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quinta-feira, 21 de novembro de 2019

RETRATO A PARTIR DE BOLDINI



O auricular dá-nos a história do movimento, não o movimento da história. O contexto é sempre importante, mas não é o mais importante: ver é mais importante que contextualizar, e antes admirar que presumir. E o verdadeiro retratista é narrador, escritor, poeta... Trabalha o  texto no retrato, acerca-lhe o poema. Do que não se consegue até ao que não se quer: ver. 



sexta-feira, 26 de abril de 2019

Louvor a IAGO ASPAS



Bilbau, 7 de Abril de 2019

O dia de anos do meu irmão podia ser resumido a Iago Aspas a triunfar numa televisão silenciosa num hotel de Bilbau. Está nada mau. A chuva e os deuses concordam. Chuva abençoada em Vigo, chuva abençoada lá fora, na rua, no rico País Vasco,  onde por mais que chova nada parece inundar-se. Mais por ser terra rija, de raça humana batida das montanhas, forjada do ferro depois da purga dos anos 80, o que daria outro longo texto, ou tanto melhor como os documentários no You Tube ou no sítio da RTVE, e deve-me estar a falta alguma coisa, ou no grande livro de Fernando Aramburu, ou por outra, naquele sujeito punk que apanhei logo à saída da boca do metro, na primeira vez que entrei em Bilbau, vinha eu de Amorebieta, a dar com ele mais alto que eu, para aí metro e noventa, música nos auscultadores e para quem o ouvisse gritar na rua, o refrão era: «Euskal Herria Libertaaaaad!»
Mas passemos a liberdade para a Galiza, directo aos maravilhosos pés de Iago Aspas, combinando com o seu espírito, sacrifício, generosidade, liderança, genialidade. Mesmo na chuva abençoada desta mesma tarde nos Balaídos, chuva abençoada. O penalti ao início da segunda parte – e nem foi preciso expulsar o guarda-redes adversário. A vitória, as palmas que não podiam acabar. Sou verde e branco de alma, coração e sangue, sportinguista de tudo, mas suspeito também que o meu carinho ao Celta traz um suplemento de raíz ancestral. Logo o amor à Galiza, pedido imensas desculpas à minha querida Corunha, tenho dúvidas que os do Celta sejam só tidos como os portugueses por estarem tão perto da fronteira. Para mim o Celta é efectivamente "o clube" que representa a Galiza. Pelo menos é o clube mais universalmente genuinamente galego. Ponto.  Mas não nos percamos: Iago Aspas. Iago Aspas é o homem. Da terra: Moaña. Frente a Vigo e aos Balaídos. Passagens em Liverpool e Sevilla e em nenhuma vingou, em nenhuma singrou, Steven Gerrard chegou a dizer que Aspas nunca trunfaria ao mais alto nível. Aspas? Falamos de um dos três melhores jogadores de Espanha, possivelmente o melhor jogador da história do Celta, talvez  o melhor jogador da história da Galiza. Só o mês passado, regressado de lesão, foi considerado o melhor futebolista de todas as ligas europeias. Se perguntarem a alguém como é que Aspas não está agora a disputar uma champions ou uma bola de ouro, como é que não triunfou fora do seu povo, falarão da morriña, morriña é a versão galega da saudade. «Pobriño, era a morriña», disse-me alguém daqui que percebe tanto de bola como eu de capoeira. Pobriño?É unânime qualquer comentador deste lado da fronteira dizer que Aspas consegue ter mais peso no onze do Celta que Messi no FC Barcelona. Ninguém tem argumentos que desmintam que não fosse aquela lesão de meses – que tanto ajudou a despedir Miguel Cardoso, diga-se – hoje o Celta de Vigo estaria a lutar pelas competições europeias em vez de andar com crises de ansiedade (e sobretudo de confiança) a contar o pontinho do salve-se quem puder, respirando fundo, a fundo, escalando a rocha da montanha,  desesperado a ver se chega... sobretudo se não escorrega. 
Podia ser pior, se esta lesão persistisse a época inteira, o mais provável era que este Celta já estivesse na segunda. Morriñas à parte, também não conheço nome mais céltico-guerreiro que Iago Aspas. Ele que não vai por menos quando diz que joga no clube onde sempre quis jogar. Traz o valor da terra. Mostra o que a terra vale. Simples, humilde, acessível, que genuinamente quer apenas ser mais um na comunidade e dali aportar o melhor que pode e sabe das suas qualidades. Chamam-lhe o génio de Moaña, o mago de Moaña e quando o observamos com mais atenção vemos o puro talento com o espírito de entreajuda. A generosidade com a eficiência. Querem o melhor do povo galego? Pensem em Iago Aspas. Querem vê-lo? Andará pela sua zona, sobretudo em Moaña, a sua terra, onde tão justamente já há uma placa na casa onde nasceu.  Com diz na sua mais recente entrevista, a Sara Carbonero: «Soy un ganador y no me gusta perder. Fuera, como vivo en mi pueblo, me abstraigo de la ciudad, Vigo. El que me ve en mi pueblo me ve en el supermercado, en la farmacia o en el bar cenando en la mesa de al lado; lo ven más normal. Me tira bastante mi tierra. En mi pueblo, siempre me he sentido muy a gusto, conozco a casi todo el mundo», ele que a semana passada renovou contrato até 2023: «He echado muchos años aquí, todas mis raíces en este club, desde los 8 años, he tenido dos experiencias fuera que no me han ido muy bien. Ha sido el paso definitivo para ver que este es mi lugar, mi sitio, estoy con mi familia, con mis amigos». 



terça-feira, 2 de outubro de 2018

Helena Almeida - Dentro de mim - Mecânica Quântica





Aqui a simplicidade 
Exprime a mecânica quântica
Só por si demasiado complexa para nomear
A palavra simples
Nossa redenção pode ficar ao alcance de um simples golpe de asa
Cuidando que um golpe de asa não é um golpe com a asa
Conseguindo-o em movimento, mais que uma transcendência,
É o alcance da Segunda Natureza
Chega sempre a alguma parte, a algum lugar
Lugar que é lugar 
Suspende o outro
Sobrepõe-se, é o mesmo.







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A exposição, derradeira, pode ser vista em Madrid, na Galeria Helga de Alvear




segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Helena Almeida - Dentro de mim - A Chuva





Os pés da chuva
Preta branca cinza
Vestida de viúva
Aos quatro elementos
Mas o brilho do espaço
É o reflexo da água
Sobre a terra
Já sabemos que o ar é frio
E que o fogo aqui é a matéria da restituição
Tudo o que deve perdurar
Na memória de um fotograma
À comoção de um Inverno
Da cidade a cada dia mais árida
Pathos cinematográfico
Pictórico além-carácter
A molécula ao pormenor
O microscópio para captar
O que no entanto esta lá
Lente medida ao respeito do traço
Da chuva que nos marca
A memória liquida





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A última exposição de Helena Almeida, a derradeira, pode ser vista em Madrid na Galeria Helga de Alvear.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

123.


TIO

Nasceu em Lisboa
Voltou para Guimarães
Aos dezoito foi para Paris
A vida em Paris
Pai de Angola
Morreu o ano passado
A vida em Paris
Trolha até conduzir um táxi
Até abrir uma empresa de motoristas
Até começarem os atentados 
Somando à crise, o Uber, a mulher em casa
Dois filhos, a mais velha já no terceiro ano da universidade
O desemprego
Agora trabalha aqui, café português, um outro ao lado do hospital
Está cá a família da mulher
Tratam-no por tio. Afinal é tio, y e es un buen tío
Em Portugal seria o Alex
Portugal já não é o que era.


sábado, 18 de agosto de 2018

TANTO QUANTO SE DIZ TOLEDO SE GRITA PELO GREGO


 

Padre nuestro,
Que estás en la Tierra,
Señor Don Quijote…

Rubén Darío

O fantasma de El Greco a cada esquina, as camadas históricas, quais eras geológicas combinadas numa sinfonia de tempos, entre os quais o da capital de um império. Dos romanos à capital visigótica, dos mouros sob o domínio de Córdoba aos reis católicos e à projecção da gesta marítima via Sevilha. O Islão, os judeus e os cristãos-novos. Toledo carrega com os tempos e hoje não nega nada. Os espelhos de espadas, a tela de névoas, a poeira da história, por detrás da cortina, o olhar de El Greco a beber-lhe a essência, assombrando pelo génio, tanto que quando se diz Toledo se grita El Greco. Toledo, lugar do ferro e do aço onde se engendra a espada, ande-se pelas ruas, cercadas de sabres, cada arma a querer declarar a sua individualidade, a poder dizer que é (de) alguém, claro que das verdadeiras chegam segredos desde os romanos condensados nos templários até ao apogeu do império quando Toledo ainda era a capital. Pensar que o Tejo a unia a Lisboa, como dos barcos a sair de Sevilha e Cádiz vinham os estudantes de Sagres, que esse verdadeiro sabre que vem da catana portuguesa associado pelo mundo as Japão tem no meio da península um outro lugar de desconhecidos segredos. E a boa velha que Miguel de Cervantes era visita da casa, tomando parte das Rotas de Dom Quixote. Era esta a Espanha do inventor do seu idioma. 






quinta-feira, 16 de agosto de 2018

116.



ZAFRA


O sol dispõe as ruas pelas casas de dois andares
Algumas de um 
Todas caiadas de branco
Como no Alentejo
Aqui a paz é a mesma 
Quando não é interrompida pela eloquência espanhola
Mesmo assim, na Estremadura espanhola o porte é o mesmo
A mesma recta serenidade
Uma ética de paz com trabalho
De pão com descanso 
E o amarelo do campo
Porque é que o Alentejo não tem também uma bandeira verde? 
As anedotas, o vinho, o queijo de Serpa, a açorda, as migas
Os montes, o turismo rural, a costa alentejana
As estradas até Monchique que são de morrer
As aldeias com a maior taxa de suicídio
É preciso ir até Silves,
Para ouvir era uma vez um tempo, ou até Mértola
É preciso ir até Mértola
Dizer que também somos Mouros
Porque o azul do sul é cor da areia
E estende o mar até Marrocos. 


terça-feira, 14 de agosto de 2018

114.


ONDE ANDARÃO TODOS AGORA?

À saída alguns becos metem medo
O que vale é que já te mostraram Vigo antes 
Ida e volta entre Balaídos e o casco histórico
Aqui chamam costas às subidas 
Claro que pensaste no mar com o suor quente no teu corpo
Estamos no Ano de Zeus na Tempestade
E há um miradouro a ver de tudo
A 1906 é uma cerveja óptima para conciliar 
Dois irmãos que nunca se deram
Lobos de alcateias distintas
Criados em redor de colheitas 
A única hipótese é esquecer as cercas
Onde andarão teus pais agora
Entre nós havia gente que esteve
Em Roma no tempo dos títeres
Ensaiando odes metálicas.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Nocturno Alentejano




 


Tirado pelo telemóvel, boas luas cheias atrás, certamente em noite de lua nova.



sábado, 23 de junho de 2018

sábado, 12 de maio de 2018

110.




PORTUGUESE THREAT


Não se repete este quadro
Três horas ou nem tanto
Em Madrid
Subir da Cibeles ao Congresso dos Deputados
A Salamanca
A praça das cervejarias
Cada uma mais autêntica 
Graciosa
Entrei na terceira
O empregado de balcão era dos puros 
Versão madrilena do Albano da Bota Velha 
Só que mais alto, firme, decidido
Pode ser um bocadilllo de tortilla - e que tortilha!
Com pimento vermelho
Picante
Acompanhando a cerveja, uma caneca
A ouvir dois sotaques americanos
Um era guia turístico 
À beira da reforma, já vivera
Em Paris muitos anos
Conhecia Madrid de umas dezenas 
De vezes e Lisboa também 
Dizia que em Portugal todos falam inglês
O outro não faço ideia da profissão, mas sempre
Opinava que Portugal é complicado
Com tanto excesso de Esquerda
Pensei logo nessa famosa capa da Time de Agosto de 75: Red Threat in Portugal
O guia, porém, extirpou-lhe as ânsias - calma 
Agora já não é assim 
A Europa não deixa
Entretanto de frente
Ao balcão um enorme espelho irlandês com a ponte de Saint Patrick
Perguntou então ao Albano madrileno se podia tirar uma foto, era para a filha que tem
Um bar em Nova Iorque
Nunca havia visto a ponte assim dessa maneira - pretty cool
Então o guia achou que devia saber se estava a gostar de Madrid
Oh yeah, Madrid's beautiful, tinha chegado ontem
E já estava a ver coisas raras
O guia então debitou um bla bla bla 
Só percebi aeroporto de Filadélfia 
Estaria na hora do Museu
Do Prado
De pedir a conta
De começar o trabalho. 

sábado, 24 de março de 2018

108.


Máfia russa
Árabes agentes imobiliários
Mulheres com tusa
Restaurantes irados
5 a cada 500
Nesta Andaluzia de três casas
Atrás da montanha
Tudo é passadeira
Jóias iates ventures resort
Areias exclusivas
Mergulhos privados
Petróleos que se adiantam com um sorriso
A Espanha.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

103.


[Mesquita-Catedral, Córdova, 2018]

Não fosse Sevilha e Granada a servirem de filtro e Córdova como existe já não existia. Ali, como em nenhum outro lugar, nem mesmo Granada, se sente o Al Andalus como presente dos tempos. Tem ruas e recantos onde tudo se mantém intacto, onde se fizermos acertos é como se uma civilização inteira tivesse ido dali embora a semana passada. É como um carimbo que nos marca ainda (um) fresco de um apogeu. Muito mais urgente e importante desde que o fanatismo destruiu Palmira, ou Aleppo. Depois de todas as mesquitas que se fizeram igrejas ou catedrais como a de Sevilha. Ou catedrais que se fizeram mesquitas como as de Istambul. Tal como refere o excelente Luis Récio Mateo, lendário guia da Mesquita-Catedral: "Córdoba es la continuación de Damasco". Quem somos nós para o negar. Ou como contradizê-lo quando diz que é aquele o último bastião da paz e coabitação entre as duas mais conflituosas religiões da Terra. Verdade é que Córdoba é um centro de generosidade que grava intacta sua memória, que mostra orgulhosa seu admirável instinto de conservação, capaz de um contínuo cuidado com suas mais fundas raízes. Só mesmo Córdova na mediterrânea Europa para encontramos esse fascínio que encontrou o Islão em Bizâncio sem neutralizar o românico esplendor. Viramos o disco ao contrário, sabendo que fellahmenghu quer dizer um poeta a cantar e a verdade é que os tablaos não pararam de crescer. Continuem pois os Estados Unidos a fazer filas de três horas para o Alhambra. É da maneira que podemos entrar pela Mesquita-Catedral quando nos der na gana. Pelo menos até que venha o papa.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

102.


Há esse Estádio na Pedreira de Braga, arquitectado por Souto Moura
Pressente no futuro além da cidade 
Dirige-se de um passado cantábrico
Podemos ver bem detrás desse fotograma
Um corpo habita sua mecânica
A cada milímetro, milénio 
assalta a grama. 
Pode ir de Vertov a Brésson 
Philip K. Dick
Rima a Edgar Pêra
No que entretanto é Covadonga. 

101.



Estádio Municipal de Braga (ou Estádio AXA, se quiserem), 2017

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

99.



NOTAS A PARTIR DE 82 RETRATOS DE DAVID HOCKNEY


A luz de Los Angeles de frente para. A ponta do pincel. Cada 
Toque particular apanhado à primeira 
Diz sempre a luz amiga
E as cores alegres
Claro que o auricular da exposição se limita ao jornalismo
Generaliza o bem, explica como se fosse tudo
Sem dizer nada sobre o que realmente é
Como em cor Kockney respira
A afinidade ou esse preciso onde nasce a cor afecto 
Ao esplêndido o momento azul solarizado
Eléctrico onde não há como nos queimarmos
Ou como se capta a luz do negativo preciso 
Pelo espontâneo do nó mesmo desprendido 
Da leveza com que se recebe
Para nos podermos cristalizar nesse grande afago: o abraço à mistura.