Vivo numa vila. Sou preguiçoso. Não concordo um o modus operandi mas o esquecimento próprio e alheio dá medo antes de tudo. Iria por tudo se não fosse a falta. Virtualmente? Es lo que hay. Tenho reparado a solta verbal do ouro, chamo-lhe serpentina para não lhe chamar diarreia. Não há nenhuma matemática nas suas linhas, é tudo redondo, redondo, redondo sempre em pé. É uma literatura Jorge Coelho com um pouco de imaginação e originalidade e, claro está, algum talento, de outra forma a cousa não se manteria redonda, ou seja, sempre em pé. Redonda bola à roda, bola adiante, é este o meu campo, conheço um que se deixou desta lérias e está plantado e implantado no twitter, aquilo basta-lhe, tecnologia de ponta para saber o que se passa, superlativa forma do soundbyte ultra mega que ao mesmo tempo não pode ser, então manda-se para o ar como se a palavra fosse ar, e polui-se o ar com a palavra e é só mais uma. É uma insignificância dizer o que penso mesmo quando o que penso é merda cagada no preciso momento em que a estou a cagar, é esse o espírito? Com isto encerro o campo, fecho os engenhos, tenho as montanhas. A ver se o lá fora não é um martelo que nos obrigue a voltar para dentro.
Mostrar mensagens com a etiqueta Jornal. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jornal. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 13 de maio de 2020
segunda-feira, 13 de abril de 2020
132.
DEPOIS DESTE TEMPO
Mais que nunca
imaginamos a organização secreta
Mais que nunca
Sobre as casas
Mais que nunca
imaginamos
A organização sobre
as casas.
Nunca nos imaginámos
A forjar a matéria
secreta
De uma simples ida à rua
Ou a saída de um cinema –
A questão sempre
será o mundo que apresentamos
O nosso no outro
O outro nosso –
E agora?
O arranque é o esquecimento em movimento
Aprendizagem implica o erro
Toda esta gente que quer à força toda
Matar o tempo
Senti-lo a ser preenchido
Em passatempo
E o vazio depois.
quinta-feira, 7 de novembro de 2019
ALMANAQUE PRIMEIRO
- Agora
consegues ver melhor a História. Perceber como todos aqueles hinos de
rock'n'roll punk harcore traziam a tomada da Bastilha.
----------------------------------------------------------------
- Essa manhã em que os factos não cavam lógica entre si e tu estás implicado entre o acontecido sem nunca por ali teres jogado – e sem sentires a relação entre ti e o que te chega. É tarde e nunca o virás a saber: não podes ver o jogo que te joga, o que está no segredo que te movimenta, Ou de outra maneira: a noite é a fortuna que te vale e que te cegaria pela luz insólita de outra matéria.
------------------------------------------------------------------
Criadora de
guerras implacável inflexível
Crê que é
pacífica
Porque se
situa razoavelmente à esquerda
Nunca sai do
seu lado.
Torna as
suas ideias as dos outros
Nunca sai do
seu lado
Incapaz de
sequer respeitar o oposto
Os fins
justificam os meios
De frente,
como no passado
Regista a
(sua) práxis
Funciona
sempre de acordo com as (suas) regras
Nem vê
outras
E à sua
maneira cada vez mais
Subtilmente
enfatiza
Como
vitórias
Todos os
empates da vida.
---------------------------------------------------------------
Não ser
aquele que entra na sala com o telemóvel em riste a tirar fotos
Sem olhar
para nenhum quadro e não ser no ecrã para a foto
E com muita
sorte não tropeçou, o que traria toda a justiça à situação
De Murillo,
o estilista supremo, relembra-nos, a lembrar-nos que a sua época é a nossa
época
Ali bem
perto de onde eu fui parar em 1992 a dormir ao relento
Consta que
vim dar aqui agora para o constatar
Foi preciso
ver a ponte tão fora do eixo de passagem
Perceber que
estava bem pior que um turista de aparências.
---------------------------------------------------------------
Escrevo o
poema como um alívio. Alguma coisa que precisava saber. Vomitei das minhas
entranhas. Ter uma forma. Ou melhor, partir das minhas entranhas, como diria
Norman Mailer, escrever é para um homem a única forma de parir. De qualquer
forma, agora sinto-me melhor, o que traz algo de sexual satisfação, do que tem
que ver com parto. Parto.
Meu
problema, desde a escola, foi sempre a forma como em Portugal não se tomam as
coisas a sério. De nenhuma forma, enquanto se estuda, enquanto se tiram
diplomas, enquanto se tem sucesso, credibilidade, reciprocidade, admiração...
No lugar onde sempre fui tido como uma ameaça. Onde nunca fui levado a sério.
Respondo isto do estrangeiro. Tranquilo. Ninguém me chateia.
É possível que a velha vida ainda venha para aí em
referência. Direi que não estou. Mas estou. Pronto a qualquer esclarecimento. E
já agora, que me paguem.
domingo, 20 de outubro de 2019
131.
Pouca coisa
Uma tabela de efemérides
Billie Holiday, Tom Waits
E Nicanor Parra
Posso fechar-me assim para o Inverno
Tenho o rio
O ar amplo
Esvaziado de maneira
A caberem aqui
Todos os sonhos que me restam.
quarta-feira, 1 de maio de 2019
129.
Bob Dylan tem a alma
O verdadeiro poder que sublima
Viveu mais do que alguma vez viveremos
Sempre além, mais além, hoje além
Deus no que deu
Daí tudo lhe sai como uma dádiva
Marca
Daí não permite que tu estejas ali de braço esticado mão em riste
Com o telemóvel a tirar fotos
Ou celebras e comungas ou limitas-te ao plano do pixel e é bem melhor que te vás embora
Que o que traz Dylan traz é cousa divina, substância do (seu) tempo
Que lhe dá na gana e presta bem atenção: dois minutos podem justificar-te o aqui-agora
Para os aqui-agora que alcançares no porvir
Até ao que a tua vista puder alcançar
Até ao que a tua vista puder alcançar
Don't think twice, its Allright
terça-feira, 30 de abril de 2019
BOB DYLAN EM SANTIAGO DE COMPOSTELA
Ontem, só a interpretação de "Don't Think Twice, It's Allright" foi mais que o bilhete*, o resto veio por acrescento. Assim Bob Dylan cumpriu mais uma missão em Santiago de Compostela, o resto veio por acrescento. Agora o Coliseu do Porto parece-me uma sala mais apropriada para o ritual que o gigante Pavilhão Multiusos Fontes do Sar.
*: e as deslocações, comes e bebes, a t-shirt que comprei...
Post Scriptum: Scarlet Town foi outro bilhete.
sábado, 27 de abril de 2019
HOTEL COSMOPOL
Imagino-o a nascer nos anos 70, puído e apetrechado por um ex-KGB foragido ao comunismo. Todo o cenário a isso adverte a quem não seja analfabeto aos sinais mais ou menos explícitos de determinada simbologia de influência, ou saiba ter um olho ao emblema da espionagem. O mármore salmão do soalho, as paredes desse amarelo que se não traz vida também não traz angústia. As alcatifas finórias de há trinta anos, os candeeiros entre o Estoril Sol e o Galeto, o lettering Nasa 1969. Estamos no fundo do Inverno e os preços são de época alta. Quem por ali anda ostenta um orgulho que não conseguimos entender. Mesmo assim, está-se frente ao mar onde Carlos V desembarcava quando vinha das campanhas da Flandres. E que forma grande de se entrar em Espanha. Detrás da praia, as montanhas parecem os Açores, ao longe vemos neve, o jogo é com o azul vivo do oceano e quase não se acredita. Na praia, o areal estende-se a uns quatro quilómetros. Não é preciso dar grandes largas à imaginação para ter um quadro decente, ali do hotel 3* de varandas amplas, os quartos cobertos de vidro, o ar condicionado racionado a horas poucas, diminuto, débil, estamos na Cantábria como se estivéssemos na Moldávia. Praia de Laredo, pois então, se é para gozar o tempo, também é preciso sofrê-lo. Se crêem que aqui não é tudo pensado desçam do quarto à cafetaria onde a banda sonora alterna Casablanca com bossa nova, volume para aí ao nível quatro para manter a gravitas à temperatura. Nas paredes o azul celeste rigoroso, os castiçais discretos e afirmativos, como se fosse preciso dar ao vácuo a vertigem certa.
Até agora não vi aqui ninguém. Escrevo da cafetaria onde me sento, casaco fechado, cachecol ao pescoço, há de vir alguém para me servir um café quando se calhar o que eu devia beber era uma aguardente. Aki Kaurismaki não vive assim tão longe. De Viana do Castelo aqui é uma tarde bem passada na auto-estrada. Da Corunha a Tavira ficamos todos muito contentes em saber que está nos seus planos filmar em Vigo. Talvez não fosse nada má ideia vir dar uma mirada a este hotel. Penso que lhe agradaria sobremaneira, até esta luz diurna. Claro que estou num desses lugares onde mal entramos ficamos cientes que vamos daqui vamos para outro sistema solar. Pode não ser suficientemente bizarro para um David Lynch, mas é suficientemente baço para que de uma Cantábria nos elevemos a uma Escandinávia.
sexta-feira, 26 de abril de 2019
128.
Imaginamos a vida dura do trabalhador da fábrica. O tamanho da fila de
trânsito e dos armazéns como quarteirões, como perímetros, estamos na cintura
industrial. Em Espanha chamam-no polígono. A dar
nas vistas o fogo no cimo da chaminé da fábrica. É uma fúria de outro
mundo. Ou a fúria de um outro mundo. Perece de tragédia não estivesse aquele
infernal isqueiro ao alto a toda a hora acendido. A dar medo a quem trabalha.
Pronúncio de uma eminência que nunca se concretiza, central nuclear que é
segura até ao nunca se sabe. Como era possível toda aquela gente ir para ali
trabalhar? Bandeira apocalíptica, fúria em controlado como
porta de entrada no serviço. Bom dia. Eu paralelo levo a sorte de seguir a via do
Cantábrico.
Louvor a IAGO ASPAS
Bilbau, 7 de Abril de 2019
O dia de anos do meu irmão podia ser resumido a Iago Aspas
a triunfar numa televisão silenciosa num hotel de Bilbau. Está nada mau. A chuva e os deuses concordam. Chuva abençoada em Vigo, chuva abençoada lá fora, na rua, no rico País Vasco, onde por mais que chova nada parece inundar-se. Mais por ser terra rija, de raça
humana batida das montanhas, forjada do ferro depois da purga dos anos 80, o que daria outro longo texto, ou tanto melhor como os documentários no You Tube ou no sítio da RTVE, e deve-me estar a falta alguma coisa, ou no grande livro de Fernando Aramburu, ou por outra, naquele sujeito punk que apanhei logo à saída da boca do metro, na primeira vez que entrei em Bilbau, vinha eu de Amorebieta, a dar com ele mais alto que eu, para aí metro e noventa, música nos auscultadores e para quem o ouvisse gritar na rua, o refrão era: «Euskal Herria Libertaaaaad!»
Mas passemos a liberdade para a Galiza, directo aos maravilhosos pés de Iago Aspas, combinando com o seu espírito, sacrifício, generosidade, liderança, genialidade. Mesmo na chuva abençoada desta mesma tarde nos Balaídos, chuva abençoada. O penalti ao início da segunda parte – e nem
foi preciso expulsar o guarda-redes adversário. A vitória, as palmas que não podiam acabar. Sou verde e branco de alma, coração e sangue, sportinguista de tudo, mas suspeito também que o meu carinho ao Celta traz um suplemento de raíz ancestral. Logo o amor à Galiza, pedido imensas desculpas à minha querida Corunha, tenho dúvidas que os do Celta sejam só tidos como os portugueses por estarem tão perto da fronteira. Para mim o Celta é efectivamente "o clube" que representa a Galiza. Pelo menos é o clube mais universalmente genuinamente galego. Ponto. Mas não nos percamos: Iago Aspas. Iago Aspas é o homem. Da
terra: Moaña. Frente a Vigo e aos Balaídos. Passagens em Liverpool e Sevilla e em nenhuma vingou, em nenhuma singrou, Steven Gerrard chegou a dizer que Aspas nunca trunfaria ao mais alto nível. Aspas? Falamos de um dos três
melhores jogadores de Espanha, possivelmente o melhor jogador da história do
Celta, talvez o melhor jogador da história da Galiza. Só o mês passado, regressado de lesão, foi considerado o melhor futebolista de todas as ligas europeias. Se perguntarem a alguém como é que Aspas não está agora a disputar uma champions ou uma bola de ouro, como é que não triunfou fora do seu povo, falarão da
morriña, morriña é a versão galega da saudade. «Pobriño, era a morriña», disse-me alguém daqui que percebe tanto de bola como eu de capoeira. Pobriño?É unânime qualquer comentador deste lado da fronteira dizer que Aspas consegue ter mais peso no onze do Celta que Messi no FC
Barcelona. Ninguém tem argumentos que desmintam que não fosse aquela lesão de meses – que tanto ajudou a despedir Miguel
Cardoso, diga-se – hoje o Celta de Vigo estaria a lutar pelas competições europeias em vez de andar com crises de ansiedade (e sobretudo de confiança) a contar o pontinho do salve-se quem puder, respirando fundo, a fundo, escalando a rocha da montanha, desesperado a ver se chega... sobretudo se não escorrega.
Podia ser pior, se esta lesão
persistisse a época inteira, o mais provável era que este Celta já estivesse na segunda. Morriñas à parte, também não conheço nome mais céltico-guerreiro que Iago Aspas. Ele que não vai por menos quando diz que joga no clube onde sempre quis jogar. Traz o valor da terra. Mostra o que a terra vale. Simples, humilde, acessível, que genuinamente quer apenas ser mais um na comunidade e dali aportar o melhor que pode e sabe das suas qualidades. Chamam-lhe o génio de Moaña, o mago de Moaña e quando o observamos com mais atenção vemos o puro talento com o espírito de entreajuda. A generosidade com a eficiência. Querem o melhor do povo galego? Pensem em Iago Aspas. Querem vê-lo? Andará pela sua zona, sobretudo em Moaña, a sua terra, onde tão justamente já há uma placa na casa onde nasceu. Com diz na sua mais recente entrevista, a Sara Carbonero: «Soy un ganador y no me gusta perder. Fuera, como vivo en mi pueblo, me abstraigo de la ciudad, Vigo. El que me ve en mi pueblo me ve en el supermercado, en la farmacia o en el bar cenando en la mesa de al lado; lo ven más normal. Me tira bastante mi tierra. En mi pueblo, siempre me he sentido muy a gusto, conozco a casi todo el mundo», ele que a semana passada renovou contrato até 2023: «He echado muchos años aquí, todas mis raíces en este club, desde los 8 años, he tenido dos experiencias fuera que no me han ido muy bien. Ha sido el paso definitivo para ver que este es mi lugar, mi sitio, estoy con mi familia, con mis amigos».
terça-feira, 22 de janeiro de 2019
126.
As chegadas aos hotéis, às pensões e às estalagens das cidades que não conhecemos marcam um antes e um depois. São o ponto de passagem, o primeiro concreto contacto, a primeira mediação naquela particular atmosfera urbana. Por maior que tenha sido o trânsito, por mais que tivéssemos sido mergulhados no caos urbano. É a partir dali, do balcão do check-in que é dado o verdadeiro tiro de partida. Chegamos à outra viagem, se nos propusermos verdadeiramente a isso. Ali, precisamente, onde retornaremos antes de levarmos as malas já com a substância da experiência no organismo, na tela geral da vida. De onde, enfim, libertaremos a energia definitiva sob a forma de experiência adquirida.
terça-feira, 2 de outubro de 2018
Helena Almeida - Dentro de mim - Mecânica Quântica
Aqui a simplicidade
Exprime a mecânica quântica
Só por si demasiado complexa para nomear
A palavra simples
Nossa redenção pode ficar ao alcance de um simples golpe de asa
Cuidando que um golpe de asa não é um golpe com a asa
Conseguindo-o em movimento, mais que uma transcendência,
É o alcance da Segunda Natureza
Chega sempre a alguma parte, a algum lugar
Lugar que é lugar
Suspende o outro
Sobrepõe-se, é o mesmo.
-----------------------------------------------------------------------------------------------
A exposição, derradeira, pode ser vista em Madrid, na Galeria Helga de Alvear
segunda-feira, 1 de outubro de 2018
Helena Almeida - Dentro de mim - A Chuva
Os pés da chuva
Preta branca cinza
Vestida de viúva
Aos quatro elementos
Mas o brilho do espaço
É o reflexo da água
Sobre a terra
Já sabemos que o ar é frio
E que o fogo aqui é a matéria da restituição
Tudo o que deve perdurar
Na memória de um fotograma
À comoção de um Inverno
Da cidade a cada dia mais árida
Pathos cinematográfico
Pictórico além-carácter
A molécula ao pormenor
O microscópio para captar
O que no entanto esta lá
Lente medida ao respeito do traço
Da chuva que nos marca
A memória liquida
------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
A última exposição de Helena Almeida, a derradeira, pode ser vista em Madrid na Galeria Helga de Alvear.
terça-feira, 18 de setembro de 2018
123.
TIO
Nasceu em Lisboa
Voltou para Guimarães
Aos dezoito foi para Paris
A vida em Paris
Pai de Angola
Morreu o ano passado
A vida em Paris
Pai de Angola
Morreu o ano passado
A vida em Paris
Trolha até conduzir um táxi
Até abrir uma empresa de motoristas
Até começarem os atentados
Somando à crise, o Uber, a mulher em casa
Dois filhos, a mais velha já no terceiro ano da universidade
O desemprego
Agora trabalha aqui, café português, um outro ao lado do hospital
Está cá a família da mulher
Tratam-no por tio. Afinal é tio, y e es un buen tío
Em Portugal seria o Alex
Portugal já não é o que era.
terça-feira, 4 de setembro de 2018
120.
ASPECTO AO ESCORIAL
Há sempre essa viagem que te joga agora
Tecendo os fios do remoto
É preciso ir visitar os monumentos
E dos monumentos, o Monumento
Ao último sopro de um cansaço
A porta aberta do quarto de Filipe II de Espanha
Sob a basílica do Escorial
Forma de ouvir missa, deitado
Com gota
Para ser mais fácil o perdão divino
Antes ter sido um agricultor
Séculos depois
Um agnóstico que por ali passou ficou tão confuso que não sabia
Se antes viu Deus ou um deus
Entre o diabo
Havia duas salas
Na primeira, todas as dores do mundo, penas dissolvidas, toneladas
Comprimindo todos os corpos
A luz a cerrar sobre si própria em séculos
Lágrimas medievais do medo
A salvação teria de estar na outra sala, a alegria branca, mais ao fim
O branco da redenção
Na pintura e no silêncio
Afinal de contas não estamos completamente alheios
Há sempre um grau exacto
A coincidir com o rei Dom Carlos
Há sempre um termo ao ar da quebra
Há sempre um aspecto ao nada
E ao infinito.
Sob a basílica do Escorial
Forma de ouvir missa, deitado
Com gota
Para ser mais fácil o perdão divino
Antes ter sido um agricultor
Séculos depois
Um agnóstico que por ali passou ficou tão confuso que não sabia
Se antes viu Deus ou um deus
Entre o diabo
Havia duas salas
Na primeira, todas as dores do mundo, penas dissolvidas, toneladas
Comprimindo todos os corpos
A luz a cerrar sobre si própria em séculos
Lágrimas medievais do medo
A salvação teria de estar na outra sala, a alegria branca, mais ao fim
O branco da redenção
Na pintura e no silêncio
Afinal de contas não estamos completamente alheios
Há sempre um grau exacto
A coincidir com o rei Dom Carlos
Há sempre um termo ao ar da quebra
Há sempre um aspecto ao nada
E ao infinito.
quinta-feira, 16 de agosto de 2018
116.
ZAFRA
O sol dispõe as ruas pelas casas de dois andares
Algumas de um
Todas caiadas de branco
Como no Alentejo
Aqui a paz é a mesma
Quando não é interrompida pela eloquência espanhola
Mesmo assim, na Estremadura espanhola o porte é o mesmo
A mesma recta serenidade
Uma ética de paz com trabalho
De pão com descanso
De pão com descanso
E o amarelo do campo
Porque é que o Alentejo não tem também uma bandeira verde?
As anedotas, o vinho, o queijo de Serpa, a açorda, as migas
Os montes, o turismo rural, a costa alentejana
As estradas até Monchique que são de morrer
As aldeias com a maior taxa de suicídio
As aldeias com a maior taxa de suicídio
É preciso ir até Silves,
Para ouvir era uma vez um tempo, ou até Mértola
É preciso ir até Mértola
Dizer que também somos Mouros
Porque o azul do sul é cor da areia
E estende o mar até Marrocos.
E estende o mar até Marrocos.
terça-feira, 14 de agosto de 2018
114.
ONDE ANDARÃO TODOS AGORA?
À saída alguns becos metem medo
O que vale é que já te mostraram Vigo antes
Ida e volta entre Balaídos e o casco histórico
Aqui chamam costas às subidas
Claro que pensaste no mar com o suor quente no teu corpo
Claro que pensaste no mar com o suor quente no teu corpo
Estamos no Ano de Zeus na Tempestade
E há um miradouro a ver de tudo
A 1906 é uma cerveja óptima para conciliar
Dois irmãos que nunca se deram
Dois irmãos que nunca se deram
Lobos de alcateias distintas
Criados em redor de colheitas
A única hipótese é esquecer as cercas
A única hipótese é esquecer as cercas
Onde andarão teus pais agora
Entre nós havia gente que esteve
Em Roma no tempo dos títeres
Em Roma no tempo dos títeres
Ensaiando odes metálicas.
segunda-feira, 13 de agosto de 2018
113.
ESTO ES LO QUE HAY
Chegado aqui
Corrente turva
Poço de indecisões
E silêncios
Mortos
A embirrar com todos os gritos de Agosto
Já sabia ao que vinha só
Que a saudade era um grito que doía fora
Que a saudade era um grito que doía fora
Do jogo de toda a família
Dos amigos
Dos músculos que eu nem fazia ideia que tinha
Da falha que nasce das raízes
Sim, a saudade é átomo mútuo que se dissipa
Corrente condensa ao mar do esquecimento
Dos ostracismos da timidez
De tudo
De tudo
Reflexos de um real que agora
É erva verde e um charco
Ou um lago real encolhido
Como se pedisse desculpa
Numa estalagem em Espanha
Numa estalagem em Espanha
domingo, 8 de julho de 2018
112.
Com a desfaçatez de certa mediocridade rapidamente me posso tornar um incendiário. A dar força e razão a quem não merece. Logo inverto a disciplina de não dar mérito à fotocópia. Pior: à fotocópia roubada à escondida. A reclamar o sagrado da elegia.
sexta-feira, 15 de junho de 2018
MUNDIAL
Comprado a uma livreira que estava lá quando Eduardo Galeano visitou Ourense. Diz que a livraria estava tão a abarrotar pelas costuras que só pelos relatos cálculo que possa ter vindo a cidade inteira. Daqui a umas horas vai ser a primeira vez que vejo um jogo campeonato do mundo fora do país, logo em Espanha, logo nesta Galiza que se juntou em uníssono a apoiar Portugal como se fosse a sua selecção no primeiro europeu que eu vi fora do país, logo em Paris, logo em França. Espero que Deus geometrize esta. Força Portugal!
domingo, 10 de junho de 2018
111.
Prontinhos a cavar dali para fora ao primeiro sinal de Guardia Civil. Escravos na Gran Via. Enredados. Atascados.
Subscrever:
Mensagens (Atom)







