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domingo, 26 de julho de 2015

Colheita

Dias há que são de colheita. Senti-mo-lo, sabemos. Como? Então se está tudo à mão de colher... Tudo. Também não é fácil, sabemos como as vibrações e o espírito são invisíveis, impossíveis de tocar mesmo quando tudo vibra, reage, tem força, espírito. Mas se é dia de colher, então é dia de colher, o fruto, o alimento, tem de ser, está no ponto, no tempo certo. Não o fazer é arriscar demasiado na planície seca. No tempo errado.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

33.

Tiras doze quilos na brincadeira. Basta seguir a via da prioridade, é um brinquedo. Logo ali descobres como não era a preguiça que te armadilhava a uma secretária. Que uma hora sentado já precisavas de uma bicicleta, que uma hora pedalado precisavas era de uma piscina, que uma hora nadado e por aí adiante percorrerias teu mundo inteiro em total fúria exercitada. 
Problema mesmo eram os joelhos, as articulações, essas limitações, as armadilhas que no fundo são limitações articuladas, ou articuladas limitações, ou o que mais acharem, não vos há de valer de nada. A mim tudo se resume em aguentar oito horas a uma secretária, a escrever. Norman Mailer falava na necessidade de sermos atletas, de no físico prepararmos o espírito. Estaria a pensar no seu ringue, nessa modalidade específica do boxe literário, tinha de ir bem preparado. Quem está agora a ler isto não sabe, mas eu sei, já me perdi deste texto, do que queria dizer, da intenção primeira. Estou numa piscina, não essa tal de 25 metros mas outra, pequenina e lúdica, que vi crescer  de coisa gigante até quase à banheira. Foi precisamente aqui que aprendi a nadar uns vinte anos antes de ter escrito um conto entre o Luiz Pacheco e um sonoplasta que eu cá sei. Foi preciso ensinar o raio do conto a nadar, e mesmo assim, mal bóia. Disse-lhe que a vida é feita de pormenores e braçadas e tudo o que vier à rede tem as suas articulações. O que desaprendeu já não é comigo. 

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Bola de Berlim

Começou pelo alívio do moço do barco em ouvir-me falar português. Disse-o bem alto e sonoro achando que as duas moças estrangeiras não o ouviam [e eu a querer e a gostar que o ouvissem]. Depois, à volta do rio e da viagem de barco, um espanhol suposto pintor de aguarelas chamado Pepe, ali entre a pose artista e o chunga andaluz, em suma, um pintas, que pinta, lá isso pinta, o pintas, umas aguarelas de umas casas alentejanas [e nem foi preciso denunciar o disfarce, como eu disse, estava tudo nas aguarelas]. 
Depois lituanos, ou letões, leitões ou lagostas tal o vermelho bronzeio sobre a pele de cal, o que daria uma horrível aguarela, eles é que não davam conta disso tal a arrogância hasteada em silêncio [pior mesmo foi a chegada à mente desse mecanismo de associação sob a forma de Europa: a Grécia. Peço desculpa, mas nada posso contra o primeiro pensamento, que é mau, paciência, mas não me censuro]. 
Depois uns yankees, da Florida, para aí, isto pelos ares de Boca Raton sem nunca terem ido à praia, passadas de marina, pés que não sabem que nunca pisaram areia, pela praia adentro afora calçados em sapatos brancos mocassins, ridículo prolongado em calções cremes jardineira, não sei se iam assim os dois, mas o que fica da imagem é um dois em um [repito a pujança dos mocassins brancos sobre a areia, só podiam galgar mesmo as tábuas da marina, umas tábuas muito juntas e uniformes, o inferno de um boardwalk na Praia das Furnas].
Depois, depois espanhóis a falar alto atrás do cliché, agora um casal inglês que se foi pôr aqui mesmo ao meu lado. E logo ali vem um casal francês. A primeira palavra que ouvirei em português será a palavra Bola, a que se seguirá a de Berlim. Depois só mesmo o até amanhã do moço do barco. 

Férias

Parte do objectivo das férias está alcançado: o descanso. O estar de molho por estar de molho necessário porque é necessário que a energia solar se adense e entranhe em excesso no corpo, que Lisboa é dura e num tempo curto também as nossas baterias descarregam num instantinho. Mas esta suspensão da realidade, este não ter expectativas no que é tão importante quanto difícil não querer à força: até mesmo essa coisa de aperfeiçoar as férias, de ter as férias perfeitas, quando a praia alentejana, só a praia a mim já chega e só não sobra como extravasa as medidas. E é só levantar de manhã para ir ter com o mar e a areia. Levar livros, revistas, um caderno, um lápis e  caneta só para ir nadar e apanhar sol para voltar tarde o mais tarde possível. Eis a cura.  

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Fados

Tiraram-lhe há pouco a última perna. Mas não vai de cadeira de rodas, não, usa próteses, muletas, depois levam-no e canta, canta que canta. 
Sessenta anos, sabe o que são sessenta anos de fado? Uma lenda, tanta história... Toda a gente quer ouvir-lhe o fado. Se passa nas casas então querem todos. Ele só pergunta: «o senhor paga-me o jantar? Se não paga, não canto». Ou alguém paga ou alguém vai ter de pagar, é justo. Comigo é diferente. Eu tenho uma maneira de o levar na certa que é começar a cantar-lhe os fados. Aí tem de entrar, não falha. Então se o fado é dele... De uma maneira ou de outra ele canta, canta que é uma maravilha o fado. Canta melhor que ninguém. Também ninguém canta assim, sabe, à antiga? Não todo o fado, mas o seu fado, compreende? São os fados que canta, tem de gostar dos seus fados, de outra maneira não entram, não entram e então ele não entra no fado, não canta. Eu entendo isso, para mim não há nada pior que o fado mal interpretado. O fado quando não se sente não se canta. Se não se tem não se canta. Não sai de dentro é uma coisa horrível, falsa, artificial, reproduzida, horrível, nem sei explicar... Já ouviu o Fado Cravo, do Marceneiro? Então meta ali um desses maus cantores de hotel. E não é só no fado que é assim. Em qualquer música, olhe, a ópera. Os blues, claro. Tem de ser cantado como deve ser tocado. Está a ver a palavra tocado? Olhe para a palavra tocado. Tem de ser tocado mas também tem de ser tocado, entende? O português é uma língua extraordinária. Tocado e cantado, é a língua do fado.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Peso à altura

Queres escalar tua alta altura 
Levas com a força de gravidade
É esse o peso que carregas
Teu peso na realidade

sábado, 6 de junho de 2015

32.

Uma turista nova-iorquina nascida em Hong Kong bem te pode dizer que todos estes monumentos europeus no fim equivalem-se. Tudo velho. Quer portuguese cuisine e come umas tapas, também eu soube de uns alemães bebiam um vinho do Porto como vinho corrente,  quem sabe com umas gambas de permeio. Dinheiro torrado, torra-se. Diz que a América do Sul agora é que está a dar. Claro que é só nas zonas onde está a bombar, resortemo-nos pois de toda a violência, venha a nós o mundo novo que aqui cheira muito a tabaco.  A mim não cheira, respondo. Não acredito. Mas não há ninguém, contraponho. Não há, mas houve. Se foi há umas horas ou há uns dias não sei, mas houve. Cuidado, há governantes precavidos a legislar, nem no espaço público quanto mais. Tinha-me esquecido de John Le Carré. Também conta. Está metido na conversa. Claro que há aviões nos céus que não vemos. Estações que não conhecemos. Estações e terminais, no espaço e por aí fora fora o Big Money deixa os jornalistas tontos, é com cada noticiário. Não é preciso ter lido o melhor artigo de Miguel Sousa Tavares em anos para se saber o que é cada vez mais uma irrealidade. Pessoas não se sentem representadas. Então representem. Não sabem, coitadas. Contam o que conta do que conta. Aprontam-se a voltarem a dar o voto na ultra a um bando de impostores. É como o outro, foi reconduzido. Reconduzido no bando, perdão, no banco, no Banco de Portugal. Vá-lá que a minha amiga tem sorte e sempre se pode aproximar de alguma dessas estações directamente para o continente seguinte e não é o Continente Olivais Sul. Fazem lá ideia. Manhattan e um T1 a 5000€. Ali numa zona para o exclusivo. Os amigos piraram-se para os arredores. Fosse assim era todos os fins de semana em Veneza. Ou Las Vegas. Ou em Paris. Ou em Cascais onde ela diz que não há uma praia. Então se não é uma praia como queres tu que não seja minúscula? Queres ir a uma praia-praia vais ter de caminhar para lá da Boca do Inferno. Boca do Inferno, what is Boca do Inferno? Is the mouth of hell, very lovecraftian. Há muito vento, depois estamos em frente um ao outro. Socorro-me de Nietzsche e respondo que às tantas num casamento o que mais vale é a amizade... Já não preciso do grande filósofo alemão para dizer que quando se começa a competir com o parceiro está tudo estragado, o  prazo não sabemos... É um contar decrescente e a bomba pode nem explodir, se é um mês se dez anos... Há casos em ninguém dá por nada. A competição é desenfreada? Deviam ser amigos. Excesso de solicitações? Deviam ser amigos. Então e o amor? É preciso excluir o amor da amizade ou a amizade do amor? Claro que fica tudo sempre mais fácil se um levanta voo para qualquer lado, seja para o Irão, seja para as Filipinas, ainda não foste à Índia? 

terça-feira, 2 de junho de 2015

Jamor

Na bancada de imprensa tinha de me conter. Ali o adepto não existe, há um muro invisível resistente, fartei-me de dar murros nesse muro. De quando em quando lá me distraía, se este de quando em quando serve para dizer alguma coisa é que não era de vez em quando mas apenas nas alturas em que não há mesmo outro remédio. Já usar o rosto é mais fácil, sofrido ou alegre, ansioso ou eufórico, uma boa máscara consegue sempre esconder tudo - não fosse na distracção o meu corpo sportinguista começar a agir por conta própria. Disciplina férrea, é o que é. Os jogadores no campo que fizessem o seu trabalho que eu sofria o meu. Pago em acreditações e sem outro remédio que não acreditar. Já usar os olhos é muito mais fácil. Quando o árbitro tão lesto a expulsar Cédric tinha mesmo de ter expulso Baiano, os adeptos viravam-se para a nossa bancada e diziam bem alto de viva voz: «escrevam, escrevam a verdade, denunciem esta roubalheira»*. Foi a primeira vez que o meu corpo agiu por conta própria, com um movimento de pescoço a mover o crânio de cima abaixo, qual assentimento. Sim, sim. Ao intervalo, nem foi preciso, olhos nos olhos bastavam-me para dizer sou tão ou mais sportinguista que vocês. De resto, era o que era, o jogo que era, o Braga ia ganhar, não era? Quem acreditava? Acreditava o Marco Silva, acreditavam os jogadores, não sei se acreditava um benfiquista que tirava fotos lá em baixo e me dizia ao telemóvel «fica descansado  que vais a prolongamento». Vou, vou, respondia eu. Não, não acreditava, se acreditava mais era que o Braga nos abafava de vez, meu pessimismo aliás não é de acreditar em reviravoltas, no meu clube então é onde mais se acentua, trauma daqueles dezoito anos a ter de dizer é para o ano. Como não havia de compreender os adeptos em debandada enquanto as más línguas das rádios falavam no Carrillo "nulidade", no William Carvalho "a gasóleo", no Adrien "sem chama"... Até que entra Mané e mexe com o jogo, depois entra Fredy Montero e mexe ainda mais, sim, o jogo começava a mexer. Mané a defesa direito? Siga, Slimani insiste, insiste. Até que a seis minutos do fim, a hemorragia começou a estancar, o argelino marcou, muitos adeptos paravam à entrada da maratona, outros recuaram. Depois, com tanto anti-jogo bracarense, seis minutos de desconto, que além de naturais, nem seriam necessários... É que ao minuto 90+3 acontece um daqueles momentos míticos, únicos, impossíveis de esquecer a quem ame aquele emblema e aquelas cores: Montero, após magistral passe longo de Paulo Oliveira, usa da frieza clínica e marca. Marca e o Jamor vem literalmente abaixo, mais adeptos a regressar, adeptos regressados a subirem outra vez para as bancadas. Um sobe as escadas, passa por mim, batemos as mãos num cumprimento tão forte como marcador de um momento: tínhamos conseguido. Alcançado o mais difícil dos cumes, o Braga não arranjaria forças para (lá) chegar onde nós estávamos. Esse lugar onde já conseguíamos vislumbrar a glória. Essa glória que é o derradeiro passo do nosso lema. Reaprender a ganhar tem a ver com isso. Com estes momentos. Com estas conquistas. Num jogo inteiro derrotados desde os 15 minutos com menos um jogador, a perder 2-0 desde os 25 com criativos como Carrillo em sub-rendimento, com William e Adrien a jogarem tão pouco num meio campo com um a menos  - e a falta que teria feito João Mário...
Marco Silva explicara no balneário ao intervalo porque é que ninguém saía dali para o campo se não acreditasse na reviravolta. A mesma reviravolta já alcançada na Alemanha e literalmente roubada à beira do fim pelas conveniências de um patrocinador russo. Não, não é uma questão de sermos o segundo clube do mundo com mais títulos em todas as modalidades, ou de sermos o primeiro com mais títulos olímpicos. Não, a questão é mesmo o presidente não mandar o treinador embora. 

* - a propósito Luciano Amaral toca e bem no nervo. Sem mais comentários.  É da maneira que ainda dá mais gozo

terça-feira, 26 de maio de 2015

30.

A banalidade deste nosso luso-quotidiano não sustem nada, só detém; não eleva, só afunda; nunca deu prazer, só dormência; nunca entusiasma,  apenas mói. 

Barthelme

Genial padecimento de pós-modernismo e síndrome da escrita criativa. Quando se atira para dentro da frase somos levados por absolutos inusitados e logo ali desacreditados. Afinal não era nada, a ideia, claro, era levar-nos ao ponto uau (!), mas afinal... Não, não é fácil. As Avenidas de Palcos inauguradas por Rimbaud foram todas homologadas, aqui é possível visitá-las e ao mesmo tempo dizer que não são avenidas e que não está ali nenhum estrado. A escrita esse pode praticar-se a cada esquina com aulas especializadas e orientadas sob as técnicas mais inovadoras como qualquer academia de guitarra de Toronto. Pós-modernismo com escrita criativa é como neoliberalismo com Universidade Católica. Doutrina única decorada com um não é bem assim. Vais ter de explicar tim tim por tim tim e eles ir-te-hão fazer ver o que é, depende, e o que não é, depende. Tudo pelos óbvios preceitos da destruição criadora ou da desesperança ilusiva. Se não te dão volumes de provas - não podem - dar-te-hão volumes de preceitos. Para seres um bom pós-moderno terás de ter bem em mente que toda tua espontaneidade é mui facilmente desmontável e pode e deve apenas funcionar como performance. Se fores straightforward e/ou auto-destrutivo o suficiente dir-te-hão, sobranceiros, que todas as barreiras já foram escancaradas, não lhes falta luz solar e estão todas bem pavimentadas. Não lhes perguntes que barreiras são essas se não os quiseres fazer rir a bom rir. Aí sim, provocarás algum efeito de surpresa. Assim como um livro inteiro - muito bom,  diga-se - onde procurarás alguma coisa e tudo o que encontrarás serão apenas truques, dos bons e nunca vistos, é certo, grandes truques, ora toma. Pimba tumba catrapumbarás em nadas. Terás assim um curso intensivo de balística em módulo de absurdo ricochete. Claro que todas as balas serão de borracha. 

terça-feira, 12 de maio de 2015

Ghost Dog

Amigo, só consigo ter-me autêntico olhos nos olhos de igual para igual, como nas antigas pelejas a céu aberto - antecipar-me a mim próprio é um dos meus modos de combate. Toda a amizade primeira chega à primeira - só precisa ser selada num forte cumprimento. Tirada a bandeira invisível, essa superfície de lealdade - junta sólida de aço e tudo, condimentos bem medidos do verdadeiro sabre de samurai(s que somos). Mas já que o olvido nos deu a tabula rasa, e recapitulando todas as disciplinas, se calhar salvaste-me uma vida: uma ou mais. Isto muito antes desse princípio difícil de interiorizar: ter medo sem ter medo, o que é a mais dura matemática. Os números só sabem insistir. 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Particular Wiseguys

Já disse isto algures, mas foi mesmo pelo acaso ou palpite que me pus a investigar qualquer coisa sobre o Goodfellas de Scorsese e só aí dei com a extensíssima enciclopédica colecção de documentários sobre o fenómenoO caso óbvio em questão era a figura de Henry Hill (interpretado por Ray Liotta), mas também podia ser o de Jimmy "De Niro" Burke, ou o Tommy "Joe Pesci" De Simone.... Mas antes de mais nada quero confessar minha ingénua surpresa ao constatar que afinal toda aquela gente existia... Até calhou bem, pois logo ali arranjei ânimo para ir em frente - e o guilty pleasure foi menor - em toneladas de documentários que se ramificam e bifurcam e ramificam e bifurcam uns sobre (os) outros. Não sem antes - primeira opção consciente - ir dar a esse famoso infiltrado ladrão de jóias nome de código Donnie Brasco, nada menos que o famoso detective Joe Pistone, do FBI. O motivo, já se sabe, era o filme com o mesmo nomePequena ressalva: todo o cinema ou "cinema" sobre o fenómeno não passa da ponta do icebergue, mas continuando: tivesse entrado por Donnie Brasco, ao invés de Goodfellas, e teria logo para a troca documentários ou mini-documentários sobre Sonny "Michael Madsen" Black, Lefty "Al Pacino" Ruggiero, ou sobre aquele tal boss que sai do Cadillac ostentando o charuto, o infame Carmine "The Cigar" Galante. 
Já que falei em guilty pleasure - e é incontornável, o guilty pleasure - devo dizer que circundo as estórias destes péssimos fellas tanto por entusiasmo - não o nego - como para apaziguar ânimos - por vezes até mesmo para acalmar. Ali há muito por onde beber e não ataca o fígado. Por um lado existem histórias, carregadíssimas, cheias de mini-tramas e maiores enredos que encerrariam intrincados policiais e/ou thrillers, nalguns casos talvez westerns modernos. 
Temos a sorte de na nossa melhor literatura haver um extraordinário La Coca, de José Rentes de Carvalho, que nos dá um certo olhar e cheiro de outra realidade similar, se bem que distinta, trazendo consigo o acrescento literário. Também sabemos, segundo o escritor, que aquela gente existiu mesmo, o que traduzindo-se no aqui agora aguçou-me o espírito em relação a algumas histórias que ouvi da Costa Vicentina - mais outras que intuí e/ou imaginei. O que não temos é personagens para dar a ver em séries do National Geographic, do canal História, do Discovery, da BBC, do Biography Channel - ou jornalistas para isso com a classe de um Trevor McDonald, ou de um George Anastacia. Ou se calhar temos, em tempos tivemos, parece, um tal Joseph Barboza, que vendo bem parece uma invenção de George V. Higgins

29.

Encontro-a
Há todo um passado para nos dirigirmos
Se é que dirigimos
Quando era passado por vezes não sabíamos bem o que fazer
Connosco
Mas hoje é como se começasse tudo outra vez
Tudo, mesmo tudo, amolgado, de feridas
Nódoas negras traumatismos hematomas, nenhum vindo de nossos choques, é certo
Que esses não foram tão violentos já cicatrizaram
Mas surpreendo-me ao ver essa marca esquecida no seu olhar fundo
Eu fogo de vista ainda estranhava seu feitio traiçoeiro
No adiante hoje está a ver as coisas pela terra fértil, eu sempre pelo campo de combate
E de abate, com a consciência do tesouro que é por vezes tão pouca coisa
E fazer parte ou ter tomado parte para conseguir retomar nossa conversa
Como se o mesmo fosse outra primeira vez.

terça-feira, 5 de maio de 2015

28.

Também se escreve no vazio, mesmo escrevendo. Anestesiados não sentimos sequer a possibilidade da dor. A escrita anestesiada pede ainda um melhor fingimento, tão melhor quanto falso, nada que ver com esse fingimento "que deveras sente", mas com um outro qualquer, porventura aquele que deveras quer sentir. O que é vigarice, embuste, uma falsificação bem relaxada, escrever com um comando à distância, como se a pena não passasse de um drone. Pior é que nem isso: nem mesmo o drone é verdadeiro - o que obrigaria a outros desafios. Muito escritor falso auto-satisfeito imagino eu seja mesmo assim : um falso drone, um charlatão embuste, sua pena nem à distância comanda, seu fingimento deveras quer sentir

domingo, 3 de maio de 2015

Gin Tónico, o Gajo





Costumava chamá-lo de Gajo. De manandro do camandro, é que o gajo não é bem malandro, então chamava-o antes de manandro, de manandro do camandro. Um jóia de boa pessoa, uma lição de vida, o Gajo. Nunca se queixava, a não ser depois, depois de velho, com a horrível dor da pedra nos rins, mesmo assim tão estoicamente que até fazia dó. Coisas da forma de (o) ser. É que o Gajo ria, ria, ria com a vida, e ria para a vida com uma euforia extrema. Era mesmo assim, o Gajo. A suprema festiva vida do Gajo era motivo mais que justo para festejo, que era mesmo assim sua forma de estar, de não ser sozinho, num festejo. Gostasse o Gajo de beber senão água e seria um extraordinário companheiro de copos. Sempre contente e pronto a entabular a conversa, o Gajo. Não era preciso muito, um carinho naquele pelo da cara de barbas de Pai Natal  e cuidado, não fosse o Gajo entrar em beatitude. Então se o nível de gratificação aumentasse, tipo "vamos à rua, Gin", ou se numa voz sádicazinha de fomes de comidas falássemos  em carninha ou ossinho então o Gajo perdia-se das adrenalinas, era como se tivesse acabado de ganhar um Oscar. Ele lá sabia, o Gajo.
Já vão uns bons anos, estava eu incrédulo quase a chorar o falhanço da ida do Sporting à final da Taça UEFA, que sabemos que ia ser em Alvalade, quando Miguel Garcia marcou aquele golo no ultimo segundo do jogo e eu disparei-me em pilhas de euforia para semanas inteiras. Sentia-me uma autêntica máquina de rega descontrolada. Berrava GOLO, corria, gritava, nem dei pelo Gajo, que olhava para mim como que a dizer “Olha. Ensandeceu...!”. Depois ia para perto da Dona, como que a pedir-lhe uma explicação, como que a precisar de desabafar, como que cheio de necessidade de discutir, de debater, de matutar em mim. Não sei o que dona ouviu, mas disse: “vai dar uma festa ao Gin, ficou muito preocupado contigo...”. E eu lá fui dar uma festa ao Gajo e o Gajo começou a rir outra vez. Também qual era a dele, armado em quê? O chavascal quando era para ir à rua era umas cem vezes superior ao estaradalhaço que eu dei com a primeira final europeia da minha vida...
O Gajo gostava e queria tanto sempre ir à rua que ficava atento a todo e qualquer mínimo pormenor. A intuição essa apurou-a tanto que até cheguei a um ponto em que me bastava pensar nisso para o Gajo entrar logo de imediato em festejos - quem não acredite, não acredite, agora já não dá mais para fazer uma aposta. Poderia, quem sabe, até ganhar dinheiro com isto, tinha de arranjar um lugar, um palco, só não podia é ser na rua, e com muito pouca gente que o Gajo era de se distrair facilmente. 
O processo esse começara uma vez com um simples queres ir à rua?; - assim se arrastou umas semanas; depois, passou para um vamos à rua?; mais uns tempos e depois passou para um vamos?; depois para um Vam, depois para um V, depois, enfim, depois quando já não havia mais nada verbalmente a decifrar restava o quê? Um olhos nos olhos. Era a coisa mais fácil bastava olhar o Gajo a pensar nisso, no mesmo: na rua. O que é que mais restava para, como dizer, aperfeiçoarmos a comunicação. Telepatia à distância, pois claro. Então bastava pôr-me de costas a pensar no assunto, ele adivinhava. Claro que ainda tive de inovar mais, pôr-me na cozinha a pensar nisso com o Gajo na sala. Era só esperar que do nada começasse a ouvir aquele ladrar doideufórico. Ladrava, ladrava, ladrava, parecia um huno a saquear Roma, grande caixa toráxica devia ter o Gajo! Tinha logo de pôr a trela, qual armadura, e sair logo porta fora escadas abaixo não fosse ele virar o prédio de pantanas com aqueles ladrares entusiástico-histéricos. Depois, já na rua, era um gajo doido a querer saber de tudo, da relva mais limpinha ao canteiro mais javardo.  Claro que ia ficar tão roto com o passeio que à noite até lhe daria para ressonar... Mas sempre a acordar com esse sono leve-vigilante de cão um dia tive mesmo de lhe provocar: “sonhaste com quê, Gin? Foi com carninha?” Nem respondeu, não estava ao seu nível. 

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Rufia há só um



Poderia, por exemplo, escrever sobre a organização social dos golfinhos, daria muito que pensar em tudo o que são questões feministas e mesmo de género. Outras e até novas linhas de leitura, quem sabe, pistas em que eu não corro, mas respeito, apoio e voto a favor. Mas um golfinho é um golfinho e com ele não preciso tanto de organizar o caos. Também ele não tem a má sorte de ser um leão-marinho, assim como há seres humanos que têm azar de o serem e outros não. 
Comecemos então com a fábula vista à meses num documentário da tv e tanto me intrigou que me pôs a escrever para o blogger, tarefa que acabei até que esqueci, até que reparei, enfim, que a tinha posta em draft já lá muito em baixo a marinar, a apodrecer ou as duas coisas:  
Uma leoa-marinha acabada de ter filhotes está já sem reservas. Vai ter de se alimentar. De outra forma não haverá leite para ninguém, nenhuma cria para amamentar. Não é no ponto onde está - numa praia rochosa algures no Perú - entre milhares de comparsas de espécie, que irá conseguir comer alguma coisa. Então tem de partir. Ir à caça, mais que à pesca. O que também significará que a descendência deverá ficar quieta e sossegada, mas com muita atenção, como se verá a seguir...
A primeira missão é ainda em terra: cheirar, farejar muito bem os seus e as suas, toda a atenção é pouca, pois o faro será o único meio para reencontrar a linhagem quando regressar - entre centenas ou milhares (só) alcançará os seus pelo cheiro. Segue-se então a partida para a arriscada aventura, que durará semanas. Mais porque sendo preciso caçar é preciso primeiro enfardar à grande, porque só enfardando à grande para engordar bem se criarão dali as necessárias reservas para os meses de repasto da prole. O tanque tem pois de voltar bem cheio. Vamos então ao a seguir.
Chegamos aos vilões da história, uns vilões sem qualquer categoria, diga-se. Não passam de frustrados adolescentes leões-marinhos, imediatamente traduzidos na minha mente para rufias que não têm mais nada com que se entreter. Sim, sim, é aquilo em que estão a pensar: vão fazer a folha aos coitadinhos. Serão sádicos por natureza? Também. Estarão frustrados? Muito. Mais que frustrados, levaram a tampa das suas vidas. Ficaram a saber que não prestam pelas respectivas leoas-marinhas que escolheram outros leões-marinhos achando esses sim capazes para a generosa honrosa tarefa de serem eles (os) procriadores. A questão existencial se eram rufias a priori/se eram rufias a posteriori define-se tão simplesmente neste ponto: eram rufias. Porquê? Por causa do que o rufia faz. E o que é que o rufia faz? Faz o que normalmente os rufias fazem quando se sentem frustrados e/ou contrariados: dão cabo do juízo a alguém - sobretudo ao mais fraco
Cá nós podemos pegar nos rufias da escola, nos rufias da política, nos rufias das empresas, nos rufias de café, nos rufias das claques, nos rufias das artes, nos rufias das praxes - do que é que eu fui-me lembrar... - é um nunca mais acabar de (exemplos) rufias. 
Aos leões marinhos, à falta de outra opção, a electricidade da frustração é usada para roubar vida aos mais pequenos. Malhar ou matar pode ser apenas um pormenor - olhem os rufias das praxes. E isto às claras, em frente a milhares da sua espécie - mas cada um na sua, quem disse que o egoísmo é exclusivo humano? 
O que me intriga, todavia, vai um pouco mais além, não sei se já repararam: está no futuro.  É que muito do rufia (leão-marinho) que rebenta o coro à cria indefesa também já foi ele cria indefesa. Ele próprio é um sobrevivente de rufias... 
Moral da história há um ou (os) dois: 1 - que rufia só há um,  2 - os leões marinhos são todos uma cambada de rufias. Já pus a minha cruz no 1. 

quinta-feira, 30 de abril de 2015




I was last in Rome in AD 540 when it was full of Goths and their heavy horses. It has changed a great deal since then.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Baudelaire

Dizem que os mestres se combatem, pelo menos a determinada altura. Li Charles Baudelaire demasiado cedo - será? - à luz do que eram os meus dezoito anos. Tomei-o demasiado à letra. Usei suas palavras como armadura e condenação, como libertação e como poço sem fundo, como evasão e como beco sem saída. A realidade comprovava seu magistério, pior é que comprovando era uma forma de o capturar. Era o tempo de levar tudo à frente, o que não fosse inteiro (como Nietzsche, Rimbaud, O Medo de Al Berto) era parcial inteiro - todo o Miller dos Trópicos, o Kerouac do Dharma Bums ou do On The Road, todo o Pessoa que havia menos o Ricardo Reis, vá-se lá saber porquê, o Céline da Viagem ao Fim da Noite, mas nunca o da Morte a Crédito (esse nem hoje). Só mais tarde é que comecei, vá-lá, a temperar as gastronomias. Sobretudo a deixar para trás esse "mestre do spleen", esse certo romantismo Exilado por suas "asas de gigante". Eram becos sem saída, achava eu, e o punk rock sempre foi bom para dar murros na vida maldita, só que anteontem, ao acaso, também já não era sem tempo, abri, por palpite, a página 153 das Flores do Mal e dei com O Irreparável

Podemos sufocar o antigo Remorso, 
Que vive e se torce, agitado
E se nutre de nós como os vermes dos mortos
Ou as lagartas dos carvalhos?
Podemos sufocar o implacável Remorso?

No se preocupe, no se preocupe, se é para tomar à letra, dêem-me apenas o manejo da Forma, o absoluto controlo de todos os recursos, essa capacidade de domar o monstro de olhos vendados. O que é apenas um princípio, pois a solidez de uma rocha apenas se pode comprovar quando já nada é o que era. Ou como estava. 

PS: a quem interesse.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Álbum de Fotos

1 - Imagem da minha imagem, mas não era eu quem lá estava...
2 - Subitamente vejo os outros. A distância. Dos outros, daquele sabor a ambiente, de eu pelo fundo da noite... 
3 - Misto de familiaridade, estranheza e nostalgia. A tristeza da falta vai da ausência à futura ausência. Fade out de agora até daqui a vinte anos. Carinho por aquele momento que depois de tudo fica, mesmo que naquela altura só me sentisse cansado.
Já me ia esquecendo, pouco interessa, tarda nada colaremos isto agora a outro passado que para aí anda. Em álbuns de letras, álbuns de fotos, futuras notas de rodapé...
4 - Era apenas conversa de circunstância...
5 - Vias as fotos e não imaginavas as vozes, os falares, a geometria afectiva. Ainda hoje sei distinguir um a um, senão os sons todos, pelo menos as falas. Sotaques que para alguns serão séculos passados.