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terça-feira, 5 de agosto de 2014

Espaço-Tempo

Com espaço marca-se o tempo, com tempo marca-se o espaço. Partes do mesmo corpo e nunca separadas, nascidos momento-matéria, o mesmo organismo. Einstein despertou-nos para a evidência: Espaço-Tempo, entidade única, indivisível, indissociável, inseparável. Penso no tempo a trabalhar o espaço como todos os átomos do meu organismo - mais que todas as estrelas deste Universo ou grãos de areia de todas as praias do mundo - a interagirem simultâneos enquanto trabalho estas poucas linhas escritas. Posso pensar em todas as linhas escritas.  

quinta-feira, 31 de julho de 2014

NON


Até as falhas nos actores, nos diálogos e os planos e tempos desnecessários parecem fazer parte do cardápio. Manoel de Oliveira paira acima de todo o acidente. Oliveira incorpora, absorve em tudo, mesmo nos erros tudo no filme é sublimado. Pouco importa o redundante e desnecessário de certos momentos, a câmara impõe o desassombro de outros momentos: das interpretações, de certos diálogos, de toda a mise-en-scène desse cinema de representação pura e dura, genuíno em todo o artifício. Cinema para quem o sabe receber, para quem o vê, para quem o merece. 

domingo, 11 de maio de 2014

18.

Acordar com a Canção de Lisboa de Jorge Palma na cabeça é coisa que promete pouco. Do mal o menos, irei escrever. Na verdade estou mesmo a escrever agora neste bloco apanhado da mesinha de cabeceira. De certo só mesmo aferir da chama com que me deitei numa noite de palavras decididas. De incerto nada remanesce e arrasta a areia e prova-me a caneta que acordei desafinado. Então subo o volume ao grande Jorge Palma, trazido da melancolia da noite para o dia, o que também é certa decepção de mim próprio: penso em todas as palavras que não li subtraídas ao tempo que as tive para ler. Penso em marimbas no fundo da cabeça que a páginas tantas se nos oferecem no extraordinário Suicidas de Henrique Manuel Bento Fialho. Vá lá que aqui está tudo intacto, nem que seja na aparência. Sei que houve resistência para a avidez das tropas inimigas, hoje mais ávidas que nunca. A gente perde o rasto aos colegas do recrutamento obrigatório. Não me lembro de haver amigos na trincheira. 

quinta-feira, 17 de abril de 2014

16.

Inspirado, com as palavras prontas a chegarem sabe-se lá de onde, Henry Miller tinha esse hábito, antes de começar, dizia:«Sou todo ouvidos.». Então escrevia. A inspiração passa a palavra. O escritor só precisa criar condições necessárias à escuta. Limpar o terreno da vidinha. Buscar um género de neutralidade aparente (que de neutro não tem nada). A disponibilidade não se quer indisposta, Henry Miller tinha esse hábito. Dizia que quando não se consegue criar sempre se pode trabalhar. Então é limpar o terreno, deixar tudo a postos. Assim sempre se varre muito sábio conselho da escrita criativa. 

quinta-feira, 13 de março de 2014

A Máquina de Hemingway

É perigosa auto-consciência. Faz curto-circuito na máquina criativa. Bloqueia certo mecanismo que devia estar virado para fora. Ou dito de outra maneira, a máquina bloqueia se se põe a pensar que é máquina, coitada. Hemingway tinha razão quando dizia que there's nothing to writing etc e tal, tivesse pensado demasiado nisso e talvez nem tivesse saído da primeira frase do valente “The Killers”. O homem é a sua própria máquina de escrever. 

sábado, 22 de fevereiro de 2014




"I only care about the music. It's sad. Sometimes people are damaged by it. People who understand me can understand what that is. When the music is finished with me they'll all be back if they can wait for me. But if you can't see that about me you don't understand me so there's no relationship anyway." 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014



A Argentina como o Chile representam no extremo sul do planeta a “Última Thule”. Borges (para o efeito não importa que esteja parcial ou inteiramente cego) trabalha ansioso com o terceiro olho, aquele que perfura qualquer distância. Não contempla apenas a ribeira no outro lado, mas também a terra mais distante. Fixará a vista interior em ilhas tão afastadas como a Islândia, a Última Thule do Setentrião romano. Pretende esgotar meridianos e paralelos. Empreende a travessia indagatória para as vizinhas do Árctico não por um puro exagero de auto-desterrado que se projecta no outro extremo, mas porque no globo terráqueo, que é redondo, todos os pontos fazem parte da cultura universal. A sereia que o chama e provoca é a palavra escrita, os textos cardiais, o entranhável, processo das línguas. Cruza os mares para averiguar a formação de idiomas. Dá crédito à notícia que os vikings (“uma multidão de cães que saíram da caverna de uma leoa barbara") chegaram às costas americanas séculos antes de Colombo. Mas anda também atrás das vagas de soldados da fortaleza romana e das tribos germânicas que demoliam limites e derrotavam legiões, traziam nas mãos a espada e na boca o poder de um rico verbo comunicativo. E foi por isso que ocupavam a Islândia, a Inglaterra, a Irlanda, a Alemanha e a Escandinávia.
O homem nascido na fronteira sul não será um marginal. Sente a atracção do centro e das margens opostas, das histórias de guerreiros que inspiram escritas e engedram poetas com ou sem nome. Faz isso com a consciência de que são herdeiras e várias literaturas europeias modernas. Apaixona-se pela evolução dos alfabetos e a odisseia das escrituras. Sente curiosidade pelos textos subjacentes na superfície dos palimpsestos. Não desconhece que se tratam de pergaminhos cuja escrita original foi apagada para estampar por cima outras diferentes mensagens. Tal fenómeno supressivo, essa operação de substituição e sobreposição dá-se também no caso das religiões triunfantes, que constroem as suas igrejas na base dos templos do vencido. Borges é um caso curioso de um estranho e apaixonado poliglota, amante da gramática histórica, do fluir das filologias, do nascimento obscuro, gradual, acumulativo e correctivo nos lábios dos povos das línguas do hemisfério norte e por que não também no seu próprio. Vidente ou cego embebe-se nos poemas mais antigos, na gesta de Beowulf, nas Eddas da Noruega, Gronelândia e Islândia. Deseja penetrar na trajectória de géneros literários com ressonâncias vindas de além mar, que continuam a transformar-se pela voz das gentes. Seduzem-no as Sagas, espécie de epopeias em prosa, nascidas no século X, recitadas no calor do vinho e dos banquetes por um rapsodo que geralmente celebra façanhas de homens de carne e osso. Na sua opinião, as Sagas revelam “um carácter dramático e prefiguram a técnica do cinematógrafo”. Não tem dificuldade em aceitar que se inspiram na realidade e se reportam a factos verídicos. Não se incomoda que a sua forma seja a de uma crónica vinculada ao acontecimento objectivo e nem sequer se importa desconhecer o nome dos seus autores, mas talvez tivessem sido homens que recolheram esses factos esquecidos no anonimato das aldeias. E de algum modo correspondem ao impulso genético que nasce das próprias raízes e estão na origem do folclore, dos cantos populares que brotam como as flores do campo em todos os continentes, sem excluir sequer os povos latino-americanos.
Observa que a partir de certo momento (indica o ano mil) os 'thulir' ou recitadores sem nome são substituídos pelos escaldos, poetas que se identificam por um apelido e assinalam o aparecimento do escritor assim individualizado, mais ou menos profissional, que surge pela necessidade da sociedade, para a qual a poesia narra a história e denota uma tomada de consciência da sua identidade. Borges não hesitará em servir-se das literaturas estrangeiras de qualquer época e território para semear e adubar o seu próprio território, mas não será um súbdito incondicional. Adere ao princípio da autonomia criadora, tornando sua a opinião de Goethe de que “o Canto dos Nibelungos é clássico, mas não deve ser tomado como modelo, nem tão-pouco os chineses, os sérvios ou Calderón”. 

Os Dois Borges - Vida, Sonhos, Enigmas, Volodia Teitelboim, Trad. Serafim Ferreira, Campo das Letras, 2001

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Philip Seymour Hoffman (1967-2014)



A primeira vez que vi Philip  Seymour Hoffman foi em "Happiness", como muita gente, num papel daqueles que não se esquece, tão marcante e simultaneamente surpreendente era toda aquela interpretação - decadente, peçonhento, impressionante inesquecível personagem. A surpresa seguinte foi Phil Farma, o médico bom (bem sei que pode soar um pouco pleonástico dizer assim médico bom, mas era mesmo um médico bom, a encarnação absoluta do médico bom, como não me lembro de ver outro) de "Magnolia" que vi antes de "Boogie Nights" do mesmo realizador que me tinha até ali passado despercebido. Vá-lá que tive a sorte de o apanhar numa reposição não me recordo onde - no Cine 222, ou no Quarteto, ou no Nimas, ou no Mundial, ou terá sido na cinemateca, não sei. Só sei que Seymour Hoffman era aquele sonoplasta gordo efeminado e um pouco idiota. Eu que já estava mais que esclarecido em relação ao enormíssimo actor naqueles dois primeiros filmes, não podia acreditar num tal contraste em apenas três interpretações. Tinha ali um verdadeiro camaleão, talvez até mais que isso. A transformação em papéis soberbos e/ou inolvidáveis - que dava a ideia até de ser física, quando no fundo víamos o actor mais ou menos sempre com a mesma compleição - continuei a ver em "Big Lebowski", "State and Main", "Almost Famous", "Punch Drunk Love", "25th Hour", "Capote" (admirável interpretação que deu em Óscar), "Charlie Wilson's War", "Moneyball" (a fazer as vezes do treinador de basebol Art Howe, priceless). Por incrível que (me) pareça ainda não vi "The Master", que não consegui apanhar no cinema e outra vez, por incrível que pareça, não existe no meu clube de vídeo (vai ter de ser no Meo, se calhar hoje) e é de todos o único Paul Thomas Anderson que até hoje ainda não vi. Cruel coincidência. 
Faltar-me à ver também "The Savages" e "Synecdoche, New York", dos que creio que vale mesmo a pena. Curioso que há uns meses, num daqueles acasos felizes, vi pela última vez o actor num filme já de há uns anos. Uma história verídica sobre um viciado no jogo chamado "Owning Mahowny", que o canal Hollywood teve a excelente ideia de pôr no seu alinhamento. Em muito boa hora, diga-se. Mais um personagem verídico onde Seyour Hoffman ultrapassou a fasquia. Ele que nos conseguia surpreender a cada interpretação como se fosse a primeira vez que o víamos actuar. Era como se nos esquecêssemos de todos os seus papéis anteriores. É a tal coisa da fasquia, Philip Seymour Hoffman tinha-a muito, muito alta. Neste caso dir-se-ia que conseguiu engolir o filme todo, quase até deixar de constar que tenha havido ali mais alguém (tenho uma leve ideia de Minnie Driver e John Hurt, que constato agora que lá estava). Deixo-vos este vídeo em jeito de homenagem. 


sábado, 18 de janeiro de 2014

Uma Cópia de Verdade



Orson Welles andou um filme inteiro a estudar falsificações. Histórias de cópias e falsários de tal forma complexas, intrincadas e substanciais que a determinada altura, como que sub-repticiamente, a pergunta impõem-se: e se a cópia, à sua maneira, se torna tão ou mais relevante que o original? Ou pelo menos fica o sublinhado em como determinado tipo de cópias acabará de certa forma por se tornar o seu próprio original. Para isso é preciso ver o exemplar do seu trabalho sobre o invisível mimetismo da grande obra de arte. Há também hierarquias para isso, claro, tem de haver. Hierarquias sustentadas no saber do falsificador em sua complicada tarefa do alcançar da veracidade - onde podem contar altos níveis de virtuosismo, minúcia e sentido de pormenor -, sendo o alvo mais ou menos atingido consoante o falso (a mentira) se consegue confundir com o verdadeiro (a verdade). 
O que pode ocorrer de duas maneiras: ou ludibriando-nos - por tempo indeterminado, quem sabe -, ou então assumindo sua natureza de cópia mostrando ao mundo todo o seu jogo. No primeiro caso, a ignorância do seu mérito maior é seu próprio segredo e assinatura (de excelência). No segundo, impõe-se essa tal hierarquia de aproximação ao verdadeiro. É quando podemos dizer: «é uma cópia de verdade!». Quando também podíamos dizer: «é uma cópia apanhada pela verdade». O que pode não ocorrer nas melhores falsificações. As tais que tão bem se confundem com o verdadeiro que a verdade mesma fica por revelar por tempo indeterminado.

            

Abbas Kiarostami em "Cópia Certificada" vai por aí de outra maneira. Aqui o faz de conta é uma possível e/ou impossível história de amor que acontece a determinado momento entre um escritor que se debruça sobre falsificações e uma galerista de arte que se interessa pela sua obra - onde se pode incluir um livro publicado sobre esse mesmo assunto. 
Resumindo: um escritor (William Shimell) e uma galerista (Juliette Binoche) que nunca se haviam cruzado até então - tendo-se conhecido pouco antes numa palestra do escritor - embarcam por um desses circunstanciais acasos da vida numa viagem de carro através da Toscânia. Conversa puxa conversa, muito acerca do assunto das cópias e falsificações, gera-se ao mesmo tempo um processo de empatia e envolvimento que tem seu ponto culminante* quando uma senhora num café os confunde com um casal de verdade. Se é apenas um acaso ou se a reflexão interior acerca do sujeito verdade versus falsidade (ou veracidade) teve sobre isso influência, isso agora interessa, podendo sempre ficar como tópico de reflexão. Interessa sim e muito, é o que aconteceu imediatamente a seguir, de somais importância em sua, passe o termo, singular singularidade: o exacto ponto de intersecção entre a realidade e o sonho, entre a verdade e veracidade, entre o original e a cópia. Esse ponto está precisamente ali, no seu assumir como um casal de verdade, eis essa a ponte para o outro lado. Afinal o assunto sobre o qual haviam falado e reflectido está mesmo ali à frente dos olhos, a poder ser vivenciado, testado, experimentado. Eles mesmos tinham ali a (sua) oportunidade (tão rara), eles mesmos podiam ser a cópia de um original, a cópia de um casal original. 
Há nos dois personagens (enfim, mais nela que nele) a tentação e o instinto de passarem para esse outro lado, de cruzarem instantaneamente essa ponte fictícia. Ela exteriorizando-o mais. Ele vivendo-o também, se bem que reflectindo bastante, sendo mais contido. Sim, podia ser um mote, uma mola, uma alavanca para uma história de amor. Porém um mote que abre em si todo um problema, quiçá irresolúvel, pois que assumindo-o como disfarce, o mesmo cai em si pelo mecanismo da verdade, ou dito por outra palavras, os dois não teriam assim nenhuma hipótese de prosseguir assim tão sublime jogo. 
Por outro lado, não assumindo o disfarce, e fingindo o amor como se tivesse realmente acontecido, acabam eles por entrar no âmbito do sonho. E no sonho, quanto menos sabemos que é sonho, quanto mais o sonho é fiel a si mesmo, à sua natureza de sonho. Não, o sonho aqui não é o sonho do amor vivido, isso podiam atingir eles acordados. Já o serem um casal feliz há muitos anos juntos, e com uma vida em comum completa e satisfatória, para dois desconhecidos só mesmo em sonho. Porém os sonhos apenas duram enquanto nos iludem. A cópia também, e como nos exemplos de "F Fake", também esta cópia (de casal) é suficientemente complexa, intrincada e substancial para acabar por desenvolver o seu próprio mecanismo, a sua própria história, o seu teatro. Eis o que assemelha as duas obras, o que as une até, pois tanto dois desconhecidos a fingir o casal perfeito como os falsários das grandes obras de arte têm em comum esse negativo da cópia. O mérito supremo de Orson Welles e Abbas Kiarostami é darem-nos a ver o seu lado positivo. 


* - o chamado plot point, que se pode ler em certos on writings desta vida, é uma expressão aqui perfeitamente adequada. A hell of a plot point, digo eu, ponham a hell nisso. Só duvido é que esteja devidamente enquadrado no ponto geométrico que certos gurus dizem que deve estar, mas isso é toda uma outra conversa.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O que não parece, é

Interessa-me pouco a escrita diarística como mero registo factual de eventos. Deixando o mais pessoal de fora, ou não engreno com isso ou não sei engrenar. Menos interessa o que vai para debaixo do tapete, ou coisa pior, tipo havia um bêbado na rua de madrugada, chegou-me ao correio uma carta das finanças, já não é a primeira vez que me falha este esquentador; ou o transito estava impossível e bem pior que em todas estas greves do Metro às quintas-feiras... Não vou duvidar do curioso para lembrança futura. Ler como se olha aquele álbum de fotos que como mais nada na vida nos atiça e reinventa (as) memórias. Pena que tão raramente me dê a esses trabalhos - duas ou três vezes por ano, se tanto -, mas quando eventualmente acontece, é sempre a mesma luta inglória a cada frase. Sobretudo por querer entrar pelo que escrevo adentro e depois ter o problema de não saber muito bem quando nem onde saio e o que quero ali é comer o bolo todo até ao fim. Para o texto o gozo do texto, enumerar factos não é propriamente escrever. O factual, na melhor das hipóteses, não me passa da panorâmica à vista do que já se vi. Na pior, é mais um burocrático aborrecido exercício, o que até faz mal, força o sistema nervoso. E então, como remédio, vai de meter ficção, truncagens e forjanços, muita sumária aldrabice para temperar o gosto e poder haver algum mínimo interesse no my own subject. Claro que nem todos somos parentes de Dom Quixote, nem sequer primos distantes. Nem de um David Foster Wallace com as suas mais de mil páginas a letra minúscula (dizem, ainda não folheei o livro). 
Disso da distância que nos dá o longínquo Foster Wallace fiz prova primeira há pouco tempo ao ler aquele muito bom ensaio sobre um famoso jogo Federer/Agassi. Ainda não fiz prova segunda, muito menos a verdadeira prova, que tenho fora das prioridades. Mesmo assim nunca se sabe, talvez o entusiasmo de Rogério Casanova e a recente leitura de Rui Ângelo Araújo façam com que um dia morda o isco. Ou se existir isso do tempo e da leitura certos para a altura certa, tipo colheita da Primavera (quem sabe?). O que não me parece. Ou então parece que não me parece. O não me parece choca com esse batidíssimo cliché que leio e ouço aqui ali de vez em quando: o de que o que parece, é. Já as variantes nunca se ouvem. Ou ouvem? Eu nunca ouvi. Nunca ouvi dizer o que não parece, é. Nunca ouvi dizer o que parece, não é. Mas na política, no futebol, nos negócios, em conversas subliminares ou naqueles normais palpites do real, quantas vezes não o ouço dizer: o que parece, é. O que se diz em jeito de adivinha adivinhada, de sabimento e conhecimento. Problema é as vezes em que o parecer se vê desmentido - muitas mais do que parecem, claro - e a realidade dá a ver, cristalina, que o que parecia afinal não parecia nada. E não parecia mesmo. Como dizia o mago João Pinto, o defesa direito: "prognósticos só no fim da partida". Não há cá testes a posteriori. Não há mas eu fiz um. Teste de quê? Um teste de realidade a posteriori, claro, e fazer um teste de realidade a posteriori assim agora, só mesmo com os exemplos acima citados, a contar da terceira linha do texto. Pois dito e feito, resultado unânime em quatro das prerrogativas: o que não parece, é. Vejam o bêbado, descobri quem era numa investida à varanda, e se vos disser o quanto não fazia a mínima ideia, o quanto tal nunca me passou pela cabeça... Ressalvo que tive de eliminar a carta das finanças, fez batota e aquilo nem é bem um roubo, é mais um assalto autorizado. 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

David Simon - The Horror Show

Há muito para onde ir quando o assunto é David Simon. Também acontece ser das vozes que me mais vale a pena ouvir quando se fala nos tempos presentes. Não estivéssemos todos metidos num mesmo barco que se afunda. Eis um apanhado, editado quanto baste, de um discurso longo já por si editado do visionário, jornalista, escritor e criador da série "The Wire" (com Ed Burns), o que na medida de importância, será sempre um sumário.


I think Marx was a much better diagnostician than he was a clinician. He was good at figuring out what was wrong or what could be wrong with capitalism if it wasn't attended to and much less credible when it comes to how you might solve that.

You know if you've read Capital or if you've got the Cliff Notes, you know that his imaginings of how classical Marxism – of how his logic would work when applied – kind of devolve into such nonsense as the withering away of the state and platitudes like that. But he was really sharp about what goes wrong when capital wins unequivocally, when it gets everything it asks for.

That may be the ultimate tragedy of capitalism in our time, that it has achieved its dominance without regard to a social compact, without being connected to any other metric for human progress.

We understand profit. In my country we measure things by profit. We listen to the Wall Street analysts. They tell us what we're supposed to do every quarter. The quarterly report is God. Turn to face God. Turn to face Mecca, you know. Did you make your number? Did you not make your number? Do you want your bonus? Do you not want your bonus?

And that notion that capital is the metric, that profit is the metric by which we're going to measure the health of our society is one of the fundamental mistakes of the last 30 years. I would date it in my country to about 1980 exactly, and it has triumphed. 

Capitalism stomped the hell out of Marxism by the end of the 20th century and was predominant in all respects, but the great irony of it is that the only thing that actually works is not ideological, it is impure, has elements of both arguments and never actually achieves any kind of partisan or philosophical perfection.

It's pragmatic, it includes the best aspects of socialistic thought and of free-market capitalism and it works because we don't let it work entirely. And that's a hard idea to think – that there isn't one single silver bullet that gets us out of the mess we've dug for ourselves. But man, we've dug a mess.

(...)

Labour doesn't get to win all its arguments, capital doesn't get to. But it's in the tension, it's in the actual fight between the two, that capitalism actually becomes functional, that it becomes something that every stratum in society has a stake in, that they all share.

The unions actually mattered. The unions were part of the equation. It didn't matter that they won all the time, it didn't matter that they lost all the time, it just mattered that they had to win some of the time and they had to put up a fight and they had to argue for the demand and the equation and for the idea that workers were not worth less, they were worth more.

Ultimately we abandoned that and believed in the idea of trickle-down and the idea of the market economy and the market knows best, to the point where now libertarianism in my country is actually being taken seriously as an intelligent mode of political thought. It's astonishing to me. But it is. People are saying I don't need anything but my own ability to earn a profit. I'm not connected to society. I don't care how the road got built, I don't care where the firefighter comes from, I don't care who educates the kids other than my kids. I am me. It's the triumph of the self. I am me, hear me roar.

That we've gotten to this point is astonishing to me because basically in winning its victory, in seeing that Wall come down and seeing the former Stalinist state's journey towards our way of thinking in terms of markets or being vulnerable, you would have thought that we would have learned what works. Instead we've descended into what can only be described as greed. This is just greed. This is an inability to see that we're all connected, that the idea of two Americas is implausible, or two Australias, or two Spains or two Frances.

Societies are exactly what they sound like. If everybody is invested and if everyone just believes that they have "some", it doesn't mean that everybody's going to get the same amount. It doesn't mean there aren't going to be people who are the venture capitalists who stand to make the most. It's not each according to their needs or anything that is purely Marxist, but it is that everybody feels as if, if the society succeeds, I succeed, I don't get left behind. And there isn't a society in the west now, right now, that is able to sustain that for all of its population.

And so in my country you're seeing a horror show. You're seeing a retrenchment in terms of family income, you're seeing the abandonment of basic services, such as public education, functional public education. 

(...)

We have become something other than what we claim for the American dream and all because of our inability to basically share, to even contemplate a socialist impulse.

I'm utterly committed to the idea that capitalism has to be the way we generate mass wealth in the coming century. That argument's over. But the idea that it's not going to be married to a social compact, that how you distribute the benefits of capitalism isn't going to include everyone in the society to a reasonable extent, that's astonishing to me.

And so capitalism is about to seize defeat from the jaws of victory all by its own hand. That's the astonishing end of this story, unless we reverse course. Unless we take into consideration, if not the remedies of Marx then the diagnosis, because he saw what would happen if capital triumphed unequivocally, if it got everything it wanted.

And one of the things that capital would want unequivocally and for certain is the diminishment of labour. They would want labour to be diminished because labour's a cost. And if labour is diminished, let's translate that: in human terms, it means human beings are worth less.

(...)

Mistaking capitalism for a blueprint as to how to build a society strikes me as a really dangerous idea in a bad way. Capitalism is a remarkable engine again for producing wealth. It's a great tool to have in your toolbox if you're trying to build a society and have that society advance. You wouldn't want to go forward at this point without it. But it's not a blueprint for how to build the just society. There are other metrics besides that quarterly profit report.

The idea that the market will solve such things as environmental concerns, as our racial divides, as our class distinctions, our problems with educating and incorporating one generation of workers into the economy after the other when that economy is changing; the idea that the market is going to heed all of the human concerns and still maximise profit is juvenile. It's a juvenile notion and it's still being argued in my country passionately and we're going down the tubes. And it terrifies me because I'm astonished at how comfortable we are in absolving ourselves of what is basically a moral choice. Are we all in this together or are we all not?

(...)

And that's what The Wire was about basically, it was about people who were worth less and who were no longer necessary, as maybe 10 or 15% of my country is no longer necessary to the operation of the economy. It was about them trying to solve, for lack of a better term, an existential crisis. In their irrelevance, their economic irrelevance, they were nonetheless still on the ground occupying this place called Baltimore and they were going to have to endure somehow.

That's the great horror show. What are we going to do with all these people that we've managed to marginalise? It was kind of interesting when it was only race, when you could do this on the basis of people's racial fears and it was just the black and brown people in American cities who had the higher rates of unemployment and the higher rates of addiction and were marginalised and had the shitty school systems and the lack of opportunity.

And kind of interesting in this last recession to see the economy shrug and start to throw white middle-class people into the same boat, so that they became vulnerable to the drug war, say from methamphetamine, or they became unable to qualify for college loans. And all of a sudden a certain faith in the economic engine and the economic authority of Wall Street and market logic started to fall away from people. And they realised it's not just about race, it's about something even more terrifying. It's about class. Are you at the top of the wave or are you at the bottom?

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Depois de Moby Dick

Não é dos meus romances de eleição, certo que achei nele passagens extraordinárias, históricas, épicas até, mesmo inesquecíveis; mas também encontrei o enfadonho aborrecimento, por vezes um certo arrastar penoso, pastoso, um tanto ou quanto para o chato. Porém, enfim, como nos grandes clássicos, algo no conjunto transportava-me em sua viagem, apontando muito além da escuridão que emanava. Recordo bem a louca e indestrutível obstinação de Ahab, que perante o prenuncio do desastre, se tornava em crescendo assustadora. Era a tensão principal, entre várias. Mas do bolo o recheio: a descrição do Pequod, dos mares e marinheiros, os singulares personagens, suas rotinas diárias, as particularidades e características da genuína navegação. Depois a viagem mental de Ismael, seu fluxo de consciência entre os meandros do medo e da descoberta, suas reflexões e iluminações, certa preparação iniciática, e, finalmente, com o perigo eminente à espreita, a preparação para o embate final e definitivo - a baleia branca gigantesca indomável, letal e impossível ao desafio humano. Os efeitos da fúria de Moby Dick encerram a obra, ecoando depois muito além da leitura - apenas entendida pelo mundo bastante depois da edição do livro -, ou melhor, ecoaram...  

Mesmo assim não posso dizer que Moby Dick me tenha deixado particulares saudades, pouco até creio que alguma vez se torne um verdadeiro companheiro de viagem, muito menos livro de cabeceira, simplesmente não é obra que me dê vontade de reler, ou sequer sinta curiosidade em regressar. Moby Dick porém pensa o contrário. Ou melhor, pensava o contrário. Certo dia em que se fez anunciar. Para dizer que ainda não tinha sido lido por inteiro. 
Fez-se anunciar sim. Certo dia fez-se anunciar, e entrou, eu já tinha começado a sentir a sua presença, não sei porquê pensando no livro, até que comecei a revivê-lo
Tudo começara enquanto seguia viagem para sul. Eu disperso em pensamentos, a sentir-me em dias negros, estava Moby Dick a chegar-se a mim, até tudo se tornar mais claro, claro em sua própria escuridão, até eu seguir outra vez dentro daquele mesmo barco. 

Era eu, Ismael, a navegar em negritude, tempestade e névoa lá fora, o perigo crescente e repetido alternando idas e vindas num acentuar-se em espiral à medida do seu tempo. Sentia o mal eminente, sabia que assim chegaria a algum ponto culminante, a algum trágico final. Alguma espécie de colossal baleia branca estaria perto, muito perto. Eu era o próprio Ahab, não podia ser mais ninguém. Também era o Pequod, os marinheiros, tudo ali era eu, via ao naufrágio anunciado. Saber toda a história não serviria para nada, o livro ainda hoje não me diz grande coisa. Todos os avisos eu ignorara, prosseguir viagem, alcançar a baleia branca era tudo o que desejava, com a obstinação dos loucos, nada me faria demover contra todos os avisados e até sábios conselhos que insistentemente dera a mim próprio. Isto ia até ao fim! E foi, foi até ao fim. Talvez Moby Dick  me fosse o mal inultrapassável, talvez fosse enfim a natureza a querer dar-me sua categórica e definitiva lição. Verdade é que já estava fora, naufragara. Afinal de contas, não tinha acabado de ler o livro. Achava que tinha, por tê-lo fechado depois de lida a última palavra na última página, depois de ter lido todas as palavras de todas as páginas. Mas afinal não, não tinha, havia contas a ajustar, fora eu mesmo que as fizera. 

Hoje sei, sinto, posso dizer: Moby Dick não voltará mais. 

A profound thing in a simple way

Li uma vez um texto de Charles Bukowski em que este falava de um suposto poeta menor que ter-lhe-à dito certo dia "eu posso escrever como tu, mas tu não podes escrever como eu". Ele apenas pensa que pode escrever como eu, eis a resposta do escritor, ao que se seguiu a célebre deixa: "Genius could be the ability to say a profound thing in a simple way, or even to say a simple thing in a simpler way". Ele há quem não consiga ou não queira reparar na mestria na aparente simplicidade e desembaraço da técnica, ou na sabedoria vinda de anos de trabalho duro e desesperado no fio da navalha, ou mesmo num pouco ortodoxo humor que galga milhas no caminho da sabedoria. Não terá lido "Pulp" (o texto até é muito anterior)  - sobre o qual eu escrevo agora que mesmo assim não é nem de perto nem de longe, nem mesmo a lente de telescópio, do melhor e mais autêntico Bukowski que se pode ler. Mesmo assim, na desmontagem do cliché, no inusitado dos diálogos ou no non sense que da aparente puerilidade se pode encerrar no mais definitivo e profundo sentido, genius could be the ability to say a profound thing in a simple way, or even to say a simple thing in a simpler way. Como em jeito de brincadeira:
ou:

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Al Capone da Conceição

Sabia-se, constava, que tinha emigrado para a América num grandecíssimo nevoeiro, com Detroits, Newarks e Elsewheres pelo meio, até que numa noite pressentira o beijo da morte a espreitá-lo numa esquina lá dos States e aportara a Lisboa sob o nome de Conceição. Chegou e sem perda de tempo tornou-se proprietário duma leitaria para disfarçar o passado que se calhar nunca teve e o quarto de jogo clandestino que instalara nas traseiras do negócio. Por isso é que nunca saía da mesa lá do fundo, olho no balcão e ouvido na parede que o separava dos jogadores.
Nas tardes da Almirante Reis, com os eléctricos a tilintarem, avenida abaixo, avenida acima, a leitaria era duma inocência comovedora. Dois ou três vadiantes em faz de conta a cervejarem ao balcão, um criado, dois anjos voadores a suspenderem um espelho na parede e o Al Capone em pessoa exilado numa mesa, a impor respeito ao ambiente.
Dali ninguém o arrancava desde o abrir ao fechar da casa; e palavras, o menos possível. Al Capone da Conceição comia de jornal aberto como nos filmes americanos, e se alguém lhe desejava bom proveito respondia com um aceno numa sílaba por cima das entrelinhas.
A um, que se chegou à mesa dele para o cumprimentar, «Como vai, senhor Conceição?», deitou-lhe um olhar indignado e deu-lhe a resposta devida:
«Tem alguma coisa com isso?»
Às vezes entrava o Mil e Quinhentos, que era um polícia da esquadra de Arroios enxertado de chacal, um demónio artilhado de fogante e cassetete, mas nem a esse o Capone se prestava a falar. Na sua qualidade de comerciante e de cidadão legalizado, deitava-lhe um aceno de cumprimento, ficava-se a vê-lo pelo espelho a despachar as duas cervejas da praxe e deixava-o sair sem pagar por entre os dois anjos de latão.
Este Mil e Quinhentos metia medo só com a sombra. Se não chegara a chefe era porque isso de chefe o obrigava a trabalhos de secretaria, que não se davam com o seu feitio e ele gostava era de fazer o gosto ao dedo quando o gatilho lho pedia ou de afagar o lombo dos distraídos com o cantar do cassetete . «Tenho os meus métodos», dizia.
Certo, certo na leitaria da Almirante Reis era um Martins, a quem chamavam o Mãos de Seda, por o dizerem carteirista a tempo inteiro e pelos muitos saberes dos seus dedos no trabalhar as cartas e os dados. Baixo e entroncado, tinha um sorriso muito fresco, apesar de já andar pelos quarenta, e, caso especial, apreciava o bem falar. Tanto que, quando um dia o Al Capone ordenou ao empregado que mudasse os róteis dos boiões dos caramelos, não resistiu a deitar-lhe um meio sorriso atravessado:
«Róteis? Rótulos, senhor Conceição. Rótulos é que o senhor quer dizer.»
O outro encolheu os ombros com desprezo: «Acha?»
«Claro. Rótulos e não rotéis, senhor Conceição.»
«Homem», respondeu o Capone, «rótulos é para as garrafas, róteis é para as caixas», e, ponto final, abriu o Diário Popular e mergulhou na página das palavras cruzadas.

José Cardoso Pires, A Cavalo no Diabo, Círculo de Leitores, 1995

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

2014


Gosto de escrever, preciso escrever, tenho e terei (outras e) mais escritas de permeio. Mais as leituras e mais que eu leia mais quero ler, mais que investigue mais quero investigar, mais que eu ouça música mais quero ouvir, mais que eu veja filmes mais quero ver e por aí adiante desde que não fique cheio e inchado até chegar ao inevitável do tempo que tudo rege para dizer mais que eu tenha tempo mais tempo quero ter. O que não é tão bem verdade, ou não é tão bem assim. Quanto mais tempo se tem mais tempo se desperdiça, essa é que é essa. O tempo arruma-se. E tem dias em que quanto menos há melhor se arruma. Tenho o problema de ser um incurável desarrumado. O que até pode resultar. Descubro coisas às vezes enquanto me desarrumo e estou em tempo de arrumá-las. Sei, já é dia 31/12 e sem tempo não há balanços. Também é esse o estado da arte: falta de pachorra para muita coisa, bastante para muito pouca. Bendita seja a pouca. Por exemplo o filme “Killing Them Softly de Andrew Dominic (já tinha visto antes no cinema o extraordinário “The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford”) que aluguei e contado vi seis vezes. Sim, seis vezes, intercaladas e ampliadas pela repetição das cenas. Porque  o aluguei? Por causa do realizador, mas sobretudo por quem o escreveu e inventou ali quase tudo, muito por ter vivido e bebido daquilo enquanto fazia o seu trabalho de advogado na cidade de Boston. Falo do grande George V. Higgins de quem já tinha entrado como que em êxtase no mui importante e inolvidável “The Friends of Eddie Coyle”. Higgins é de longe o escritor mais sub-apreciado que conheço. Já escrevi o óbvio e repetido que sem ele não havia nem Tarantinos, nem Elmore Leonards nem mais as dezenas de sucedâneos óbvios, mas por curiosidade fui ver ao You Tube tudo o que era entrevista em roda do filme - inclusive no Festival de Cannes - mais a conferência de imprensa de apresentação da obra e só por uma vez seu nome é nomeado e por causa de uma pergunta  explícita a propósito de "The Cogan's Trade". Claro que o filme partilha em tudo do seu humor, inteligência, poder de síntese, juntando às palavras a superior realização e banda sonora mais as interpretações supremas de grandes actores (enormes, James Gandolfini a provar que não era só o Tony Soprano; o incrível e genial  Ben Mendelsohn, da Austrália para o mundo; o impagável Vincent Curatola, sobretudo para quem não se esquece Johnny Sack dos Sopranos; Brad Pitt, que já sendo um actor magnífico, que o é, faz aqui a meu ver uma das suas melhores interpretações para a história, cada vez mais seguro, cada vez mais clássico no sentido daquela classe pura ao alcance de poucos). 
Mas repito, só mesmo os diálogos, as falas, essa superlativa esgrima de palavras ditas em eficácia e tom certeiros para ver e rever e repetir mais umas quantas vezes e aprender como se faz. Mesmo que também valha o upgrade aos tempos de hoje com a presença dos noticiários constantes aquando da crise do subprime, culminados no discurso de eleição de Barack Obama na última cena do filme, que soou tanto a promessa e hoje sabemos que do essencial tudo continuou sumamente na mesma, com os resultados que sabemos. Lampedusa nem pode ser para aqui chamado porque nada foi preciso mudar e também nada ficou na mesma porque na verdade tudo piorou. Enfim, não queria ir dar a isto. Se querem que vos diga neste momento não me podia estar mais nas tintas. Digo-o no melhor sentido do termo. 
Bom ano a todas e a todos os leitores deste desorganizado desarrumado estabelecimento. Que tenham um bom e feliz novo ano. Saúde. 

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Apontamento sobre o KING


Já tinha escrito sobre umas 18h50 no Cinema Monumental. O cinema King, melhor ou pior, andaria pelo mesmo. Ou talvez não tanto, que cinema mais de culto alimenta mais o culto. Culto de uns poucos quantos, uns poucos quantos que só têm vindo a diminuir. Até um dia o culto acabar. 
Viva eu quinhentos anos, o King há de ser sempre o meu cinema. Hoje e desde os meus dezasseis, dezassete anos. Do mais recente ao mais antigo. De Nicholas Ray a John Cassavetes. De Wim Wenders a Vincent Gallo. De Jean-Luc Godard a Abel Ferrara. De Nanni Moretti a Jim Jarmusch. De Robert Brésson a Emir Kusturica. De Hal Hartley a Miguel Gomes.  De David Lynch a Pedro Almodóvar. De Eric Rohmer a Aki Kaurismaki. De Michelangelo Antonioni a Abbas Kiarostami. De Monte Hellman a Takeshi Kitano. De João César Monteiro a Wong Kar-Wai. De Gus Van Sant a Christophe Honoré. Podia continuar este exercício de memória(s) como um puzzle ou como um quizz. Podia ajudar com outras salas, que sempre senti como sucedâneos do King, quais satélites em redor de um centro. Falta este, esqueceste aquele, este viste-o mais no Monumental, ou terá sido no Saldanha Residence, aquele outro foi no Nimas, não, foi no Ávila, não te esqueças do Quarteto, que foi ali que começaste a ver mais vezes cinema a sério. 
A Cinemateca era um outro universo, onde me guardei para outras mitologias - "Aurora", "The Night of the Hunter", "Sunset Boulevard", "Badlands", "The Fountainhead", "Barry Lindon", "The Searchers""F For Fake", etc. Tanto para dizer que só mesmo o fim de algum destes dois cinemas me poderia dar este sentimento forte e agudo de perda cinéfila. Pois é o que sinto por dentro com o encerramento do King. A parte maior e principal de uma aventura que se me iniciou aos cinco anos de idade com um filme chamado "Se a Minha Cama Voasse", no Cinema Tivoli, com a turma do pré-primário. Jamais esquecerei a experiência, aberto o cortinado, gigante a primeira tela de cinema, e depois, a vida dentro, magia pura, o reino dos sonhos, o absoluto fascínio, momentos de pura revelação. Repetimos com outro da Disney, o "Bambi", noutro cinema hoje extinto - o Cinema Europa - e repetiu-se o maravilhamento, inigualável. E sabia lá eu nessa altura ver um filme com um mínimo de requisitos, sentir a experiência sim, a experiência do momento que é de tudo o mais importante no grande ecrã, tudo o que não se pode ter perante um ecrã de televisão. Como já disse Godard (cito de memória): na sala de cinema somos subjugados pelo cinema, no vídeo somos nós que o subjugamos, o que faz toda a diferença. Diferença essa que mais se acentua em certo tipo de filmes. Uns porque perdem tudo fora do grande ecrã, outros porque não teremos praticamente hipóteses de os ver outra vez. É para esses, e não só, que há cinemas como o King. E que se vão extinguindo como os teatros e as livrarias. Que as razões do encerramento são várias eu sei - do brutal aumento do IMI a provocar o quiçá incomportável aumento da renda do espaço, a enorme crise em que vivemos, o peso das distribuidoras e dos shopping centers, a pirataria -, que tal sirva de desculpa já tenho algumas dúvidas. As suficientes para não posso pôr o meu grão de areia fora da equação. Sempre foram milhares de grandes momentos, um porto de abrigo de muitas tardes e noites, uma referência de vida, um lugar de aprendizagem, cultura, mundo e experiência, onde muito vi e aprendi. É tramado.

domingo, 24 de novembro de 2013

Lá fora




Pela mão forte e segura de Michael Mann - e pela excelência de toda a banda sonora - arrisco que de bom grado seguiríamos adiante por mais umas quantas horas. Com gasolina (chegava à vontade) mas sem legendas biográficas e factuais no fim. Era só continuar seguindo o que foi planando lá para fora. 

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Os Idiotas



Escrito na primeira pessoa, em registo de pseudónimo, entre um ficcionado auto-biográfico e o auto-reflexivo, a figura do idiota funciona em "Os Idiotas" de Rui Ângelo Araújo como o fio condutor, o pretexto, o ponto de mira para um olhar sobre os dias. Há muita matéria a ser trabalhada. Os enganos e falhanços da vida, um quotidiano estéril, falho de horizontes, típico de tantas zonas do país. Sobre o que paira a corrupção generalizada, a praga do populismo, um povo ignorante e domesticado, a infindável burocracia... "Os Idiotas" de Rui Ângelo Araújo não é romance que se dê a poupanças. A pena ágil, certeira e afiada do escritor não está ali para tréguas. Carapuças à parte, podemos nós também ter um pouco do idiota descrito no livro, por mais ténue que seja. Ou conhecemos alguém, amigo, conhecido ou familiar que se enquadrem nele perfeitamente - eu pelo menos conheço. Sem sabermos o local exacto do país onde se desenrola a trama  - que passa também por Bucareste e Vietname - é muito de Portugal (sob a forma de uma pequena cidade de província) que está ali descrito, qual McGuffin com a premissa obrigatória de que isto não vai acabar propriamente bem, ou pelo menos não vai dar a lado nenhum. Qual praga ou maldição que nos arrastasse para o beco sem saída. Dito isto, não pensem que "Os Idiotas" reflecte apenas negritude. Pelo contrário, seu tom destoa, e ainda bem, deste marasmo que nos atordoa. Há ali genica, dinâmica, ritmo e carradas de humor que nos presenteiam a leitura por outras e variadas direcções. Do mais, "Os Idiotas" é romance de pesos e contrapesos. Na escrita, por exemplo, mesclando elementos de erudição e riqueza de vocabulário com um cardápio generoso de obscenidades (bem disse que não é livro dado a poupanças). Ou entre um certo tom pulp e despretensioso e a fina tragédia existencial. Ou de vez em quando entre a comédia sem remissão e a dureza da fossa

Se falei em marasmo, cidadezinha de província, calão avançadocomédia tresloucada, Roménia e Vietname, era de Lúcio Peixe* que falava. É ele o personagem, pseudónimo e idiota de serviço em quase todo o romance. É um idiota especial - para não dizer o idiota perfeito, o que levaria a pensarem no perfeito idiota, o que está muito longe da verdade. Cronista do quotidiano e escritor de encomenda (ghost writer) e blogger capaz de gerar algum culto em redor, Lúcio sabe dar à (sua) realidade uma visão original e muito particular, capaz de por pinceladas certeiras e inteligentes nos dizer de sua justiça. Ganhamos-lhe simpatia e empatia, vemos que sabe mais do possa parecer à primeira vista, que o seu estar nas tintas tem um quê e porquê, por mais errado que o julguemos. Tem ele essa vantagem, não é idiota como os outros, vive nos seus próprios termos, pensa pela sua cabeça. No mais é um ser sensível e ferido, anestesiado em cervejas e alienado quanto baste, ele e seus amigos idiotas, cada um com seu karma e história distintas - nisto as mini-biografias de cada um dos idiotas nos inícios do romance estão em perfeita conformidade - a acabarem por desaguar no mesmo lugar: a sua própria casa, a casa de Lúcio Peixe. Inadaptados a um mundo que os rejeita, parecem afinar todos pelo mesmo diapasão. Lúcio Peixe acaba por ser o involuntário líder da quadrilha, ele que é o mais carismático. Também o mais individualista e lúcido, o que tem ao menos um olhar sobre o (seu) mundo e o sabe escrever. Mas não é apenas Lúcio Peixe que  escreve em "Os Idiotas". Há ainda Helen. 

Mulher que também poderia ser um romance, com Helen o enredo faz um autêntico u-turn. Para onde, não sabemos (eu imaginei, mas imaginei mal). A obra é com Helen estruturada para outra dimensão, como que do nada, sobrepondo à leitura uma nova (outra) leitura. Aqui é outro contrapeso, mesmo a escrita é ligeiramente diferente pelo sentimento, leitura e interpretação femininas apanhadas de forma assaz interessante, eficaz e bem conseguida. Mesmo que no computo geral as duas vozes cantem de forma muito similar. Posso estar enganado, mas nisto o escritor, omnipresente claro está, acaba por fundir as diferentes vozes à sua voz, talvez mesmo as discipline, ou não, só mesmo o próprio o poderá responder. Em ambos os casos temos capacidade de alcance e poder de encaixe. Depois o fôlego, o ritmo, o saber na descrição de personagens, no engendrar das situações para um desejado enquadramento. Essa capacidade de fixar e fotografar o real enquanto se prossegue em inusitado fluxo de consciência é um fortíssimo atributo de "Os Idiotas". 


* - Lúcio Peixe está ali na capa, ao lado do seu Ford Capri, em extraordinária ilustração de Eduardo Ferreira. 

PS: obrigatório o texto de apresentação do livro por José Rentes de Carvalho. É obra-prima.