quinta-feira, 29 de março de 2018




Este ponto de vista não é um ponto de vista. Não está no seu ponto de vista. É um ponto com vista, sim, uma vista com vários pontos. Mesmo à minha frente, tropical, a pequenina praia, ninguém,só eu mesmo neste improviso de esplanada com duas mesas, um Porto Tónico, uma caneta, o caderno onde escrevo, e centenas de pássaros exóticos escondidos em árvores por companhia, em cantos que eu nunca tinha ouvido, nem imaginava sequer que existiam. Não, este ponto de vista não é um ponto de vista. A beleza de nada vale quando apenas é sentida como um incómodo. Indiferente. Podia estar na mais lúgubre das cidades, no mais lúgubre dos subúrbios da Terra, num bairro de lata, numa lixeira. Sentiria o mesmo. Disso já fiquei com toda a certeza. Toda a beleza deste paraíso agora não passa de um atoleiro. Sentir-me assim para além da morte – tantas vezes penso: antes morresse – não deixa de constituir uma morte lenta por lenta asfixia – se assim não é, assim o sinto. Constatar que nunca respirei na vida oxigénio tão puro e faltar-me o ar. E se não há viver sem respirar, não existe respiração fora dela. Só desespero, desespero mais puro que o próprio ar, o mais puro desespero... Salve-se a ironia, uma ironia cruel, uma ironia que me sabe morder a cada instante, insaciável piranha. Se é para acabar comigo de uma vez por todas, siga la banda, atente-se no nome  deste mar: Oceano Pacífico. Pudesse eu sequer rir de mim próprio. Oceano Pacífico, ilha, resort exclusivo, recursos ilimitados, até ao fim da vida, que maravilha, quem dera, viver aqui neste exílio.... Viver para sempre, antes que acabe, não é? Antes acabar de uma vez por todas, é o que é. Torturar-me assim nesta saudade, veneno a corroer-me as entranhas, bactéria da minha aniquilação. Esta falta da minha Aurora é um morrer que nunca mais acaba.

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