Mostrar mensagens com a etiqueta Cinema. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cinema. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Um Dia na Terra

1 - Nick Cave é um desses que sempre me marcou, já vem de há muito. Bom nos bons dias, perfeito nos maus dias - qual desinfectante para feridas complicadas, qual analgésico para frustrações -, vem mesmo a calhar ouvi-lo falar na canção como desafiadora da morte, a única capaz e com força suficiente para fazer arrancar a cabeça do dragão. Não que a ouvir Nick Cave já não tivesse sentido esse estado em que nos parece possível arrancar a cabeça a esse temível monstro que ainda por cima voa e deita fogo das entranhas. 

2 - Nick Cave sabe dar a canção às palavras, mas também sabe dar as palavras à canção. É desses poucos - onde incluo Johnny Cash, Neil Young, Nick Drake, Mark Lanegan, Leonard Cohen, Van Morrison, Jim Morrison, Bob Dylan, Bruce Springsteen, Fausto, Sérgio Godinho, Serge Gainsbourgh, Paolo Conte, Chico Buarque, entre outros tantos; e não incluo tantos outros que são muito boa gente, certamente, até porque têm muito boa imprensa, mas de onde, enfim, ou muito me escapa, ou lhes falta um qualquer destes dois atributos para completar a equação, sobretudo dar a canção às palavras. Já nem falo dessa força, dessa fúria, desse intento visceral, da sentida inspiração, da mesmo que momentânea iluminação, da capacidade que nos faz ao menos acreditar que, se não é tudo possível, pelo menos é possível qualquer coisa, quanto mais não seja ouvir uma canção que nos encha as medidas. Isto com o maior dos pessimismos, claro, com a absoluta descrença do falhanço. Com tudo o que Nick Cave tem criado desde os Birthday Party. 

3 - Junto ao poder do cinema, à forma como nele se pode projectar o valor do som e da imagem em sua gramática própria fundida às da canção e da palavra. Nick Cave diz que passa o tempo emerso a escrever, da escrita surgem as canções. Da vida, da morte e do porquê disto tudo ser tão escuro, tão negro, confuso, perdido. No labirinto de Cave, o que não é lúdico pelo seu humor tão negro, é trágico nesse sentido poético do termo, onde a saída é a sublimação do sentimento que não há saída. De onde se impõe por exemplo aquele encandeante acorde de orgão de Warren Ellis. Ou aquele final onde se completam e colam as diferentes peças do filme com a naturalidade como se explica a Forma da canção. 

4 - Outra coisa são as palavras que trazem de dentro profundidades inauditas. Mas eis que entretanto as ideias já entraram, tomaram parte na casa... Verdade que vieram de dentro, seguindo a intuição segundo seu preceito de pensamento total concentrado, de expressão da sua e da nossa singularidade. Porque só nos conhecemos a nós próprios, quando, enfim, ainda não nos tínhamos conhecido.

5 - Isto num dia de nevoeiro, Nick Cave falava do tempo, da forma como temia a natureza a partir da janela de sua casa frente ao mar na cidade inglesa de Brighton. Eu pus-me a pensar que sim, que havia ali esse nobre velho sentimento respeitoso do temente a algo que nos ultrapassa e nos é incomensuravelmente superior - algo bem próximo e descendente directo desse antigo temente a Deus com que o homem se tomava perante a sua real insignificância, e que hoje faz condão em esquecer e ignorar... Depois, ou cada vez mais de vem em quando, lá vem a "velha" Natureza ser lembrada, antes de mais nada, num qualquer alerta vermelho. Depois... Cave falava nas nuvens que cada vez mais se vêem no céu a ameaçar a catástrofe. O que da Natureza e por sua natureza vem de quem está habituado a enfrentar dragões. 

_________________________________________________________

PS: Este post vai atrasado, este blogue não é pago, e com isto aproveito para dizer que ainda há uma sessão diária do filme às 20 horas, enquanto houver sessões e enquanto houver salas... 

quarta-feira, 15 de outubro de 2014



Algures no Peru, milhares deles se juntam na praia como numa romaria. No mar, dezenas ou centenas vão para ali saltar acrobacias, quais surfistas sem tábua. Mais também parecem ginastas olímpicos com seus mortais além  da crista da onda. Secção essa excelentemente narrada por Josh Brolin para a série documental Untamed Americas, que gravei há uns tempos ao acaso e é uma maravilha que não sei bem ainda como classificar, a não ser que dá no canal National Geographic. O que mais nos maravilha ali é a ideia, o rigor, a tenacidade que se sente em todo um trabalho de transposição de uma realidade instantânea e irrepetível, capacidade essa de não apenas dar a ver - o que faz toda a diferença - a mesma Natureza em seus enredos que amiúde repetidos acabam por aborrecer o leigo que apenas constata que as espécies existem. Género quem vê um vê muitos* .
Apanhando de tudo um pouco ao longo de todo um continente de norte a sul - do Alasca à Patagónia - tanto faz que seja ordenada ou aleatória a forma como é apresentada cada espécie ou situação dentro da temática de cada um dos quatro episódios: Montanhas, Costas, Desertos, Florestas. 
Uma banda sonora de reminiscências cinematograficas (a fazer lembrar o Paris/Texas ou qualquer road-movie que se preze) seguida pela sentida e impressiva narração de Brolin através de um texto que em sua verdade, metáfora, timbre e imagética consegue em cheio fundir ideia com presença. Ora é precisamente o que se vê que acaba de servir como mote. Cada sujeito, cada assunto, cada espécie, há ali muita coisa para contar, não temos apenas as belas ou tristes histórias de quem sobrevive ou não, e de quem se impõe ou não se impõe.
Cada espécie em sua especificidade que aprofundada se pode tornar idiossincrasia; ou com melhor sorte, ainda pode descambar em fábula. Falo em fábula moderna, ou pós-moderna,  se quiserem, também pode ser. Não, aqui já não é apenas o leão que vê e a fêmea que caça e a ursa que hiberna e depois tem de caçar. Não, somos muito mais parecidos com os animais do aquilo que pensamos. [continua...]

* - tive de ver muito documentário de leões na savana em criança e não só para, como simples leigo,  estar habilitado a dizer isto, alguns de vós também, aposto. É quase senso comum. 

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Cinema

Toda Ela é Cinema
Sua presença se sente
não apenas se vê
não se filma meramente

Também nem que a visse antes
Musa-imagem assim fotografada
Iria alguma vez imaginar como
Absorve todo meu olhar filmada

E que em seu longo plano me tento
Como vento a emergir da escada
Em todo um acto que só vendo
Pairar depois assim de mim picada

Toda Ela é Cinema
Longo curto mover fixada
Dissipando a parte do presente
É todo o plano ficará mais nada

"Let's Play Cards"

A violência em Abel Ferrara é uma violência. Não é agradável. Não é preciso pintá-la em sangue e morte para torná-la impressiva. Não é estilizada à Tarantino. Não é coisa de efeito (nem é) decorativo - mesmo quando traz em si todo um jogo... Também não é aquela violência reflexão sobre a violência, como em seu Mestre Pasolini. Abel Ferrara assume Pasolini e Godard à cabeça, e quando muito, John Cassavetes, mas tem de tocar seu próprio som, que isto a cada músico a sua peça. Isto escondendo muito bem o profundamente auto-biográfico, que com algum conhecimento de causa, se pode ver ali bem impresso em filme. Esse cinema de quem se sabe fundir num argumento para depois, na realização, na improvisação com os actores, na importância do som e da fotografia, e até mesmo na produção e tudo o que rodeia a feitura da obra - como não podia deixar de ser quando falamos em verdadeiro trabalho de equipa e espírito de missão ou mesmo de guerrilha - tudo se completar em seu círculo círculo coeso, denso e fechado: «is an honour to make movies, a gift from God», diz o cineasta ítalo-americano algures enquanto lembra esse Orson Welles que levou quase uma vida inteira a achar que começaria a filmar na semana seguinte...

Voltemos pois à violência, que é o que aqui é me interessa (eis no que dá começar posts pelo fim), ao invés de é aqui o que interessa. Porque apesar de tudo é uma violência que nunca é princípio, meio ou fim, pois não tem princípio, nem meio, nem fim - ou mesmo forma de (se) acabar. Essa violência que, improvisada, é também contida e distendida, para poder disparar a todo o momento. Como nesse célebre jogo de cartas que acabou quando nem sequer tinha começado. 

quinta-feira, 31 de julho de 2014

21.

No mar fartei-me de nadar e de andar. Nas gélidas águas da costa alentejana deste ano (sim, sim), coisa que não deve haver desde há eras, como diz Neil DeGrasse Tyson, e é difícil de entender, melhor foi o corpo dentro de água, a cabeça fora ao nível do mar em meio êxtase flutuante, brisa marinha na cara e pescoço, e a beleza disto tudo sempre a despertar. Terrence Malick nunca esteve aqui nem na Costa Vicentina, de outra forma já teria filmado. É um sentimento de certeza que eu tenho. Como o encaixe perfeito que teriam sido os Pink Floyd fase 69-71 no enorme que era o cais antigo de Vila Nova de Milfontes, sob o rio, a foz, o mar, uma praia em frente, detrás a vila, do outro lado mais Rio Mira a preparar-se para serpentear ao passar da ponte, a serra sempre além... Seriam os sons de eternidade de Echoes, entre outros, a juntarem-se à "outra" eternidade nestes pontos descoberta a quem venha sofrer o maravilhamento. A eternidade que sempre se manifesta e nós que estamos sempre de passagem. 

NON


Até as falhas nos actores, nos diálogos e os planos e tempos desnecessários parecem fazer parte do cardápio. Manoel de Oliveira paira acima de todo o acidente. Oliveira incorpora, absorve em tudo, mesmo nos erros tudo no filme é sublimado. Pouco importa o redundante e desnecessário de certos momentos, a câmara impõe o desassombro de outros momentos: das interpretações, de certos diálogos, de toda a mise-en-scène desse cinema de representação pura e dura, genuíno em todo o artifício. Cinema para quem o sabe receber, para quem o vê, para quem o merece. 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Philip Seymour Hoffman (1967-2014)



A primeira vez que vi Philip  Seymour Hoffman foi em "Happiness", como muita gente, num papel daqueles que não se esquece, tão marcante e simultaneamente surpreendente era toda aquela interpretação - decadente, peçonhento, impressionante inesquecível personagem. A surpresa seguinte foi Phil Farma, o médico bom (bem sei que pode soar um pouco pleonástico dizer assim médico bom, mas era mesmo um médico bom, a encarnação absoluta do médico bom, como não me lembro de ver outro) de "Magnolia" que vi antes de "Boogie Nights" do mesmo realizador que me tinha até ali passado despercebido. Vá-lá que tive a sorte de o apanhar numa reposição não me recordo onde - no Cine 222, ou no Quarteto, ou no Nimas, ou no Mundial, ou terá sido na cinemateca, não sei. Só sei que Seymour Hoffman era aquele sonoplasta gordo efeminado e um pouco idiota. Eu que já estava mais que esclarecido em relação ao enormíssimo actor naqueles dois primeiros filmes, não podia acreditar num tal contraste em apenas três interpretações. Tinha ali um verdadeiro camaleão, talvez até mais que isso. A transformação em papéis soberbos e/ou inolvidáveis - que dava a ideia até de ser física, quando no fundo víamos o actor mais ou menos sempre com a mesma compleição - continuei a ver em "Big Lebowski", "State and Main", "Almost Famous", "Punch Drunk Love", "25th Hour", "Capote" (admirável interpretação que deu em Óscar), "Charlie Wilson's War", "Moneyball" (a fazer as vezes do treinador de basebol Art Howe, priceless). Por incrível que (me) pareça ainda não vi "The Master", que não consegui apanhar no cinema e outra vez, por incrível que pareça, não existe no meu clube de vídeo (vai ter de ser no Meo, se calhar hoje) e é de todos o único Paul Thomas Anderson que até hoje ainda não vi. Cruel coincidência. 
Faltar-me à ver também "The Savages" e "Synecdoche, New York", dos que creio que vale mesmo a pena. Curioso que há uns meses, num daqueles acasos felizes, vi pela última vez o actor num filme já de há uns anos. Uma história verídica sobre um viciado no jogo chamado "Owning Mahowny", que o canal Hollywood teve a excelente ideia de pôr no seu alinhamento. Em muito boa hora, diga-se. Mais um personagem verídico onde Seyour Hoffman ultrapassou a fasquia. Ele que nos conseguia surpreender a cada interpretação como se fosse a primeira vez que o víamos actuar. Era como se nos esquecêssemos de todos os seus papéis anteriores. É a tal coisa da fasquia, Philip Seymour Hoffman tinha-a muito, muito alta. Neste caso dir-se-ia que conseguiu engolir o filme todo, quase até deixar de constar que tenha havido ali mais alguém (tenho uma leve ideia de Minnie Driver e John Hurt, que constato agora que lá estava). Deixo-vos este vídeo em jeito de homenagem. 


sábado, 18 de janeiro de 2014

Uma Cópia de Verdade



Orson Welles andou um filme inteiro a estudar falsificações. Histórias de cópias e falsários de tal forma complexas, intrincadas e substanciais que a determinada altura, como que sub-repticiamente, a pergunta impõem-se: e se a cópia, à sua maneira, se torna tão ou mais relevante que o original? Ou pelo menos fica o sublinhado em como determinado tipo de cópias acabará de certa forma por se tornar o seu próprio original. Para isso é preciso ver o exemplar do seu trabalho sobre o invisível mimetismo da grande obra de arte. Há também hierarquias para isso, claro, tem de haver. Hierarquias sustentadas no saber do falsificador em sua complicada tarefa do alcançar da veracidade - onde podem contar altos níveis de virtuosismo, minúcia e sentido de pormenor -, sendo o alvo mais ou menos atingido consoante o falso (a mentira) se consegue confundir com o verdadeiro (a verdade). 
O que pode ocorrer de duas maneiras: ou ludibriando-nos - por tempo indeterminado, quem sabe -, ou então assumindo sua natureza de cópia mostrando ao mundo todo o seu jogo. No primeiro caso, a ignorância do seu mérito maior é seu próprio segredo e assinatura (de excelência). No segundo, impõe-se essa tal hierarquia de aproximação ao verdadeiro. É quando podemos dizer: «é uma cópia de verdade!». Quando também podíamos dizer: «é uma cópia apanhada pela verdade». O que pode não ocorrer nas melhores falsificações. As tais que tão bem se confundem com o verdadeiro que a verdade mesma fica por revelar por tempo indeterminado.

            

Abbas Kiarostami em "Cópia Certificada" vai por aí de outra maneira. Aqui o faz de conta é uma possível e/ou impossível história de amor que acontece a determinado momento entre um escritor que se debruça sobre falsificações e uma galerista de arte que se interessa pela sua obra - onde se pode incluir um livro publicado sobre esse mesmo assunto. 
Resumindo: um escritor (William Shimell) e uma galerista (Juliette Binoche) que nunca se haviam cruzado até então - tendo-se conhecido pouco antes numa palestra do escritor - embarcam por um desses circunstanciais acasos da vida numa viagem de carro através da Toscânia. Conversa puxa conversa, muito acerca do assunto das cópias e falsificações, gera-se ao mesmo tempo um processo de empatia e envolvimento que tem seu ponto culminante* quando uma senhora num café os confunde com um casal de verdade. Se é apenas um acaso ou se a reflexão interior acerca do sujeito verdade versus falsidade (ou veracidade) teve sobre isso influência, isso agora interessa, podendo sempre ficar como tópico de reflexão. Interessa sim e muito, é o que aconteceu imediatamente a seguir, de somais importância em sua, passe o termo, singular singularidade: o exacto ponto de intersecção entre a realidade e o sonho, entre a verdade e veracidade, entre o original e a cópia. Esse ponto está precisamente ali, no seu assumir como um casal de verdade, eis essa a ponte para o outro lado. Afinal o assunto sobre o qual haviam falado e reflectido está mesmo ali à frente dos olhos, a poder ser vivenciado, testado, experimentado. Eles mesmos tinham ali a (sua) oportunidade (tão rara), eles mesmos podiam ser a cópia de um original, a cópia de um casal original. 
Há nos dois personagens (enfim, mais nela que nele) a tentação e o instinto de passarem para esse outro lado, de cruzarem instantaneamente essa ponte fictícia. Ela exteriorizando-o mais. Ele vivendo-o também, se bem que reflectindo bastante, sendo mais contido. Sim, podia ser um mote, uma mola, uma alavanca para uma história de amor. Porém um mote que abre em si todo um problema, quiçá irresolúvel, pois que assumindo-o como disfarce, o mesmo cai em si pelo mecanismo da verdade, ou dito por outra palavras, os dois não teriam assim nenhuma hipótese de prosseguir assim tão sublime jogo. 
Por outro lado, não assumindo o disfarce, e fingindo o amor como se tivesse realmente acontecido, acabam eles por entrar no âmbito do sonho. E no sonho, quanto menos sabemos que é sonho, quanto mais o sonho é fiel a si mesmo, à sua natureza de sonho. Não, o sonho aqui não é o sonho do amor vivido, isso podiam atingir eles acordados. Já o serem um casal feliz há muitos anos juntos, e com uma vida em comum completa e satisfatória, para dois desconhecidos só mesmo em sonho. Porém os sonhos apenas duram enquanto nos iludem. A cópia também, e como nos exemplos de "F Fake", também esta cópia (de casal) é suficientemente complexa, intrincada e substancial para acabar por desenvolver o seu próprio mecanismo, a sua própria história, o seu teatro. Eis o que assemelha as duas obras, o que as une até, pois tanto dois desconhecidos a fingir o casal perfeito como os falsários das grandes obras de arte têm em comum esse negativo da cópia. O mérito supremo de Orson Welles e Abbas Kiarostami é darem-nos a ver o seu lado positivo. 


* - o chamado plot point, que se pode ler em certos on writings desta vida, é uma expressão aqui perfeitamente adequada. A hell of a plot point, digo eu, ponham a hell nisso. Só duvido é que esteja devidamente enquadrado no ponto geométrico que certos gurus dizem que deve estar, mas isso é toda uma outra conversa.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

2014


Gosto de escrever, preciso escrever, tenho e terei (outras e) mais escritas de permeio. Mais as leituras e mais que eu leia mais quero ler, mais que investigue mais quero investigar, mais que eu ouça música mais quero ouvir, mais que eu veja filmes mais quero ver e por aí adiante desde que não fique cheio e inchado até chegar ao inevitável do tempo que tudo rege para dizer mais que eu tenha tempo mais tempo quero ter. O que não é tão bem verdade, ou não é tão bem assim. Quanto mais tempo se tem mais tempo se desperdiça, essa é que é essa. O tempo arruma-se. E tem dias em que quanto menos há melhor se arruma. Tenho o problema de ser um incurável desarrumado. O que até pode resultar. Descubro coisas às vezes enquanto me desarrumo e estou em tempo de arrumá-las. Sei, já é dia 31/12 e sem tempo não há balanços. Também é esse o estado da arte: falta de pachorra para muita coisa, bastante para muito pouca. Bendita seja a pouca. Por exemplo o filme “Killing Them Softly de Andrew Dominic (já tinha visto antes no cinema o extraordinário “The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford”) que aluguei e contado vi seis vezes. Sim, seis vezes, intercaladas e ampliadas pela repetição das cenas. Porque  o aluguei? Por causa do realizador, mas sobretudo por quem o escreveu e inventou ali quase tudo, muito por ter vivido e bebido daquilo enquanto fazia o seu trabalho de advogado na cidade de Boston. Falo do grande George V. Higgins de quem já tinha entrado como que em êxtase no mui importante e inolvidável “The Friends of Eddie Coyle”. Higgins é de longe o escritor mais sub-apreciado que conheço. Já escrevi o óbvio e repetido que sem ele não havia nem Tarantinos, nem Elmore Leonards nem mais as dezenas de sucedâneos óbvios, mas por curiosidade fui ver ao You Tube tudo o que era entrevista em roda do filme - inclusive no Festival de Cannes - mais a conferência de imprensa de apresentação da obra e só por uma vez seu nome é nomeado e por causa de uma pergunta  explícita a propósito de "The Cogan's Trade". Claro que o filme partilha em tudo do seu humor, inteligência, poder de síntese, juntando às palavras a superior realização e banda sonora mais as interpretações supremas de grandes actores (enormes, James Gandolfini a provar que não era só o Tony Soprano; o incrível e genial  Ben Mendelsohn, da Austrália para o mundo; o impagável Vincent Curatola, sobretudo para quem não se esquece Johnny Sack dos Sopranos; Brad Pitt, que já sendo um actor magnífico, que o é, faz aqui a meu ver uma das suas melhores interpretações para a história, cada vez mais seguro, cada vez mais clássico no sentido daquela classe pura ao alcance de poucos). 
Mas repito, só mesmo os diálogos, as falas, essa superlativa esgrima de palavras ditas em eficácia e tom certeiros para ver e rever e repetir mais umas quantas vezes e aprender como se faz. Mesmo que também valha o upgrade aos tempos de hoje com a presença dos noticiários constantes aquando da crise do subprime, culminados no discurso de eleição de Barack Obama na última cena do filme, que soou tanto a promessa e hoje sabemos que do essencial tudo continuou sumamente na mesma, com os resultados que sabemos. Lampedusa nem pode ser para aqui chamado porque nada foi preciso mudar e também nada ficou na mesma porque na verdade tudo piorou. Enfim, não queria ir dar a isto. Se querem que vos diga neste momento não me podia estar mais nas tintas. Digo-o no melhor sentido do termo. 
Bom ano a todas e a todos os leitores deste desorganizado desarrumado estabelecimento. Que tenham um bom e feliz novo ano. Saúde. 

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Apontamento sobre o KING


Já tinha escrito sobre umas 18h50 no Cinema Monumental. O cinema King, melhor ou pior, andaria pelo mesmo. Ou talvez não tanto, que cinema mais de culto alimenta mais o culto. Culto de uns poucos quantos, uns poucos quantos que só têm vindo a diminuir. Até um dia o culto acabar. 
Viva eu quinhentos anos, o King há de ser sempre o meu cinema. Hoje e desde os meus dezasseis, dezassete anos. Do mais recente ao mais antigo. De Nicholas Ray a John Cassavetes. De Wim Wenders a Vincent Gallo. De Jean-Luc Godard a Abel Ferrara. De Nanni Moretti a Jim Jarmusch. De Robert Brésson a Emir Kusturica. De Hal Hartley a Miguel Gomes.  De David Lynch a Pedro Almodóvar. De Eric Rohmer a Aki Kaurismaki. De Michelangelo Antonioni a Abbas Kiarostami. De Monte Hellman a Takeshi Kitano. De João César Monteiro a Wong Kar-Wai. De Gus Van Sant a Christophe Honoré. Podia continuar este exercício de memória(s) como um puzzle ou como um quizz. Podia ajudar com outras salas, que sempre senti como sucedâneos do King, quais satélites em redor de um centro. Falta este, esqueceste aquele, este viste-o mais no Monumental, ou terá sido no Saldanha Residence, aquele outro foi no Nimas, não, foi no Ávila, não te esqueças do Quarteto, que foi ali que começaste a ver mais vezes cinema a sério. 
A Cinemateca era um outro universo, onde me guardei para outras mitologias - "Aurora", "The Night of the Hunter", "Sunset Boulevard", "Badlands", "The Fountainhead", "Barry Lindon", "The Searchers""F For Fake", etc. Tanto para dizer que só mesmo o fim de algum destes dois cinemas me poderia dar este sentimento forte e agudo de perda cinéfila. Pois é o que sinto por dentro com o encerramento do King. A parte maior e principal de uma aventura que se me iniciou aos cinco anos de idade com um filme chamado "Se a Minha Cama Voasse", no Cinema Tivoli, com a turma do pré-primário. Jamais esquecerei a experiência, aberto o cortinado, gigante a primeira tela de cinema, e depois, a vida dentro, magia pura, o reino dos sonhos, o absoluto fascínio, momentos de pura revelação. Repetimos com outro da Disney, o "Bambi", noutro cinema hoje extinto - o Cinema Europa - e repetiu-se o maravilhamento, inigualável. E sabia lá eu nessa altura ver um filme com um mínimo de requisitos, sentir a experiência sim, a experiência do momento que é de tudo o mais importante no grande ecrã, tudo o que não se pode ter perante um ecrã de televisão. Como já disse Godard (cito de memória): na sala de cinema somos subjugados pelo cinema, no vídeo somos nós que o subjugamos, o que faz toda a diferença. Diferença essa que mais se acentua em certo tipo de filmes. Uns porque perdem tudo fora do grande ecrã, outros porque não teremos praticamente hipóteses de os ver outra vez. É para esses, e não só, que há cinemas como o King. E que se vão extinguindo como os teatros e as livrarias. Que as razões do encerramento são várias eu sei - do brutal aumento do IMI a provocar o quiçá incomportável aumento da renda do espaço, a enorme crise em que vivemos, o peso das distribuidoras e dos shopping centers, a pirataria -, que tal sirva de desculpa já tenho algumas dúvidas. As suficientes para não posso pôr o meu grão de areia fora da equação. Sempre foram milhares de grandes momentos, um porto de abrigo de muitas tardes e noites, uma referência de vida, um lugar de aprendizagem, cultura, mundo e experiência, onde muito vi e aprendi. É tramado.

domingo, 24 de novembro de 2013

Lá fora




Pela mão forte e segura de Michael Mann - e pela excelência de toda a banda sonora - arrisco que de bom grado seguiríamos adiante por mais umas quantas horas. Com gasolina (chegava à vontade) mas sem legendas biográficas e factuais no fim. Era só continuar seguindo o que foi planando lá para fora. 

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Tabu

Lisboa naquele triste e nostálgico extraordinário preto e branco, um presente que logo ali se adivinha, português de tão antigo. É possível que a Saudade tenha nascido dessa antiga gesta a mundos remotos e desconhecidos, à memória do que já não volta. Deciframo-la quando Ventura nos conta de "Tabu" em África, ele a única ponte, a memória, o elo possível entre o que (ainda) resta e o que (nunca) foi. Pelo que ouvimos e vemos, percebemos que ela chamar-se Aurora não é ao acaso. E que todo o cinema é mudo, mesmo não sendo. 

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Guerra

Cada dia é dia de guerra. Uma guerra que começou a morrer com as armas de fogo. Ao samurai - que treinava pelo menos 12 horas por dia em todas as técnicas e suas variantes possíveis sob uma férrea disciplina física e espiritual feita numa aprendizagem em retiro desde tenra idade basta o gatilho e já está. Para não falar da bomba lançada de um avião, essa pode estoirar um templo inteiro com um exército de samurais lá dentro mais os seus mestres. Como todos os que só querem viver até apanharem com a mesma dose no telhado do prédio. Há outras maneiras, o horror das armas químicas, como agora na Síria; ou numa bomba atómica como a de Hiroshima, de um horror mais inimaginável. Ou com granadas e morteiros, ou aquela mina pisada sem querer.

Guerra que é guerra devia deixar os inocentes em paz. Fosse levada à letra e nem armas de fogo eram permitidas. Toda a guerra hoje não passa do tiro no escuro. Ganhar é só e apenas não apanharmos com o tiro no escuro do outro lado, ou até do nosso, como também acontece. Guerra que é guerra devia ter só guerreiros. Falo de guerreiros, não de soldados. Sabendo aliás de onde vem a palavra guerreiro, não consigo imaginar de onde virá a palavra soldado. Também pouco interessa, não é também o soldado carne para canhão?

Guerra que é guerra é do domínio do físico, do emocional, do espiritual, do mental, é contra o outro, mas é sobretudo connosco próprios. A guerra aliás é mais benéfica quando é feita contra nós próprios, os sujeitos da guerra, os fazedores da guerra. É essa a sua moral. O samurai apenas atacava no limite do limite. Quando assim era, normalmente safava-se. O primeiro a atacar, coitado, ficava sem cabeça. Vejam os filmes do Kurosawa, vejam a forma como Sérgio Leone o transpôs para os duelos nos westerns. O duelo sim, o duelo como forma leal no uso das armas de fogo. No cinema. 

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Elmore Leonard (1926-2013)




Não o conheci primeiro pelos livros. Foi pelo cinema, como muitos, através de "Jackie Brown", "Out of Sight" e "Get Shorty". Duas ou três gerações antes, há de haver quem tenha entrado pelos westerns – "Hombre", "Valdez Is Coming", "3:10 To Yuma", "Joe Kidd" – ou por "Mr. Majestyk", com Charles Bronson. Talvez uma percentagem maior, quem sabe. Nessa altura Elmore "Dutch" Leonard era menos conhecido como escritor do que como argumentista de cinema, mesmo que as histórias fossem contos que escrevera durante mais de dez anos para pulp magazines, entre as cinco e as sete da manhã, antes de ir trabalhar numa agência de publicidade. Hoje, há quem entre pela série de tv "Justifiedou pelo remake do "3:10 To Yuma" de há gerações atrás, escrito naquelas madrugadas.

Detestado por detractores e/ou por quem não lhe perdoasse o sucesso, alguma superficialidade e o lado comercial assumido, Elmore Leonard valia-se da qualidade, quantidade e diversidade do seu trabalho. O prestígio de alguma crítica e o peso literário de quem o incensava também contavam. Sobretudo Martin Amis, que o entrevistou e decifrou como poucos ou ninguém. Do nosso país, sei da admiração de José Rentes de Carvalho, melhor exemplo também não poderia encontrar. 

Depois há a safra dos “discípulos” ou fortemente influenciados: George Pelecanos, Michael Connelly, Dennis Lehane, Quentin Tarantino... Stephen King receava o dia em que deixaria de poder ler o último livro do old man. A mim sempre atraíram as "Ten Rules of Writing". Do resto, até agora, li muito pouco. Cuba Libre em português e Pronto no original. O suficiente para saber que Elmore Leonard deve ser lido em inglês, a diferença é da noite para o dia. Algo óbvio e natural em quem, acima de tudo, privilegia o som e os ritmos da escrita. A partir de "Pronto", e com ganas de continuar a ler o escritor, fiz uma aproximação de prioridades a partir de uma selecção entre o elementar e o minucioso: Riding The Rap”, The Complete Western Stories”, Tishomingo Blues, “The Hot Kid; enfim, talvez “Get Shorty”, talvez "Freaky Deaky","Road Dogs", etc... Já sou dos que entendem quem devore a obra do "Dutch", limpando tudo o que apareça à frente

terça-feira, 13 de agosto de 2013

GUADALCANAL

A Batalha de Guadalcanal pode ter sido muito importante na Segunda Guerra, não duvido, só não se pode é comparar a outras bem mais sangrentas, aterradoras e destrutivas o suficiente para não ficar pedra sobre pedra, muito menos imagens e histórias para contar.
De Guadalcanal ficaram documentos, relatos, fotos, filmagens, livros de história e romances. Nestes o maior destaque vai para "The Thin Red Line" de James Jones que além de soldado também era escritor e fez do inferno de Guadalcanal a segunda parte da sua Trilogia da Segunda Guerra Mundial*. O escritor pôde transpor para livro muito do que aconteceu e vivênciou. Décadas depois surgiria daí uma obra-prima para a História do Cinema. 

Volto de quando em quando à barreira invisível de Terrence Malick. Não existe tal coisa como o melhor filme da vida, no entanto, por várias razões que não vêm ao caso, devo dizer que "The Thin Red Line" de Terrence Malick é o filme da minha vida. Vi-o mais de vinte vezes, apenas três em sala, digo apenas porque a primeira vez foi no ultimo dia de visionamento e querendo revê-lo só o consegui anos depois na cinemateca para onde voltei outra vez outros anos depois. Sinto-me pois auto-autorizado a dar crédito à minha visão destes trinta segundos de documentário**, qual 
flashback, três planos que são o lado real de muito do que vi naquelas vinte e tal vezes. Pensei "é isto, é mesmo isto!". Imagino que foi por imagens destas que Malick dava cabo dos actores com takes atrás de takes que os atiravam às cordas. 

Do mais, nunca encontrei batalha na Segunda Guerra Mundial com o mesmo peso de metáfora, de capacidade de resumir tudo numa imagem, uma imagem que consiga contar uma história, uma imagem que encerrada de tal forma em sua redoma, consiga fechar o seu próprio círculo. Do que se vê, mais do que se sabe, Guadalcanal é o rosto daquele soldado a tal ponto desesperado que, no limite, pode chegar ao auto-desvanecimento - já não saber bem onde está, do porquê de estar ali, de lhe restar apenas o absurdo. É onde fica a barreira invisível, naquela estranha atmosfera hostil,  infestada de insectos, répteis, vírus, charcos, selva, canaviais. Onde o próprio tempo pode ser um inimigo maior que o inimigo que nos combate, quando tudo de dissipa como a luz num Buraco Negro.  

Lembro a reacção pouco entusiástica de um amigo meu na altura. A minha surpresa vinha mais de ele ter bom gosto cinéfilo e gostar de alguns grandíssimos filmes e cineastas. Mas adiante. Justificava ele o cepticismo, que "as coisas não se podem pôr assim desta maneira". Foi objectivo, talvez porque os japoneses estavam do lado errado da barricada. Não via o óbvio mesmo à frente do nariz. Por exemplo que se tratava de uma reflexão sobre a guerra, mais que um filme de guerra, que Guadalcanal era tão só o perfeito "ponto de cozedura". 
Tenho para mim que Terrence Malick não poderia fazer uma obra assim sobre o Vietname ou qualquer outra das guerras injustas. Onde é que encontraria aí o ponto? Onde ilustraria melhor a solidão do soldado moderno tão cara ao autor do livro? Onde é que melhor poderia encontrar a linha ténue, a barreira invisível? 

_______________________________________________________________________


* - "From Here To Eternity" sobre a vida na tropa, Pearl Harbour, o soldado Prewitt (o Witt de Malick, o espantoso Jim Caviezel) e a sua recusa em juntar-se à armada. "Thin Red Line". "Whistle" sobre o regresso, a convalescença e as marcas da guerra. 

** - A partir dos 36:48, a sequência e as imagens.

                  

quarta-feira, 13 de março de 2013

Stairway to Heaven


No que há de mais inventivo, genuíno e inovador o cinema clássico pode ser desafiado à vontade. Entre tantos, tantos outros, um “Aurora”, um “Citizen Kane”, um “Vertigo”, “Vontade Indómita”, "A Sombra do Caçador" ou este "A Matter of Life and Death" ("Stairway To Heaven" nos Estados Unidos)  da dupla Michael Powell / Emeric Pressburger. Quem faça - ou já fez - a experiência de ver esta obra-prima repara que é instantânea a sensação de que se está ali perante um objecto único: a mui tosca e arcaica tentativa de reprodução do Universo com as estrelas e as galáxias como um abrir de cortina  inicial só se concretiza quando se lê o THE END no fim. Uma história de amor como história da vida e da morte, sobre o que está além e aquém, sob o signo da ciência, da religião, da mitologia e do inexplicável enquanto somos inebriados pelo estupendo argumento e diálogos. 
Tentando resumir: um aviador da RAF na Segunda Grande Guerra é atingido em combate. É ainda o único sobrevivente de um bombardeiro que arde em queda livre, Peter David Carter  de seu nome (David Niven) fala ao intercomunicador com Jane (Kim Hunter), sabe que vai morrer e ela também, nada mais resta na última vez que falaria com alguém, tratando-se ele de um poeta a conversa ganha outro tom, sendo um soldado a combater tropas nazis a tomarem o mundo a coragem mistura-se com a absoluta intrepidez perante o que está em causa, o resultado acaba por evocar os deuses. Peter David Carter  sobrevive - um milagre sem pára-quedas - e encontra Jane, outro milagre. Com tanto "sub-texto" antes do primeiro encontro, o beijo entre os dois consuma-se sem soar forçado, o que é a primeira conquista do filme e  onde tudo começa: no jogo entre o real e imaginário. Como em Homero, dois enredos desenrolam-se em simultâneo, um do mundo visível, outro do "invisível". Peter terá de pagar pelos dois milagres, o além-mundo ainda não se decidira. Na verdade ele ainda não se salvou, tem dores de cabeça lancinantes, visões, alucinações, terá de ser operado. No mundo terreno lutará pela vida, lá em cima tem Deus  - ou os Deuses - e os antepassados a decidirem em tribunal celeste se ele viverá ou não, outra missão complicada, ter-se-ia de abrir um precedente. É desnecessário dizer que não há um céu ou inferno. Este é um filme sobre o purgatório, porque toda a incerteza é também ela uma espécie de purgatório. Os meandros e a forma como tudo se desenrola é o melhor prato do filme, não pode ser contado. Tenho só de sublinhar a maravilha que é aquela escada infinita para o céu, aquela stairway que me deixou a matutar se não seria dali que Plant, Page e companhia foram buscar o seu “Stairway to Heaven”, acho que não, mas parecia...

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Django Acorrentado



"Django Libertado" é um Tarantino de dimensão superior. Os pontos fortes estão lá: diálogos capazes de moverem montanhas; a mistura e (o soberbo) cozinhado de influências; o efeito surpresa, cavado a muita escrita, deixando as camadas escondidas sempre prontas a emergir, à hora certa, ou em plena tempestade. Essa segurança sente-se, é contagiante. Estamos a ver o filme bem lançado e podemos até dar palpites de "até onde é que isto vai chegar", na escala... O melhor Tarantino? O segundo, o terceiro...Dos melhores é concerteza (na minha hierarquia, salvo seja, só está atrás de "Jackie Brown" e "Pulp Fiction"), e com algo que o distingue dos outros: a mensagem. Efectivada em cinema e não o seu contrário, algo comum em tantos filmes políticos e biopics desta vida. 
Dr. King Schultz - superiormente interpretado por Christopher Waltz - funcionaria aqui como a voz do autor, distâncias geográficas e temporais à parte, o que até os aproxima mais, até num certo cinismo subentendido no personagem, passado por cima pela imensa intrepidez e coragem do caçador de prémios pronto e disposto a arriscar tudo quando necessário. É ele que com Django (e Broomhilda) contará na ultima parte do filme com o desafio supremo. Elevado à fasquia não só da trama como do próprio filme: Calvin Candie e Stephen  nas extraordinárias interpretações de Leonardo Di Caprio e Samuel L. Jackson. 
Se Di Caprio tem aqui um dos papéis de uma vida, já Samuel L. Jackson está de tal forma afinado e apurado que se pode imaginar ali qualquer outro a estatelar-se ao comprido. Jogando com a narrativa como se de cordas de marioneta se tratassem, capaz de virar tudo ao contrário consoante os "estremeções". Isso é a história, poderão pensar, passa ao lado, é que a "história", ou o personagem, escreveu-a Tarantino a pensar precisamente em Samuel L. Jackson; com ele em mente é que vieram as "fasquias". Cumplicidade essa que só reforça o que tem de ser reforçado: o tema da Traição que emerge inesperada e em toda a sua pujança, do mais em época de escravatura. Aquele que é assumido por Quentin Tarantino como o mais imperdoável dos defeitos tem aqui o melhor aliado para encarnar as suas formas mais retorcidas e perigosas: a traição entre os seus pares; depois a traição do subalterno, do capataz, do lambe-botas. O final de "Django Libertado" está assim mais que subentendido, mesmo que há quem o tenha como um tanto ou quanto forçado. À justiça o que é da justiça, como em qualquer filme de vingança ou western spaghetti que se preze (e não só, Clint Eastwood que o diga). As balizas estão claramente definidas. Ponto. O que interessa está adiante, muito além da "história". Está lá toda, escarrapachada, a falta de vergonha e desumanidade da escravatura. E os fantasmas que forem precisos. Só não podem é estragar o filme que Tarantino quer fazer. A escravatura torna-se assim um ingrediente, importantíssimo, mas ainda assim um ingrediente. Tal como a história que também fascinou Wagner e as homenagens e piscadelas de olho ao western spaghetti e a Sérgio Leone. 
A mão de Tarantino está primeiro no argumento, só depois na câmara, como que a dizer eu decido, mando e comando o que quero, como quero e quando quero; insistirei no horror da escravatura as vezes que forem necessárias para que no fim, naquela colossal explosão de dinamite, naquela total destruição do símbolo esclavagista que é aquele casarão, a catarse se torne em festa, "A Fistful od Dynamite", para não sobrar nem mais fina das ervas daninhas...

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Reality



"Reality" de Matteo Garrone começa com um plano geral sobre Nápoles e o Vesúvio, a câmara vai depois descendo em lenta panorâmica aérea até chegarmos a um casamento, ou melhor, a um casamento em ponto de festa. Começará  como acaba, em Luciano*, um peixeiro da Nápoles mais antiga: alegre, afectuoso, hiper-extrovertido, misto de chefe de família e animador de serviço - o que mal mal parado pode dar em bobo da corte, como se verá mais tarde. No casamento está Pepe, um vencedor do Big Brother italiano. Sendo isto igual em todo o lado, Pepe dedica-se às aparições em festas, casamentos e "eventos", enquanto rende o peixe, tentando escalar patamares e (ou) evitar o mais possível o esquecimento. Luciano, esse tem talento de sobra, diz a família, dizem amigos, vizinhos, conhecidos. E repetem e insistem tanto que acabam a puxá-lo para um casting em Roma, em plena Cinecittà  - pelos vistos na Itália inventada por Berlusconi os lendários estúdios podem também para servir isso... -  e depois é só esperar. Tudo certo então num mundo em que o que é preciso é acreditar e ter pensamento positivo - a ideia é never give up, como diz o tal Enzo vencedor. Luciano, à sua boa maneira, é o maior, e muito melhor que muito nabo vazio que é eleito para aqueles concursos, está só a um curto passo da fortuna, da fama, do reconhecimento, dos problemas financeiros. O trabalho como peixeiro perde aqui todo o sentido, há que vender a banca do peixe. Entramos, enfim, no âmago de "Reality". Luciano acredita tanto que está prestes a entrar "na casa" que é ele próprio que se torna o reality show, tragicamente mais real que o outro, mas isso é outra conversa. O que é preciso é acreditar, dar aos peritos o que é dos peritos. Ele ainda não foi chamado mas se vão entrar mais duas pessoas no concurso e andarão por aí avaliadores, porque não então aquelas duas senhoras com ar suspeito? É que as senhoras se denunciaram, não paravam de olhar e diziam que andavam à procura de alguém quando esse alguém não se sabe quem é nem nunca foi visto ali. Tinha de haver um propósito: ver in loco a futura estrela, confirmar que ele tem mesmo a tal banca de peixe como o disse nas audições. E se assim é para quê ser desagradável com o imprestável e inútil chato que ali anda sempre a pedir esmola e comida? Não, à cautela melhor mostrar-se a melhor das pessoas. Uma coisa leva à outra, a páginas tantas vai de dar os bens da casa, despojar-se de tudo, ser o benfeitor da comunidade para entrar como um herói no Grande Fratello. E nós que o vemos, constatamos o que todos já sabem: Luciano foi-se, ficou tão alienado que já não é o Luciano perante o mundo, mas o mundo perante Luciano. Perante Luciano, salvo seja, perante uma certa imagem de si próprio, ou melhor, uma certa imagem que quer projectar perante o mundo. Numa realidade em constante auto-projecção, a paranóia torna-se ainda mais efectiva na sua congruência implacável. Não fosse "Reality" uma comédia (dramática) tão bem esgalhada e veríamos com outros contornos aquele grilo que Luciano constatou que nunca tinha estado em sua casa, fazendo a nós e à sua pobre família imaginar que, porque não, poderá também haver ali uma câmara escondida. É aqui que o sonho, doentio (o sonho de entrar num Big Brother é um sonho doentio, não me lixem), invade finalmente e em toda a sua pujança a nossa frágil realidade. E já não há forma possível de se aceitar a realidade da derrota quando se tem toda a certeza da glória eminente. A negação ganha assim modos de sobrevivência. Pode até ser uma loucura temporária, passageira, um atordoamento sem grandes consequências. Uma alienação das sérias, um emparvecimento doentio mas passageiro, quando o “Big Brother” acabar isso passa,  dizem...
A comédia de “Reality” é muito mais que uma comédia, é um valente soco no estômago, mais, é um soco que hoje tem de ser dado. Não, não é o "Grande Fratello", mas sim o grande plano do rosto de Luciano o verdadeiro reality show. Sem tretas, nada de planos abertos, luzinhas de televisão e aparências estudadas ao pormenor, polidas ao extremo, impessoais e inofensivas como peixes num aquário. Matteo Garrone tem a coragem de mostrar sem dó nem piedade que só mesmo pela ausência de olhar e pensamento nos é possível esbanjarmos as horas do dia em frente a um ecrã para (vi)ver uma coisa daquelas. O que vale a Luciano é que todos tentam que regresse à realidade. Começa a trabalhar para uma igreja local. Mas é mais parece recaída de toxicodependente quando em Roma Luciano escapa à missa - não vemos o Papa mas imaginamos que esteja lá - para se escapar para Cinecittà. Não consegue resistir, qual toxicodependente às portas do Casal Ventoso. 
Se depois de finalmente conseguir entrar, e deixar-se filmar naquele enorme aquário simulado, acabou a rir a bandeiras despegadas não ficamos a saber porquê. Se era o riso dos loucos ou um riso de libertação isso já nos escapa. Já sem o dia claro, a bela Nápoles e o Vesúvio, mas antes com a noite e o frieza do betão de uns estúdios onde Fellini, entre outros génios, filmaram no passado grandes clássicos e obras-primas.A panorâmica faz então o movimento inverso. Se antes partimos do geral para o particular, no fim partimos do particular para o geral, bem mais próximos da realidade...  

_______________________________________________________________________


* - Na vida real a história é outra, o actor é o recluso Aniello Arena, antigo soldado da Camorra condenado a prisão perpétua. Vale de pouco entrar no lugar comum da surpresa de termos num preso para a vida numa interpretação daquelas. Interessa mais imaginar o outro actor que ele poderia ter sido. Aniello Arena é um actor imenso.

PS: Agora a editar isto descubro que o filme é baseado numa história verídica. Bem que eu escrevi que Luciano é que era a realidade. Mas, vá-lá, a banca do peixe foi readquirida.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Leonard Tarantino

É difícil encontrar autores tão aparentados como Elmore Leonard e Quentin Tarantino. Homens do "carácter", do personagem, onde o ponto de vista é a voz que comanda e avança e onde nem notamos quando tudo se resume a conversas, a um diálogo constante. Partindo da escrita o que acontece surge no seu processo, na sua própria descoberta. Para quê a "backstory" quando as melhores ideias nascem no (seu) momento? Um dos motivos porque Elmore Leonard recusou Hollywood - onde John Fante quase destruiu uma carreira, e F. Scott Fitzgerald se ajudou a desgraçar mais. - era porque não estava para isso. Quentin Tarantino é homem do cinema mas vai dando uns sinais ou ameaços de futura dedicação à escritaNuma entrevista em que ficamos a saber que os filmes que escreve são antes de tudo novelas prontas a sair ficando umas grossas fatias de lado na passagem para o (argumento) cinematográfico - um dia estarão cá fora, aposto. O propósito, óbvio, é o apanhar (d)a história, o beber da "poção mágica". De "Rum Punch" para o extraordinário "Jackie Brown" o processo pode ter sido o mesmo.