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segunda-feira, 31 de março de 2014

Estado do Tempo

Meu tempo não é o tempo da minha meteorologia. O tempo da minha meteorologia tem dias, tem marés e tem estações. Meu tempo é outra coisa. Não mora em estados de alma. Não vive e sofre as divisões e uniões, concórdias e indecisões, ilusões e desilusões. Meu tempo não tem guerras nem tempestades, nem nunca lhe cairá asteróide em cima. Meu tempo é um quieto caminho. Segue o seu curso, infinito, infinito até que acabe. E quem diz curso diz discurso. Leis que segue conforme, nada em disforme - nem um átomo fora de sua vontade, regra exacta e disciplina. Meu tempo é pois meu tempo. Um tempo com tempo. Tem de ter tempo. É tempo. 

quinta-feira, 13 de março de 2014

A Máquina de Hemingway

É perigosa auto-consciência. Faz curto-circuito na máquina criativa. Bloqueia certo mecanismo que devia estar virado para fora. Ou dito de outra maneira, a máquina bloqueia se se põe a pensar que é máquina, coitada. Hemingway tinha razão quando dizia que there's nothing to writing etc e tal, tivesse pensado demasiado nisso e talvez nem tivesse saído da primeira frase do valente “The Killers”. O homem é a sua própria máquina de escrever. 

A Nota Dissonante

Sob o ar conforme, consoante e relaxado recebe à chegada meu ar duro, batido e comprometido. Até já se deu o contrário, mas é sempre igual esse estranho contacto de diferentes tempos musicais entrechocados como dois corpos estranhos de numerosos lados incompatíveis. Se houvesse nisso alguma culpa diria que fui eu que entrei como um subterranean home sick blues em meio de um minimalismo repetitivo a la John Cage. A música até que nem era má. Má é esta dissonância em confronto com o diapasão dos dias. Pior mesmo é quando do silêncio apenas se ouve a distorção. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Pós-passados

O erro de alguns pós-modernos, parece-me, é tentarem ser autores pós-modernos. Entendo bem toda essa necessidade artística, mas nela convém, antes de mais nada, uma primeira básica condição essencial prioritária: a condição de se estar vivo. Depois de se estar vivo, claro, é preciso viver neste mundo, mesmo que se viva noutro, ou mesmo em vários outros mundos. Ao que, óbvio, é preciso ter mundo, ter mundo, ou, vá-lá, um mínimo módico de mundo. Depois, ou antes disso, mas tão ou mais importante que tudo o resto: é preciso ser artista. É preciso ser artista ou então da necessidade artística ficamos apenas pela necessidade. Mas tentar nunca é demais. 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

12.

Energia acumulada,
o curto circuito de um mundo que acaba.

Tu nada.

E de voo picado, vivo, rés no chão, 
cansado contigo, dado solidão.

Voando raramente se dá pela viagem,
e quando regressas, 
regressas de onde não sabem...

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Parcimónias


- Não deve haver maior satisfação para o tecnocrata do que ver um artista a espalhar-se ao comprido.

- A minha completa distância com a minha completa ausência de separação é com ela pela certa essa fatal contradição.

- O excesso de confiança é a medida das vezes em que não se descobre que se fez merda...

- Já percebo melhor porque me é elegível: excesso de palavras para falta de linguagem, como o excesso de cereais na minha tigela de iogurte.

- Concluir é sempre o mais difícil: ter a frieza certa de acertar em cheio com o contador certo no marcar do tempo.

- É o bom do desafio: partir todo moído para a escrita e pela escrita moer todo o partido. Ou será partir todo o moído?

- Toda a criação é magia. Como a criação do mundo foi magia. 

- É importante distinguir: é escrita a martelo ou escrita à martelada? 

- Só mesmo quando escreve percebe porque tem mesmo de escrever. Mas como haveria outra maneira de o saber? 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Meritocridade

A manigância é a particular espécie de interesse das criaturas sem interesse. A particular e a única. Ler, escrever, pintar, ouvir música, fazer música, tocar um instrumento, ir ao cinema, a um teatro, ver um documentário, um museu, uma exposição, monumentos, animais de estimação, coleccionar coisas, línguas estrangeiras, viajar, gastar tempo em jogos de estratégia, poker de cartas, de dados, playstation, matraquilhos, snooker, ping-pong, budismo, yoga, zazen, artes marciais, esgrima, cozinha, ciência, banda desenhada, desenhos animados, carpintaria, olaria, um voluntariado, vinhos, whisky, cerveja, cocktails com álcool e sem álcool, almoçaradas, jantaradas, cerimónias do chá, vegetarianismo, naturopatia, massagens, acupuntura, horticultura, botânica, numismática, restauro, mergulho, peixes de aquário, mariscadas, charutos, cachimbos, crochet, artesanato, séries de tv, debates, economia, política, história, religião, filosofia, astronomia, astrologia, cosa nostra, anti-heróis, criminologia, geometria, espiritismo, maçonaria, segunda guerra mundial, teorias da conspiração, ovnis, ténis, jogos olímpicos, F1, motociclismo, andebol, voleibol, voleibol de praia, futebol, futebol de praia, futsal, Premier League, Serie A, La Liga, NBA, NFL, rugby, cricket, bowling, surf, bodyboard, canoagem, pesca desportiva, mergulho, escalada, caminhada, patinagem, skate, ciclismo, ciclo-turismo, xadrez, damas, dominó, roleta, roleta ru... Nada. Nada atrai o medíocre manigante. Podia estar aqui horas e o medíocre manigante não diria sim a nada. Falta de vontade? Pois é esse o problema, o medíocre manigante tem até excesso de vontade, vontade e muita ambição, ambição até de nos fazer a folha. E os desinteresses do manigante não são propriamente desinteresses, ele até os pode achar interessantes para o interesse da manigância. O manigante não se acha néscio pelo seu desinteresse nos nossos interesses. Ele é que nos acha néscios pelo nosso interesse nos seus desinteresses. Ele sabe bem de que lado está. Nós é que às vezes não sabemos. 

Nietzsche tinha aquela clássica tirada que dizia que o que não nos mata torna-nos mais fortes. Ora no manigante não é bem isso, no manigante o que não nos definha é que nos torna mais fortes. Então não definham nada, os manigantes, pelo contrário, é neles precisamente o tédio, o completo absurdo aborrecimento, a pasmaceira sem remissão e a aleatoriedade boçal que os fortalece perante o resto da espécie humana. Neste particular e não só, essa sub-espécie de espécie sem espécie de espécie alguma  - qualquer coisa que possa caracterizar o medíocre manigante é ameaça à sua própria sobrevivência - só existe e se caracteriza pelo que não tem. Com o tempo percebe-se porquê: não há nada para falar com o manigante que não meta de permeio as artes que só ele sabe da medíocre manigância. Seres ignorantes dos seus segredos, como é meu caso, sentem-se com o medíocre manigante sempre com vontade que acabe o tempo. Parece que estamos ali a jogar uma modalidade que detestámos na escola, tipo basquetebol (no meu caso). É para perder na certa, como é tão óbvio, e quanto mais demora a coisa mais porrada nós levamos. Depois aqueles terrenos lamacentos escorregadios, as mazelas a obrigarem ao possível recolher obrigatório, as energias dissipadas nos intermináveis caminhos da estupidez humana... 


Valha-nos os nossos terapêuticos interesses. Com eles reganhamos o tempo preso algures nalgum ferro afiado de qualquer armadilha armada pelo medíocre sujeito manigante. Depois sim, recuperados, revigorados e aliviados, constataremos mais uma vez assim um pouco aparvalhados (ficaremos sempre aparvalhados e jamais na vida compreenderemos a criatura manigante) como aquela salvífica medíocridade continuará ad aeternum exactamente na mesmíssima constante onda uniforme afinada pela porfia austera exigida pelo rigoroso trabalho da execução da manigância - haverá casos em que não resultando a manigância, o medíocre manigante até corre o perigo de não ter comida para pôr no prato. Por outro lado, se a manigância está mesmo a resultar, o manigante saboreará a comida de outra distinta maneira. Com o gosto revigorado, ficamos até com a ideia e a ilusão que o manigante ganhou finalmente algum interesse adicional na vida - neste caso na boa da comida. Nada mais errado. Manigante que se preza nunca larga de vista a manigância, nunca baixa a guarda, tem sua amada sempre bem perto, o esquema a trabalhar na cabeça. Cometerão pois caros leitores um erro fatal se virem no manigante alguma centelha de amadorismo. É outra vez o oposto contrário, tudo ali é profissionalismo, puro profissionalismo manigante. Nada, mesmo nada deve suspender a crença do manigante na manigância, nem mesmo um inesperado eclipse total do sol que lhes desse o escuro da noite às três da tarde. O que apenas seria um contratempo na manigância. Que isso da noite é em casa de preferência a pensar na manigância para o dia seguinte. 


William Blake dizia das águas paradas esperem veneno. De qualquer forma eu topo-os bem: no andar, na forma de olhar, em todo aquele suspeitoso mexer, na forma de rir (essa é a mais fácil), no falso brilho dos cabelos, no modo como lhes cai a roupa. Ao corpo, ao espírito, a obstinada tarefa. Pois está aí o problema do medíocre sujeito manigante: há ali toda a falta de presença de espírito. O tão não poder como não querer dar nada a querer pairar a dominar sobre tudo. O pé de apronto para a rasteira bem dada. O lusco-fusco para a pequenina intriga. As finas artes da hipocrisia. A selectiva contradição e suas demais incongruências. A afinada pontaria na areia para os olhos...

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Sem Tinta

O sangue de quem escreve é sumo na sua escrita. O sumo de quem escreve é a tinta da sua escrita. Quando falta tinta melhor não forçar a caneta, não vale a pena. Só mesmo com uma caneta nova, ou com uma nova carga para a caneta. A tinta de quem escreve não pede um cêntimo do seu valor. Encontra-se aqui ali em todo o lado, talvez saltando já para o passado. A tinta tem entre tudo moléculas de experiência, e por vezes a experiência custa dinheiro, daí que não seja correcto dizer que foi de borla porque não foi. Mas desse preço não existe preço. Existe para lá do preço porque custando nada custa mais que todos os preços. E depois há mil e uma em cada mil e uma maneiras de um poder sangrar. Assim como há mil e uma em cada mil e uma maneiras de um achar que consegue escrever sem tinta. 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Aritmética

Pela matemática do texto fui dar à nossa situação de insolvência, ao nosso défice catastrófico, piorado vertiginosamente quando tivemos de fazer alguma coisa para o evitar. Ou talvez na verdade não houvesse nada a combater. A matemática do nosso texto é gigantesco ponto de interrogação. Esta é ainda assim a minha única esperança no meio disto tudo: o gigantesco ponto de interrogação. De concreto concreto, apenas o ponto de partida. O ponto de partida em mais que uma acepção do termo - pelo menos em três - mas não é esse o problema. O ponto de partida nunca é o problema. O problema é o ponto de chegada. Poderá levar uns quinhentos anos. 

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

11.

Dito assim passado é passado não é nenhuma mentira. Mas de que serve dizer passado é passado a quem não aceita contemplar o futuro? Seja porque não quer, seja porque não pode, seja porque não vislumbra nada além das nuvens negras que constantes poluem e impedem a(s) vista(s). Passado assim sempre a olhar o passado já nem é passado, é mais presente, sempre presente, passado presente, nunca passado passado. E o próprio futuro já não está nem vive no futuro, nem sequer está no presente. É mais passado, futuro inserido no passado, futuro perdido no passado. 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O que não parece, é

Interessa-me pouco a escrita diarística como mero registo factual de eventos. Deixando o mais pessoal de fora, ou não engreno com isso ou não sei engrenar. Menos interessa o que vai para debaixo do tapete, ou coisa pior, tipo havia um bêbado na rua de madrugada, chegou-me ao correio uma carta das finanças, já não é a primeira vez que me falha este esquentador; ou o transito estava impossível e bem pior que em todas estas greves do Metro às quintas-feiras... Não vou duvidar do curioso para lembrança futura. Ler como se olha aquele álbum de fotos que como mais nada na vida nos atiça e reinventa (as) memórias. Pena que tão raramente me dê a esses trabalhos - duas ou três vezes por ano, se tanto -, mas quando eventualmente acontece, é sempre a mesma luta inglória a cada frase. Sobretudo por querer entrar pelo que escrevo adentro e depois ter o problema de não saber muito bem quando nem onde saio e o que quero ali é comer o bolo todo até ao fim. Para o texto o gozo do texto, enumerar factos não é propriamente escrever. O factual, na melhor das hipóteses, não me passa da panorâmica à vista do que já se vi. Na pior, é mais um burocrático aborrecido exercício, o que até faz mal, força o sistema nervoso. E então, como remédio, vai de meter ficção, truncagens e forjanços, muita sumária aldrabice para temperar o gosto e poder haver algum mínimo interesse no my own subject. Claro que nem todos somos parentes de Dom Quixote, nem sequer primos distantes. Nem de um David Foster Wallace com as suas mais de mil páginas a letra minúscula (dizem, ainda não folheei o livro). 
Disso da distância que nos dá o longínquo Foster Wallace fiz prova primeira há pouco tempo ao ler aquele muito bom ensaio sobre um famoso jogo Federer/Agassi. Ainda não fiz prova segunda, muito menos a verdadeira prova, que tenho fora das prioridades. Mesmo assim nunca se sabe, talvez o entusiasmo de Rogério Casanova e a recente leitura de Rui Ângelo Araújo façam com que um dia morda o isco. Ou se existir isso do tempo e da leitura certos para a altura certa, tipo colheita da Primavera (quem sabe?). O que não me parece. Ou então parece que não me parece. O não me parece choca com esse batidíssimo cliché que leio e ouço aqui ali de vez em quando: o de que o que parece, é. Já as variantes nunca se ouvem. Ou ouvem? Eu nunca ouvi. Nunca ouvi dizer o que não parece, é. Nunca ouvi dizer o que parece, não é. Mas na política, no futebol, nos negócios, em conversas subliminares ou naqueles normais palpites do real, quantas vezes não o ouço dizer: o que parece, é. O que se diz em jeito de adivinha adivinhada, de sabimento e conhecimento. Problema é as vezes em que o parecer se vê desmentido - muitas mais do que parecem, claro - e a realidade dá a ver, cristalina, que o que parecia afinal não parecia nada. E não parecia mesmo. Como dizia o mago João Pinto, o defesa direito: "prognósticos só no fim da partida". Não há cá testes a posteriori. Não há mas eu fiz um. Teste de quê? Um teste de realidade a posteriori, claro, e fazer um teste de realidade a posteriori assim agora, só mesmo com os exemplos acima citados, a contar da terceira linha do texto. Pois dito e feito, resultado unânime em quatro das prerrogativas: o que não parece, é. Vejam o bêbado, descobri quem era numa investida à varanda, e se vos disser o quanto não fazia a mínima ideia, o quanto tal nunca me passou pela cabeça... Ressalvo que tive de eliminar a carta das finanças, fez batota e aquilo nem é bem um roubo, é mais um assalto autorizado. 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Depois de Moby Dick

Não é dos meus romances de eleição, certo que achei nele passagens extraordinárias, históricas, épicas até, mesmo inesquecíveis; mas também encontrei o enfadonho aborrecimento, por vezes um certo arrastar penoso, pastoso, um tanto ou quanto para o chato. Porém, enfim, como nos grandes clássicos, algo no conjunto transportava-me em sua viagem, apontando muito além da escuridão que emanava. Recordo bem a louca e indestrutível obstinação de Ahab, que perante o prenuncio do desastre, se tornava em crescendo assustadora. Era a tensão principal, entre várias. Mas do bolo o recheio: a descrição do Pequod, dos mares e marinheiros, os singulares personagens, suas rotinas diárias, as particularidades e características da genuína navegação. Depois a viagem mental de Ismael, seu fluxo de consciência entre os meandros do medo e da descoberta, suas reflexões e iluminações, certa preparação iniciática, e, finalmente, com o perigo eminente à espreita, a preparação para o embate final e definitivo - a baleia branca gigantesca indomável, letal e impossível ao desafio humano. Os efeitos da fúria de Moby Dick encerram a obra, ecoando depois muito além da leitura - apenas entendida pelo mundo bastante depois da edição do livro -, ou melhor, ecoaram...  

Mesmo assim não posso dizer que Moby Dick me tenha deixado particulares saudades, pouco até creio que alguma vez se torne um verdadeiro companheiro de viagem, muito menos livro de cabeceira, simplesmente não é obra que me dê vontade de reler, ou sequer sinta curiosidade em regressar. Moby Dick porém pensa o contrário. Ou melhor, pensava o contrário. Certo dia em que se fez anunciar. Para dizer que ainda não tinha sido lido por inteiro. 
Fez-se anunciar sim. Certo dia fez-se anunciar, e entrou, eu já tinha começado a sentir a sua presença, não sei porquê pensando no livro, até que comecei a revivê-lo
Tudo começara enquanto seguia viagem para sul. Eu disperso em pensamentos, a sentir-me em dias negros, estava Moby Dick a chegar-se a mim, até tudo se tornar mais claro, claro em sua própria escuridão, até eu seguir outra vez dentro daquele mesmo barco. 

Era eu, Ismael, a navegar em negritude, tempestade e névoa lá fora, o perigo crescente e repetido alternando idas e vindas num acentuar-se em espiral à medida do seu tempo. Sentia o mal eminente, sabia que assim chegaria a algum ponto culminante, a algum trágico final. Alguma espécie de colossal baleia branca estaria perto, muito perto. Eu era o próprio Ahab, não podia ser mais ninguém. Também era o Pequod, os marinheiros, tudo ali era eu, via ao naufrágio anunciado. Saber toda a história não serviria para nada, o livro ainda hoje não me diz grande coisa. Todos os avisos eu ignorara, prosseguir viagem, alcançar a baleia branca era tudo o que desejava, com a obstinação dos loucos, nada me faria demover contra todos os avisados e até sábios conselhos que insistentemente dera a mim próprio. Isto ia até ao fim! E foi, foi até ao fim. Talvez Moby Dick  me fosse o mal inultrapassável, talvez fosse enfim a natureza a querer dar-me sua categórica e definitiva lição. Verdade é que já estava fora, naufragara. Afinal de contas, não tinha acabado de ler o livro. Achava que tinha, por tê-lo fechado depois de lida a última palavra na última página, depois de ter lido todas as palavras de todas as páginas. Mas afinal não, não tinha, havia contas a ajustar, fora eu mesmo que as fizera. 

Hoje sei, sinto, posso dizer: Moby Dick não voltará mais. 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

10.

Gosto da vida com literatura. Gosto da literatura que se serve da vida para dar vida à literatura. Não gosto da vida sem escritores, como não gosto de escritores sem vida.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

2014


Gosto de escrever, preciso escrever, tenho e terei (outras e) mais escritas de permeio. Mais as leituras e mais que eu leia mais quero ler, mais que investigue mais quero investigar, mais que eu ouça música mais quero ouvir, mais que eu veja filmes mais quero ver e por aí adiante desde que não fique cheio e inchado até chegar ao inevitável do tempo que tudo rege para dizer mais que eu tenha tempo mais tempo quero ter. O que não é tão bem verdade, ou não é tão bem assim. Quanto mais tempo se tem mais tempo se desperdiça, essa é que é essa. O tempo arruma-se. E tem dias em que quanto menos há melhor se arruma. Tenho o problema de ser um incurável desarrumado. O que até pode resultar. Descubro coisas às vezes enquanto me desarrumo e estou em tempo de arrumá-las. Sei, já é dia 31/12 e sem tempo não há balanços. Também é esse o estado da arte: falta de pachorra para muita coisa, bastante para muito pouca. Bendita seja a pouca. Por exemplo o filme “Killing Them Softly de Andrew Dominic (já tinha visto antes no cinema o extraordinário “The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford”) que aluguei e contado vi seis vezes. Sim, seis vezes, intercaladas e ampliadas pela repetição das cenas. Porque  o aluguei? Por causa do realizador, mas sobretudo por quem o escreveu e inventou ali quase tudo, muito por ter vivido e bebido daquilo enquanto fazia o seu trabalho de advogado na cidade de Boston. Falo do grande George V. Higgins de quem já tinha entrado como que em êxtase no mui importante e inolvidável “The Friends of Eddie Coyle”. Higgins é de longe o escritor mais sub-apreciado que conheço. Já escrevi o óbvio e repetido que sem ele não havia nem Tarantinos, nem Elmore Leonards nem mais as dezenas de sucedâneos óbvios, mas por curiosidade fui ver ao You Tube tudo o que era entrevista em roda do filme - inclusive no Festival de Cannes - mais a conferência de imprensa de apresentação da obra e só por uma vez seu nome é nomeado e por causa de uma pergunta  explícita a propósito de "The Cogan's Trade". Claro que o filme partilha em tudo do seu humor, inteligência, poder de síntese, juntando às palavras a superior realização e banda sonora mais as interpretações supremas de grandes actores (enormes, James Gandolfini a provar que não era só o Tony Soprano; o incrível e genial  Ben Mendelsohn, da Austrália para o mundo; o impagável Vincent Curatola, sobretudo para quem não se esquece Johnny Sack dos Sopranos; Brad Pitt, que já sendo um actor magnífico, que o é, faz aqui a meu ver uma das suas melhores interpretações para a história, cada vez mais seguro, cada vez mais clássico no sentido daquela classe pura ao alcance de poucos). 
Mas repito, só mesmo os diálogos, as falas, essa superlativa esgrima de palavras ditas em eficácia e tom certeiros para ver e rever e repetir mais umas quantas vezes e aprender como se faz. Mesmo que também valha o upgrade aos tempos de hoje com a presença dos noticiários constantes aquando da crise do subprime, culminados no discurso de eleição de Barack Obama na última cena do filme, que soou tanto a promessa e hoje sabemos que do essencial tudo continuou sumamente na mesma, com os resultados que sabemos. Lampedusa nem pode ser para aqui chamado porque nada foi preciso mudar e também nada ficou na mesma porque na verdade tudo piorou. Enfim, não queria ir dar a isto. Se querem que vos diga neste momento não me podia estar mais nas tintas. Digo-o no melhor sentido do termo. 
Bom ano a todas e a todos os leitores deste desorganizado desarrumado estabelecimento. Que tenham um bom e feliz novo ano. Saúde. 

sábado, 14 de dezembro de 2013

9.

O televisor desligado a fazer de espelho involuntário. Vejo ali um bloco de notas, o sofá, eu (pelo menos parece), alguns livros que leio (ando no um por género) pela primeira vez juntos nesta sala. Intrépidos e desafiantes, nenhum passível de ser abandonado (às vezes acontece) podendo eu ler muito mais e não lendo tanto quanto as livralhadas aqui me pedem e/ou exigem. E o sol bate-me forte na cara e daí vem-me à memória certa canção de Neil Young como se um raio luminoso se me tivesse ligado essa jukebox mental que há em cada um de nós, cheia de canções ou músicas agarradas pelo gosto e pela memória. Neste caso nada do genial amargo, tempestuoso e temperamental de um “On The Beach”, “Tonigh’s The Night” ou "American Stars'n'Bars" que até combinavam melhor com os dias. Também tinha a janela fechada. 

domingo, 24 de novembro de 2013

8.

Chamaram-me control freak e se tinham razão, não me conseguiram levar, à razão. É sabido que há humanos que se assemelham às melgas pela forma como abordam e como atacam. Conseguiram até, na sabedoria da nossa língua, transformar essa humanamente incómoda espécie da natureza em seu próprio adjectivo. Na verdade são apenas um pouco mais inteligentes que as ditas. Mas não foram melgas que me chamaram alguma vez control freak, longe disso, pelo contrário, perderia a graça. Serve só a chalaça para dizer mil vezes controlar a ser controlado. E que as melgas andam carnívoras. 

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Máscara Ancestral

Olho a máscara ancestral. Bela e rude. Canto perdido, de desespero. Estátua espelho, grito remoto. Longínqua voz em decoro artesanal. Neste país que nos apodrece, sua forma até exprime um grito consoante. 
Na raiz está todo o porvir. Mecanismo puro, vital. O poder germinar. Uma máscara dá-lhe forma. Todos nos podemos rever nela, constatar o esquecimento. Que apenas esboce um rosto humano, é esse silêncio que se ouve em estridência.

sábado, 5 de outubro de 2013

Três Anos

Três anosOutro tempo. Com os dados da hora, local e data um dia ainda lhe faço uma free astrological chartAbsurdos à parte, nunca antes tinha ouvido esse nome: Desertações. Também quase ninguém deve ter ouvido: não existe, pelo menos no dicionário. Digamos que se me anunciou entre a abstracção estéril e a associação de ideias. Vá lá que o blogue existe. Engraçado que seja o post 500 - entre os rascunhos e os publicados. O que em 3 x 365 dias dá muito espaço entrelinhas. 

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Ilíada

Vou puxar pela (ir)realidade. Provocá-la, fazer uma oferenda aos deuses, um carneiro em noite de lua cheia como nota de pedido e agradecimento por este dom da Vida. Pode ser que vejam, pode ser que ouçam, pode ser que se compadeçam. E que te tenha à frente um dia, e que aconteça o que tiver de acontecer, que é o que é suposto acontecer (eu sei) porque entretanto os deuses fizeram contas, olharam a situação, viram a nossa posição. E decidiram pôr tudo em sentido. Terá de ser um Deus dos nossos, imagino, mas tenho de decidir bem com toda a certeza, e com o cuidado que um ou outro nos possa vir estragar a festa.

domingo, 22 de setembro de 2013

6.

 - Falei na tese da mentira piedosa. Escreveu volumes de chica-espertice.

Tinha dito que não voltaria a prestar-se a tanto. Cambalhotas desnecessárias, dejá vu antecipado, treino de manutenção do nada. Nada vale a pena quando a alma é pequena.


Sua entrada na vida dele foi como a chegada das tropas napoleónicas. Não ia cá ser mais que os outros, e nem pensasse em fugir para o Brasil.