quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Luíz "Puta Que os Paríu" Pacheco


"Puta Que os Pariu" são 545 páginas que se lêem rápida e compulsivamente. A biografia de Luíz Pacheco por João Pedro George tem força, pujança, domínio, esclarecimento, estilo. Prolonga-nos a vida do escritor e por acrescento dá-nos um eloquente apanhado do Portugal dos últimos setenta anos do século XX. É uma leitura que não se larga. Um prazer que se prolonga além do esperado. Mesmo que as expectativas já venham altas quando se compra o livro. 
Disposto em nove longos capítulos, cada um com a sua história para contar. A infância, os pais, a escola, as mulheres, os filhos, os amigos, as casas, as pensões pelintras, o álcool, o cravanço constante, as prisões e hospitais, o Pacheco escritor, o Pacheco editor, o Pacheco crítico, as polémicas literárias, a fama e reconhecimento na década de noventa, os últimos anos em lares de terceira idade. Peças que em conjunto ou separadas parecem funcionar um pouco como as bonecas Matrioshka russas. Sendo a literatura a cara que se encontra em todas elas, unindo-as e separando. Com todas as dificuldades inerentes à difícil subsistência apenas da escrita, com os seus textos, artigos, edições e traduções pagos no limiar da subsistência. E a falta de tempo, de espaço, a fome, a bebida, a prole para sustentar, a impossibilidade de realizar um trabalho mais planificado, atempado, deixando as grandes páginas escritas não para um romance ou novela mas em contos dispersos, cartas, diários, artigos, polémicas literárias. Tudo submetido a um mesmo projecto: esfumar as fronteiras entre o literário e o quotidiano. Onde está inevitavelmente metido o país atrasado, as amizades e inimizades, as zangas, a hipocrisia do meio literário, os compadrios, os amiguismos. Luíz Pacheco trás muito sumo  a uma biografia. Muita vida vivida e sofrida. Viver no fio da navalha, como um verdadeiro maldito, pareceram dar à sua escrita coragem, acutilância, eficácia, autoridade, audácia. Uma literatura mãos dadas com o Pacheco personagem: "Não se cativa pelo choradeira, mas pelo humor". Sem garantias de ordem alguma, nem certezas, mas com uma força vital, um caminho. Que nunca se sabe realmente qual é. Provavelmente porque se a premissa da vida não estivesse escondida, não conseguiríamos fazer nada com ela.