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segunda-feira, 5 de agosto de 2019

DON WINSLOW, THE POWER OF THE DOG





Conheci Don Winslow pela sua posição a favor da legalização de todas as drogas. Fiquei a gostar logo dele. Depois fiei-me no escritor Rodrigo Fresán, argentino entusiasta de escritores a valer, de Ricardo Piglia a James Ellroy. Ora quando Fresán fala em "The Power of The Dog", de Don Winslow, ficamos com a nítida ideia que estamos perante a urgência de algo “maior que a vida”. Sua trilogia começa no final dos anos setenta com a constituição dos cartéis, continuará com o descomunal poder do famoso narcotraficante El Chapo Guzmán, no segundo livro, até ir desaguar ao presente, esse mar aberto de inquietações apocalípticas com Donald Trump ao tempero. E se os Estados Unidos se queixam da droga que chega às toneladas do sul, o México protesta contra a brutalidade das armas que entram do norte para encher suas ruas de sangue e morte. À violência crescente e refinada intuída por Roberto Bolaño em 2666, Don Winslow prefere responder de um modo mais gráfico, chamando os nomes aos bois, truncando apenas alguns bocados de realidade pelas voltas do enredo. Mas não sobra migalha. E na pena de Winslow não faltam recursos, muito menos huevos, para ir directo à carótida do problema. Mas nada melhor que puxar pelo bom do Rodrigo Fresán, velho amigo de Bolaño e genuíno adepto da maquinaria literária de Winslow: «El Poder del Perro (The Power of the Dog) es una de esas novelas en las que nos se va a vivir mientras las lee y – la tasa de mortalidad de sus páginas por momentos quita el aliento – mientras que los leídos van siendo acribillados o despedazados o vuelan por los aires o sometidos a torturas (ya comprenderán a lo que me refiero) de una creatividad católicamente diabólica. Pensar en el Poder del Perro como la versión adicta y adictiva de La Guerra y La Paz haciendo hincapié de lo primero. Mejor aún: El Poder del Perro como la Guerra y La Guerra.»



[tradução para espanhol de Eduardo G. Murillo, Roja y Negra]


terça-feira, 26 de maio de 2015

Barthelme

Genial padecimento de pós-modernismo e síndrome da escrita criativa. Quando se atira para dentro da frase somos levados por absolutos inusitados e logo ali desacreditados. Afinal não era nada, a ideia, claro, era levar-nos ao ponto uau (!), mas afinal... Não, não é fácil. As Avenidas de Palcos inauguradas por Rimbaud foram todas homologadas, aqui é possível visitá-las e ao mesmo tempo dizer que não são avenidas e que não está ali nenhum estrado. A escrita esse pode praticar-se a cada esquina com aulas especializadas e orientadas sob as técnicas mais inovadoras como qualquer academia de guitarra de Toronto. Pós-modernismo com escrita criativa é como neoliberalismo com Universidade Católica. Doutrina única decorada com um não é bem assim. Vais ter de explicar tim tim por tim tim e eles ir-te-hão fazer ver o que é, depende, e o que não é, depende. Tudo pelos óbvios preceitos da destruição criadora ou da desesperança ilusiva. Se não te dão volumes de provas - não podem - dar-te-hão volumes de preceitos. Para seres um bom pós-moderno terás de ter bem em mente que toda tua espontaneidade é mui facilmente desmontável e pode e deve apenas funcionar como performance. Se fores straightforward e/ou auto-destrutivo o suficiente dir-te-hão, sobranceiros, que todas as barreiras já foram escancaradas, não lhes falta luz solar e estão todas bem pavimentadas. Não lhes perguntes que barreiras são essas se não os quiseres fazer rir a bom rir. Aí sim, provocarás algum efeito de surpresa. Assim como um livro inteiro - muito bom,  diga-se - onde procurarás alguma coisa e tudo o que encontrarás serão apenas truques, dos bons e nunca vistos, é certo, grandes truques, ora toma. Pimba tumba catrapumbarás em nadas. Terás assim um curso intensivo de balística em módulo de absurdo ricochete. Claro que todas as balas serão de borracha. 

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Um Diabo no Paraíso

O diabo está nos pormenores. Conrad Moricand, tornado (o) personagem de Um Diabo no Paraíso, de Henry Miller, adivinhara os signos de todos os comensais numa qualquer mesa de jantar. Podiam até mesmo estar de costas. Mesma coisa com certa senhora que, sei de fonte(s) fidedigna(s), olhava para alguém e logo lhe adivinhava o signo, o ascendente, a lua e o pormaior do pormenor do aspecto e da conjugação planetária...
Fernando Pessoa falhou o dia da sua morte em exactamente seis meses. Ele que previa e intuía bem dentro da alta astrologia. Mas que também recusaria saber numa mão seu Destino. Porque não somos donos do nosso Destino, dizia. Desta tomada de posição a propósito das artes de adivinha, e a previsão de seis meses certeiros ao lado da morte, há de haver um longo caminho escuro a percorrer. Ou mais prosaicamente, um valente buraco no texto. Ou talvez não. O suposto Diabo no Paraíso já não saía sequer do seu quartinho alugado. Capricórnio de signo, regido por esse Saturno de toda a limitação, como não podia deixar de ser, achava ele que nada podia fazer para poder lutar contra toda a adversidade que vinha escrita nas estrelas. As cartas, os horóscopos, alguns mesmo colados à parede, não o deixariam mentir... Tudo na miséria dos aspectos astrais batia certo, calculado, fazia todo o sentido. Entretanto desenrolava-se em todo o horror a Segunda Guerra Mundial. E entre os bombardeamentos, o ocultismo das cartas.
Eis tudo o que me lembro da leitura há mais de vinte anos desta singular obra de Henry Miller. Não era preciso ser uma obra-prima quando o que mais dali advinha era a fúria escarrapachada por e/ou contra aquele amigo que às tantas já não sabemos se afinal era um ex-amigo. Porque o que sobressai mesmo é essa zanga de espécie, essa tão humana zanga, que mais não é que uma imensa fúria contra o desagradável aviltamento humano. Existe mesmo gente assim. Gente que se torna impossível caída que está no paradoxo de adivinhar seu futuro. Escrever parece pois essencial para interpretar o fenómeno, não necessariamente o futuro, mas pelo menos certa gente. E apanhar o diabo nos pormenores. Talvez mesmo nalgum paraíso. 

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Outros Parêntesis




Roberto Bolaño tende a agarrar seu universo - escritores, vivências, literatura, poesia, política, obsessões, Chile, México, afectos, terrores, admirações, ódios de estimação, etc, etc - em seus pontos fortes. Sem ilusões, porém, mesmo que a energia, entusiasmo e forças saibam elevar esse mesmo todo às alturas desse mistério salvífico e/ou destrutivo que é a Literatura. "Entre Paréntesis" (Anagrama) mostra esse seu universo vital em mais de 300 páginas de ideias, pensamentos e linhas de força que se encontram também presentes em seus romances (a maioria dos personagens, diga-se). Como se essa escrita sobre escritores e literatura - aqui em ensaios, artigos e discursos - juntássemos pois os pesadelos do mundo contemporâneo e também os sonhos, nesse sentido borgiano do termo, onde o sonho (ou pesadelo), a poesia e a ficção se confundem e emaranham em seus intrincados labirintos. Claro que Jorge Luis Borges iria mais longe em toda a linha entre o sonho e a realidade, mas isso é toda uma outra conversa.

Roberto Bolaño não viveu a fama em vida, nem menos trabalhou em bibliotecas - muito menos na infindável Biblioteca Nacional de Buenos Aires. Pelo contrário, durante uns bons anos na Catalunha, livros "novos" só mesmo emprestados de amigos ou alugados, claro está, em bibliotecas. Também passava fome. Chegou a viver isolado com seu cão numa casa num bosque, qual eremita desterrado. Seriam os tempos da poesia (a preparar uma séria transição para a prosa) culminados pelo inicio da troca de correspondência com o conhecido poeta chileno Enrique Lihn, que de tanto, não apenas o ajudou a um reganhar de voz e confiança, como iniciou a divulgação da sua obra extraindo-o do anonimado e isolamento num país estrangeiro.

Chegada nos inícios da década de 90, a paternidade fez Bolaño jogar as fichas todas. Romances escritos, uns atrás de outros, em catadupa - romances foram oito, a somar aos livros de contos. Era preciso garantir a sobrevivência do filho, Lautaro Bolaño. Mas não só, com uma rara doença de fígado diagnosticada, o escritor teria a certeza ou quase dos dias contados e cada vez mais comprimidos. Na verdade, é impressionante a quantidade de produção literária possível em tão poucos anos, menos de uma década. Arrisco dizer que os livros já os teria dentro de si - muita leitura, muita escrita, muita vida vivida, muita aprendizagem, muita crise, muita penúria, muito sofrimento, muito trabalho, muita disciplina, muito combate, muito risco, muito pôr-se em causa. Por outro lado, numa de duas entrevistas, as únicas que Bolaño deu a televisões - porventura canais chilenos - este mesmo referiu, que sem estrutura que o sustentasse, seus livros chegariam facilmente às mil páginas. Verdade ou mentira, o certo é que 2666, a sua obra maior, até extravasa a conta. Os tais dias contados é que nem por isso. Essa espera infindável por um transplante que nunca chegava e cinquenta anos de vida e tanta literatura ainda para dar. Uma literatura que, presumo, muita falta faria a este tempo. Uma literatura sem magias de fadas mas de palavras bem marteladas. Esse escrever o que há para ser escrito quando é para ser escrito, como o que se encontra neste poema póstumo, encontrado entre papéis: 

Rechazos de Anagrama, Grijalbo, Planeta, con toda seguridad también de Alfaguara, Mondadori. Uno de Muchnik, Seix Barral, Destino... Todas las editoriales... Todas las editoriales... Todos las editoriales... Todos los lectores...
Todos los gerentes de ventas...
Bajo el puente, mientras llueve, una oportunidad de oro 
para verme a mí mismo:
como una culebra en el Polo Norte, pero escribiendo.
Escrebiendo poesía en el país de los imbéciles.
Escribiendo con mi hijo en las rodillas.
Escribiendo hasta que cae la noche
con un estruendo de mil demonios.
Los demonios que han de llevarme al infierno, 
pero escribiendo.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Parêntesis


- La literatura es una máquina acorazada. No se preocupa de los escritores. A veces ni siquiera se da cuenta de que éstos están vivos. Su enemigo es outra, mucho más grande, mucho más poderoso, y que a la postre la terminará venciendo. Pero ésa es outra história.

- Muchas pueden ser las patrias, se me ocurre ahora, pero un solo el pasaporte, y esse pasaporte evidentemente es el de la calidad de la escritura. Que no significa escribir bién, y ni siqueira ese, pues escribir maravillosamente bien tanbién lo puede hacer qualquiera. Entonces que es una escritura de calidad? Pues lo que simpre a sido: saber meter la cabeza en el oscuro, saber saltar al vacío, saber que la literatura básicamente es un ofício peligroso. Correr por el borde del precipicio: a un lado el abismo si fondo y al outro lado las caras que uno quiere, las sonrientes caras que uno quiere, y los libros, y los amigos, y la comida. Y aceptar esa evidecia aunque a veces nos pese más que la losa que cubre los restos de todos los escritores muertos.

- Exiliarse no es desaparecer sino enpequeñerse, ir reduciéndose lentamente o de manera vertiginosa hasta alcanzar la altura verdadera, la altura real del ser. (…) Toda literatura lleva en sí el exilio, lo mismo da que el escritor haya tenido que largarse a los veinte años o que nuca haya movido de su casa.(...) El exilio es el valor. El exilio real es el valor real de cada escritor.

- Los cobardes no editan a los valientes.

- Si tubiera que asaltar el banco más vigilado de Europa y si pudiera elegir libremente a mis compañeros de fechorias, sin duda escogería un grupo de cinco poetas. Cinco poetas verdaderos, apolíneos o dionisíacos, da igual, pero verdaderos, es decir com un destino de poetas y com una vida de poetas. No hay nadie en el mundo más valiente que ellos. No hay nada en el mundo que encare el desastre com mayor dignidad y lucidez.

- Las mentiras y los libros de memórias hacen buenas migas.

- (Philip K.) Dick era una especie de Kafka pasado por el ácido lisérgico y por la rabia. Dick es el Toreau más la muerte del sueño americano. Dick escribe, en ocasiones, como un prisionero porque realmente, ética y estéticamente, es un prisionero.

- No sé qué nos dice, hoy, los trovadores. Parecen lejanos allá en su siglo XII y parecen ingénuos. Pero yo no me fiaria demasiado. Sé que inventaron el amor, y también inventaron o reiventaron el orgullo de ser escritor, siempre y cuando uno sepa meter la cabeza en en pozo.

- Detras de esta muchedumbre, sin embargo, se esconde el único, el verdadero mecenas. Si uno tiene la suficiente paciencia como para llegar hasta allí, tal vez lo pueda ver. Lo que ve probabelmente acabe defraudado. No es el diablo. No es el Estado. No es un niño mágico. Es el vacío.

- No se debe plagiar. El plagiario merece que le cuelguen en la praça publica. Esto lo dijo Swift, y Swift, como todos sabemos, tenia más razón que un santo.
Así que este punto queda claro: no se debe plagiar, a menos que desees que te cuelguen en la plaza pública. Aunque a los plagiarios, hoy en dia, no los cuelgan. Por el contrario. Reciben becas, premios, cargos publicos, y, en el mejor de los casos, se converten en best-sellers y líderes de opinión. Que término más estraño y feo: líder de opinión. Supongo que significará lo mismo que pastor de rebaño.

- Nunca aborde a los cuentos de uno en uno. Si uno aborda los cuentos de uno en uno, honestamente, uno puede estar escribiendo el mismo cuento hasta el dia de su muerte.

P - Que le despierta la palabra póstumo?
R - Suena a nombre de gladiador romano. 

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Roberto Bolaño, Entre paréntesis: Ensayos, artículos y discursos (1998-2003), Anagrama, Colección Compactos

domingo, 11 de maio de 2014

18.

Acordar com a Canção de Lisboa de Jorge Palma na cabeça é coisa que promete pouco. Do mal o menos, irei escrever. Na verdade estou mesmo a escrever agora neste bloco apanhado da mesinha de cabeceira. De certo só mesmo aferir da chama com que me deitei numa noite de palavras decididas. De incerto nada remanesce e arrasta a areia e prova-me a caneta que acordei desafinado. Então subo o volume ao grande Jorge Palma, trazido da melancolia da noite para o dia, o que também é certa decepção de mim próprio: penso em todas as palavras que não li subtraídas ao tempo que as tive para ler. Penso em marimbas no fundo da cabeça que a páginas tantas se nos oferecem no extraordinário Suicidas de Henrique Manuel Bento Fialho. Vá lá que aqui está tudo intacto, nem que seja na aparência. Sei que houve resistência para a avidez das tropas inimigas, hoje mais ávidas que nunca. A gente perde o rasto aos colegas do recrutamento obrigatório. Não me lembro de haver amigos na trincheira. 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014



A Argentina como o Chile representam no extremo sul do planeta a “Última Thule”. Borges (para o efeito não importa que esteja parcial ou inteiramente cego) trabalha ansioso com o terceiro olho, aquele que perfura qualquer distância. Não contempla apenas a ribeira no outro lado, mas também a terra mais distante. Fixará a vista interior em ilhas tão afastadas como a Islândia, a Última Thule do Setentrião romano. Pretende esgotar meridianos e paralelos. Empreende a travessia indagatória para as vizinhas do Árctico não por um puro exagero de auto-desterrado que se projecta no outro extremo, mas porque no globo terráqueo, que é redondo, todos os pontos fazem parte da cultura universal. A sereia que o chama e provoca é a palavra escrita, os textos cardiais, o entranhável, processo das línguas. Cruza os mares para averiguar a formação de idiomas. Dá crédito à notícia que os vikings (“uma multidão de cães que saíram da caverna de uma leoa barbara") chegaram às costas americanas séculos antes de Colombo. Mas anda também atrás das vagas de soldados da fortaleza romana e das tribos germânicas que demoliam limites e derrotavam legiões, traziam nas mãos a espada e na boca o poder de um rico verbo comunicativo. E foi por isso que ocupavam a Islândia, a Inglaterra, a Irlanda, a Alemanha e a Escandinávia.
O homem nascido na fronteira sul não será um marginal. Sente a atracção do centro e das margens opostas, das histórias de guerreiros que inspiram escritas e engedram poetas com ou sem nome. Faz isso com a consciência de que são herdeiras e várias literaturas europeias modernas. Apaixona-se pela evolução dos alfabetos e a odisseia das escrituras. Sente curiosidade pelos textos subjacentes na superfície dos palimpsestos. Não desconhece que se tratam de pergaminhos cuja escrita original foi apagada para estampar por cima outras diferentes mensagens. Tal fenómeno supressivo, essa operação de substituição e sobreposição dá-se também no caso das religiões triunfantes, que constroem as suas igrejas na base dos templos do vencido. Borges é um caso curioso de um estranho e apaixonado poliglota, amante da gramática histórica, do fluir das filologias, do nascimento obscuro, gradual, acumulativo e correctivo nos lábios dos povos das línguas do hemisfério norte e por que não também no seu próprio. Vidente ou cego embebe-se nos poemas mais antigos, na gesta de Beowulf, nas Eddas da Noruega, Gronelândia e Islândia. Deseja penetrar na trajectória de géneros literários com ressonâncias vindas de além mar, que continuam a transformar-se pela voz das gentes. Seduzem-no as Sagas, espécie de epopeias em prosa, nascidas no século X, recitadas no calor do vinho e dos banquetes por um rapsodo que geralmente celebra façanhas de homens de carne e osso. Na sua opinião, as Sagas revelam “um carácter dramático e prefiguram a técnica do cinematógrafo”. Não tem dificuldade em aceitar que se inspiram na realidade e se reportam a factos verídicos. Não se incomoda que a sua forma seja a de uma crónica vinculada ao acontecimento objectivo e nem sequer se importa desconhecer o nome dos seus autores, mas talvez tivessem sido homens que recolheram esses factos esquecidos no anonimato das aldeias. E de algum modo correspondem ao impulso genético que nasce das próprias raízes e estão na origem do folclore, dos cantos populares que brotam como as flores do campo em todos os continentes, sem excluir sequer os povos latino-americanos.
Observa que a partir de certo momento (indica o ano mil) os 'thulir' ou recitadores sem nome são substituídos pelos escaldos, poetas que se identificam por um apelido e assinalam o aparecimento do escritor assim individualizado, mais ou menos profissional, que surge pela necessidade da sociedade, para a qual a poesia narra a história e denota uma tomada de consciência da sua identidade. Borges não hesitará em servir-se das literaturas estrangeiras de qualquer época e território para semear e adubar o seu próprio território, mas não será um súbdito incondicional. Adere ao princípio da autonomia criadora, tornando sua a opinião de Goethe de que “o Canto dos Nibelungos é clássico, mas não deve ser tomado como modelo, nem tão-pouco os chineses, os sérvios ou Calderón”. 

Os Dois Borges - Vida, Sonhos, Enigmas, Volodia Teitelboim, Trad. Serafim Ferreira, Campo das Letras, 2001

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Depois de Moby Dick

Não é dos meus romances de eleição, certo que achei nele passagens extraordinárias, históricas, épicas até, mesmo inesquecíveis; mas também encontrei o enfadonho aborrecimento, por vezes um certo arrastar penoso, pastoso, um tanto ou quanto para o chato. Porém, enfim, como nos grandes clássicos, algo no conjunto transportava-me em sua viagem, apontando muito além da escuridão que emanava. Recordo bem a louca e indestrutível obstinação de Ahab, que perante o prenuncio do desastre, se tornava em crescendo assustadora. Era a tensão principal, entre várias. Mas do bolo o recheio: a descrição do Pequod, dos mares e marinheiros, os singulares personagens, suas rotinas diárias, as particularidades e características da genuína navegação. Depois a viagem mental de Ismael, seu fluxo de consciência entre os meandros do medo e da descoberta, suas reflexões e iluminações, certa preparação iniciática, e, finalmente, com o perigo eminente à espreita, a preparação para o embate final e definitivo - a baleia branca gigantesca indomável, letal e impossível ao desafio humano. Os efeitos da fúria de Moby Dick encerram a obra, ecoando depois muito além da leitura - apenas entendida pelo mundo bastante depois da edição do livro -, ou melhor, ecoaram...  

Mesmo assim não posso dizer que Moby Dick me tenha deixado particulares saudades, pouco até creio que alguma vez se torne um verdadeiro companheiro de viagem, muito menos livro de cabeceira, simplesmente não é obra que me dê vontade de reler, ou sequer sinta curiosidade em regressar. Moby Dick porém pensa o contrário. Ou melhor, pensava o contrário. Certo dia em que se fez anunciar. Para dizer que ainda não tinha sido lido por inteiro. 
Fez-se anunciar sim. Certo dia fez-se anunciar, e entrou, eu já tinha começado a sentir a sua presença, não sei porquê pensando no livro, até que comecei a revivê-lo
Tudo começara enquanto seguia viagem para sul. Eu disperso em pensamentos, a sentir-me em dias negros, estava Moby Dick a chegar-se a mim, até tudo se tornar mais claro, claro em sua própria escuridão, até eu seguir outra vez dentro daquele mesmo barco. 

Era eu, Ismael, a navegar em negritude, tempestade e névoa lá fora, o perigo crescente e repetido alternando idas e vindas num acentuar-se em espiral à medida do seu tempo. Sentia o mal eminente, sabia que assim chegaria a algum ponto culminante, a algum trágico final. Alguma espécie de colossal baleia branca estaria perto, muito perto. Eu era o próprio Ahab, não podia ser mais ninguém. Também era o Pequod, os marinheiros, tudo ali era eu, via ao naufrágio anunciado. Saber toda a história não serviria para nada, o livro ainda hoje não me diz grande coisa. Todos os avisos eu ignorara, prosseguir viagem, alcançar a baleia branca era tudo o que desejava, com a obstinação dos loucos, nada me faria demover contra todos os avisados e até sábios conselhos que insistentemente dera a mim próprio. Isto ia até ao fim! E foi, foi até ao fim. Talvez Moby Dick  me fosse o mal inultrapassável, talvez fosse enfim a natureza a querer dar-me sua categórica e definitiva lição. Verdade é que já estava fora, naufragara. Afinal de contas, não tinha acabado de ler o livro. Achava que tinha, por tê-lo fechado depois de lida a última palavra na última página, depois de ter lido todas as palavras de todas as páginas. Mas afinal não, não tinha, havia contas a ajustar, fora eu mesmo que as fizera. 

Hoje sei, sinto, posso dizer: Moby Dick não voltará mais. 

A profound thing in a simple way

Li uma vez um texto de Charles Bukowski em que este falava de um suposto poeta menor que ter-lhe-à dito certo dia "eu posso escrever como tu, mas tu não podes escrever como eu". Ele apenas pensa que pode escrever como eu, eis a resposta do escritor, ao que se seguiu a célebre deixa: "Genius could be the ability to say a profound thing in a simple way, or even to say a simple thing in a simpler way". Ele há quem não consiga ou não queira reparar na mestria na aparente simplicidade e desembaraço da técnica, ou na sabedoria vinda de anos de trabalho duro e desesperado no fio da navalha, ou mesmo num pouco ortodoxo humor que galga milhas no caminho da sabedoria. Não terá lido "Pulp" (o texto até é muito anterior)  - sobre o qual eu escrevo agora que mesmo assim não é nem de perto nem de longe, nem mesmo a lente de telescópio, do melhor e mais autêntico Bukowski que se pode ler. Mesmo assim, na desmontagem do cliché, no inusitado dos diálogos ou no non sense que da aparente puerilidade se pode encerrar no mais definitivo e profundo sentido, genius could be the ability to say a profound thing in a simple way, or even to say a simple thing in a simpler way. Como em jeito de brincadeira:
ou:

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Al Capone da Conceição

Sabia-se, constava, que tinha emigrado para a América num grandecíssimo nevoeiro, com Detroits, Newarks e Elsewheres pelo meio, até que numa noite pressentira o beijo da morte a espreitá-lo numa esquina lá dos States e aportara a Lisboa sob o nome de Conceição. Chegou e sem perda de tempo tornou-se proprietário duma leitaria para disfarçar o passado que se calhar nunca teve e o quarto de jogo clandestino que instalara nas traseiras do negócio. Por isso é que nunca saía da mesa lá do fundo, olho no balcão e ouvido na parede que o separava dos jogadores.
Nas tardes da Almirante Reis, com os eléctricos a tilintarem, avenida abaixo, avenida acima, a leitaria era duma inocência comovedora. Dois ou três vadiantes em faz de conta a cervejarem ao balcão, um criado, dois anjos voadores a suspenderem um espelho na parede e o Al Capone em pessoa exilado numa mesa, a impor respeito ao ambiente.
Dali ninguém o arrancava desde o abrir ao fechar da casa; e palavras, o menos possível. Al Capone da Conceição comia de jornal aberto como nos filmes americanos, e se alguém lhe desejava bom proveito respondia com um aceno numa sílaba por cima das entrelinhas.
A um, que se chegou à mesa dele para o cumprimentar, «Como vai, senhor Conceição?», deitou-lhe um olhar indignado e deu-lhe a resposta devida:
«Tem alguma coisa com isso?»
Às vezes entrava o Mil e Quinhentos, que era um polícia da esquadra de Arroios enxertado de chacal, um demónio artilhado de fogante e cassetete, mas nem a esse o Capone se prestava a falar. Na sua qualidade de comerciante e de cidadão legalizado, deitava-lhe um aceno de cumprimento, ficava-se a vê-lo pelo espelho a despachar as duas cervejas da praxe e deixava-o sair sem pagar por entre os dois anjos de latão.
Este Mil e Quinhentos metia medo só com a sombra. Se não chegara a chefe era porque isso de chefe o obrigava a trabalhos de secretaria, que não se davam com o seu feitio e ele gostava era de fazer o gosto ao dedo quando o gatilho lho pedia ou de afagar o lombo dos distraídos com o cantar do cassetete . «Tenho os meus métodos», dizia.
Certo, certo na leitaria da Almirante Reis era um Martins, a quem chamavam o Mãos de Seda, por o dizerem carteirista a tempo inteiro e pelos muitos saberes dos seus dedos no trabalhar as cartas e os dados. Baixo e entroncado, tinha um sorriso muito fresco, apesar de já andar pelos quarenta, e, caso especial, apreciava o bem falar. Tanto que, quando um dia o Al Capone ordenou ao empregado que mudasse os róteis dos boiões dos caramelos, não resistiu a deitar-lhe um meio sorriso atravessado:
«Róteis? Rótulos, senhor Conceição. Rótulos é que o senhor quer dizer.»
O outro encolheu os ombros com desprezo: «Acha?»
«Claro. Rótulos e não rotéis, senhor Conceição.»
«Homem», respondeu o Capone, «rótulos é para as garrafas, róteis é para as caixas», e, ponto final, abriu o Diário Popular e mergulhou na página das palavras cruzadas.

José Cardoso Pires, A Cavalo no Diabo, Círculo de Leitores, 1995

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Os Idiotas



Escrito na primeira pessoa, em registo de pseudónimo, entre um ficcionado auto-biográfico e o auto-reflexivo, a figura do idiota funciona em "Os Idiotas" de Rui Ângelo Araújo como o fio condutor, o pretexto, o ponto de mira para um olhar sobre os dias. Há muita matéria a ser trabalhada. Os enganos e falhanços da vida, um quotidiano estéril, falho de horizontes, típico de tantas zonas do país. Sobre o que paira a corrupção generalizada, a praga do populismo, um povo ignorante e domesticado, a infindável burocracia... "Os Idiotas" de Rui Ângelo Araújo não é romance que se dê a poupanças. A pena ágil, certeira e afiada do escritor não está ali para tréguas. Carapuças à parte, podemos nós também ter um pouco do idiota descrito no livro, por mais ténue que seja. Ou conhecemos alguém, amigo, conhecido ou familiar que se enquadrem nele perfeitamente - eu pelo menos conheço. Sem sabermos o local exacto do país onde se desenrola a trama  - que passa também por Bucareste e Vietname - é muito de Portugal (sob a forma de uma pequena cidade de província) que está ali descrito, qual McGuffin com a premissa obrigatória de que isto não vai acabar propriamente bem, ou pelo menos não vai dar a lado nenhum. Qual praga ou maldição que nos arrastasse para o beco sem saída. Dito isto, não pensem que "Os Idiotas" reflecte apenas negritude. Pelo contrário, seu tom destoa, e ainda bem, deste marasmo que nos atordoa. Há ali genica, dinâmica, ritmo e carradas de humor que nos presenteiam a leitura por outras e variadas direcções. Do mais, "Os Idiotas" é romance de pesos e contrapesos. Na escrita, por exemplo, mesclando elementos de erudição e riqueza de vocabulário com um cardápio generoso de obscenidades (bem disse que não é livro dado a poupanças). Ou entre um certo tom pulp e despretensioso e a fina tragédia existencial. Ou de vez em quando entre a comédia sem remissão e a dureza da fossa

Se falei em marasmo, cidadezinha de província, calão avançadocomédia tresloucada, Roménia e Vietname, era de Lúcio Peixe* que falava. É ele o personagem, pseudónimo e idiota de serviço em quase todo o romance. É um idiota especial - para não dizer o idiota perfeito, o que levaria a pensarem no perfeito idiota, o que está muito longe da verdade. Cronista do quotidiano e escritor de encomenda (ghost writer) e blogger capaz de gerar algum culto em redor, Lúcio sabe dar à (sua) realidade uma visão original e muito particular, capaz de por pinceladas certeiras e inteligentes nos dizer de sua justiça. Ganhamos-lhe simpatia e empatia, vemos que sabe mais do possa parecer à primeira vista, que o seu estar nas tintas tem um quê e porquê, por mais errado que o julguemos. Tem ele essa vantagem, não é idiota como os outros, vive nos seus próprios termos, pensa pela sua cabeça. No mais é um ser sensível e ferido, anestesiado em cervejas e alienado quanto baste, ele e seus amigos idiotas, cada um com seu karma e história distintas - nisto as mini-biografias de cada um dos idiotas nos inícios do romance estão em perfeita conformidade - a acabarem por desaguar no mesmo lugar: a sua própria casa, a casa de Lúcio Peixe. Inadaptados a um mundo que os rejeita, parecem afinar todos pelo mesmo diapasão. Lúcio Peixe acaba por ser o involuntário líder da quadrilha, ele que é o mais carismático. Também o mais individualista e lúcido, o que tem ao menos um olhar sobre o (seu) mundo e o sabe escrever. Mas não é apenas Lúcio Peixe que  escreve em "Os Idiotas". Há ainda Helen. 

Mulher que também poderia ser um romance, com Helen o enredo faz um autêntico u-turn. Para onde, não sabemos (eu imaginei, mas imaginei mal). A obra é com Helen estruturada para outra dimensão, como que do nada, sobrepondo à leitura uma nova (outra) leitura. Aqui é outro contrapeso, mesmo a escrita é ligeiramente diferente pelo sentimento, leitura e interpretação femininas apanhadas de forma assaz interessante, eficaz e bem conseguida. Mesmo que no computo geral as duas vozes cantem de forma muito similar. Posso estar enganado, mas nisto o escritor, omnipresente claro está, acaba por fundir as diferentes vozes à sua voz, talvez mesmo as discipline, ou não, só mesmo o próprio o poderá responder. Em ambos os casos temos capacidade de alcance e poder de encaixe. Depois o fôlego, o ritmo, o saber na descrição de personagens, no engendrar das situações para um desejado enquadramento. Essa capacidade de fixar e fotografar o real enquanto se prossegue em inusitado fluxo de consciência é um fortíssimo atributo de "Os Idiotas". 


* - Lúcio Peixe está ali na capa, ao lado do seu Ford Capri, em extraordinária ilustração de Eduardo Ferreira. 

PS: obrigatório o texto de apresentação do livro por José Rentes de Carvalho. É obra-prima. 

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

7.

Noite funda. Lua nova deslumbrante de estrelas, um festim de pontos luminosos e aquela luz nebulosa da galáxia que conseguimos ver no campo. Estou numa roulote e num monte alentejano, a ocidente vejo uma luzes que podem ser de São Teotónio, do Almograve ou da Zambujeira, não sei, sempre são à volta de trinta quilómetros, e um riacho que sei lá em baixo torna a distância mais remota. Não sinto frio nenhum, mesmo que a minha urina parece mais chá acabado de ferver. É um ritual que farei mais três vezes, a mijadela, não o chá. O acto de sair da roulote (pôr mais uma camisola, mais um casaco, subir o capuz do casaco, calçar-me novamente) pede alguns poucos cuidados. É que não tenho vontade nenhuma de me engripar logo no inicio dos quatro estupendos dias que se seguirão. Não deixa de ser um desafio. Dentro, mesmo com um pequeno calorífero, parece mais frio que fora, entra corrente de ar, se não é por baixo, é pela fresta norte, se não é pela fresta norte vem do tecto, se não vem do tecto é defronte aos pés deitados, espirro e ainda são duas da manhã. Melhor prevenir, vestir o casaco outra vez, usar do capuz, apertar o cordão ao dito e logo o frio desaparece. Que a cabeça protege todo o corpo posso eu constatar. E também posso tirar uma das camisolas de lã, ficar só de T-shirt, casaco e capuz. Excelente. Nem frio pelos pontos cardinais, o chão quietinho, o tecto pacífico. Posso ler à vontade. Frutuosas horas de “A Amante Holandesa” de José Rentes de Carvalho que não me deixam dormir e me levam até ao amanhecer. Não aquele amanhecer súbito, mais de Verão, onde o sol tudo ilumina em meros segundos. Este levou tempo, lento e discreto como o Outono. Antes, um avião que normalmente passa mesmo por cima de mim na Estrada dos Prazeres por volta das 06h35 e aqui passou bem mais alto, eram 06h15, o que tem certa lógica, 15-20 minutos de aproximação a Lisboa e à pista da Portela. Ouvia-se o suficiente para que se me interrompessem os balidos das ovelhas de um rebanho perto, ou dos galos que cantam para aí desde as cinco da manhã. Galos não, mas ovelhas vinham no romance, pois que a páginas tantas o narrador passeava pelos campos ao lado do amigo Gato, aquele personagem, o pastor cheio de sonhos. Perfeito. Tudo a bater excepto o sono, menos mal, não fosse isso e não haveria todo este espectáculo inesperado e simultâneo, vivo e ao vivo, sem hora e sem preço. Pior foi por volta do meio dia, quando o meu irmão me acordou. Mas levantei-me sem hesitar para um extraordinário dia de ócio. Estava sol e calor, acreditem. De noite dormiria pois, nove horas e meia seguidas, vestido, sem capuz e sem ver o nascer do dia. Como que desfalecera em consciência. Nenhum desconforto me vence o cansaço, falo do cansaço são e salvo, do que não se cansa a si próprio.  

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

...

 - Há uma literatura para quando se está aborrecido. Abunda. Há uma literatura para quando se está calmo. Esta é a melhor literatura, acho eu. Também há uma literatura para quando se está triste. E há uma literatura para quando se está alegre. Há uma literatura para quando se está ávido de conhecimento. E há uma literatura para quando se está desesperado.

- Na cidade moderna, como toda a gente sabe, camarão que dorme leva-o a corrente.

 - A vida pôs-nos a todos no nosso lugar, ou no lugar que a ela convinha, e depois esqueceu-nos, como deve ser.

 - Por esses dias, sem que nos déssemos conta, tudo estava a deslizar irremediavelmente pelo precipício. Ou, talvez, a palavra precipício seja demasiado enfática.

 - As conversas na cama oscilam entre o enigma e a transparência.

 - Eu tento conservar os meus amigos. Tento ser agradável e sociável, não forço a passagem da comédia à tragédia, disso se encarrega a vida.

 - Ninguém geme: não há desespero. Apenas o nosso silêncio nocturno quando de gatas nos dirigimos para as fogueiras que alguém, a uma hora misteriosa e com uma finalidade incompreensível, acendeu para nós. O acaso guia-nos, embora nada tenhamos chegado ao acaso. Um escritor deve parecer um censor, disseram os nossos maiores, e temos seguido essa flor de pensamento até à sua penúltima consequência. Um escritor deve parecer um articulista de jornal. Um escritor deve parecer um anão e DEVE sobreviver. Se não tivéssemos, ainda por cima, que ler, o nosso trabalho seria um ponto suspenso no nada, um mandala reduzido à sua mínima expressão, o nosso silêncio, a nossa certeza de ter um pé cristalizado no outro lado da morte. 


Roberto Bolaño, Os Detectives Selvagens, Teorema, Trad. Miranda das Neves, 2008

sábado, 12 de outubro de 2013

O absurdo encerra uma moral

1 - Um romance sobre a guerra, de vez em quando, é bom remédio contra o absurdo. É outro absurdo o que estamos ali a ver, são outras proporções, é como a imagem da Terra para lá da atmosfera, nem nos vemos ali metidos. O nosso absurdo (salvo seja, estou a relativizar) é o sonho de vida para quem vive no meio dos escombros dos tiros e das bombas. Onde tudo se inverte, onde a infâmia e crueldade vivem no habitat natural, onde o ser humano é zero ou menos que isso. Onde com o «estamos em guerra» tudo se justifica: o assassinato, o roubo, a indiferença, a avareza, a indignidade, etc, etc. 

2 - Daí não embarco nessa do «estamos em crise» como pretexto para nos cortarem (leia-se roubarem) as vidas em seus direitos e garantias mínimas de normal sociedade moderna civilizada. O que é, já agora, superiormente - e cada vez mais  - pago em impostos de usura (leia-se idade média). O busílis também está aí, não estamos em guerra, mas por vezes é como estivéssemos, quando a verdade provada nos mostra que fomos assaltados cá dentro, no nosso território, e não foram tropas invasoras. Talvez a guerra seja "apenas" outra forma de crise, a suprema forma de crise, a maior de todas as crises. Mas foi por crises como esta que todo o caldo se entornou

3 - Da destruição da Guerra nasceu esta Europa de conquistas civilizacionais que tanto nos pode orgulhar. O que sem um investimento forte na economia, sem o Estado Social, sem, por exemplo, o perdão de dívida à Alemanha, entre outras tantas ajudas, sem, enfim, uma Europa solidária, talvez ainda respirássemos o pó das ruínas. Semeadas pela austeridade, é preciso não esquecer, a ferrugem nunca dorme, é bom citar o Neil Young.

Estava um dia lindíssimo

Essas explosões sucediam-se como os disparos dos morteiros numa festa de aldeia e produziam-me um efeito estranho porque tinham qualquer coisa de festivo, e no entanto eu sabia que significavam miséria e desespero para os que moravam lá em baixo, nas terras enxutas. Estava um dia lindíssimo, sereno, calmo, o céu sem uma nuvem, e toda a planície de Fondi, verde e próspera, alongando-se até a linha vaporosa do mar, tão bela, assim azul e sorridente. E mais uma vez, ouvindo aqueles estrondos e olhando aquela paisagem, pensei que os homens andam para um lado e a natureza para outro, e quando a natureza desencadeia um temporal de trovões, raios e chuva, muitas vezes os homens são felizes em suas casas, ao passo que quando a natureza sorri e parece querer prometer uma felicidade eterna, os homens se desesperam e desejam a morte.
Alberto Moravia, A Ciociara, Portugália Editora, Lisboa, Trad. José A. Machado  

sexta-feira, 30 de agosto de 2013




Jorge Guillermo Borges era um literato e tinha aspirações intelectuais. "Procurou ser um escritor e fracassou nesse desejo. Escreveu alguns sonetos muito bons", observa o filho. Parece óbvio que a sua própria carreira como autor ficou selada ou recebeu pelo menos um impulso por aquela frustração. Não exprimiu essa vontade por escrito, mas a família interpretou-a como um mandato implícito: o filho devia concretizar o malogrado sonho paterno." No tempo em que era criança, quando lhe sobreveio a cegueira, ficou tacitamente entendido que eu devia cumprir esse destino literário que as circunstâncias negaram a meu pai..." Mas o desejo de se ver realizado no filho tinha uma base e a mãe de Borges defende que aos seis anos o filho disse ao pai que desejava ser escritor. E relembra que por várias vezes, mesmo antes de rabiscar qualquer coisa, estava convencido de que o seria. Imitava o pai nos actos e nos gestos e quando dona Leonor o ouviu recitar poesia inglesa comentou: "Possui a mesma voz".
O pai era um fanático por enciclopédias e consultava-as todos os dias, em especial a Britânica. E o filho fez a mesma coisa. Vários contos e ensaios borgianos têm aí o seu ponto de partida. Não são traduções, simples resumos ou cópias, não, trata-se de recriações literárias. Com o correr do tempo, passou a trabalhá-las como camafeus surpreendentes, lavrados por um prolixo miniaturista. Procedia com liberdade. Condensava, alterava, introduzia histórias em vários planos, alimentava uma intriga e desenlaces inesperados. Anotava a cada passo referências apócrifas. Despistava e brincava. Gostava de causar espanto. 

Os Dois Borges - Vida, sonhos, Enigmas, Volodia Teitelboim, Tradução Serafim Ferreira, Campo das Letras, 2001

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Vala Comum





Cinquenta páginas de prosa com balanço para muito mais, "Vala Comum", de manuel a. domingos, lê-se num tiro. Viagem auto-biográfica entre memórias de um passado e impressões difusas de uma vida em seus múltiplos comprimentos de onda - humor, amargura, ironia, cinismo, sarcasmo, notas mais pueris, dispensáveis ou no mínimo discutíveis - onde tudo parece rodar, qual espiral em torno das obsessões, embirrações, idiossincrasias, contradições, subjectivismos ou superficialidades caras ao autor, temperadas aqui e ali por estórias sumarentas a pedir para ser contadas. Tomadas por uma certa arte do desconcerto

Como é costume dizer: cada um tem aquilo que merece. João César Monteiro disse num dos seus filmes (cito de memória): «não se nasce português». Ora eu não sei se ando a ficar português, mas tenho alternativa? Não sei. É uma das muitas coisas que me atormenta. Mas durmo bem à noite. Se o colchão é bom, claro. Há colchões que são uma boa porcaria. E há pessoas que alugam casas com camas que têm colchões horríveis. É como aqueles anúncios de quartos com janela e a janela, afinal, é o postigo no alto de uma parede. Mas não é isso que me tira o sono. O café é que começa a tirar-me o sono.

E por aí fora, que o assunto não acaba aqui, nem muito menos começou. Pois que ligada e ao mesmo tempo desligada do seu todo, cada frase como que dribla a anterior e parece querer fugir numa longa finta que há de acabar nalgum lado. Claro que é parte de sua sequência lógica, o interessante é que essa mesma sequência vem desse drible desconcertante. Difícil? Sim ou não, largo a bola e pego na improvisação do jazz (ou de algum jazz-rock dos setentas) onde sobre meia dúzia de acordes os excelentes músicos se perdem para se reencontrarem mais à frente, para depois se voltarem a perder, e assim sucessivamente. Como improviso, esta suposta mini auto-biografia serve também como um longo monólogo que, concordo, podia perfeitamente ser levado a cena. É que eloquente quanto baste, dá-se a ler em voz alta. Mesmo em silêncio tem vezes que parece que temos o escritor ali ao nosso lado a contar-nos (das) coisas. Nesse aspecto lembrou-me "Life", a extraordinária auto-biografia de Keith Richards. Puro efeito de ilusão, eu sei, e ainda bem que assim é. Como quando me apeteceu dizer, «Manuel, dá cá mais cinco» 

A adolescência é um território muito estranho. Foi dolente e sem qualquer rasgo de originalidade - em todos os sentidos.
(...)
[sobre António Lobo Antunes] 
Os seus últimos romances são uma cacofonia completa. Aquilo que escreve não lembra ao demónio e não é devido a isso que é grande literatura. São apenas uma cópia manhosa (e com um certo exagero estilístico) do Som e a Fúria de Faulkner! acho que não é tão difícil ver isso, ou é? Ás vezes questiono-me se sou eu que vejo coisas onde elas não existem.
(...)
Existem outras coisas das quais eu não gosto. Por exemplo: não gosto da música rock convertida em jazz ou bossa-nova. Ainda o outro dia ouvi Smells Like Teen Spirit - que é uma música dos Nirvana, cujo título foi inspirado num desodorizante muito popular chamado Teen Spirit - em versão jazz e nem consigo descrever o arrepio que senti na espinha ao ouvir tal coisa. 
(...)
Querem um exemplo: Céline. Mais directo que ele conheço poucos escritores. Talvez um outro: Bukowski. Este é mesmo muito, muito directo. Tão directo que quase ninguém o entende. Tão directo que é bastante ignorado, pois a chamada "crítica" só considera realmente literário aquilo que é praticamente incompreensível. Exemplo: Finnegans Wake. Não me espantava nada que o início do livro fosse utilizado em exorcismos. Porra, aquilo afasta qualquer demónio. 

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Tudo parecia rimar


Embarcar para França no Chicago no princípio de Junho foi como ter de deixar bruscamente um livro que andasse a ler e não tivesse terminado. Ned e a mãe e Mr. Cooper e a senhora letrada consideravelmente mais velha que ele com quem tinha dormido várias vezes muito desconfortavelmente no apartamento de dois pisos que ela tinha em Central Park South, e a sua poesia e os seus amigos pacifistas e as luzes da Marginal tremulamentte reflectidas no rio Charles esbatiam-se no seu espírito como parágrafos de um romance posto de parte sem acabar de ler. Ia um pouco enjoado e um pouco assustado com o barco e a multidão alcoolizada e barulhenta e as lúgubres mulheres da Cruz Vermelha a arrepiarem-se umas às outras com histórias de bebés belgas a assarem no espeto e de oficiais canadianos crucificados e de freiras idosas violadas; sentia a espiral de tensão de um relógio com a corda excessivamente enrolada de tanto imaginar como seriam as coisas por lá.
Bordéus, o rubro Garona, as ruas pastel de casas velhas e altas como telhados de mansarda, o sol e a sombra tão delicadamente azuis e amarelos, os nomes das estações todos tirados de Shakespeare, os romances de capa amarela nas estantes, as garrafas de vinho nas buvettes eram diferentes de tudo o que imaginara. Todo o caminho até Paris os campos vagamente verde-azuis se polvilhavam de escarlates papoilas como os primeiros versos de um poema; o pequeno comboio avançava sacudido em dáctilos; tudo parecia rimar. 


John Dos Passos, 1919, Editorial Presença, tradução João Martins, 2010

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Pronto


Chegaram*:

Um Elmore Leonard mesclado a "wise guys", detectives, Ezra Pound, Miami, Itália e o que ainda não sei.  

O clássico que inaugura um "género". Quase construído em diálogo, "The Friends of Eddie Coyle" de George V. Higgins's é daqueles que fizeram escola. Antes de pesquisar fui lá pelas referências: do Leonard, que encontrou nele chaves decisivasDe Norman Mailer, David Mamet, de um Anthony Bourdain em Boston, de Dennis Lehane, de Quentin Tarantino. Reparei que as duas primeiras palavras do livro são Jackie Brown

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* -  Escritores à parte, pareço encalhado na fórmula. Acabada "A grande arte", começo "Mentiras e Diamantes". Com balanço... 

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Ler a Voz

Ler deve ser mais importante que escrever. Claro que escrever muito é condição não apenas de escrever bem, como de o saber fazer a sério; como o músico que tem de praticar constantemente. 
Outra coisa é a Voz de quem escreve, ou o Som de quem toca. Não se alcançam esticando o braço, distam milhas, anos de distância. Para quem escreve é trabalhar muito, escrever anos e anos a fio, tempo indeterminado. E talvez daí sim: a mão certa, o apuro, a precisão e técnica no manejo do sabre...
A ler não encontramos a Voz, mas podemos encontrar (as) vozes, distintas vozes, que nos mostram o que é ter (um)a voz. Aí já posso esticar o braço. Dou logo com A grande arte.