com todos os rios de tinta que já se escreveram sobre o assunto. Está lá tudo, não é preciso saber mais nada. 
Quem julga que nos blogues da bola não se escreve maravilhosamente é porque não conheceu ainda o Cacifo do Paulinho (aguentando carradas de asneirada) ou  nunca leu o melhor deles todos: o já extinto Mãos ao Ar, seguramente um dos blogues mais bem escritos de todos os tempos, e não só da blogosfera leonina. Os sacanas sabem...
Das  outras cores não sei nem me interessa, registo apenas que há benfiquistas que gostam de ir ao Cacifo. Não resistem. Devem estar como eu  agora, ansiosos pelo Acto II.

sábado, 5 de março de 2011

Motor de ignição


- "Saber onde se está, para saber onde se vai." Ou pelo menos para haver uma ideia por que raio de trilho se está a ir.

- Lutar, lutar, lutar. Conquistar, defender, manter. Como num jogo. Defender e atacar, atacar e defender. Há gente em guerra que tem de matar para atacar e matar para defender. Aí o melhor que se pode arranjar é uma pausa ligeira. E ainda assim, tinha de os ter, os cigarros.

"You can't beat death, but you can beat death in life"Charles Bukowski, amén. 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Um espelho de 4



Mesmo sobre o fim, nos descontos de uma eliminatória sofrida e de um jogo virado a favor, quatro jogadores do adversário surgem isolados na cara do golo, um deles marca e transforma o impensável. Dizem que foi uma distracção e falha colectiva. Errado. Foi muito mais que isso. Nesta imagem de corar de vergonha qualquer sportinguista, estão mais que aqueles seis jogadores, mais do que os onze até. Mais do que os suplentes, o treinador e demais ajudantes. E está muito para além do erro ou distracção, é uma falha que suplanta a sua própria falta de carácter, tal como aquelas pessoas que subitamente descobrimos que afinal não são tão burras quanto isso, porque não podem, porque é impossível chegar-se a tanto...
Este golo é muito mais que azelhice pura e dura. É um golo espelho. E o espelho partiu-se. E agora só resta começar tudo do nada. Persistir só trará mais cacos. Ou mesmo os quatro defesas dos juniores.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Condomínio Europa



Vi-o ontem pela última vez. Mais a carcaça, que o resto já tinha ido sem ninguém dar por nada, às escondidas. Estava cheio de pressa mas tive de parar, até me ofereci um café para estar mais tempo ali, a ver o resto do Cinema Europa a cair no entulho. Eu e mais umas dezenas de pessoas a olhar para um guindaste a ir contra uma fachada única e familiar, algumas sem saber o que pensar daquilo, assim entre o ofendido e o tem de ser tem muita força. Um filhos da puta veio-me à cabeça, perdoem-me o francês. Recuso-me a entender como é que aquilo não podia ser aproveitado para um teatro, um cinema, as duas coisas, uma sala de concertos, as três coisas - numa zona daquelas cheia de gente, restaurantes, cafés, cervejarias. Um condomínio fechado?
No futuro talvez diga aos meus netos que havia ali um cinema desaproveitado, que a sala era excelente, que vi ali um filme aos 6 anos - o Bamby, se bem me recordo - ou um memorável concerto de Julio Pereira gravado para a televisão. Ou uma gravação do 1,2,3 que foi uma seca descomunal mas que me fez saber do prémio antes de toda a escola. 
Fala-se agora que haverá - haverá? - no piso térreo um centro cultural ou uma mediateca. Uma mediateca tenho de certeza melhor em casa. Uma mediateca é uma daquelas coisas mandadas como quem está a gozar sem se rir enquanto joga as cartas debaixo da mesa.  Uma mediateca é uma daquelas coisas que nos faz perguntar: mas para que é que eu quero uma mediateca? 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Por conta própria



"Somos todos feitos de retalhos, entretecidos tão disformemente que cada elemento e cada momento age por conta própria. E tanta diferença há entre nós e nós mesmos como entre nós e outrem."

 [Montaigne]