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sábado, 12 de outubro de 2013

Estava um dia lindíssimo

Essas explosões sucediam-se como os disparos dos morteiros numa festa de aldeia e produziam-me um efeito estranho porque tinham qualquer coisa de festivo, e no entanto eu sabia que significavam miséria e desespero para os que moravam lá em baixo, nas terras enxutas. Estava um dia lindíssimo, sereno, calmo, o céu sem uma nuvem, e toda a planície de Fondi, verde e próspera, alongando-se até a linha vaporosa do mar, tão bela, assim azul e sorridente. E mais uma vez, ouvindo aqueles estrondos e olhando aquela paisagem, pensei que os homens andam para um lado e a natureza para outro, e quando a natureza desencadeia um temporal de trovões, raios e chuva, muitas vezes os homens são felizes em suas casas, ao passo que quando a natureza sorri e parece querer prometer uma felicidade eterna, os homens se desesperam e desejam a morte.
Alberto Moravia, A Ciociara, Portugália Editora, Lisboa, Trad. José A. Machado  

sexta-feira, 30 de agosto de 2013




Jorge Guillermo Borges era um literato e tinha aspirações intelectuais. "Procurou ser um escritor e fracassou nesse desejo. Escreveu alguns sonetos muito bons", observa o filho. Parece óbvio que a sua própria carreira como autor ficou selada ou recebeu pelo menos um impulso por aquela frustração. Não exprimiu essa vontade por escrito, mas a família interpretou-a como um mandato implícito: o filho devia concretizar o malogrado sonho paterno." No tempo em que era criança, quando lhe sobreveio a cegueira, ficou tacitamente entendido que eu devia cumprir esse destino literário que as circunstâncias negaram a meu pai..." Mas o desejo de se ver realizado no filho tinha uma base e a mãe de Borges defende que aos seis anos o filho disse ao pai que desejava ser escritor. E relembra que por várias vezes, mesmo antes de rabiscar qualquer coisa, estava convencido de que o seria. Imitava o pai nos actos e nos gestos e quando dona Leonor o ouviu recitar poesia inglesa comentou: "Possui a mesma voz".
O pai era um fanático por enciclopédias e consultava-as todos os dias, em especial a Britânica. E o filho fez a mesma coisa. Vários contos e ensaios borgianos têm aí o seu ponto de partida. Não são traduções, simples resumos ou cópias, não, trata-se de recriações literárias. Com o correr do tempo, passou a trabalhá-las como camafeus surpreendentes, lavrados por um prolixo miniaturista. Procedia com liberdade. Condensava, alterava, introduzia histórias em vários planos, alimentava uma intriga e desenlaces inesperados. Anotava a cada passo referências apócrifas. Despistava e brincava. Gostava de causar espanto. 

Os Dois Borges - Vida, sonhos, Enigmas, Volodia Teitelboim, Tradução Serafim Ferreira, Campo das Letras, 2001

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Vala Comum





Cinquenta páginas de prosa com balanço para muito mais, "Vala Comum", de manuel a. domingos, lê-se num tiro. Viagem auto-biográfica entre memórias de um passado e impressões difusas de uma vida em seus múltiplos comprimentos de onda - humor, amargura, ironia, cinismo, sarcasmo, notas mais pueris, dispensáveis ou no mínimo discutíveis - onde tudo parece rodar, qual espiral em torno das obsessões, embirrações, idiossincrasias, contradições, subjectivismos ou superficialidades caras ao autor, temperadas aqui e ali por estórias sumarentas a pedir para ser contadas. Tomadas por uma certa arte do desconcerto

Como é costume dizer: cada um tem aquilo que merece. João César Monteiro disse num dos seus filmes (cito de memória): «não se nasce português». Ora eu não sei se ando a ficar português, mas tenho alternativa? Não sei. É uma das muitas coisas que me atormenta. Mas durmo bem à noite. Se o colchão é bom, claro. Há colchões que são uma boa porcaria. E há pessoas que alugam casas com camas que têm colchões horríveis. É como aqueles anúncios de quartos com janela e a janela, afinal, é o postigo no alto de uma parede. Mas não é isso que me tira o sono. O café é que começa a tirar-me o sono.

E por aí fora, que o assunto não acaba aqui, nem muito menos começou. Pois que ligada e ao mesmo tempo desligada do seu todo, cada frase como que dribla a anterior e parece querer fugir numa longa finta que há de acabar nalgum lado. Claro que é parte de sua sequência lógica, o interessante é que essa mesma sequência vem desse drible desconcertante. Difícil? Sim ou não, largo a bola e pego na improvisação do jazz (ou de algum jazz-rock dos setentas) onde sobre meia dúzia de acordes os excelentes músicos se perdem para se reencontrarem mais à frente, para depois se voltarem a perder, e assim sucessivamente. Como improviso, esta suposta mini auto-biografia serve também como um longo monólogo que, concordo, podia perfeitamente ser levado a cena. É que eloquente quanto baste, dá-se a ler em voz alta. Mesmo em silêncio tem vezes que parece que temos o escritor ali ao nosso lado a contar-nos (das) coisas. Nesse aspecto lembrou-me "Life", a extraordinária auto-biografia de Keith Richards. Puro efeito de ilusão, eu sei, e ainda bem que assim é. Como quando me apeteceu dizer, «Manuel, dá cá mais cinco» 

A adolescência é um território muito estranho. Foi dolente e sem qualquer rasgo de originalidade - em todos os sentidos.
(...)
[sobre António Lobo Antunes] 
Os seus últimos romances são uma cacofonia completa. Aquilo que escreve não lembra ao demónio e não é devido a isso que é grande literatura. São apenas uma cópia manhosa (e com um certo exagero estilístico) do Som e a Fúria de Faulkner! acho que não é tão difícil ver isso, ou é? Ás vezes questiono-me se sou eu que vejo coisas onde elas não existem.
(...)
Existem outras coisas das quais eu não gosto. Por exemplo: não gosto da música rock convertida em jazz ou bossa-nova. Ainda o outro dia ouvi Smells Like Teen Spirit - que é uma música dos Nirvana, cujo título foi inspirado num desodorizante muito popular chamado Teen Spirit - em versão jazz e nem consigo descrever o arrepio que senti na espinha ao ouvir tal coisa. 
(...)
Querem um exemplo: Céline. Mais directo que ele conheço poucos escritores. Talvez um outro: Bukowski. Este é mesmo muito, muito directo. Tão directo que quase ninguém o entende. Tão directo que é bastante ignorado, pois a chamada "crítica" só considera realmente literário aquilo que é praticamente incompreensível. Exemplo: Finnegans Wake. Não me espantava nada que o início do livro fosse utilizado em exorcismos. Porra, aquilo afasta qualquer demónio. 

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Tudo parecia rimar


Embarcar para França no Chicago no princípio de Junho foi como ter de deixar bruscamente um livro que andasse a ler e não tivesse terminado. Ned e a mãe e Mr. Cooper e a senhora letrada consideravelmente mais velha que ele com quem tinha dormido várias vezes muito desconfortavelmente no apartamento de dois pisos que ela tinha em Central Park South, e a sua poesia e os seus amigos pacifistas e as luzes da Marginal tremulamentte reflectidas no rio Charles esbatiam-se no seu espírito como parágrafos de um romance posto de parte sem acabar de ler. Ia um pouco enjoado e um pouco assustado com o barco e a multidão alcoolizada e barulhenta e as lúgubres mulheres da Cruz Vermelha a arrepiarem-se umas às outras com histórias de bebés belgas a assarem no espeto e de oficiais canadianos crucificados e de freiras idosas violadas; sentia a espiral de tensão de um relógio com a corda excessivamente enrolada de tanto imaginar como seriam as coisas por lá.
Bordéus, o rubro Garona, as ruas pastel de casas velhas e altas como telhados de mansarda, o sol e a sombra tão delicadamente azuis e amarelos, os nomes das estações todos tirados de Shakespeare, os romances de capa amarela nas estantes, as garrafas de vinho nas buvettes eram diferentes de tudo o que imaginara. Todo o caminho até Paris os campos vagamente verde-azuis se polvilhavam de escarlates papoilas como os primeiros versos de um poema; o pequeno comboio avançava sacudido em dáctilos; tudo parecia rimar. 


John Dos Passos, 1919, Editorial Presença, tradução João Martins, 2010

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Amigo de Eddie Coyle



Meia folha de folha de rascunho A5, eis o meu marcador acidental para “The Friends of Eddie Coyle” de George V. Higgins. Com a mania de encher os livros do carvão do lápis em sublinhados e notas laterais, achei ali uma boa oportunidade. O livro em si é daqueles que limitado no género*, ainda é para muitos expoente máximo inultrapassável. Novela seminal, choque frontal com tudo o que até 1970 se tinha escrito sobre o mundo do crime, "The Friends of Eddie Coyle" fez-se existir criando novas regras, separando as águas entre um antes e um depois, decretando novos parâmetros, um novo jogo no seu género. 
Cercado de diálogo(s), páginas e páginas inteiras de conversa atrás de conversa, ora em esgrima verbal, ora na descrição enfática e idiossincrática que cada personagem dá à sua versão da realidade, que nada mais é do que sua carta(da) jogada da forma e na hora certa ou incerta. Orientado ou desorientado o leitor - os dois sentidos são aqui simultaneamente possíveis - directo ao cerne dessa unidade que é a cena, tão dentro ao âmago da acção que por vezes se torna vertigem, ignorando se sabemos ou não onde estamos, o que é sua intenção, quiçá exacta, de nos dar a visão crua, o mais imediata possível da acção, obrigando-nos a que nos orientemos o melhor possível nela, que é o que fazem aqueles enigmáticos personagens que nos surgem como completos desconhecidos e apenas podemos ver e avaliar pelo que fazem. É bem real pois esse mútuo jogo da cabra cega, como poderemos comprovar findada a leitura das 182 páginas desta curta novela. Em sua estrutura o efeito joga-se na síntese, secura e eficácia da linguagem - nada ali a mais, o que é feito em grande estilo no puro gozo do linguajar de rua transposto em escrita sumarenta e dona dos seus terrenos, sabendo dessa forma muito bem apanhar-nos a jeito... 

Falei nos diálogos, são à vontade 90% da peça, personagens que falam pelos cotovelos, aparentemente incapazes de se calar, falariam até com uma cadeira, escreve Dennis Lehane na introdução. Ali o que se ouve mais é o calão e conversa de rua - slang. Ou os diferentes dialectos de etnia afro, irlandesa ou italianas - o patois. Trabalhados ao tutano, ao âmago, ao que podem dar de inebriante, como um bom licor, às vezes uma bela aguardente. Foneticamente atractivo, quase musical, com um ritmo e beat esmagadores, as falas de Eddie Coyle inauguraram uma época, o tal antes e depois pois como que encontraram a fonte de onde passou a estar sempre a jorrar água para um nunca mais acabar de canais usados e abusados em livros e no cinema desde o dia em que "The Friends of Eddie Coyle" veio ao mundo. Escritores do género, realizadores e argumentistas, as duas coisas, dramaturgos, demais escritores, leitores anónimos como eu, não acredito que quem tenha lido esta obra-prima não tenha extraído da fonte qualquer coisa. Elmore Leonard considera-o até hoje the best crime novel ever written, também ninguém como ele aproveitou o filão, inebriado de beat e sonoridade suficientes para desatarmos a ler em voz alta ou regressar um dia como àquela tal canção de um disco que gostamos. Sem "The Friends of Eddie Coyle", se calhar nunca conheceríamos um certo Quentin Tarantino (1). Ou o mesmo David Mamet. Ou a série "The Wire(2), pelo seu lado mais profundo e reflexivo, na moralidade para além do bem e do mal, ou na completa ausência de bullshit

Peço outra vez auxílio à excelente introdução de Dennis Lehane, outro auto-assumido devedor: 
«How can a slim book with minimal description and no heroes lay claim to the status of modern masterpiece? Let's start with the title, "The Friends of Eddie Coyle". Eddie Coyle has no friends. Eddie barely has acquaintances. Eddie Coyle is our hopeless, helpless, hopeless Everyman in the Boston criminal underworld of 1970. He might be the worst guide ever, because he is utterly out of his depth. Or. On second thought, maybe he's the best guide ever, because most of the people who swim in this sea are out of their depht.»
+
«Relying on his own experience as an assistant U.S. Attorney, Higgins pulls back the veneer on the real criminal underworld, not the romanticized version readers kept in their heads before "The Friends of Eddie Coyle" was published. There are no noble gangsters swept up in high tragedy in Higgins world and no righteous cops obsessed with justice.»

Só mais algumas notas, tiradas daquele simulacro de folha que já estará algures numa lixeira da zona de Lisboa.

Imaginação prática: cada palavra, cada frase com sua respiração e intencionalidade próprias / A acção é sempre o personagem, o personagem é sempre a acção. Na vida e na morte, no génio e na nabice / Directo à cena, quais capitulo, qual quê, como que a dizer "aguentem que eu trato do resto" / A impressão subjectiva dada de forma objectiva, a objectiva, não necessariamente / Nitidez máxima, até no nevoeiro se conseguem ver as finas formas do fumo / A ambiência não é gratuita, nem é logo dada ao inicio, vem do espaço mas também vem com o tempo: é unidade espaço/tempo / Gigantesco tabuleiro de jogo onde todos vendem cara a derrota, no fio da navalha, quando todos só podem ganhar, o jogo é estupendamente bom /A coragem de se ser rude, de ter força necessária no martelo de nada vale aqui se não combinada com o extremo virtuosismo, rigor e precisão, trabalhos de artista e de artesão.


* - os abrangentes crime novel e thriller servem; o português policial é uma palavra que, não sei...

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1 - “He didn't show up,” Foley said. “I sit there for about half an hour, and I have a cheese sandwich and a cup of cofee. Jesus, I forgot how bad a thing a cheese sandwick is to eat. It's just like eating a piece of linoleum, you know?”
“You got to put mayonnaise on it, “ Waters said. “It's never going to have any flavor at all unless you put some mayonnaise on the bread before you put the cheese on.” I never heard of that,” Foley said. You put it on the outside, do you?”
“Nah,” Waters said, “you put on the inside. You still put the butter on the outside and all. But when the cheese melts, there, it's the mayonnaise that gives it the flavor. You got to use real mayonnaise, though, the stuff with eggs in it. You can use that other stuff that most people use when they say they're using mayonaise, that salad dressing stuff, you can use it. But it isn't going to taste the same. I think that other stuff scalds or something. It doesn't taste right, anyway.”
“They don't go for those refinements up the Rexal's anyway,” Foley said. “What the hell, you go in there and order a cheese sandwich, they got a whole stack of them, already made up, problably since last Wednesday, and they take out one of them goddamed things, big fat piece of this orange cheese in it, and throw on some grease, they pretend it's butter but i sure don't believe that, and then they go and they fuse it all together with a hot press there. My stomach's still trying to break that thing down into something I can live on, just like a big piece, two big pieces, of bathroom tile with some mastic in between. Srved hot. I get sick, you're gonne have to give me a pension.”

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2  - “Good Christ,” Clark said, “you guys want to put the world in jail. This is a young kid. He doesn't have a record. He didn't try to hurt anybody. He's never been in court before in his life: he doesn't have a goddamned traffic ticket, for God's sake.”
“I know that,” the prosecutor said, “ I also know he was driving a car that cost four grand and he's twenty-seven years old and we can't find a place he ever worked. He's a nice, clean-cut gun dealer, is what he is, and if he wanted to, he could problably make half the hoods and forty per cent of the bikies in this district. But he doesn't want to do that. Okay, he's a stand-up guy. Stand-up guys do time.”
“So he's got to talk”, Clark said.
“Nope,” the prosecutor said, “he doesn't have to do a damned thing except decide which he want's to do more, talk, and make somebody important for us, or go down to Danbury there and get rehabilited.”
“That's a pretty tough choice to make,” Clarke said.
“He's a pretty though kid,” the prosecutor said. “Look, we don't need to stand here and play the waltz music. You know what you got: you got a mean kid. He's been lucky up to now; he's never been caught before. And you know what i got, too: i got him fat. You've talked to him. You saw him and you told him it was talk or take the fall, and he told you to go and fuck yourself, or something equally polite. So now you got to try the case, because he won't plead without a deal that put's him on the street and I don't make that kind of deal for machine gun salesmen that don't want to give me anything. So we try this one, and it'll take two days or so, and he'll get convicted. Then the boss'll tell me say three, or maybe five, and the judge'll give him two, or maybe three, and you'll appeal, maybe, and some time around Washinghton's Birthday he'll surrender to the marshall's and go down to Danbury for a while. Hell, he'll be out in a year, year and a half. It isn't as though he was up against a twenty-year minimum mandatory.”
“And in another year or so,” Clark said, “he'll be in again, here or somewhere else, and i'll be talking to some other bastard, or maybe even you again, and we'll try another one and he'll go away again,. Is there any end for this shit? Does anything ever change in this racket?”
“Hey Foss,” the prosecutor said, taking Clark by the arm, “of course ir changes. Don't take it so hard. Some of us die, the rest of us get older, new guys come along, old guys disappear. It changes every day.”
“It's hard to notice, though,” Clark said.“ It is,” the prosecutor said, “it certainly is.”

sábado, 6 de abril de 2013

Dalton Trevisan




Via Tempo Contado e Antologia do Esquecimento fiquei com o escritor fisgado. Coincidiu com a atribuição do Prémio Camões 2012. Pouco depois, não me recordo em que morada , li de uma promoção de livros de Dalton Trevisan no meu bairro, na "minha" livraria, a Livraria Ler a quem sempre dou prioridade. O preço era de ir a correr: 1 euro. Lá constantei que não era um, mas dois euros e meio. Mas não por um livro de contos mas dois: o "Crimes de Paixão"(1978) e o "Ah, é?"(1994). Quis a sorte que um amigo me oferecesse pouco depois o "Cemitério de Elefantes"(1964), outra pechincha: três euros e meio... Juro que é um dos melhores livros de contos que se pode ler em vida. Exemplos:

Bento mastigava a raiva no prato de feijão. Envelhece, ambos intransigentes no seu rancor, o ancião lépido aos setenta anos e José, bigode grisalho, na flor dos quarenta. Tão  diversas, são todas iguais nos olhos que enchem a cara miudinha - o olho aflito do adulto. (pag.35) 

A fumaça branca na sua boquinha pintada trazia até ali quente aconchego da cama. Os cães gemiam e arrastavam a corrente, nem a voz da dona os aquietava. (pag.  46) 

Mil promessas no diário: Não fumar mais que três cigarros por dia. Copia pensamento na revista: O amor é sonho nebuloso. (p.79) 


No cartaz a fotografia colorida de Elza, quase nua: Estrela do bailado afro-brasileiro! Ao batuque do tambor entre as piadinhas cruéis da canalha, saracoteava pobre imitação de hula-hula. (p.87)

No silêncio o bzzz dos pernilongos assinala o posto de cada um, assombrados com o mistério da noite, o farol piscando no alto do morro.(…) O vencedor descasca o ingá, chupa de olho guloso a fava adocicada. Jamais correu sangue no cemitério, a faquinha na cinta é para descamar peixe. E, aos brigões, incapazes de se moverem, basta xingarem-se à distância. (p.93)





Por vezes cómica, outras vezes melancólica, frequentemente nostálgica, esta prosa tem o mérito supremo de respeitar a vida na sua essência temperamental. O mais estranho é que Dalton Trevisan tem a capacidade de nos desenfastiar da realidade mostrando-nos a realidade. (...)
Compreendemos que a rua é a casa do contista, os episódios desenrolam-se a partir da relação entre os elementos que a compõem revelando, por vezes em meros pormenores na acção dos personagens, que noutras circunstâncias dissipar-se-iam e passariam despercebidos, a matéria com que se cozinha a humanidade.

Dalton Trevisan não dá entrevistas nem se deixa fotografar desde 1972. É um desconhecido conhecido, anónimo à sua maneira. Quem o ler seguindo quem verdadeiramente sabe não terá dificuldade em compreender o porquê de tanto esconderijo. Basta dar com a riqueza das histórias, dos personagens, das situações que tão bem retratam o viver no seu  tanto de estranho, inusitado, aleatório, caótico. Sabemos que a realidade supera a ficção, e Dalton Trevisan parece ser o dono da chave, a esponja que tudo capta. Mas com uma condição: a de ninguém o ver, respeito, ele está a trabalhar, e é um feiticeiro, não quebremos o feitiço. E é um caçador, não pode ser visto pelas presas em seu habitat, lugares onde ele sabe encontrar os espaços com os olhos fechados.... Para os amigos, conhecidos e mesmo desconhecidos, o Dalton anda ou andará por aí, achá-lo é que é complicado mas também não é assim tão difícil... Sempre irá às suas duas livrarias habituais, ao Mercado (de Curitíba), transitando um pouco por todo o lado da cidade e arredores. Vegetariano plena em forma aos 87 anos de idade, Trévisan é homem lido e tido em literatura mas não só, esponja que é lê os jornais todos, é cinéfilo inveterado. Depois no escrever é absoluto perfeccionista, buscando a palavra certeira como o único dos tiros possíveis, no que é preciso inovar, ser pioneiro, procurando a síntese total, potenciando a palavra ao máximo reduzindo as palavras ao mínimo, e nem uma vírgula a mais. Nunca está perfeito. Nunca. A náusea é tanta que toda a obra é constantemente reeditada enquanto se vão construindo novos edifícios, novas estruturas, contam-se histórias de edições antigas que comprou ao leitor sortudo e desprevenindo oferendo a (boa) nova. Claro que o contemplado não pode imaginar o que o contempla. 


* - Recomendo vivamente também os posts do Âncoras e Nefelibatas à volta do escritor e da sua Curitíba, bem como o artigo de Alexandra Lucas Coelho. Ou este documentário adoçante.


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A liturgia deve ser entoada numa língua misteriosa


Ao menos a guerra, como o racismo, proporciona escolhas morais claras. Mesmo hoje, a maioria sabe o que pensa da acção militar ou do preconceito racial. Mas no palco da política económica, os cidadãos das democracias actuais aprenderam a ser demasiado modestos. Fomos avisados de que isso são assuntos para capitalistas: que a economia e as suas implicações políticas estão muito para além do entendimento do homem ou mulher comuns – um ponto de vista reforçado pela linguagem cada vez mais obscura e matemática da disciplina.
É improvável que muitos “leigos” questionem nessas matérias o ministro das finanças, on secretário do Tesouro ou os seus conselheiros especialistas. Se o fizessem, dir-lhes iam – à maneira de um padre medieval a aconselhar o seu rebanho – que isso são questões com as quais não precisam de se preocupar. A liturgia deve ser entoada numa língua misteriosa, só acessível aos iniciados. Para todos os demais, basta a fé.


Tony Judt, Um Tratado Sobre Os Nossos Actuais Descontentamentos, Edições 70 (2010)

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Nem com o sol-posto




Os mitos ganham raízes fundas. Escrevas o que escreveres, haverá sempre alguém pronto a ousar as interpretações mais descabeladas, a encontrar códigos ocultos na letra. É a mesma lógica das teorias de conspiração. Sicrano morreu. Oh, meu Deus! De certeza que há um culpado. Quando o gajo caiu para o lado sozinho. A verdadeira seiva de uma boa teoria da conspiração está justamente no facto de ser impossível descobrir a verdade; é a falta de provas que a mantem fresca. Quem é que pode saber se eu fiz realmente uma transfusão total de sangue? Que provas é que podem apoiar essa tese? Ou, sendo ela falsa, quantos desmentidos meus é que a conseguirão deitar por terra? Zero, no primeiro caso; nem mil no segundo. 
(...)
Dirigia-me á Suiça, para uma desintoxicação na clínica, e tive de fazer escala em Heathrow. Mais uma vez, lá veio o batalhão da prostituição jornalística: «Keith, só uma pergunta...»Ao que lhes respondi: «Foda-se, calem-se! Vou mudar de sangue.» Zás, mais nada. E entro no avião. Depois disso, parece que a história passou a fazer parte das Sagradas Escrituras. Só disse aquilo para desnortear os gajos. Mas da fama nunca mais me livrei. 
(...)
A tua imagem, a tua persona, como lhe costumavam chamar, é uma espécie de grilhão. As pessoas ainda me julgam um pobre de um agarrado, apesar de já ter deixado a droga há trinta anos! A tua imagem projecta uma longa sombra que não desaparece nem com o sol-posto.


Keith Richards (com James Fox), "Life" (2010), Tradução José Luís Costa, Theoria (2011) 


sexta-feira, 8 de junho de 2012

Salut, John Fante


"A cozinha. La cucina. A pátria de uma verdadeira mãe, a cave quente da bruxa boa, bem no fundo das terras ermas da solidão com potes de suaves porções a borbulhar ao lume. Uma caverna de ervas mágicas, rosmadinho, tomilho, salva e oregãos, que devolvem o juízo aos lunáticos, paz aos atormentados, alegria aos desgraçados. Todo um mundo numa divisão: por altar a banca da cozinha, por círculo mágico a toalha do xadrez onde comem as crianças, as crianças já velhas, de volta agora ao princípio de tudo, com o sabor do leite da mãe ainda presente nas suas recordações, com o aroma das narinas e os olhos a brilhar. Um mundo perverso recua lá fora enquanto a velha bruxa recolhe a ninhadas do alcance dos lobos. "

"Depois aconteceu. Numa noite em que a chuva batia no telhado da cozinha, um grande espírito entrou para sempre na minha vida. Tinha o livro nas mãos e tremia enquanto ele me falava do Homem e do mundo, do amor e da sabedoria, da dor e da culpa e eu soube, naquela altura, que nunca mais seria o mesmo. O espírito chamava-se Fyodor Mikhaylovich Dostoyevsky. Ele percebia mais de pais e filhos do que qualquer outra pessoa do mundo, e de irmãos e irmãs, padres e vagabundos, culpa e inocência. O Dostoyesky mudou-me. O Idiota, Os Possessos, Os Irmãos Karamazov, O Jogador. Virou-me do avesso. Descobri que podia respirar e ver horizontes até então invisíveis. O ódio que eu sentia pelo meu pai derreteu. Eu amava o meu pai, aquele pobre, sofredor, um destroço assombrado. E amava a minha mãe também. E todo o resto da família."

John Fante, "A Confraria do Vinho", (1977), Tradução de Luís Ruivo , Teorema, Junho 2007 

terça-feira, 5 de junho de 2012

A basement kind of guy




There is a muse. He lives in the ground. He’s a basement kind of guy. You have to descend to his level, and once you get down there you have to furnish an apartment for him to live in. You have to do all the grunt labor, in other words, while the muse sits and smokes cigars and admires his bowling trophies and pretends to ignore you. Do you think it’s fair? I think it’s fair. He may not be much to look at, that muse-guy, and he may not be much of a conversationalist, but he’s got inspiration. It’s right that you should do all the work and burn all the mid-night oil, because the guy with the cigar and the little wings has got a bag of magic. There’s stuff in there that can change your life. 

Stephen King, “On Writing”

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Bacalhau com batatas



São livros estáticos, com diálogos em que se repete mil vezes a mesma ideia, se repisa uma questão como fazem os bêbedos. Entretanto, qualquer coisa como uma neblina se vai erguendo da monotonia. E aí atinge-se o que Pessoa visava quando do "sino" da sua "aldeia" dizia que a "primeira pancada" tinha o som de "repetida". É o efeito longínquo da dolência, da balada. Em todo o caso, a neblina leva tempo a erguer-se. Definitivamente, Hemingway era bastante ignorante e de inteligência escassa. Os seus livros só podem agradar inteiramente aos que em cultura e inteligência nos estão aquém ou muito além da média. Estes últimos gostam, como o ricaço gourmet gostava de um prato de bacalhau com batatas. Por desfastio. 

Vergílio Ferreira, Conta-Corrente 1Livraria Bertrand, 1980, p. 289.

Sempre achei Hemingway um chato, e tenho os romances quase todos dele, que me ficaram do meu avô. Dei uma oportunidade a cada um, até mais do que uma, larguei-os a todos. São a meu ver romances frágeis, deslumbram-se demasiado consigo próprios, com tanta graciosidade, engenho, talento e virtuosismo, falta-lhes vigor, verdade, vida, osso e músculo - o que é curioso numa figura como Ernest Hemingway, homem de experiências e virilidades. 
Com efeito, os contos que conheço de Hemingway são excelentes. Ali onde tudo se joga no poder de síntese e não é dado espaço a "poses", leio um escritor mais a sério, a valer, dos muito bons. Por exemplo, no assombroso "Os Assassinos" ("The Killers" no original), a tal neblina fica no final aberto a pender para o trágico - é uma neblina mistério, que nos deixa intrigados sem que nos apeteça passar ao conto seguinte. Nos romances, a neblina é outra, chata como a potassa. Mas ah e tal, faz parte do cânone...
Obrigado Vergílio Ferreira, ao menos sei que o problema não é só meu.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Mailer surfava as ondas gigantes



"What ruins most writers of talent is that they don't get enough experience, so their novels tend to develop a certain paranoid perfection.
For example, how much of the words of the history that's made around us is conspiracy, how much is simple fuckups? You have to know the world to get some idea of that."

"You can't change a single word. The best short stories are built on this premise."

"Some of my best ideas come because i haven't fixed my novel's future in concrete. Once you know your end, it's disastrous to get a new idea."

"The act of writing is a mistery, and the more you labor at it, the more you become aware after a lifetime of such activity that is not answers which are being offered so much as a greater appreciation of the literary mysteries."

"Nothing lifts our horizons like a piece of unexpected luck or the generosity of the gods."



Norman MailerThe Spooky Art - Some Thoughts on Writing 
(Random House / New York, 2003)

domingo, 14 de agosto de 2011

Literatura


A literatura é, e deve ser, um veneno ministrado sabiamente; uma arte de prestidigitador, capaz de, com elegância ou com violência, levantar um sujeito acima do chão, ou tirar-lhe, como quem tira um tapete, o chão debaixo dos seus pés; e a literatura não tem obrigação alguma de conservar o sujeito no ar, em qualquer dos casos: a intencionalidade da literatura consiste mesmo em suspender a acção mágica e em deixá-lo cair, perplexo e perdido, de quanto mais alto melhor.
(...)
Só por si, o hábito da leitura não significa um conhecimento ou reconhecimento da literatura como tal. Mas, ainda que esse reconhecimento se processe em muitos leitores, daí não resulta que eles sintam necessidade de se situar, correlacionar, comparar, historiar o que estimam, que os fira o apetite de comunicarem a outros as observações que fizeram, ou que a literatura ocupe, em suas vidas, um lugar preponderante, absorvente, que seja ela o que dá sentido e estrutura a essas vidas. 
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A literatura não pode ser ensinada. Ensinar seja o que for é apresentar um instrumental adequado e explicar a maneira de uma pessoa tirar proveito dele.
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Há que amar a literatura. Sabemos bem que o amor pode ser fugaz, intermitente, inconstante, frágil, imenso, ocasional, calculado, uma paixão subita, uma paciente conquista. Amando-a, porém, é impossível não querer conhecê-la em toda a parte e em todos os tempos, em extensão e em profundidade, é impossível não querer estudá-la, para transmitir e comunicar aos outros a fascinação que ela exerce sobre nós; é impossível não querer vivê-la, gratuitamente e como agente,que ela é, de tudo o que constantemente se pretende que ela seja e de tudo o que ela constantemente ultrapassa em si mesma e em nós.



Jorge de Sena in O Reino da Estupidez-I

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Ler a Ler


“Como entre bancos e clientes, a relação entre autor e leitor é uma relação de confiança: todo o edifício se desmorona no momento em que uma pessoa coloca a hipótese de aquilo ser tudo um enorme embuste, e de a gerência saber entoar a cantiguinha da tabuada, mas não saber fazer as contas.”

Rogério Casanova


“A narração e o enredo são raros em Portugal, porque implicam a colocação das personagens num espaço concreto, num cenário social, cultural e político. Ou seja o enredo implica um certo retrato da realidade. E esse é precisamente o problema: a ficção portuguesa tem alergia á realidade portuguesa. É como se os portugueses fossem indignos de aparecer na prosa supina dos nossos oráculos literários. Lemos romances portugueses, mas não vemos lá dentro os portugueses, não sentimos lá dentro o cheiro e o pó do Portugal de hoje ou dos Portugais do passado.”

Henrique Raposo


Os dois artigos onde se encontram as frases acima citadas talvez valham os 5€ da revista, Rogério Casanova brilhante a arrasar Jack Kerouac e Henrique Raposo a maravilhar-se tão bem com os livros de Rentes de Carvalho. Passando isso não há ali nada que verdadeiramente entusiasme, que nos leve nalguma direcção, que tente ao menos justificar os mil escudos da moeda antiga. Fica-se com a ideia que faltam craques á revista, mas a verdade é que há lá uns quantos que parecem estar em piloto automático a fazer um número que fazem melhor cá fora. Aproveitando a deixa futebolística, esta LER parece um bocado Casanova e mais 10. Tem meses. O mês passado, por exemplo, foi muito melhor que este.