quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Piegas, só podem

As pessoas começaram a ir aos descampados onde cresciam as ervas. Tinham aprendido que algumas das ervas podiam ser cozinhadas e comidas. Havia porrada em todo o lado. Andavam todos zangados. (…) Havia pessoas a falar de segundas e terceiras hipotecas. Uma vez à noite o meu pai chegou a casa com um braço partido e os dois olhos negros. A minha mãe tinha algures um emprego mal pago. E cada garoto do bairro tinha um par de calças para domingo e outro par de calças para os outros dias da semana. Quando os sapatos se gastavam não havia outros. Nas lojas vendiam-se solas e saltos a 15 ou 20 cêntimos incluindo a cola, e eles eram colados aos sapatos velhos. Os pais do Gene tinham um galo e algumas galinhas no quintal das traseiras, e se alguma das galinhas não punha ovos suficientes eles comiam-na.
Quanto a mim, era o mesmo – na escola, com o Chuck, o Gene e o Eddie. Não só os adultos se tinham tornado piores, os garotos também, e até os animais. Era como se imitassem as pessoas.


Charles Bukowski,  Ham On Rye (Pão com Fiambre), tradução de Manuel A. Domingos, Ulisseia, 2010, p. 106