Sebastopol, Interpol, Hotelopol? Levou-me tempo até chegar ao nome: Cosmopol, Hotel Cosmopol. Mesmo que no fundo, no fundo tenha mesmo um pouco de Sebastopol e
Interpol, coisas de um verdadeiro Hotelopol. Dos anos 70 nascido, puído,
apetrechado por um ex-KGB foragido ao comunismo caído aqui quase em frente da
costa da Grã-Bretanha, 007 piscando também um olho a John Le Carré todo o décor
a isso adverte a quem não seja analfabeto aos sinais mais ou menos
explícitos à simbologia discreta ou descarada ao olho do emblema da
espionagem. O mármore salmão do soalho, as paredes desse amarelo que se
não tem vida também não traz angústia... a alcatifas finas de há trinta anos,
os candeeiros entre Estoril Sol e o Galeto, o lettering Nasa 1969, à espera
do verão mas cobrando o mesmo... Querem mais o quê? Está-se frente ao mar onde
Carlos I de Espanha desembarcava quando vinha das campanhas da Flandres. Além
do mar e da paisagem serem aqui reserva natural de um verde irlandês e o mar
azul vivo ainda precisamos dar largas à imaginação do quadro. Dia de sol a zero
graus, os quartos cobertos de vidro, um gelo de cortar a respiração, estamos na
Cantábria, Praia de Laredo, se é para gozar o tempo, também é preciso sofrê-lo. Se crêem que não é tudo
pensado desçam ao café com a banda sonora de Casablanca alternando com música
de elevador, volume no quatro para manter a gravitas à temperatura certa., a
dar-nos um valente empurrão se nos pusermos a pensar, os azuis de rigor, os
castiçais discretos e afirmativos, o espaço à dimensão ângular correcta a dar à
frieza a vertigem certa. Não vi ninguém até decidi sentar-me com este caderno
com que escrevo agora, casaco bem fechado, cachecol bem apertado até vir alguém
e eu poder finalmente beber um café quando se calhar o que devia ser era uma
aguardente. A atender-me a mesma senhora de há duas horas no pequeno almoço
também gelado, e elegante, e delicioso. Enfim, já me obrigo a pensar melhor no
que andava a fazer este único e genial cineasta finlandês a fazer em Helsinquia
há uns anos atrás. Europa bem medida, pelo menos por agora, Aki Kaurismaki não
vive assim tão longe daqui. De Viana do Castelo a Tavira ficamos todos muito
contentes em saber que está nos seus planos filmar em Vigo, de Tui a Ferrol
também. Outra boa ideia era filmar aqui, seis horas de carro bastavam. Ficaria
bastante surpreendido com esta luz diurna. É quem nem Le Havre com um
acrescento noir, claro que estou num desses lugares onde mal entramos
ficamos cientes que daqui ainda vamos parar a outro universo. Não é suficientemente
bizarro para um David Lynch mas é suficientemente baço para que de uma
Cantábria nos elevemos a uma Escandinávia...

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