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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Django Acorrentado



"Django Libertado" é um Tarantino de dimensão superior. Os pontos fortes estão lá: diálogos capazes de moverem montanhas; a mistura e (o soberbo) cozinhado de influências; o efeito surpresa, cavado a muita escrita, deixando as camadas escondidas sempre prontas a emergir, à hora certa, ou em plena tempestade. Essa segurança sente-se, é contagiante. Estamos a ver o filme bem lançado e podemos até dar palpites de "até onde é que isto vai chegar", na escala... O melhor Tarantino? O segundo, o terceiro...Dos melhores é concerteza (na minha hierarquia, salvo seja, só está atrás de "Jackie Brown" e "Pulp Fiction"), e com algo que o distingue dos outros: a mensagem. Efectivada em cinema e não o seu contrário, algo comum em tantos filmes políticos e biopics desta vida. 
Dr. King Schultz - superiormente interpretado por Christopher Waltz - funcionaria aqui como a voz do autor, distâncias geográficas e temporais à parte, o que até os aproxima mais, até num certo cinismo subentendido no personagem, passado por cima pela imensa intrepidez e coragem do caçador de prémios pronto e disposto a arriscar tudo quando necessário. É ele que com Django (e Broomhilda) contará na ultima parte do filme com o desafio supremo. Elevado à fasquia não só da trama como do próprio filme: Calvin Candie e Stephen  nas extraordinárias interpretações de Leonardo Di Caprio e Samuel L. Jackson. 
Se Di Caprio tem aqui um dos papéis de uma vida, já Samuel L. Jackson está de tal forma afinado e apurado que se pode imaginar ali qualquer outro a estatelar-se ao comprido. Jogando com a narrativa como se de cordas de marioneta se tratassem, capaz de virar tudo ao contrário consoante os "estremeções". Isso é a história, poderão pensar, passa ao lado, é que a "história", ou o personagem, escreveu-a Tarantino a pensar precisamente em Samuel L. Jackson; com ele em mente é que vieram as "fasquias". Cumplicidade essa que só reforça o que tem de ser reforçado: o tema da Traição que emerge inesperada e em toda a sua pujança, do mais em época de escravatura. Aquele que é assumido por Quentin Tarantino como o mais imperdoável dos defeitos tem aqui o melhor aliado para encarnar as suas formas mais retorcidas e perigosas: a traição entre os seus pares; depois a traição do subalterno, do capataz, do lambe-botas. O final de "Django Libertado" está assim mais que subentendido, mesmo que há quem o tenha como um tanto ou quanto forçado. À justiça o que é da justiça, como em qualquer filme de vingança ou western spaghetti que se preze (e não só, Clint Eastwood que o diga). As balizas estão claramente definidas. Ponto. O que interessa está adiante, muito além da "história". Está lá toda, escarrapachada, a falta de vergonha e desumanidade da escravatura. E os fantasmas que forem precisos. Só não podem é estragar o filme que Tarantino quer fazer. A escravatura torna-se assim um ingrediente, importantíssimo, mas ainda assim um ingrediente. Tal como a história que também fascinou Wagner e as homenagens e piscadelas de olho ao western spaghetti e a Sérgio Leone. 
A mão de Tarantino está primeiro no argumento, só depois na câmara, como que a dizer eu decido, mando e comando o que quero, como quero e quando quero; insistirei no horror da escravatura as vezes que forem necessárias para que no fim, naquela colossal explosão de dinamite, naquela total destruição do símbolo esclavagista que é aquele casarão, a catarse se torne em festa, "A Fistful od Dynamite", para não sobrar nem mais fina das ervas daninhas...

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Reality



"Reality" de Matteo Garrone começa com um plano geral sobre Nápoles e o Vesúvio, a câmara vai depois descendo em lenta panorâmica aérea até chegarmos a um casamento, ou melhor, a um casamento em ponto de festa. Começará  como acaba, em Luciano*, um peixeiro da Nápoles mais antiga: alegre, afectuoso, hiper-extrovertido, misto de chefe de família e animador de serviço - o que mal mal parado pode dar em bobo da corte, como se verá mais tarde. No casamento está Pepe, um vencedor do Big Brother italiano. Sendo isto igual em todo o lado, Pepe dedica-se às aparições em festas, casamentos e "eventos", enquanto rende o peixe, tentando escalar patamares e (ou) evitar o mais possível o esquecimento. Luciano, esse tem talento de sobra, diz a família, dizem amigos, vizinhos, conhecidos. E repetem e insistem tanto que acabam a puxá-lo para um casting em Roma, em plena Cinecittà  - pelos vistos na Itália inventada por Berlusconi os lendários estúdios podem também para servir isso... -  e depois é só esperar. Tudo certo então num mundo em que o que é preciso é acreditar e ter pensamento positivo - a ideia é never give up, como diz o tal Enzo vencedor. Luciano, à sua boa maneira, é o maior, e muito melhor que muito nabo vazio que é eleito para aqueles concursos, está só a um curto passo da fortuna, da fama, do reconhecimento, dos problemas financeiros. O trabalho como peixeiro perde aqui todo o sentido, há que vender a banca do peixe. Entramos, enfim, no âmago de "Reality". Luciano acredita tanto que está prestes a entrar "na casa" que é ele próprio que se torna o reality show, tragicamente mais real que o outro, mas isso é outra conversa. O que é preciso é acreditar, dar aos peritos o que é dos peritos. Ele ainda não foi chamado mas se vão entrar mais duas pessoas no concurso e andarão por aí avaliadores, porque não então aquelas duas senhoras com ar suspeito? É que as senhoras se denunciaram, não paravam de olhar e diziam que andavam à procura de alguém quando esse alguém não se sabe quem é nem nunca foi visto ali. Tinha de haver um propósito: ver in loco a futura estrela, confirmar que ele tem mesmo a tal banca de peixe como o disse nas audições. E se assim é para quê ser desagradável com o imprestável e inútil chato que ali anda sempre a pedir esmola e comida? Não, à cautela melhor mostrar-se a melhor das pessoas. Uma coisa leva à outra, a páginas tantas vai de dar os bens da casa, despojar-se de tudo, ser o benfeitor da comunidade para entrar como um herói no Grande Fratello. E nós que o vemos, constatamos o que todos já sabem: Luciano foi-se, ficou tão alienado que já não é o Luciano perante o mundo, mas o mundo perante Luciano. Perante Luciano, salvo seja, perante uma certa imagem de si próprio, ou melhor, uma certa imagem que quer projectar perante o mundo. Numa realidade em constante auto-projecção, a paranóia torna-se ainda mais efectiva na sua congruência implacável. Não fosse "Reality" uma comédia (dramática) tão bem esgalhada e veríamos com outros contornos aquele grilo que Luciano constatou que nunca tinha estado em sua casa, fazendo a nós e à sua pobre família imaginar que, porque não, poderá também haver ali uma câmara escondida. É aqui que o sonho, doentio (o sonho de entrar num Big Brother é um sonho doentio, não me lixem), invade finalmente e em toda a sua pujança a nossa frágil realidade. E já não há forma possível de se aceitar a realidade da derrota quando se tem toda a certeza da glória eminente. A negação ganha assim modos de sobrevivência. Pode até ser uma loucura temporária, passageira, um atordoamento sem grandes consequências. Uma alienação das sérias, um emparvecimento doentio mas passageiro, quando o “Big Brother” acabar isso passa,  dizem...
A comédia de “Reality” é muito mais que uma comédia, é um valente soco no estômago, mais, é um soco que hoje tem de ser dado. Não, não é o "Grande Fratello", mas sim o grande plano do rosto de Luciano o verdadeiro reality show. Sem tretas, nada de planos abertos, luzinhas de televisão e aparências estudadas ao pormenor, polidas ao extremo, impessoais e inofensivas como peixes num aquário. Matteo Garrone tem a coragem de mostrar sem dó nem piedade que só mesmo pela ausência de olhar e pensamento nos é possível esbanjarmos as horas do dia em frente a um ecrã para (vi)ver uma coisa daquelas. O que vale a Luciano é que todos tentam que regresse à realidade. Começa a trabalhar para uma igreja local. Mas é mais parece recaída de toxicodependente quando em Roma Luciano escapa à missa - não vemos o Papa mas imaginamos que esteja lá - para se escapar para Cinecittà. Não consegue resistir, qual toxicodependente às portas do Casal Ventoso. 
Se depois de finalmente conseguir entrar, e deixar-se filmar naquele enorme aquário simulado, acabou a rir a bandeiras despegadas não ficamos a saber porquê. Se era o riso dos loucos ou um riso de libertação isso já nos escapa. Já sem o dia claro, a bela Nápoles e o Vesúvio, mas antes com a noite e o frieza do betão de uns estúdios onde Fellini, entre outros génios, filmaram no passado grandes clássicos e obras-primas.A panorâmica faz então o movimento inverso. Se antes partimos do geral para o particular, no fim partimos do particular para o geral, bem mais próximos da realidade...  

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* - Na vida real a história é outra, o actor é o recluso Aniello Arena, antigo soldado da Camorra condenado a prisão perpétua. Vale de pouco entrar no lugar comum da surpresa de termos num preso para a vida numa interpretação daquelas. Interessa mais imaginar o outro actor que ele poderia ter sido. Aniello Arena é um actor imenso.

PS: Agora a editar isto descubro que o filme é baseado numa história verídica. Bem que eu escrevi que Luciano é que era a realidade. Mas, vá-lá, a banca do peixe foi readquirida.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Leonard Tarantino

É difícil encontrar autores tão aparentados como Elmore Leonard e Quentin Tarantino. Homens do "carácter", do personagem, onde o ponto de vista é a voz que comanda e avança e onde nem notamos quando tudo se resume a conversas, a um diálogo constante. Partindo da escrita o que acontece surge no seu processo, na sua própria descoberta. Para quê a "backstory" quando as melhores ideias nascem no (seu) momento? Um dos motivos porque Elmore Leonard recusou Hollywood - onde John Fante quase destruiu uma carreira, e F. Scott Fitzgerald se ajudou a desgraçar mais. - era porque não estava para isso. Quentin Tarantino é homem do cinema mas vai dando uns sinais ou ameaços de futura dedicação à escritaNuma entrevista em que ficamos a saber que os filmes que escreve são antes de tudo novelas prontas a sair ficando umas grossas fatias de lado na passagem para o (argumento) cinematográfico - um dia estarão cá fora, aposto. O propósito, óbvio, é o apanhar (d)a história, o beber da "poção mágica". De "Rum Punch" para o extraordinário "Jackie Brown" o processo pode ter sido o mesmo.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Outra vez o Opus Night

Uma das coisas boas de ter uma bicicleta estática em casa, além do exercício que passa num instante, é que me dou tempo para determinados programas que de outra forma não sei se via - canais História e Odisseia, Quadraturas do Círculo, achados da RTP Memória como o "Portugal no Século XX" e quando calha algum "Falatório" que apanhe a jeito. Quando calham bons escritores, e Clara Ferreira Alves os apanha bem, há poucas hipóteses para os outros programas. E se José Saramago é bom mas um pouco chato, já Mia Couto extravasa a chatice e é de apagar logo. O que não pode acontecer com um António Lobo Antunes, Dinis Machado, ou José Cardoso Pires, onde o nível é altíssimo, estupendo, maravilha. 
O melhor para mim, porque mais útil, é também dos meus portugueses favoritos, falo claro do grande José Cardoso Pires, e do bom que foi reviver com ele e a entrevistadora Sebastião Opus Night, a quem regresso agora, arranjado está um bom pretexto. Mas não há como não falar em Sebastião Opus Night. Não pela comédia de lágrimas aos olhos, não pela singularidade do tipo, mas porque aquele personagem existe mesmo. Ou se não existe , morreu há pouco tempo. E se morreu mesmo não terá sido no seu corpo físico mas no seu tempo, que se foi, que vai indo, que anda aos anos a acabar e espero que nunca acabe. Mesmo que não frequente, mesmo que apenas saiba que existe. Opus Night é, mais que um personagem, também uma certa noite de Lisboa, uma certa vivência, uma certa boémia, uns certos e determinados bares e apeadeiros. O Opus Night que conheci pintava o cabelo de muito preto achando que assim podia recuar pelo menos uns trinta anos. Até deixar de o ver. Já não frequento essa noite, na verdade nunca a frequentei, fui mais um turista ou repórter, uma espécie que as espécies já não se recordam, falta-me a pedalada, a fibra do navegador pelas tempestades da ressaca. Ao Opus Night vi-o a última vez a umas quatro da tarde ao lado do Elevador da Glória. Claro que não me reconheceu, nem a mim, nem se calhar a si próprio. Branco como a cal, um cabo das tormentas de homem, tão longe estava ainda de ultrapassar o Meridiano da Ressaca. Se tem verdade isso da Lisboa cidade branca, então ele estava mais branco que Lisboa. Vá que dali a umas horas, com a noite bem avançada e os uísques bem aviados, o Sebastião lá ganharia outra voz, alcançando o humor e a cor que o caracterizam. Ponto da viagem onde tardará até se tornar incongruente, chato, insolente e salazarento. Todo ele bem fixo em seu barco bêbado, cheio de ideias firmes e certezas sobre tudo e o que venha à rede. Com bife ou sem bife só whisky, pois a hora não era para misturas

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Winesburg, Ohio




Winesburg, Ohio tocou-me e de que maneira. Para tentar pôr as coisas em perspectiva devo dizer que ao nível do conto só lhe encontro paralelo em Chekhov. Mas Winesburg, Ohio não é só livro de contos, é também um romance, se calhar o mais apropriado é chamar-lhe romance de contos. O que não chega porque o que dele prevalece e predomina é o Conto. Independente na sua forma e estrutura, é ele que intervém e interdepende no universo ficcional da também ficcional Winesburg, no Estado do Ohio, no horizonte temporal que culmina na maturidade do personagem (alter-ego?) George Willard  e seu consequente pirar-se dali para fora. 
Winesburg, Ohio explora o conto na sua capacidade literária, tratamento dos meandros, no poder de síntese, nas suas valências descritivas e temporais. Mas também é romance no seu todo, no conjunto de todos os contos, qual super-ego a unificar toda a multitude criativa e formal em roda do personagem George Willard e das vidas que de uma forma ou de outra com ele intervieram naquele fim de mundo com pouco mais de mil habitantes e uma main street que termina na estação de comboios, ponto de partida e comunicação com o mundo daquele minúsculo lugar perdido no Midwest. O ultimo conto é disso o melhor exemplo: George Willard presta-se a partir - e todo o conjunto unifica-se num todo e os contos lidos mais se parecem com capítulos -, entretanto o comboio arranca, Winesburg para trás, pouca-terra, pouca-terra, uh uh, o leitor com pena de não poder continuar, George marimbando-se todo contente...

Winesburg é baseada na Camden natal de Sherwood Anderson. Em literatura esta cidade e suas cercanias são feitas da gente comum com seus dramas, tragédias, idiossincrasias, erros, azares, comédias*. Lembramo-nos de Chekhov no seu efeito de lente de aproximação ao ser humano, permitindo ler no mais banal dos sujeitos o heroísmo feito de luta surda e desenfreada; a riqueza humana paredes meias com a fatalidade e tragédia invisíveis. Realismo esse que é atenuado pela forte vertente alegórica do livro. Ou vice-versa, pois às vezes temos o alegórico limado por gente de carne e osso. Há quem veja aqui a influência do outro grande herói literário de Sherwood Anderson: Mark Twain.


* - o único conto propriamente cómico faz jackpot, tão estupidamente bom como os outros,  é de levar as lágrimas aos olhos.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Duas horas para Elmore Leonard


Levanto-me e antes de ter o café pronto já estou a escrever. Só o levo à boca se entrei dentro da história. O mundo virá depois, que espere. Duas horas para começar, dia sim, dia sim. É isso que conta. Preciso de escrever. Sem isso nada feito. Sem as duas horas de escrita ao acordar não estaria aqui hoje. Ajudou-me a que conseguisse fazer disto emprego e às três da tarde ainda me sobram três horas para escrever. Mas precisei de dez anos, das cinco da manhã às sete, antes de ter de ir ganhar a vida a escrever anúncios para a Chevrolet. Era uma chatice, um aborrecimento constante. As folhas escritas é que me afagavam o espírito. Enchiam-me de força, determinação, coragem. Pilhas e pilhas de folhas escritas. Oitenta e quatro rejeições, oitenta e cinco já não. Não há nada na vida como pegar num romance, ler umas passagens e ficar satisfeito, gostar do resultado. São quarenta e cinco livros que não me chateiam nada. E uns dez filmes entre o excelente e o péssimo. Não fossem aquelas duas horas e nunca poderia estar aqui agora a escrever-vos esta mensagem. Devo agradecer a todos os meus personagens. Também eles tiveram de se fazer à vida. Eu só os pus lá. Sempre foi assim, nas primeiras cem páginas faço-lhes um género de audição, eles que se mostrem, os que sabem falar entram; os que não falam ou não dizem de sua justiça, esses não têm hipótese, não se aguentam, ou os mato ou ficam poucas páginas, estão fora de qualquer maneira. Falando é melhor. Até porque o resto acontece. Eu só escrevo para saber o que acontece. Escrevo para mim. Se não sabiam ficam a saber. Uma vez criei um personagem chamado Frank Latisse e a acção passava-se em New Orleans e eu achava que por isso o nome vinha mesmo a calhar, mas o Frank não abria a boca e parecia demasiado velho, então mudei-lhe o nome para Jack Delaney, e o homem não se conseguia calar...

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Só temos perguntas

Nós temos perguntas, não temos respostas, ou quando sabemos a resposta Deus manda novas perguntas. Portanto a nossa vida é uma pergunta perpétua. O curioso nos livros é que são perguntas que trazem a resposta. Mas muitas vezes trazem a resposta às perguntas que não se fizeram.

António Lobo Antunes

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Das Arenas


A Arena, tal como o Dojo, mais que um lugar, é um conceito per se. Uma arena ou um dojo faz-se na hora, aqui agora na Praia das Furnas ou numa praceta da Rinchoa, não interessa, a ideia faz o espaço.  Pelas arenas tivemos as touradas de Hemingway e Orson Welles, corridas de cavalos de Charles Bukowski, o baseball de Paul Auster ou Don DeLillo e o boxe de Norman Mailer e Martin Scorsese. Lembro-me de ter visto ao vivo uma tourada em criança e de ter gostado daquilo, não me impressionou a crueldade sobre o touro, o tempo tornou-me mais "impressionável", para o bem e para o mal. Assim como no meio do sangue é esquecido a complexidade do movimento e o trabalho do toureio, muito mais foi perdido naquele espectáculo que marcou uma era. Falo na batalha naval no Lago Fucina promovida pelo Imperador Cláudio: Frota de Rodes contra Frota da Sicília, 19 mil lutadores em 24 navios de guerra e 26 barcos menores divididos  em 25 para cada lado. As colinas, ao redor do lago, formariam um lindo anfiteatro natural. O número de espectadores parecia mais de meio milhão que duzentos mil. Foram mais de três mil mortos e cinco mil baixas. Danos colaterais, que houve ali muito fair play e civismo a la romana,  e gente deve ter ido contente para casa depois de dez dias de suspense e festança...  
De outras arenas o grande Krassimir Balacov disse numa entrevista que o futebol era parecido com a vida. Devia ter uns quinze anos quando li isso e não percebi a ideia, bola era bola, a vida vidinha. Depois comecei a entender Na arena relvado isso da vida é muito trabalhado. É um bom dum laboratório para quem pensar nela. Temos a vida suspensa. A arena verde põe-nos na experiência: tem vezes em que somos mais tácticos e calculistas, outras gulosos e bola para a frente, outras somos mais defensivos, noutras temos pica e fúria, outras damos baile, outras é levar uma tareia, outras em que o árbitro nos rouba, outras em que fazemos fita, outras que damos cacetada, outras em que só levamos porrada, outras em que jogamos tudo, outras em que não fazemos uma. Para nosso bem, em frente à arena não podemos carregar na pausa, não existem repetições de lances nem imagens em grandes planos e diferentes ângulos, o que, acreditem, nos permite ver melhor. Tomamos parte do espectáculo, respiramos o mesmo ar, ouvimos os mesmos sons. É daí que aprendemos, que extraímos o sumo à experiência, o que Hemingway tirava das touradas para o romance seguinte, ou Charles Bukowski, das corridas de cavalos. O momento só nosso perante as forças do jogo, carimbos e decalques, pedaços de "vida verdadeira". Ninguém dará por isso, fará a associação, verá aquele combate de boxe no romance de amor, no romance de formação aquelas corridas de cavalos ou na novela policial o tal campeonato mal perdido. A verdade prefere o verdadeiro ao verídico. 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A liturgia deve ser entoada numa língua misteriosa


Ao menos a guerra, como o racismo, proporciona escolhas morais claras. Mesmo hoje, a maioria sabe o que pensa da acção militar ou do preconceito racial. Mas no palco da política económica, os cidadãos das democracias actuais aprenderam a ser demasiado modestos. Fomos avisados de que isso são assuntos para capitalistas: que a economia e as suas implicações políticas estão muito para além do entendimento do homem ou mulher comuns – um ponto de vista reforçado pela linguagem cada vez mais obscura e matemática da disciplina.
É improvável que muitos “leigos” questionem nessas matérias o ministro das finanças, on secretário do Tesouro ou os seus conselheiros especialistas. Se o fizessem, dir-lhes iam – à maneira de um padre medieval a aconselhar o seu rebanho – que isso são questões com as quais não precisam de se preocupar. A liturgia deve ser entoada numa língua misteriosa, só acessível aos iniciados. Para todos os demais, basta a fé.


Tony Judt, Um Tratado Sobre Os Nossos Actuais Descontentamentos, Edições 70 (2010)

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Mais Factotum


"Roll The Dice" parece encaixar no filme como o poema na saga do escritor. Dá a entender, faz o panorama: para o escritor a sério tudo é um teste. Um teste à escrita pois. O poema está lá, para além da bebida, das mulheres, dos empregos, dos pais, da fome, das pensões decrepitas. Não fosse assim, e Bukowski nunca poderia ter escrito tanto para aquilo que bebeu e se consumiu, muito menos teria vivido até aos 74 anos alimentado a álcool em excesso pelo menos desde os vintes. A bebida era ao mesmo tempo a armadura e uma ferramenta de trabalho, uma protecção e um propósito para. Não estava lá para o destruir, para se afogar nela. Nem de propósito distinguia bebedores amadores de bebedores profissionais, nem de propósito foi tão cruel a criticar a forma como se finou Malcolm Lowry, como que a dizer, claro está: beber não é para amadores. E "Roll The Dice" é um machete a dividir toda uma casta ao meio. Escritores pastosos, mesmo que de génio, mesmo que grandes escritores, não entram. 

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Factotum


Uma boa surpresa este "Factotum" do norueguês Bent Hamer. Não parti para o filme com grandes expectativas, confesso. Esperaria tanto ou quanto um género de "Barfly", talvez em melhor, talvez em pior. O filme de Barbet Shroeder não é mau, mas tem problemas. Caricatural, um tanto ou quanto inconsequente, indeciso, sempre para ali a apalpar terreno. Tenho para mim que Bukowski aceitou integrar o projecto mais como experiência que outra coisa, quem leia o romance "Hollywood" percebe isso, é lá que está o sumo todo de "Barfly" que não é mais do que todo o processo que rodeia o filme - a pré-produção, as decisões de quem entra e não entra, fica e não fica, o stress do realizador, o realizador contra o mundo, os amigos em redor, alguns para a vida como Sean Penn (no romance é Tom Pell), as excentricidades dos "artistas", as vaidades hollywoodescas, etc, etc. 
De qualquer modo, "Factotum" é o único filme em que temos verdadeiramente connosco um Henry Chinaski a sério sem clichés nem protótipos. Matt Dillon ajuda e muito. É outra surpresa. Com menos recursos que um Mickey Rourke, já para não falar de um Ben Gazzara que é de outro campeonato, Matt Dillon bate os outros dois aos pontos. Ele é Henry Chinaski, os outros são mais trejeitos, tentativas in progress. Dillon, ao invés, sabe compor e encarnar o personagem. No tom sóbrio, sério, meditabundo, no andar arrastado, na fala lenta, pausada, na ironia fina, no humor, no realismo sarcástico, no cepticismo avassalador. Leu a obra e estudou Charles Bukowski, isso salta logo à vista. O mesmo acontece com o argumento e o trabalho de realização, uma das provas disso é o encaixe perfeito de versos de poemas do autor em momentos certos para o efeito. "A poem is a city" ou "Roll the Dice" são disso exemplos. Sóbrio e consistente, "Factotum" é não apenas honesto como consegue também fazer cinema com um romance, o que é raro, basta pensar na quantidade de filmes falhados baseados em romances 
Nos créditos finais temos o nome da víuva do escritor, Linda Lee Bukowski e do editor, o tão estimado e decisivo amigo John Martin da Black Sparrow Press. Ignoro o peso que tenham tido no filme, mas sente-se aqui um reviver, um "matar saudades", algo que, distâncias à parte, só me lembro de ver em "Man On The Moon" de Milos Forman. Já me ia-me esquecer de uma estupenda Lili Taylor como Jane Cooney Baker, o primeiro grande amor do poeta, e de uma Marisa Tomei que basta ser Marisa Tomei, mesmo que por pouco tempo, para conseguir iluminar um filme. 


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Vício Inerente




Não sei porquê, sempre que leio, ou oiço, ou vejo Elmore Leonard – e não são poucas vezes porque o velho Dutch inspira-me sempre, mas isso é uma outra história, talvez para outra altura - apetece-me logo um cigarro. Eu que não sou fumador habitual há mais de dez anos, eu que na melhor das hipóteses só compro cigarros de vez em quando, por exemplo quando vou a Alvalade com o meu pai, ou quando saio à noite com amigos e cervejas. Mas pelos vistos não é só assim e com o Dickens de Detroit que me bate o formigueiro, há bocado a ver este fabuloso trailer da Penguin ao romance "Inhrent Vice" de Thomas Pynchon também me deu logo vontade de sacar um do bolso ou da gaveta. E ler o livro já agora. Anda a par com o vício a chamar de não sei onde. 


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A meia-luz do dia nublado


A luz não é o meio mais adequado para ver as coisas, mas para ver certas coisas. Agora, que está nublado, distingui da varanda um maior número de detalhes na paisagem do que nos dias de sol. Os dias soalheiros realçam determinados objectos em detrimento de outros, que deixam na sombra. A meia-luz do dia nublado põe todos no mesmo plano e tira da penumbra os esquecidos. Assim, certas inteligências medianas vêem o mundo com maior precisão e com maiores matizes do que as inteligências luminosas, que apenas vêem o essencial. 


Julio Ramón Ribeyro,  Prosas Apátridas, tradução de Tiago Szabo, Edições Ahab


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Última Novidade: Adeus


Sem clichés que o sustentem, o último dia da Terra será muito do dia de hoje, deste "eterno presente" em que parecemos viver de notícia em notícia e de novidade em novidade sem que olhemos com olhos de ver o que se está realmente a passar. Primeiro distraídos, depois surpreendidos pelos acontecimentos, depois apanhados na curva. Em "4:44 O Último Dia na Terra", Abel Ferrara tenta retratar um possível fim do mundo com uma lucidez despojada de trejeitos e uma visão incisiva deste tempo em que indiferentes vemos o mundo a piorar a olhos vistos num encolher de ombros. Ferrara é sarcástico com a nossa indiferença, com a atitude do deixa andar, e sincera ou deliberadamente, não consegue ver bem como que é as coisas seriam muito diferentes no último dia na Terra. Realisticamente imagina cada um com o seu enredo, os mais sensatos ou humanos na companhia dos (mais) próximos, outros em em pânico, outros em negação, um que se mata, outro que partilha um naco de carne com o cão, outra que se quer enrolar, outros que se enrolam, outros muitos suspensos no Skype para as derradeiras despedidas. Como o distribuidor de comida chinesa ao domicilio que pede só que o deixem lá ir para despedir-se da família no Vietname, e pela câmara e pelo ecrã conseguimos ver todos eles, três ou quatro ou mais, encafuados sobre o computador. 
Há quem escreva que com  "4:44 O Último Dia na Terra" é a despedida de Ferrara de um mundo seu que já não existe. Não há como desmentir. Sempre é mais elegante escrever isso do que sobre aquilo que a obra trata realmente. Algo bem mais importante que toda uma possível conjectura de pose artística ou lá o que for que soe bem numa crítica. Será Abel Ferrara um ser humano tão diferente de muitos de nós que enquanto usam e abusam da internet se assustam e angustiam com todos os seus perigos e devaneios? Será Abel Ferrara um ser humano assim tão cínico que não tenha dito sobre este filme que "the bottom line in this film is about men's destruction of the earth as a metaphor of man's destruction of themselves, (...) it's on us, it´is our responsibility, it's we did it, this is an act of men, so everybody in this film, every character, has to face it."  
"4:44é um grande filme como "The Funeral", "Bad Lieutenant", ou "The King of New York" são também grandes filmes, cada um à sua sua maneira. Este tem a particularidade de ser o mais lúcido de todos, e talvez o mais necessário e urgente, arrisco até dizer obrigatório. Ferrara diz que só se fica melhor com a idade . Por ele aposto que sim. 

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Nem com o sol-posto




Os mitos ganham raízes fundas. Escrevas o que escreveres, haverá sempre alguém pronto a ousar as interpretações mais descabeladas, a encontrar códigos ocultos na letra. É a mesma lógica das teorias de conspiração. Sicrano morreu. Oh, meu Deus! De certeza que há um culpado. Quando o gajo caiu para o lado sozinho. A verdadeira seiva de uma boa teoria da conspiração está justamente no facto de ser impossível descobrir a verdade; é a falta de provas que a mantem fresca. Quem é que pode saber se eu fiz realmente uma transfusão total de sangue? Que provas é que podem apoiar essa tese? Ou, sendo ela falsa, quantos desmentidos meus é que a conseguirão deitar por terra? Zero, no primeiro caso; nem mil no segundo. 
(...)
Dirigia-me á Suiça, para uma desintoxicação na clínica, e tive de fazer escala em Heathrow. Mais uma vez, lá veio o batalhão da prostituição jornalística: «Keith, só uma pergunta...»Ao que lhes respondi: «Foda-se, calem-se! Vou mudar de sangue.» Zás, mais nada. E entro no avião. Depois disso, parece que a história passou a fazer parte das Sagradas Escrituras. Só disse aquilo para desnortear os gajos. Mas da fama nunca mais me livrei. 
(...)
A tua imagem, a tua persona, como lhe costumavam chamar, é uma espécie de grilhão. As pessoas ainda me julgam um pobre de um agarrado, apesar de já ter deixado a droga há trinta anos! A tua imagem projecta uma longa sombra que não desaparece nem com o sol-posto.


Keith Richards (com James Fox), "Life" (2010), Tradução José Luís Costa, Theoria (2011) 


domingo, 1 de julho de 2012

Roll and rock


Sem que sequer nos dêmos conta, há algo de primordial no modo como reagimos a uma pulsação. Toda a nossa existência é governada por um ritmo de setenta e duas batidas por minuto. Se o comboio teve um papel tão importante para os músicos de blues, não foi só por lhes permitir viajar do Delta até Detroit; foi sobretudo pelo ritmo das locomotivas e das próprias linhas: mudavas de linha, mudavas de ritmo. É como um eco do que se passa no interior do corpo humano. Mesmo que venha de uma máquina, de um comboio, a percepção que o teu corpo tem disso é de natureza musical. O corpo humano é capaz de sentir ritmos até onde eles não existem. Ouçam Mistery Train do Elvis Presley: um dos maiores temas de rock and roll de sempre, sem um único instrumento de percussão. O ritmo é apenas sugerido; o corpo trata do resto. Não é preciso torná-lo explícito. Julgo que as pessoas se enganam quando falam de rock and roll. Não tem nada a ver com rock, tem tudo a ver com roll.

Keith Richards (com James Fox), "Life (2010), Tradução José Luís Costa, Theoria (2011) 

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Salut, John Fante


"A cozinha. La cucina. A pátria de uma verdadeira mãe, a cave quente da bruxa boa, bem no fundo das terras ermas da solidão com potes de suaves porções a borbulhar ao lume. Uma caverna de ervas mágicas, rosmadinho, tomilho, salva e oregãos, que devolvem o juízo aos lunáticos, paz aos atormentados, alegria aos desgraçados. Todo um mundo numa divisão: por altar a banca da cozinha, por círculo mágico a toalha do xadrez onde comem as crianças, as crianças já velhas, de volta agora ao princípio de tudo, com o sabor do leite da mãe ainda presente nas suas recordações, com o aroma das narinas e os olhos a brilhar. Um mundo perverso recua lá fora enquanto a velha bruxa recolhe a ninhadas do alcance dos lobos. "

"Depois aconteceu. Numa noite em que a chuva batia no telhado da cozinha, um grande espírito entrou para sempre na minha vida. Tinha o livro nas mãos e tremia enquanto ele me falava do Homem e do mundo, do amor e da sabedoria, da dor e da culpa e eu soube, naquela altura, que nunca mais seria o mesmo. O espírito chamava-se Fyodor Mikhaylovich Dostoyevsky. Ele percebia mais de pais e filhos do que qualquer outra pessoa do mundo, e de irmãos e irmãs, padres e vagabundos, culpa e inocência. O Dostoyesky mudou-me. O Idiota, Os Possessos, Os Irmãos Karamazov, O Jogador. Virou-me do avesso. Descobri que podia respirar e ver horizontes até então invisíveis. O ódio que eu sentia pelo meu pai derreteu. Eu amava o meu pai, aquele pobre, sofredor, um destroço assombrado. E amava a minha mãe também. E todo o resto da família."

John Fante, "A Confraria do Vinho", (1977), Tradução de Luís Ruivo , Teorema, Junho 2007 

Ray Bradbury (1920 - 2012)


We have our Arts so we won’t die of Truth.” 


sexta-feira, 25 de maio de 2012

Forever Young




Parando em Neil Young não se pensa em frases como aquela de Philip Roth: "old age is a massacre". Neil Young parece não o sentir, permanece jovem, no espirito, na essência, na frescura, na capacidade de experimentar coisas novas. E pondo-se sempre e constantemente em causa, como fazia quando começou, e como continuou a fazer em mais de 40 anos de carreira. Agora com aquelas doses de acrescento que só o saber, a consistência e a substancia de muita experiência acumulada sabem trazer. Se calhar é por isso que figuras como Neil Young, Bob Dylan, Bruce Springsteen ou Tom Waits envelhecem tão bem. Mesmo que quando fossem novos já soassem melhor e mais velhos do que a idade que tinham.