domingo, 3 de fevereiro de 2019





«Madrid, Madrid; qué bien tu nombre suena,
rompeolas de todas las Españas!
La tierra se desgarra, el cielo truena,
tú sonríes con plomo en las entrañas»

(António Machado)


quinta-feira, 31 de janeiro de 2019






Lontano por Rui A. Pereira, a partir de Praia Lontano.

Assinado e numerado. 

Na livraria Círculo das Letras, Rua da Voz do Operário, 62. 



quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

128.


PICOS DE EUROPA

Montanhas que falam que cantam alto
Alto aos céus
Olhando-as de baixo, erguidas
A estender o princípio
Em trechos de tempo
Um segundo de mil anos
Repetido a cada momento
Estamos colados ao eterno
De ali acercam-se os deuses 
As montanhas são o templo
A igreja mais alta
Se os deuses têm forma de gente 
As montanhas impõem o temor certo
Sem a medida da inspiração
Não nos distinguiremos da areia
De um relógio 
Agora é connosco
Um trilho especial
A curva-contra-curva,  um túnel de auto-estrada 
A luz-contra-luz-nasce-luz-corta-luz-contra-luz
E Deus fala numa voz tão alta que não conseguimos ouvir
E tardará muito pouco até que revigoremos cidade.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

127.

As chegadas aos hotéis, às pensões e às estalagens das cidades que não conhecemos marcam um antes e um depois. São o ponto de passagem, o primeiro concreto contacto, a primeira mediação naquela particular atmosfera urbana. Por maior que tenha sido o trânsito, por mais que tivéssemos sido mergulhados no caos urbano. É a partir dali, do balcão do check-in que é dado o verdadeiro tiro de partida. Chegamos à outra viagem, se nos propusermos verdadeiramente a isso. Ali, precisamente, onde retornaremos antes de levarmos as malas já com a substância da experiência no organismo, na tela geral da vida. De onde, enfim, libertaremos a energia definitiva sob a forma de experiência adquirida. 

126.


Quanta obscuridade temos de  iluminar
Tanto a quanta luz temos de protelar 
Por cautela
Para não nos ofuscarmos
Para não sermos apanhados 
Desprevenidos 
Devíamos fazer um esforço maior afim de purgar
Do corpo o veneno reactivo
Se todo o perigo existe
Apenas reforça a lei
Da superação interior
Para uma química de superação
A paz necessita ser exercitada. 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

LEI SECA




Tomará o seu tempo, mas já estivemos mais longe do dia em que serão legalizadas todas as drogas por não haver outro caminho, se chegarmos lá vivos. A loucura, essa, nunca será maior que apanhados como este, um sample da coisa, vá-lá, servido em dose de entretenimento, nem podia ser de outra maneira... 


OSSO CIENTÍFICO

- Agora seriamente acreditas que finalmente terás direito à transcendência: foi descoberta a fórmula, ficou provado cientificamente. Agora, finalmente, já podes circular a essa dimensão superior graças e tudo graças ao método cientifico. Foi tudo cientificamente atestado, não há mais nada com que te preocupares. Como? Não existe «essa coisa da transcendência»? 

...



«Se depois de atingir o estado de Buda, alguém no meu país
         for lançado na prisão por vagabundagem, que eu não 
         atinja a mais alta e perfeita iluminação.

         patos selvagens no pomar
         geada na relva nova 


«Se depois de atingir o estado de Buda, alguém no meu país
         perder um dedo a engatar vagões de carga, que eu não
         atinja a mais alta e perfeita iluminação.

        olho de água alvoroça-se
        sacudida pela rédea
        ferraduras brilhantes escouceiam
        artelhos trémulos: rocha  esquiva  abaixo


«Se depois de atingir o estado de Buda, alguém no meu país
         não conseguir apanhar uma boleia em todas as direcções
         que eu não atinja a mais alta e perfeita iluminação

        rochas molhadas zumbindo
        chuva e trovejo a sudoeste
        cabelo, barba, zumbindo
        vento  chicoteia  pernas nuas
        devíamos voltar
        não voltamos.



Gary Snyder  "Antologia da Novíssima Poesia Norte Americana", tradução Manuel Seabra, Editorial Futura,1973

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

COSMOPOL


Sebastopol, Interpol, Hotelopol? Levou-me tempo até chegar ao nome: Cosmopol, Hotel Cosmopol. Mesmo que no fundo, no fundo tenha mesmo um pouco de Sebastopol e Interpol, coisas de um verdadeiro Hotelopol. Dos anos 70 nascido, puído, apetrechado por um ex-KGB foragido ao comunismo caído aqui quase em frente da costa da Grã-Bretanha, 007 piscando também um olho a John Le Carré todo o décor a isso adverte a quem não seja analfabeto aos sinais mais ou menos explícitos à simbologia discreta ou descarada ao olho do emblema da espionagem.  O mármore salmão do soalho, as paredes desse amarelo que se não tem vida também não traz angústia... a alcatifas finas de há trinta anos, os candeeiros entre  Estoril Sol e o Galeto, o lettering Nasa 1969, à espera do verão mas cobrando o mesmo... Querem mais o quê? Está-se frente ao mar onde Carlos I de Espanha desembarcava quando vinha das campanhas da Flandres. Além do mar e da paisagem serem aqui reserva natural de um verde irlandês e o mar azul vivo ainda precisamos dar largas à imaginação do quadro. Dia de sol a zero graus, os quartos cobertos de vidro, um gelo de cortar a respiração, estamos na Cantábria, Praia de Laredo, se é para gozar o tempo, também é preciso sofrê-lo. Se crêem que não é tudo pensado desçam ao café com a banda sonora de Casablanca alternando com música de elevador, volume no quatro para manter a gravitas à temperatura certa., a dar-nos um valente empurrão se nos pusermos a pensar, os azuis de rigor, os castiçais discretos e afirmativos, o espaço à dimensão ângular correcta a dar à frieza a vertigem certa. Não vi ninguém até decidi sentar-me com este caderno com que escrevo agora, casaco bem fechado, cachecol bem apertado até vir alguém e eu poder finalmente beber um café quando se calhar o que devia ser era uma aguardente. A atender-me a mesma senhora de há duas horas no pequeno almoço também gelado, e elegante, e delicioso. Enfim, já me obrigo a pensar melhor no que andava a fazer este único e genial cineasta finlandês a fazer em Helsinquia há uns anos atrás. Europa bem medida, pelo menos por agora, Aki Kaurismaki não vive assim tão longe daqui. De Viana do Castelo a Tavira ficamos todos muito contentes em saber que está nos seus planos filmar em Vigo, de Tui a Ferrol também. Outra boa ideia era filmar aqui, seis horas de carro bastavam. Ficaria bastante surpreendido com esta luz diurna. É quem nem Le Havre com um acrescento noir, claro que estou num desses  lugares onde mal entramos ficamos cientes que daqui ainda vamos parar a outro universo. Não é suficientemente bizarro para um David Lynch mas é suficientemente baço para que de uma Cantábria nos elevemos a uma Escandinávia...






quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

125.


Nada como ler agora Gary Snyder 
Aproximar-me da natureza das palavras
Já era tempo de lembrar a natureza do rio
De todos os rios
Longe do mar de todos os mares
Pelo acordo das terras
Esse caminho de dentro
Onde o grito pode ser um riso
Onde a abóbada estende o eco
Da voz a cerimónia
Desde a primeira fala à impressão 
Da primeira palavra impressa
Só são precisas duas coisas: atenção e calma
Dizia Mestre Stobbaerts
A minha parte, digo eu
É toda igual a todos os demais
Depois da tempestade a calma
A paz depois da guerra
É preciso trabalhar o corpo
É preciso ler o signo
Do Quixote primeiro
Aproximar a fala do tempo
Combinar o presente e o passado
Ver se se entendem se combinam
Se podem eventualmente serem grandes amigos
Fora isso, a Natureza definitivamente precisa
Ser traduzida
Transmutada em conceito
De liberdade e impermanência
Selvagem, onde nos nutrimos 


Em nome de todas as existências
Quanta obscuridade temos de estar constantemente a iluminar
Quanta luz temos de protelar por cautela
Para não nos ofuscarmos
Para não sermos apanhados
Desprevenidos
Pelo que bem espera 
Doses de disciplina, humor
E exercício físico serão preciso
Purguemos nosso veneno reactivo
Se o perigo existe
Reforça a lei
Da superação interior
A paz necessita ser exercitada
Constante em espírito como em físico
A química criadora é de uma segunda natureza. 

quinta-feira, 1 de novembro de 2018




Billie Holiday e Louis Armstrong e Tom Waits e Leonard Cohen. Depois também Pink Floyd e Dire Straits e King Crimson (“Moonchild”, nem por acaso). O locutor não sei se bebia pouco, se bebia muito, se sequer bebia, sua voz, porém, trazia o decoro do whisky aliado à pujança contida de algum cowboy solitário. Forte e encorpada, mas ao mesmo tempo terna e discreta quanto baste para se exibir pouco, para deixar para no(s) ar(es) o(s) subentendido(s). Não dar nas vistas e ao mesmo tempo inebriar esse ouvinte desconhecido da noite. Partilha de solidão, não solidão de partilha. Sim, há uma poesia da rádio. Poesia que pode nem sequer ser poema. Pode ser voz, música, apenas som, só a noite na Terra. Como um bom vinho que ampara a insónia mais profunda, que não adormeça o incauto, mas também não o desperte por aí além, mantendo-o alerta nalgum automóvel de qualquer longínqua estrada ou auto-estrada. Também aqui trago a infância a ouvir rádio da noite nas viagens de carro com meu pai, ou já na adolescência, numa tenda a acampar ouvindo o rádio-gravador Sanyo cercado pela caruma dos pinheiros abrigado na suave textura de um saco cama. Lembrar-me e pensar que a rádio, o grande problema da rádio, é mesmo, só mesmo, o esquecer-se de si própria. É o que acontece com tantas emissões diárias, a maioria, já nada de rádio têm, até ao dia em que todas as memórias se apaguem. Nisto a noite ainda é a última barreira, a guarda pretoriana, o último refúgio, seu porto de abrigo das tempestades, estalagem perdida na Antártida, abrigada zona de recolha e silêncio, onde uma voz no ar ainda nos pode servir de farol pelo oceano da noite.


domingo, 28 de outubro de 2018

124.


O QUE É IMPORTANTE AGORA É A DEMOCRACIA BRASILEIRA


Trabalhos contínuos na central
Tarefas técnicas
Computadores ligados
A difundir energia eléctrica
Fios da Península Ibérica
Até ao candeeiro 
À minha mesinha de cabeceira
A dar luz branca 
Sobre a página lêem palavras sobre redes
Niall Fergusson a tocar esse preciso ponto
Afinal não é assim tão complicada
A matéria da flexibilidade e rigidez
O que de um momento para o outro se pode virar
Ao contrário, todos nós dependemos dos sistemas
Em como nos organizamos ou somos organizados
Ou como a pausa na leitura me põe de frente à televisão sem som
A certeza que aquele sujeito cheio de poses com uma guitarra
E uma t-shirt que diz Brooklin traz a idiotia bem chapada
Agradeço-lhe a graça de não ouvi-lo - espero que para sempre...
Ainda pensei que era o intervalo do longo debate do canal La Sexta
Já é tarde
Daqui a meia hora vamos ter mais uma hora de premeio
A ver se vira vitória
De Haddad.

domingo, 7 de outubro de 2018

LIBRARÍA PEDREIRA




       Meus livros Estrada dos Prazeres e Praia Lontano já se encontram em Santiago de Compostela. 
                Na Libraría Pedreira - Rúa do Home Santo, 55: https://www.librariapedreira.com/



terça-feira, 2 de outubro de 2018

Helena Almeida - Dentro de mim - Mecânica Quântica





Aqui a simplicidade 
Exprime a mecânica quântica
Só por si demasiado complexa para nomear
A palavra simples
Nossa redenção pode ficar ao alcance de um simples golpe de asa
Cuidando que um golpe de asa não é um golpe com a asa
Conseguindo-o em movimento, mais que uma transcendência,
É o alcance da Segunda Natureza
Chega sempre a alguma parte, a algum lugar
Lugar que é lugar 
Suspende o outro
Sobrepõe-se, é o mesmo.







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A exposição, derradeira, pode ser vista em Madrid, na Galeria Helga de Alvear




segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Helena Almeida - Dentro de mim - A Chuva





Os pés da chuva
Preta branca cinza
Vestida de viúva
Aos quatro elementos
Mas o brilho do espaço
É o reflexo da água
Sobre a terra
Já sabemos que o ar é frio
E que o fogo aqui é a matéria da restituição
Tudo o que deve perdurar
Na memória de um fotograma
À comoção de um Inverno
Da cidade a cada dia mais árida
Pathos cinematográfico
Pictórico além-carácter
A molécula ao pormenor
O microscópio para captar
O que no entanto esta lá
Lente medida ao respeito do traço
Da chuva que nos marca
A memória liquida





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A última exposição de Helena Almeida, a derradeira, pode ser vista em Madrid na Galeria Helga de Alvear.

sábado, 22 de setembro de 2018

       




“The world is like a ride in an amusement park, and when you choose to go on it you think it's real because that's how powerful our minds are. The ride goes up and down, around and around, it has thrills and chills, and it's very brightly colored, and it's very loud, and it's fun for a while. Many people have been on the ride a long time, and they begin to wonder, "Hey, is this real, or is this just a ride?" And other people have remembered, and they come back to us and say, "Hey, don't worry; don't be afraid, ever, because this is just a ride." And we … kill those people. "Shut him up! I've got a lot invested in this ride, shut him up! Look at my furrows of worry, look at my big bank account, and my family. This has to be real." It's just a ride. But we always kill the good guys who try and tell us that, you ever notice that? And let the demons run amok … But it doesn't matter, because it's just a ride. And we can change it any time we want. It's only a choice. No effort, no work, no job, no savings of money. Just a simple choice, right now, between fear and love. The eyes of fear want you to put bigger locks on your doors, buy guns, close yourself off. The eyes of love instead see all of us as one. Here's what we can do to change the world, right now, to a better ride. Take all that money we spend on weapons and defenses each year and instead spend it feeding and clothing and educating the poor of the world, which it would pay for many times over, not one human being excluded, and we could explore space, together, both inner and outer, forever, in peace.”