sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

COSMOPOL


Sebastopol, Interpol, Hotelopol? Levou-me tempo até chegar ao nome: Cosmopol, Hotel Cosmopol. Mesmo que no fundo, no fundo tenha mesmo um pouco de Sebastopol e Interpol, coisas de um verdadeiro Hotelopol. Dos anos 70 nascido, puído, apetrechado por um ex-KGB foragido ao comunismo caído aqui quase em frente da costa da Grã-Bretanha, 007 piscando também um olho a John Le Carré todo o décor a isso adverte a quem não seja analfabeto aos sinais mais ou menos explícitos à simbologia discreta ou descarada ao olho do emblema da espionagem.  O mármore salmão do soalho, as paredes desse amarelo que se não tem vida também não traz angústia... a alcatifas finas de há trinta anos, os candeeiros entre  Estoril Sol e o Galeto, o lettering Nasa 1969, à espera do verão mas cobrando o mesmo... Querem mais o quê? Está-se frente ao mar onde Carlos I de Espanha desembarcava quando vinha das campanhas da Flandres. Além do mar e da paisagem serem aqui reserva natural de um verde irlandês e o mar azul vivo ainda precisamos dar largas à imaginação do quadro. Dia de sol a zero graus, os quartos cobertos de vidro, um gelo de cortar a respiração, estamos na Cantábria, Praia de Laredo, se é para gozar o tempo, também é preciso sofrê-lo. Se crêem que não é tudo pensado desçam ao café com a banda sonora de Casablanca alternando com música de elevador, volume no quatro para manter a gravitas à temperatura certa., a dar-nos um valente empurrão se nos pusermos a pensar, os azuis de rigor, os castiçais discretos e afirmativos, o espaço à dimensão ângular correcta a dar à frieza a vertigem certa. Não vi ninguém até decidi sentar-me com este caderno com que escrevo agora, casaco bem fechado, cachecol bem apertado até vir alguém e eu poder finalmente beber um café quando se calhar o que devia ser era uma aguardente. A atender-me a mesma senhora de há duas horas no pequeno almoço também gelado, e elegante, e delicioso. Enfim, já me obrigo a pensar melhor no que andava a fazer este único e genial cineasta finlandês a fazer em Helsinquia há uns anos atrás. Europa bem medida, pelo menos por agora, Aki Kaurismaki não vive assim tão longe daqui. De Viana do Castelo a Tavira ficamos todos muito contentes em saber que está nos seus planos filmar em Vigo, de Tui a Ferrol também. Outra boa ideia era filmar aqui, seis horas de carro bastavam. Ficaria bastante surpreendido com esta luz diurna. É quem nem Le Havre com um acrescento noir, claro que estou num desses  lugares onde mal entramos ficamos cientes que daqui ainda vamos parar a outro universo. Não é suficientemente bizarro para um David Lynch mas é suficientemente baço para que de uma Cantábria nos elevemos a uma Escandinávia...






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